THE DELAGOA BAY WORLD

10/11/2020

JOÃO DE SOUSA, 1947-2020

Filed under: João de Sousa - jornalista — ABM @ 01:24

Faleceu no dia 26 de Outubro de 2020 em Maputo o jornalista e personalidade da rádio, João de Sousa. Tinha 73 anos de idade e deixa mulher e penso que dois filhos.

Em jovem, assisti ao surgimento e rápida ascenção do então jovem João de Sousa na rádio de Lourenço Marques, resultante da sua voz serena e aveludada, dicção quase perfeita e presença. Depressa fez disso a tónica da sua carreira. Por volta de 1974, quando ocorreu a brusca mudança de regime, ele, que já era um figura conhecida em quase todo o Moçambique, alinhou pelo nascente regime da Frelimo e, navegando por entre os pingos da chuva (de que destaco a sua divertidíssima versão de como foi quase raptado” durante os nefastos eventos do 7 de Setembro de 1974, presumo que como forma de não ser ostracizado pela ditadura da Frelimo) prosseguiu a sua carreira dentro do possível, chegando a ser administrador da Rádio Moçambique, que entretanto se tornou no canal privilegiado da propaganda do regime até aparecer a concorrente TVM (concorrente, durante anos, apenas nas poucas cidades onde o sinal da televisão aparecia).

Afirmando-se nacionalista, João fazia questão de criticar o regime anterior, o que era – e é – demasiadamente fácil, mas coibia-se de comentar tudo o que se seguiu, o que, aliás, se calhar era como teria que ser. Ainda assim, afirmar que ele foi descriminado por não ser branco no tempo colonial é, penso, um pouco hiperbólico. Eu acho que não. Mas ele lá sabia.

Nos quase quarenta anos que se seguiram a 1974, João valorizou como pôde o que se foi fazendo em Moçambique, emprestando a sua qualidade profissional ao mesmo tempo que omitindo o passado que havia testemunhado, até se reformar da Rádio Moçambique, altura em que, presumo que para se manter ocupado, começou a escrever umas crónicas simpáticas e interessantes em que (afinal) referia o notório passado desportivo e as personalidades que o fizeram e com quem conviveu de perto. Muitos que se lembravam dele antes da Independência, quase todos hoje pelo menos sexagenários e vivendo fora de Moçambique, liam essas crónicas com prazer e até saudade – ou saudosismo. Frequentemente, copiava fotografias dos meus blogues de Moçambique para ilustrar o que dizia.

Penso que nunca mais falámos desde a minha infância.

Nas emissões que a Rádio Moçambique o deixou fazer até finalmente lhe cortarem algo abruptamente o último programa que ainda produzia, há poucos anos, ainda o ouvi algumas vezes. A mesma voz suave e aveludada, a mesma presença, a mesma qualidade de sempre.

João de Sousa “entrevistado” pelo meu Pai em Lourenço Marques, década de 1960. O meu Pai sempre se referiu ao João com enorme afecto.

João faleceu cedo demais, infelizmente.

À sua Família, desejo que guardem as mesmas boas memórias que retenho dele.

Aspecto do velório de João de Sousa no antigo Parque José Cabral. Imagem a preto e branco colorida por mim.

07/10/2020

CIGARROS NILOS, DA SOCIEDADE ULTRAMARINA DE TABACOS

Filed under: Cigarros Nilos da SUT, Soc. Ultramarina de Tabacos — ABM @ 15:33

Imagens retocadas.

Os Nilos eram uma marca de cigarros comercializados em Moçambique pela Sociedade Ultramarina de Tabacos, Limitada.

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A PISCINA DOS VELHOS COLONOS EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 50

Imagem retocada.

Em primeiro plano a piscina da Associação dos Velhos Colonos de Moçambique. A Associação ocupava todo o quarteirão, incluindo um salão de festas, a piscina, campos de ténis, um lar e um parque infantil.

LOCOMOTIVA EM LOURENÇO MARQUES, 1967

Imagem retocada.

Uma locomotiva dos Caminhos de Ferro de Moçambique deixa a estação ferroviária de Lourenço Marques, 1967.

O CAIS GORJÃO, DÉCADA DE 1920

Imagens retocadas.

O porto e a linha de caminho de ferro foram a razão de ser comercial de Lourenço Marques a partir da segunda metade do Século XIX.

O porto de passageiros, mais ou menos em frente à Praça 7 de Março (hoje, 25 de Junho).
O Cais Jordão, concluído cerca de 1903 sobre a Baía e situado na ponta de um enorme aterro feito a partir da praia situada mesmo atrás da Rua Araújo (hoje do Bagamoio) e que passou a permitir o acostamento dos navios directamente, facilitando o embarque e desembarque de passageiros e carga e com ligação directa às linhas de caminho de ferro. Foi uma revolução.
O cais, visto do Capitania Building, mesmo em frente à Praça 7 de Março (hoje, 25 de Junho). Tudo o que se vê daqui foi aterrado, originalmente a praia ficava situada onde estão as árvores à direita em baixo. À esquerda, o relógio eléctrico com a hora oficial, dirigido directamente a partir do Observatório Campos Rodrigues, junto ao Hotel Polana, por um cabo eléctrico.
Aspecto do Cais Gorjão, vendo-se um vaso de guerra atracado..
Mesmo a Poente do Caís Gorjão, fica situada a estação e o complexo ferroviário a que estava directamente ligado pelo espaço à direita, aqui já com a nova gare, concluído cerca de 1917.

 

04/10/2020

DC-3 DA INTEROCEAN

Filed under: DC-3 da Interocean, Interocean — ABM @ 21:28

Imagem retocada.

A Interocean foi uma companhia de fretes aéreos baseada em Moçambique. Segundo um sítio especializado, operou entre 1968 e 2000.

O C9-ATG da Interocean.

O HOTEL ZAMBEZE EM TETE, ANOS 60

Filed under: Hotel Zambeze - Tete 1960s, Tete - Hotel Zambeze — ABM @ 21:27

Imagem retocada.

O BAZAR DE LOURENÇO MARQUES, INÍCIO DO SÉC. XX

Imagens retocadas, as segunda e terceira imagens são ampliações da primeira imagem, do interior do Bazar.

 

1 de 5.

 

2 de 5.

 

3 de 5.

 

4 de 5.

 

5 de 5. O complexo que se pode ver atrás do Bazar é a Compagnie Generále d’Electricité de Lourenço Marques, que produzia electricidade para a Cidade.

A REPÚBLICA SUL-AFRICANA (TRANSVAAL)

Filed under: A República Sul Africana antes e agora — ABM @ 21:25

Imagens retocadas.

A República Sul Africana, fundada pelos Boers e internacionalmente reconhecida, existiu entre 1852 e 1902, quando foi tornada numa colónia britânica, a seguir à derrota numa guerra com o Reino Unido. O território, então já com o nome de Transvaal (“para além do Rio Vaal”) foi uma província da União da África do Sul entre 1910 e 1961 e depois da República da África do Sul entre 1961 e 1994, altura em que foi (mais ou menos) repartida entre as actuais províncias de Free State, Gauteng, Mpumalanga, Limpopo e Northwest (ver mapa em baixo).

 

O brasão de armas da República Sul-Africana (RAS), também conhecida por Transvaal..
Mapa mostrando a RAS e do Estado Livre de Orange, aquando da 2ª Guerra Anglo-Boer. À direita, vê-se o extremo Sul da Colónia portuguesa de Moçambique. Mostra ainda a Suazilândia como fazendo parte da RAS, o que de facto (mais ou menos) aconteceu durante um curto periodo. Por oposição dos portugueses, as fronteiras do Transvaal ficaram delimitadas a oriente pela colónia portuguesa de Moçambique. Por influência de Cecil Rhodes, a fronteira a Norte ficou delimitada pelo território da British South Africa Company, mais tarde conhecida como Rodésia do Sul e que constitui o actual Zimababué. As duas figuras à direita são o Presidente Kruger e o General Joubert, figuras cimeiras do conflito com o Reino Unido entre 1899-1902.

A repartição administrativa da actual República da África do Sul, desde 27 de Abril de 1994, altura em que houve eleições livres e com voto universal. A fronteira com Moçambique, negociada com os portugueses ainda no tempo do Transvaal Boer permaneceu intocada. Moçambique ascendeu ao estatuto de nação independente em 25 de Junho de 1975,



Carroça de bois boer, desmontável, que os sucessivos grupos de boers usaram na sua migração para Norte a partir da Colónia Britânica do Cabo e que fazem parte da mitologia fundacional boer.
Descrição detalhada de uma carroça de bois dos boers. Em afrikaans.

03/10/2020

ISQUEIRO PUBLICITÁRIO DA CERVEJA MAC-MAHON, 1960’S

Filed under: Isqueiro da Cerveja 2M — ABM @ 19:18

Imagem retocada.

 

Isqueiro 2M.

RÁDIO-AMADORA LÚCIA SANTOS TOMÉ, 1954

Filed under: Lúcia Santos Tomé Rádio-operadora — ABM @ 19:16

Imagens retocadas.

 

Postal de confirmação de recepção da rádio-amadora da Beira, Lúcia Santos Tomé, 1954. Aqui, indica ao rádioamador W8JJW, situado algures nos Estados Unidos da América, ter escutado a sua emissão às 20:20 horas GMT do dia 27 de Março de 1954, na frequência de 14.000 Mhz em onda curta. Todos os rádioamadores que operavam em Moçambique tinham um número de identificação que começava com CR7. O de Lúcia era CR7LU.

 

Lúcia na sua sala de rádio. Obteve a sua licença de rádio-amador em 1952 e era uma popular YLRO (Young Lady Radio Operator), trabalhava nos CTT da Beira e quando não se estava a divertir a comunicar com outros operadores em todo o mundo, mantinha as comunicações com as aeronaves na região. Durante os anos, ganhou os prémios DXCC, WBE, WGSA e BERTA.

TÁXI GIRLS EM LOURENÇO MARQUES, 1933

Filed under: Táxi Girls de LM 1933 — ABM @ 19:13

Imagem retocada e colorida por mim.

 

Quatro Táxi Girls em Lourenço Marques, 1933. Estas mulheres trabalhavam nos casinos e dancing halls de Lourenço Marques, em que dançavam com um homem que pagasse um bilhete uma dança.

DUAS LOCOMOTIVAS DOS CAMINHOS DE FERRO DE MOÇAMBIQUE NA SUAZILÂNDIA, 1970

Imagem retocada.

Sidvokodvo é uma cidadezinha no centro de Eswatini (o novo nome da Suazilândia) situada ao sul de Manzini. Para o visitante, o local digamos que é pouco atraente. Em tempos, era a base que abrigava os equipamentos ferroviários do pequeno reino suázi. Mas a tracção a vapor foi abandonada há muito tempo. A área da estação está agora totalmente vedada e é utilizada para a reparação de carruagens.

Duas locomotivas dos Caminhos de Ferro de Moçambique saem de Sidvokodvo, na Suazilândia, puxando uma longa linha de vagões de carga, 1970. A primeira locomotiva, CFM 251, foi construída pela Henschel & Sohn.

LOCOMOTIVA DOS CAMINHOS DE FERRO DE MOÇAMBIQUE NO LUMBO, 1969

Imagem retocada.

 

A locomotiva Nº814 dos Caminhos de Ferro de Moçambique, uma  Henschel 19909-1925, no Lumbo, perto da Ilha de Moçambique, na  linha Nacala-Nampula, 1969.

DUAS LOCOMOTIVAS DOS CAMINHOS DE FERRO DE MOÇAMBIQUE NA SUAZILÂNDIA, 1970

Filed under: Uncategorized — ABM @ 19:08

Imagem retocada.

 

Duas locomotivas dos Caminhos de Ferro de Moçambique, a primeira a Nº 471, estacionadas na estação ferroviária de Sidvokodvo, na Suazilândia, 1970. Construída na Bulawayo Workshops em 1954.

19/09/2020

LOCOMOTIVA DOS CAMINHOS DE FERRO DE MOÇAMBIQUE EM KOMATIPOORT, 1969

Imagem retocada.

 

A locomotiva Nº200 dos Caminhos de Ferro de Moçambique passa no Vale do Crocodile River perto da fronteira sul-africana de Komatipoort, 1969. Foi a primeira locomotiva deste tipo construída nos Estados Unidos da América pela Baldwin.

LOCOMOTIVA 704 DOS CAMINHOS DE FERRO DE MOÇAMBIQUE NA MACHAVA, 1967

Imagem retocada.

 

Locomotiva Nº704 dos Caminhos de Ferro de Moçambique puxa vagões de carga perto da Machava, Julho de 1967. Foi construída pela empresa canadiana Montreal Locomotive Works.

O HOTEL AVIZ EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 1950

Filed under: Hotel Aviz - LM, LM Hotel Aviz — ABM @ 00:30

Imagens retocadas e pintadas.

Penso que Hotel Aviz ainda existe, ainda que sob outro nome e gestão. Localizado na esquina das Ruas Brito Camacho e Princesa
Patrícia, no extremo da Maxaquene, perto da zona onde a estrada para a Polana começa a descer para a Baixa, o edifício parece ser um exemplo do estilo Art Deco, que, por razões que desconheço, teve um tão grande e tão prolongado impacto na Cidade (sei lá, se calhar os locais gostavam do estilo).

Os hotéis em Lourenço Marques tendiam a ser tanto para os visitantes como para os residentes, a maior parte operando bons restaurantes, bares e discotecas e zonas de dança com música a que chamavam Boites. Nos anos 50, o Aviz teve a primeira boite com ar-condicionado da Cidade.

Pessoalmente, nunca entrei num hotel em Lourenço Marques enquanto lá vivi antes de 1975.

A fachada do hotel. Ao fundo, onde se vê o telhado vermelho era o Clube dos Lisboetas. A meio, fora de ista, operava uma estação de serviço. Mais abaixo na rua do lado esquerdo ficava o Hotel Girassol.

O bar.

A Boite.

Quarto singulares.

Sala de estar de quarto de luxo.

11/09/2020

LOCOMOTIVA Nº6 DOS CAMINHOS DE FERRO DE MOÇAMBIQUE, 1969

Imagem retocada.

 

A locomotiva Nº6 dos Caminhos de Ferro de Moçambique, que usava madeira, em Inhambane, 1969. Originalmente construída pela St. Leonard em Liége, França.

A SENA SUGAR ESTATES E LOCOMOTIVAS NO LUABO E EM MARROMEU, 1969

Imagem retocada.

 

Locomotiva Nº20 da Sena Sugar Estates, de bitola estreita, alimentada por madeira, junto da fábrica de processamento no Luabo, 1969.

 

Locomotiva Nº24 da Sena Sugar Estates, de bitola estreita, a levar cana de açúcar para a fábrica de processamento em Marromeu, 1969. A locomotiva foi construída pela Peckett & Sons em Bristol, Reino Unido, entre 1949 e 1957.

Sobre a Sena Sugar Estates

A Sena Sugar Estates Ltd. foi uma empresa agro-industrial dedicada à produção de açúcar, inicialmente formada com recurso a capitais maioritariamente britânicos, à qual foram atribuídas pela Companhia de Moçambique concessões de terras para o cultivo de açúcar em Luabo e Marromeu, perto da foz do rio Zambeze, e ainda uma grande plantação de copra junto de Chinde.

Escritório da Sena Sugar Estates.

Criada em 1920, resultou da fusão de várias companhias açucareiras, nomeadamente, da Companhia do Assucar de Moçambique (fundada em 1890 por John Peter Hornung e outros investidores), Companhia Açucareira da África Oriental – 1904, e da The Sena Sugar Factory – 1910.

John Peter Hornung (1872-1940). Filho de pai rico, ficou zilionário com o seu investimento na Sena Sugar e viveu a vida como um rei, em Sussex, no Reino Unido.

Não sei bem o que aconteceu à Sena Sugar Estates quando a Frelimo tomou conta de Moçambique. Provavelmente os então donos levaram um 24/20 e uns camaradas locais e daqueles países inicialmente “amigos” devem ter tentado gerir a coisa, presumo que sem grande sucesso. Um documento refere que o complexo de seguida foi severamente afectado pela guerra civil. Parece que o que restou da empresa em Moçambique, e que soa ser uma sombra do passado, foi reactivada em 2007 com o nome de Companhia de Sena. Não percebo se é detida por capitais das Ilhas Maurícias ou brasileiros e ainda se as coisas estão a correr bem ou mal. É um mistério.

10/09/2020

HORÁRIO E TARIFÁRIO DA DETA, JANEIRO-MARÇO DE 1960

Imagens retocadas.

Capa do folheto.

 

2 de 3. Ligações: Lourenço Marques, João Belo, Inhambane, Vilanculos, Mambone, Beira, Marromeu, Quelimane, Vila Pery, Mutarara, Tete, Vila Coutinho, António Ennes, Nampula, Lumbo, Porto Amélia e Mocímboa da Praia.

 

3 de 3. Tarifário e percursos internacionais: Johannesburg, Durban e Salisbury-

COMBOIO DOS CFM A CAMINHO DA SUÁZILÂNDIA, ANOS 1970

Imagem retocada.

 

Comboio dos Caminhos de Ferro de Moçambique Nº707- classe 482, levando vagões de carga vazios, deslocando-se de Lourenço Marques para a Mina Ka Dake, na Suazilândia, para carregar minério de ferro e trazê-lo de volta para o porto moçambicano. Anos 70.

09/09/2020

A MIGRAÇÃO DE LOUIS TREGARDT, 1835-1838

Imagem retocada. Texto adaptado do texto publicado aqui, vastamente editado.

O mapa do êxodo do grupo de Louis Tregardt da Colónia do Cabo para o Norte é indicado em roxo e acaba na actual Cidade de Maputo, assinalada no mapa como Delagoa Bay.

Introdução

A migração de alguns grupos de farmeiros boer a partir da Colónia britânica do Cabo entre 1830-1854, acabando por forjar a identidade afrikaner e fundar três repúblicas boer entre aquela colónia e o que é hoje o Sul de Moçambique, foi um dos eventos seminais que dominariam a história da região nos quase 150 anos que se seguiram, com a particularidade de não ter sido uma colonização patrocinada por uma potência europeia. De facto precedeu-a em cerca de 50 anos. Pelo contrário, a migração dos boers do Cabo para Norte, foi uma reacção anti-colonial em relação à Grã-Bretanha e eventualmente levou a várias guerras entre boers e ingleses e, já no Século XX, a um recrudescimento e exaltação da identidade, da religião e do nacionalismo boer, mesmo dentro de um contexto colonial britânico, que eventualmente desembocou na eleição de uma coligação pró-boer em 1948 (que praticamente coincidiu com a inauguração, no ano seguinte, do Monumento Voortekker, nos arredores de Pretória, que exaltava ) na emanação da legislação conhecida como apartheid durante a governação do Dr. Verwoerd (assassinado por um activista nascido em Lourenço Marques em 1966) e na constituição da República da África do Sul em 1961 sob o controlo da minoria boer.

O Monumento em memória dos Voortrekkers, nos arredores de Pretória. Inaugurado em 1949, celebra a identidade boer e a sua história. Vale a pena visitar pois ajuda a entender um pouco melhor a história da África do Sul.

Até 1994, a maioria negra sul-africana era discriminada e estava legalmente impedida de participar na governação do país. Os boers só negociaram a mudança para a maioria negra após a queda do comunismo sovético, a partir de 1989 e após um longo período de resistência.

Hoje é demasiadamente fácil, e até considerado politicamente correcto, descontar o fenómeno boer e inscrevê-lo na categoria geral da dominação colonial europeia no continente africano. Na África do Sul, decorre uma verdadeira batalha para rever e apagar partes dessa história, nalguns casos justificadamente, noutros não. Este é um problema que só pode ser resolvido pelos sul-africanos.

Em baixo, refiro a viagem, relativamente mal sucedida, de uma dessas migrações, a do grupo de Louis Tregardt, por quatro razões.

A primeira, é que a expedição Tregardt acabou em Lourenço Marques em 1838, com a morte de Tregardt, da sua mulher e dos últimos sobreviventes.

A segunda é que, por um conjunto de razões, pela mão do historiador Alfredo Pereira de Lima, em 1968 foi inaugurado em Lourenço Marques um monumento evocativo de Tregardt e da sua expedição, junto ao local onde se situava o primeiro cemitério da então pequena localidade, onde foram sepultados os restos mortais do “pioneiro” boer. Esse monumento permanece intacto na Baixa de Maputo, e pode ser visitado.

A terceira razão é que, improvavelmente, Tregardt terá sido o único líder de uma migração boer que manteve um diário no qual que registou o dia-a-dia dessa migração. Retrata um mundo que, quase duzentos anos mais tarde, é quase incompreesnsível para as gerações actuais.

Finalmente, destaca o impacto significativo que os eventos da África do Sul, que permanece o “vizinho gigante” de Moçambique, tiveram na evolução do que se tornou numa colónia portuguesa e depois na República de Moçambique em 1975 e ainda nos anos seguintes.

A Migração Tregardt

Louis Johannes Tregardt (10 de agosto de 1783 – 25 de outubro de 1838), também escrito Trichardt, foi um agricultor de ascendência holandesa-huguenote (que foram os primeiros colonos brancos no Cabo, a partir da década de 1650) oriundo da fronteira oriental da Colónia do Cabo, que mais tarde se tornou um dos primeiros líderes da série de migrações Boer (chamados, no original afrikaans, “voortrekkers” ou “trekkers”), ocorrida a partir de meados da década de 1830, em resultado da rejeição, por estes, da Pax Britânica.

Procurando evitar a que consideravam a odiada autoridade na Colónia britânica do Cabo, tomada pelo Reino Unido no decurso das guerras napoleónicas, Tregardt emigrou do Cabo em 1834 para ir viver entre os Xhosa, antes de cruzar o rio Orange, entrando assim, em território considerado “neutro”, isto é, fora da alçada da Colónia do Cabo e do império britânico.

A sua jornada para o norte, junto com um companheiro boer chamado Johannes van Rensburg, começou no início de 1836. Trechardt liderou um pequeno grupo de emigrantes, composto por oito fazendeiros bôeres, as suas esposas, um total de 34 filhos, alguns escravos bosquímanos (africanos originários da zona do Cabo), vários servos bantus (que à primeira oportunidade pisgaram-se), e o seu gado, dirigindo-se em nove carroças puxadas por bois para o interior numa direcção para Nordeste do Cabo, para uma região até então inexplorada (pelos europeus) e que hoje compõe mais ou menos a parte da África do Sul junto à fronteira a Nordeste, encostada a Moçambique e ao Zimbabué.

Durante um ano, o grupo ficou mais ou menos acampado numa base nessa zona a que chamaram Zoutpansberg.
Neste ponto mais ao norte do que acabaria por a ser a sua longa jornada, as condições insalubres e um clima de guerra tribal, começaram a afectar homens e animais. Aparentemente abandonado por uma caminhada posterior, e distante de locais onde podia obter suprimentos e encontrar compradores para o seu marfim (que era de onde vinha o dinheiro) Tregardt abandonou o acampamento e conduziu o seu grupo para sudeste, até eventualmente chegar ao pequeno Presídio de Lourenço Marques, na altura uma espécie de posto avançado português, constituído uns cinquenta anos antes numa língua de terra na parte Norte da Baía do Espírito Santo, a que os britânicos chamavam Delagoa Bay.

A passagem de Tregardt por estas regiões coincidiu com uma altura de enorme efervescência social e violência política africana, com guerras terríveis, secas persistentes e migrações tribais.

A rota seguida para chegarem até ao oceano provou ser muito mais árdua de percorrer e incluiu o desafio de atravessar uma seçcão ao Norte da cadeia montanhosa dos Drakensberg. Apesar de eventualmente ter chegado ao Presídio de Lourenço Marques, vários de seus companheiros contraíram malária e morreram pelo caminho. A esposa de Tregardt morreu junto do Presídio de Lourenço Marques em Maio de 1838, seguida pelo próprio Tregardt seis meses mais tarde.

Tregardt coordenou os seus movimentos com os do seu amigo e também Voortrekker, Hendrik Potgieter, que era suposto seguir o seu percurso. Tregardt começou a jornada para o norte e foi acompanhado pelo grupo de Johannes (Hans) van Rensburg. Tregardt e Van Rensburg foram os primeiros Voortrekkers a passar perto de Thaba Nchu, onde a tribo Barolong do chefe Moroka II residia.

Ao chegar a Strydpoortberg, na actual província sul-africana de Limpopo, Tregardt e Van Rensburg separaram-se, depois de Tregardt ter argumentado que Van Rensburg estava a desperdiçar as suas munições na caça aos elefantes para obter marfim (presumivelmente, em vez de para proteger o seu grupo). Van Rensburg e o seu grupo de quarenta e nove pessoas seriam chacinados em Junho de 1836, por uma milícia de Soshangane (ou Manicuse, o lendário líder do império de Gaza, então no seu zénite), junto de um braço do rio Limpopo, após um ataque nocturno.

Tregardt permaneceu no promontório ocidental de Zoutpansberg entre Maio e Agosto de 1836, onde foi visitado pelo grupo de Potgieter, que lhe garantiu que logo o alcançariam e se juntariam ao seu grupo. Potgieter partiu então para o Norte à procura de Van Rensburg, que não encontrou. Em Julho, Tregardt iniciou a busca na direção leste e alcançou o curral de Sakana no Limpopo, perto de onde o grupo de Van Rensburg foi provavelmente dizimado. Aqui, considerando estar em perigo e prestes a cair numa cilada das populações locais, Tregardt decidiu voltar para trás, quase certo do destino trágico de Van Rensburg.

Em Novembro de 1836, Tregardt mudou o seu acampamento para Leste, onde encontrara um clima mais agradável, nas proximidades da, mais tarde, cidade de Schoemansdal e Louis Trichardt, outrora conhecida pelas tribos locais como Dzanani. O seu grupo permaneceria ali até Junho de 1837. Ali construíram casas rudimentares, uma oficina e uma escola para vinte e uma crianças.

Foi aqui que Tregardt teria intervindo na luta pela sucessão entre os filhos dum falecido chefe local, Mpofu. Tregardt teria ajudado seu filho Rasethau (ou seja, Ramabulana) a chegar à chefia da sua tribo, derrotando o seu irmão mais novo, Ramavhoya. Por razões desconhecidas, as páginas do relato de Tregardt sobre este incidente específico foram, no entanto, arrancadas do diário que mantinha. Em resultado deste apoio, e para proteger Tregardt contra grupos de assalto dos Matabele, Rasethau deu a Tregardt liberdade para ocupar algumas terras e garantiu-lhe o acesso a áreas de caça. Na altura, o grupo de Potgieter, atrasado por conflitos mais ao sul, estava distante.

Entre Junho e Agosto de 1837, o grupo de Tregardt acampou a leste do rio Doorn (actual fazenda do rio Doorn), e em seguida partiu de Zoutpansberg para tentar encontrar uma nova base e uma rota comercial para chegar ao mar. As suas comunicações esporádicas com os portugueses em Lourenço Marques indicavam que seria bem-vindo e ainda que a costa leste era escassamente povoada.

Tregardt decidiu rumar ao sul da Baía do Espírito Santo, evitando a região do Limpopo, onde o grupo de Van Rensburg fora assassinado e onde as moscas tsé-tsé eram endémicas nas zonas mais baixas. Tregardt chegou ao rio Olifants via Chuniespoort em 2 de outubro de 1837 e consultou o chefe Sekwati do povo Pedi quanto a que caminho deveria seguir. O chefe Sekwati visitou o grupo de forma cordial e amigável e avisou que a rota para o leste estava obstruída por montanhas intransitáveis, e sugeriu que eles deixassem as suas carroças para trás e prosseguissem a pé. Tregardt, agora com 54 anos, no entanto, estava decidido a cruzar as montanhas com as suas carroças, mesmo que elas tivessem que ser desmontadas e transportadas individualmente em peças.

O grupo de Tregardt procedeu a fazer o seu próprio reconhecimento das encostas cada vez mais acidentadas que circundam o Olifants e encontrou uma encosta transitável que conduzia ao cume, depois de se ter que cruzar o Olifants várias vezes. Os vagões, às vezes parcialmente desmontados e arrastados sobre galhos, foram levados até à crista dos Drakensberg , uma empreitada que levou dois meses e meio a completar.

Uma vez acampado na zona mais baixa do outro lado dos Drakensberg, (“Lowveld”) eles encontraram os habitantes locais, os Sekororo. Durante o dia, eles eram presenteados com potes de cerveja marula pela tribo Sekororo, mas à noite os membros da mesma tribo roubavam repetidamente o seu gado. Sem encontrar outra maneira de recuperar das suas perdas e de forma a evitar ter mais delitos com os Sekororo, Tregardt recorreu a aprisionar alguns membros da tribo e usá-los como reféns.

A etapa final de trezentos quilómetros da jornada para a Lourenço Marques começou em 5 de fevereiro de 1838, e o rio Olifants foi atravessado pela 14ª e última vez. Aqui, os súbditos Sekororo, sob a égide de Ngotshipana, vieram-se desculpar e conseguiram garantir a libertação dos quatro reféns, presenteando Tregardt com duas grandes presas de elefante. As tribos para além do rio Blyde garantiram a Tregardt as suas boas intenções, e a velha chefe Mosali pediu a Tregardt para arbitrar uma disputa com seu o rival, Magupe. Uma tribo local também auxiliou o grupo a atravessar uma parte do percurso. Os rios Klaserie e Sand foram atravessados em sucessão, e a região que integra actualmente a parte central do Parque Nacional Kruger foi atravessada sem incidentes. A leste da cordilheira dos Montes Lebombo, encontraram várias aldeias do povo Gwamba. Todos os seus habitantes eram amigáveis; eles e seu chefe, Makodelana, ofereceram a Tregardt vários presentes.

O grupo alcançou o rio Incomáti cerca de dois meses depois do início da jornada no (mais tarde chamado) Lowveld. Foi difícil cruzar o rio e vários dos animais foram perdidos ou roubados durante a travessia. Mais tarde passaram por um posto avançado português e continuaram ao longo de pântanos, lagoas e aldeias de tribos costeiras, até chegarem ao pequeno e miserável Presídio de Lourenço Marques, no dia 13 de Abril de 1838.

Cinco anos antes, o Presídio fora atacado e completamente destruído por tribos locais.

Louis Tregardt faleceria em Lourenço Marques a 25 de Outubro de 1838.

O Monumento Memorial Louis Tregardt na Baixa de Maputo, a dois quarteirões da Praça da Independência, junto ao local do primeiro cemitério de Lourenço Marques (que na verdade ficava sob o prédio que está à esquerda. Enfim) onde Tregardt, a sua mulher e alguns companheiros foram sepultados.

Como referi, Tregardt teve a particulardiade de ter sido o único líder Voortrekker a manter um registo escrito diário da sua jornada, um precioso documento em termos de linguística e etnologia, para além das suas muitas observações sobre os padrões climáticos, a geografia, a vida selvagem do interior e o mundo que encontrou. O documento, que, de alguma forma, sobreviveu a longa e penosa saga do grupo e a própria morte de Tregardt, detalha as suas reflexões pessoais sobre as interações sociais e experiências do dia a dia da sua pequena comunidade, escrito numa forma de holandês corrupto que evoluiria para a actual língua dos boers, o afrikaans.

A cidade sul-africana de Trichardtsdorp foi assim nomeada em sua homenagem em 1899, assinalando sua estada de um ano na base do Zoutpansberg. Em Mpumalanga, uma cidade chamada Trichardt está situada ao longo da sua rota para o Norte. Como um pouco por toda a África do Sul, mas nestes casos ainda mais, decorre há alguns anos uma verdadeira “batalha toponímica” para se alterarem os nomes das localidades para designações não boer, o que dava para escrever um artigo separado.

Boa sorte aos envolvidos. A verdade é que mudar nomes não muda a história do que aconteceu. Mas se alguns dormirem melhor à noite por causa disso, tanto melhor.

08/09/2020

PAUL KRUGER – BREVE ESBOÇO BIOGRÁFICO

Imagens retocadas.

Este é um breve esboço da vida de Paul Kruger, baseado num resumo que encontrei, e ilustrativo do impacto dos britânicos e do boers na história do Sul de África, com consequências para o que é, actualmente, Moçambique.

Parte da estátua evocativa de Paul Kruger, no centro da Church Square, uma praça situada no centro de Pretória. Por causa da guerra, a estátua esteve apeada durante anos num armazém no porto de Lourenço Marques, até ser finalmente levada para Pretória, onde por enquanto permanece.

Primeiros anos de vida

Stephanus Johannes Paulus Kruger nasceu em 10 de outubro de 1825 na fazenda do seu avô, Bulhoek Steyn, no distrito de Steynsburg (nomeado a partir do seu apelido), no Cabo Oriental, e cresceu na fazenda Vaalbank. Em toda a sua vida, ele só teria três meses de educação formal, o que não obstou a uma longa carreira política. Vaalbank era uma área agrícola acidentada, onde o jovem Paul aprendeu muito sobre a natureza. Quando a Grande Jornada dos Boers para Norte (o “Great Trek”) começou em 1836, para escaparem à soberania britânica, imposta na Colónia do Cabo desde o início do século XIX, o pai de Kruger, Casper Kruger, juntou-se ao grupo do “pioneiro” boer Hendrik Potgieter e a família Kruger mudou-se para o que mais tarde ficou conhecido como o Transvaal, com o objectivo de ali estabelecer um estado independente.

O pai de Paul Kruger decidiu estabelecer-se numa área hoje conhecida como Rustenburg. Por sua vez, Paul teve o direito de obter uma fazenda para si, tendo escolhido uma propriedade situada na base das montanhas de Magaliesberg onde se estabeleceu em 1841, com 16 anos de idade. Um ano mais tarde, casou-se com Maria du Plessis e o casal mudou-se para o Transvaal Oriental, junto à fronteira com o que é hoje o Sul de Moçambique.
Paul Kruger e sua pequena família voltaram mais tarde para Rustenburg e a esposa de Kruger e seu filho pequeno morreram logo a seguir, presume-se que devido à malária, endémica na região. Paul Kruger casou em seguida com Gezina du Plessis, de quem teve sete filhas e nove filhos e que morreria em 1901. Muitos dos filhos de Kruger morreram na infância.

Kruger surge como líder

Eventualmente, as fortes qualidades de liderança de Paul Kruger começaram a tornarem-se aparentes, primeiro com a sua nomeação para o cargo de Comandante-Geral da então República da África do Sul, mais tarde conhecido como Transvaal e depois quando ele foi nomeado membro de uma comissão do Volksraad, o Parlamento, que tinha a tarefa de redigir uma constituição. Diz-se que mais tarde ele desempenhou um papel importante na resolução de uma disputa entre o líder do Transvaal, Stephanus Schoeman, e Mathinus Wessel Pretorius, o primeiro Presidente do Transvaal.

O Vice-Presidente do Transvaal, 1874

Enquanto a África do Sul atravessava o primeiro período de enriquecimento súbito e migração com a descoberta de um gigantesco filão de diamantes em Kimberley, na fronteira entre o Estado Livre de Orange e o Cabo, com 48 anos de idade, Paul Kruger renunciou ao cargo de Comandante-Geral em 1873 e não assumiu nenhum cargo político durante algum tempo.

O Conselho de Administração da De Beers, 1888. Sentado ao centro, Cecil Rhodes, que, juntamente com um conjunto de magnatas, desempenhou um papel crucial na África do Sul a partir de 1870.

Ele retirou-se para sua fazenda, Boekenhoutfontein. O seu afastamento da política, no entanto, durou apenas um ano, altura em que ele foi eleito para o Conselho Executivo. Pouco depois, tornou-se Vice-Presidente do Transvaal. A vida de Kruger permaneceria centrada na política entre 1877 e 1882. Nessa época, Kruger liderou um movimento de resistência e se tornou-se o líder de uma comissão. A primeira guerra Anglo Boer ocorreu em 1880 e as forças britânicas foram derrotadas em Majuba em 1881. Nessa altura, no âmbito dessa comissão, Kruger foi fundamental nas negociações encetadas com os britânicos, que mais tarde levaram à restauração do Transvaal como um estado independente, ainda sob o domínio britânico.

Presidente Kruger

Em 1882, Paul Kruger, agora com 57 anos de idade, foi eleito Presidente do Transvaal. Ele partiu para a Inglaterra em 1883 para renegociar a Convenção de Pretória de 1881, um acordo que fora alcançado entre os Boers e os Ingleses no final da primeira Guerra Anglo Boer. Nessa altura, adquiriu vários aliados na Europa. Na Alemanha, por exemplo, participou num banquete em que foi apresentado ao então imperador, Guilherme I, e conversou longamente com Bismarck.

A descoberta de Ouro

Em1886, a descoberta no Witwatersrand do que viria a ser considerado o maior filão de ouro jamais descoberto no planeta, mudou radicalmente o clima político no Transvaal e não só, despertando novamente a cobiça britânica. Muitos caçadores de ouro de todo o mundo migraram para a África, bem como investidores e um exército de profissões afins. A República do Transvaal considerava os caçadores de ouro como ‘uitlanders’ (estrangeiros).

Para Leste, a 500 quilómetros em linha recta junto do mar, estava um lugarejo dormente e poeirento ocupado pelos portugueses – Lourenço Marques.

Lingotes de ouro obtidos no Witwatersrand, onde na altura surgiu a metrópole de Johnannesburg, provavelmente escavados por mineiros recrutados em Moçambique através da WENELA (Westerrn Native Labour Association). Durante décadas, os Magaíças constituiriam a base laboral das minas de ouro sul-africanas. Por as principais moedas do mundo industrializado serem baseadas no padrão de ouro, o metal precioso extraído na África do Sul teve um impacto enorme na economia e finanças mundiais.

O Raid Jameson

A liderança de Kruger, que no fim da primeira semana de Julho de 1895 inaugurara solenemente a nova linha férrea entre Lourenço Marques e Pretória, uma velha e grande obsessão sua e muito para desgrado dos imperialistas britânicos, foi posta à prova no final desse ano, quando ocorreu o chamado Jameson Raid, liderado pelo Doutor Starr Jameson, um aliado do político e magnata britânico Cecil Rhodes e cujo objectivo era tornar o Transvaal e o Estado Livre de Orange novamente em colónias britânicas. Tal como Rhodes, Jameson mais tarde tornar-se-ia primeiro-ministro da Colónia do Cabo. Em dezembro de 1896, um grupo resultante do ataque mal sucedido, iniciou um processo deliberado de deterioração das relações entre os britânicos e os bôeres que acabou levando à segunda guerra anglo-boer. No entretanto, Kruger foi eleito Presidente do Transaal e re-eleito três vezes, ocorrendo a sua última reeleição em 1898.

A Segunda Guerra Anglo-Boer, 1899-1902

A segunda Guerra Anglo-Boer, também conhecida como Guerra da África do Sul, começou em 11 de outubro de 1899 com um ataque dos boers às tropas britânicas estacionadas no território.

A residência do Cônsul britânico em Lourenço Marques, 1901. Actualmente a Embaixada britânica em Maputo, foi aqui que, em Dezembro de 1900, o então jovem Winston Churchill veio pedir assistência após a sua “espectacular” fuga de Pretória, escondido numa carruagem de um comboio que se dirigia para a capital da colónia portuguesa. Hoje, existe na fachada do edifício uma placa a assinalar o histórico evento.

Paul Kruger participou na última sessão do Volksraad (o parlamento) e em 29 de Maio do ano seguinte, fugiu de Pretória quando o exército britânico, liderado por Lord Roberts, avançou sobre a capital.

Uma das curiosidades “lusófonas” do Transvaal foi que o Ministro da Guerra do Transvaal durante a Segunda Guerra Anglo-Boer era Louis de Souza, um descendente de portugueses (ver em cima). Outra é a presença do jovem Fernando Pessoa em Durban durante parte do conflito na África do Sul, onde vivia (e que, penso, nunca mencionou). Ou seja, a meio, a família foi de férias a Portugal, durante mais que seis meses. Mais tarde (1910) a sua Mãe e Padrasto iriam viver para Pretória, onde o padrasto foi o cônsul de Portugal local até ali falecer em 5 de Outubro1919. A sua Mãe, que na altura regressou a Portugal, tivera um AVC ali em Dezembro de 1915, ficando, posteriormente, praticamente inválida.

Ele permaneceu na clandestinidade durante semanas e eventualmente, refugiou-se com os seus aliados europeus, enquanto a guerra continuava.

A pequena estção ferroviária de Nelspruit, 1898. Kruger passou por aqui a caminho do seu exílio.

Em 20 de Setembro de 1900 deslocou-se para a pequena e então fervilhante Lourenço Marques neutral no comboio presidencial e, após delicadas negociações, em 20 de Outubro partiu de Lourenco Marques para a Europa a bordo do couraçado militar holandês De Gelderland, enviado pela rainha Guilhermina até à capital da colónia portuguesa para o recolher.

A estação ferroviária de Lourenço Marques, 1900. Fica situada a cerca de 100 metros da actual estação de Maputo, dentro da zona agora reservada aos serviços portuários.

A sua mulher, Gezina Kruger estava muito doente quando o grupo deixou o Transvaal e não pôde acompanhá-lo. Ela morreria em Pretória a 20 de Julho de 1901. Na mesma altura, 5 dos seus 8 filhos sobrevivos (eles tieram 16 filhos) morreram numa questão de dias, quiçá, em parte, pelos mau tratos infligidos pelos invasores britânicos.

Aspecto da zona portuária de Lourenço Marques, tal como era por volta da Segunda Guerra Anglo-Boer. Nessa altura, a marinha britânica bloqueou a Cidade, ninguém entrava ou saía sem autorização dos britânicos.

 

Dois navios da companhia alemã Deustche Ostafrika Linie (DOA), o Kronprinz e o Peters, ancorados ao largo na Baía de Lourenço Marques, 1901. O Cais Gorjão só viria uns anos mais tarde, permitindo a atracagem dos navios.

O grupo de Kruger desembarcou na Cidade francesa de Marselha, recebido apoteoticamente por cerca de 60 mil pessoas. O mundo inteiro seguia a guerra dos boers na África do Sul pelos jornais, dia a dia, alimentado por imagens e relatos do conflito, enviados por telégrafo, uma relativa novidade. De seguida ele viajou pela Europa e até à propriedade Oranjelust, em Utrech, nos Países Baixos, onde permaneceu até ao final da guerra. Foi aqui que ele recebeu a notícia da assinatura do Tratado de Vereeniging, assinado a 31 de Maio de 1902. Depois de passar uns meses na Riviera francesa, Kruger mudou-se para Clarens, na Suíça, onde permaneceu os últimos seis meses da sua vida, falecendo em 14 de julho de 1904 de uma pneumonia. Os seus restos mortais foram transportados de volta para uma África do Sul meio destruída e já unida à força pelo império britânico, o seu país novamente uma colónia britânica. Com a autorização dos britânicos, seria sepultado em 16 de dezembro de 1904, no cemitério da Church Street, em Pretória, rodeado pelos seus apoiantes, o seu caixão envolto na bandeira do país que antes ajudara a criar.

A bandeira da África do Sul, utilizada entre 1928 e 1994, revela bem os resquícios do conflito anglo-boer, A bandeira do Transvaal é a pequena bandeira que se vê à direita, ao centro a bandeira do Estado Livre de Orange. Mesmo na actual bandeira em vigor na África do Sul, supostamente, três das cores ali presentes especificamente evocam as duas antigas repúblicas boer.

05/09/2020

MAPA DA ILHA DE MOÇAMBIQUE, 1751

Filed under: Mapa Ilha de Moç 1751 Bellin — ABM @ 19:21

Mapa da Ilha de Moçambique, datado de 1751, Tomo 1 Pág. 146, desenhado pelo cartógrafo francês Jacques-Nicolas Bellin (1703-1772) e pintado por mim esta semana.

 

Ilha de Moçambique, de Bellin, 1751.

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