THE DELAGOA BAY WORLD

15/10/2022

TASHA DE VASCONCELOS

Filed under: Tasha de Vasconcelos - modelo e humanitária — ABM @ 11:49

Imagens retocadas, daqui, e daqui.

Em Julho de 2013 escrevi aqui uma nota sobre esta modelo nascida na Beira em 1966. Seguem-se mais imagens que ilustram o seu percurso. Estes dias, penso que a Tasha, que nasceu e passou parte da infância na Beira, vive no Principado de Mónaco e ocupa-se principalmente com iniciativas de caridade e também algum trabalho de modelo.

1 de 15 Foto de uma revista francesa, numa altura, no final da década de 1990, quando alguma da imprensa cor de rosa europeia insistia numa relação amorosa com o Príncipe Alberto (nascido em 14 de Março de 1958), então solteiro e herdeiro do minúsculo principado e que viria a suceder quando o seu Pai, Rainier, faleceu em 6 de Abril de 2005.
2 de 15 Parte de um artigo de revista com alguns dados biográficos de Tasha.
3 de 15. Na Beira
4 de 15 Na Beira, início dos anos 70, com a Mãe, que acho que era uma beleza rodesiana e a irmâ. O Pai dela era engenheiro e trabalhava como director no Entreposto da Beira, sucedâneo da Companhia de Moçambique. Numa visita à Beira há uns anos atrás até encontrou um daqueles velhotes brancos que se esqueceram de ir embora em 74 que se lembrava do Pai dela.
5 de 15 Penso que são os últimos tempos de Moçambique, antes da Frelimo marchar lá para dentro. A família foi depois “expeditamente” para a Rodésia, onde as coisas logo a seguir rapidamente se deterioraram. O Avô materno foi assassinado presumo que pelos ZANUs. A família foi depois brevemente para Portugal e em seguida emigrou para o Canadá. Foi lá que, no liceu, um qualquer a abordou e sugeriu começar a trabalhar como modelo.
6 de 15. Penso que em 1994. Tasha teria 18 anos de idade.
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13 de 15 . Mais um recorte sobre a relação da Tasha com o Albert. Imagino que sejam amigos e que até tenham tido uns momentos cor de rosa, mas é preciso ver isto no contexto em que Albert andou com dezenas de mulheres. Até encontrei um sítio que as listou (as que se sabem, o que é obvia e comnprovadamente incompleto). No entanto a esmagadora maioria não ficou a viver no Mónaco, que só tem a particularidade de ser um microestado (com 21 km quadrados e 36 mil residentes, dos quais 20 mil são monegascos) em que quem manda é o soberano (Albert) e que é um paraíso fiscal, refúgio para milionários que não querem ver os seus milhões dissipados pelos impostos nos seus países de origem.
14 de 15. Após uns anos disto, Alberto, que decididamente fez as rondas, decidiu casar em 2011 com Charlene Wittstock, uma sul-africana que foi nadadora, creio que de origem rodesiana (para variar) dez anos mais nova que Tasha, cumprindo rapidamente o imperativo constitucional de ter um herdeiro. Do que li e que vai preechendo aquelas revistas para as donas de casa sexualmente frustradas e economicamente deprimidas, o casamento é notoriamente infeliz quase desde o momento em que começou e tem sido um circo pegado mas enfim, problema deles. Os palácios têm a vantagem particular de serem grandes e eles nem sequer tem que se vêr. Tasha supostamente reside no principado, que é uma espécie de vilória de milionários sitiados pelo seu estatuto de residentes fiscais, portanto eles devem-se cruzar dia sim, dia sim. Ela como pessoa seria vinte vezes melhor que a Charelene como Princesa de Mónaco mas ele no fim escolheu a outra. Entretanto, Tasha escreveu e publicou um longo livro com a sua versão publicável da realidade, cuja tese central é um pouco estapafúrdia (“a beleza como arma”) e devem ter deixado as poucas feias e frustradas que o leram de boca aberta. Nele, aludiu a o que só pode ser considerado um caso de assédio pelo Príncipe (actualmente rei) Carlos de Inglaterra, que o palácio então demoliu. Na realidade, apesar desta publicidade toda, tirando o episódio Albert, publicamente não se sabe praticamente nada sobre a sua vida pessoal. Penso que não é nem nunca foi casada. Namorados ou namoradas conhecidos, népia. O que, supostamente para quem tem a beleza como “arma”, é obviamente inteligente e foi supermodelo durante anos e anos, é obra. Ou um desperdício.
15 de 15 Tasha em Maputo à porta do Restaurante da Costa do Sol ainda nos tempos do Emmanuel. Ela fala um português mais ou menos correcto (tem melhorado) e tem visitado Portugal, a título pessoal e também relacionado com as suas actividades de beneficiência. Mas em Portugal é quase desconhecida.

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12/10/2022

VALE DE SANTARÉM EVOCA DESTACADO SINDICALISTA DE LOURENÇO MARQUES

Filed under: Joaquim Faustino da Silva - sindicalista — ABM @ 21:51

Imagem retocada. Cito uma notícia da publicação Mais Ribatejo.

A Associação Cultural Identidade e Memória do Vale de Santarém vai organizar uma sessão pública, no próximo dia 15 Outubro de 2022, na sede da Sociedade Recreativa Operária do Vale de Santarém, pelas 15 horas, para evocar a figura do destacado sindicalista Joaquim Faustino da Silva, que nasceu na localidade Vale de Santarém, em 1891.

Vale de Santarém dista 5 minutos de Santarém, no caminho para o Cartaxo. Todos são nem-vindos.

Nesta sessão, farão comunicações Maciel Santos e Luís Carvalho, investigadores do Centro de Estudos Universitários da Universidade do Porto, que estudaram o percurso de Joaquim Faustino.

Joaquim Faustino da Silva.

Joaquim Faustino da Silva foi destacado para Angola como soldado durante a I Guerra Mundial, após o que se estabeleceu em Moçambique, onde, enquanto operário, viria a desenvolver também intensa atividade social e política, como sindicalista, cooperativista e jornalista, vindo a ser director do jornal operário “O Emancipador”, em Lourenço Marques, que foi uma referência do sindicalismo e da política, em pleno período da ditadura portuguesa.

Nunca mais regressaria à Metrópole e à sua terra natal, tendo falecido em 1972, em Lourenço Marques.

O Centro de Estudos Universitários da Universidade do Porto, no âmbito de pesquisas relacionadas com trabalho sobre o sindicalismo em Portugal no tempo da I República, viria a referenciar Joaquim Faustino da Silva como um dos mais ativos e prestigiados cidadãos que, nesse período, se distinguiram, na vida social e política de Moçambique.

11/10/2022

FALECEU O SENHOR LUIS NHACA, TRABALHADOR DO HOTEL POLANA

Imagens retocadas.

Segundo informou ontem o Nuno Quadros via FB, faleceu esta semana o Sr. Luis Nhaca, trabalhador do Hotel Polana em Maputo. Estava na Portaria e acolhia na porta principal quem frequentava o hotel, memorável pelo seu traje formal coberto de pins, aliás uma tradição que já vinha de trás, pois eu lembro-me bem do seu predecessor, cujo nome infelizmente não recordo (mas gostaria de registar, se alguém se lembrar).

Lamento a sua morte a apresento as minhas condolências à sua Família e a todos os colaboradores do Polana. Que descanse em paz.

Quando há dias escrevi uma longa nota sobre o Polana, negligenciei incluir uma nota adicional, e aqui vai.

Apesar de ter nascido e vivido em Lourenço Marques até pouco antes da entrega à Frelimo, inaugurando um percurso então impensável, eu só frequentei o Hotel Polana muitos anos depois, no final da década de 1990 e durante uns anos, ainda andava por lá o Rui Monteiro (ambos coleccionávamos postais antigos do Polana, que trocávamos). Ia com alguma frequência ao seu Salão de Chá (a versão tradicional clássica antes da mudança hollywoodesca feita pelos arquitectos e decoradores do Serena) e mais raramente, almoçava no restaurante, aí geralmente por razões de serviço. No salão de chá a comida era muito boa e já estava pronta, a preços acessíveis e o serviço bom.

E o que de longe me tocava mais, que considerava o verdadeiro carácter e essência do Hotel, era no desempenho e personalidade dos seus empregados, que eram de uma simpatia, discrição e aquela classe e profissionalismo que só conheci ali. No Salão de Chá era recebido sempre com um sorriso, com um “como está hoje, Sôr Botelho?”, mostravam-me a mesa habitual para me sentar e em segundos já tinha uma Coca-Cola fresca na mesa. Se havia um toque moçambicano genial e inconfundível no Polana, um que não tem preço e desafia uma descrição, era naquela equipa que mantia a máquina a funcionar sem falhar.

Era – foi – um prazer conviver com eles e com elas.

Fiquei com a impressão que as mudanças da nova gestão por meados de 2000 foram algo atribuladas e alguns dos seus empregados saíram do hotel, o que para mim foi lamentável e um erro crasso. Pois esta gente para mim era o Hotel Polana, quase tanto senão mais que as suas paredes e a gestão que mantém as portas abertas. Encontrei alguns depois a trabalhar em restaurantes na Cidade, vinham-me cumprimentar e eu fazia um interrogatório cerrado sobre porque tinham saído e como estavam. Acabávamos sempre com um aperto de mão cúmplice, um tanto triste, tipo “estamos juntos”.

E portanto, nesta nota memorial sobre o Senhor Luis Nhaca, aqui lhes presto a minha homenagem. Pelo seu profissionalismo e pela impressão indelével que me deixaram.

Luis Nhaca.
Nhaca dando as boas vindas.

10/10/2022

TRECHO DA PONTA VERMELHA EM LOURENÇO MARQUES, FINAL DA DÉCADA DE 1960

A primeira imagem é da colecção de Manuel Martins Gomes, com copyrights (para mais detalhes visitar aqui) final da década de 1960. A segunda imagem é de um dos álbuns da Santos Rufino, meados da década de 1920. Ambos retratam a mesma zona, de ângulos diferentes..

Trecho da Ponta Vermelha em Lourenço Marques. Da rua para cima era o enrome quarteirão alojando a residência oficial do Governador-Geral (em cima, à direita, a versão pirosa feita pouco antes da visita do Marechal Carmona em Setembro de 1939) e que incluia, entre outros, o edifício do Governo Provincial, que se vê em cima do lado esquerdo. Do lado direito era um escritório qualquer provincial mas que cinquenta anos antes foi primeiro a Secretaria-Geral e depois uma casa de hóspedes do Governo-Geral.
Os dois edifícios, meados da década de 1920.

ALMOÇANDO NO RESTAURANTE PIRI-PIRI EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Imagem colorida.

A esplanada do Restaurante Piri-Piri, perto da esquina entre a 24 de Julho e a Av. António Ennes (hoje Dr. Julius Nyerere), anos 60

08/10/2022

HERBERT BAKER, O HOTEL POLANA EM LOURENÇO MARQUES E O HOTEL MONTE NELSON NA CIDADE DO CABO

Imagens retocadas.

Em 1 de Julho de 2022, o Hotel Polana assinalou o centenário da sua inauguração.

Há muitos anos que oiço e leio que o Hotel Polana foi desenhado pelo arquitecto britânico Herbert Baker, que fora dos círculos especializados é pouco conhecido em Moçambique ou Portugal. De facto, o seu nome é mencionado numa memória sobre o Polana que considero credível. E as fontes que consultei também indicam que Baker esteve envolvido na edificação do Mount Nelson Hotel, que ainda hoje é a jóia da hotelaria sul-africana.

Herbert Baker ((9 de junho de 1862, Cobham, Kent, Reino Unido – 4 de fevereiro de 1946, Cobham, Kent) foi um enorme vulto da arquitectura britânica e sul-africana durante o zénite da fase imperial britânica, entre 1880 e o final da II Guerra Mundial em 1945. O conjunto da sua obra é quase incompreensivelmente vasto, diversificado e abrangente. Impressiona percorrer a longa lista de obras em que interveio ao longo das décadas e ainda o seu percurso pessoal.

Herbert Baker.

Apesar disso, no caso do Hotel Polana, inaugurado a 1 de Julho de 1922, por alguma razão, a obra é praticamente omitida pelos seus biógrafos, o que não deixa de ser curioso. Pessoalmente, creio que a sua vultuosa equipa deve ter de facto desenhado o projecto do Hotel Polana e no fim veio tudo no nome de Baker, que o assinou, o que nestas coisas é comum. É um pouco como ir comer um bife grelhado a um restaurante de Gordon Ramsey em, por exemplo, Las Vegas, e depois ir dizer aos amigos que quem pessoalmente cozinhou o bife foi o popular cozinheiro e empresário britânico. Pois. Não é bem a mesma coisa.

Varanda a nascente do Hotel Polana, meados da década de 1920, foto do álbum Rufino. Hoje toda esta área está preenchida com uma enorme varanda fechda onde está a sala de refeições.

A verdade é que, para quem conhecer o Hotel Polana e o Mount Nelson Hotel na Cidade do Cabo, é aparente que há algumas semelhanças no desenho, na proporção, no conceito inicial para o seu uso (providenciar acomodação de luxo a visitantes) e no posicionamento dos edifícios em locais privilegiados com vistas impressionantes.

O Mount Nelson tem uma estrutura parecida com a do Polana.

Há algumas diferenças para o pesquisador que são de nota. Todo o percurso do Mount Nelson é celebrado e está abundante e carinhosamente documentado ao longo das décadas, o que, lamentavelmente não aconteceu no caso do Polana, que, neste caso, ainda por cima vem acompanhado de mitos urbanos tipo “diz que disse”, como é o caso de estar ligado à designação da capulana, ou que o régulo Pulana ali vivia (e de onde, putativamente e sem cerimónia, teria sido colonialmente corrido). Salvo melhor opinião, ou é tudo treta largamente pós-colonial ou alguém precisa de apertar os atacadores e documentar as afirmações, sem as quais não há contraditório.

Como é a afirmação, comum, de que, quando os portugueses fugiram (ou saíram aceleradamente) de Moçambique aquando da entrega de Moçambique à Frelimo, arrancaram à martelada as torneiras das suas casas (hipoteticamente, usando-as posteriormente nas suas casas lá para onde foram) ou ainda que entupiram os canos das mesmas com cimento. O conceituado académico comunista britânico Joseph Hanlon, que teve uns anos de formação pós-independência uns anos em Maputo, uma vez escreveu isso mesmo num dos seus comentários e, interpelado por mim, justificou a afirmação asnina com “bem, é o que se diz em Maputo”. Ah é o que se diz? Claro que omiti questionar-lhe se ele alguma vez tentou encher uma canalização com cimento, ou se alguma vez viu uma ou ainda se o faria sob as barbas da Frelimo, que desde 1974 estava em controlo das cidades).

O Mount Nelson, que foi inaugurado em 6 de Março de 1899 – vinte anos antes do Polana – foi mandado fazer por Sir Donald Currie, o zilionário dono da Union Castle Shipping Line, para servir os clientes da primeira classe da sua companhia marítima britânica cujos navios faziam escalas na Cidade do Cabo nas rotas “imperiais” entre a Europa e os vários pontos do (essencialmente) império britânico no ìndico e na Ásia. Como o Polana, foi o primeiro hotel a ter água quente e fria, casas de banho nos quartos e, no caso do Polana, telefones em todos os quartos e acesso ao telégrafo para todo o mundo mesmo ali ao lado. Foi construído no que era um dos mais conhecidos e bonitos jardins da Cidade do Cabo. Aspectos da sua evolução foram cuidadosamente documentados. Por exemplo, a partir de 1918 o hotel passou a ser pintado de cor de rosa por decisão do seu segundo gerente, o italiano Aldo Renato, como um sinal da paz peonosamente alcançada com o final da I Guerra Mundial. A moda pegou e inúmeros hotéis em todo o mundo usaram essa côr. Mais importante, o hotel esteve sempre na posse de donos que preservaram e ampliaram o seu carácter e que investiram milhões no seu estatuto e aura. Nada era nunca deixado ao acaso. E o hotel teve a sorte de acompanhar o surgimento e a afirmação da Cidade do Cabo como uma das principais zonas urbanas da África do Sul e mais tarde num dos destinos mundiais apetecidos e que entrou e saiu incólume das atribuladas fases da história daquele país. Os seus actuais donos, a cadeia Belmont, anteriormente a Orient-Express, são uma das mais conceituadas cadeias, especializadas em operar hotéis de luxo com história e craveira – e sabem o que estão a fazer e o que têm nas mãos.

O percurso do Hotel Polana foi completamente diferente. Talvez com a singular excepção de António Champalimaud, que toda a vida foi incompreendido, vilipendiado e assediado, e o primeiro Espírito Santo, Portugal realmente nunca teve grandes empresários milionários. Essencialmente, tinha uns gajos ricos que, com as suas famílias e mediante variados esquemas, extraíam dos subsequentes governantes, benefícios e monopólios de onde extraiam lucros. Salazar apenas institucionalizou e modernizou o que se fazia em Portugal há uns 400 anos, desde o estabelecimento dos monopólios régios comerciais com a Taprobana .

Nas colónias ainda era pior, pois aí nem isso havia.

Um bom exemplo é todo o episódio do Grande Hotel da Beira, que foi um circo desde que foi concebido até ao seu encerramento prematuro. Aquilo foi um desastre desde o primeiro momento.

No caso de Lourenço Marques, no início do Século XX a maior parte dos negócios locais eram detidos por estrangeiros que faziam os mínimos olímpicos para ganharem o seu. Quem mandava na Cidade – e na Colónia – era uma espécie de confraria entre o governo provincial, os interesses locais reunidos na Associação Comercial (que eram quase todos estrangeiros) e alguns interesses estrangeiros baseados na Europa. Um exemplo disso eram as companhias majestáticas. Em Lourenço Marques, a certo ponto, a água, a luz, os telefones e os transportes urbanos pertenciam a uma empresa sediada em…Londres.

Quando se achou que faria sentido haver um hotel de luxo em Lourenço Marques, surpresa: não havia quem o fizesse. Note-se que em 1920 Lourenço Marques já tinha uma linha ferroviária para Pretória e Johannesburgo há 25 anos, já tinha um magnífico porto com um magnífico cais há 20 anos. Portanto o trânsito na Cidade já tinha expressão. Havia vários hotéis na Baixa da Cidade, mas já estavam algo datados e o serviço era, digamos, de modesto a pelintra. Quase todos pertenciam a indivíduos com iniciativa mas que não só não estavam disponíveis para expandir os seus negócios, como ainda por cima combatiam vigorosamente a ideia de surgir um hotel – mais um hotel – que lhes iria roubar o negócio. Ainda por cima de luxo. Foi o caso do Comandante Cardoso, que tinha um hotelzinho numa colina junto à Ponta Vermelha com uma dúzia de quartos (que acabou vendido a Aida Sorgentini, uma fantástica viúva italiana).

Portanto, à boa maneira portuguesa, a decisão da sua edificação foi por decreto governamental e empréstimo público. Depois de feito, arranjava-se um dono.

O local escolhido foi uma ponta da Concessão Somershield, junto a uma das ravinas nas Barreiras da Polana, retalhando assim a sua ponta mais a Sul.

O Polana, anos 1920. Mais é esquerda desta imagem ficava a Estrada do Caracol e a Praia da Polana.

Aliás, mais ou menos o mesmo aconteceria trinta anos mais tarde em Lisboa, um pouco como o que se passa há cinquenta anos com um novo aeroporto para Lisboa. No início da década de 1950 Lisboa ainda não tinha um hotel de cinco estrelas e Salazar com um entusiasmo relutante lá se meteu no barulho autorizou que se fizesse o Ritz, maioritariamente detido pelos Queiroz Pereira e os Espírito Santo (para haver proprietários portugueses, luxo que em Moçambique não havia). O resultado foi para mim um dos mais memoráveis hoteís que já vi, que seria operado pela cadeia Ritz até 1979 (e actualmente pela cadeia Four Seasons).

Parte do lobby do actual Hotel Four Sesons Ritz em Lisboa. Magnífico.

Ao contrário do que muita gente refere, até aos anos 60, apesar da aura, regra geral o Polana não era frequentado pelos residentes da Cidade, que apenas iam ali para algumas funções e poucos eventos sociais (como por exemplo a festa do fim do ano). O hotel era basicamente frequentado por visitantes estrangeiros e, na época das férias na África do Sul, por um conjunto selecto de famílias sul-africanas mais endinheiradas. Só durante a década de 1960 é que se começou a formar uma (muito ténue) classe local mais endinheirada e sofisticada, que começou a frequentar os espaços públicos do hotel, que para esses, funcionava como alguns dos muitos clubes da Cidade (Grémio, Clube Militar, Clube de Pesca, Clube Marítimo, Clube de Golfe, Clube de Caça, Lions, etc). O Lourenço Marquino vulgar, branco ou (especialmente) negro, nunca meteu lá os pés no tempo colonial.

O que aconteceu depois da inauguração em 1922 ainda é um esboço para mim e é impreciso. O hotel seria adquirido pelos Schlesingers, uma família judia sul-africana. Penso que nos anos 60 foi comprado por entidade portuguesa mas não sei. Em 1975 foi nacionalizado e, entrando Moçambique na fase comunista, o hotel mal se aguentou, como aliás tudo o resto. Visitei-o em 1984 e foi confrangedor. A sua gestão eventualmente foi entregue a uma empresa portuguesa que foi gerindo e fazendo uns remendos aqui e ali.

As suas fortunas melhoraram consideravelmente quando finalmente a guerra civil foi interrompida em Outubro de 1994 e se inaugurou aquilo que eu chamo calamity tourism: sucessivas visitas de hordes de pessoas pertencendo a inúmeras organizações de apoio e assistência, públicas e privadas, iam bater à porta de Maputo com centenas de milhões de dólares de donativos e assistência caritativa, que se tornariam numa verdadeira indústria moçambicana. Sob a nova pressão, a gestão do hotel tentou adaptar o espaço como uma espécie de hotel de negócios, criando salas para negócios, alterando o bar, criando um casino no salão nobre e vastamente ampliando uma antiga varanda a Norte para uma sala de refeições maior.

Em 2002, o Aga Khan Fund for Economic Development, um braço do império ismaelita sob o controlo de Sua Alteza o Aga Khan, que tinha uma comunidade em Moçambique desde o início do Século XX (que se dava lindamente com os portugueses e moçambicanos, diga-se em abono da verdade), adquiriu o hotel ou a concessão da sua exploração (não consegui perceber ainda). Nos anos seguintes, fizeram-se diversas obras de vulto que essencialmente descaracterizaram o que era a essência do antigo Polana, no entanto procurando manter alguma ligação com o seu passado, cuidadosamente, porque o passado em Moçambique é colonial e os moçambicanos ainda lidam mal com esse assunto. Mal mexeram no Polanamar, uma adição estapafúrdia feita nos anos 60 a nascente da piscina e que é enfim, uma verdadeira piroseira. O edifício, que esteve pintado de branco desde 1922, foi pintado de creme e castanho. adicionaram-se um repuxo e mudaram-se as salas.

O Polana, creme e castanho e com um repucho à frente. Foto de 2010 da AKDN.

Uma coisa boa foi que despacharam o casino dali para fora e restauraram o salão nobre. Mas em vez de ser restaurado para a sua glória marcadamente ocidental e traça da década de 1920, aquilo parece ter sido entregue a arquitectos e decoradores do Médio Oriente, dando um pouco daquele ar de espalhafato bombástico árabe excessivo, tipo Palácio das Mil e Uma Noites da Scheherezade e – como diria Trump – com uma sensação de tudo ser mais ou menos “fake”. A que se junta uma tentativa falhada e incongruente de, ainda por cima, lhe dar um toque “africano nativo”. Agravado pelo facto de que a cadeia Serena, por muito sucesso que tenha, não tem nem de perto nem de longe o dinheiro, o apetite e o pedigree de uma cadeia Belmont, a actual dona do Mount Nelson na Cidade do Cabo.

Se o Exmo. Leitor quiser perceber o que digo, experimente visitar os dois hotéis, começando pelo Polana, e vai logo discernir, a começar pelo preço e pela decoração.

Herbert Baker quase certemente concordaria comigo.

Mas, cem anos depois, o hotel ainda está lá. Isso já é alguma coisa.

Parte do Hotel Mount Nelson na Cidade do Cabo, imagem recente da Wikipédia, com a sua pintura cor de rosa desde 1918. O Polana passou de branco para creme e castanho….

07/10/2022

MAPAS DA ÍNDIA PORTUGUESA- GOA, DIU E DAMÃO, 1892

Filed under: Mapas da Índia Portuguesa 1892 — ABM @ 13:59

Imagens retocadas.

Há uma forte relação histórica entre Moçambique e a Índia, que em boa parte se relaciona com a descoberta de uma rota marítima entre Portugal e o sub-continente indiano a partir de 1498, que dependia, para a sua efectivação, do suporte logístico de pontos na costa de Moçambique, em particular a Ilha de Moçambique. Essa relação está relativamente mal estudada e até apanhar um mapa decente da Índia portuguesa na internet é um desafio, pelo que aqui deixo uns mapas, para quem quiser ver.

Faço uma menção honrosa a Cochim, actualmente chamada Kochi, muito mais ao Sul da que depois foi chamada a Índia portuguesa, que na verdade foi onde os portugueses primeiro aterraram arraiais e foi onde Vasco da Gama morreu em 1524, os seus restos mortais trazidos para Portugal em 1539 e depositados agora no Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa. Cochim foi tomada pelos holandeses durante o tempo dos Filipes e não voltou a estar sob controlo português.

Claro que toda esta história é imenssissimamente mais complicada. Os portugueses naquela altura andaram por todos os lados e mais algum nas costas do Oceano Índico e é difícil entender a totalidade das ramificações de tudo o que andaram a fazer.

Goa. Foi (mais ou menos) portuguesa (num mar indiano) entre 1510 e 1961. Acabou por ser o epicentro de muita coisa que os portugueses andaram a fazer por aqueles lados. Aparentemente saiu-se bem após a sua tomada pela Índia de Nehru (à paulada) em 1961. Hoje é o 25º Estado da União Indiana e uma espécie de jóia da coroa indiana. A presença de goeses dos tempos em Moçambique é incontornável.
Diu. Foi portuguesa entre 1535 e 1961. A sua conquista dava para uma série estilo Star Wars, em que não dá para entender a violência e a capacidade de um punhado de portugueses de resistir. Eventualmente perdeu importância com o surgimento de Bombaím, que fica ali perto.
Damão e Nagar-Haveli. Ficam a cerca de 130 Kms a Norte de Mumbay, anteriormente Bombaim, que por sua foi cedida pelos portugueses de então aos britânicos como parte do enorme dote pago pelo casamento entre Carlos II de Inglaterra com a Princesa Catarina de Bragança, cerca dos anos 1660. Nagar-Haveli foi cedida a Portugal apenas em 1783. Foi incorporada na União Indiana em 11 de Agosto de 1961, criando uma indisposição visível em Salazar. Damão, na costa, foi tomada pelos portugueses cerca de 1525, quando o Capitão Diogo de Melo, que ia caminho de Ormuz, foi desviado por uma tempestade e acostou ali. A presença portuguesa durou até Dezembro de 1961, quando tropas da União Indiana tomaram o local ao tiro e à paulada (14 mortos e 12 feridos).

05/10/2022

A PISCINA DO HOTEL POLANA EM LOURENÇO MARQUES, FINAL DOS ANOS 60

Imagem da incomparável colecção de Manuel Martins Gomes, com copyright, para mais detalhes ver aqui.

Em Julho deste ano o Hotel Polana celebrou o primeiro centenário da sua inauguração.

Dia de sol na piscina do Hotel Polana.

O HOTEL POLANA EM LOURENÇO MARQUES, INÍCIO DA DÉCADA DE 1970

Imagem da incomparável colecção de Manuel Martins Gomes, com copyright, para mais detalhes ver aqui.

Em Julho deste ano o Hotel Polana celebrou o primeiro centenário da sua inauguração.

Em segundo plano, o Hotel Polana onde se vê já concluído o Polanamar bem como, mesmo ao lado, a estação de serviço da Shell. Em primeiro plano, moradias, em que na ponta em baixo à direita se vê parte do telhado da casa onde viviam os pais da luso-americana Teresa Heinz Kerry, o Dr. Simões Ferreira, que ficava na esquina com a Avenida Duques de Connaught e o final da Estrada do Caracol. Ao fundo, a estrutura do futuro Hotel 4 Estações, que nunca foi concluído e que décadas depois foi demolido para ali ser construído o edifício da nova embaixada dos Estados Unidos da América. À esquerda, a Avenida António Ennes, actualmente Av. Dr. Julius Nyerere.

04/10/2022

O PRIMEIRO TORNEIO INTERNACIONAL DE NATAÇÃO EM LOURENÇO MARQUES, 1952

Imagens retocadas, gentilmente facultadas por Kobus Sheepers, que gere um sítio sobre natação na África do Sul, mas que também inclui um pouco Moçambique e a antiga Rodésia, Numa das suas recentes pesquisas, Kobus contactou Helena Pirow, uma sul-africana que agora vive no Texas, e que também nadou, sobre o seu Pai, Peter Pirow, que foi campeão sul-africano em bruços. Helena deu o contacto da sua irmã Nicky em Knysna, perto de Port Elizabeth, na África do Sul, e ontem Nicky enviou este documento para o Kobus, que mo disponibilizou.

É um documento interessante para a natação em Moçambique, pois é o folheto do programa da “primeira competição internacional de natação” em Lourenço Marques, organizada pela…..Associação dos Naturais de Moçambique. Tem nomes e tempos algo surpreendentes, sendo que o evento decorreu em 15 e 16 de Março de 1952.

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30/09/2022

O NANDO E A MOCIDADE PORTUGUESA EM LOURENÇO MARQUES, 1967

Quis o destino que na idade-limite (oito anos?), quando chegou a minha vez, em Moçambique deixou de ser obrigatório aos jovens terem que ingressar na Mocidade Portuguesa, uma iniciativa de raízes digamos que …nazis, mas que em Moçambique, pelos anos 60, era aparentemente um valiosa ferramenta desportiva e de formação e convívio para os jovens. Mas para mim tudo o que envolvia ter que andar fardado simplesmente não convencia. Já sofrera o suficiente com a farda verde obrigatória (e, admita-se, equalizadora) da Escola General Machado. E eu já tinha convívio e desporto que dava e sobrava no Desportivo.

Infelizmente, o meu irmão Fernando, na imagem em baixo, não escapou. Teve que entrar na organização e um dia a Mãe Melo lá se sentou em frente à sua máquina de costurar duma marca italiana (Bernina? Nechhia?), e fez uma farda com um pano de khakh para elei (sim, tirando as t-shirts, naquela altura ou se fazia a roupa em casa ou ia-se à costureira. As madames com mais taco iam às boutiques). Durante uns tempos, ele teve que orientar os colegas à saída da Rebelo da Silva, com uns paus pintados de branco e vermelho. Não fossem eles atropelados na Pinheiro Chagas.

Nando pronto para o combate do trânsito à saída da escola. Aqui no quintal da casa em que vivíamos na Polana.

A MALTA DA RUA FERNANDES PIEDADE EM LOURENÇO MARQUES

Filed under: Malta da Rua Fernandes Piedade — ABM @ 20:04

Imagem retocada e colorida.

Nos anos 60 todas as ruas tinham miúdos e regra geral todos se conheciam e brincavam nessa rua. Eu era da Rua dos Aviadores e conhecia os da minha idade todos. A Fernandes Piedade ficava ali por perto mas já era outro mundo. Se o Exmo. Leitor conhecer aqui os jovens, envie uma nota para aqui.

A malta da Rua Fernandes Piedade.

28/09/2022

A SÉ CATEDRAL DE LOURENÇO MARQUES, 1944

A primeira imagem foi retocada e colorida, estava nos arquivos pessoais do então Governador-Geral de Moçambique, José Tristão de Bettencourt (açoriano), copiada dos arquivos da Fundação Mário Soares.

A Sé Catedral de Lourenço Marques, acabadinha de inaugurar pelo Cardeal Cerejeira em Agosto de 1944 que ali foi de barco em plena II Guerra Mundial, arriscando o pescoço. Sem os prédios à volta, especialmente esse horror urbanístico que é o Prédio Funchal, era imponente. Foi magistralmente desenhada por um obscuro engenheiro dos Caminhos de Ferro que é…. O avô do actual ministro da Cultura português.
A entrada da Sé Catedral, vista do interior. A foto foi tirada por Roland Grebbs há cerca de dez anos.
A minha Mãe e três dos meus irmãos Cló, Mesquita e Chico) à saída de uma missa, início dos anos 60.
A Catedral em construção, foto do Edgar Marques via o Ernesto Silva, retocada.

27/09/2022

O RESTAURANTE ZAMBI EM LOURENÇO MARQUES

Filed under: LM Rest. Zambi, Rest. Zambi LM — ABM @ 12:58

Imagens retocadas e coloridas.

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3 de 3 Foto de José Neves via o grande Ernesto Silva.

LOURENÇO MARQUES SEM CAIS, 1895-1902

Imagens retocadas e coloridas, a primeira da colecção de Alfredo Pereira de Lima.

A baía excepcional, única entre Nacala e o Cabo, e a sua proximidade ao Transvaal, especialmente depois da fundação das repúblicas Boer e a descoberta do enorme filão de ouro no Witwatersrand (num canto do Transvaal), tornaram Lourenço Marques num lugar muito apetecível e previsivelmente lucrativo. Mas os investimentos eram enormes e levou tempo a construir-se uma linha de caminho de ferro para Pretória e ainda mais a construir um cais onde os navios podiam acostar e descarregar e carregar passageiros e mercadoria de forma mais eficiente. O Cais Gorjão só seria inaugurado nos primeiros anos de 1900. Até lá, é o que se vê nas duas primeiras imagens em baixo: os navios paravam na parte da Baía em frente a Lourenço Marques, e literalmente tudo o que havia para carregar e descarregar (mercadoria, pessoas, água, carvão, comida, etc) tinha que ser carregado à mão, e às costas, dos navios para barcaças ou barcos pequenos, e trazido até à praia, onde em seguida tinha tudo que ser acartado à mão para uma linha de terreno mesmo ao lado da Rua Araújo. Mais tarde foram sendo feitos pequenos cais de madeira, onde as barcaças e os barcos pequenos atracavam. Era um pesadelo.

Navios fundeados em frente a Lourenço Marques, 1895. Em primeiro plano, barcaças chatas. Esta foto foi tirada aquando dos ataques a Lourenço Marques, que motivaram os portugueses a enviar uma expedição ao Sul de Moçambique, chefiada por António Ennes e que incluia, entre outros o Major Mouzinho de Albuquerque.
Navios fundeados em frente a Lourenço Marques, 1900. Já havia comboio mas ainda não havia um cais.
Sistema de fabrico de enormes blocos de cimento, destinados à  construção do porto de Lourenço Marques,1901. No meio estava uma linha férrea de bitola pequena onde uma pequena locomotiva com um guindastre que vinha e trazia e levava material. De um lado estavam caixas metálicas desmontáveis onde se trazia o cimento e se faziam os blocos, que, após secos, eram colocados do outro lado para terminar a secagem, e posteriormente eram levados para o local onde foi feito o Cais Gorjão.

26/09/2022

ALMOÇO DE PROFESSORES DO LICEU ANTÓNIO ENNES EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Imagem retocada e colorida.

Almoço de membros do corpo docente do Liceu António Ennes em Lourenço Marques.
A mesma imagem, a preto e branco e indexada. Se o Ex,o. Leitor conhecer alguém, por favor envie os nomes para aqui.

TURISTAS NO BAZAR DE LOURENÇO MARQUES, NOVEMBRO DE 1957

Imagem retocada e colorida.

Visitaram a Baixa numa passagem do navio Durham Castle pela Cidade.

24/09/2022

DESFILES MILITARES EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 60 E 70

Imagens retocadas.

Não sendo grande militarista (basicamente considero forças militares um mal muito caro e necessário- mas muito necessário quando é necessário) acho que só vi uma parada militar em Lourenço Marques, aquela em que apareceu o Rôxo, que era considerado uma espécie de Rambo português. Mas gosto de ver desfiles, especialmente com bandas miltares e tenho pena de estarem fora de moda. Para além do desfile na abertura dos Jogos Olímpicos em 1976, desfilei uma vez, como convidado de honra, no desfile mais antigo que celebra a independência dos Estados Unidos. Foi divertido.

Lourenço Marques tinha uma longa tradição de festas e de desfiles. Desde o início, quase tudo servia como desculpa para um desfile e uma festa rija. As visitas do Príncipe Filipe em 1907, do Marechal Carmona em 1939 e do General Craveiro Lopes, ficaram para a História. Mas muitos outros houve.

Aliás, até os tipos lá na Câmara escaqueirarem aquilo tudo a começar nos anos 40, a Praça 7 de Março e a Rua Araújo eram uma espécie de Feira Popular da Cidade.

Depois de 75 a Frelimo ainda se meteu nisso mas durou pouco. Alguém se lembra do desfile na 25 de Setembro (a previamente Av da República) quando os chefes da Frelimo se lembraram de meter no desfile aqueles tanques de guerra obsoletos e pesados(mas lindos, se bem que não serviam para nada) que os amigos comunas lhes deram, e as lagartas do tanques destruiram completamente o piso de alcatrão, e a Avenida durante séculos ficou uma lástima? pois. Os portugueses não tinham tanques em Lourenço Marques e os desfiles militares eram a pé. Era mais barato e sapato não estraga o alcatrão.

Sendo a guerra no Norte (onde voltou com requintes de malvadez estes dias), presumo que estas tropas, compostas por valentes desgraçados arrancados às suas famílias lá em Portugal. estavam de passagem. Maioritariamente pobres e mal alfabetizados, ficavam positivamente deslumbrados com a Cidade e percebiam que aquilo não era bem o Portugal que conheciam. A seguir, iam para o Norte, onde a coisa era mais primária.

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2 de 6. Quando estes tropas canatavam todos ao mesmo tempo canções lá da tropa, era impressionante.
3 de 6 – Isto devem ser os Dragões.
4 de 6 – Uma menina atira papelinhos aos soldados.
5 de 6 – Desfile na Avenida da República no sentido nascente-poente. Note-se o Luna Parque montado à esquerda e que costumava ser montado ali todos os invernos (Junho a Setembro).
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22/09/2022

O CLUBE NAVAL DE LOURENÇO MARQUES, MEADOS DA DÉCADA DE 1960

Imagens retocadas.

O Clube Naval, cerca de 1965. Naquele tempo, era comum esta parte da Baía ter muitos navios fundeados, penso que à espera de vez para atracar.

O Clube Naval, visto de Sul. À esquerda vê-se parte das barreiras reforçadas onde havia um parque a que eu chamava Jardim do Paraíso e onde ia passear com o meu cão. No topo, à direita e fora de vista estava (ainda) o Pavilhão de Chá da Polana, onde estava o Restaurante Oceânia.

A IGREJA DE SANTO ANTÓNIO DA POLANA EM LOURENÇO MARQUES, 1965

Imagem retocada.

21/09/2022

O BAPTISMO DA LOCOMOTIVA “PRINCE LUIZ PHILIPPE” EM LOURENÇO MARQUES, 1887

Imagem retocada.

O Coronel Edward Macmurdo, o algo polémico investidor norte-americano (ainda por cima de Kentucky) que ganhou a concessão para a construção e exploração da linha férrea entre Lourenço Marques e Ressano Garcia, é um mistério, quer pelo que se sabe dele, quer pelo que não se sabe. Não é o meu objectivo aqui falar nisso, apenas aludir.

Por exemplo, como ele ganhou a concessão, que fez de um delapidado presídio numa baía cobiçada num buraco infecto no meio de lado nenhum a capital de Moçambique. Do pouco que li, apenas é dito que ele foi a Lisboa em 1883 e…zás, concessão atribuída. Assim, sem mais nem menos, para a que era considerada a linha férrea mais cobiçada do Planeta Terra.

Depois fez uma sequência de canganhiças seguidas mais ou menos bem documentadas para sacar dinheiro dos seus investidores em Londres e tirar a concessão do controlo português (desprezível e irrelevante mas uma condição prévia). Só mesmo quando já estava com as costas contra a parede é que lá contratou um inglês que fez a linha, aparentemente à pressa e mal pois logo nas primeiras chuvadas a linha ficou intransitável.

Mais grave, “enganou-se” – ou foi enganado, o debate perpetuou-se – e quando completou o trabalho foi informado que “afenal” ali no KM 81.97 não era a fronteira com o Transvaal, a fronteira era em Ressano Garcia, a oito quilómetros de distância, no KM 89.97 . O contrato dizia que a linha tinha que acabar na fronteira, ele tinha um prazo a cumprir e estava-se em plena estação das chuvas, Mucmurdo não tinha material localmente para estender a linha nem para as pontes etc, que tinha que vir de fora. Os portugueses, que tinham adiado a conclusão do projecto “n” vezes, desta vez não extenderam o prazo e, não estando o contrato de concessão cumprido na data-limite (para aí em 30 de Junho de 1889) confiscaram tudo. Mucmurdo entretanto tem um ataque de coração e morre. Os ingleses mandam-se ao ar com o confisco e rosnam. Eu estou convicto de que o “Ultimato” de 1890 foi em parte resultante deste episódio que os britânicos devem ter achado um puro atrevimento por parte dos políticos portugueses, motivando uma breve interrupção na tal aliança com 600 anos.

Mas voltando ao Macmurdo (ainda não se conhece uma foto da criatura e não é por falta de se procurar), havia algo ainda mais curioso que ele fez, mostrando uma dose de iniciativa e lata verdadeiramente impressionantes. Deve ser porque em tempos Macmurdo esteve envolvido com jornais em Londres e até esteve metido num escândalo que foi mais ou menos abafado na altura. Mas pouco depois de ganhar a Concessão ferroviária de Lourenço Marques, ele, de que não se conhecem grandes antecedentes omo escritor, historiador e muito menos académico…. escreveu e publicou (1888) um espesso livro sobre a História de Portugal que mais tarde se tornou “na” referência no mundo anglófono sobre Portugal. Quem na altura só falasse inglês e basicamente queria conhecer a história de Portugal tinha que ler o livro dele. Na altura em que me apercebi disto tive que ir confirmar pois eu não conseguia reconciliar a pessoa que andou nos esquemas da Concessão com a iniciativa de publicar um livro de história. Mas era mesmo ele. Ainda hoje existem inúmeras cópias do livro dele nas bibliotecas em todo o mundo.

Presumo que o livro fizesse parte da campanha de charme dele relacionada com as maroscas que ele fazia com os assuntos da Concessão.

Outra acção de charme foi a que se vê em baixo.

Em 1887, Portugal era uma monarquia constitucional e o rei era Sua Majestade D. Luiz I. Casado com a italiana Maria Pia e cujo herdeiro era D: Carlos, o Príncipe Real que pouco antes casou com a lindíssima e brasonadíssima Amélie de Orléàns, uma francesa. Luiz vivia no meio inacabado palácio na Ajuda e Carlos vivia com a sua Amélie num palacetezinho perto das ruinas então recentemente reconstruídos do Mosteiro dos Jerónimos, em Belém. Que hoje é o palácio presidencial onde Marcelo Rebelo de Sousa reside oficial e temporariamente.

Foi nesse mesmo pequeno palacete que, às 9 horas da noite de 21 de março de 1887 nasceu o seu primogénito, a quem imediatamente foi dado o título de Príncipe da Beira. Os seus padrinhos foram o seu avô paterno, o Rei D. Luís I e a sua avó materna, a Condessa de Paris. O seu baptizado foi a 14 de abril de 1887 na Capela do Palácio de Belém pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Sebastião Neto. E foi entregue à responsabilidade da ama Carlota de Campos e da Dama D.Isabel Saldanha de Gama da Casa da Ponte.

O seu nome completo era Luís Filipe Maria Carlos Amélio Fernando Victor Manuel António Lourenço Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Bento.

A dez mil quilómentros de distância em Lourenço Marques, os homens de Macmurdo prosseguiam com a tourada de fazer a linha de caminho de ferro para o Transvaal. Mas, em mais uma dose de charme, um dia pararam tudo, pegaram numa locomotiva a que, numa cerimónia solene, deram o nome do futuro herdeiro da coroa (viria a sê-lo dois anos mais tarde, no dia 19 de Outubro de 1889, quando o seu Avô o Rei D Luiz faleceu na Cidadela de Cascais e o seu Pai tornou-se rei).

Que foi publicada, em mais uma acção de charme, num lindo album de fotografias que mandou imprimir.

A cerimónia de benção da locomotiva “Prince Luiz Philippe” em Lourenço Marques, 1887. Note-se a demografia: os dignitários são quase todos brancos, a audiência é maioritariamente negra e asiática.

Fontes:

https://doi.org/10.1080/10113439609511086

https://onlinebooks.library.upenn.edu/webbin/book/lookupname?key=McMurdo%2C%20Edward

O AVIÃO MISTÉRIO DA DETA, ANOS 50

Imagem retocada.

A aeronave em baixo é um Lockeed Lodestar da DETA (que depois mudaram o nome para LAM). O magistral sítio Voando em Moçambique contém quase tudo o que se pode querer ver e saber sobre pilotos e aviões de Moçambique mas … eis o mistério:

  1. na imagem que aqui se vê, vê-se um Lockheed com a matrícula que se pode ler – CR-AD;
  2. e o nome da aeronave à frente é “Zambeze”;
  3. mas o único CR-AD” do nosso blogue aeronáutico é o Lockheed 18-08 Lodestar CR-ADJ, que se chamava “Save”;
  4. e o único “Zambeze” que vi nesta classe é o CR-AAV, um Lockheed 14-H2 Super Electra 1508.

Enviei esta imagem à Sra Luísa Hingá, Chairwoman do Comité de Análise e Verificações do Voando em Moçambique, para verem o que se passa. O Exmo. Sr. Comandante José Vilhena, que sabe tudo, explicou:

“Exisitram dois aviões baptizados Zambeze na frota da DETA, o CS-AAX Lockheed 14-H2 Super Electra, que foi destruído em Inhambane em 14 de Novembro de 1941 (Piloto Borges Delgado) e o CR-ADJ Lockheed 18-08 Lodestar, adquirido em 1951. O “Save” era o CR-AEP, Lockheed 18-08 Lodestar que foi vendido para o Katanga em 1962.”

O Lockeheed misterioso da DETA.

20/09/2022

LEONOR MAIA, ACTRIZ DE LOURENÇO MARQUES

Filed under: Leonor Maia actriz — ABM @ 14:03

Imagem retocada.

Leonor Maia, aqui com 21 anos e acabada de sair de Lourenço Marques, onde nasceu e cresceu.

Citando a Wikipédia:

Leonor Maia, pseudónimo de Maria da Conceição de Vasconcelos (Lourenço Marques, 8 de Dezembro de 1921 — Estoril, Portugal, 3 de Abril de 2010) foi uma atriz do cinema Português na década de 1940, mais lembrada pelo seu papel em O Pai Tirano, onde interpretou Tatão. Retirou-se do cinema em 1953. Maria da Conceição de Vasconcelos, nasceu em 1921 em Lourenço Marques. Em 1940, o realizador português António Lopes Ribeiro durante as filmagens do filme Feitiço do Império, realizado em África, conheceu esta jovem, ficando impressionado com a sua beleza e simpatia (ah ah) . Pensou imediatamente em dar-lhe o papel de Fay Gordon, que acabou por ser desempenhado por Madalena Sotto. Em seguida convidou-a a ir para a Metrópole para tentar a sorte no mundo do cinema. Maria da Conceição aceita o convite e viaja até Lisboa para prestar provas para o filme O Pai Tirano, o que agrada imediatamente. Adopta então o nome artístico de Leonor Maia, mas o nome com que ficará para sempre conhecida será o nome de Tatão, papel que interpretaria em O Pai Tirano. Protagonizou inúmeros filmes da década de quarenta, obtendo rasgados elogios da crítica e do público, sendo o seu nome num cartaz sinónimo de sucesso de bilheteira. Em 1948, ganhou o prémio do SNI para a melhor actriz pelo seu papel no filme Serra Brava. Em 1953 entra num filme americano que iria ser filmado em Lisboa, Kill or Be Killed, realizado por Max Nosseck. No mesmo ano retira-se da vida artística e casa com o coronel da força aérea americana James B. Pritchard, de quem teve dois filhos, Michael e Paul. Viveu na Holanda, em Paris e Londres, voltando a Portugal em 1971, passando a residir no Estoril, onde faleceu aos 88 anos, em 2010.

O seu nome faz parte das toponímias de Almada (Freguesia da Charneca de Caparica) e Sintra (Freguesia de Rio de Mouro).

18/09/2022

O PRIMEIRO VÔO SOBRE LOURENÇO MARQUES, 1911

A primeira imagem, retocada e colorida, é da colecção de Alfredo Pereira de Lima. A segunda imagem foi copiada da Wikipédia.

Segundo Alfredo Pereira de Lima, confirmado por mim independentemente, John Weston fez um vôo de exibição em Lourenço Marques em 1911, como parte de uma série de vôos de demonstração em Johannesburgo, Bloemfontein, Cidade do Cabo, Kenilworth, East London, King Williams Town e Queenstown.

O que penso (sujeito a confirmação pela Senhora Comandanta Luisa Hingá) que significa que foi a primeira pessoa a operar um meio aéreo em solo moçambicano.

A biografia de John Weston, um sul-africano que viveu entre 1873 e 1950, é quase estonteante mas vale a pena ler. A Wikipédia tem um esboço na língua da Rainha Elizabeth II e que pode ser lida aqui.

Penso que isto é a Praia do Albasini, na altura ficava a seguir ao Presídio de Lourenço Marques. À direita vê-se a Ponta Vermelha.

John Weston sentado com a sua mulher Lily e os filhos Kathleen, Anna e Max. Cerca de 1923. Um improvável e pouco conhecido pioneiro da aviação de Moçambique.

17/09/2022

O FILME “O ZÉ DO BURRO” EM LOURENÇO MARQUES, 1971

Imagem retocada.

Eu vi este filme no Cinema Dicca em Lourenço Marques, pouco depois da sua pomposa estreia no dia 27 de Julho de 1971. Tinha 11 anos portanto e só fui porque aquilo foi-me vendido como uma comédia tipo filme do Cantinflas, mas feito localmente. Claro que fui mais do que enganado. Apesar da tenra idade, eu não era exactamente mentecapto e se bem que não estava dentro das tricas todas da guerra lá no Norte de Moçambique – que nem sequer era bem descrita como tal lá em casa e à minha volta (era mais uns turras que inexplicavelmente andavam a chatear não sabia bem porquê) – até um mentecapto encartado perceberia logo a peça de pseudo propaganda barata que aquilo era, uma espécie de acção psico-social em versão cinematográfica para enganar patego, disfarçada de comédia. Não sei quem é que em Lourenço Marques não percebeu a chachada que aquilo era. E que nem sequer achei assim tão engraçada como isso, os meus padrões então já elevados estratosfericamente por filmes como Trinitá, Cantinflas. Franco Franci e Tchitchio Engracia, Charlot, a Pantera Cor de Rosa, Pamplinas, etc etc etc. Para não falar de 2001 Uma Odisseia no Espaço.

Só menciono isto porque outro dia – aí sim – ri-me discreta mas vigorosamente, a ler um longo e insípido texto académico de um idiota qualquer que é professor doutorado e pesquisador de assuntos de história africana duma universidade qualquer pouco sonante, um desses que nunca conheceu nem sequer suspeita o que foi era colonial mas que por ser daquela esquerda politicamente correcta, de ter tirado uns cursozitos e lido uns livritos e depois ter ido passar três meses a Maputo, e engolido a versão “libertadora” dos factos, acha que sabe mais do que nós todos juntos. No seu paper, ele disseca e analisa detalhadamente o filme, no contexto do colonialismo português, da guerra, da opressão, da libertação e do raio que o parta. A análise pareceu-me tão senão mais ridícula, mas certamente bem mais divertida, que as cenas do Zé do Burro e o Cacilhas, a tentar vender a “missão civilizadora” e a converter um “turra” num parolo português.

Uma cena de “O Zé do Burro”, filme de Eurico Ferreira, com José Bandeira no papel do Zé do Burro e um burro com o papel do Burro Cacilhas.
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