THE DELAGOA BAY WORLD

25/08/2011

SOBRE O NOME DO LICEU DONA ANA DA COSTA PORTUGAL EM LOURENÇO MARQUES

Texto de Alfredo Pereira de Lima, pela mão da sua filha Cristina, reproduzido com vénia, a esclarecer o relativo mistério do nome do então sector feminino do conhecido complexo liceal na Polana, que incluia o sector masculino, o Liceu Salazar. Muita gente não sabe quem foi a senhora. Aqui revela-se quem foi. Hoje o complexo é o Liceu Josina Machel em Maputo. Josina Machel (10 de Agosto de 1945 -7 de Abril de 1971) foi casada com Samora Machel, primeiro presidente após a Independência e morreu em combate durante a guerra pela Independência.

Os liceus Salazar e Dona Ana da Costa Portugal em Lourenço Marques, anos 60.

“O final do Séc XVIII,convulsionado pela Revolução Francesa – o maior acontecimento da História Moderna que com ela finda – também foi muito agitado para Lourenço Marques com reflexo do que se processava na Europa.
Vendo-nos abandonados pela Espanha – com a maior ingratidão – e pela Inglaterra – que nos utilizara apenas em beneficio exclusivo dos seus interesses – os corsários franceses sentiram-se com ânimo, seguros de impunidade, para incomodar o que nos restava do comércio com o Ultramar.

Foi assim que na manhã trágica de 26 de Outubro de 1796, corsários franceses que infestavam o canal de Moçambique, embarcados em três navios bem artilhados, forçaram sem dificuldades a barra da Inhaca e investiram contra o frágil presídio que encontraram na margem esquerdo do rio do Espírito Santo como afirmação de presença de Portugal neste canto de Àfrica, desde os tempos de Joaquim de Araújo.

O frágil reduto, cuja defesa encontrava-se a cargo do governador João da Costa Soares – que aliás não estava á altura da situação- foi atacado, saqueado e destruído. Como era de madeira ardeu em poucas horas. A sua diminuta guarnição abandonara-o á sua sorte, refugiando-se no “mato”, ainda tentando alguns alcançar, por terra, a vila de Inhambane.
Desapareceu dêste modo inglóriamente em escassas horas o que levara tanto tempo a erguer à custa de penosos sacrifícios iniciados por Joaquim de Araújo, seu primeiro governador, que dando cumprimento ás ordenações de El-Rei D. José lançara os fundamentos do presidio, em 1782, e pelo qual não fora menor o sacrifício de vidas do governador Costa Portugal, de sua mulher, D. Ana, e de um filho de tenra idade, vítimas da insalubridade do clima. “
( “Pedras Que Já Não Falam” por Alfredo Pereira de Lima)

“ Morte de D. Ana da Costa Portugal”

Escassos são os documentos que temos, pelos quais nos seja dado reconstituir em pormenor os momentos dolorosos da morte do seu quarto governador, Joaquim da Costa Portugal, de sua mulher D. Ana e de um filho. No relato que nos deixou dos “Negócios da Capitania de Mossambique nos fins de Novembro do Anno de 1789” encontra-se feita por Nogueira de Andrade apenas esta citação:

“…Seguiu-se-lhe, Joaquim José da Costa Portugal, com a mesma ou mayor infelicidade, pois aly perdeo sua mulher, e hum filho, e elle morreu, deixando seus outros filhos e filhas em lastimoso desamparo. “

Que drama pungente se não teria passado naquele triste presídio, vendo o Governador Costa Portugal morrer, sem lhes poder valer, sua mulher e um filho ?! E quão grande não seria, depois sua amargura enquanto a Morte o não viesse libertar do seu sofrimento ?!”

( in “Edifícios Históricos de Lourenço Marques” por Alfredo Pereira de Lima )

9 comentários »

  1. Andei no Liceu D. Ana. Nunca nos foi explicada a razão do seu nome, nem de quem se tratava. Coisas desses tempos. Obrigada a quem deixou este texto,

    Comentar por Helena Mártires — 29/01/2012 @ 00:09

  2. Inauguração do Liceu Salazar
    No dia 1 de Outubro inaugurou-se em Lourenço Marques o Liceu Salazar, que fica a ser o melhor do território português, vasto edifício de estilo moderno, em cujos materiais de construção predominam o vidro e o mármore. Do corpo central, dois grandes pavilhões avançam para a rua, ladeando um espaçoso terreno ajardinado, em cujo centro fica a estátua de Salazar, da autoria do escultor Francisco Franco.
    O custo do edifício foi de 30 mil contos, quantia a que tem de se juntar a verba de 8.500 contos para mobiliário e material didáctico. A extensão total dos corredores soma 2.700 metros. O salão de festas, com palco, tem capacidade para 1.500 espectadores e as cortinas e os panos de fundo e da boca de cena, para o palco, importaram em mais 500 contos. A piscina mede 25 metros de comprimento por 10 de largura e é ladeada por dois balneários de mármore para 40 pessoas cada um ( o dos alunos e o das alunas).
    A área total ocupada pelo Liceu Salazar é de 29.000 metros quadrados e a área coberta de 9.000 metros, dos quais 2.000 para o salão de festas, para onde se adquiriram cadeiras que importaram em mais de 450 contos. O custo das carteiras para as aulas foi de 800 contos e o das cadeiras para os vários anfiteatros de 160.
    O liceu dispõe de dois amplos ginásios, para os quais foram adquiridos material no valor de 350 contos; cinco grandes elevadores; uma rede interna de 50 telefones, dois rinks de patinagem e quatro campos de voleibol.
    Outros números expressivos: para a biblioteca adquiriram-se estante e outro mobiliário por 450 contos; custou 200 contos o material adquirido agora para o laboratório de física, já, por sinal, bem apetrechado no antigo liceu; também se compraram filmes educativos no valor de 250 contos, material de geografia no valor de 100, e material para as salas de ciências naturais no valor de mais de 100. As despesas como o gabinete do médico escolar importaram em cerca de 30 contos. O anfiteatro de canto coral, contíguo às instalações da Mocidade Portuguesa, está equipado com um piano e um órgão eléctrico, o salão de festas com outro piano. A máquina de projectar é igual à do melhor cinema de Lourenço Marques. Outra para filmes de 16 milímetros, foi comprada por 36 contos.
    No gabinete do reitor há uma mesa de comando através da qual pode em qualquer momento, graças à aparelhagem eléctrica apropriada, entrar em comunicação directa, por meio de alto-falantes, com qualquer sala de aula ou dependência.
    À sessão inaugural presidirá o governador-geral, Sr. Comandante Gabriel Teixeira, assistindo o cardeal-arcebispo de Lourenço Marques, D. Teodósio de Gouveia.
    (Boletim Geral do Ultramar – XXVIII-326 e 327 Nº 326-327 – Vol XXVIII, 1952, 317pags.)

    Comentar por Fernanda Simões — 19/06/2012 @ 18:58

  3. Samora Machel não morreu nos anos 60 e muito menos durante a guerra (colonial). Morreu em 19 de Outubro de 1986 vítima de um acidente de aviação.

    Comentar por Carlos Eugénio F. L. Monteiro de Sousa — 19/05/2016 @ 01:46

    • Caro Carlos, referia-me à Josina, não ao Samora. Cumprimentos, ABM

      Comentar por ABM — 23/05/2016 @ 21:54

  4. Josina morreu em 71.

    Comentar por A. Roxo Leão — 17/05/2019 @ 09:18

    • Olá Roxo Leão,
      Muito grato pela nota, já corrigi a informação.
      Um abraço
      ABM

      Comentar por ABM — 17/05/2019 @ 10:20

    • Gostava de saber qual a fonte de A. Pereira de Lima sobre Lourenço Marques em 1782-1796.

      Comentar por Antonio Jose — 18/05/2019 @ 10:06

    • Olá outra vez RL,
      A dono dos direitos de autor e da totalidade do espólio de Pereira de Lima (e que, supostamente, o mantém) é a sua Filha que vive na linha do Estoril. Talvez encaminhando para ela. Atenciosamente, ABM

      Comentar por ABM — 18/05/2019 @ 15:25

    • Obrigado. São uns anos muito confusos e turbulentos e há pouca informação fora dos arquivos…

      Comentar por Antonio Jose — 19/05/2019 @ 05:57


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