THE DELAGOA BAY WORLD

16/04/2012

SARAH PINTO COELHO E MOÇAMBIQUE

Num dos corredores da sede da Rádio Moçambique, a sucessora do Rádio Clube de Moçambique, um quadro recorda o teatro na rádio de Moçambique, de que, com outros, Sara Pinto Coelho fazia parte. Se alguém tiver uma foto decente dela para colocar aqui, peço que ma envie para colocar aqui. Ela merece. Esta é a minha homenagem a um programa que, em miúdo, me deliciou e me deixava com o ouvido colado ao velho Telefunken lá de casa, nos serões de quarta-feira.

Dum sítio da DGLB, que cita o Dicionário Cronológico dos Autores Portugueses (Lisboa, Vol. IV, 1997) refiro o seguinte resumo biográfico:

Nome: Sarah Augusta de Lima Abreu Pinto Coelho

Nasceu: Ilha do Príncipe, São Tomé e Príncipe, 1913
Faleceu: Vila Nova de Gaia, Portugal, 1990

Dramaturga, contista, tradutora, encenadora e intérprete de teatro radiofónico, autora de literatura infantil e professora do ensino primário. Oriunda de famílias do Porto e de Braga (o seu nascimento casual na Roça Esperança da Ilha do Príncipe deveu-se a uma fortuita e fracassada tentativa de fortuna por parte de seu pai, Manuel dos Santos Abreu), Sarah Pinto Coelho termina com distinção, em 1933, o curso da Escola do Magistério Primário do Porto. Ali e em Braga, terra natal de sua mãe Sara, dedica-se ao ensino, durante dez anos.

Mulher culta, enérgica e de contagiante sociabilidade, os seus convictos ideais católicos levaram-na, nos anos 40 e 50, a uma intensa actividade junto das crianças dos bairros negros dos subúrbios da capital moçambicana, Xipamanine e São José de Llanguene, quer enquanto professora do ensino primário, quer em obras sociais da Acção Católica e das Conferências de São Vicente de Paula.

O Estado Novo e os seus corolários de estabilidade política e ligação à Igreja Católica mereceram-lhe clara adesão, convencida de que Salazar encontrava «nas páginas do Evangelho, a sua doutrina de silêncio, de sacrifício, de eternidade.» (Discurso nos Paços do Concelho de Lourenço Marques, em Abril de 1948).

Estavam reunidos os ingredientes para vários anos de notoriedade política, mau grado o facto de se tratar de uma mulher. («O que poderei eu dizer-vos, nesta sessão solene, eu que nada sei de política, como convém à mulher?» – ironizou, no discurso acima referido).

Desdobra-se, então, entre a sala de aulas, os bairros miseráveis do «caniço» e os salões da alta sociedade, ouvida pelo governador e pela hierarquia eclesiástica, assinando artigos para os jornais, chamada a reuniões com os inspectores do poder colonial. Mantinha-se, no entanto, uma das principais clientes da Minerva Central, onde o velho Carvalhinho, livreiro e maçon, lhe reservava pressurosamente todas as novidades literárias chegadas à colónia.

Pouco a pouco, porém, o seu conhecimento diário das realidades sociais e a impetuosidade da sua voz combativa começaram a tornar incómoda a sua presença nos gabinetes de decisão. Primeiro aconselhada a moderar as suas relações com a comunidade negra, e depois firmemente admoestada pela hierarquia do funcionalismo público a que pertencia, chega aos anos sessenta afastada da vida pública, desiludida com os caminhos do salazarismo, cáustica em relação à corte cardinalícia e mergulhada numa relação com o divino que já não passava mais pelos ritos mundanos.

Em Maio de 1967 aceita o convite do Rádio Clube de Moçambique para dirigir a sua prestigiada Secção de Teatro, sucedendo a actores famosos (Alfredo Ruas, Thomaz Vieira) e ao poeta Reinaldo Ferreira. Começa então o mais fecundo capítulo da sua vida de criadora literária. Assinando com o seu nome próprio, mas também com os pseudónimos Costa Lima e Mara de Noronha, escreveu cerca de duas dezenas de peças de teatro, que foram interpretadas, sob sua direcção, por actores locais e também por grandes figuras da cena nacional, que se deslocavam regularmente em «tournées» pelas colónias.

Para assegurar a periodicidade semanal da rubrica de teatro, «Teatro em Sua Casa», seleccionou, traduziu e adaptou originais do grande Teatro universal: Shakespeare, Claudel, Mihura, Pinter, Sommerset Maugham, Tchekov, Priestley, Gogol, Alfonso Sastre, Michel de Ghelderode, Oscar Wilde, Pearl Buck, entre outros.

Mas foi no seu repertório português que os ouvintes puderam encontrar obras muitas vezes proibidas pela Censura de Lisboa, mas que o tropicalismo ignorante ali deixava passar, vergando-se à fluência da argumentação e à tenacidade de quem as apresentava. E assim foram interpretados Bernardo Santareno, Alves Redol, Luiz Francisco-Rebello, Sttau Monteiro, Prista Monteiro, José Gomes Ferreira, Romeu Correia e Costa Ferreira, a par, evidentemente, de Joaquim Paço d’Arcos, Luiz Forjaz Trigueiros, Gervásio Lobato, José Régio, Miguel Torga, Leitão de Barros, Eduardo Schwalbach, Olavo d’Eça Leal, António Patrício, Ramada Curto, Alexandre Herculano, Marcelino Mesquita, Fernanda de Castro.

O sucesso e o prestígio do seu trabalho levaram a direcção do Rádio Clube de Moçambique a pedir-lhe que, além da referida rubrica semanal de teatro, produzisse igualmente um programa quinzenal de contos radiofónicos, o que ela aceitou com agrado, não só porque isso lhe permitia alargar a oferta cultural a um auditório que a estimulava com encómios, mas também porque o género lhe abria portas ao transbordo da sua sensibilidade e das suas inquietações.

A oralidade marca permanentemente o seu discurso literário, quer na dramaturgia, quer no conto, onde é patente uma preocupação formal pela fluência da mensagem – que ela queria fácil, decorrente e forte. Mas principalmente fácil, como mandam as regras da radiofonia, onde o mensageiro passa uma só vez e depressa.

Em 1972, regressada a Portugal, instala-se em Miramar [Vila Nova de Gaia], junto de amigos da juventude, e escreve pequenos contos e páginas de diário. Mas, depois de África e seus horizontes largos, da vida trepidante e produtiva, do público reconhecimento e apreço, que para ela sempre foram geradores de poderosas energias criativas, o tempo de Miramar foi demasiado vazio e confinado. As suas últimas obras, de onde África está significativamente ausente, traduzem o imenso desencanto em que se finou, na madrugada de 4 de Dezembro de 1990.

Foi em Lourenço Marques que Sarah Pinto Coelho produziu a maior parte da sua obra literária, entre 1945 e 1972, data do seu regresso definitivo a Portugal. Cuidadosamente dactilografados e encadernados, deixou dezenas de contos, peças de teatro, crónicas, notas, discursos políticos e alguns poemas. Em edição póstuma organizada por seu filho, o jornalista Carlos Pinto Coelho, publicou-se uma colectânea dos últimos contos que escreveu, na sua casa de Miramar, onde faleceu: Memórias de uma Menina Velha (1994).

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1 Comentário »

  1. todas as quartas feiras, ficava sentada na cama dos meus pais, mais as minhas irmãs à volta do rádio ouvir, adorava ouvir o começo, ( voz bem marcanre a dizer : teatro em sua casa ) saudades desses tempos.

    Comentar por maria odete antonio — 13/01/2015 @ 18:04


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