THE DELAGOA BAY WORLD

01/05/2012

A HISTÓRIA DA CERVEJA LAURENTINA EM MOÇAMBIQUE

A Cerveja Laurentina traça as suas origens à Fábrica Vitória, propriedade do empresário grego radicado em Lourenço Marquers, George Cretikos. Em 1916, detectando a falta de gêlo para manter fresco o peixe e para alimentar as geleiras de Lourenço Marques, Cretikos abriu na parte poente da cidade uma fábrica de gêlo e de água mineral, denominada Victoria Cold Storage and Ice Factory, Ltd (ver o nome neste blogue no índice sob “empresas”).

Nascida em 1932, a Cerveja Laurentina presta homenagem ao nome original da actual capital de Moçambique – Lourenço Marques – cujos naturais eram chamados Laurentinos (alternativamente, “Coca Colas”. Sobre este tópico, ver neste blogue quando a Coca-Cola foi introduzida em Moçambique e por quem).

A Baixa de Lourenço Marques, tendo em primeiro plano a Avenida da República (actual 25 de Setembro). Mesmo em frente o Café Olímpia (onde hoje se situa a sede do Millenium BIM), a seguir o Bazar, e a estrutura ao fundo com o edifício mais alto, é a Fábrica Vitória, mais tarde Fábricas Reunidas. Era ali que se fabricava a Cerveja Laurentina.

A Fábrica Vitória no final dos anos 1940, fotografia do espólio de José Godinho, do seu pai o grande nadador João Godinho, que tirou a fotografia.

Primeiro produzida na baixa de Lourenço Marques pelas Fábricas Reunidas (resultante da fusão entre a Fábrica Vitória e creio que Nacional) desde há alguns anos que é produzida pela empresa de Moçambique Cervejas de Moçambique (detida pela gigante SAB Miller, por sua vez resultante da privatização da SOGER, a entidade que se seguiu ao confisco da Reunidas na altura da Independência, para as mãos da BGI-Castel) e voltou à concorrência acérrima em relação à outra grande marca de cerveja da área de Maputo, a também detidfa pela SAB Miller 2M (que vem de Mac-Mahon, o presidente francês que em 24 de Julho de 1875 decidiu que o Sul de Moçambique pertencia a Portugal, data que até à Independência era o feriado municipal da capital moçambicana) e a Manica, cerveja tradicionalmente dominante no centro do país.

Rótulo da Laurentina tipo pilsener. Como não percebo nada de cerveja não sei o que é “pilsener”.

 

O rótulo em 1949.

 

O rótulo em 1957.

 

O rótulo em 1962.

Enquanto marca, a Laurentina teve um destino curioso, pois após a proclamação da Independência de Moçambique em meados de 1975, foi produzida durante alguns anos uma cerveja com a mesma designação e imagem mas fora de Moçambique (África do Sul e Alemanha). Miguel Buccellato, do grande clã Buccellato de Lourenço Marques, contou a história em 2004:

“Com a guerra e a pobreza [após a Independência] o diagrama de fabrico foi desrespeitado e foram utilizadas matérias primas fora do espectro água, malte e lúpulo, sendo que a própria água já não seria a mesma. Esta situação manteve-se até há alguns anos atrás em que acabou por desaparecer. 
Ao mesmo tempo, dois empresários em partes diferentes do mundo acharam que a Laurentina ainda tinha futuro e (um em Portugal e outro na África do Sul) e registaram a marca em seu nome. Para que se saiba, nunca antes ninguém (nem mesmo a Reunidas) se tinha sequer lembrado de a registar. 

Em 1994 a marca foi registada em Portugal pelo meu pai, sendo que foi lançada no mercado nacional em Agosto de 1995. Na altura, depois de se ter apresentado o projecto a várias cervejeiras nacionais e internacionais, finalmente se encontrou o parceiro certo, a Karlsberg Brauerei em Homburg na Alemanha. Também por isso, a Laurentina respeitava a Lei da Pureza, que significa ser produzida apenas a partir de água, malte e lúpulo. O canal de vendas em que se apostou foi na moderna distribuição e esteve presente em todas as cadeias relevantes (Continente, Carrefour, Jumbo, Pingo Doce, etc). Pelo seu posicionamento como um produto de qualidade e preço superior, as vendas correram muito bem nos primeiros dois anos, tendo também sido exportada para a África do Sul, onde ainda não estava registada. Ao longo do tempo, e por falta de investimento publicitário, as vendas foram decaindo até chegarem a um ponto que não era compensatório para a empresa. E em Maio de 2001, beberam-se as últimas Laurentinas.

No final da década de 1990, a marca foi, como já disse, registada na África do Sul por Giorgio Pagan e começou a ser produzida pela South African Breweries (que está entre as cinco maiores cervejeiras do mundo). Esta situação manteve-se durante algum tempo tendo até inclusivé sido exportada cerveja para Moçambique. Há cerca de um ano [2003] recebemos duas ou três garrafas de amostra, para testar uma eventual reentrada da Laurentina no mercado nacional. Só que aí o problema mantinha-se, o preço continuava elevado (ainda mais caro do que produzir na Alemanha) e a qualidade não “chegava aos calcanhares” da nossa Laurentina. Hoje sei que a South African Breweries comprou a marca e que a Guiness comprou a SAB e que, portanto, qualquer dia temos um “Gigante” a pegar outra vez na Laurentina cá em Portugal e aí tenho a certeza que pode ganhar uma importante quota de mercado. Posso também dizer que a Laurentina que foi vendida cá, embora fabricada na Alemanha, tinha exactamente o mesmo diagrama de fabrico que era utilizado nos seus anos de ouro em Moçambique, pois o meu bisavô foi Presidente das Fábricas Reunidas.”

Uma garrafa de Laurentina Preta, 2011. Uma marca que ajuda a definir a marca Moçambique no Século XXI.

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11 comentários »

  1. Caro ABM, aqui uma curta info sobre cerveja tipo Pilsener :

    Pilsener é um tipo de cerveja de baixa fermentação fabricada com maltes especiais e produzido na cidade de Pilsen, situada na provincia da Boêmia, na atual República Tcheca. É chamada pilsener, pils ou pilsen conforme a língua do país onde é produzida.

    O amargor deve situar-se entre 15 e 35 IBU sendo este composto pela combinação dos lúpulos Saaz, Tettnanger, Spalt, Hersbrucker, Hallertau, Nugget, Cluster e Perle. Deve-se utilizar pelo menos dois deles, um classificado como “amargor”, como o Cluster e outro como “aromático” como o Saaz.

    As pilsener, como toda cerveja de baixa fermentação (lager), deve ter a temperatura controlada entre 10 e 12 graus durante o processo de fermentação.

    A graduação alcoólica deve ficar entre 4,5% e 5,5%, conforme o teor de extrato.

    Deve ser bebida gelada, entre 3 e 6 graus celsius.

    (http://pt.wikipedia.org/wiki/Pilsener)

    Aqui na Alemanha é o tipo de cerveja que mais se fabrica e também de longe a mais consumida. É conhecida normalmente por Pils.

    A propósito, eu também sou um desconhecedor nao só de cerveja, mas de bebidas alcoólicas em geral. Como nao gosto nem do cheiro nem do sabor, nunca bebi alcool na minha vida.

    Comentar por José Viegas — 04/05/2012 @ 14:56

    • Olá José, obrigado pela informação, que enriquece aqui o cantinho para quem visita e entretanto aprendi mais uma. Um abraço e bom fim de semana. ABM

      Comentar por ABM — 04/05/2012 @ 17:44

    • Realmente eu sou mais da Coca-Cola zero e sumo de laranja. Mas gostava um dia de fazer aqui um textozinho sobre o Capilé e a Groselha do Dias dos Xaropes…. tenho que ver isso. ABM

      Comentar por ABM — 04/05/2012 @ 17:45

  2. Olá António, alegro-me que tenha gostado. Eu também aprendi algo pois nada sabia sobre tudo o que escreveu neste artigo. Acho excelente a ideia de escrever sobre o Dias dos Xaropes. Que saudades de um bom capilé ou groselha…!
    Um bom fim de semana para si e família também

    Comentar por José Viegas — 05/05/2012 @ 10:47

  3. boas to a escrever um artigo sobre um bar, restaurante, tasca, cervejaria ou pastelaria que se chamava laurentina – hoje califórina. alguem pode dar-me elementos sobre esse sítio?

    Comentar por jorge oliveira — 01/07/2012 @ 12:15

    • Olá Jorge,

      A Laurentina a que te referes é quase de certeza a Cervejaria que se situava na esquina da Rua Elias Garcia, a qual, salvo erro, depois passou a chamar-se Augusto Castilho com a Andrade Corvo (nomes antigos). Esta cervejaria era famosa pela qualidade dos petiscos que servia acompanhar a cervejinhas… Na esquina oposta era a Escola Correia da Silva (onde eu fiz a instrução primária). Da última vez que estive no Maputo verifiquei que a “minha escola” foi muito ampliada. Fica no mesmo quarteirão onde ficava o Consulado Britânico (que julgo ser hoje a Embaixada Britânica)

      Um abraço,

      Fernando Silva e Sousa

      Comentar por Fernando Silva e Sousa — 28/11/2015 @ 22:48

  4. A laurentina de hoje é a melhor cerveja que se pode beber ! A preta é a melhor de africa !
    Eu regressei de Moçambique ontem e posso dizer-vos que a Laurentina é de altissima qualidade !
    Se é a tradição, a água , o malte ou o que seja ,não sei . Mas que é boa isso não me deixa duvidas!

    Comentar por carlos — 21/10/2013 @ 21:17

  5. Quando trabalhei na Checa passei muitas vezes em Pilsen. A melhor cerveja é para mim a Pilsner Urquell. Por muitos especialistas a melhor do mundo. Adoro cerveja e prefiro-a até ao Vimto e ao vinho… (Lol)… Desde a Baviera até à Checa que se passa por cidades produtoras de cerveja (o pão líquido, como dizem os especialistas, pois todos os ingredientes do pão estão na cerveja também…). E estes preferem-na não muito fria e muito menos gelada…

    Comentar por Carlos Trocado Ferreira — 21/10/2013 @ 23:23

  6. Lourenço Marques, como eu me lembro de criança.
    Que saudades…

    Comentar por Sérgio Duarte Silva — 21/07/2015 @ 12:14

  7. o meu pai, com 19 anos, foi de clandestino num barco que saiu da cidade do Porto para Lourenço Marques. Ou seja, em 1929. trabalhou praticamente toda a vida nessa fábrica. começou a fazer as grades, que eram de madeira, depois foi chefe da brassagem. Isto até 1978. O Sr Cretikos era tão boa pessoa que o meu pai ficou sem reforma. Quando nasci, o meu pai era dono da cervejaria “Golfinho Verde” numa esquina da Av General Machado. Nós morávamos, por cima. De noite trabalhava na fábrica e de dia na cervejaria. Depois teve de trespassar a cervejaria e ficou só com o trabalho na fábrica. quase todos os dias ia ter com ele à fábrica quando saía da escola.

    Comentar por Joao Silva — 01/12/2015 @ 15:07

  8. laurentina como a maioria de cervejas em africa contem milho ; portanto a qualidade original foi e esta perdida ; a maioria das cervejas hoje em africa contem milho (maize) ; a melhor cerveja feita em africa para mim e a white bull e nile special da ssbl – sudao do sul ; depois e a windhoek feita na namibia ; estas cervejas nao contem milho na formula ; e uma diferenca enorme a qualidade!

    Comentar por jayefe — 28/03/2016 @ 10:25


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