THE DELAGOA BAY WORLD

17/06/2013

O PROFESSOR SAMUEL DABULA, 1915-1978

Fotografia de uma revista do Rádio Clube de Moçambique, texto de Ernia Armindo e João de Sousa, que conheceu o Prof. Samuel Dabula, com retoques meus.

 

O Professor Dabula nos estúdios do Rádio Clube de Moçambique em Lourenço Marques,  onde trabalhou algum tempo no programa "Hora Nativa", mas tarde rebaptizado "Voz de Moçambique".

O Professor Dabula nos estúdios do Rádio Clube de Moçambique em Lourenço Marques, onde trabalhou algum tempo no programa “Hora Nativa”, mas tarde rebaptizado “Voz de Moçambique”.

 

Faz 35 anos que faleceu Samuel Dabula.

Ele foi um antigo locutor da “Hora Nativa” que posteriormente passou a designar-se de “Voz de Moçambique”. Nasceu a 23 de Maio de 1915, na então cidade de Lourenço Marques. Em 1943 passa a trabalhar para o então recentemente criado «Instituto Negrófilo», que mais tarde veio a chamar-se «Centro Associativo dos Negros da Província de Moçambique», onde chegou a ser presidente o Dr. Domingos Mascarenhas Arouca, como figura marcadamente progressista e de resistência ao colonialismo e pró-independência, ainda que na clandestinidade, e que durante a sua direcção dinamizaria a criação naquele espaço de uma escola secundária.

Então professor primário, Samuel Dabula foi, conjuntamente com os jovens de então -Levim Pinto Maximiano, Enoque Libombo, Samuel Magaia, Salomão Magaia, Henrique Tembe, Raúl Howana, Daniel Jeremias, Nhaca, Fineas Mabota entre outros – membros fundadores do «Centro Associativo dos Negros». Foi neste centro que surgiu o então conhecido «Núcleo dos Estudantes Secundários Africanos – NESAM», donde saiu grande parte dos dirigentes da “Frente de Libertação de Moçambique – Frelimo”.

Na arena musical, Samuel Dabula foi um dos fundadores da orquestra denominada «Djambo» que fez furor desde os anos 50. Essa orquestra abrilhantava bailes, tardes dançantes e casamentos. Actuava no programa radiofónico do Rádio Clube de Moçambique», denominado «África à Noite» que era apresentado pelo locutor José Mendonça.

Samuel Dabula Nkumbula chegou a ser vogal suplente da Câmara Municipal de Lourenço Marques.

Um artigo do Noticias de 23 de Maio de 2013 complementa a nota acima:

Passaram já 98 anos, desde que nasceu a 23 de Maio de 1915, o professor Samuel Dabula Nkumbula, pessoa que se notabilizou pela sua faceta de eminente proto-nacionalista, dinamizador e impulsionador das artes e da cultura moçambicana e prestigiado locutor da rádio.

Com efeito esta figura, que na época abraçou a profissão de professor primário, após se ter formado na Escola de Habilitação de Professores Indígenas, em Alvor, na Manhiça, passou a trabalhar, no ano de 1943, para o Centro Associativo dos Negros da Colónia de Moçambique, como professor, para ministrar aulas do ensino primário. A escola deste Centro era uma das poucas escolas do chamado ensino de adaptação, no contexto do Moçambique colonizado, onde o ensino para indígenas, na época, estava sob a égide da Igreja Católica.

Sendo o Centro Associativo dos Negros da Colónia de Moçambique uma associação de negros, Dabula não se limitou apenas a cumprir com o mero papel de professor da escola, mas debruçou-se como um dos elementos da direcção, na difícil tarefa de formação do Homem na dimensão sócio-cultural. Com efeito na qualidade de dinamizador das actividades da juventude, nesta associação, criou e dinamizou, no ano de 1943, o grupo dramático.

Dentre as várias actividades que este grupo realizou, destacam-se os saraus culturais, que englobavam canto, poesia, música e teatro. Realçar que este grupo, nos meados dos anos 50, apresentou três peças de teatro de temática africana (Marrumbo freguês, Mahantsassa e outra) viradas para a educação cívica através da critica dos costumes. Estas peças de teatro foram escritas, encenadas e apresentadas por si nos palcos do Centro Associativo.

O Grupo dramático subdividia-se em várias disciplinas, nomeadamente: o canto, poesia, dança e teatro. No capítulo do canto e dança o grupo, denominado pelos portugueses de folcrórico, sob a sua direcção, debruçou-se na pesquisa de ritmos e danças para resgatar e desenvolver as danças da região Sul de Moçambique. Estas danças, que antes eram feitas à roda da fogueira e à sombra de uma árvore, designadamente a Marrabenta, o Xingomana, o Xigubo, o Nfena, Makwaela dentre outras, passaram a serem interpretadas e acompanhadas por instrumentos convencionais, nos palcos e nos salões em eventos sociais, onde se popularizaram. Na interpretação dos números de canto e dança fazia questão de dar a conhecer o significado das danças, onde, quando e porque era executadas e em que circunstâncias, o que pressupunha um apurado estudo etnológico.

Jovens da época que já frequentavam o ensino secundário e pré-universitário dançavam com brio e orgulho estas danças como forma de vincarem a sua identificação com a cultura e a sua condição de moçambicanos. São de destacar figuras como Eneas Comiche, Mariano Matsinhe, Manuel Magaia, Armando Guebuza, Jorge Tembe, Janet Maximiano, Lúcia e Rosa Tembe, Isabel e Carlota Manguene, só para citar alguns, dentre muitos outros que foram seus discípulos.

Esta atitude veio a quebrar o preconceito de que só praticavam danças nativas os incultos pois, a partir deste feito estas danças passaram a serem apreciadas, reconhecidas e valorizadas e até registadas quer em disco como em fitas magnéticas, como veio a acontecer com a gravação de um disco interpretado pela Orquestra Djambo com as canções “Elisa gomara saia; Xiwuanana xanga e Bambatela Sábado”, canções já mundialmente conhecidas.

Aconteceu que, tendo se quebrado este preconceito, vários grupos foram convidados a apresentar espectáculos na cidade de cimento, no auditório da Rádio Clube de Moçambique e em outras casas de espectáculos, para auditórios formados por portugueses, que se deliciavam, quer com a graciosidade da Marrabenta ou com a virilidade do Xigubo, manifestações culturais a que apelidavam de “folclore”.

Samuel Dabula defendia, vezes sem conta, que era preciso estudar pois era importante adquirir conhecimentos que nos iriam facultar a capacidade de discutir a Independência com os portugueses.

Defendia também que com a ida dos primeiros estudantes a Portugal, para prosseguir com estudos superiores, já se estavam a desenhar os primeiros passos para a obtenção da Independência. A sua visão era de que se deveria formar 50 advogados, 50 engenheiros, 50 médicos, 50 economistas e assim por diante, para assegurar a existência de quadros para a Independência.

Foi igualmente Homem do desporto. Aliás, poucas são as vezes que se dissocia o Desporto da cultura. Praticou o futebol como jogador, treinador, presidente da direcção e mais tarde da Mesa Assembleia do Sporting Nacional Africano. Presidiu a direcção da Associação do Futebol Africano de Moçambique.

Ainda nos meados dos anos 50, Samuel Dabula foi convidado a trabalhar no Rádio Club de Moçambique com a missão de criar uma emissora de rádio em línguas nacionais, a Hora Nativa, tendo então se tornando no primeiro locutor negro moçambicano.

Na qualidade de locutor da rádio, produziu e apresentou vários programas radiofónicos, de âmbito educativos e recreativos, sendo de destacar o programa “Keti Keti”, pelo impacto e grande popularidade que ganhou. O programa realizava-se nos salões do Centro Associativo e era transmitido na Rádio Clube de Moçambique- Sector da Hora Nativa, já que era falado em línguas nacionais. A Orquestra Djambo abrilhantava este programa que lhe grangeou muita popularidade, tornando-o num grupo muito apreciado e concorrido. Era um programa de entretenimento que buscava e divulgava novos talentos no canto, dança e música. Artistas de nomeada, como João Wate, João Cabaço, foram descobertos neste programa. São de destacar os momentos de muito bom humor que este programa proporcionava.

Como locutor de rádio, entrevistou várias figuras famosas, tais como Eusébio, Mário Coluna, Pelé, a cançonetista brasileira Ângela Maria, entre outras figuras de destaque no mundo da arte, cultura e desporto, no quadro do trabalho que executava na área de comunicação social.

Samuel Dabula faleceu a 17 de Junho de 1978, e pode-se dizer que ele soube marcar um lugar na vida deste país, pelas obras que em vida incansavelmente realizou no ramo do ensino, no âmbito do proto-nacionalismo, na área de arte e cultura, na área de comunicação social, merecendo a sua vida e obra melhor divulgação para servir de referência às novas gerações. (fim)

Em 2006, durante a vigência camarária de Eneas Comiche, a edilidade renomeou a previamente designada Rua Gen Teixeira Botelho, na Sommerschield, com o nome do Professor Samuel Dabula Nkumbula.

Para complementar esta leitura, procurar neste blogue ainda textos sobre a banda Djambo e as origens da Marrabenta.

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2 comentários »

  1. É de louvar o que muitos moçambicanos fizeram e que ainda hoje não é reconhecida por se achar que faziam parte do regime colonial. Infelizmente a inteligência foi madrasta para muitos que se dizem progressistas.

    Comentar por José — 06/09/2013 @ 13:49

  2. […] colóquio sobre a vida e obra de Samuel Dabula marcou, esta-terça, em Maputo o centenário daquele que é considerado o primeiro locutor de raça […]

    Pingback por Samuel Dabula, 1º locutor de raça negra na história da radiodifusão em Moçambique | Radialista Moçambique — 08/07/2015 @ 08:10


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