THE DELAGOA BAY WORLD

18/03/2013

CAIXA DE FÓSFOROS DA MINERVA CENTRAL EM LOURENÇO MARQUES

Face de caixa de fósforos da Minerva Central em Lourenço Marques. Produzidos em Macau, creio.

Face de caixa de fósforos da Minerva Central em Lourenço Marques. Produzidos em Macau, creio.

04/03/2012

JOÃO ANTÓNIO DE CARVALHO, FUNDADOR DA PAPELARIA MINERVA CENTRAL, 1953

Recorte parte do espólio de Paulo Pires Teixeira.

Notícia do falecimento de João António de Carvalho, fundador da Papelaria Minerva Central, no Notícias de Lourenço Marques, 4 de Agosto de 1953.

Em baixo, o texto gentilmente enviado pelo exmo. Leitor Ernesto Silva, referente a João Carvalho, que, pelas minhas contas, foi publicado em 1966:

(início)

Para se apreender o que foi a acção desenvolvida em prol do livro português e da cultura, de um modo geral, do pioneiro João António de Carvalho, há que nos reportarmos aos seus primeiros anos de vida em Moçambique.

João António de Carvalho nasceu na freguesia do Eixo, situada a poucos quilómetros da cidade de Aveiro, vindo da sua terra natal para Lourenço Marques com 16 anos, apenas, e para trabalhar num Estabelecimento de Comércio Geral, que era propriedade de um seu parente, o comerciante Clemente Nunes de Carvalho e Silva.

Nesses recuados tempos — como ainda hoje acontece no mato, nas cidades e vilas do interior — os Estabelecimentos de Comércio Geral,
como o nome indica, nele se vendiam e vendem, os mais variados artigos, incluindo os jornais desse tempo, em que a Política era uma das razões dominantes da vida africana, e se criavam pequenos jornais com o f im principal de servirem como arma de combate e defesa dos seus interesses económicos. Neste meio heterogénio formou ele a sua mentalidade.

As diversões, nessa época, eram muito poucas, e livros não existiam à venda. Para atender alguns pedidos de fregueses que desejavam adquirir livros, João António de Carvalho, começou a mandá-los vir da Metrópole, cultivando cada vez mais o gosto pelo literatura e divulgando-a.

Sempre aumentando os seus conhecimentos, adquiridos, em parte, através da leitura proveitosa que fazia, mais se ia arreigando no seu espírito a ideia de criar um Estabelecimento dedicado exclusivamente ao ramo de livraria e papelaria, cujo sonho veio a concretizar, iniciando a sua actividade com a abertura, em 14 de Abril de 1908, da «MINERVA CENTRAL».

Deste modo, João António de Carvalho iniciava a venda e divulgação do livro português no Província de Moçambique, a ele se ficando a dever esta iniciativa de divulgar a cultura através do livro, dando primazia às obras portuguesas.

Nessa altura era já casado, coincidindo a inauguração do seu Estabelecimento com o nascimento do seu primeiro filho. Referimos, a título de curiosidade, que João António de Carvalho, ligou-se pelo casamento, a uma família já enraizada na Província e de relevo social, que é a Família Furtado. Sua esposa era D. Margarida Furtado, filha do pioneiro António Furtado, que adquiriu posição de relevo no meio social dessa época.

Quando abriu o seu pequeno Estabelecimento de livraria e papelaria, situado na Rua D. Luís, hoje chamada Consiglieri Pedroso, contava 29 anos.

O Estabelecimento constava de um edifício de pedra e cal, de um só piso, coberto de telha, com colunas de ferro, como tantos outros construídos nessa época, a que se dá o nome de «tipo colonial».

Ficava situado quase em frente à Rua António Furtado, a cerca de cinquenta metros para a direita do Estabelecimento actual.

Não tardou muito que, ao pequeno Estabelecimento se juntasse uma oficina de tipografia que, com o decorrer dos anos, se transformou e cresceu melhorando o seu equipamento, o quadro do seu pessoal e os seus serviços.

A história de uma casa comercial é mais alguma coisa do que a narração dos seus trabalhos, vicissitudes, fortuna e progresso; é um pouco mais que a resenha dos seus negócios e o inventário dos seus bens; ela é sobretudo, a vida dos seus próprios trabalhadores, que lhe consagram a sua actividade, a sua inteligência e dedicação!

Logo de começo, a modesta livraria da Rua D. Luís, chamou a si uma tarefa demasiado pesada para as suas possibilidades, que foi a difusão do livro português, por todo o território de Moçambique.

As perspectivas não eram animadoras para tão delicado quão difícil ramo comercial. Para nos certificarmos disso, basta considerar que a população da cidade de Lourenço Marques, era, então, aproximadamente, de dez mil habitantes, incluindo europeus, asiáticos e africanos, e que as comunicações com os Distritos e territórios majestáticos de Manica e Sofala e Niassa, eram difíceis e morosas.

Estas dificuldades de comunicação levaram João António de Carvalho a pensar com interesse e simpatia na situação do colono do interior, longe do mundo civilizado, muitos sem convívio com europeus, sem revistas, sem jornais ou livros, outros vivendo em pequenas comunidades mal servidas pelo telégrafo e pela navegação.

Era preciso servi-los, e o jovem livreiro com optimismo, entusiasmo e vigor, lançou-se na grande aventura do que fez um verdadeiro ideal, a que se conservou fiel até aos seus derradeiros dias: fazer chegar às mãos dos colonos as publicações que recebia, levar a toda a parte
o livro português! Para muitos desses colonos do interior, os livros, jornais e revistas da Minerva Central eram o único elo que os mantinha ligados à Metrópole e à civilização!

Um dia viria, em que a escritora Sarah Beirão, ao apreciar o seu labor de livreiro, diria com apreço, sinceridade e justiça: « . . . levou a terras de além-mar o nome dos que, sem a sua actividade, nunca aí seriam conhecidos.»

Foi, na verdade, para si, a parte mais simpática e querida da sua actividade. Considerou-se, sempre, acima de tudo, um livreiro, e quando falava da sua obra, referia-se à acção que tinha desenvolvido durante quarenta e cinco anos, que, sem exagero, pode dizer-se, foram
devotados à divulgação do livro em Moçambique.

Seguindo a prática dos editores do Porto e Lisboa, mais com o fim de desenvolver na população o gosto pela leitura e facultar-lhe a aquisição de livros, por preços mínimos, relegando para um plano secundário a ideia do lucro, instituiu em 1936, a Feira do Livro, a qual se tem realizado todos os anos nos Salões do seu Estabelecimento da R. Consiglieri Pedroso. Esta iniciativa teve entusiástico acolhimento por parte de todos os sectores da população da cidade.

As Feiras do Livro constituem, hoje, uma tradição da Minerva Central, que procura manter no mais elevado nível. Para isso, sem olhar a despesas, são mandados vir da Metrópole e do Brasil, as últimas edições dos melhores livros. Da mesma forma são importados livros em espanhol, francês, italiano e inglês.

O que levou João António de Carvalho a escolher para seu negócio, o precário ramo de livraria, foi sem dúvida, o seu amor à instrução, que manteve sempre inalterável, e que o levou a atribuir a si mesmo a missão de levar a Cartiha de João de Deus e as jóias da nossa literatura a todos os pontos da Província, facilitando a sua aquisição, fornecendo livros de ensino, gratuitamente, a estudantes sem recursos.

João António de Carvalho foi, também, jornalista, e num artigo intitulado «AS MINHAS RAZÕES», afirma : «. . . E é por sentir tudo isto que sofrendo com um tal estado de coisas, resolvi reeditar a «PROVÍNCIA DE MOÇAMBIQUE». E fi-lo para defender os meus haveres, a terra dos meus filhos, e mostrar que nem todos se afastam do caminho do dever com uma cobardia que enoja.» Estas duras e enérgicas palavras seguiam-se à análise da grave situação desse momento, em que Lourenço Marques viveu horas de ansiedade, desassossego e dificuldades económicas.

João António de Carvalho ocupou vários lugares de destaque, como por exemplo : Regedor, Jurado do Tribunal do Contencioso, Técnico Aduaneiro. O Governador Freire de Andrade era seu amigo, distinguindo-o com apreço. E tudo isto acontecia a um homem jovem, que era prestável, estimado e respeitado.

A sua casa comercial abriu sob os auspícios da sua já grande popularidade, apesar de ter, apenas, vinte e nove anos! Popularidade que conquistara com a lhaneza do seu espírito alegre, com a saudável disposição que o levava a ser útil e o tornou prestável; com a sua bondade que o fazia atentar no que se passava à sua volta e a prestar a sua solidariedade, simpatia e auxílio, a todas as iniciativas altruístas! Era um jovem que todos conheciam, chamando-o afectuosamente pelo diminuitivo de «Carvalinho», diminuitivo que o acompanhou até ao fim da sua existência.

Nestes cinquenta e oito anos de existência, a «MINERVA CENTRAL» acompanhou a cidade no seu maravilhoso crescimento, partilhando das suas alegrias e das suas horas de ansiedade, assistindo ao seu progresso e desenvolvimento, dando-lhe, com entusiasmo, a sua quota
de trabalho, servindo a sua população.

Hoje, como sempre, a «MINERVA CENTRAL» encara o futuro com o mesmo optimismo e com confiança. A sua Tipografia está, hoje, equipada com as mais modernas máquinas, e possuindo pessoal europeu especializado para todos os géneros de trabalhos, acompanhando o
progresso industrial.

O seu Estabelecimento está instalado num edifício de cinco andares, ocupando dois pavimentos de um edifício situado noutra rua paralela ao do Estabelecimento, numa demonstração de desenvolvimento e progresso notáveis.

Em 1943, João António de Carvalho, deu nova ordem à sua casa, associando a si seus filhos, e alguns antigos colaboradores, entre eles, seu irmão, Sebastião de Carvalho e Constantino de Castro Lopo, que por morte do fundador, seguiram na mesma rota idealista e progressiva, traçada por ele.

Termina esta biografia sumária do pioneiro João António de Carvalho, com as declarações de algumas personalidades que visitaram a «MINERVA CENTRAL», e registaram no seu «LIVRO DE OURO» as suas impressões.

De Gilberto Freyre:

«Admirável figura de bom português, este João António de Caxvalho, que soube dar ao livro em Lourenço Marques, o prestígio, a dignidade, que o livro merece. A Minerva é, sob sua orientação, um centro de cultura, em geral, e da cultura lusíada — inclusive a luso-brasileira — em particular.»

Lourenço Marques, 18 de Janeiro de 1952

De Philipp Soupault, DELEGADO DA «U.N.E.S.C.O.» :

«Je suis heureux de pouvoir feliciter le fondateur et les Directeurs de Minerva Central car j’estime qu’ils ont fait depuis 1908 une oeuvre qui merite toute 1’attention. lis ont aidé precisament a repandre la culture dans un pays qui commençait a penser a vivre. Je suis persuade que tous ceux qui considerent que le livre est un des meilleurs moyens d eduquer les hommes et de les rendre meilleurs seraient d’accor avec moi pour leur dire notre admiration.»

Lourenço Marques, 24 de Maio de 1951

Do Doutor Marcelo Caetano, quando Ministro das Colónias:

«Tive ocasião de verificar o papel que a Minerva Central tem desempenhado na difusão do livro na Colónia — especialmente na expansão do livro português. O que mais aprecio nesta
acção benemérita é o largo espírito que a anima, sem a mesquinha preocupação dos grandes lucros imediatos e com o respeito devido àqueles que querem aprender, precisam de se cultivar ou de recrear e não são ricos. É assim que se trabalha.»

Lourenço Marques, 30 de Agosto de 1945

(fim)

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