THE DELAGOA BAY WORLD

16/10/2017

A ÚLTIMA FOTOGRAFIA DE PAUL KRUGER TIRADA NO TRANSVAAL PELOS IRMÃOS LAZARUS, SETEMBRO DE 1900

No final da primeira fase da II Guerra Anglo-Boer, em Setembro de 1900, os fotógrafos e irmãos Joseph e Maurice Lazarus, cidadãos britânicos judeus então recentemente radicados em Lourenço Marques, onde abriram um estúdio na Rua Araújo ali perto da Praça 7 de Março, , deslocaram-se até ao Transvaal, nomeadamente à zona mais perto da fronteira portuguesa de Moçambique, para fazerem alguma cobertura dos eventos da guerra.

 

A última fotografia de Paul Kruger antes de partir para o exílio, Setembro de 1900, tirada pelos Irmãos Lazarus. A indicação do mês está errada.

Nessa altura, a pequena Lourenço Marques vivia em polvorosa, cheia de britânicos e vários estrangeiros, inundada por refugiados boer e as suas famílias, o porto bloqueado pela Armada britânica, carregamentos de toda a espécie a chegar e a serem vistoriados. A pequena Cidade era um dos epicentros do grande conflito envolvendo a então maior potência mundial, a primeira guerra seguida pelo mundo inteiro via relatórios enviados por telégrafo, e por fotografia.

Um dos episódios mais memoráveis de toda a guerra, que reflecte a nova mediatização, foi a captura pelos Boers, e subsequente fuga, de um jovem aristocrata britânico que era um mistura de aventureiro imperial e jornalista, chamado Winston Churchill. Capturado e aprisionado em Pretória, Churchill foge a pé e por comboio para Lourenço Marques, onde se hospeda em casa do cônsul britânico local, e imediatamente redige um longo relato, que envia para os jornais de Londres pelo telégrafo local, causando uma enorme sensação entre o público inglês e tornando-o famoso mundialmente.

Ainda hoje, no edifício da antiga residência consular em Maputo, ao pé do antigo Rádio Clube, uma placa assinala a passagem de Churchill por Lourenço Marques em Dezembro de 1899. Só ficaria dois dias na Cidade, tendo logo apanhado um vapor para Durban, onde foi recebido por uma enorme multidão e aclamado como um herói. Nessa altura, coincidentemente, na capital do Natal vivia com a sua família um jovem tímido português com 11 anos e meio de idade, chamado…..Fernando Pessoa.

 

Por sua parte, entre vários outros problemas bilaterais, Portugal procurava suster o embate e a pressão britânica no sentido de derrotar os Boers.

 

Uma caricatura política publicada numa revista do Reino Unido em 1900, a atacar a suposta cumplicidade entre portugueses e boers em Lourenço Marques no transporte de armamentos para o Transvaal via o porto e caminho ferro de Lourenço Marques, apesar do boicote britânico e o compromisso formal do governo português de que por ali não estariam a passar armamentos para Pretória. Na imagem, o pequeno agente alfandegário português em Delagoa Bay (nome por que então era conhecida Lourenço Marques no mundo anglófono), tendo atrás de si armas muito mal dissimuladas, pergunta a um boer se tem algo a declarar nomeadamente se tem contrabando. Ao que o Boer responde “não, Deus, claro que não”.

No Transvaal, as tropas britânicas acabavam de tomar Johannesburgo e Pretória e dirigiam-se para Leste, na direcção da fronteira moçambicana ao longo da linha de caminho de ferro que ligava Pretória a Lourenço Marques e que ainda permanecia sob controlo Boer.

Saído de Pretória num dos últimos comboios antes da chegada à capital do exército imperial britânico, Paul Kruger, o Presidente da então República Sul-Africana (o nome formal do Transvaal) dirige-se primeiro para Machadodorp, a cerca de 200 quilómetros de Pretória, onde fica umas semanas, e em seguida segue para território português, atravessando a fronteira no dia 11 de Setembro de 1900. Em Lourenço Marques, território formalmente neutral, ele permanece durante umas semanas, hospedado em casa de Gerard Pott, o ainda seu cônsul-geral na Cidade, até partir para a Europa em 19 de Outubro de 1900. Kruger não regressará a África, falecendo na Suíça em 1904. Uns meses depois, os seus restos mortais serão depositados solenemente num cemitério em Pretória, junto dos de sua mulher, que falecera em 1901, já após a conquista e ocupação britânica daquela cidade.

 

A bordo do navio de guerra do Reino dos Países Baixos Die Gelderland, e acompanhado pelo seu guarda-costas e mais tarde secretário, Hermanus Christiann Bredell, o Presidente Paul Krueger deixa Lourenço Marques no dia 19 de Outubro de 1900. Ao fundo, a Catembe. (fonte)

 

Os Irmãos Lazarus ainda permaneceram em Komatipoort alguns dias, a tempo de verem chegar o exército britânico à pequena vila fronteiriça, e de fotografarem algumas cerimónias protocolares ali ocorridas.

 

Esta imagem, extemporânea ao tema do conhecido álbum editado pelos Irmãos Lazarus, Views of Lourenço Marques, de 1901, mostra uma parada de elementos do exército imperial britânico em Komatipoort, no dia 28 de Setembro de 1900.

 

Joseph e Maurice Lazarus trabalhariam durante cerca de oito anos em Lourenço Marques, após o que se mudaram de armas e bagagens para…..Lisboa. Mas essa é outra história, cuja elaboração muito deve ao Grande Paulo Azevedo.

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01/02/2017

A PRAIA DA POLANA E O CAIS ALMEIDA EM LOURENÇO MARQUES, INÍCIO DO SÉC. XX

Postal dos fotógrafos Joseph e Maurice Lazarus, acerca dos quais o Paulo Azevedo recentemente publicou um livro com os resultados de uma aturada pesquisa e a que farei referência brevemente.

 

A Praia da Polana e o Cais Almeida em Lourenço Marques, início do Séc. XX.

A Praia da Polana e o Cais Almeida em Lourenço Marques, início do Séc. XX. Nesta praia mais tarde foram edificados o Clube Naval e o Pavilhão de Chá da Polana. O cais permitia às pessoas embarcarem em pequenos barcos sem as complicações de terem que o fazer na praia.

30/05/2013

O MISTÉRIO DOS IRMÃOS J. & M. LAZARUS, FOTÓGRAFOS EM LOURENÇO MARQUES, 1899

Grato ao Paulo Azevedo, com quem partilho alguns fascínios sobre o passado.

 

Um dos postais publicados pelos Irmãos Lazarus em Lourenço Marques no início do Século XX, quando os portugueses

Um dos primeiros postais publicados pelos Irmãos Lazarus em Lourenço Marques no início do Século XX, quando os reais serviços postais portugueses se mandaram ao ar com essa de os estrangeiros chamarem Delagoa Bay a Lourenço Marques e informaram que a partir de uma certa altura carta que não dissesse “Lourenço Marques” seria devolvida ao remetente. Tal como o camelo é o cavalo desenhado por um comité, do consenso resultou que as pessoas começaram a utilizar as duas designações ao mesmo tempo – não fosse o diabo tecê-las.  De notar que os Lazarus – como se pode ver do lado esquerdo do postal – anunciavam ter estúdios em Lourenço Marques e na Beira.

 

Postal de outra colecção - esta impressa a cores - de fotografias de Lourenço Marques, ainda da primeira década de 1900.

Postal de outra colecção – esta impressa a cores – de fotografias de Lourenço Marques, ainda da primeira década de 1900, mostrando o lado direito da Praça 7 de Março, a actual Praça 25 de Junho, o ponto seminal de onde toda a capital de Moçambique cresceu. O edifício branco é o da velha Alfândega, estando a sua entrada em frente. Neste postal, o estúdio da Beira, que durou pouco tempo, já não é referido.

 

O álbum fotográfico

O álbum fotográfico “A Souvenir of Lourenço Marques”, publicado em 1901. Tirando o álbum mandado fazer pelo Coronel Macmurdo no final dos anos 1880 para encher o olho aos colonialistas (no sentido do termo do Séc. XIX), e de que tenho uma cópia algures, este terá sido verdadeiramente o primeiro álbum de fotografias vendido exclusivamente alusivo à Cidade. Os irmãos Lazarus, que também vendiam fotografias de Moçambique para o mundo inteiro, revelaram-se muito activos e inovadores no trabalho que faziam.

Aqui um anúncio do estúdio dos Lazarus em....Lisboa, na página 3 do Diário de Notícias de Lisboa, dia 18 de Agosto de 1914.

Aqui um anúncio do estúdio dos Lazarus no Nº53 da Rua Ivens em….Lisboa, na página 3 do Diário de Notícias de Lisboa, dia 18 de Agosto de 1914. 

 

O mistério a que aludo na verdade são dois.

O primeiro, é a circunstância de dois fotógrafos, que se presumem terem sido irmãos, e cujo registo se pode encontrar um pouco por toda a parte, e que fazem parte da história da fotografia em Moçambique, não deixaram atrás fotografias….suas.

O segundo é que, até hoje, deles só se sabia que eles eram J. e M.

Hoje, foram-me revelados mais dois preciosos detalhes: eram britânicos, e os seus nomes de baptismo eram Joseph e Maurice.

Tudo indica que rumaram a África do Sul durante o “falso boom” do ouro na pequena vila de Barberton, a alguns quilómetros de Nelspruit. Mais tarde, em 1899, estabeleceram-se em Lourenço Marques, a tempo de assistirem a toda a Guerra Anglo-Boer, de que a capital provincial moçambicana, cercada pela marinha britânica e a ferro e fogo e cheia de intriga e refugiados boers, era um dos grandes epicentros. Conhecem-se-lhes dois endereços na Cidade, um no Nº 39 da Rua Araújo (actual Rua de Bagamoyo) e outro na Avenida Aguiar (mais tarde Avenida Dom Luiz, a seguir Marechal Samora Machel), creio que no complexo do Avenida Building (também conhecido como Prédio Pott). Durante algum tempo, mantiveram um estúdio na Beira. No final da primeira década de 1900 mudam-se para Lisboa, Portugal, onde se estabeleceram na baixa. Terão trabalhado aí durante alguns anos, após o que se lhe perdeu o rasto.

A procura por mais detalhes prossegue. Se o Exmo. Leitor souber detalhes sobre esta saga, escreva uma nota para aqui.

 

 

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