THE DELAGOA BAY WORLD

05/09/2020

CARTA RÉGIA NOMEANDO O GOVERNADOR DE MOÇAMBIQUE, 1752

Carta enviada pelo rei D. José I (governou Portugal entre 1750 e 1777) a Francisco de Mello e Castro, que foi Governador de Moçambique (na acepção da altura, nada a ver com o que Moçambique é hoje) entre 1750- Março de 1758, o que na altura era um mandato longuíssimo. A carta, datada de 23 de Abril de 1752 e cujo original está depositado num dos arquivos portugueses, era mais ou menos ditada pelo rei, preparada pelos assessores e assinada “rei” pelo monarca. Neste caso. nomea-o Governador e Capitão General de toda a costa situada entre Lourenço Marques e Cabo Delgado e ainda do interior (boa sorte). No fim da segunda página vem uma curta “cábula” para o rei saber o que estava a assinar.

Francisco foi o primeiro Capitão-General do território.

Segundo os registos, por altura do envio desta carta, Mello e Castro já estava em funções na Ilha de Moçambique desde 1750.

D. José I foi o monarca do Marquês de Pombal, dos Távoras, do terramoto de Lisboa e de mais meia dúzia de maleitas. Supostamente era absolutista (por delegação de poderes, presume-se) e ao mesmo tempo iluminista.

 

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LOURENÇO MARQUES EM MEADOS DA DÉCADA DE 1880

Filed under: LM Baía, LM Baixa, Lourenço Marques 1880s — ABM @ 18:09

Imagens retocadas. Desconheço a autoria.

 

A pequena Lourenço Marques, ainda uma vila, vista do início da Estrada da Ponta Vermelha (que então ainda era uma vila separada.

 

Nesta ampliação da imagem em cima, podem-se ver estes dois miúdos a posar para a imagem.

02/09/2020

A LOCOMOTIVA 406 DOS CAMINHOS DE FERRO DE MOÇAMBIQUE EM QUELIMANE, 1969

Imagem retocada.

A locomotiva dos Caminhos de Ferro de Moçambique Nº406 (fabricada na empresa norte-americana Baldwin Locomotive Works) no momento em que partia da estação de Quelimane levando carruagens de carga e de passageiros, Julho de 1969.

A locomotiva 406.

MARIA CARLOTA QUINTANILHA COM OS ALUNOS NA ESCOLA GENERAL MACHADO EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Imagem retocada e pintada por mim.

Maria Carlota Quintanilha foi uma dos professores memoráveis da Escola Preparatória General Joaquim José Machado (“a José Machado”), situada numa ruazinha na fronteira entre a Polana e a Maxaquene, em Lourenço Marques. Talvez isso ajude (um pouco) a explicar a presença de apenas um aluno de raça negra na fotografia. Uma curiosidade que hoje pode ser considerada obsoleta é que, obrigando a escola ao uso de uma farda meio militarizada (eu andei lá e achava-a simplesmente horrível) todas as balalaicas que aparecem na fotografia eram feitas manualmente em alfaiates. No meu caso, foi a minha mãe que a costurou em casa(fez duas), depois de comprar pano na Baixa.

A fotografia foi tirada na parte traseira da Escola, podendo-se ver atrás as salas de aula de trabalhos manuais.

Se o Exmo. Leitor conhecer algum dos presentes (ver a mesma fotografia numerada em baixo), por favor escreva uma nota para aqui.

 

A fotografia, numerada. Maria Carlota Quintanilha corresponde ao número 7.

Surpreendi-me de encontrar um esboço biográfico da Professora Quintanilha e do irmão, que deslumbram e seguem, com retoques:

Maria Carlota de Carvalho Quintanilha nasceu no dia 11 de Novembro de 1923, em Coimbra. É filha da bióloga Maria Suzana de Carvalho e do cientista Aurélio Quintanilha (este açoreano de nascimento).

Após o divórcio dos pais, ficou a viver com o pai. Quando este se exilou na Alemanha e em França, devido ao facto de ser contra o Estado Novo, ela e a irmã foram com ele. A sua madrasta, Lucya Tiedtke, mãe do seu irmão Alexandre Quintanilha [ver em baixo], terá uma forte influência na sua educação. O início da Segunda Guerra Mundial faz com que regresse a Portugal, onde irá morar em Lisboa com a mãe, que era professora no Liceu Feminino Filipa de Lencastre.

Depois de concluir o ensino médio, Carlota Quintanilha começou a estudar arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Sentindo que não é bem aceite no meio académico lisboeta por ser mulher, transferiu-se para a equivalente no Porto, onde se forma em 1953, com 17 valores. O seu projecto final, um jardim infantil em Vila real, mostra a sua preferência por uma arquitectura moderna. No mesmo ano, casa-se com João José Tinoco e parte com ele para para o Cunene, no sul de Angola. Lá trabalhou como arquitecta e em projectos com o marido.

Em 1956, Quintanilha e Tinoco mudaram-se para Lourenço Marques (hoje Maputo). Lá, ensinou design e geometria descritiva em várias escolas secundárias e profissionais, nomeadamente na Escola Industrial, na Escola Comercial, na Escola Preparatória do Ensino Secundário General Joaquim José Machado, na Escola Preparatória Feminina de Lourenço Marques e no Liceu António Enes. Ao mesmo tempo, desenhou várias obras para clientes privados e governamentais, parte delas em colaboração com o marido Tinoco e o amigo Alberto Soeiro.

Em 1972, Quintanilha regressa a Portugal, trazendo consigo a sua experiência e conhecimento do clima tropical de Angola e de Moçambique, que aplica em projectos arquitectónicos para o Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

Em 1973, foi trabalhar no Ministério da Educação e Investigação Científica, onde esteve até ao final da década de 1980 (reformou-se em 1989), para o qual elaborou estudos prévios que visavam a ampliação e intervenção em equipamentos escolares.

O marido faleceu em 1983.

(fim)

Sobre o seu irmão Alexandre Quintanilha, que tem costela Coca-Cola, um resumo biográfico refere o seguinte (editado por mim):

Alexandre Tiedtke Quintanilha nasceu em Lourenço Marques em 9 de Agosto de 1945 (o dia em que os EUA lançaram uma bomba atómica sobre a cidade japonesa de Nagasaki) e é filho do Prof. Doutor Aurélio Quintanilha, biólogo especialista em botânica, natural dos Açores, e de mãe alemã, Lucya Tiedtke, Alexandre Quintanilha, que tinham ido viver para Moçambique na década de 1940.

Completou o liceu em Lourenço Marques, tendo prosseguido os estudos universitários na África do Sul, licenciando-se em Física Teórica em 1968 na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, e doutorando-se em Física do Estado Sólido em 1972, na mesma universidade.

Trabalhou durante vários anos na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, onde foi diretor do Centro de Estudos Ambientais, tendo desenvolvido investigação nessa área. Entre 1983 e 1990, foi diretor assistente na secção de Energia e Ambiente do Laboratório Nacional Lawrence, nos EUA e, entre 1987 e 1990, desempenhou o cargo de diretor do Centro de Estudo de Tecnologia da Biosfera.

Em 1991 foi nomeado diretor do Centro de Citologia Experimental e professor no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto. É professor catedrático jubilado do ICBAS, diretor do Centro de Citologia Experimental e coordenador do Instituto de Biologia Molecular e Celular, situado também no Porto.

Publicou perto de 100 artigos em várias revistas científicas de nível mundial, foi editor e autor de seis volumes nas áreas da Biologia e Ambiente, foi consultor redatorial da Enciclopédia de Física Aplicada e escreveu dezenas de artigos e relatórios em livros, revistas e jornais de divulgação, sendo ainda coordenador e autor de vários trabalhos nas áreas da Biologia, do Ambiente e da Física Aplicada.

(fim)

06/08/2020

CARLOS LOPES PEREIRA E O PRÍNCIPE, 2019

Imagens retocadas.

Em 21 de Novembro de 2019, no (ah ah) Cinema Império, bem no centro de Londres, o veterinário Carlos Pereira recebeu o Prémio Tusk de Conservação 2019. A Tusk é uma organização que advoga a protecção animal e ambiental em África, tendo como patrono um dos herdeiros da coroa britânica, o Príncipe William Windsor, que foi quem entregou a salva de prata ao Carlos e posou com ele para a fotografia, o que é sempre agradável para os netos depois verem e partilharem no Feicebook.

A distinção, infelizmente dada por uma instituição estrangeira, dado que Moçambique parece não ter destas coisas, é mais do que merecida. Sempre segui o percurso do Carlos Pereira, com quem convivi na adolescência em Lourenço Marques, pois nadávamos juntos no Desportivo. Na verdade, ele era mais do grupo etário da minha irmã Cló, que também nadava.

Apesar de ter uma formação de veterinário, o Carlos, que no dia 23 de Agosto celebra o seu 65º aniversário, fez carreira na área da gestão da conservação animal, que trata de um património precioso da nação moçambicana e que merece todo o apoio.

 

A entrega da placa. Antes da Pandemia, ainda se podiam fazer estas poses.

Vídeo institucional da cerimónia:

 

O Cartão de nadador do Carlos, 1973. Salvei este documento literalmente do lixo na primeira visita que fiz a Moçambique após a independência, em Dezembro de 1984. O Desportivo estava completamente nas lonas e os documentos da secção de natação estavam num caixote prontos para serem deitados fora. Meti-os todos num saco e trouxe-os comigo. No meio, estava este cartão, obrigatório para quem competia em natação.

 

A minha irmã Cló e o Carlos em Lourenço Marques, 1975.

MULHER NA AVENIDA DA REPÚBLICA EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Imagem de Ricardo Rangel, retocada, agora parte de uma exposição em Maputo dedicada à mulher moçambicana.

 

Uma senhora, levando um bebé atrás, atravessa a Avenida da República em Lourenço Marques, levando consigo uma ovelha (acho eu), cedo de manhã, anos 60. Presumo que estivesse a caminho da Catembe. Atrás à direita, na esquina da Praça Vasco da Gama, onde se situa o Bazar, vê-se o Kiosk Olimpia, o último da Cidade, inacreditável e criminosamente demolido no final da década de 60 para ali implantar a sede do BCCI, que nunca foi inaugurada por causa da reviravolta com a independência (vinte anos mais tarde, viria a ser a sede do Banco Comercial de Moçambique e depois do Banco Internacional de Moçambique).

O LICEU SALAZAR EM LOURENÇO MARQUES, 1952

Filed under: Josina Machel, LM Liceu Salazar, Salazar — ABM @ 14:24

Imagem retocada.

O Liceu Salazar (depois Josina Machel) foi inaugurado no dia 6 de Outubro de 1952, uma segunda-feira, na Polana em Lourenço Marques, em terrenos onde antes funcionou durante décadas a Estação Telegráfica que ligava, desde 1880, Lourenço Marques à África do Sul e à Europa. Substituiu o Liceu 5 de Outubro, situado nas suas traseiras, que passou mais tarde a ser a Escola Comercial Azevedo e Silva. Custou 58.500 contos (um conto eram mil escudos, que em 1980 foram convertidos em meticais) e na altura era o maior e o melhor liceu em todo o território português.

O liceu foi baptizado com o nome de António de Oliveira Salazar, que seria Presidente do Conselho de Ministros de Portugal, entre 1932 e 1968 (efectivamente ditador de um regime de partido único) e cuja estátua alusiva, em pedra, decorava o seu átrio central, em frente à entrada principal do complexo. A estátua seria destruída por um engenho explosivo em 1962, sendo expeditamente substituída por uma igual, em metal. Após o golpe militar em Lisboa em Abril de 1974, foi logo removida do local e, para despachar, o liceu temporariamente chamado 5 de Outubro (nome do primeiro liceu da Cidade, evocativo do golpe de Estado em Lisboa que derrubou a monarquia em 1910), após o que seria substituído pelo nome de Josina Machel, a primeira Mrs. Samora Machel, que faleceu de doença em Dar es Salaam, em 1971.

Provavelmente por algum óbvio “revanchismo histórico” por parte dos novos poderes instalados, e ao contrário de outras obras de arte, a estátua de metal do ditador seria colocada não na Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, como Ennes e Albuquerque mas… num canto na parte de trás da Biblioteca Nacional, em plena Avenida 25 de Setembro em Maputo….virada contra uma parede (ah ah), onde ainda se pode visitar algo clandestinamente, exactamente cinquenta anos após a morte física do que foi o principal responsável pela gigantesca embrulhada em que ele envolveu o seu país e as suas colónias. Tipo gato escondido com o rabo de fora.

O Liceu Salazar. Atrás, a Escola Comercial.

04/08/2020

A HISTÓRIA DA VILLA MARGHERITA EM LOURENÇO MARQUES

Imagens retocadas.

A Villa Margherita que é, actualmente, e desde 1992, mais conhecida como o algo estranho edifício que actualmente aloja o Museu Nacional da Geologia em Maputo, tem uma história interessante – do pouco que se sabe e que relato em seguida.

A Villa Margherita na sua versão actual enquanto museu, a sua fachada pintada da cor de sanitário de quarto de banho e os muros originais substituídos por muros de arame simples.

Margherita foi uma mulher real que viveu durante décadas e que morreu em Lourenço Marques. Uma súbdita Italiana, nascida e criada em Cairo, no Egipto, no final do Século XIX, foi, supostamente, amante de um italiano que teve que ver com os Buccellatto (suponho que não o Giuseppe. O que me constou é que a sua ligação era com um dos arquitectos, também italiano, que Buccellatto contratou na altura para algumas das suas obras) e que a trouxe para Lourenço Marques, onde prosperava uma pequena mas  vibrante comunidade italiana, e lhe construiu a e ofereceu o confortável chalet num recanto agradável da Polana, um terreno de esquina onde se cruzavam a Avenida 24 de Julho e a Rua Fernandes Tomás (agora Avenida dos Mártires da Machava).

No topo da fachada à entrada da moradia, colocou o nome da sua dona e primeira habitante: Villa Margherita.

A fachada original da Villa Margherita, então nova. Note-se o nome por que ficou conhecida a casa, afixado no topo do varandim de entrada. Fotografia do espólio de Arlindo Malosso, retocada por mim.

Margherita nunca casou e não teve filhos.

A casa, construída no final da década de 1910, é ao estilo revivalista árabe rococó, muito condicente com o passado e perfil exótico da encantadora italiana que o foi habitar e ainda muito em voga no início do Século XX, quando se viviam em Itália momentos de enorme paixão e atenção pela cultura e arte do antigo Egipto.

Ali, Margherita viveu em algum esplendor durante mais que três décadas, lá para o fim mais esforçadamente, por falta de dinheiro e os efeitos da PDI.

O exterior da casa era completamente diferente daquilo que se vê hoje, profusamente colorida, pintada entre um amarelo casca de ovo apagado, intersectando com vibrantes faixas pintadas a vermelho tijolo, com um muro a condizer.

A Villa Margherita, tal como se apresentava originalmente, cerca de 1927, com as cores originais (mais ou menos). Imagem de um dos álbuns Rufino, colorida por mim com base no testemunho de Suzete Malosso, que conheceu Margherita e que foi proprietária do imóvel durante mais que vinte anos.

Margherita tinha duas sobrinhas que também viviam em Lourenço Marques. Foi com elas com quem foi viver, já velhinha, depois de eventualmente vender a casa – em 24 de Abril de 1952 – a um empresário local, chamado Arlindo Malosso. Malosso, filho dum italiano de Treviso (uma cidade meio austríaca situada relativamente perto de Veneza) e de uma portuguesa, já nascida em Moçambique . Eles eram amigos há muitos anos e Margherita vendeu-lhe o imóvel porque precisava de dinheiro.

Durante os vinte anos seguintes, a casa iria permanecer virtualmente fechada.

Por morte de Arlindo Malosso, em 1963, a Villa foi herdada pelo seu único filho, Arlindo do Vale Malosso.

Durante um ano e tal, em meados dos anos 60, a casa chegou a ser habitada por uma sul africana de origem italiana que em Pretória era vizinha do lendário General Jan Smuts, a Mrs. Brack. Na altura ela pertencia a uma família da high society de Pretória, daquelas que passavam sempre férias em Lourenço Marques no verão e que conhecia bem os Malosso, que tinham sido educados na África do Sul, que falavam fluentemente inglês e que visitavam aquele país com alguma assiduidade.

Mas o episódio Brack acabou por ser uma pequena aventura. Naquele ano (meados dos anos 60) ela alugara duas barracas na Praia da Polana, mas os filhos dela apanharam malária (foram tratados pelo Dr . Reis Costa). Um dia, a D. Suzete, mulher de Arlindo Malosso, levou a Sra Brack à casa (na Polana havia menos mosquitos)e disse-lhe que se calhar ela ali estaria mais segura com os filhos que nas palhotas junto dos mosquitos na praia. A casa estava fechada há anos, cheia de pó e a precisar de uma pintura e de algumas reparações. A Mrs. Brack imediatamente apaixonou-se pela casa e literalmente mudou-se para lá e procedeu a uma reabilitação. Logo de seguida, mandou vir da África do Sul quadros enormes, toalhas, lençóis, cortinas, loiças e mobílias e restaurou e decorou a casa, ali se instalando em renovado esplendor. Digamos que quando Arlindo Malosso eventualmente quis a casa de volta para a vender, foi uma pequena complicação tirá-la de lá, mesmo atendendo ao facto que o uso da casa fora concedido para umas curtas férias e gratuitamente. A Senhora Brack, que era suposta permanecer na Villa Margherita apenas por um período curto, de férias, com a família, foi ficando. Mas eventualmente saíu.

(A Sra Brack tinha vários filhos, um deles teve um negócio de exportação de flores e outro uma suinicultura. Não sei os seus nomes. Alguns devem estar vivos ainda mas não os conheço nem sei onde estão. Adoraria descobrir o seu paradeiro e falar com eles).

Tirando esse episódio singular e algo rocambolesco, a casa permaneceu sempre vaga.

Entretanto os tempos mudaram. No início dos anos 60 a construção e especulação imobiliária em Lourenço Marques era muito forte, pois o governo português pelos vistos achava que a era colonial era para durar mais umas décadazitas. A economia da então Província estava a crescer a níveis espectaculares, atraíndo muita mão de obra, principalmente de Portugal, e na capital havia uma enorme carência de habitações.

A decisão de quem então mandava era que a Cidade iria crescer na vertical. E em força.

Entre as áreas mais alvo dessa pressão especulativa eram, precisamente, as propriedades que circundavam os dois lados da Avenida 24 de Julho, em parte porque, derivado da forma como a cidade cresceu, regra geral os lotes de terreno eram enormes (mil a dois mil metros quadrados cada) permitindo a Câmara Municipal ali a edificação de prédios de apartamentos de grande volumetria, com até vinte andares de altura e até 60 apartamentos cada um, que depois podiam ser vendidos e alugados aos novos residentes, que vinham para atender ao enorme crescimento na actividade económica que então se observava na Cidade.

Foi um ver se te avias. Nos vinte anos que decorreram antre 1955 e 1975, a cidade “explodiu” em crescimento, mais visível na Baixa, e nas Avenidas 24 de Julho e António Ennes (actual Av. Dr. Julius Nyerere). Mas não só: a Somershield, o Bairro da Coop, Bairro do Triunfo, Matola, surgiram quase do nada nesta altura.

Quase tudo bairros de e para brancos, a maior parte deles portugueses.

Em redor da chamada Cidade de Cimento, por sua vez, dezenas de milhares de pessoas, a maioria pobre e sem educação, vindas do interior, tentavam a sua sorte e a sua quota parte do “milagre económico” em curso, versão colonial, radicando-se no Xipamanine, nas Mahotas, Benfica, Malhangalene, Chamanculo, Machava, Mafalala, Alto Maé. Surgia e afirmava-se a Cidade do Caniço, mais precária por comparação mas melhor que o abandono do mato, culturalmente não menos exuberante. Após a independência, a análise desta dicotomia racial/económica/social iria alimentar muitas e esotéricas, se insípidas, teses de doutoramento, escritas por académicos estrangeiros, empenhados em dissecar as miríades vicissitudes e injustiças do colonialismo português.

De facto, até ao início da década de 1960, a Cidade estava cheia de verdadeiras jóias de arquitectura, edificadas nas primeiras quatro décadas do Século XX, tais como a Villa Margherita, que (a meu ver, criminalmente) foram quase todas demolidas ou deformadas, para dar lugar aos horrendos “caixotes” de cimento que foram sendo erguidos pela Cidade.

No caso da Villa Margherita, para além de Arlindo do Vale Malosso ter a boa fortuna de ser abastado e não se sentir pressionado para ali construir depressa, erguendo mais um prédio de vinte andares indistinto, houve um “problema”, que no fim foi o que ajudou a salvar o imóvel: na óptica de Arlindo Malosso, apesar de uma localização excelente, excepcionalmente, acontecia que o lote onde a Villa Margherita estava implantada tinha uma dimensão de menos que mil metros quadrados. Ora, o que ele queria mesmo era edificar ali um grande edifício e que exigia uma área de implantação maior que o tamanho do lote onde estava a Villa podia comportar. Ele ainda entou adquirir um terreno vizinho (e o edifício, uma casa geminada) imediatamente atrás da Villa, mas não conseguiu o acordo dos seus proprietários, que ali residiam há décadas. Por essa razão, o assunto foi sendo empurrado para a frente e nada acontecia.

À esquerda, a Villa Margherita, em 1968, quando ainda era propriedade de Arlindo do Vale Malosso. Nesta altura a casa estava novamente em bom estado o seu exterior todo pintado de amarelo creme apagado,, devido à “ocupação” e restauro pela Mrs. Brack.

A casa, entretanto desocupada, e então já suscitando a curiosidade de quem por ali passava pelo seu exotismo arquitectónico, degradou-se lentamente, sendo, no início dos anos 70, já uma magnífica e digna semi-ruína. Eu lembro-me perfeitamente de uma vez ter lá ido, com cerca de dez anos de idade (entrei pela cave com um vizinho da rua) e de arrancar dois belos azulejos azuis da parede da cozinha, decorados magnificamente com motivos florais em azul, que logo a seguir ofereci ao casal Zéca e Jorge Mealha, os dois simpáticos artistas mais ou menos residentes no Núcleo de Arte e com cujos filhos eu então me dava e com quem estudava na Escola Primária Rebelo da Silva, ali a dois quarteirões. Como cresci numa casa na Rua dos Aviadores (actual Rua da Argélia, onde hoje é o nº267) e fiz toda a escola primária na Rebelo da Silva (a actual Escola Primária 3 de Fevereiro) literalmente passava mesmo à porta da Villa Marguerita (e da Vila Algarve, o que é outra história) todos os dias quando ia e vinha da escola, durante cinco anos seguidos.

No início dos anos 70, pouco antes da independência, Arlindo do Vale Malosso, que tinha vários outros projectos em mão, entre eles, nomeadamente, o gigantesco projecto do Bairro do Trevo, à entrada da Matola, decidiu vender a Villa Margherita, que herdara do Pai, a outro empresário, cujo nome desconheço.

E essa foi a segunda razão porque a casa sobreviveu. É que, entretanto com as mudanças radicais ocorridas a seguir a 1974, a propriedade privada foi esmagadoramente “nacionalizada” (o termo legal correcto é “confiscada”, pois, que eu saiba, ninguém pagou nada a ninguém) e ali ficou a apodrecer, inabitada, até à genial decisão do governo do dia de a reabilitar e ali instalar o Museu Nacional de Geologia, a partir do espólio de um outro museu (o Museu Freire de Andrade) cujo nome foi prontamente expurgado.

Pessoalmente, acho o imóvel totalmente inadequado para ser um museu, muito menos para um tema como a geologia de Moçambique. Do (muito) pouco que sei da verdadeiramente espectacular geologia de Moçambique, o país devia, porque tem matéria para isso, ter um museu com vinte vezes a dimensão do que deve estar lá dentro da antiga casa onde viveu a simpática D. Margherita (e já que o gás é um recurso geológico, esse novo museu devia ser pago com uma generosa contribuição por parte da ENI, da Total e afins, pois que para eles isso seria troco).

Mais faria sentido ser entregue à Cidade, declarado património protegido e ali operar um pequeno centro cultural com leituras de poesias, exposições de pintura e reuniões do BIM. Ou para um Private do Mozabanco, que acho que ainda não tem um.

Mais: a casa deveria ser restaurada para a sua traça original (ver em cima a fotografia a côres) pois representa um património que caracterizou uma fase do crescimento da Cidade que é a capital de Moçambique e que ajuda a contar e ilustrar esse percurso. Pintar aquilo de branco cor de sanita é perder metade do efeito.

02/08/2020

O HOTEL LAGE EM LOURENÇO MARQUES, SEGUNDA DÉCADA DO SÉC. XX

Imagem da autoria de Ignácio Piedade Pó, retocada e colorida por mim.

Per supuesto, o hotel ficava situado do lado direito do primeiro quarteirão da Rua Consiglieri Pedroso quando se entra naquela via, vindo da Praça Mac-Mahon (agora a Praça dos Trabalhadores). Ou seja, estrategicamente a menos que cem metros da estação ferroviária de Lourenço Marques.

A fachada do Hotel Lage em Lourenço Marques, segunda década do Séc. XX.

LOURENÇO MARQUES EM 1876 – DESENHO

Filed under: LM Baixa, Mapa de LM em 1876 — ABM @ 20:51

Desenho que penso que foi feito em 1923. O mapa refere a Vila de Lourenço Marques depois do grande incêndio e a importannte decisão de Mac-Mahon e pouco antes da chegada da “expedição técnica” liderada por Joaquim José Machado, que iniciaria alterações radicais no traçado do que veio a ser a capital da África Oriental Portuguesa. Para todos os efeitos, naquele ano, a Vila era efectivamente uma ilha.

Esta versão tem a curiosidade relativa de indicar que a antiga Estrada de Lidenburgo passava junto e mesmo a Sul do antigo cemitério da urbe e não a Norte.

Lourenço Marques em 1876.

27/07/2020

OS MACHIMBOMBOS DE LOURENÇO MARQUES, CARREIRAS 17 E 18, 1965

Livirinho dos Serviços Municipalizados de Viação de Lourenço Marques, indicando as carreiras de Machimbombo Nº 17 e 18, 1965.

1 de 3. Capa. Não sei o que é isto de chamar “auto-ónibus” aos machimbombos.

2 de 3. As carreiras 17 e 18.

3 de 3. Mapa dos percursos das carreiras.

O HOTEL CLUBE EM LOURENÇO MARQUES, INÍCIO DO SÉC. XX

Postal de D. Spanos, retocado. A Avenida Aguiar depois chamou-se D. Luis I e Marechal Samora Moisés Machel.

 

Postal de D. Spanos. A Avenida Aguiar, então apenas com uma via central. À direita, um dos carros eléctricos da Lourenço Marques Electric Tramways.

A ORQUESTRA E CORO DA UNIVERSIDADE DE LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Filed under: Orquestra e Coro da ULM 1960s — ABM @ 14:11

Imagem retocada. A Universidade de Lourenço Marques foi o percursor da Universidade Dr. Eduardo Mondlane.

 

A Orquestra e Coro da Universidade de Lourenço Marques.

25/07/2020

OLIVEIRA MARTINS SOBRE CABO DELGADO, 1815-1890’S

A posse, ou soberania, portuguesa, do que constitui hoje a parte mais a Norte de Moçambique remonta a um tratado luso-britânico de 1815. Era uma posse em papel apenas, como refere o genial Oliveira Martins em baixo, explicando depois os detalhes do que aconteceu nas décadas que se seguiram, referindo o papel do “Imam” (o soberano muçulmano de Zanzibar), e os posteriores acordos e divergências com o Reino Unido e o império alemão, que se instalou no território a Norte do Rovuma sem grandes cerimónias – incluindo o bocadinho a Sul da foz do rio e que se chamava o Triângulo de Quionga.

Entretanto, a tal soberania colonial portuguesa virtual, foi alugada via a Companhia do Niassa, com sede de operações num lugarejo chamado Porto Amélia. Foi um fiasco. Aquilo só dava despesa e chatice.

No fim, e com o corolário da Conferência de Versalhes em 1919, a fronteira colonial ficou estabilizada onde está hoje.

 

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Veja-se neste mapa a Baía de Tungue, no centro da qual fica situado o lugarejo de Palma.

 

22/07/2020

JOSÉ RODRIGUES JÚNIOR, UM ESBOÇO BIOGRÁFICO

Imensamente grato a Mário Silva, Neto de JRJ, pela ajuda.  Imagem retocada por mim.

 

José Rodrigues Júnior em 1974.

José Rodrigues Júnior (JRJ) pode ser hoje considerado uma uma figura de destaque e uma referência na agora chamada literatura e escrita colonial portuguesa, devotada a Moçambique, a sua vasta obra tornada em parte uma curiosidade quase museológica pelos eventos da História, em parte porque, alas, a partir do dia 25 de Abril de 1974, ele constatou achar-se, mais que no lado errado da História, no lado que perdera estrondosamente. Ainda por cima ele, que tão acarinhado fora pelos augustos e afins do regime derrubado. Hoje, há estudos e teses académicas que debicam e dilaceram, ora deliciosamente, ora sadicamente, as variadas formas em que isso está reflectido no seu pensamento e naquilo que escreveu. O Rui Knopfli refere-se a Rodrigues Júnior displicentemente, assim: “ele é exemplo extremo da pseudoliteratura que pontifica sob os auspícios do establishment”. A querida Fátima Mendonça vociferou qualquer coisa sobre “produtos pseudo-culturais nascidos artificialmente da aberrante situação colonial”. Para não falar do que aconteceu em 1964 entre ele, o então jovem Luis Bernardo Honwana e o Malangatana. Enfim.

Tudo o que, a meu ver, só valoriza a obra de JRJ, pois, no seu agregado, ela ajuda, de forma singular e quase épica, a tentar explicar, ou procurar entender, porque é que aquilo de os portugueses permanecerem alegremente em colónias africanas durou o que durou. Naturalmente, não foi porque meia dúzia de colonos achavam que aquilo lá era porreiro. Foi, em boa parte, porque a elite de Lisboa e os sucessivos regimes portugueses, reforçaram uma visão do mundo em que ter-se colónias cheias de gente que era o que era era normal, e que até era justa, moral, legal e desejável, se necessária, a sua presença – até porque aquilo era “nosso”. A partir daqui, a perspectiva eurocêntrica, da mania da superioridade racial e cultural, o uso dos factos históricos para justificar isto ou aquilo, decorreram alegremente, para grande irritação dos poucos como o Rui Knopfli, um seu contemporâneo mais iluminado, especialmente e precisamente durante as seis décadas em que JRJ pontificou em Moçambique.

Até que ponto JRJ foi aproveitado pelo regime português? assumo que o foi, claro. Para eles, ele era um dos “bons”, era genuíno, de confiança  e falava, à sua maneira, com algum conhecimento de causa (bem, ele vivia em Moçambique). Daí advinham os contrastes. É que, durante a vigência do regime criado por Salazar, quem entre os brancos não fosse, não podia publicar, era perseguido, preso, convidado a estar calado e arrumado num canto. O privilégio, putativamente reservado aos brancos, de viverem em conforto lá na Cidade da Luz no cimo da Colina, tinha, no caso moçambicano, um preço: a cooptação para estarem calados, especialmente perante o enorme elefante na sala – que um dia, mais cedo ou mais tarde, o país teria que ascender à independência e ver a sua soberania exercida por moçambicanos, esmagadoramente negros, estivessem bem ou mal preparados (estavam mal mas isso é irrelevante para a questão).

Mais: na altura, muitos, brancos e também pretos, fundamentalmente, e independentemente de outras questões, pensavam exactamente como RJR: que Portugal sem as suas colónias seria nada, e que as colónias sem Portugal estariam perdidas.

Uma vez queixei-me que, fora das poucas boutiques académicas que se degladiam com estes assuntos mais ou menos esotéricos sobre a espuma da História, existia pouca informação sobre JRJ. Mas esta semana fui agradavelmente surpreendido pelo trabalho disponibilizado na Wikipédia, em boa parte compilado por Mário Silva, um seu neto.

Eis o texto da Wikipédia, aqui ligeiramente editado por mim:

(início)

José Rodrigues Júnior (Lisboa, 26 de Outubro 1902- 16 de Novembro de 1990) foi um escritor e jornalista português que se dedicou, durante as mais que seis décadas em que ali viveu, ao estudo de Moçambique e os seus desafios e problemas, realizando viagens de inquérito económico e social através de todo território moçambicano. Embora possa ser hoje considerada controversa por alguns, a sua obra é caracterizada por um espírito ideologicamente independente, e inclui mais de 50 publicações, entre ensaios, estudos, romances e reportagens.

Descendente de madeirenses, José Rodrigues Júnior nasceu acidentalmente em Lisboa, a 26 de Outubro de 1902. Em 1919, com 17 anos de idade, embarcou para Moçambique, onde iria viver durante os 57 anos seguintes, até abandonar aquela ex-colónia portuguesa após a formalização da sua independência, em 19 de Outubro de 1976.

Foi membro da Secção de Letras da Sociedade de Estudos de Moçambique, presidente do Centro Cultural dos Novos, chefe da redação de O Emancipador, de O Jornal e do Notícias, de Lourenço Marques, e redator-principal e proprietário da revista de arte e crítica Miragem. Colaborou na revista Seara Nova, de que foi correspondente em Nampula, assim como também na revista portuense Civilização, e representou, durante muitos anos, em Lourenço Marques, o Diário de Luanda.

Como delegado do Notícias, em 1953, foi convidado pela KLM para o vôo inaugural da carreira Amesterdão-Joanesburgo, em aviões Super-Constellation, escrevendo então o livro Viagem à Holanda. Da mesma forma, em 1955, ao serviço do mesmo jornal, participou na viagem inaugural dos Super-Constellation, que então passaram a ser usados na carreira da TAP entre Lisboa e Lourenço Marques, de que veio a publicar o volume Aguarelas. No ano de 1960, em representação do jornal Diário, foi a Goa, Damão e Diu, editando o livro Terra Nossa na Costa do Malabar. Em 1962, a convite do governo da República Federal Alemã e também ao serviço do jornal Diário, visitou aquele país, publicando em seguida o livro Caminhos da Alemanha Ocidental. Em 1963, também pelo mesmo jornal, foi a Angola integrado na comitiva de jornalistas que acompanhou o Presidente da República Portuguesa, dando ao público o volume Angola-Terra de Portugal. Da mesma forma o fez, na viagem do Presidente Américo Tomás a Moçambique, de que escreveu o livro Moçambique-Terra de Portugal. Em outubro de 1965, indicado pelo ministro do Ultramar, representou Moçambique no Primeiro Encontro de Escritores Portugueses, realizado na cidade do Porto, editando o volume de crónicas e ensaios Encontros.

Na opinião da critica metropolitana da altura, “os seus estudos sobre Moçambique são, a par de notáveis obras literárias, trabalhos de sociólogo, de colonialista, de moralista e, até, de economista – e muitas das melhores páginas da nossa novelística e da nossa reportagem, destes últimos 30 anos, por exemplo, saíram das suas infatigáveis mãos”.

Da sua obra destacam-se as publicações dos livros, O Homem Negro das Regiões do Sul do Save, Os Indígenas de Moçambique, Do Homem Negro – da Sua Vida e da sua Arte, Para Uma Cultura Africana de Expressão Portuguesa, A Aventura do Mato e a Colonização Dirigida, O Negro de Moçambique, Africa – Terra de Promissão (Prémio Literatura Ultramarina), Meque o Pescador Negro (1º Prémio de Jornalismo), Terra Nossa da Costa de Malabar (Prémio Nacional Afonso de Bragança), Ruy de Noronha – Poeta de Moçambique, os romances/obras de ficção, Sehura, O Branco da Motase, Calanga, Muende (Prémio Nacional Fernão Mendes Pinto), Era o Terceiro dia de Vento Sul (Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa) e Omar Ali.

Rodrigues Júnior foi ainda distinguido com o Prémio Afonso de Bragança, de jornalismo, entregue no Palácio Foz, em Lisboa, em 1962. Pelo conjunto da sua obra literária, foi distinguido com o Grau de Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique e com a Cruz de Cavaleiro da Soberana Ordem dos Cavaleiros de Colombo, pelo seu livro Caminhos da Alemanha Ocidental, em 1963.

A sua obra projectou-se para além de Portugal. Vários autores citam com relevo o seu trabalho como escritor, nas suas publicações, nomeadamente O ensaio Mozambique-Pueblo Nuevo, de Dom Francisco Elias Tejada, catedrático da universidade de Sevilha; o estudo Portuguese Africa, de James Duffy, catedrático da universidade de Harvard, em Cambridge, Massachussetts; o estudo crítico e histórico African Literature in the Portuguese Language, do Prof. Dr. Gerald M. Moser, da Pennsylvania University e o ensaio Estudios de Derecho Bantu, do prof Dr. José F. Lorca Navarrete, da Universidade de Córdova.

Após deixar Moçambique e radicar-se em Portugal, em 1976, com 74 anos de idade, residiu, entre Cabeço de Bustos (Distrito de Aveiro) e Benfica e Queluz de Baixo (Distrito de Lisboa), profundamente desiludido e amargurado com o que considerou um mundo hipócrita que não conseguiu entender, afastando-se dos homens, deixando-se aproximar e aconchegar no Mundo da Fé de Cristo, como católico que passou a acreditar ser em determinada fase da sua vida. Com 88 anos de idade, José Rodrigues Júnior faleceu no dia 16 de novembro de 1990, exilado da terra que tanto sentiu e amou durante a maior parte da sua vida – Moçambique.

Obras Publicadas:

Ensaios
A Paz e a Vida (1937)
Homem, Trabalho e Salário (1937)
Para Uma Cultura Moçambicana (1951)
Afirmação de Presença (1952)
Literatura Colonial (1953)
Considerações (1954)
Terra, Homens e Ideias (1957)
Literatura Ultramarina (O escritor, o Homem e o meio) (1962)
Depoimento (1964)
Poetas de Moçambique (1965)
Encontros (1966)
Mãe Negra (1967)
O Homem Negro das Regiões ao Sul do Save (contribuição para um juízo interpretativo do problema da sua promoção social) (1969)
Os indígenas de Moçambique (1971)
Alguns Poetas de Moçambique (1972)
Do Homem Negro – da sua Vida e da Sua Arte (1974)
Para Uma Cultura Africana de Expressão Portuguesa (1977)
Ruy de Noronha – Poeta de Moçambique (1980)
Estudos de Assuntos Ultramarinos
Caminhos de Ferro de Moçambique (1938)
Sobre indígenas e Missões (1940)
Aventura do Mato e Colonização Dirigida (1945)
O Negro de Moçambique (1955)
Transportes de Moçambique (1956)
Colonização (Contribuição para o seu estudo em Moçambique) (1959)
Alguns Aspectos Culturais do Turismo em Moçambique) (1961)
Reportagens-Inquérito
Problemas de Moçambique (1942)
Diário de Viagem (8.000 kms em Moçambique) (1943)
Actividades e Problemas do Niassa e de Manica e Sofala (1944)
A Voz dos Colonos de Moçambique (1945)
Terra Moçambicana (1945)
À Procura de Outras Terras e Outras Gentes (1947)
África – Terra de Promissão (1949)
Meque – O Pescador Negro (1950)
Por Terras de Monomotapa (1951)
Viagem à Holanda (1954)
Aguarelas (1956)
Negros e Brancos (1958)
Terra Nossa na Costa do Malabar (1961)
Caminhos da Alemanha Ocidental (1963)
Angola Terra de Portugal (1964)
Moçambique Terra de Portugal (1965)
Caminhos do Colonato do Limpopo (1965)
Quando se Pensa nos Que Lutam (1970)
Cabota-Bassa (1973)
A Alma da Nossa Rua (1974)
Romances
Sehura (1944)
O Branco da Motase (1952)
Calanga (1965)
Muende (1960)
Era o Terceiro Dia de Vento Sul (1968)
Omar Ali (1ª Edição em 1975 e 2ª Edição em 1977)
Prémios
Alguns destes trabalhos foram galardoados com diplomas, prémios nacionais e internacionais.

Diploma de Honra do Núcleo de Arte (1945)
Diploma de Honra do Concurso de Literatura Ultramarina (1945)
Prémio de Literatura Ultramarina (1949)
1º Prémio de Jornalismo (1950)
Diploma de Honra do Concurso de Literatura Ultramarina (1951)
Prémio Fernando Mendes Pinto, Nacional, de Literatura Ultramarina (1960)
Prémio Afonso de Bragança, Nacional, de Jornalismo (1962)
Grau de Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, pelo conjunto da sua obra literária (1964)
Cruz de Cavaleiro da Soberana Ordem dos Cavaleiros de Colombo, distinção Internacional, pelo seu livro “Caminhos da Alemanha Ocidental” (1965)
Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa, da classe Letras (1969)

(fim)

21/07/2020

A BEIRA, INÍCIO DO SÉCULO XX, POR J. WEXELSEN

Filed under: Beira, J. Wexelsen fotógrafo, Manica Trading Co. Ltd — ABM @ 20:22

Imagem retocada.

 

Um aspecto da Beira, primeira década do Século XX, retratado por J. Wexelsen. Atrás do homem sentado no carrinho de reboque, um armazém da Manica Trading.

LEÕES NO PARQUE NACIONAL DA GORONGOSA, ANOS 60

Imagens retocadas, de dois postais, da autoria do grande Carlos Alberto Vieira, o melhor fotógrafo do Século XX em Moçambique.

O Parque Nacional da Gorongosa era, em 1974, um dos mais impressionantes de África. Nos anos que se seguiram, foi destruído pela guerra pela desorganização local. Actualmente, está em curso um esforço com vista à sua reabilitação.

Uma leoa.

 

Um leão.

 

 

20/07/2020

O CHÁ DE MOÇAMBIQUE E O CHÁ DOS AÇORES

Filed under: Chá de Moç e o Chá dos Açores — ABM @ 23:24

Entretanto o chá de Moçambique praticamente desapareceu.

Durante muitos anos, algumas ilhas dos Açores produziram chá, produto que tinha como principal concorrente….Moçambique. Em baixo, uma crónica de Mário Moura, publicada no Correio dos Açores, na sua edição de 26 de junho de 2020 e reproduzida aqui com vénia, refere o que aconteceu em 100 anos. É uma história quase inacreditável:

À data da independência, Moçambique era o grande êxito português do chá: abastecia sem concorrência o mercado nacional e competia de igual para igual nos mercados internacionais. A partir da década de cinquenta, era a besta negra do chá açoriano. O Brasil havia sido a primeira experiência bem-sucedida de fabrico e cultura do chá fora da Ásia, mas não lograra alcançar os objectivos imperiais, visto que, logo depois, sobreviera a independência e a instabilidade politica e social tomara conta da nova nação. O chá fora relegado para segunda ou terceira opção, substituído pelo café e pelo açúcar. Nos Açores, face ao gigante Moçambique, o chá que arrancara em força a partir da década de noventa do século XIX, perdera há muito a corrida. Isto ficou-se a dever à sua reduzida dimensão, à proverbial desunião entre os produtores, ao pouco investimento e às técnicas absoletas empregues. Mas não só: devia-se em larga medida ao apoio oficial do Governo Central ao chá Moçambicano. Quando penso no chá de Moçambique, lembro-me de Artur Lúcio Fernandes Magalhães e de Domingos da Ponte. Artur Lúcio, nascido em Moçambique, trabalhou nas principais plantações e fábricas de chá do Gurué. Por volta do ano de 1980, Artur abandona Moçambique e estabelece-se na Metrópole. Em 1984, recomendado aos Serviços Agrários dos Açores por um amigo dos tempos de Moçambique, deixa o seu negócio de aviários, que entretanto montara no continente, e aceita o desafio do Governo Regional dos Açores: ensinar na Ilha de São Miguel o que de mais actual havia sobre a cultura e o fabrico do chá. A julgar pelo trabalho que desenvolveu, quer pela leitura atenta do conteúdo do relatório que apresentou em 1993 – que deveria sem demora ser publicado – quer no trabalho de campo que efectuou, até para lá da idade da reforma, Artur Lúcio superou, a todos os níveis, Lau-a-Pan, Lau-a-Teng, Schon Sem e Lan Sam. Permaneceu 12 anos na Ilha, enquanto os chineses que o antecederam estiveram, apenas, 1 ano e meio, os primeiros, um pouco mais de três anos, os segundos. E deixaram muito a desejar do ponto de vista técnico. Reformou-se em Junho de 1996, ainda em finais de 1998 estava na Ilha. Faleceu, quase anonimamente, em Oeiras, a 27 de Abril de 2001. Que herança deixa? Além do relatório e dos campos de Chá India nas Sete Cidades e na Ribeira Grande, que continuam a vicejar graças à resiliência da engenheira Clara Estrela Rego, que o acompanhou, ajudou a reabrir o Chá Porto Formoso. Por que não foi bem aceite? Os tempos eram outros. A obsessão pela pastagem cegava. Além do mais, a sua abordagem moderna ao chá divergia do método ortodoxo que vinha dos tempos dos chineses. Apesar dos constrangimentos, como foi possível que o chá sobrevivesse? Penso ser de toda a justiça realçar a resiliência da D. Berta Hintze e dos seus colaboradores da Gorreana – Sr. José Bento e engenheiro Hermano Mota -, e a clarividência do Sr. Eduardo Wallenstein, cujos insistentes pedidos de apoio oficial, terão desencadeado a vinda de Artur Lúcio. Depois, sobreveio uma feliz conjugação de factores: a mudança de hábitos alimentares e o crescimento do turismo. Domingos da Ponte, nascido em Rabo de Peixe [Ilha de São Miguel, Açores], com uma curta experiência no chá do Pico do Refúgio, foi contabilista nas principais fábricas de chá do Gurué. Na casa que construiu na sua terra Natal, mandou colocar um painel de azulejos com uma sugestiva imagem de uma plantação de chá do Gurué. Julgo que não conheceu Artur Lúcio.
Como chegou Moçambique ao chá? Moçambique, após a perda do Brasil, pretendeu ser o novo Brasil do Império colonial português. O argumento apresentado era simples: era tão fértil e rico como o Brasil. Tinha outra vantagem, ficava próximo do canal de Suez, a via de comunicação mais fácil de acesso à Europa.
O caso moçambicano, no entanto, difere dos demais do Império. Se as áreas atlânticas do Império português devem à realidade do chá no Brasil, Moçambique, sem descartar essa influência, deverá outro tanto à influência do Império colonial Britânico na Índia e em África. As primeiras sugestões e experiências e posterior concretização têm nitidamente a ver – por reacção ou emulação – com o que se passava no mundo africano anglófono, nas províncias do Cabo, do Natal, no Malawi, ou no sub-continente Indiano, em Assam e Darjeeling na Índia e, em Ceilão.
Em 1856, altura em que o chá na Índia Britânica dava sinais de querer arrancar de forma decisiva, um representante de Moçambique no Parlamento em Lisboa lançava a ideia do cultivo do chá. Apresentou como razões: ‘(…) que a província de Moçambique é a possessão porventura mais preciosa que nós temos (…),’ onde ‘dá-se ou pode dar-se tudo que se dá no Brazil (…).’1
Todavia, que se saiba, só por volta de 1891-92, é que ocorrem em Moçambique as primeiras experiências com o chá. Em 1891, ano em que o chá micaelense era ainda pouco expressivo, a Sociedade de Geografia de Lisboa mandava traduzir o Tratado sobre a cultura do chá, de M. Jacobsen, sócio daquela Sociedade. Este destinava-se a ser distribuído pelos sócios. Entre os quais, potenciais cultivadores em Moçambique. Pelos vistos, coincidência ou não com o caso de José do Canto, o chá em Moçambique arranca em 1891-1892. Em 1897, as potências Europeias retalhavam África, outro representante Parlamentar de Moçambique, alertava as autoridades nacionais. Moçambique, adiantava ele, devido ao seu potencial produtivo, nomeadamente quanto ao chá, a 500 metros de altitude, acirrava a cobiça de nações poderosas. Exemplificava: a Alemanha tinha os olhos postos no norte de Moçambique e a Grã-Bretanha tinha-os não só a norte como a sul daquela província.
Em 1906, na Câmara dos Deputados, em Lisboa, surge outra referência ao assunto. Nestas circunstâncias, para incentivar o fomento de culturas em Moçambique e Angola, entre as quais, a do chá, o representante da colónia propõe a concessão de apoios no género dos dispensados por outros Impérios Coloniais Europeus em África. Voltando-se para o caso Português, o referido representante Parlamentar propunha, a título de experiência, e mediante certas condições, que se facilitasse às sociedades privadas, constituídas convenientemente, a aquisição por aforamento direto de áreas mais ou menos extensas de terrenos nas províncias de Angola e Moçambique.
Em 1911, já no período da I República, José da Silva Gonçalves propôs, sem sucesso, que a cultura do piri-piri fosse substituída pela do chá. Mais tarde, a seguir à I Grande Guerra, em 1924-25, a Sociedade de Chá Oriental, pioneira da indústria do chá em Moçambique, obteve a sua primeira colheita: umas escassas 45 toneladas. Para um período que vai até à década de trinta do século XX, temos o testemunho de Willian Harrison Ukers, um americano estudioso do chá. Para o ano de 1931, Ukers adianta que “(…) The production in Mozambique in the year ended in September, 30, 1931, according to figures from local agricultural Department of Lourenço Marques amounted to 200, 619 pounds. About 750 acres are given over to tea in the colony.”
Em1933, a Sociedade de Chá Oriental desenvolveu mais a plantação e construiu nova fábrica, denominada Milossa, dotada com todos os modernos aperfeiçoamentos e com capacidade de produção de 500 toneladas. Em 1948, duas fábricas produzirão mais de 1.000 toneladas.
Comparando São Miguel e Moçambique. Em São Miguel, em 1913, apenas existiam 435 hectares cultivados de chá. Moçambique, em 1938, já dispunha de 681 hectares, três anos depois, em 1941, aumentara para o dobro (1282), e sete anos depois, em 1948, ampliara sete vezes mais.

 

NOTAS DE WILLIAM C. SCULLY SOBRE LOURENÇO MARQUES EM 1872 E 1911

Filed under: William Scully e LM 1911 — ABM @ 23:18

Em baixo, uma interessante e divertidíssima nota de William C. Scully sobre Lourenço Marques (pp. 27-51, intermitentes), incluindo uma comparação que Scully fez das diferenças que encontrou na Cidade nas duas vezes que por lá passou, primeiro em 1872 e depois em 1911.  A sua nota faz parte de um livro de viagens, muito comuns na altura, chamado, em português, O Cume das Águas Brancas (em Afrikaans Witwatersrand), nome da região, então num canto da República Sul-Africana, a cerca de quinhentos quilómetros em linha recta de Lourenço Marques, onde em 1886 se descobriu o que se provou ser o maior filão de ouro jamais descoberto no mundo. O ouro saído da região dinamizou a economia mundial (ainda presa ao padrão-ouro), constituiu o primeiro mega-investimento extractivo em África, trazendo milhões em investimento e lucros para principalmente os britânicos e foi directamente responsável pelo despontar e crescimento da então Lourenço Marques e ainda do início do fenómeno dos magaíças, com inegável impacto político, social e cultural no Sul de Moçambique.

 

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19/07/2020

A ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE LOURENÇO MARQUES, DÉCADA DE 1920, POSTAL DE A W BAYLY

Imagem retocada, postal de Arthur William Bayly.

 

A estação ferroviária, inaugurada em 10 de Março de 1910 mas só concluída seis anos mais tarde. Postal de A W Bayly.

 

Eis o que diz o SA Heritage Portal sobre Bayly, o fundador da Casa Bayly (tradução minha):

Arthur William Bayly (1855-1915)

Dez anos mais velho que o seu irmão Wilberforce, Arthur William Bayly nasceu em Southampton, no Reino Unido, em Março de 1855. Eventualmente tornou-se  um comerciante de sucesso em Barberton e em Lourenço Marques.

Na África do Sul, Arthur inicialmente viveu em Harrismith entre pelo menos 1883 e 1885, onde se casou com Mabel Olive Brodrick. O casal teve quatro filhos: Ernest William, Alan Leonard, Elfrida e Olive Isabella.

Posteriormente, Artur estabeleceu-se em Barberton, durante o ano de 1886 e onde fundou os jornais The Goldfields News e o Barberton Herald.

Ele também estabeleceu a AW Bayly & Co (comércio geral). Este negócio foi anunciado como sendo “Livreiros, papelaria, impressoras (encadernação) e vendedores de música”. Os papéis timbrados da AW Bayly & Co confirmam que o negócio também incluia a venda de máquinas de escrever e o fabrico de carimbos de borracha. Eles administraram ainda uma biblioteca itinerária e comercializavam (e alugavam também) pianos Bechstein e Broadway, bem como órgãos Thomas. Pianos e harmónios também eram afinados e reparados por este estabelecimento.

Mabel era uma parceira comercial da AW Bayly & Co, na medida em que detinha  uma quota de 1/6 nos negócios do marido.

Embora uma fonte confirme que Arthur era comerciante de sementes e fotógrafo, não se conhece nenhuma evidência de seu trabalho fotográfico até esta data. Poderia ser que pesquisadores anteriores confundissem com ele o seu irmão, o fotógrafo Wilberforce Bayly. A confusão provavelmente origina em Wilberforce, que tinha um estúdio fotográfico na Crossley Brothers o qual, no entanto, fora registado como …. um comércio de sementes.

No entanto, a AW Bayly & Co publicou cartões postais com imagens [como o que se vê em cima]. Por isso, pode ser que Arthur tenha tirado fotografias produzidas como cartões postais ou que seu irmão Wilberforce tenha fornecido as imagens ao seu irmão Arthur para impressão.

Arthur é registado como tendo sido o maestro da Sociedade Filarmónica de Barberton, formada em 9 de julho de 1887 (Bornman, 2007).

Arthur faleceu em Durban em julho de 1915 (com 60 anos de idade). Mabel faleceu, também em Durban, em outubro de 1917, com 56 anos de idade.

 

125 ANOS DE CAMINHOS DE FERRO EM MOÇAMBIQUE

Imagem retocada.

Assinalo o 125º aniversário da viagem inaugural, por via férrea, entre Lourenço Marques e Pretória, ocorrida na segunda feira, dia 8 de Julho de 1895, considerado o início do que veio a ser uma organização quase dominante em Moçambique. Na altura Lourenço Marques-Pretória (e Joanesburgo) era considerada a ligação ferroviária mais estratégica e valiosa no mundo e uma verdadeira dor de cabeça para a diplomacia britânica, empenhada há décadas a tentar isolar o Transvaal de um acesso directo aos oceanos, o que incluiu de tudo um pouco, nomeadamente a reiterada tentativa de (literalmente) comprar Lourenço Marques e ficar com o Sul do que é hoje Moçambique. Se Moçambique tem hoje um Sul, deve-o em boa parte às circunstâncias de que resultou a atribulada criação deste troço. Contra tudo e todos, se em tanta coisa mais cederam, os portugueses de então simplesmente nunca cederam neste aspecto.

Seria no entanto parcial, e porventura indecente, não mencionar que, por volta da mesma altura, por imposição britânica e de Cecil Rhodes (que essencialmente eram quase a mesma coisa) se construiu uma linha de caminho de ferro entre a Beira e a Rodésia, mais curta mas se calhar mais complicada, agravado pelo factor “o barato sai caro”, pois primeiro fizeram uma linha de bitola pequena e imediatamente após a conclusão tiveram que alargar a bitola e assim refazer tudo.

 

A locomotiva dos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques (CFLM) que transportou o Presidente Paulus Johannes Kruger (do Transvaal, nome formal República Sul-Africana) na viagem oficial de inauguração da linha ferroviária entre Lourenço Marques e Pretória.

A CARROÇA DOS CÃES EM LOURENÇO MARQUES, MARÇO DE 1975

Imagem retocada e pintada por mim, da autoria de Jean Guyaux, um repórter fotográfico belga, que faleceu em 2015.

Nos meus tempos de criança, crescendo na Polana, em Lourenço Marques, um dos aspectos que considerava mais temíveis e sinistros na vida da Cidade era a carroça dos cães da Câmara Municipal, que ocasionalmente fazia a ronda das ruas, à procura de cães perdidos ou abandonados.

A carroça dos cães da Cãmara Municipal. Munidos de redes, dois funcionários apanham um cão, mesmo à entrada do acesso Sul do Palácio da Ponta Vermelha em Lourenço Marques, Março de 1975. À entrada do Palácio, vêem-se três militares portugueses.

O que constava entre os míudos era que a carroça levava os cães e em seguida os matava, pelo que a nossa reacção era de horror e de tentar “salvar” os animais dos funcionários, que vinham munidos das redes que se vêem na imagem.

Na rua onde cresci, a Rua dos Aviadores, havia uma lendária cadela, a Violeta, que nominalmente pertencia ao Núcleo de Arte e que habitualmente residia na rua, mais ou menos em frente à instituição. Era uma cadela absolutamente pacífica e que passava a maior parte do tempo a dormir no passeios em redor do Núcleo. Todos os anos, quase pontualmente, a Violeta engravidava depois de uma mais ou menos embaraçosa cena de sexo com um cão qualquer com cio e logo a seguir produzia uma prole de descendentes, que se procurava em seguida distribuir por quem quisesse um cãozinho.

Quando, de vez em quando, aparecia a Carroça da Câmara lá na rua, soava o toque de alarme e logo alguém ia esconder a Violeta, ou, se fosse apanhada, havia uma espécie de insurreição geral para que os funcionários a libertassem, pois apesar de estar na rua, a cadela era não era considerada por nós nem abandonada nem “de rua”. E lá foi ficando a Violeta, pachorrenta, ano após ano.

Quando o fotógrafo Jean Guyaux captou esta fotografia,, em Março de 1975, já Portugal havia entregue a soberania em tudo menos formalmente à Frente de Libertação de Moçambique e já decorria, desde Setembro de 1974, a saída precipitada dos brancos que viviam na Cidade, muitos portugueses, que regressavam à sua terra, especialmente após os distúrbios de 7 de Setembro e 21 de Outubro de 1974, quando a maioria se convenceu que o país afinal iria ter um futuro atribulado e pouco promissor, especialmente para um branco. Para além de que muitos recusavam a perspectiva de passar de uma ditadura fascista racista de partido único para uma ditadura comunista racista de partido único, que foi mais ou menos o que viria a acontecer (e muito mais). Assim, a legenda que propôs para esta imagem foi que a Câmara andava a apanhar nas ruas os cães abandonados pelos portugueses que regressavam a Portugal.

A legenda da imagem recolhida: “em Lourenço Marques, capturando cães vadios nas ruas, abandonados pelos portugueses, já partidos para a Europa”.

Não sei até que ponto este abandono canino foi assim tão pronunciado e duvido que Jean soubesse que aquele cão apanhado naquele dia à porta do Palácio da Ponta Vermelha era um cão abandonado por um proverbial colono que regressara a Portugal. Pode ser que sim. Mas acredito que foi apenas uma forma de procurar contar uma pequena história construída dentro da grande história que era o fim escatológico e tardio da soberania portuguesa do território. Pois a Cidade quase sempre tivera este serviço e estimo que ainda tenha.

Quando os meus pais finalmente e penosa e relutantemente decidiram sair de Moçambique, após o enésimo discurso ameaçador proferido por Samora no Rádio Clube de Moçambique e pelo que me pareceu ter sido uma revolta militar envolvendo elementos da Frelimo ainda hoje muito pouco falada e ainda menos documentada, ocorrida na Cidade logo no início de 1976, o nosso cão com dez anos, um belo pastor alemão, considerado parte da família, foi enviado para Lisboa num vôo da TAP. Mas nunca chegaria lá. Presumimos que, numa paragem técnica do vôo em Kinshasa, ele foi roubado. A TAP, num estado de caos mal controlado e a braços com a saída maciça de gente a partir de Lourenço Marques e Luanda, nunca explicou o que aconteceu. Disseram apenas que não sabiam o que acontecera e ofereceram-se para devolver o dinheiro.

O que nunca fizeram.

16/07/2020

A BAIXA DE LOURENÇO MARQUES, O HOTEL TURISMO E A CASA BAILY, DÉCADA DE 1970

Imagens retocadas.

 

A Baixa de Lourenço Marques e a Avenida da República, final da década de 1960.

 

Esta imagem é um detalhe da imagem em cima, mostrando o então futuro Hotel Turismo (esquina das Avenidas Manuel de Arriaga e República) em construção, obra do empresário Jorge de Abreu, que na altura já era o dono do Hotel Tivoli e um dos principais empresários de Moçambique. No mesmo local, durante muitos anos, nesta esquina ficava um pequeno edifício onde funcionava a Casa Baily.

O MAESTRO BELO MARQUES EM LOURENÇO MARQUES, 1938-1941

Imagem retocada.

Belo Marques, num postal do Rádio Clube de Moçambique.

 

A Wikipédia dá um relato detalhado do percurso desta figura que passou brevemente pelo Rádio Clube de Moçambique (e por Moçambique) mas que deixou uma impressão.

(texto ligeiramente editado por mim):

José Ramos Belo Costa Marques du Boutac (Leiria, 25 de Janeiro de 1898 — Sobral de Monte Agraço, 27 de Março de 1987) foi um violoncelista, compositor e orquestrador português.

Com nove anos de idade, iniciou em Leiria os seus estudos musicais, com o Professor Joaquim Silva, aprendendo a lidação de vários instrumentos, e participando em vários agrupamentos musicais, prosseguindo-os depois em Lisboa. Na altura era considerado um “menino prodígio” por dominar já vários instrumentos aos treze anos, após apenas quatro anos de estudo, dado a que não teve uma formação musical convencional.

Em 1914, com 16 anos de idade, foi contratado para tocar no Casino Mondego, na Figueira da Foz, onde conheceu o violoncelista João Passos, que virá a ser o seu mentor na escolha desse instrumento.

Tornou-se músico profissional em 1918, actuando em paquetes que ligavam a Europa e a América do Sul, percorrendo vários países da Europa e da América, entretanto aprofundando os seus conhecimentos musicais.

Em 1924, regressou a Portugal para cumprir o serviço militar. Em 1926, foi para Santarém, onde fundou e dirigiu o Orfeão Scalabitano. Em 1929, viajou até aos Açores e a Madeira, dirigindo em Funchal uma orquestra privativa de 35 elementos, à qual imprimiu um estilo de grande qualidade, e que durou até ao final da sua carreira.

Regressou a Lisboa para fazer parte da Orquestra Sinfónica Portuguesa do Teatro de São Carlos, dirigida por Pedro Blanch, e da Orquestra Sinfónica de Lisboa, dirigida por David de Sousa e, entre 1932 e 1935, começou a trabalhar regularmente no Casino do Estoril. Em 1935, ingressou nos quadros da Emissora Nacional, onde permaneceu três anos como primeiro violoncelista da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, então dirigida por Pedro de Freitas Branco.

Durante a sua estadia na Emissora Nacional, Belo Marques orientou o quarteto vocal de Motta Pereira, Paulo Amorim, Guilherme Kjolner e Fernando Pereira, fundando também a Orquestra de Salão, e remodelando a Orquestra Típica Portuguesa, à altura dirigida por Raúl de Campos.

Moçambique, 1938-1941

Em 1938, saiu da Emissora Nacional e viajou até Lourenço Marques para desempenhar o cargo de Director do Rádio Clube de Moçambique, onde fundou o seu Coro Feminino e as suas Orquestras Típica e de Salão.

Durante a sua relativamente curta mas frutífera estada em Moçambique, estudou o folclore indígena, fez uma recolha etno-musicológica das regiões de Tonga, Machangane, Zavala e Inharrime, do qual resultou o livro Música Negra. Estudos do Folclore Tonga, editado pela Agência Geral das Colónias, em 1943.

Em 1940, compôs a “Marcha Triunfal a Mousinho”, nas festas dedicadas a Mouzinho de Albuquerque, no Teatro Gil Vicente, em Lourenço Marques (actual Maputo), um evento que viria a reunir os vários orfeões participantes – o orfeão do Instituto Portugal, Escola Chinesa, Escola de Artes e Ofícios da Moamba e o grupo coral Indo-Português, compondo em simultâneo a “Marcha à Mocidade Portuguesa de Inhambane”.

Em 1941, compôs o poema sinfónico “Bartolomeu Dias” e a fantasia “Masseça”, fantasia composta “sobre motivos indígenas”, tendo como base a canção que é cantada em tôda a região de Masseça com a mesma popularidade do «Vira» em Portugal. Ambas as peças foram incluídas na sua “Fantasia Negra”, fantasia em seis andamentos para coro e orquestra, onde o próprio conseguiu, com muita dificuldade, executar a técnica da Escala Nicrocromática do Quarto de Tom, recolhido pelo próprio em Moçambique, durante as suas investigações em Zavala, e aprovado por um Congresso Internacional em Viena.

Fantasia Negra viria a estrear em 19 de Outubro de 1944, no Teatro de São Carlos em Lisboa, com a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, dirigida por si.

Em Portugal, Outra Vez

Regressou à Emissora Nacional, em 1941, em plena II Guerra Mundial, onde se dedicou totalmente à canção popular e ligeira, sómente por motivos economico-financeiros, regressando à Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional como violoncelista e regente de ensaios, sendo responsável pela criação de quatro orquestras novas na estação pública: a Orquestra Ligeira, dirigida por Fernando de Carvalho e Tavares Belo, a Orquestra de Variedades, dirigida por António Melo e Fernando de Carvalho, a Orquestra Típica Portuguesa, refundada sob a sua direcção, e a Orquestra de Salão, em parceria com René Bohet, entre 1942 e 1945, e depois como titular entre 1948 e 1954.

Na Emissora Nacional, criou o Centro de Preparação de Artistas, que contribuiu para o lançamento de novas estrelas da rádio como os cançonetistas Francisco José, Júlia Barroso, Tony de Matos, Simone de Oliveira, Madalena Iglésias e Maria de Fátima Bravo, entre outros.

No Festival da Canção Latina, representou Portugal com Maria de Lourdes Resende e Guilherme Kjolner, sendo-lhes concedidos os dois primeiros prémios.

Dirigiu durante as décadas de 40 e 50, em simultâneo, a Orquestra Típica Portuguesa, até à sua extinção em 1954, a Orquestra de Salão da Emissora Nacional e o Coro Feminino da Emissora Nacional.

Com a extinção das mesmas, Belo Marques reformula a sua orquestra privativa de estúdio, e com os elementos da Orquestra Típica Portuguesa, fundou a sua própria orquestra típica, e ambas ficariam em constante actividade, gravando muitos discos até 1960.

Em 1956, viria a ser um dos ajudantes na fundação da Orquestra Típica e Coral de Alcobaça, que teria uma projecção e popularidade surpreendentes na década de 60 do Séc. XX, quando foi dirigida por Alves Coelho Filho.

Em 1958, foi demitido da Emissora Nacional, em virtude de se ter atrevido a votar no General Humberto Delgado (candidato da Oposição, que concorreu contra Américo Tomás, o candidato de Salazar e da União Nacional) e retirou-se na década de 1960, com o relançamento das gravações oficiais do “Fandango da Suite Alentejana” de Luís de Freitas Branco, e da “Rapsódia Alentejana” de Sousa Morais.

A seguir ao golpe militar de 25 de Abril de 1974, Belo Marques foi nomeado Consultor de Programas Musicais da Emissora Nacional, cargo que desempenhou até 1981, quando, já com 83 anos de idade, foi reformado. Nesse mesmo ano, Belo Marques foi homenageado por Raúl Solnado, Carlos Cruz e Fialho Gouveia no primeiro programa da série E o Resto São Cantigas, sendo ainda nomeado como director dos programas da então nova televisão de Moçambique.

Faleceu em 1987, na sua casa em Sobral do Monte Agraço, perto de Lisboa, onde hoje existe uma rua com o seu nome.

 

Uma genial recolha de Miguel Catarino,  que escreveu o seguite:  “esta gravação de “Mulowa” data de 1974, foi efectuada no Estúdio do Rádio Clube de Moçambique, em Lourenço Marques, num programa de Música Popular pelo Coro Feminino e Orquestra Típica da estação radiofónica moçambicana, sob a regência do maestro António Gavino, que se realizava habitualmente às 6ªs feiras. Aqui, escutamos uma interpretação impressionante de um tema popular do Folclore Tonga oriundo da Vila de João Belo (aka Xai-Xai), Chibuto, Zavala, Manjacaze e Inharrime, recolhido pelo maestro Belo Marques e que se tornou célebre nos anos 60 graças ao Duo Ouro Negro.
Eis as considerações que Belo Marques teceu a respeito do povo de Zavala: «O preto de Zavala não aprendeu música, apreendeu-a! A música do preto de Zavala veio-lhe das suas árvores, do seu solo, dos seus rios, das suas fontes, e ele, sem mais trabalho que interpretá-la, nasceu a cantar. Por isso a alma desta gente é boa, canta e canta sempre! (…) Na música negra, há uma grande beleza e muito que observar, porque tôda ela tem um princípio e uma base natural. Há em tôda a música um mando único; uma forma única que êles sentem mas não podem explicar por palavras. A música negra é como uma bela pintura sôbre a tela da natureza!».
Nessas investigações, realizadas em Zavala e Inharrine, Belo Marques encontrou um povo muito musical, e que é o único povo no mundo que concebeu o “quarto de tom”. E o maestro, por coisas que eles cantaram, conseguiu inventar um sistema de composição musical definitivo para o Compasso Quaternário, dado a que ainda não se tinha assentado nenhum sistema para a Escala Micro-Cromática. A introdução do novo sistema concretizou-se em 1939, ano em que foi concebida a “Fantasia Negra em Seis Andamentos”, fantasia vocal sinfónica para Solista Feminina, Coro e Orquestra Sinfónicos do maestro Belo Marques, parcialmente estreado em 31 de Julho de 1942, pela Orquestra Sinfónica Nacional, dirigida por Pedro de Freitas Branco, com a execução da “Valsa das Febres” e a “Dança Guerreira do Gugunhana”, e totalmente estreada em 29 de Outubro de 1944, no Teatro Nacional de São Carlos, num concerto patrocinado pelo Secretariado Nacional da Informação e pela Agência Geral das Colónias, e em que foram solistas Raquel Bastos (soprano) e Paulo Manso (violino), acompanhados pela Orquestra Sinfónica Nacional e pelo Orfeão Scalabitano, dirigidos pelo compositor. No entanto, e ainda hoje, a obra não foi muito bem acolhida, tanto pela resistência dos músicos a respeito da Escala Micro-Cromática, como por causa dos peritos considerarem esta obra como demonstrativa da incapacidade do Belo Marques em se afastar de uma concepção ocidentalizada da música. Em contrapartida e em contraponto, a Escala inventada por Belo Marques foi aprovada por unanimidade num Congresso da Filarmónica de Viena, e desde essa altura que existem instrumentos adoptados para executarem o “quarto de tom”, principalmente as harpas. Esta foi uma das músicas que Belo Marques recolheu do Folclore Tonga, e que instrumentou para o Coro Feminino e Orquestra Típica Portuguesa da Emissora Nacional. ”

 

Dados adicionais:

https://digitarq.adlra.arquivos.pt/details?id=1081123

http://rpm-ns.pt/index.php/rpm/article/download/125/128

http://ric.slhi.pt/Seara_Nova/visualizador/?id=09913.037.011&pag=16  (Fernando Lopes Graça “destrói” A Fantasia Negra, sem o dizer – para variar)

19/06/2020

A FRONTEIRA SUL-AFRICANA COM MOÇAMBIQUE, EM KOMATIPOORT, 1963

Imagem retocada, o original pertence aos arquivos ferroviários da África do Sul.

 

Uma viatura entra na África do Sul em Komatipoort, vinda de Moçambique via Ressano Garcia, 1963. Atrás, o pacato posto fronteiriço dos sul-africanos.

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