THE DELAGOA BAY WORLD

31/03/2020

OS IRMÃOS DINIZ E JORGE VARA TOCAM EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 40

Filed under: Irmãos Diniz - orquestra em LM, Jorge Vara — ABM @ 13:41

Imagem retocada, do espólio de Jorge Vara, grato à sua filha Suzette Vara Malosso.

Espero e desejo que todos os exmos Leitores estejam seguros (em casa) e protegidos da Pandemia de Corona Virus 19, actualmente em curso em todo o mundo.

Os Irmãos Diniz (tinham ainda uma irmã, que também tocava na orquestra) eram originários de Goa e tocavam em Lourenço Marques entre os Anos 30 e 50. Jorge Vara, que era um músico de origem portuguesa e que viva em Lourenço Marques desde 1918, era amigo deles e ocasionalmente tocava com a orquestra dos irmãos, em festas, concertos e casamentos.

 

A Orquestra dos Irmãos Diniz com Jorge Vara (à direita), tocando em Lourenço Marques, anos 30. Não sei os nomes deles.

EVELYN MARTIN DA LM RADIO, EM EAST LONDON, 1965

Imagem retocada, de Carlos Alfredo Albuquerque.

Evelyn Martin foi uma lendária locutora da LM Radio, tendo trabalhado naquela estação de música rock e pop que emitia a partir de Lourenço Marques, entre 1950 e 1974. Evelyn era filha de portugueses e nasceu e cresceu em Joanesburgo. Falava inglês e afrikaans perfeitamente. Depois do episódio da ocupação da sede do Rádio Clube de Moçambique em Setembro de 1974, foi para Joanesburgo, onde posteriormente trabalhou nas estações sul-africanas Springbok Radio e Radio Highveld. Hoje, cocuana, vive reformada naquela cidade sul-africana.

Evelyn Martin, aqui em East London (provavelmente numa acção promocional da LM Radio), 1965.

AS IRMÃS MUGE EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 70

Filed under: Amélia Muge, Teresa Muge — ABM @ 13:03

Imagem retocada, de Carlos Alfredo Albuquerque.

 

As Irmãs Teresa e Amélia Muge em Lourenço Marques, anos 70, com a inscrição de uma dedicatória à Delta Publicidade.

 

ANA PAULA ALMEIDA, MISS MOÇAMBIQUE E MISS PORTUGAL VISITA LISBOA, 1971

Filed under: Ana Paula Almeida - Miss Moçambique — ABM @ 12:49

 

Com uma vénia ao excelente sítio Malhanga e à secção de arquivos da Rádio Televisão de Portugal, apresento a hiperligação a um vídeo mostrando a jovem Ana Paula Almeida, de visita a Lisboa em Setembro de 1971, eleita nesse ano Miss Moçambique e Miss Portugal e ainda ficou em 2º lugar no concurso Miss Mundo.

Ana Paula Almeida.

Prima a ligação em baixo para ver o vídeo :

https://drive.google.com/file/d/1XxisS1Lz9ek_Xh1VhbqP5QhE-w2J-rKw/view

29/03/2020

CARTAZ DA LM RADIO EM LOURENÇO MARQUES, 1973

Filed under: Cartaz da LM Radio 1973, LM Radio — ABM @ 23:57

Imagem retocada.

 

A LM Radio era um projecto do Rádio Clube de Moçambique que emitia em línguas inglesa e afrikaans para a África do Sul e cuja programação consistia em música pop e rock.

A ESTAÇÃO DE SERVIÇO SIMAL EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 50

Imagens retocadas.

A estação ficava situada na Avenida da República na Baixa de Lourenço Marques, mais ou menos em frente à Casa Coimbra (onde agora está o mastodonte do Gove). Penso que também vendiam carros mas não tenho a certeza.

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PASTA DE DENTES DE LOURENÇO MARQUES, ANOS 1910

Naqueles tempos, os farmacêuticos literalmente fabricavam os produtos na loja, desde medicamentos a…. pasta dentrífica. Aqui, uma caixa de pasta dentrífica da Casa de Nobreza e Barbosa em Lourenço Marques.

A ESTAÇÃO DOS BOMBEIROS DE LOURENÇO MARQUES, 1932 E 1965

Filed under: LM Bombeiros 1932 e 1965 — Etiquetas: — ABM @ 23:31

Imagens retocadas.

A estação dos Bombeiros de Lourenço Marques em 1932. Com uma parada das suas viaturas em frente.

 

Dezembro de 1965, quando se iniciou a demolição do complexo. No final dos anos 60, começou a obra da edificação do Prédio dos 33 andares, então o mais alto de Moçambique – e de Portugal. Se me recordo, na altura fiquei com a impressão que levou mais tempo a fazer as fundações que construir o edifício em si. E quando estava quase concluído, veio a independência e o edifício foi “nacionalizado”. Ponho entre aspas pois o imóvel realmente só passou para a posse do estado moçambicano em….2020.

ESTÚDIO FOTOGRÁFICO NA BEIRA, INÍCIO DO SÉCULO XX

Filed under: Joseph e Maurice Lazarus - fotógrafos LM — ABM @ 23:17

Presumivelmente, o estúdio dos Irmãos Lazarus na Beira – sujeito a confirmação. Mas refere-se a fotógrafos no plural.

Estúdio na Rua Conselheiro Ennes na Beira, à direita.

23/03/2020

A AVENIDA D. LUIS EM LOURENÇO MARQUES, 1894

Filed under: LM Rua Consiglieri Pedroso — ABM @ 22:19

Imagem retocada, do álbum Photographs of South Africa (pág.29), publicado na África do Sul em 1894.

 

A Avenida Dom Luis em Lourenço Marques (posteriormente a Rua Consiglieri Pedroso), 1894. Na altura esta era a rua comercial mais importante da pequena cidade, mais ou menos encaixada entre a Rua Araújo e a Rua da Gávea. Dom Luis I, Pai do, posteriormente, Rei Dom Carlos I, foi o monarca português que elevou o presídio a vila e depois a vila a cidade.

SENHORA EM LOURENÇO MARQUES, FOTO DE SID HOCKING, ANOS 1930

Imagem retocada.

 

Senhora de Lourenço Marques, foto a preto e branco, colorida manualmente, nos estúdios de Sid Hocking em Lourenço Marques, década de 1930.

 

Marca dos estúdios Sid Hocking & Cia. Penso que Sid trespassou os estúdios dos Irmãos Lazarus na Baixa de Lourenço Marques (o estúdio no Avenida Building) e trabalhou durante muitos anos na Cidade.

A BANDA DO EXÉRCITO NO JARDIM BOTÂNICO DE LOURENÇO MARQUES, 1920

Filed under: Banda do Exército em LM 1920, Jorge Vara — ABM @ 22:16

Imagem retocada, do espólio de Jorge Vara, que aparece nesta foto na segunda fila a contar da frente, 3º da esquerda, e que aqui tinha apenas 17 anos de idade e viera de Portugal um ano antes para integrar esta banda, que entre outras ocasiões, tocava semanalmente no então chamado Jardim Botânico de Lourenço Marques alternando com o coreto no centro da Praça 7 de Março. Atrás, vê-se a conhecida fonte que veio da França, oferta de Tissot. Nos anos e décadas que se seguiram, Jorge Vara fez uma carreira como músico, tocando nos Casino Bello e Costa e nas orquestras do Rádio Clube de Moçambique. Faleceu velhote em Maputo vários anos depois da independência, uma tarde, na varanda da sua casa na Malhangalene.

A Banda do Exército posa no Jardim Vasco da Gama (hoje Tunduru) em Lourenço Marques, 1920.

JOGADORAS DE BASQUET FEMININOS DO FERROVIÁRIO LOURENÇO MARQUES, 1937

Imagem retocada.

Jogadoras de basquet do Clube Ferroviário em Lourenço Marques, final de 1937.

 

Nota no verso da fotografia, mencionando o treinador Bastos e Silva. e que foi processada pela Foto Lusitana.

01/03/2020

A GRANDE PANDEMIA MUNDIAL DE 1918-1920 EM MOÇAMBIQUE

Filed under: A Grande Pandemia Mundial de 1918-20 — ABM @ 22:35

Há exactamente cem anos, aconteceu a que provavelmente foi maior tragédia humana na história recente de Moçambique, pior que a mortífera década de seca entre 1830-1840 que incendiou as migrações e lutas tribais da altura, trazendo os Suázis e um ramo dos Zulus para a metade a Sul do território que hoje é Moçambique, causando inúmeras mortes e derrubando a ordem estabelecida, com impacto na sua história até aos dias que correm .

O tratamento científico do assunto desta tragédia praticamente não existe na literatura, e ainda menos no que está publicado em língua portuguesa. A Grande Pandemia Mundial de 1918-1919, também chamada Gripe Espanhola (que, de espanhola nada tem) praticamente não consta nos registos formais, nem tão pouco (com talvez uma excepção) parece ter havido uma recolha e análise dos registos da imprensa e arquivos coloniais moçambicanos da altura, sendo necessário aprofundar mais este conhecimento para se terem os factos.

Em parte isto sucedeu porque na altura decorria a Primeira Guerra Mundial e, com raras excepções, a imprensa era controlada e censurada, pelo que a informação pública era manipulada para manter o foco no esforço de guerra e impactar a moral das populações e simplesmente não fluía. Desde Agosto de 1914, as nações envolvidas no esforço da guerra, centrado na Europa, dispendiam enormes recursos materiais e humanos, desviando-os do consumo de civis, donde resultaram fragilidades significativas, nomeadamente na sua nutrição e estado de saúde, agravado pelos factos de que na altura a medicina ainda se encontrava num estado de sofisticação muito mais rudimentar que o que conhecemos hoje em dia e as condições sanitárias das populações eram muito mais débeis. Um factor adicional foi o enorme aumento nos movimentos de pessoas e bens desde o fim do Século XIX, o que tornou possível a trasmissão do vírus.

Em 1914, apesar da actual retórica anti-colonial, Moçambique permanecia adormecido numa espécie de profundo sono pré-colonial. A seguir à paradigmática mas cirúrgica  investida de Mouzinho no Sul, vinte anos antes, a esmagadora maioria da população vivia desagregadamente no mato, de auto-sustentação e no mais em primitivo e esplêndido isolamento, as excepções sendo o ocasional surgimento de um português (ou estrangeiro, no caso das companhias majestáticas) a fazer negociatas, a querer cobrar impostos ou querer impor às populações serviços à borla. Na costa, o domínio colonial era uma ficção, vagamente sustentada pela invocação de tratados europeus em que era afirmada a soberania portuguesa, suportada por uns barquitos obsoletos. Um punhado de portugueses habitava, precariamente, em Lourenço Marques, a Ilha de Moçambique, o Ibo e a Beira.

Aparte a África do Sul, por causa do ouro e os diamantes e os Boers e os Britâmicos, não era assim tão diferente do resto de África, sendo que os outros ainda tinham algum dinheiro para fazer o colonialismo. Os portugueses, falidos, endividados e agora republicanos, não tinham e mantinham um “império” multicontinental quase impossível de gerir.

O início da Guerra, no final de 1914, faria prever algum crescimento económico, mas nem isso aconteceu. Por razões internas e de algum chico-espertismo, Portugal lembrou-se de fazer “alguma” guerra em Moçambique, que, para além de basicamente ter sido uma longa e mortífera palhaçada para putativos colonos e colonizados, teve o vago mérito de servir de (pequenino) palanque para os líderes da nascente (e moribunda) república, se sentarem em Versalhes, ainda assim em bicos dos pés, reclamando recompensas pelo sangue vertido e os sacrifícios feitos.

A única recompensa acabou sendo a “devolução” do Triângulo de Quionga (em frente ao qual está quase todo o gás de que se fala agora).

E é neste contexto, praticamente no fim desta guerra, que acontece a Pandemia.

A Gripe Aviária

Um artigo publicado em Novembro de 2018 sobre o grau de preparação dos países africanos para uma epidemia de gripe descreve assim o contexto geral e o percurso deste tipo de calamidade (tradução minha):

A gripe aviária de alta patogenicidade (vírus do tipo H5N1) não costuma infectar seres humanos, mas representa uma grande ameaça na forma da sua transferência da população animal para a humana, muitas vezes com resultados fatais quando os seres humanos estão infectados. Como exemplo, entre 1990 e 2000, o vírus aviário H5N1 circulou ativamente ininterruptamente entre aves migratórias e animais na Ásia, Europa e Mediterrâneo, dando assim a perspectiva de um sério surto de pandemia de gripe em humanos.

A gripe pandémica é uma doença rara causada por um novo vírus da gripe, um subtipo que tem a capacidade de causar uma transmissão sustentada de humano para humano e para o qual a população tem pouca ou nenhuma imunidade. Historicamente, houve 31 possíveis surtos de gripe desde 1580, ocorrendo aproximadamente a cada 15 anos, com 3 ocorrendo no século XX: os surtos de 1918, 1957 e 1968. O surto de influenza pandêmico de 1918 foi o mais devastador, causando entre 50 e 100 milhões de mortes no mundo. Na África, a contagem da fatalidade da gripe pandêmica foi de 2,3 milhões de mortes, o que é considerado subnotificado. As gripes pandêmicas de 1957 e 1968 em África causou cerca de 2 a 3 milhões e 1 milhão de mortes, respectivamente. No século XXI, uma pandemia de gripe ocorreu em 2009, causando 18.156 mortes em todo o mundo.

O Que Foi a Pandemia de 1918

A Pandemia de Gripre de 1918 (Janeiro de 1918 -Dezembro de 1920, vulgarmente conhecida como Gripe Espanhola) foi uma pandemia gripal mortal, envolvendo (sabe-se hoje) o vírus da gripe H1N1, que infectou cerca de 500 milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo pessoas em ilhas remotas do Oceano Pacífico e no Ártico, que resultou na morte de entre 50 e 100 milhões (três a cinco por cento da população total da Terra na altura), tornando-se um dos desastres naturais mais mortíferos da história humana.

A gripe, como todas as gripes, era transmitida por via áerea. Quando uma pessoa doente tossia, expelia cerca de um milhão de partículas, infectando todos à sua volta.

Três Ondas Mortíferas

A pandemia espalhou-se e impactou todo o planeta em três surtos, ou “ondas”. A primeira começou no início de 1918, a segunda começou em meados de 1918 e a terceira em meados de 1919.

Ao contrário do comportamento habitual das gripes, a Primeira Onda desenvolveu-se não no inverno mas na Primavera e início do Verão de 1918 (no Hemisfério Norte) mas já tinha algumas particularidades, nomeadamente as suas caracerísticas eram algo diferentes das tipologias habituais (provocando dúvidas no seu diagnóstico), era mais agressiva do que o habitual e apesar de atingir as partes da população “habituais” – os mais novos, mais velhos e pessoas com sistema imunitário comprometido – atingiu já algumas pessoas adultas e saudáveis. O ciclo desta primeira onda durou entre 4 a 6 semanas.

Quando a primeira onde passou, matando já milhões de pessoas, causando enorme confusão e sobrecarregando as parcas infra-estruturas de saúde, toda a gente pensava que, ainda assim, a pandemia tinha acabado.

Mas aconteceu precisamente o contrário.

A segunda onda, que começou no fim do Verão de 1918 no Hemisfério Norte, foi tão rápida e arrasadora como inesperada. Desta vez, apesar de não causar mortalidade nas pessoas previamente afectadas na primeira onda (donde se deduz que o segundo vírus tinha uma relação com o primeiro, causando alguma imunidade nestas pessoas) teve a particularidade de causar elevadíssimas taxas de mortalidade em pessoas que não tinham apanhado a gripe na primeira onda, e desta vez, especialmente, em pessoas adultas e saudáveis.

Foi uma razia assassina, em todo o mundo. Num espaço de apenas 4 a 7 semanas, centrada no mês de Outubro de 1918, dezenas e dezenas de milhões de pessoas morreram em todo o mundo.

A terceira onda, em meados de 1919, foi basicamente semelhante à primeira, mas quase residual por comparação com a segunda.

A Pandemia na África do Sul

Por ser um país vizinho e mais entrosado com a economia e a população de Moçambique (a Sul da Latitude 22 graus Sul) , importa ver o que aconteceu na África do Sul, uma vez que existem registos e estudos para este país – ainda que as estatísticas e outros aspectos sejam ainda alvo de revisão. Assim, o sítio sul-africano Health24 resume assim o que aconteceu na vizinha África do Sul:

  • A África do Sul foi o quinto do mundo país mais atingido pela gripe de 1918. Quase tantos sul-africanos morreram com a gripe de 1918 como morreram cidadãos norte-americanos.
  • 1,6 – 3 milhões de pessoas de uma população de cerca de 6 milhões – ou seja, metade de quem vivia na África do Sul – apanhou a gripe.
  • Quase meio milhão de pessoas morreu da epidemia de gripe na África do Sul.
  • Dois terços dos que morreram viviam na região da Cidade do Cabo.
  • Entre 23 e 44 em cada mil pessoas no país morreram da gripe (2-4 por cento do total).
  • Na Segunda Onda, estima-se que cerca de 140.000 pessoas morreram em apenas sete semanas, entre Setembro e Outubro de 1918:

Excepto da tese de Howard Philips (1984, pode ler lida descarregando o texto numa das fontes indicada em baixo) descrevendo a chegada da Segunda Onda da Pandemia à Cidade do Cabo, Setembro de 1918.

Segundo uma investigação pioneira de Howard Philips, a Segunda Onda foi primeiro visível com a chegada à Cidade do Cabo, no dia 13 de Setembro de 1918, do Juroslav, um navio com cerca de 1300 nativos sul-africanos regressados da Europa (desmobilizados da Guerra) e que fizera uma paragem em Freetwon, na colónia britânica de Sierra Leone (pág.24). À primeira, os responsáveis pela saúde pública isolaram o grupo, mas, não detectando nada, permitiram que essas pessoas se metessem em comboios e fossem para suas casas, nos dias 16 e 17 de Setembro. Dois dias depois, o vírus espalhara-se até Joanesburgo.

Mas há outros cenários e versões de como o virus chegou à África Austral.

O vírus surge em operários da minas de ouro em Joanesburgo em 18 de Setembro de 1918. Na tese acima, o autor expressa dúvidas (págs.10-11) quanto a se o surto originou em mineiros vindos de Durban ou do Sul de Moçambique.

Durante o mês de Outubro de 1918, dos 190 mil mineiros em Joanesburgo, 60 mil tiveram a gripe e milhares morreram.

No início de Novembro de 1918, as autoridades detectaram a chegada de mineiros de Moçambique já afectados com o vírus da Segunda Onda, de longe o mais mortífero. Num acordo assinado entre as autoridades sul-africanas e portuguesas a Wenela (a Witwatersrand Native Labour Association, entidade que retinha o monopólio do recrutamento de mineiros em Moçambique) suspendeu temporariamente o recrutamento no início de Dezembro (págs. 13-14), acordando ainda que os moçambicanos já nas minas permanecessem (forçosamente) no Transvaal durante este período. O acordo vigorou até Março de 1919 e voltou a ser imposto em Maio desse ano, quando se verificou a chegada da Terceira Onda. Exceptuando os 160 mineiros moçambicanos já hospitalizados e a morrer, os restantes aceitaram resignados a imposição das autoridades (pág. 19).

O impacto desta situação nas operações (e nos lucros) das minas foi muito significativo. Se as minas já tinham uma falta de pessoal estimada em 26 por cento antes da Segunda Onda, no final de 1918, segundo o relatório do Presidente da Chamber of Mines (citado por Philips), essa falta havia ascendido para 38 por cento. A situação foi considerada tão má que foi considerado reverter a proibição de recrutamento de mineiros a Norte da Latitude 22 graus Sul, imposta em 1913 devido à alegada detecção de uma muito elevada taxa de mortalidade entre as pessoas vindas dessas áreas. Sendo que a Latitude 22 graus Sul era a delimitação dos territórios sob administração da majestática Companhia de Moçambique. No entanto, no final, a proibição manteve-se (págs. 16-17).

(Como ilustração, a localidade de Vilanculos assenta quase exactamente na Latitude 22 graus Sul).

Na sua tese, Philips descreve em detalhe a progressão da Segunda Onda da Pandemia na Cidade do Cabo, em Kimberley (onde, em Outubro, um quarto dos cerca de 11.5 mil mineiros num campo morreram), em Bloemfontein, e no Transkei, a única zona africana rural alvo do seu estudo, com relevância em termos de ilustrar o que poderá ter sucedido nas zonas rurais de Moçambique.

Dados de Moçambique

Moçambique não escapou aos efeitos da Pandemia de 1918-1920. Para além das ligações com os países vizinhos, alguns portos de Moçambique estavam ligados a Portugal europeu por barco. E sabe-se que Portugal sofreu igualmente os efeitos da Pandemia.

Mas não conheço ainda estudos e evidências formais em relação ao que, precisamente, sucedeu em Moçambique. As únicas evidências, circunstanciais, chegaram-me de Alfredo Pereira de Lima e da sua Filha Cristina e ainda de um artigo académico da autoria do Dr. Júlio Machele, actualmente professor de História na Universidade Doutor Eduardo Mondlane, (ver a ligação para o seu artigo em baixo).

A primeira evidência já foi referida aqui e merece ser repetida. A propósito de um curto texto sobre os cemitérios de Lourenço Marques, Cristina Pereira de Lima escreveu:

“Pouco depois do final da Grande Guerra de 1914-1918 , para acorrer aos enterramentos em massa das muitas centenas de indígenas vitimados pela epidemia pneumónica, foi inaugurado o Cemitério de São José de Lhanguene.”

O então cemitério da Cidade, o São Francisco Xavier, já estava quase cheio e não havia maneira de acudir aos enterros em massa.

A segunda evidência é contida num segundo relato de Cristina Pereira de Lima, numa mensagem inédita que me enviou uns dias depois:

 A vida do meu Pai {o historiador de Moçambique Alfredo Pereira de Lima] tem tudo a ver com a peste bubónica[surto de 1918-1920] . O meu Avô {paterno] morreu no Chongoene juntamente com a sua população. Recusou-se a sair e tratava dos doentes nas palhotas e nas aldeias. Ele era administrativo e foi também infectado. Foi a população que tratou dele e que o enterrou no mato quando ele morreu. A minha Avó tambem foi infectada e levada para as palhotas, onde foi tratada com ervas e plantas e o meu Pai foi cuidado por eles todos, o meu Pai que tinha então apenas um ano e tal [de idade]. O meu Avô morreu com 29 anos de idade. Eram os únicos três brancos que viviam no Chongoene. É uma história muito bonita de sacrificio e abnegação do meu querido Avô que muito me comove. O meu Pai ficou órfão com 1 ano de idade.

Um exemplo de como o vírus se espalhou é contido no relato de Anne Rasmussen, uma britânica, na altura bebé, que penso cita o seu Pai:

Este é o caso do navio a vapor português “Moçambique”, fretado para o repatriamento das tropas portuguesas que, na colónia com o mesmo nome, participaram da Força Expedicionária contra as forças alemãs na África Oriental. Deixando a Ilha de Moçambique em 12 de Setembro, ele entrou na Cidade do Cabo no dia 29, onde a praga atingiu proporções aterradoras, particularmente entre os trabalhadores nas docas e encarregados de abastecer os navios. Em 1 de outubro, o navio deixou este vulcão pestilento e, no dia 4, estava cheio de pedidos aos médicos a bordo de soldados afetados pela gripe pneumónica; a primeira morte foi no dia 6; em rápida progressão, a contagem no dia 11 foi 43 mortes em 24 horas … da população total do navio, que era de 952 pessoas, 199 morreram durante a viagem para Lisboa, onde este navio sombrio ancorou em 21 de Outubro, e onze outras mortes ocorreram após o desembarque. Por outras palavras, a mortalidade geral chegou a 22%. Os 558 soldados que retornaram de uma estadia insalubre e se reuniram na quarta classe perderam 180 deles, 32,2%, ou quase um terço. [um livro de Ricardo Jorge de 1919,, referenciado em baixo,analisa em detalhe o caso do navio Moçambique]

Num artigo de José Manuel Sobral e Maria Luísa Lima sobre a pandemia, é referido que cerca de 135 mil portugueses residentes em Portugal metropolitano morreram durante esta pandemia, a maioria durante a Segunda Onda.

O artigo do Professor Júlio Machele refere alguns dados e ainda alguns testemunhos que atestam a natureza da pandemia (que refere muitos em Moçambique chamarem Xyponyoli, uma bastardização do termo português Espanhola, designação comum na altura) e a sua prevalência em quase todos os os pontos de Moçambique.

Acresce que, em 1918, exceptuando os hospitais em Lourenço Marques e na Ilha de Moçambique, vocacionados para servir as parcas populações urbanas, o aparato sanitário e de saúde era praticamente inexistente. A maior parte da população sofreu os efeitos das pandemia sem qualquer assistência a não ser eventualmente a medicina dos curandeiros locais.

Fontes

https://en.wikipedia.org/wiki/Spanish_flu

https://www.health24.com/Medical/Flu/The-1918-epidemic

https://open.uct.ac.za/bitstream/handle/11427/7852/thesis_hum_1984_phillips_h.pdf?sequence=1

https://www.academia.edu/13879389/_Xiponyola_The_Spanish_Influenza_in_Mozambique_1918-1919

Jorge, Ricardo (1919). La Grippe. Lisbonne: Imprimerie Nationale.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6236890/

 

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