THE DELAGOA BAY WORLD

04/03/2018

A LIGAÇÃO FERROVIÁRIA ENTRE A VILA DA BEIRA E A RODÉSIA, 1891-1900

Filed under: Linha férrea Beira-Rodésia — ABM @ 16:47

Fotos dos arquivos da Companhia de Moçambique depositados na Torre do Tombo em Lisboa, Portugal.

 

O pequeno comboio de bitola curta da Beira Railway, Nº3. Os Nos 1 e 2 eram idênticos.

Dantes, não havia quase nada a não ser uns caminhos lamacentos a atravessar as florestas, que mal dava para as carroças passarem.

O desenvolvimento de um sistema de linhas ferroviárias que servissem a então (acabada de constituir) Rodésia, teve em conta várias considerações, entre as quais a necessidade de servir as novas cidades e vilas, as minas e as zonas agrícolas que estavam em rápido crescimento antes da viragem do século XX e ainda para ligar o território da então British South Africa Company (a BSAC, de Cecil Rhodes)  com os portos marítimos situados em Moçambique e na África do Sul.

No território já acordado como sendo da esfera portuguesa, a construção da linha ferroviária começou a partir da localidade de Fontesvilla, a cerca de 56km da Vila da Beira, para Umtali, em Setembro de 1892, e de Vryburg na Província do Cabo para Bulawayo, em Maio de 1893. A linha de Bulawayo foi concluída em Outubro de 1897 e a linha de Umtali em Fevereiro de 1898.  A ligação entre Salisbúria e Bulawayo foi finalmente concluída em Outubro de 1902 depois de as obras iniciais terem sido interrompidas pelo início da Guerra Anglo-Boer em Outubro de 1899, quando os materiais tiveram que ser todos trazidos através da Linha da Beira.

O passo seguinte foi a Linha Norte a partir de Bulawayo, que começou em 1903, atravessou o Rio Zambeze nas Quedas de Vitória em Setembro de 1905 e chegou à fronteira com o Katanga em Dezembro de 1909.

Do lado português (mais ou menos, uma vez que a Companhia de Moçambique, que exercia o poder majestático nos territórios de Manica e Sofala, era essencialmente britânica), decorria dos compromissos assumidos no âmbito dos acordos luso-britânicos de Janeiro-Junho de 1891, que a Companhia estudasse, até ao final desse ano, o traçado para uma linha férrea que ligasse a Beira à localidade de Macequece, junto da fronteira com o território da BSAC, numa extensão de 320 quilómetros.

A localidade de Macequece, nos primeiros anos de construção da linha férrea.

A distância entre Macequece e Umtali (a actual Mutare) eram uns adicionais 40 quilómetros, perfazendo um total de 360 quilómetros, aproximadamente.

A construção dessa linha, como era habitual assistir-se nestas alturas, foi uma verdadeira novela brasileira em termos de financiamento, de pára-arranca, de contratos celebrados e não cumpridos, etc.

Mas não só. Numa obra que escreveu sobre o assunto, Antony Baxter relata que a implantação da linha férrea através das florestas infestadas de malária a partir do litoral teve um custo enorme em termos de vidas humanas. Cerca de sessenta por cento da equipa branca morreu com malária, e um trabalhador indiano ou chinês morreu por cada secção de carril instalado. Os mortos locais não são mencionados, provavelmente por pudor colonial. Isso perfaz várias centenas de mortos, de quem hoje praticamente não resta memória.

A linha férrea a atravessar a floresta de Amatongas, no caminho entre a Beira e Macequece.

Entre 1893 e 1897, a obra foi penosamente progredindo, até estar concluída.

E depois havia a questão, que à partida parece perfeitamente inexplicável, da bitola.

A bitola de uma linha de caminho de ferro é a distância entre os dois carris. Para além da questão dos padrões seguidos na região, ou seja, da compatibilidade entre os equipamentos, quanto mais larga for a bitola, maiores os equipamentos e maior a estabilidade e equilíbrio dos mesmos. A bitola seguida pelos caminhos de ferro da África do Sul e da Rodésia era de 1.067 milímetros (a chamada Bitola do Cabo, 3 pés e 6 polegadas de distância entre os carris). E qual foi a bitola da linha férrea entre a Beira e Macequece? 610 milímetros. Ora, esta bitola suporta uns comboiozinhos e umas carruagenzinhas, tal como o comboio que se vê no topo, que esteve ao serviço da linha até ela ter que ser mudada – outra vez. Uma bitola com esta dimensão habitualmente é usada para linhas pequenas e fechadas, que servem curtas distâncias e por razões específicas (como por exemplo as linhas operadas pela Sena Sugar Estates), não para servir uma imensa região numa distância de 300 quilómetros.

E assim a linha entre a Beira e Umtali, que foi inaugurada no dia 4 de Fevereiro de 1898, cerca de um ano antes de rebentar a Guerra-Anglo-Boer, foi a maior linha férrea com esta bitola a ser construída no continente africano.

Pode o exmo. Leitor imaginar o que aconteceu logo a seguir: praticamente mal entrou ao serviço, teve que se planear e executar e pagar – outra vez – a mudança de toda a linha férrea – e equipamentos, para a bitola de 1.067 metros, que era mais larga e igual à da Bitola do Cabo. O que aconteceu entre 1898 e 1900, especialmente devido à pressão resultante de, com a Guerra na África do Sul, o tráfego de bens e pessoas a partir da Beira para a Rodésia, foi muito maior do que se esperava inicialmente. As locomotivas com a bitola mais pequena foram depois adquiridas pelos caminhos de ferro da África do Sul.

A 9 de Julho de 1900, chegava à Beira o primeiro comboio assente sobre carris com a Bitola do Cabo.

Chegada do primeiro comboio na linha com Bitola do Cabo à Vila da Beira, 9 de Julho de 1900. Foto de Louis Hily.

 

 

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