THE DELAGOA BAY WORLD

01/03/2018

A FEITORIA HOLANDESA EM LOURENÇO MARQUES, 1721

A Companhia das Indias Holandesa, mais conhecida por VOC (a sigla da designação original neerlandesa, Verenigde Oost-Indische Compagnie), na altura uma das entidades europeias que competiam pelo comércio dos mares com Portugal e o Reino Unido, e que desde 1652 operavam no que é hoje a Cidade do Cabo uma base de apoio às suas actividades além-mar, decidiu em 1721 instalar uma feitoria na Baía da Lagoa, no que veio a ser a Cidade de Lourenço Marques, no espaço que alguém estimou ser o terreno onde, para variar, se situa o agora defunto campo de futebol do Grupo Desportivo Lourenço Marques, que na altura ficava directamente em frente à praia (hum, o local merecia algumas escavações arqueológicas…).

A experiência foi um fracasso. A feitoria procurou transaccionar escravos e marfim, principalmente, mas rapidamente os holandeses acharam que a mortandade pela malária não compensava e abandonaram o local, aparentemente ao tiro.

E os tiros não vinham dos nativos Tsonga/Ronga. Uma nota, curiosamente relacionada com o historial da chamada Fortaleza de Lourenço Marques, refere o seguinte contexto (texto editado por mim):

19 de Fevereiro de 1721 – partida de expedição holandesa, oriunda da cidade do Cabo, composta por 113 homens, sob o comando de Klaas Nieuhof, em dois navios, o Gouda e o De Caap;

Abril de 1721 – chegada da expedição à baía de Lourenço Marques; obtida a autorização do chefe local, inicia-se a construção de um forte de madeira, de planta pentagonal, denominado Forte Lagoa; passados seis meses, cerca da metade dos homens havia morrido, sobretudo vítimas de malária; apesar da chegada de reforços da cidade do Cabo, nos navios Zeelandia e Uno, com mais 72 homens e mantimentos, a situação não se alterou;

11 de Abril de 1722 – durante a manhã, três navios piratas ingleses sob o comando do Capitão George Taylor, que operava nas águas do canal de Moçambique, entraram na baía de Lourenço Marques, perseguidos por quatro navios da Companhia Inglesa das Índias Orientais, o Lion, o Salisbury, o Exeter e o Shoreham; as embarcações piratas, o Victory, artilhado com 64 canhões, o Cassandra, com 36, e um barco francês capturado ao largo da Ilha de Santa Maria (actual Madagascar), tinham um total de 900 homens;

18 abril de 1722 – os piratas decidem capturar a feitoria holandesa, bombardeando-a, e capturar um bote e o navio De Caap; às 5 horas da tarde, o forte rende-se; tendo conhecimento de que Van de Capelle, o segundo em comando, se evadira para o interior com 18 homens, os ingleses exigiram o seu imediato regresso, sob pena de arrasarem o edifício; não tendo regressado os holandeses, o forte e feitoria foram destruídos;

dezembro de 1722 – retirada definitiva dos holandeses do local.

Apesar deste texto, outros relatos indicam que a feitoria holandesa na Baía de Lourenço Marques era um slave post, ou seja, primariamente um ponto de tráfico de escravos (uma parte significativa dos mulatos do Cabo descendem de escravos trazidos do que hoje é Moçambique) e que terá sido abandonada em 1732 em resultado de um motim.

 

A feitoria holandesa no futuro campo de futebol do Desportivo, 1721, segundo um mapa guardado nos arquivos da Holanda. No lado esquerdo, pode-se ver a saliência onde, umas décadas mais tarde, foi implantado o pequeno forte português que foi a génese da Cidade de Lourenço Marques.

 

Fase 1 da feitoria holandesa: o Forte Lagoa.

 

Fase 2 da feitoria holandesa.

 

 

 

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: