THE DELAGOA BAY WORLD

20/09/2018

O MONHÉ NO INTERIOR E UMA NOTA

Imagem colorida por mim.

 

Imagem na revista Serões, Nº9, página 37, cerca de 1900. O artigo que a acompanha é de gritos.

 

Durante centenas, se calhar mais que mil e quinhentos anos, a fio, o território era fechado, hostil, agressivo,

Mas eles sempre permaneceram lá, desde que primeiro vieram do Médio Oriente, e mais tarde da Índia, na busca de negócios.

Animais selvagens perigosos, inúmeras pequenas tribos com línguas e tradições diversas, frequentemente envolvidas em guerras intestinais entre si e das quais pouco se sabe, pois eles estavam lá logo após as grandes migrações bantu, que terão causado todo o tipo de disrupções na região. O clima frequentemente inclemente, intercalando secas com dilúvios. Não havia estradas, não havia comunicações, não havia pontes para se atravessarem rios. Não havia segurança a não ser a que se conseguia impor e a que se conseguia negociar. As doenças tropicais, mortíferas, davam cabo das pessoas, especialmente as que não tinham defesas contra o que ali aparecia. Não havia hospitais, nem medicamentos, nem curas.

Os negócios principais que faziam eram o tráfico de escravos para o Médio Oriente, os metais preciosos e o marfim para o sub-continente indiano (o maior mercado do mundo na altura), pois o Índico era o seu mar privado.

E ali traficava-se um pouco de tudo – cereais, gado, roupa, armas, peles, pedras preciosas – tudo o que permitisse a troca de bens (no caso da escravatura, das pessoas, que eram consideradas bens) pois na prática não havia moeda, não havia bancos, não havia transferências, não havia crédito.

Tudo era feito a pronto, presencialmente, negociado ali, na hora, entre as partes, com base no que havia para negociar, no conhecimento entre as partes, nas necessidades da hora, nas oportunidades que surgiam.

O que era levado para trocar era trazido do Norte em pangaios, num percurso que podia levar meses,  levado fisicamente da costa para o interior, em pequenos barcos ou, por vezes, longas filas de carregadores, alguns contratados, alguns escravos, guardados por homens armados, da confiança do negociante, quase sempre de origem árabe ou indiana. Durante as viagens, comiam e dormiam junto das suas mercadorias.

O que era negociado era trazido para a costa da mesma forma, a pé, penosamente, embarcado nos mesmos pangaios, que levavam a mercadoria para os mercados nas península arábica e a costa indiana.

Os lucros consideráveis ganhos com os seus negócios ficavam quase sempre todos nos territórios de onde vinham, no Médio Oriente e sub-continente indiano. Nunca construíriam nada em Moçambique. Radicavam-se, mas na maior parte nunca se integraram nem ficavam. Estavam lá, apenas. Falavam as suas línguas de origem, praticavam as suas religiões e, quando se queriam casar, importavam uma jovem lá de onde originaram. E, se pudessem, mandavam os seus filhos para lá serem educados.

Foi assim durante centenas de anos.

No ínício de 1500, o surgimento de um mero punhado de europeus na costa oriental de África, algo insólito, e ao princípio insignificante, causou alguma perturbação, mas não o suficiente para alterar significativamente as coisas. Apenas as complicou um pouco mais os processos, pois a sua vinda perturbou as rotas marítimas, as rotas comerciais e aumentaram os custos e os riscos.

Os brancos que vieram da Europa tinham uma presença muito localizada, em nacos de terra estratégicos, menos vulneráveis aos ataques tribais e propícios ao negócio, como Sofala, Moçambique, Quíloa, Mombasa e outros pontos na costa.

Gradualmente, esses europeus, que queriam uma fatia do negócio, criaram uma bolha de influência, ténue, que se estendia nas rotas marítimas, e à volta e para dentro em relação à pequena Ilha de Moçambique, ao Ibo e às Quirimbas. No interior, o eixo dessa presença, ia, vagamente, até à Praça de Tete.

Mas essa influência era, como se disse, ténue, uma mera gota no oceano. Cedo, perderam as praças que haviam conquistado no Corno de África e em seu redor, até Quíloa. O interior, tal como a costa, eram vastíssimos e porosos e esses tais europeus não tinham qualquer capacidade bélica, meios, pessoal, capital e sequer motivação, para fazerem mais do que já estavam a fazer e que era quase nada. Na maior parte, faziam, a partir na sua fortaleza impregnável na pequena Ilha, crucial para a ligação entre Lisboa e Goa e o Oriente, uma gestão administrativa daquilo que achavam que era seu, dependendo para isso em obscuras alianças com pessoas e potentados locais.

Outros europeus de outras nações começaram, eventualmente, a frequentar as costas orientais de África, à procura de pecúlio e lucros rápidos.

Nas costas, não no interior.

Pois para isso, nessa altura, os asiáticos e os seus descendentes já lá estavam quase há mil anos.

A sua força residia nos seus profundos conhecimentos e contactos, no interior africano, que frequentavam deste tempos quase imemoriais, e nos mercados asiáticos e na costa a partir de Zanzíbar, uma espécie de Dubai primitivo, a que estavam ligados pelo sangue, pela religião, pela cultura e pela língua – e pelos negócios, que obviamente geraram para eles lucros que correspondiam ao esforço dispendido e aos riscos incorridos. Falavam as línguas das tribos por onde passavam e conheciam bem os seus chefes. Nalguns casos, casavam com as suas filhas. Os ocasionais milandos eram resolvidos. A sua presença centenária era um facto da vida naquela região que é agora a África Oriental, até à zona delimitada, a Sul, pela Ilha de Moçambique.

Durante o séculos XVIII e XIX as coisas complicaram-se mais. Primeiro, o número de europeus a frequentar a costa aumentou, o que aumentou o negócio do tráficco de escravos para fora de África, que, agora, para além do Médio Oriente, começou a ser feito também para as Américas. Hoje, muitos americanos, brasileiros, e habitantes das ilhas nas Caraíbas, são descendentes directos dessas pessoas que foram traficadas nas suas costas naquela altura.

Depois vieram os britânicos, a superpotência marítima e comercial, que proibiram, não a escravatura em si, mas o transporte de escravos para o resto do mundo e a sua venda. Mais ou menos. Os próprios europeus guerreavam-se uns aos outros. Foi uma confusão e mudou pouco enquanto Zanzibar não caiu nas mãos dos britânicos (e depois dos alemães). Mas o restante negócio – marfins, etc – continuou, especialmente com o interior, pois, apesar das secas, das fomes, das inundações e das enormes guerras e matanças que ecoaram a vinda, para Norte, dos Nguni, eles eram os únicos que faziam o comércio e tinham os contactos internacionais.

No final do Século XIX, os portugueses, cuja presença havia sido esporádica fora da zona em redor da Ilha de Moçambique, pareciam agora que vinham para ficar, tentanto, em toda a parte, entre tiros e acções de charme, impôr as suas regras, a sua língua e proclamando a sua religião – permitindo, no entanto, que os negócios dos asiáticos continuassem, ainda que mais dissimulados e noutros, novos ramos. Pois de facto não havia alternativa. Afinal, até à terceira década do Século XX, as rotas centenárias dos asiáticos em Moçambique permaneceram as únicas que haviam, nem sequer afectadas com o surgimento gradual do soldado e do cantineiro português, pois até essa altura nem sequer estradas havia para as populações no interior.

Os portugueses conviviam com eles mas consideravam-nos adversários, desprezavam-nos. Subestimavam-nos.

Os asiáticos sobreviveram a breve era colonial portuguesa, adaptaram-se à enorme modernização que ela trouxe (um fenómeno que é frequentemente descontado por conveniência política e dialética) e  prosperaram, criando pequenos negócios, quer enquanto durou, quer quando ela acabou abruptamente em 1974, seguida pela destruição maciça do tecido administrativo, económico e comercial pela Frelimo, que teve o efeito, uns anos depois, de lhes cair quase tudo ao seu alcance, de mão beijada. Agora feitos empresários, com ligações à Frelimo, à Índia, à África do Sul, ao Paquistão, ao Dubai e a Lisboa, transferiram alguns activos e parte da família para estes países mas não sairam de Moçambique, tolerando o pior do chumbo frelimiano e mais tarde compactuando, com os novos donos da terra. A soberania é afinal um negócio muitíssimo melhor que o que havia no esquema colonial.  Estes, não tendo alternativa, sujeitaram-se-lhes e com eles partilham os negócios.

Esta é uma história insólita de sobrevivência, de resiliência, de adaptabilidade e sucesso, de uma minoria que ainda joga cartas no Moçambique actual e que continuará a jogar no futuro previsível.

E a fazer o que sempre fez.

 

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