THE DELAGOA BAY WORLD

22/07/2020

JOSÉ RODRIGUES JÚNIOR, UM ESBOÇO BIOGRÁFICO

Imensamente grato a Mário Silva, Neto de JRJ, pela ajuda.  Imagem retocada por mim.

 

José Rodrigues Júnior em 1974.

José Rodrigues Júnior (JRJ) pode ser hoje considerado uma uma figura de destaque e uma referência na agora chamada literatura e escrita colonial portuguesa, devotada a Moçambique, a sua vasta obra tornada em parte uma curiosidade quase museológica pelos eventos da História, em parte porque, alas, a partir do dia 25 de Abril de 1974, ele constatou achar-se, mais que no lado errado da História, no lado que perdera estrondosamente. Ainda por cima ele, que tão acarinhado fora pelos augustos e afins do regime derrubado. Hoje, há estudos e teses académicas que debicam e dilaceram, ora deliciosamente, ora sadicamente, as variadas formas em que isso está reflectido no seu pensamento e naquilo que escreveu. O Rui Knopfli refere-se a Rodrigues Júnior displicentemente, assim: “ele é exemplo extremo da pseudoliteratura que pontifica sob os auspícios do establishment”. A querida Fátima Mendonça vociferou qualquer coisa sobre “produtos pseudo-culturais nascidos artificialmente da aberrante situação colonial”. Para não falar do que aconteceu em 1964 entre ele, o então jovem Luis Bernardo Honwana e o Malangatana. Enfim.

Tudo o que, a meu ver, só valoriza a obra de JRJ, pois, no seu agregado, ela ajuda, de forma singular e quase épica, a tentar explicar, ou procurar entender, porque é que aquilo de os portugueses permanecerem alegremente em colónias africanas durou o que durou. Naturalmente, não foi porque meia dúzia de colonos achavam que aquilo lá era porreiro. Foi, em boa parte, porque a elite de Lisboa e os sucessivos regimes portugueses, reforçaram uma visão do mundo em que ter-se colónias cheias de gente que era o que era era normal, e que até era justa, moral, legal e desejável, se necessária, a sua presença – até porque aquilo era “nosso”. A partir daqui, a perspectiva eurocêntrica, da mania da superioridade racial e cultural, o uso dos factos históricos para justificar isto ou aquilo, decorreram alegremente, para grande irritação dos poucos como o Rui Knopfli, um seu contemporâneo mais iluminado, especialmente e precisamente durante as seis décadas em que JRJ pontificou em Moçambique.

Até que ponto JRJ foi aproveitado pelo regime português? assumo que o foi, claro. Para eles, ele era um dos “bons”, era genuíno, de confiança  e falava, à sua maneira, com algum conhecimento de causa (bem, ele vivia em Moçambique). Daí advinham os contrastes. É que, durante a vigência do regime criado por Salazar, quem entre os brancos não fosse, não podia publicar, era perseguido, preso, convidado a estar calado e arrumado num canto. O privilégio, putativamente reservado aos brancos, de viverem em conforto lá na Cidade da Luz no cimo da Colina, tinha, no caso moçambicano, um preço: a cooptação para estarem calados, especialmente perante o enorme elefante na sala – que um dia, mais cedo ou mais tarde, o país teria que ascender à independência e ver a sua soberania exercida por moçambicanos, esmagadoramente negros, estivessem bem ou mal preparados (estavam mal mas isso é irrelevante para a questão).

Mais: na altura, muitos, brancos e também pretos, fundamentalmente, e independentemente de outras questões, pensavam exactamente como RJR: que Portugal sem as suas colónias seria nada, e que as colónias sem Portugal estariam perdidas.

Uma vez queixei-me que, fora das poucas boutiques académicas que se degladiam com estes assuntos mais ou menos esotéricos sobre a espuma da História, existia pouca informação sobre JRJ. Mas esta semana fui agradavelmente surpreendido pelo trabalho disponibilizado na Wikipédia, em boa parte compilado por Mário Silva, um seu neto.

Eis o texto da Wikipédia, aqui ligeiramente editado por mim:

(início)

José Rodrigues Júnior (Lisboa, 26 de Outubro 1902- 16 de Novembro de 1990) foi um escritor e jornalista português que se dedicou, durante as mais que seis décadas em que ali viveu, ao estudo de Moçambique e os seus desafios e problemas, realizando viagens de inquérito económico e social através de todo território moçambicano. Embora possa ser hoje considerada controversa por alguns, a sua obra é caracterizada por um espírito ideologicamente independente, e inclui mais de 50 publicações, entre ensaios, estudos, romances e reportagens.

Descendente de madeirenses, José Rodrigues Júnior nasceu acidentalmente em Lisboa, a 26 de Outubro de 1902. Em 1919, com 17 anos de idade, embarcou para Moçambique, onde iria viver durante os 57 anos seguintes, até abandonar aquela ex-colónia portuguesa após a formalização da sua independência, em 19 de Outubro de 1976.

Foi membro da Secção de Letras da Sociedade de Estudos de Moçambique, presidente do Centro Cultural dos Novos, chefe da redação de O Emancipador, de O Jornal e do Notícias, de Lourenço Marques, e redator-principal e proprietário da revista de arte e crítica Miragem. Colaborou na revista Seara Nova, de que foi correspondente em Nampula, assim como também na revista portuense Civilização, e representou, durante muitos anos, em Lourenço Marques, o Diário de Luanda.

Como delegado do Notícias, em 1953, foi convidado pela KLM para o vôo inaugural da carreira Amesterdão-Joanesburgo, em aviões Super-Constellation, escrevendo então o livro Viagem à Holanda. Da mesma forma, em 1955, ao serviço do mesmo jornal, participou na viagem inaugural dos Super-Constellation, que então passaram a ser usados na carreira da TAP entre Lisboa e Lourenço Marques, de que veio a publicar o volume Aguarelas. No ano de 1960, em representação do jornal Diário, foi a Goa, Damão e Diu, editando o livro Terra Nossa na Costa do Malabar. Em 1962, a convite do governo da República Federal Alemã e também ao serviço do jornal Diário, visitou aquele país, publicando em seguida o livro Caminhos da Alemanha Ocidental. Em 1963, também pelo mesmo jornal, foi a Angola integrado na comitiva de jornalistas que acompanhou o Presidente da República Portuguesa, dando ao público o volume Angola-Terra de Portugal. Da mesma forma o fez, na viagem do Presidente Américo Tomás a Moçambique, de que escreveu o livro Moçambique-Terra de Portugal. Em outubro de 1965, indicado pelo ministro do Ultramar, representou Moçambique no Primeiro Encontro de Escritores Portugueses, realizado na cidade do Porto, editando o volume de crónicas e ensaios Encontros.

Na opinião da critica metropolitana da altura, “os seus estudos sobre Moçambique são, a par de notáveis obras literárias, trabalhos de sociólogo, de colonialista, de moralista e, até, de economista – e muitas das melhores páginas da nossa novelística e da nossa reportagem, destes últimos 30 anos, por exemplo, saíram das suas infatigáveis mãos”.

Da sua obra destacam-se as publicações dos livros, O Homem Negro das Regiões do Sul do Save, Os Indígenas de Moçambique, Do Homem Negro – da Sua Vida e da sua Arte, Para Uma Cultura Africana de Expressão Portuguesa, A Aventura do Mato e a Colonização Dirigida, O Negro de Moçambique, Africa – Terra de Promissão (Prémio Literatura Ultramarina), Meque o Pescador Negro (1º Prémio de Jornalismo), Terra Nossa da Costa de Malabar (Prémio Nacional Afonso de Bragança), Ruy de Noronha – Poeta de Moçambique, os romances/obras de ficção, Sehura, O Branco da Motase, Calanga, Muende (Prémio Nacional Fernão Mendes Pinto), Era o Terceiro dia de Vento Sul (Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa) e Omar Ali.

Rodrigues Júnior foi ainda distinguido com o Prémio Afonso de Bragança, de jornalismo, entregue no Palácio Foz, em Lisboa, em 1962. Pelo conjunto da sua obra literária, foi distinguido com o Grau de Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique e com a Cruz de Cavaleiro da Soberana Ordem dos Cavaleiros de Colombo, pelo seu livro Caminhos da Alemanha Ocidental, em 1963.

A sua obra projectou-se para além de Portugal. Vários autores citam com relevo o seu trabalho como escritor, nas suas publicações, nomeadamente O ensaio Mozambique-Pueblo Nuevo, de Dom Francisco Elias Tejada, catedrático da universidade de Sevilha; o estudo Portuguese Africa, de James Duffy, catedrático da universidade de Harvard, em Cambridge, Massachussetts; o estudo crítico e histórico African Literature in the Portuguese Language, do Prof. Dr. Gerald M. Moser, da Pennsylvania University e o ensaio Estudios de Derecho Bantu, do prof Dr. José F. Lorca Navarrete, da Universidade de Córdova.

Após deixar Moçambique e radicar-se em Portugal, em 1976, com 74 anos de idade, residiu, entre Cabeço de Bustos (Distrito de Aveiro) e Benfica e Queluz de Baixo (Distrito de Lisboa), profundamente desiludido e amargurado com o que considerou um mundo hipócrita que não conseguiu entender, afastando-se dos homens, deixando-se aproximar e aconchegar no Mundo da Fé de Cristo, como católico que passou a acreditar ser em determinada fase da sua vida. Com 88 anos de idade, José Rodrigues Júnior faleceu no dia 16 de novembro de 1990, exilado da terra que tanto sentiu e amou durante a maior parte da sua vida – Moçambique.

Obras Publicadas:

Ensaios
A Paz e a Vida (1937)
Homem, Trabalho e Salário (1937)
Para Uma Cultura Moçambicana (1951)
Afirmação de Presença (1952)
Literatura Colonial (1953)
Considerações (1954)
Terra, Homens e Ideias (1957)
Literatura Ultramarina (O escritor, o Homem e o meio) (1962)
Depoimento (1964)
Poetas de Moçambique (1965)
Encontros (1966)
Mãe Negra (1967)
O Homem Negro das Regiões ao Sul do Save (contribuição para um juízo interpretativo do problema da sua promoção social) (1969)
Os indígenas de Moçambique (1971)
Alguns Poetas de Moçambique (1972)
Do Homem Negro – da sua Vida e da Sua Arte (1974)
Para Uma Cultura Africana de Expressão Portuguesa (1977)
Ruy de Noronha – Poeta de Moçambique (1980)
Estudos de Assuntos Ultramarinos
Caminhos de Ferro de Moçambique (1938)
Sobre indígenas e Missões (1940)
Aventura do Mato e Colonização Dirigida (1945)
O Negro de Moçambique (1955)
Transportes de Moçambique (1956)
Colonização (Contribuição para o seu estudo em Moçambique) (1959)
Alguns Aspectos Culturais do Turismo em Moçambique) (1961)
Reportagens-Inquérito
Problemas de Moçambique (1942)
Diário de Viagem (8.000 kms em Moçambique) (1943)
Actividades e Problemas do Niassa e de Manica e Sofala (1944)
A Voz dos Colonos de Moçambique (1945)
Terra Moçambicana (1945)
À Procura de Outras Terras e Outras Gentes (1947)
África – Terra de Promissão (1949)
Meque – O Pescador Negro (1950)
Por Terras de Monomotapa (1951)
Viagem à Holanda (1954)
Aguarelas (1956)
Negros e Brancos (1958)
Terra Nossa na Costa do Malabar (1961)
Caminhos da Alemanha Ocidental (1963)
Angola Terra de Portugal (1964)
Moçambique Terra de Portugal (1965)
Caminhos do Colonato do Limpopo (1965)
Quando se Pensa nos Que Lutam (1970)
Cabota-Bassa (1973)
A Alma da Nossa Rua (1974)
Romances
Sehura (1944)
O Branco da Motase (1952)
Calanga (1965)
Muende (1960)
Era o Terceiro Dia de Vento Sul (1968)
Omar Ali (1ª Edição em 1975 e 2ª Edição em 1977)
Prémios
Alguns destes trabalhos foram galardoados com diplomas, prémios nacionais e internacionais.

Diploma de Honra do Núcleo de Arte (1945)
Diploma de Honra do Concurso de Literatura Ultramarina (1945)
Prémio de Literatura Ultramarina (1949)
1º Prémio de Jornalismo (1950)
Diploma de Honra do Concurso de Literatura Ultramarina (1951)
Prémio Fernando Mendes Pinto, Nacional, de Literatura Ultramarina (1960)
Prémio Afonso de Bragança, Nacional, de Jornalismo (1962)
Grau de Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, pelo conjunto da sua obra literária (1964)
Cruz de Cavaleiro da Soberana Ordem dos Cavaleiros de Colombo, distinção Internacional, pelo seu livro “Caminhos da Alemanha Ocidental” (1965)
Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa, da classe Letras (1969)

(fim)

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