THE DELAGOA BAY WORLD

11/04/2020

MANUEL VEIGA, LOCUTOR DAS PRODUÇÕES GOLO EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Imagens de Graça Veiga, retocadas. Se o Exmo. Leitor conhecer alguma das pessoas não identificadas, por favor escreva uma nota para aqui.

Como quase tudo o que sucedeu após a entrega do poder em Moçambique à Frente de Libertação de Moçambique em 20 de Setembro de 1974, e quase toda a gente de que me recordo da minha infância africana, durante décadas perdi o rasto a Manuel Veiga, que me lembro de relatar os jogos de futebol, penso que para as Produções Golo. Muitos anos depois, através de uma filha dele, vi estas imagens e percebi que ele, que acredito que já faleceu, ainda ficou uns anos na nascente república (suspeito que não muitos).

 

Manuel Veiga e João de Sousa no meio, à direita o jornalista desportivo Agostinho de Campos, falta identificar o senhor à esquerda. É exactamente assim que retenho as primeiras recordações de Manuel Veiga e de João de Sousa, quando o Pai Melo me obrigava a ir com ele aos sábados e domingos à tarde para os jogos de futebol nos campos de Lourenço Marques (para dar algum descanso à Mãe Melo). Ao contrário de todos lá em casa, eu odiava futebol e aquelas longas tardes, habitualmente quentes, solarentas, poeirentas e secas eram quase perdidas, e eu, com 5-7 anos de idade, procurava ocupar os tempos com tudo o resto o que se passava à volta do campo durante os jogos. Uma das actividades era sentar-me perto do Manuel Veiga e do então jovem João de Sousa e vê-los a trabalhar, fazendo os relatos para a rádio. Fascinava-se ver o Manuel Veiga, com o maior à vontade, ir contando o que se passava à frente dele no campo (que para mim era completamente chinês), oportuna e profissionalemente interrompido pelo João de Sousa, entre sopros do jogo, lendo breves mensagens comerciais, com uma dicção perfeita, calma e com a velocidade perfeita. Era uma dança fascinante, simultaneamente transmitida para todo o Moçambique através das antenas do Rádio Clube de Moçambique. O futebol naquela altura era uma religião, em particular aos fins de semana. Cresci a ouvir os relatos de futebol de Moçambique e os de Portugal, que o Pai Melo escutava através da Emissora Nacional, com a ajuda de um potente receptor de ondas curtas e, no quintal da nossa casa, de uma longa antena de onda curta. Para mim, no entanto, era tudo uma espécie de barulho de fundo, para embalar.

 

Manuel Veiga e João de Sousa no meio, Agostonho de Campos à direita, não sei quem é os senhor à esquerda. João de Sousa, no início da sua carreira, segura o livrinho dos anúncios comerciais, que ele lia intermitente e que deviam assegurar as receitas da empresa. Hoje, João de Sousa, já mais cocuana, refere que não progrediu mais depressa na sua carreira então porque não era branco (um grande sítio revela-o um “goês ilustre”, o que só soube hoje). Pois imagino que sim. Mas creio que este argumento deve ser largamente para enganar moçambicano, pois as (óbvias e penosas) barreiras raciais estavam a desabar nos anos 60 e, a seu tempo, ele teve uma carreira distinta antes e depois da independência, como certamente iria ter de qualquer maneira, pois ele de facto era muito bom e tinha (e tem) uma formação excelente e um talento indesmentível para o jornalismo. E estava bem rodeado de talento. E a qualidade não tem côr.

 

Manuel Veiga entrevista o árbitro de futebol João Paiva. João de Sousa no meio.

 

João de Sousa, Manuel Veiga. Segundo uma nota do João de Sousa, ” atrás do Manuel Veiga está o saudoso operador técnico do Rádio Clube de Moçambique, Eduardo Pereira. Independentemente da sua actividade profissional, ele foi baterista do conjunto de Renato Silva. Posteriormente formou o seu próprio grupo musical”. Não sei quem é o senhor à direita.

 

Manuel Veiga.

 

Manuel Veiga beb uma 2M.

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