THE DELAGOA BAY WORLD

22/07/2020

JOSÉ RODRIGUES JÚNIOR, UM ESBOÇO BIOGRÁFICO

Imensamente grato a Mário Silva, Neto de JRJ, pela ajuda.  Imagem retocada por mim.

 

José Rodrigues Júnior em 1974.

José Rodrigues Júnior (JRJ) pode ser hoje considerado uma uma figura de destaque e uma referência na agora chamada literatura e escrita colonial portuguesa, devotada a Moçambique, a sua vasta obra tornada em parte uma curiosidade quase museológica pelos eventos da História, em parte porque, alas, a partir do dia 25 de Abril de 1974, ele constatou achar-se, mais que no lado errado da História, no lado que perdera estrondosamente. Ainda por cima ele, que tão acarinhado fora pelos augustos e afins do regime derrubado. Hoje, há estudos e teses académicas que debicam e dilaceram, ora deliciosamente, ora sadicamente, as variadas formas em que isso está reflectido no seu pensamento e naquilo que escreveu. O Rui Knopfli refere-se a Rodrigues Júnior displicentemente, assim: “ele é exemplo extremo da pseudoliteratura que pontifica sob os auspícios do establishment”. A querida Fátima Mendonça vociferou qualquer coisa sobre “produtos pseudo-culturais nascidos artificialmente da aberrante situação colonial”. Para não falar do que aconteceu em 1964 entre ele, o então jovem Luis Bernardo Honwana e o Malangatana. Enfim.

Tudo o que, a meu ver, só valoriza a obra de JRJ, pois, no seu agregado, ela ajuda, de forma singular e quase épica, a tentar explicar, ou procurar entender, porque é que aquilo de os portugueses permanecerem alegremente em colónias africanas durou o que durou. Naturalmente, não foi porque meia dúzia de colonos achavam que aquilo lá era porreiro. Foi, em boa parte, porque a elite de Lisboa e os sucessivos regimes portugueses, reforçaram uma visão do mundo em que ter-se colónias cheias de gente que era o que era era normal, e que até era justa, moral, legal e desejável, se necessária, a sua presença – até porque aquilo era “nosso”. A partir daqui, a perspectiva eurocêntrica, da mania da superioridade racial e cultural, o uso dos factos históricos para justificar isto ou aquilo, decorreram alegremente, para grande irritação dos poucos como o Rui Knopfli, um seu contemporâneo mais iluminado, especialmente e precisamente durante as seis décadas em que JRJ pontificou em Moçambique.

Até que ponto JRJ foi aproveitado pelo regime português? assumo que o foi, claro. Para eles, ele era um dos “bons”, era genuíno, de confiança  e falava, à sua maneira, com algum conhecimento de causa (bem, ele vivia em Moçambique). Daí advinham os contrastes. É que, durante a vigência do regime criado por Salazar, quem entre os brancos não fosse, não podia publicar, era perseguido, preso, convidado a estar calado e arrumado num canto. O privilégio, putativamente reservado aos brancos, de viverem em conforto lá na Cidade da Luz no cimo da Colina, tinha, no caso moçambicano, um preço: a cooptação para estarem calados, especialmente perante o enorme elefante na sala – que um dia, mais cedo ou mais tarde, o país teria que ascender à independência e ver a sua soberania exercida por moçambicanos, esmagadoramente negros, estivessem bem ou mal preparados (estavam mal mas isso é irrelevante para a questão).

Mais: na altura, muitos, brancos e também pretos, fundamentalmente, e independentemente de outras questões, pensavam exactamente como RJR: que Portugal sem as suas colónias seria nada, e que as colónias sem Portugal estariam perdidas.

Uma vez queixei-me que, fora das poucas boutiques académicas que se degladiam com estes assuntos mais ou menos esotéricos sobre a espuma da História, existia pouca informação sobre JRJ. Mas esta semana fui agradavelmente surpreendido pelo trabalho disponibilizado na Wikipédia, em boa parte compilado por Mário Silva, um seu neto.

Eis o texto da Wikipédia, aqui ligeiramente editado por mim:

(início)

José Rodrigues Júnior (Lisboa, 26 de Outubro 1902- 16 de Novembro de 1990) foi um escritor e jornalista português que se dedicou, durante as mais que seis décadas em que ali viveu, ao estudo de Moçambique e os seus desafios e problemas, realizando viagens de inquérito económico e social através de todo território moçambicano. Embora possa ser hoje considerada controversa por alguns, a sua obra é caracterizada por um espírito ideologicamente independente, e inclui mais de 50 publicações, entre ensaios, estudos, romances e reportagens.

Descendente de madeirenses, José Rodrigues Júnior nasceu acidentalmente em Lisboa, a 26 de Outubro de 1902. Em 1919, com 17 anos de idade, embarcou para Moçambique, onde iria viver durante os 57 anos seguintes, até abandonar aquela ex-colónia portuguesa após a formalização da sua independência, em 19 de Outubro de 1976.

Foi membro da Secção de Letras da Sociedade de Estudos de Moçambique, presidente do Centro Cultural dos Novos, chefe da redação de O Emancipador, de O Jornal e do Notícias, de Lourenço Marques, e redator-principal e proprietário da revista de arte e crítica Miragem. Colaborou na revista Seara Nova, de que foi correspondente em Nampula, assim como também na revista portuense Civilização, e representou, durante muitos anos, em Lourenço Marques, o Diário de Luanda.

Como delegado do Notícias, em 1953, foi convidado pela KLM para o vôo inaugural da carreira Amesterdão-Joanesburgo, em aviões Super-Constellation, escrevendo então o livro Viagem à Holanda. Da mesma forma, em 1955, ao serviço do mesmo jornal, participou na viagem inaugural dos Super-Constellation, que então passaram a ser usados na carreira da TAP entre Lisboa e Lourenço Marques, de que veio a publicar o volume Aguarelas. No ano de 1960, em representação do jornal Diário, foi a Goa, Damão e Diu, editando o livro Terra Nossa na Costa do Malabar. Em 1962, a convite do governo da República Federal Alemã e também ao serviço do jornal Diário, visitou aquele país, publicando em seguida o livro Caminhos da Alemanha Ocidental. Em 1963, também pelo mesmo jornal, foi a Angola integrado na comitiva de jornalistas que acompanhou o Presidente da República Portuguesa, dando ao público o volume Angola-Terra de Portugal. Da mesma forma o fez, na viagem do Presidente Américo Tomás a Moçambique, de que escreveu o livro Moçambique-Terra de Portugal. Em outubro de 1965, indicado pelo ministro do Ultramar, representou Moçambique no Primeiro Encontro de Escritores Portugueses, realizado na cidade do Porto, editando o volume de crónicas e ensaios Encontros.

Na opinião da critica metropolitana da altura, “os seus estudos sobre Moçambique são, a par de notáveis obras literárias, trabalhos de sociólogo, de colonialista, de moralista e, até, de economista – e muitas das melhores páginas da nossa novelística e da nossa reportagem, destes últimos 30 anos, por exemplo, saíram das suas infatigáveis mãos”.

Da sua obra destacam-se as publicações dos livros, O Homem Negro das Regiões do Sul do Save, Os Indígenas de Moçambique, Do Homem Negro – da Sua Vida e da sua Arte, Para Uma Cultura Africana de Expressão Portuguesa, A Aventura do Mato e a Colonização Dirigida, O Negro de Moçambique, Africa – Terra de Promissão (Prémio Literatura Ultramarina), Meque o Pescador Negro (1º Prémio de Jornalismo), Terra Nossa da Costa de Malabar (Prémio Nacional Afonso de Bragança), Ruy de Noronha – Poeta de Moçambique, os romances/obras de ficção, Sehura, O Branco da Motase, Calanga, Muende (Prémio Nacional Fernão Mendes Pinto), Era o Terceiro dia de Vento Sul (Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa) e Omar Ali.

Rodrigues Júnior foi ainda distinguido com o Prémio Afonso de Bragança, de jornalismo, entregue no Palácio Foz, em Lisboa, em 1962. Pelo conjunto da sua obra literária, foi distinguido com o Grau de Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique e com a Cruz de Cavaleiro da Soberana Ordem dos Cavaleiros de Colombo, pelo seu livro Caminhos da Alemanha Ocidental, em 1963.

A sua obra projectou-se para além de Portugal. Vários autores citam com relevo o seu trabalho como escritor, nas suas publicações, nomeadamente O ensaio Mozambique-Pueblo Nuevo, de Dom Francisco Elias Tejada, catedrático da universidade de Sevilha; o estudo Portuguese Africa, de James Duffy, catedrático da universidade de Harvard, em Cambridge, Massachussetts; o estudo crítico e histórico African Literature in the Portuguese Language, do Prof. Dr. Gerald M. Moser, da Pennsylvania University e o ensaio Estudios de Derecho Bantu, do prof Dr. José F. Lorca Navarrete, da Universidade de Córdova.

Após deixar Moçambique e radicar-se em Portugal, em 1976, com 74 anos de idade, residiu, entre Cabeço de Bustos (Distrito de Aveiro) e Benfica e Queluz de Baixo (Distrito de Lisboa), profundamente desiludido e amargurado com o que considerou um mundo hipócrita que não conseguiu entender, afastando-se dos homens, deixando-se aproximar e aconchegar no Mundo da Fé de Cristo, como católico que passou a acreditar ser em determinada fase da sua vida. Com 88 anos de idade, José Rodrigues Júnior faleceu no dia 16 de novembro de 1990, exilado da terra que tanto sentiu e amou durante a maior parte da sua vida – Moçambique.

Obras Publicadas:

Ensaios
A Paz e a Vida (1937)
Homem, Trabalho e Salário (1937)
Para Uma Cultura Moçambicana (1951)
Afirmação de Presença (1952)
Literatura Colonial (1953)
Considerações (1954)
Terra, Homens e Ideias (1957)
Literatura Ultramarina (O escritor, o Homem e o meio) (1962)
Depoimento (1964)
Poetas de Moçambique (1965)
Encontros (1966)
Mãe Negra (1967)
O Homem Negro das Regiões ao Sul do Save (contribuição para um juízo interpretativo do problema da sua promoção social) (1969)
Os indígenas de Moçambique (1971)
Alguns Poetas de Moçambique (1972)
Do Homem Negro – da sua Vida e da Sua Arte (1974)
Para Uma Cultura Africana de Expressão Portuguesa (1977)
Ruy de Noronha – Poeta de Moçambique (1980)
Estudos de Assuntos Ultramarinos
Caminhos de Ferro de Moçambique (1938)
Sobre indígenas e Missões (1940)
Aventura do Mato e Colonização Dirigida (1945)
O Negro de Moçambique (1955)
Transportes de Moçambique (1956)
Colonização (Contribuição para o seu estudo em Moçambique) (1959)
Alguns Aspectos Culturais do Turismo em Moçambique) (1961)
Reportagens-Inquérito
Problemas de Moçambique (1942)
Diário de Viagem (8.000 kms em Moçambique) (1943)
Actividades e Problemas do Niassa e de Manica e Sofala (1944)
A Voz dos Colonos de Moçambique (1945)
Terra Moçambicana (1945)
À Procura de Outras Terras e Outras Gentes (1947)
África – Terra de Promissão (1949)
Meque – O Pescador Negro (1950)
Por Terras de Monomotapa (1951)
Viagem à Holanda (1954)
Aguarelas (1956)
Negros e Brancos (1958)
Terra Nossa na Costa do Malabar (1961)
Caminhos da Alemanha Ocidental (1963)
Angola Terra de Portugal (1964)
Moçambique Terra de Portugal (1965)
Caminhos do Colonato do Limpopo (1965)
Quando se Pensa nos Que Lutam (1970)
Cabota-Bassa (1973)
A Alma da Nossa Rua (1974)
Romances
Sehura (1944)
O Branco da Motase (1952)
Calanga (1965)
Muende (1960)
Era o Terceiro Dia de Vento Sul (1968)
Omar Ali (1ª Edição em 1975 e 2ª Edição em 1977)
Prémios
Alguns destes trabalhos foram galardoados com diplomas, prémios nacionais e internacionais.

Diploma de Honra do Núcleo de Arte (1945)
Diploma de Honra do Concurso de Literatura Ultramarina (1945)
Prémio de Literatura Ultramarina (1949)
1º Prémio de Jornalismo (1950)
Diploma de Honra do Concurso de Literatura Ultramarina (1951)
Prémio Fernando Mendes Pinto, Nacional, de Literatura Ultramarina (1960)
Prémio Afonso de Bragança, Nacional, de Jornalismo (1962)
Grau de Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, pelo conjunto da sua obra literária (1964)
Cruz de Cavaleiro da Soberana Ordem dos Cavaleiros de Colombo, distinção Internacional, pelo seu livro “Caminhos da Alemanha Ocidental” (1965)
Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa, da classe Letras (1969)

(fim)

26/05/2019

OS REBELO DE SOUSA NO PALÁCIO DA PONTA VERMELHA EM LOURENÇO MARQUES, 1969

Imagem retocada.

A fugaz passagem de Baltasar Rebelo de Sousa por Moçambique – onde esteve no topo da administração colonial de cerca de dois anos, entre meados de 1968 e o primeiro semestre de 1970 – impressionou muito menos pela substância que pelo estilo, que, retrospectivamente, era a substância e que constrastava quase completamente com o cinzentismo reiterado dos seus antecessores e sucedâneos no cargo de Governador-Geral da sedutora mas perpetuamente problemática colónia africana, para o qual eram nomeados por despacho de Lisboa.

No seu caso, nomeado, ainda, pelo Dr. Oliveira Salazar, que também, antes da queda da cadeira no pequeno forte onde veraneava em São João do Estoril (agora um visitável museu) e do AVC, decidira ainda mandar construir a faraónica Cabora-Bassa a reter as águas do Zambeze, lá nos confins de Tete e a produzir electricidade basicamente de borla para os boers.

Marcelo Caetano, o sucessor de Salazar e uma espécie de compagnon de route de Baltasar dos seus tempos da Mocidade Portuguesa e dos corredores da União Nacional, o partido único da altura (sucedido efectivamente pelo actual partido único composto pelo duopólio PS e PSD), assim que pôde puxou-o para o pé de si na capital do já atribulado Império Português, do qual ostensivamente desistiria voluntariamente em Fevereiro de 1974, quando Spínola insitiu em publicar Portugal e o Futuro, dois meses antes do golpe militar organizado pelo Lourenço-marquino major Otelo de Carvalho.

Adicionalmente a uma queda, genial e até então largamente desconhecida do público cativo da ditadura, para o protocolo e as relações públicas, que se primava pela informalidade, pela proximidade, e pela simpatia por praticamente tudo e todos, e todas, com talvez a excepção dos terroristas da Frelimo (e mesmo aí, presume-se, estritamente por razões conveniência de serviço), Baltasar, que desempenhou os seus dois anos com irrepreensível competência – no resto aparentava ser um produto ideologicamente acabado do regime criado por Salazar- trazia consigo na bagagem para Lourenço Marques uma arma formidável e inédita, que se revelaria crítica para a posterior percepção da sua passagem: uma família motivada e detalhadamente preparada para o papel, previamente inexplorado ao ponto da quase inexistência, de primeira família do Moçambique colonial, com todos os seus tiques e apartheids sociais, económicos, culturais, religiosos e especialmente raciais.

Se só por um breve momento, os portugueses, e moçambicanos, de todas as cores, ficaram rendidos e distraídos.

Baltasar foi, por exemplo, o único governador na História de Moçambique que, pessoalmente, tratou os pretos e os monhés de Moçambique como gente, com respeito, descomplexadamente, quase como concidadãos.

 

Numa das salas do Palácio da Ponta Vermelha em Lourenço Marques, 1969. Os três filhos de Baltasar e de Maria das Neves entretêm os convidados. Ver a mesma imagem indexada, em baixo.

A forma como Baltasar encarou a sua missão, naquele ano de 1968, e a sua interpretação do papel de Portugal no futuro da colónia, descrita no seu discurso feito no salão de festas do Liceu Salazar em Abril de 1969 durante a visita do seu amigo Marcelo (caetano), foi, se só por isso, uma vertigem de contraste com a realidade de então, senão, afinal, uma cruel ilusão, em última instância uma ironia quase quixotesca, que a Frelimo e os seus acólitos depressa corrigiriam marcialmente e com rigor marxista, impondo, assim que os capitães portugueses rebeldes lhes entregaram apressada e solicitamente o poder e o resto no dia 20 de Setembro de 1974, um longo e miserável Gulag,  pondo um fim à bem intencionada visão da criação, em Moçambique, de uma sociedade multiracial, multicultural, religiosamente diversa, democrática e com níveis elevados de crescimento económico e social.

Pois não haveria, não poderia haver qualquer piedade para com os colonos brancos malvados, especialmente esses – e essas – que os haviam oprimido durante quinhentos anos seguidos (foram oitenta mas não interessa). Nem com os seus filhos.

E não houve. E assim, com possivelmente a excepção da família do Mia Couto, que apesar de branca e de origem portuguesa como eu (vindos da rival Beira, ainda por cima) se professou laudatória e convictamente como “moçambicana de gema” (traduzindo: mais moçambicana que eu, apenas porque na altura achou por bem submeter-se ao terror do Gulag frelimiano, assegurando assim o novo, precioso BI do novo regime) a esmagadora maioria dos brancos restantes no território, preferiu celeremente fugir ou sair para o mundo, uma decisão que, retrospectivamente, foi tão sábia para si como trágica, para o futuro do, actualmente, sétimo país mais miserável do mundo e um dos mais corruptos, em que um recente presidente demonstradamente orquestrou um roubo descarado de dois mil milhões de dólares e ainda se passeia pela capital, livremente discursando o seu patriotismo e apego ao maravilhoso povo.

A família de Baltasar incluía a sua mulher Maria das Neves e três jovens filhos (estão na fotografia), minuciosamente educados para uma irrepreensível conduta pública. E neste núcleo, distinguiria dois factores críticos de sucesso: a enorme cumplicidade entre o casal, e a discreta e inteligente genialidade de Maria das Neves, que, nalguns aspectos, apesar de algum esforço de manter aquela discrição feminina submissa ainda muito apreciada na sociedade portuguesa, era ainda assim tida como tão ofuscante que Baltasar era, por comparação, injusta e maliciosamente, desconsiderado pelas má-línguas de Lourenço Marques não como o Governador-Geral, mas o marido de Maria das Neves. Alguns chamavam-lhe o Baltazero, o que até era simpático se comparado com a alcunha que desmerecidamente se dava, por exemplo, a Pimentel dos Santos, outro competentíssimo tecnocrata, e que nao repetirei aqui. A chacota de quase todos os governamentes nomeados por Lisboa para irem mandar em Moçambique era uma tradição longa e nobre na capital moçambicana e Rebelo de Sousa não seria excepção.

Maria das Neves, bonita, elegante e informal, culta, ciente da sua missão e que era o que os sul-africanos do apartheid chamavam um class act, não se cingia aos tradicionais chás das 5 no palácio com as madames da elite branca da Cidade e a ocasional inauguração de mais uma traineira ou mais uma créche, que era mais ou menos o que todas fizeram antes e depois dela. Com o apoio de Baltasar, interessava-se pela arte e pelas outras culturas de Moçambique e puxou pelo seu reconhecimento e valorização, indo ao mato encontrar-se com as pessoas e trazendo-as ao Palácio da Ponta Vermelha, a sumptuosa residência dos Governadores-Gerais desde que António Ennes chegara a Lourenço Marques no início de 1895 para salvar a pequena cidade das investidas das tribos locais e ali ficara a residir numas casas que tinham sido da Concessão do Coronel McMurdo que ali havia (da linha férrea entre Lourenço Marques e Pretória, que seria inaugurada seis meses mais tarde).

Maria das Neves no Residência do Governador-Geral em Lourenço Marques, cerca de 1969.

O mandato de Baltasar seria dos mais curtos de todos os governadores-gerais desde 1926. Em seguida iria ser ministro de Caetano em Lisboa e seria sucedido no cargo por Arantes de Oliveira, um apagadíssimo mas inteligentíssimo tecnocrata, que se focaria em concluir a megalómana Barragem de Cabora Bassa, enquanto o General Kaúlza de Arriaga fazia a guerra à moda do Vietname, numa escalada que fora acompanhada pelos financiadores da Frelimo, que, na sequência do assassinato do Dr. Mondlane em Fevereiro de 1969,  já se haviam radicalizado e cheiravam sangue no ar, especialmente depois de o Papa, Paulo I, sem qualquer aviso, ter recebido no Vaticano os representantes das guerrilhas africanas, incluindo o perpetuamente incontornável e agora celebrado nonagenário, Marcelino dos Santos.

Naquela altura, Caetano já ia empurrando o desfecho final com a barriga, sendo a obstinação de Salazar com as colónias seguida pela rigidez negocial de Américo Tomás, impedindo, no final a sua visão da criação de uma espécie de commonwealth, certamente seguida de independências formais. Mas já era tarde demais para uma descolonização à britânica.

No final de 1973, à guiza de uma questão algo esdrúxula de estatuto, carreira e remuneração, os oficiais júniores do exército conspiraram e, quase surpresos, descobriram apoios fortes a quase todos os níveis e pelo menos a complacência de Caetano. À segunda vez, sucederam, ao som do Grândola Vila Morena e com um breve sopro, derrubar a ditadura.

Nesse dia, resignado, Baltasar, ministro, esperou pacientemente pelo desfecho da intentona no seu gabinete e à tarde  entregou as chaves do seu carro de serviço e foi para sua casa na Rua de São Bernardo, de onde mais tarde seguiu, com Maria das Neves, para um exílio inesperado no Brasil.

Baltasar Rebelo de Sousa e a sua mulher nunca foram esquecidos em Moçambique, mesmo durante o pior do ressábio anti-português da Frelimo. Ficou no ar o mito daquela espécie de primavera, a simpatia empenhada do casal e aquela vertigem do que poderia ter sido mas que nunca seria.

É em parte por causa disto tudo que, quem viveu essa era e agora analisa o desempenho do seu filho mais velho, que desde novo apostou na democratização do regime (pelo PSD, o lado direito da actual União Nacional) e sucedeu recentemente em ser eleito presidente da república portuguesa, tem a mais estranha sensação de dejá vu.

A sensação de que, salvaguardadas as abissais diferenças nos meios de comunicação e natureza dos regimes, se está perante uma espécie de Governador-Geral de Portugal, com a singular diferença de que Portugal, pese a propaganda e o engodo histórico e ideológico agora em voga, não teve nem tem o passado ou sequer a vocação multicultural multiracial e multi-religiosa que uma vez existiu na sua antiga colónia da África Oriental.

La em cima, presume-se, Baltasar e Maria das Neves estarão a sorrir.

A mesma imagem, indexada. 1- (?); 2- (?); 3- (?); 4- (?); 5- António Rebelo de Sousa; 6 – Marcelo Rebelo de Sousa; 7 – (?); 8 – (?); 8- (?); 9- Malangatana Valente; 10 – Pedro Rebelo de Sousa; 11- (?); 12- (?); 12- (?). Se o Exmo. Leitor conhecer alguma das pessoas não identificadas, por favor escreva para aqui uma nota com a informação que tiver.

 

10/07/2018

MALANGATANA, MEADOS DOS ANOS 60

Filed under: Malangatana Valente - Artista — ABM @ 22:46

Com vénia para a revista National Geographic.

Nesta altura, Malangatana já era uma estrela nas artes de Moçambique, apesar de tudo o que se ia passando.

 

Malangatana.

17/03/2018

MALANGATANA VALENTE, FOTOGRAFADO POR PANCHO GUEDES, 1960

 

Malangatana em pose, 1960.

27/10/2017

“LOURENÇO MARQUES”, DE MALANGATANA, 1958

Pintura do espólio de Casa Comum, com vénia.

 

Lourenço Marques, da autoria de Malangatana, 1958. Parece ser parte da Praça 7 de Março e da Rua Consiglieri Pedroso.

03/05/2013

A GRANDE DANA MICHAHELLES (1933-2002) E LOURENÇO MARQUES NOS ANOS 70

Dana quando mais jovem, em Lourenço Marques.

Dana quando mais jovem, em Lourenço Marques.

Dana alguns anos mais tarde, a trabalhar.

Dana alguns anos mais tarde, a trabalhar.

Cópia de um dos desenhos a tinta da Dana, aqui a Rua Consiglieri Pedroso em Lourenço Marques, 1972.

Cópia de um dos desenhos a tinta da Dana, aqui a Rua Consiglieri Pedroso em Lourenço Marques, 1972.

Dana Michahelles (1933-2002) was born in Florence, Italy, and was the daughter of artists. Her father was the Florentine painter RAM (Ruggero Michahelles), her uncle was the Futurist painter Thayaht, and her great-grandfather was Hyram Powers, the Neoclassical American sculptor. She attended the Institute of Fine Arts in Florence, but at age 15, she left for Africa where she remained for 27 years, creating a contrasting identity as an artist. In Mozambique, she remained for 27 years, she had a family, and worked extensively, never ceasing to paint. Dana’s work is relatively unknown in her birth city, and this exhibition represents a selected retrospective of her finest works which can be considered narratives, cityscapes, and visual documentation illustrating life as it is being lived, never having lost her Florentine spirit. Many people remember her drawing in the streets with her pad of paper and her pens in Maputo (Mozambique), in Lisbon, in Cape Town, and in Florence. To everyone, she has left an impression of being a quiet yet very personable artist of great talent.Dana made her drawings in the midst of people, surrounded by noise, voices, movement, by LIFE itself. She put on paper the architecture that impressed her, with a decisive and strong line to represent the heavy and structural parts, while at the same time, she was able to capture an ephemeral world in constant mutation and movement, of people — of which she sketched lightly, giving the sensation of momentary passing and fleeting moments, as one can see in many of her works. Fundamentally for her drawing style, she worked as a draftsman for 10 years with the studio of the famous Portuguese architect Amandio Alpoim Guedes (known as Pancho Guedes). It was an era when everything was still drafted by hand; the technology and instruments of today did not exist. This was an advantage that permitted her to develop a fine sense of proportion and perspective while she perfected, year after year, a particular way of using pen and ink, her very specialization.

(texto copiado e ligeiramente editado, do sítio da SACI Gallery (Palazzo dei Cartelloni, Via Sant’Antonino, 11, 50123 Florença, Itália, T 055 289 948, e-mail gallery@saci-florence.edu) que entre Janeiro e Fevereiro de 2013 fez uma exposição das obras da Dana, indicando que algumas das suas peças ainda podem ser compradas à sua Família contactando directamente a Galeria.

Em 2001, a Editora Caminho publicou um livro ilustrado com 168 páginas de cópias dos trabalhos, capa azul, com o nome da Dana (ISBN: 9789722114301). que habitualmente está esgotado e que vai por uns 50 euros.

No Facebook há um pequeno grupo de amigos e admiradores de Dana que pode ser encontrando digitando o seu nome completo.

Um sketch de Malangatana Valente, 1961.

Um sketch de Malangatana Valente, 1961.

A AVenida Dom Luiz em Lourenço Marques, junto ao Avenida Building ("Prédio Pott"), 1972.

A Avenida Dom Luiz em Lourenço Marques, junto ao Avenida Building (“Prédio Pott”), 1972.

Interior do Bazar de Lourenço Marques, 1972.

Interior do Bazar de Lourenço Marques, 1972.

Mais uma artéria de Lourenço Marques, 1972.

Mais uma artéria de Lourenço Marques, 1972.

A netrada do Hotel Club na baixa de Lourenço Marques, 1972. Actualmente o edifício é um centro cultural estrangeiro.

A entrada do Hotel Club na baixa de Lourenço Marques, 1972. Actualmente o edifício é um centro cultural estrangeiro.

A Travessa que liga da Rua Araújo à Rua Consiglieri Pedroso, na baixa velha de Lourenço Marques, 1972.

A Travessa que liga da Rua Araújo à Rua Consiglieri Pedroso, na baixa velha de Lourenço Marques, 1972.

Poema de Rui Knopfli dedidcado a Dana.

Poema de Rui Knopfli dedidcado a Dana.

06/06/2012

OBRA DE MALANGATANA EM LEILÃO, 2012

Filed under: Malangatana Valente - Artista — ABM @ 17:37

Em cima, a pintura de Malangatana que vai a leilão no próximo dia 20 em Lisboa, estimativa dos especialistas do Palácio do Correio Velho é que venda por entre 4 e 6 mil euros. Se quiser licitar, visite o sítio deles que explica tudo.

Hoje, 6 de Junho de 2012, assinala-se mais um aniversário de Malangatana, que nasceu há 76 anos. Joana Teles escreveu o seguinte texto, publicado no Pt Jornal.com de hoje:

Malangatana foi um célebre artista plástico e poeta, que nasceu a 6 de junho de 1936, em Moçambique, e morreu em Matosinhos, Portugal, a 5 de janeiro de 2011. A expressão da sua arte fez-se de diversas formas, através do desenho, da pintura, da escultura, cerâmica, murais, poesia e música.

Iniciou os seus estudos enquanto ajudava a sua mãe, completando a 3.ª classe, até que com 11 anos muda-se para Lourenço Marques – atual Maputo –, à procura de trabalho. Diversos ofícios humildes permitiram-lhe sobreviver e como apanhador de bolas num clube de ténis consegue retomar a aprendizagem.

Trabalhava durante o dia e estudava à noite. As aulas suscitaram proximidade com arquitetos e pessoas da Arte. O trabalho permitiu conhecer Augusto Cabral, um homem que era frequentador do clube de ténis e que ofereceu a Malangatana algum material de pintura, ajudando-o também a vender os primeiros trabalhos.

Em 1958, ingressou num clube de artes, onde conhece e mantém contacto com outros nomes da área. A sua primeira exposição, coletiva, dá-se no ano seguinte, altura em que se torna artista profissional, com o apoio de Pancho Guedes, arquiteto português.

Malangatana tinha 25 anos quando apresenta a primeira exposição individual, em 1965, no Banco Nacional Ultramarino. Dois anos depois, publica alguns poemas, até que é indiciado como membro Frelimo: é preso, mas acaba absolvido.

Voltou a ser detido por motivos políticos, em 1971, em virtude da sua obra ‘25 de Setembro’, numa altura em que assegurara uma bolsa na Fundação Gulbenkian para estudar cerâmica. Malangatana volta a ser detido num centro de reeducação, como pena pelo comportamento na época colonial.

Após a independência de Moçambique, foi eleito deputado em 1990, pela Frelimo, e em 1998, é eleito para a Assembleia Municipal de Maputo (sendo reeleito em 2003).

Em Nampula, participa em diversas ações de alfabetização, tornando-se um dos fundadores do ‘Movimento Moçambicano para a Paz’. Fez parte dos ‘Artistas do Mundo contra o Apartheid’.

Ao longo da sua vida, Malangatana arrecadou diversos prémios, dos quais se destaca a medalha Nachingwea, pela contribuição para a cultura moçambicana, e investidura, a 16 de fevereiro de 1995, como Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Em 1997, a UNESCO nomeou-o ‘Artista pela Paz’ e foi-lhe entregue o prémio Príncipe Claus.

Recebeu o título de ‘Doutor Honoris Causa’ pela Universidade de Évora em 2010 e foi condecorado pelo governo francês como ‘Comendador das Artes e Letras’. Malangatana foi também um dos poucos estrangeiros a ser nomeado membro honorário da Academia de Artes da República Democrática Alemã. Morre a 5 de Janeiro de 2011, no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos.

(fim)

13/05/2012

MALANGATANA EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 1960

Foto da colecção do Arquitecto Pancho Guedes, gentilmente enviado pela Helena d’Alpoim.

Malangatana nos anos 1960 em Lourenço Marques.

10/05/2012

LUIS LAGE, MALANGATANA E PANCHO GUEDES, 2008: DREAM TEAM DE MOÇAMBIQUE

Fotografia do Arquitecto Luis Lage.

Arquitecto Luis Lage, Artista plástico Malangatana e Arquitecto Pancho Guedes. A nobreza da arte de Moçambique debaixo do mesmo tecto. Luis Lage, que é duma geração uns anitos depois de Malangatana e de Pancho Guedes, publicou recentemente um (oiço) fabuloso livro sobre a arquitectura de Maputo que ando doido a ver se encontro e que tenho que ler. “Hei-de arranjar”…

23/12/2011

BOAS FESTAS

Filed under: Malangatana Valente - Artista, PESSOAS — ABM @ 13:09

Dedicado a todos os que visitam esta Casa.

09/12/2011

EXPOSIÇÃO DE MALANGATANA VALENTE EM LOURENÇO MARQUES,1961

Filed under: Malangatana Valente - Artista — ABM @ 09:57
R DE CAMPOS

Creio que isto é no Núcleo de Arte em Lourenço Marques.

11/01/2011

MALANGATANA NA REVISTA TEMPO, ANOS 70

Filed under: Malangatana Valente - Artista, PESSOAS — ABM @ 21:38

SÉRIE PESSOAS – O CORPO DE MALANGATANA CHEGOU HOJE A MOÇAMBIQUE

MALANGATANA NA REVISTA TEMPO, ANOS 70

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