THE DELAGOA BAY WORLD

13/06/2019

O LICEU CINCO DE OUTUBRO E A ESCOLA COMERCIAL EM LOURENÇO MARQUES

Imagens retocadas.

 

A fachada do Liceu 5 de Outubro na Avenida 24 de Julho em Lourenço Marques, meados da década de 1920. Este foi o primeiro liceu a operar em Moçambique. Após a transferência do liceu no início da década de 1950 para o espectacular Liceu Salazar, ao lado, nestas instalações passou a funcionar a Escola Comercial Azevedo e Silva, que continuou a operar no mesmo local após a demolição deste edifício e a construção de novos edifícios, que ainda existem e funcionam como instituições de ensino. (Postal da colecção José dos Santos Rufino).

Segundo a obra Moçambique: Memórias sociais de ontem, dilemas políticos de hoje, da autoria de Vítor Alexandre Lourenço (pág. 205, nota 26):

Depreendem-se, desta nota, duas constatações. A primeira, é que, até ao início do Século XX, mesmo entre as comunidades “coloniais”, no fundo as primeiras urbes, apenas a Ilha de Moçambique, Quelimane e Ibo (sempre subestimada quanto ao seu papel na história de Moçambique) justificaram a existência de uma escola primária, seguidas, mais tarde, por Inhambane, Mopeia (?) e Lourenço Marques. Com o advento “progressista” da Primeira República, é natural que tenha sido dada prioridade à criação de uma escola secundária, logo em 1911. Uma universidade moçambicana só surgiria no início da década de 1960, a ULM, que desembocaria directamente na actual UEM – a Universidade Dr. Eduardo Mondlane. Quase tudo, até à década de 1950, quase exclusivamente para os poucos whites que vivam em Moçambique, as excepções sendo o ensino básico dado por padres e freiras em missões no mato, onde vivia 99 por cento da população de origem africana (e mesmo assim). Assim era o colonialismo teso dos portugueses, que, lá em Lisboa e alguns em Lourenço Marques, achavam que, como acontecera com o Brasil, iria levar mais 300 anos a desenvolver o futuro novo país, com eles a mandar.

Sobre o Liceu, ver ainda esta nota muito completa do incontornável HdM.

 

No mesmo edifício, a Escola Comercial Dr. Azevedo e Silva em Lourenço Marques, início da década de 1970, pouco antes de ser demolido. O original desta imagem está no AHM.

A Escola Comercial

Sobre a Escola Comercial Azevedo e Silva, ler esta épica e imensamente rica e abrangente dissertação escrita por Luisa Maria Pina Valente Antunes, intitulada O Ensino Técnico Profissional Industrial s Comercial em Lourenço Marques durante o Estado Novo – A Escola Comercial Dr. Azevedo e Silva  (Universidade de Lisboa, Instituto de Educação, 2010, 198 páginas). Pode e deve ser descarregada em PDF (e lido). Tem quase tudo o que o Exmo. Leitor alguma vez possa querer saber sobre a Escola Comercial de Lourenço Marques mas não tinha a quem perguntar. Leia-se, por exemplo, estes excerptos:

O ano de 1952 ficou assinalado por importantes acontecimentos,7 como a adopção na Província de Moçambique da Lei. Nº 2:025, de 19 de Junho de 1947 (sobre o Ensino Profissional), do Decreto-lei Nº 37:028, de 25 de Agosto de 1948 (sobre o Ensino Profissional, Industrial e Comercial), do Decreto Nº 37:029, da mesma data (Estatuto do Ensino Profissional Industrial e Comercial), adaptação concretizada pelas Portarias Ministeriais nºs 13:883, 13:884 e 13:885, de 15 de Março de 1952 e desdobramento da Escola Técnica Sá da Bandeira em duas escolas, uma industrial e outra comercial (Decreto Nº 38:679, de 17 de Março de 1952). Este desdobramento foi devido ao crescente interesse pelo ensino técnico, separando-se o ramo comercial do ramo industrial. Em 1951-52 existiam 1747 alunos, surgindo em 1952-53 a Escola Comercial de Lourenço Marques (com 1187 alunos) e a Escola Industrial de Lourenço Marques (com 562 alunos)8. A Escola Industrial de Lourenço Marques funcionou nas instalações da Escola Técnica Sá da Bandeira, e a Escola Comercial de Lourenço Marques, que abriu portas em 18 de Novembro de 1952, ocupou as instalações abandonadas pelo Liceu Salazar, que entretanto tinha passado para o seu novo edifício.

E uma efeméride:

A Escola Comercial de Lourenço Marques entrou em funcionamento no dia 18 de Novembro de 1952 com 1187 alunos.

A Escola Commercial de Lourenço Marques, anos 60.

E o nome:

Em 1963, a Escola Comercial de Lourenço Marques passou a designar-se pela Portaria Nº 16:933 de 1 de Junho, Escola Comercial Dr. Azevedo e Silva. A razão desta mudança de nome prende-se com o facto de a Direcção dos Serviços de Instrução ter proposto esta alteração como forma de homenagear e perpetuar na memória o nome do Dr. Azevedo e Silva. Esta figura destacou-se por ter sido advogado, jornalista, investigador na área do Direito Administrativo, tendo realizado no século XIX estudos de Direito Comercial e o comentário ao Novo Código Comercial. A sua presença nesta Província ficou ligada à fundação da primeira Escola de Ensino Técnico em Moçambique, a Escola Prática Comercial e Industrial 5 de Outubro, em Lourenço Marques.

Sobre o edifício em cima:

A organização espacial dos edifícios das escolas do Ensino Técnico era marcada pela matriz de base fundada na classe, dominando as salas com actividades centradas no professor e situando-se os espaços especializados (laboratórios, bibliotecas, ginásios) a nível complementar. (Silva, 2002) Américo Violante, professor efectivo e Director da Escola Comercial de Lourenço Marques em 1956, refere que a Escola se encontrava provisoriamente instalada no conjunto de edifícios, em que até 6 de Outubro de 1952, funcionou o Liceu Salazar. O edifício principal da Escola Comercial de Lourenço Marques localizava-se na Avenida 24 de Julho, e tinha sido construído para um Internato de Raparigas/Instituto Feminino, e entretanto foi lá instalada uma bateria de artilharia, nesse mesmo espaço foi instalado em 1919, o Liceu Nacional 5 de Outubro.

A fachada da Escola Comercial. Foto tirada da Pastelaria Cristal.

Sobre as relações entre o que era uma instituição invulgarmente integrada do ponto de visto socio-económico, é nada menos que o meu caro Eneas Comiche, um antigo aluno e hoje um político da Frelimo ao mais alto nível – e o actual Presidente da Câmara de Maputo – que disse (p.115):

As turmas eram mistas, a relação era boa, ainda mantemos ligações de amizade que duram até hoje, eram uma relação de confiança absoluta. Não fazíamos distinção entre brancos, negros, indianos, chineses, convivíamos todos, nunca senti racismo (…), era uma vivência sã, fazíamos grupos de estudo, havia um contacto com os pais”(Amandine Carvalho), “(…)As relações entre alunos eram muito boas, ainda hoje tenho grandes amigos feitos na Escola Comercial, éramos colegas, é verdade que havia contingências sociais, mas dentro da Escola eu nunca me senti discriminado, naquela altura nós, os pretos, éramos poucos, havia muitos brancos, alguns indianos e amarelos, mas a convivência era sã(…)

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