THE DELAGOA BAY WORLD

18/06/2013

A HISTÓRIA DA MARRABENTA

Jovens a dançar a marrabenta na Associação Africana em Lourenço Marques. Foto da colecção pessoal de

Jovens a dançar a marrabenta na Associação Africana em Lourenço Marques. Foto da colecção pessoal de Elarne e Fredo Catiano.

Texto de base de Rui Guerra Laranjeira*, com o título original de “Marrabenta: evolução e estilização, 1950-2000”, copiado com vénia do sítio Buala e pesadamente editado por mim. Quem quiser ler o original consulte o sítio Buala.

(início)

A Marrabenta é o principal ritmo musical de Moçambique, situado bem no coração da sua identidade. Ritmo urbano, a sua estilização deve-se a pessoas urbanizadas que, distantes do seu meio social e cultural e sujeitos à influência da cultura ocidental, criaram este ritmo, pegando noutros já existentes como a Magika, Xingombela e Zukuta.

Começou no final dos anos 30, mas será na década 50 que se tornaria popular com conjuntos como Djambu, Hulla-Hoope Harmonia. A marrabenta incorporou vários ritmos folclóricos, é produto da miscegenação cultural das gentes do Sul do Save, e da dinâmica sócio-cultural das zonas circundantes de Lourenço Marques]. A sua estilização verificou-se nas Associações de Naturais que tiveram um papel importante na defesa da cultura e identidade cultural dos africanos no período colonial, caracterizado pela supressão sistemática de qualquer manifestação cultural por parte dos nativos, consideradas folclóricas.

Assim, as Associações, Associação Africana (AA) e o Centro Associativo dos Negros da Província de Moçambique (CANPM) vão contribuir para o resgate da identidade e cultura moçambicana apesar da pressão para cantar e dançar músicas e ritmos portugueses entre 1912 a 1975, aquando da Independência. Para a adopção e promoção da cultura moçambicana, destaque-se o trabalho de José Craveirinha (Associação Africana) e Samuel Dabula Nkumbula (Centro Associativo dos Negros) que, devido à [sua] consciência politica e cultural, contribuem para a adopção e promoção de ritmos, músicas e danças africanas nas associações. A Marrabenta passou por várias fases.

Origens da Marrabenta

A Marrabenta terá tido origem na região sul de Moçambique como demonstrado pela língua utilizada e pela maioria dos seus praticantes, que são todos oriundos desta região, que comporta Maputo, Gaza e Inhambane. O nome Marrabenta provém de rebenta, termo associado a dançar-se em excesso. Nas décadas de 30 e 40 na Mafalala, um dos principais bairros suburbanos da então Lourenço Marques. Na Mafalala, na Associação Beneficiente Comoreana, sala de recreação e diversão então conhecida pelos locais como ‘Comoreanos’ terá surgido o nome ‘Marrabenta’. O local era assim chamado pelo facto dos seus associados serem provenientes das Ilhas Comoros. O ‘Comoreanos’ era um Cabaré onde a população suburbana se divertia. Um dos ritmos que se dançava ali era a ‘Marrabenta’ que até então, anos 1930, não tinha nome.

Factores que contribuiram para a estilização da Marrabenta

A estilização da Marrabenta terá resultado da combinação do movimento migratório de Moçambique para a África do Sul e vice-versa, realizado predominantemente por indivíduos de origem rural que emigravam para as minas sul-africanas à procura de melhores condições de vida. No seu regresso, introduziam ritmos, aparelhos, discos e músicas apreendidas e ouvidas na África do Sul, junto às suas famílias e amigos. Desta forma, faziam com que estes entrassem no meio rural ou suburbano de Lourenço Marques, provocando a familiarização do meio sócio-cultural com estas novas expressões culturais, levando à gradual aculturação dos seus familiares mais próximos e aos habitantes das zonas onde habitavam.

A rádio contribuiu bastante para a propagação destes ritmos devido à preferência da população africana por esta fonte de informação e entretenomento, dado que a maioria da população era analfabeta e sem acesso à informação escrita. As bandas americanas e sul-africanas também tiveram a sua influência. As bandas norte-americanas tinham adeptos junto de um público africano mais evoluído que escutava as bandas de jazz americanas, enquanto que as bandas sul-africanas eram preferidas pelos emigrantes moçambicanos que estavam em contacto directo com a música negra sul-africana. Assim, a vinda de bandas sul-africanas a Moçambique irá despertar nos moçambicanos a vontade de as imitar. Em 1951, visita Moçambique o agrupamento sul-africano ‘Zonk’, constituído exclusivamente por negros. Foi a primeira vez que se viu e ouviu uma guitarra eléctrica em Moçambique tocada por negros. Isto teve um grande impacto sobre a população negra, como se pode imaginar.

As associações contribuíram para o surgimento e desenvolvimento de uma consciência cultural, social e politíca, apesar das restrições impostas pelo Estado colonial Português. Ao permitir a sua criação e surgimento, o Estado colonial tinha também em vista o controlo, orientação e a introdução de elementos da cultura portuguesa no seio destes grupos e, ao mesmo tempo, impedir a formação de uma frente comum por parte dos colonizados.

O surgimento da Marrabenta nas associações foi o culminar do processo de ‘Regresso às Origens’, iniciado na década de 1940 por vários pensadores e dirigentes africanos negros e mestiços. Este movimento foi liderado por um grupo de intelectuais e usava como armas a culinária, a poesia, a música, o desporto e arte para afirmar valores e a identidade africana. Deste periodo destacam-se poetas como Rui de Noronha, com o poema ‘Surge et Ambula’, publicado em 1936, e Noémia de Sousa com ‘Sangue Negro’ de 1949.

O momento mais celebrado deste movimento acontecerá em 1959, com a realização do espectáculo musical denominado ‘Concerto de Música Folclórica’ envolvendo as bandas ‘Hulla-Hoop’, ‘Harmonia’ e ‘Djambu’ na Associação Africana em Lourenço Marques. Este evento foi o primeiro da história da música negra moçambicana segundo o jornal ‘Brado Africano’ , que o apelidou ‘O Concerto Musical do Ano’. A experiência serviu para confirmar a viabilidade da execução de números folclóricos. Os agrupamentos musicais contribuíram, por seu turno, para a difusão da música ligeira entre a população africana, para a divulgação dos ritmos moçambicanos e a sua penetração no seio da população colonial. A dinâmica exibida pelas associações na segunda metade da década de 50 na defesa e promoção da cultura africana deveu-se principalmente a duas importantes figuras: José Craveirinha na Associação Africana e o Professor Samuel Dabula no Centro Associativo dos Negros.

Estilização da Marrabenta 1950-1960

A estilização da Marrabenta verificou-se pela interpretação de músicas populares com instrumentos de origem ocidental. Este processo deu-se em 1958/9 com a realização do primeiro espectáculo de música negra em Moçambique, como já fizemos referência. O espectáculo foi um enorme sucesso e os espectadores vibraram do princípio ao fim. Foi a primeira vez que se assistiu a um concerto cuja temática era apenas a música local. Neste processo destacam-se a Orquestra Djambu, que se encontrava sediada no Centro Associativo dos Negros, o Conjunto Hulla Hoop, mais tarde João Domingos e o Conjunto Harmonia.

Os primeiros conjuntos Afro-Moçambicanos

A Young Issufo Jazz Band foi o primeiro conjunto Mocambicano constituído exclusivamente por indivíduos de raça negra. Foi fundado em 1956 por Young Issufo como um quarteto, passando a sexteto em 1957. A ideia de Young Issufo era criar um grupo africano que fizesse frente às bandas sul-Africanas que vinham actuar em Moçambique na década de 50. O sexteto era constituído por Domingos Mabombo, Manuel Hassane, Orlando, José Manuel, Moisés Manjate e Young Issufo .

A Orquestra Djambu (oiça o vídeo Youtube) forma-se em 1958 após a dissolução do Young Issufo Jazz Band em 1957. A banda integra-se no Centro Associativo dos Negros, então sob a direcção do Professor Samuel Dabula. Inicialmente tocavam Blues e Jazz, só mais tarde passaram a tocar marrabenta.

Os Djambo.

Os Djambo.

O Conjunto João Domingos, fundado por Young Issufo e Hassiade Mumino (Gonzana) em 1958 como Hulla-Hoop, passa a designar-se João Domingos em 1960. Fica associado à Associação Africana, na altura sob a liderança de José Craveirinha.

A data provável da formação do Conjunto Harmonia é 1958. Na sua formação participaram Rachide e Miguel Mabote na Mafalala, também integram-se na Associação Africana.

Promoção e divulgação da Marrabenta 1961-1974

A promoção e divulgação da marrabenta acontece na década de 1960 devido à evolução da situação política nas colónias portuguesas. Em 1961 tem início a guerra em Angola, que terá como consequência a abolição do estatuto indígena do Negro nas colónias, concessão ao mesmo de liberdades cívicas até então negadas, a nomeação de um Ministro das Colónias liberal (Adriano Moreira) cujo consulado iria durar 18 meses, por um lado. Por outro lado, vai-se verificar a adopção de políticas multirracias e multiculturais que irão dar espaço aos ritmos africanos e permitir a criação de programas radiofónicos especiais, tais como o ‘África à Noite’, ‘Voz de Moçambique’ no então Rádio Clube de Moçambique.

Nesta altura gravam-se dois discos de conjuntos afro-moçambicanos, nomeadamente o conjunto João Domingos em 1963 e, em 1965, do disco ‘Marrabenta’ da Orquestra Djambu. Do disco da Orquestra Djambu sairá a famosa música da Marrabenta, ‘Elisa Gomara Saia’ sobre a qual se diz que o ‘Duo Ouro Negro’ a certo ponto terá plagiado e reclamado a sua autoria .

A Marrabenta no Pós-Independência 1975-2002

Com a independência em 1975, a Marrabenta é desqualificada devido à nova realidade política, económica e cultural, em que a Frelimo se empenhava em impor a sua “revolução” e desencorajava activamente actividades culturais que considerava “suversivas” e “decadentes”. O novo regime procurava então valorizar a música tradicional (rural) moçambicana, que teve nos festivais realizados, nomeadamente o Festival Nacional de Dança Tradicional e o de música tradicional de 1980, um dos seus momentos mais altos. De acordo com Luís Bernardo Honwana, sendo a Frelimo era um partido de base essencialmente rural, isso levou à divulgação destes valores com vista à promoção da unidade na nação recém-constituída o que, com a Marrabenta, não seria possível visto tratar-se de um ritmo urbano e de difícil aproveitamento político.

Outro factor que terá contribuído para a sua parca divulgação neste período, foi a crise que o país atravessou logo após a Independência, resultante da fuga de empresários do sector musical, o encerramento das casas especializadas na venda de instrumentos musicais, o desencorajamento de as pessoas conviverem em ambientes de lazer musical e a impossibilidade de importá-los em virtude de o país ter outras prioridades. O resultado foi a regressão deste sector cultural.

A primeira tentativa séria para reavivar a Marrabenta no pós-Independência só acontece em 1987 com a criação da Orquestra “Marrabenta Star” período em que se procedem alterações de ordem estrutural no país, como a introdução do ‘Programa de Reabilitação Económica, que promove a liberalização económica, o aparecimento de mercados e o incentivo à iniciativa privada, ao contrário do período anterior até 1986, caracterizado por uma economia comunista, centralizada e fortemente controlada pelo Estado. Apesar do dinamismo demonstrado inicialmente pelo agrupamento, em 1989, este viria a desaparecer devido a problemas de carácter empresarial apesar do sucesso a nível internacional.

Em 2000, verifica-se o segundo ressurgimento da Marrabenta com o projecto ‘Mabulu’ que promovia comercialmente este ritmo musical. Este projecto procede a mistura do velho e do novo com jovens cantores ‘rap’ e velhas glórias da ‘Marrabenta’. Em 2002 o projecto terminou apesar do sucesso alcançado.

A ‘Marrabenta’ no presente

A ‘Marrabenta’ continua a ter o seu espaço apesar de não existirem políticas institucionais para protegê-la e promovê-la. Todas as iniciativas feitas nesse sentido são de índole individual. De entre as várias iniciativas podem-se destacar jovens como Neyma Alfredo, actualmente considerada a ‘Diva da Marrabenta’ com várias músicas neste ritmo. Lourena Nhate é outra joven com créditos firmados, descoberta no concurso ‘Fama Show’, e que hoje é uma cantora de Marrabenta com futuro. Isto ilustra a popularidade de que a Marrabenta ainda goza.

Paralalelamente à Marrabenta surge, entre 2005-6, o ‘Dzukuta-Pandza’ que tem em Zico o seu expoente máximo. Zico é considerado o promotor deste novo ritmo, que goza de um número crescente de fãs. Uma das músicas que o catapultou para a fama foi ‘Maboazuda’ que passou a ser tocada em todas as rádios comerciais e festas realizadas no país. ‘Dzukuta-Pandza’ é um ritmo que por sinal se inspira na ‘Dzukuta’ ou ‘Zukuta’ um dos ritmos que esteve na origem da ‘Marrabenta’.

Apesar dos altos e baixos pelos quais tem passado, a Marrabenta continua a ser uma referência em Moçambique. De tal maneira que em 2008 inicia-se o ‘Festival Marrabenta’ uma iniciativa de jovens da ‘Logaritmo’. O festival acontece entre Janeiro e Fevereiro e já conquistou o público e artistas moçambicanos, assim como turistas, a julgar pelas multidões que arrasta e número de artistas participantes. É realizado na região sul de Moçambique nas províncias de Maputo e Gaza, nomeadamente nas cidades de Maputo, Marracuene, Chibuto e Chokwé. Como forma de reconhecimento da sua importância, 2010 foi considerado o ano da ‘Marrabenta’ pelos músicos Moçambicanos.

Em conclusão, a ‘Marrabenta é hoje um dos factores identitários de Moçambique. Como dizia alguém, nos anos 60, Moçambique era definido por uma trilogia: Marrabenta, Laurentina e Eusébio. E hoje temos só a Marrabenta para nos identificar, pois esta nunca morre!

Referências

Enciclopédia Mirador Internacional. Vol.8; Egito-Estrel. São Paulo, Rio de Janeiro:Encyclopaedia Britância do Brasil Publicações Ltda, 1981.
entrevistas:
João Domingos, 5.10.2002 e 08.08.05, Maputo
Paulo Sérgio,25.08.03, Maputo
Lindo Lhongo, 15.03.03, Maputo.
Dilon Djindje, 15.04.03, Marracuene.
Gabriel Chiau 25.04.03, Maputo.
David Macuácua, 05.03.03, Maputo
Sox, 05.03.03, Maputo.
Chico António, 04.03.04, Maputo.
Moisés Manjate, 20.02.02 e 11.08.05, Maputo
Cecília Xavier, 06.10.02, Maputo.
Epitácio José Xavier(Brugue), 06.10.02, Maputo
Alfredo Caliano, 05.06.04, Maputo.
Gonzana 09.07.02, Maputo.
Marcos Cuembelo, 21.02.03, Maputo.
Zeca Tcheco, 13.02.03, Maputo.
Celso Paco, 14. 05.04, Maputo
Young Issufo, 31.03.03, Maputo
Armando da Conceição (Rachide), 11.05.05 e 13.09.05, Maputo
Pacha Viegas, 18.04.03, Maputo.
José Mucavel , 07.08.04, Maputo
Vitor José, 14.07.03, Maputo.
Guerra Manuel, 12.02.05, Maputo
António Alves da Fonseca, 12.03.03, Maputo.
Mussá Tembe, 02.04.02, Maputo.
Luís Bernardo Honwana, 05.07.04
imprensa:
Jornais: Brado Africano, L.M., 1950-1960;
O Cooperador de Moçambique, L.M., 1969
Domingo,Maputo, 1981-1987
Notícias, Lourenço Marques, 1951-1952;
Noticias, Maputo,1973-1982
Tribuna, L.M.,1963-1964
Revistas:
Tempo,L.M., 2001
RM, L.M.,1961
Teses:
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Matsinhe, Amélia. “Música Popular e Identidade: Subsidios Para o Estudo da Identidade na Música de Fany Mpfumo (1976-1986)”. Universidade Eduardo Mondlane.Faculdade de Letras e Ciências Sociais.Departamento de História, 2005,52 Pp. Tese de Licenciatura.
Livros e artigos:
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Campos, Octávio Rodrigues de. “Marrabenta: Ritmo Moçambicano”. Lourenço Marques: [s.l.],[s.d.].Pp.4
Castelo, Claúdia. “O Modo Português de Estar no Mundo: O Luso–Tropicalismo e a Ideologia Colonial Portuguesa, (1933-1961)”. Porto: Edições Afrontamento, 1998. 166Pp.
First, Ruth. “O Mineiro Moçambicano:Um Estudo Sobre a Exportação da Mão-de-Obra”. Maputo:UEM, 1977
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Kubik, Gerhard. “The Kachamba Brothers Band: A Study of Neo-Traditional Music in Malawi”. Lusaka: University of Zâmbia, 1974.Pp.73
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Soares, Paulo. “A Valorização da Música e Canção Tradicional” In: Música Tradicional em Moçambique. Coordenador:Paulo Soares. Maputo:Tipografia Académica/Tipografia Globo, 1980.- P.5-10
Sopa, António. “Artes Plásticas em Moçambique: Para uma Percepção das Práticas Culturais (1975-1999)”. In: “Outras Plasticidades”. Coordenação de Maria Armandina Maia. Lisboa:Instituto Camões, 1999.-P.31-48.
Internet
http://www.brasilfolclore.hpg.ig.com.br/index.html/05.06.03
FONTES PRIMÁRIAS:
Decreto-Lei n° 43.893, 6 de Setembro de 1961, B.O., I Série n°36.
AHM, Fundo da Administração Civil, Agremiações Recreativas e Culturais, caixa nº 12.
DICIONÁRIO:
Séguier, Jaime(Dir.). Dicionário Prático Ilustrado. Porto:Lello e Irmão, 1992.

*Rui Guerra Laranjeira é um historiador moçambicano. Formou-se em História com a tese “A Marrabenta: sua evolução e estilização 1950-2002″ pela Universidade Eduardo Mondlane, Maputo. Fez um Mestrado em Cultural Heritage Management, com a tese “A Comparative Study of Parks Management in Australia and Mozambique: the Case of Kakadu, Uluru and Limpopo National Parks” pela Flinders University, Adelaide, Austrália. Foi Investigador Estagiário no Instituto de Investigação Sócio-Cultural ARPAC do Ministério da Cultura (2006-7), Consultor na Impacto nos projectos: Instalação de água potável nos bairros suburbanos de Maputo e de Alargamento da Estrada Nacional número 1 (2005); Oficial de Programas na AMDC (Associação Moçambicana para o Desenvolvimento da Comunidade) e na Akatembe (2002-4). Foi professor de História e de História de Arte entre 1997- 2004

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17/06/2013

O PROFESSOR SAMUEL DABULA, 1915-1978

Fotografia de uma revista do Rádio Clube de Moçambique, texto de Ernia Armindo e João de Sousa, que conheceu o Prof. Samuel Dabula, com retoques meus.

 

O Professor Dabula nos estúdios do Rádio Clube de Moçambique em Lourenço Marques,  onde trabalhou algum tempo no programa "Hora Nativa", mas tarde rebaptizado "Voz de Moçambique".

O Professor Dabula nos estúdios do Rádio Clube de Moçambique em Lourenço Marques, onde trabalhou algum tempo no programa “Hora Nativa”, mas tarde rebaptizado “Voz de Moçambique”.

 

Faz 35 anos que faleceu Samuel Dabula.

Ele foi um antigo locutor da “Hora Nativa” que posteriormente passou a designar-se de “Voz de Moçambique”. Nasceu a 23 de Maio de 1915, na então cidade de Lourenço Marques. Em 1943 passa a trabalhar para o então recentemente criado «Instituto Negrófilo», que mais tarde veio a chamar-se «Centro Associativo dos Negros da Província de Moçambique», onde chegou a ser presidente o Dr. Domingos Mascarenhas Arouca, como figura marcadamente progressista e de resistência ao colonialismo e pró-independência, ainda que na clandestinidade, e que durante a sua direcção dinamizaria a criação naquele espaço de uma escola secundária.

Então professor primário, Samuel Dabula foi, conjuntamente com os jovens de então -Levim Pinto Maximiano, Enoque Libombo, Samuel Magaia, Salomão Magaia, Henrique Tembe, Raúl Howana, Daniel Jeremias, Nhaca, Fineas Mabota entre outros – membros fundadores do «Centro Associativo dos Negros». Foi neste centro que surgiu o então conhecido «Núcleo dos Estudantes Secundários Africanos – NESAM», donde saiu grande parte dos dirigentes da “Frente de Libertação de Moçambique – Frelimo”.

Na arena musical, Samuel Dabula foi um dos fundadores da orquestra denominada «Djambo» que fez furor desde os anos 50. Essa orquestra abrilhantava bailes, tardes dançantes e casamentos. Actuava no programa radiofónico do Rádio Clube de Moçambique», denominado «África à Noite» que era apresentado pelo locutor José Mendonça.

Samuel Dabula Nkumbula chegou a ser vogal suplente da Câmara Municipal de Lourenço Marques.

Um artigo do Noticias de 23 de Maio de 2013 complementa a nota acima:

Passaram já 98 anos, desde que nasceu a 23 de Maio de 1915, o professor Samuel Dabula Nkumbula, pessoa que se notabilizou pela sua faceta de eminente proto-nacionalista, dinamizador e impulsionador das artes e da cultura moçambicana e prestigiado locutor da rádio.

Com efeito esta figura, que na época abraçou a profissão de professor primário, após se ter formado na Escola de Habilitação de Professores Indígenas, em Alvor, na Manhiça, passou a trabalhar, no ano de 1943, para o Centro Associativo dos Negros da Colónia de Moçambique, como professor, para ministrar aulas do ensino primário. A escola deste Centro era uma das poucas escolas do chamado ensino de adaptação, no contexto do Moçambique colonizado, onde o ensino para indígenas, na época, estava sob a égide da Igreja Católica.

Sendo o Centro Associativo dos Negros da Colónia de Moçambique uma associação de negros, Dabula não se limitou apenas a cumprir com o mero papel de professor da escola, mas debruçou-se como um dos elementos da direcção, na difícil tarefa de formação do Homem na dimensão sócio-cultural. Com efeito na qualidade de dinamizador das actividades da juventude, nesta associação, criou e dinamizou, no ano de 1943, o grupo dramático.

Dentre as várias actividades que este grupo realizou, destacam-se os saraus culturais, que englobavam canto, poesia, música e teatro. Realçar que este grupo, nos meados dos anos 50, apresentou três peças de teatro de temática africana (Marrumbo freguês, Mahantsassa e outra) viradas para a educação cívica através da critica dos costumes. Estas peças de teatro foram escritas, encenadas e apresentadas por si nos palcos do Centro Associativo.

O Grupo dramático subdividia-se em várias disciplinas, nomeadamente: o canto, poesia, dança e teatro. No capítulo do canto e dança o grupo, denominado pelos portugueses de folcrórico, sob a sua direcção, debruçou-se na pesquisa de ritmos e danças para resgatar e desenvolver as danças da região Sul de Moçambique. Estas danças, que antes eram feitas à roda da fogueira e à sombra de uma árvore, designadamente a Marrabenta, o Xingomana, o Xigubo, o Nfena, Makwaela dentre outras, passaram a serem interpretadas e acompanhadas por instrumentos convencionais, nos palcos e nos salões em eventos sociais, onde se popularizaram. Na interpretação dos números de canto e dança fazia questão de dar a conhecer o significado das danças, onde, quando e porque era executadas e em que circunstâncias, o que pressupunha um apurado estudo etnológico.

Jovens da época que já frequentavam o ensino secundário e pré-universitário dançavam com brio e orgulho estas danças como forma de vincarem a sua identificação com a cultura e a sua condição de moçambicanos. São de destacar figuras como Eneas Comiche, Mariano Matsinhe, Manuel Magaia, Armando Guebuza, Jorge Tembe, Janet Maximiano, Lúcia e Rosa Tembe, Isabel e Carlota Manguene, só para citar alguns, dentre muitos outros que foram seus discípulos.

Esta atitude veio a quebrar o preconceito de que só praticavam danças nativas os incultos pois, a partir deste feito estas danças passaram a serem apreciadas, reconhecidas e valorizadas e até registadas quer em disco como em fitas magnéticas, como veio a acontecer com a gravação de um disco interpretado pela Orquestra Djambo com as canções “Elisa gomara saia; Xiwuanana xanga e Bambatela Sábado”, canções já mundialmente conhecidas.

Aconteceu que, tendo se quebrado este preconceito, vários grupos foram convidados a apresentar espectáculos na cidade de cimento, no auditório da Rádio Clube de Moçambique e em outras casas de espectáculos, para auditórios formados por portugueses, que se deliciavam, quer com a graciosidade da Marrabenta ou com a virilidade do Xigubo, manifestações culturais a que apelidavam de “folclore”.

Samuel Dabula defendia, vezes sem conta, que era preciso estudar pois era importante adquirir conhecimentos que nos iriam facultar a capacidade de discutir a Independência com os portugueses.

Defendia também que com a ida dos primeiros estudantes a Portugal, para prosseguir com estudos superiores, já se estavam a desenhar os primeiros passos para a obtenção da Independência. A sua visão era de que se deveria formar 50 advogados, 50 engenheiros, 50 médicos, 50 economistas e assim por diante, para assegurar a existência de quadros para a Independência.

Foi igualmente Homem do desporto. Aliás, poucas são as vezes que se dissocia o Desporto da cultura. Praticou o futebol como jogador, treinador, presidente da direcção e mais tarde da Mesa Assembleia do Sporting Nacional Africano. Presidiu a direcção da Associação do Futebol Africano de Moçambique.

Ainda nos meados dos anos 50, Samuel Dabula foi convidado a trabalhar no Rádio Club de Moçambique com a missão de criar uma emissora de rádio em línguas nacionais, a Hora Nativa, tendo então se tornando no primeiro locutor negro moçambicano.

Na qualidade de locutor da rádio, produziu e apresentou vários programas radiofónicos, de âmbito educativos e recreativos, sendo de destacar o programa “Keti Keti”, pelo impacto e grande popularidade que ganhou. O programa realizava-se nos salões do Centro Associativo e era transmitido na Rádio Clube de Moçambique- Sector da Hora Nativa, já que era falado em línguas nacionais. A Orquestra Djambo abrilhantava este programa que lhe grangeou muita popularidade, tornando-o num grupo muito apreciado e concorrido. Era um programa de entretenimento que buscava e divulgava novos talentos no canto, dança e música. Artistas de nomeada, como João Wate, João Cabaço, foram descobertos neste programa. São de destacar os momentos de muito bom humor que este programa proporcionava.

Como locutor de rádio, entrevistou várias figuras famosas, tais como Eusébio, Mário Coluna, Pelé, a cançonetista brasileira Ângela Maria, entre outras figuras de destaque no mundo da arte, cultura e desporto, no quadro do trabalho que executava na área de comunicação social.

Samuel Dabula faleceu a 17 de Junho de 1978, e pode-se dizer que ele soube marcar um lugar na vida deste país, pelas obras que em vida incansavelmente realizou no ramo do ensino, no âmbito do proto-nacionalismo, na área de arte e cultura, na área de comunicação social, merecendo a sua vida e obra melhor divulgação para servir de referência às novas gerações. (fim)

Em 2006, durante a vigência camarária de Eneas Comiche, a edilidade renomeou a previamente designada Rua Gen Teixeira Botelho, na Sommerschield, com o nome do Professor Samuel Dabula Nkumbula.

Para complementar esta leitura, procurar neste blogue ainda textos sobre a banda Djambo e as origens da Marrabenta.

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