THE DELAGOA BAY WORLD

07/09/2017

A MAÇONARIA EM MOÇAMBIQUE, 1900-1935: UMA NOTA

 

O Palácio Maçónico de Lourenço Marques, anos 20.

A presença, influência e impacto da maçonaria portuguesa em Moçambique colonial é ainda um assunto infelizmente pouco estudado. Mas para quem vai lendo e estudando a época entre 1890 e 1935, o tema é incontornável, no período dos últimos anos da Monarquia e especialmente durante a Primeira República (1910-1926) e até à proibição da existência das chamadas sociedades secretas por decreto de Salazar, em Maio de 1935.

Já dantes há notícia da presença de membros de lojas maçónicas no que é hoje território moçambicano. Num sítio da maçonaria portuguesa, que contém variados registos da actividade ao longo dos tempos, há variadas menções dessa actividade, desde pelo menos a segunda década do Século XIX, ainda que de forma incipiente, uma vez que a presença portuguesa naqueles territórios era praticamente inexistente, à excepção da pequena ilha de Moçambique.

Naquela altura, era relativamente comum “despachar” para Moçambique oponentes ao regime vigente. Durante a monarquia deportavam-se para Moçambique republicanos e membros da maçonaria (invariavelmente os republicanos eram membros da maçonaria) e depois do derrube da Monarquia, exilavam-se os monárquicos, alguns dos quais foram parar também a Moçambique – onde foram desportivamente marginalizados pelos republicanos maçónicos, que estavam nas posições-chave da administração colonial.

Conforme referi, António de Oliveira Salazar, na sua versão peculiar de ditadura conservadora católica, alteraria tudo isso.

A partir de 1935, tal como terá acontecido em Portugal, o movimento maçónico em Moçambique – ou o que sobrou dele – formalmente se desmembrou e suponho que uma parte passou a agir na clandestinidade.

Deve-se referir, no entanto, que, ao contrário de Portugal e da sua maior colónia – Angola – Moçambique, e em particular Lourenço Marques, a experiência maçónica foi muito diferente de qualquer ponto do então agregado colonial português, incluindo em Portugal. E isto por algumas razões interessantes.

  • Moçambique ficava muito distante de Portugal, e era, portanto, difícil de controlar e de monitorizar.
  • Moçambique estava rodeado por colónias e países sob tutela britânica, onde, quer por razões de formalidade, de costume e culturais, a actividade maçónica era vibrante, era legal, era aceite e era considerada socialmente positiva. Na União Sul-Africana, por exemplo, a actividade maçónica era um facto normal da vida, era conduzida totalmente em aberto e era, com raras excepções, universalmente aceite. Por toda a África do Sul, havia lojas maçónicas.
  • A deportação de membros da maçonaria para Moçambique só veio reforçar a sua presença e influência
  • A influência britânica em Moçambique, cuja comunidade até aos anos 20 funcionava quase como um estado dentro do estado, afectava a forma de encarar outras culturas, religiões e hábitos, que era quase completamente diferente daquilo que se observava em Portugal e Angola, que eram muito mais fechadas e expostas ao domínio e influência da Igreja Católica, adversária tradicional da diversidade religiosa e ainda mais dos movimentos maçónicos. No caso de Moçambique, para além duma fraca presença de portugueses e duma forte presença de estrangeiros (ao ponto de se considerar a colónia “perdida” para os portugueses e que como tal devia ser pura e simplesmente vendida), na sequência do Ultimato de 11 de Janeiro de 1890, a Grã-Bretanha impôs a Portugal a obrigatoriedade da observação da liberdade religiosa. E por essa via, presume-se, a liberdade de associação que está na base dos movimentos maçónicos.
  • Depreende-se, daquilo que se fez antes e especialmente a partir de 1910, que os maçónicos de Lourenço Marques estavam bem organizados e eram influentes. Estavam por detrás da criação do Jardim Vasco da Gama. Estavam por detrás da criação da Escola Primária 1º de Janeiro. Paulino dos Santos Gil, então um jovem empreendedor que se tornou no português mais rico de Lourenço Marques, pertencia à maçonaria ainda antes da República. A Associação dos Velhos Colonos de Moçambique, criada em 1919, tinha uma ligação com a maçonaria.

E a verdade é que a maior, mais visível, mais opulenta loja maçónica em território português, até hoje, foi o Palácio Maçónico de Lourenço Marques, pertencente à Loja do Cruzeiro do Sul, afiliada a uma ordem maçónica portuguesa.

A fachada do Palácio Maçónico de Lourenço Marques, em plena Avenida 24 de Julho, no meio da Cidade. Estimo que tenha sido edificado na segunda década do Século XX, ainda que haja menção de a loja em si ter sido iniciada em 1900.

 

Aspecto da sala principal do Palácio Maçónico de Lourenço Marques, final dos anos 20. Podem-se ler no centro, por cima dos símbolos, as iniciais da loja.  Foto da Wikimédia e Casa Comum.

 

Diploma do Grande Oriente Lusitano Unido, de 25 de Abril de 1905, em português, inglês e francês, a certificar que um certo indivíduo, com nome de guerra Luis de Camões, era um membro (“irmão”) da Loja do Cruzeiro do Sul em Lourenço Marques, exortando a que as organizações similares no resto do mundo prestem apoio.

 

Após a aprovação do Decreto que ilegalizou as chamadas sociedades secretas, presumo que a actividade maçónica passou a ser feita secretamente em Moçambique, como no restante território sob administração portuguesa. Mas, formalmente, as instituições foram desmanteladas. Algum tempo depois, o Palácio Maçónico em Lourenço Marques foi adquirido pelo Estado e convertido no que se tornou (e ainda é) a Escola Industrial de Lourenço Marques.

 

A Escola Industrial de Lourenço Marques, aqui em 1970, é o antigo Palácio Maçónico, alterado por algumas modificações estéticas e obras de ampliação.

Este é um tópico pouco fácil de estudar, pois o assunto tornou-se quase subversivo na sociedade de Moçambique após o decreto de 1935. Pouca documentação e testemunhos sobrevivem e ainda hoje, infelizmente, o assunto é quase tabu entre os descendentes dos antigos membros. A meu ver, erradamente. A História é o que é, e merece ser entendida.

Uma curiosidade quase maçónica: o Museu Álvaro de Castro era originalmente para ser uma escola primária, um tema favorito dos maçónicos, para quem a educação era uma virtude imperativa e uma prioridade da Primeira República, empenhada em retirar a igreja católica da educação pública. E Álvaro de Castro, que foi Governador-Geral na Primeira República, era, para além dum ferrenho, se exagerado, republicano, também membro da maçonaria. Mas o edifício ficou tão bonito que transferiram par ali o até então Museu Provincial, que durante vinte anos esteve alojado na casa Jóia, construída por Gerard Pott num terreno adjacente ao Jardim Vasco da Gama. E deram-lhe o nome de Álvaro de Castro.

 

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11/11/2012

A AVENIDA AUGUSTO CASTILHO E A RESIDÊNCIA DE POTT EM LOURENÇO MARQUES, INÍCIO DO SÉC. XX

A Avenida Augusto Castilho em Lourenço Marques, início do Século XX. À direita, a sumptuosa residência dO Cônsul Pott, depois Museu Provincial, tribunal e hoje assento do Tribunal Constitucional de Moçambique. No mato a seguir à casa fez-se o Jardim Vasco da Gama (mais tarde Tunduru). Por detrás do mato à esquerda fizeram-se anos mais tarde o Desportivo, a Câmara Municipal e ao fundo da rua do lado esquerdo o Prédio 33 Andares. Reparem que a praia começava onde hoje se situa o Hotel Tivoli.

 

A mesma casa de cima, aqui em meados dos anos 1920, num dos postais clássicos da Colecção Rufino. Nesta altura era o Museu Provincial, que mais tarde foi transferido para o Museu Álvaro de Castro (hoje o Museu de História Natural).

 

19/04/2012

LOURENÇO MARQUES NO INÍCIO DO SÉCULO XX

A pequena cidade de Lourenço Marques, início do Século XX. A mancha verde em frente é o Jardim Vasco da Gama (hoje Tunduru), no meio o palacete de Gerard Pott, o rico holandês que foi corrido de Moçambique durante a guerra anglo-boer e onde hoje assenta o Supremo Tribunal de Moçambique. Antes disso foi o Museu Provincial

10/03/2012

A RESIDÊNCIA DE GERALD POTT, CÔNSUL DA HOLANDA E DO TRANSVAAL EM LOURENÇO MARQUES, 1900

A mansão de Gerald Pott, foi edificada junto do Jardim Vasco da Gama e incluia terrenos que hoje são parte do Jardim (que agora se chama Tunduru). Uns anos depois foi vendido ao Governo Provincial e usado como Museu Provincial, até nos anos 1930 se ter construído o Museu Álvaro de Castro, tendo o seu espólio sido transferido para ali. Serviu de seguida como tribunal, função que ainda mantém hoje.

 

Jardim da mansão de Gerald Pott. Esta parcela tornou-se parte do Jardim Vasco da Gama (Tunduru).

23/02/2012

O JARDIM VASCO DA GAMA, O TRIBUNAL E A BAIXA DE LOURENÇO MARQUES, ANOS 1960

Fotografia restaurada.

 

Vista do Jardim Vasco da Gama, tribunal e baixa de Lourenço Marques, anos 1960.

02/07/2011

VISTA DA BAIXA DE LOURENÇO MARQUES, 1900’S

Foto tirada a partir das Colinas de Maxaquene. Na ponta da esquerda da foto pode-se ver uma parte do Paiol da Cidade, que, para quem conhece, hoje ficaria directamente por cima da piscina dos pequenos do Desportivo. O Paiol foi demolido na altura e as barreiras removidas também. Nos anos 60 foram feitas mais remoções de terra. Em frente pode-se ver o edifício do actual Tribunal Supremo de Moçambique. Que por esta altura ou ainda era a residência de Wilhelm Pott ou o Museu Provincial.

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