THE DELAGOA BAY WORLD

13/05/2020

DISCURSO DE ALFREDO FREIRE DE ANDRADE SOBRE A COLONIZAÇÃO DE LOURENÇO MARQUES, 1897

Freire de Andrade.

Discurso proferido no dia 13 de Março de 1897 por Alfredo Freire de Andrade no Ateneu Comercial do Porto (na qualidade de Sócio Honorário) sob o tema “A Colonisação de Lourenço Marques”. Neste texto, que foi posteriormente passado para um folheto e publicado pelo Ateneu Comercial do Porto, é mantida a grafia da época. O subtítulos são meus.

Alfredo Augusto Freire de Andrade (1859-1929) nasceu em 19 de Dezembro de 1859, na Figueira da Foz. Frequentou, a partir de de 1874, a Escola Politécnica e a Escola do Exército. Cursou ainda a Escola de Minas de Paris, que concluiu, em 1888. Oficial do Exército na arma de Engenharia, integrou o pequeno grupo de oficiais que liderou as chamadas Campanhas de Pacificação em 1895-1897, na sequência dos ataques a Lourenço Marques no final de 1894. Foi governador interino do Distrito de Lourenço Marques, em 1892 e novamente em 1895. Foi Governador Geral de Moçambique entre 1906 e o derrube da Monarquia em Outubro de 1910. Adepto franquista, em seguida aderiu ao Partido Republicano Português  e, entre 1911 e 1913, foi Director Geral das Colónias, após o que foi Ministro dos Negócios Estrangeiros, entre Março e Dezembro de 1914. Faleceu em Lisboa, a 30 de Julho de 1929.

Quando fez o discurso, Freire de Andrade, então com 37 anos de idade, tinha regressado há relativamente pouco de Lourenço Marques, onde desepenhara cargos de relevo.

(Início)

A Colonisação de Lourenço Marques

Excelentíssimo Senhor Presidente, Meus Senhores,

É consultando mais o desejo de corresponder ao honroso convite da illustrada direcção d’este Atheneu do que as minhas forças e competencia, que eu venho hoje dizer aqui algumas palavras ácerca de Lourenço Marques. Outros o fariam com mais auctoridade e sobretudo com mais eloquencia, pois que, pela minha parte, só a boa vontade e bons desejos poderão ser titulos á benevolência de tão distincta assembleia para com as deficiências necessárias da minha exposição.

Pouco direi ácerca da situação, topographia e historia de Lourenço Marques, hoje bem conhecidas, graças aos excellentes trabalhos do visconde de Paiva Manso e do meu camarada Eduardo de Noronha.

De todas as nossas colonias, é Lourenço Marques a unica que apresenta os caracteres de um centro commercial em principio de um grande desenvolvimento, só comparavel ao das cidades da Africa do sul. A affluencia de navios ao porto, a actividade que se vê por toda a parte, as mercadorias amontoando-se nos caes, o movimento e a vida que se revelam ali, são um estimulo grandioso e magnifico que nos deve levar a acompanhar sem demora a corrente de trabalho e de progresso rapido da Africa do sul, sob pena de sermos esbulhados da mais bella joia do nosso dominio colonial.

A cidade de Lourenço Marques acha-se naturalmente dividida em duas partes: a velha ou baixa situada no local onde se estabeleceram as primeiras feitorias, e a nova ou alta, que, projectada sobre a vertente que se desdobra da Ponta Vermelha ao Mahé, se vai a pouco e pouco erguendo, por entre cerrados arvoredos, mostrando-se sob risonho aspecto a quem vem procurar o porto. Entre as duas encontra-se uma depressão larga e extensa, onde se reunem as aguas das chuvas e por vezes as do mar, produzindo um vasto pantano, causa principal da insalubridade da povoação.

Pelo Senhor Conselheiro António Ennes foi mandada ultimamente construir uma estrada de 3,5 kilometros ligando a cidade com a Ponta Vermelha, local bastante salubre, com 45 metros de altitude sobre o nivel do mar d’onde se ergue abruptamente e que está destinado a um largo desenvolvimento, pois que permittirá ao habitante, cansado do labutar diario na cidade commercial propriamente dita, o ir pela tarde respirar lá em cima o ar mais puro do oceano.

Pouco se tem emprehendido até hoje para o saneamento do pantano, aterrado apenas n’uma pequena área e isso mesmo pelas exigencias crescentes do alargamento da parte velha da cidade, que, junto á margem da bahia, será sempre a de maior valor.

Muitas tentativas se têm feito já e as camaras e commissões municipaes têm diligenciado resolver o problema, mas sem resultado, e isto por variadas razões. De entre os projectos estudados, um, do engenheiro Almeida Soeiro, aproveitava para edificações a área aterrada e drenada convenientemente, e outro utilisava o pantano para ahi estabelecer uma especie de porto interior, construindo um canal navegavel na base da vertente em que assenta a cidade nova. Qualquer dos dois projectos deveria ser adoptado sem demora e os trabalhos principiarem desde já, por isso que a extincção do pantano, além de uma necessidade impreterivel, daria tambem margem para uma operação commercial muito rendosa, em que os capitaes empregados obteriam um lucro remunerador. Basta considerar o preço por que poderiam ser vendidos os terrenos utilisaveis depois de concluidos os trabalhos, para avaliar das vantagens da operação; facilmente se obteriam 400:000 metros quadrados de terrenos para aforar ou vender, que teriam decerto comprador por um preço superior a uma libra o metro; o custo do aterro, em qualquer dos casos, não devia exceder metade d’esta quantia para igual superficie.

Adoptando-se o projecto da construcção de um porto interior, o preço das obras augmentaria muito, mas o valor dos terrenos ao longo do canal, iria além do que poderiamos prevêr, tanto mais que, sendo o porto um pouco desabrigado por occasião dos temporaes de sueste, o porto interior seria de grande recurso e portanto muito appetecidos os terrenos que o orlassem.

O interior do Districto de Lourenço Marques divide-se em tres zonas principaes. A dos Libombos, com algumas raras alturas de 600 metros, e formada pela vertente oriental dos montes do mesmo nome, que desce rapidamente até 200 metros de altitude, com arborisação basta e copada em alguns pontos, sobretudo nas margens dos rios, e constituida por porphyros feldspathicos e por uma extensa facha de conglomerados, parallela áquelles e correndo norte sul. A segunda zona é a das areias que, partindo dos conglomerados, vem descendo até á costa maritima, onde os depositos terciarios que a formam, se reunem aos do apparelho littoral; n’esta zona, geralmente secca e pouco povoada, o arvoredo ou é raro ou se concentra em mattas cerradas, de especies ora rachiticas e enfezadas, ora extremamente fortes e robustas, mas cujos troncos torcidos e recurvados parecem significar as difficuldades que oppõem ao seu crescimento aquelles terrenos tão aridos. Finalmente, a terceira zona ou zona argillosa é a constituida pelos depositos que os rios espalham largamente na occasião das cheias e ainda pelas argillas que arrastadas pelas chuvas, se vão depôr nas baixas da zona arenosa, constituindo assim os fundos impermeaveis de outras tantas lagoas, por vezes de muitos kilometros de extensão, que em grande numero se encontram principalmente para o sul do rio Incomati. A zona argillosa é a zona fertil, mas é tambem a zona pantanosa e insalubre por excellencia; o arvoredo é sempre forte e robusto, e as especies numerosas, dando por vezes madeiras de excellente qualidade, se bem que pouco aproveitaveis industrialmente.

Recortando todos estes terrenos, vêem-se rios importantes, taes como o Maputo, o Incomati e o Limpopo, que, trazendo as suas aguas do Transvaal, se apresentam caudalosos, dando navegação, senão facil, pelo menos possivel: o Incomati em quasi todo o seu curso no nosso territorio e o Limpopo até ao rio dos Elephantes, e talvez ainda mais acima. Se, porém, estes rios são faceis meios de transporte, são tambem elles, que, alargando-se sobre milhares de kilometros quadrados, por occasião das chuvas, deixam quando voltam aos seus leitos normaes, innumeros charcos e brejos, que contribuem para a insalubridade das regiões que atravessam.

Tendo assim resumido de um modo geral o que para o nosso ponto de vista especial mais importa conhecer das condições naturaes do districto, vejamos qual o systema de colonisação que se deverá adoptar em Lourenço Marques. Facilmente se comprehende que da escolha do processo a seguir depende o exito da colonisação, e que não poucos desastres têm tido como origem o querer-se implantar uma colonia em desharmonia com as condições dos territorios que têm de a receber.

Leroy Beaulieu classifica as colonias em tres typos principaes:

a) Colonias de população ou agricolas.—São aquellas em que, como na Australia e no Brazil, o europeu vai encontrar um clima pouco differente do que tem no seu paiz e póde constituir familia, formando nucleos de população, que, ajudados pela affluencia constante de novos colonos, terminam por povoar completamente a colonia. Se a metropole não póde fornecer o contingente necessario em cada anno, é natural que outros paizes d’isso se encarreguem, chegando n’esse caso a mudar por completo a feição da colonia, que se desnacionalisa; é o que succedeu com a Nova Amsterdam e a Nova Suecia, e poderá talvez dar-se um dia n’uma parte do Brazil.

b) Colonias commerciaes.—Chamam-se assim as que pela sua situação sobre grandes caminhos de commercio, dispondo de um porto de facil accesso, d’elles se utilisam para servirem como entrepostos ou emporios n’uma nova região e introduzir n’ella, principalmente, os productos da metropole. Estas colonias, taes como Hong-Kong, Singapura, etc., são necessariamente cosmopolitas e se não necessitam uma grande colonisação de homens, precisam em compensação de muita industria, muito tino e muita energia, e por consequencia de uma emigração escolhida, acompanhada de um grande affluxo de capitaes.

c) Finalmente, as colonias de exploração são as que, pela sua situação e clima especiaes, podem fornecer generos de largo consumo e preços remuneradores, que ali se produzam com facilidade e a cuja cultura em especial se destinem. Reclamam estas colonias muitos capitaes, e um regimen especial de trabalho, por isso que, não podendo ahi o branco trabalhar a terra, terá necessariamente de recorrer ao trabalho indigena ou de raças adaptaveis ao clima. Taes são, entre outras, as Antilhas, as Filippinas e entre nós a colonia tão largamente desenvolvida de S. Thomé, tão genuinamente portugueza apesar de serem relativamente poucos os colonos saídos da metropole.

O Distrito de Lourenço Marques

Dependendo o futuro de uma colonia do systema adoptado na sua colonisação, vejamos em qual d’estes typos se deve filiar Lourenço Marques.

Poderá ser uma colonia de população? Esta idéa, que tem tido larga corrente entre nós, a ponto de se querer fazer derivar para a provincia de Moçambique, e em especial para Lourenço Marques, uma parte da emigração que hoje se dirige ainda para o Brazil, deve, creio eu, ser completamente posta de parte. Centos de colonos têm desembarcado em Lourenço Marques, mais de mil nos ultimos annos, e quasi sem excepção, o seu destino invariavel tem sido o regressarem ao reino, mais doentes e pobres do que foram, com avultado dispendio do governo, ou a morte n’um periodo relativamente curto. Diz-se, e é certo, que a colonia não está preparada para os receber, mas não é menos certo que se lhes houvessem sido fornecidos terrenos para cultivar, alfaias agricolas, etc., o seu destino teria sido o mesmo.

Clima, Tuberculose e Paludismo

E senão vejamos. O clima de Lourenço Marques, se não é absolutamente mau, podendo-se facilmente ali viver com uma alimentação regular e uns certos cuidados que só um relativo cabedal e instrucção podem dar, não é tambem bom.

A temperatura média, quer de verão quer de inverno, não é exaggerada, mas as differenças de temperatura, muito rapidas por vezes e que chegam a attingir 18°c. no mesmo dia, são extremamente prejudiciaes, sobretudo nas doenças dos orgãos respiratorios.

Na cidade, depois da época das chuvas, de fevereiro a maio, as emanações trazidas pelos ventos reinantes, que durante o anno passam de Norte a Oeste rondando por Leste, são extremamente perniciosas, por isso que provêm dos muitos pantanos que rodeiam a povoação e ainda dos que orlam as margens da Catembe. A falta de esgotos, a accumulação de individuos de raças inferiores e o pantano do Infuléne, são ainda causas locaes, ás quaes se póde dar remedio, é certo, mas que ainda hoje existem, se bem que attenuadas.

Para aggravar este estado de coisas, as chuvas são por vezes torrenciaes, a ponto de em dez dias, como succedeu em 1895, se precipitar sobre o sólo uma camada de 40 centimetros de agua, o que concorre para a formação de novos charcos em pontos onde até então não tinham existido.

Se da cidade passamos ao interior do districto, as circumstancias, sobretudo nos terrenos mais ferteis, aggravam-se, e a quadra que se segue á época das chuvas é em geral perigosa, do que se faz facilmente idéa pela affluencia aos hospitaes.

Em 1893, uma estatistica da população de Lourenço Marques, certamente inferior á verdade, dava uma totalidade de 1:017 habitantes, europeus e asiaticos; a mortalidade no primeiro semestre d’esse anno foi de oitenta e oito individuos, entre europeus e asiaticos: da totalidade dos obitos 40 por cento proximamente foram devidos a febres de mau caracter e 8 por cento a tuberculose.

Dos soldados que fizeram parte da expedição de 1895, raros foram os que não soffreram das febres, e se os officiaes não foram tão castigados por ellas, decerto se deve esse facto a serem em geral mais velhos do que aquelles, comprovando-se assim mais uma vez a conveniencia de não seguirem para as colonias individuos de idade inferior a vinte e cinco annos.

Estes exemplos bastam para comprovar que, se em Lourenço Marques se póde viver em melhores condições talvez do que em muitos pontos insalubres da Europa, nem por isso deixam, quer a cidade, quer o districto, de constituir uma região pouco salubre, onde a vida deve ser rodeada de certos cuidados, que não podem conseguir colonos pobres, sem recursos, a quem as regras da hygiene são desconhecidas, e que algumas vezes já partem da metropole anemiados pela miseria ou pelo vicio.

Estes, com poucas excepções, nada têm feito em Lourenço Marques, emquanto que é frequente vêr individuos permanecer dez, quinze e mais annos na cidade, sem grave damno, porque souberam e puderam manter as necessarias cautelas; tanto mais que as condições hygienicas da cidade vão progressiva, se bem que lentamente, melhorando.

Para constituir uma colonia de população é necessario poder crear familia; ora em Lourenço Marques as creanças não medram, e só por excepção se poderão vêr ali filhos de colonos europeus, nascidos e creados no districto. Não os conheço e as poucas creanças que se encontram, essas vivem custosa e difficilmente; é por isso que não posso sem pezar, vêl-as partir para Lourenço Marques inconscientemente levadas pelas familias, sem que os paes imaginem qual o fim quasi inevitavel que as espera.

É a agricultura o principal recurso das colonias de população e isso mesmo se tem supposto em varios projectos de colonisação propostos para Lourenço Marques; é, porém, um facto averiguado que o branco, o europeu, não póde trabalhar ali a terra ou cultival-a elle proprio, sem grave risco de vida; bem o demonstrou a grande mortalidade que houve durante a construcção do caminho de ferro do Transvaal e ainda ultimamente alguns factos passados em 1895 vieram corroborar a opinião que já tinha a este respeito. Em Magude, n’um local secco, a 30 metros acima do rio e em terrenos de rocha e areia, foi necessario, por falta de cafres, que a guarnição do posto que ali se estabeleceu, removesse a areia para construir trincheiras, e este facto deu causa a uma excessiva mortalidade; em Xinavane, n’um terreno pantanoso, coberto pelas aguas na occasião das cheias, os soldados foram prohibidos de cavar, e não houve senão um obito e esse mesmo de uma praça vinda de Magude. Em Taninga, onde se fizeram importantes remoções de terras, as febres atacaram com tal força a guarnição, que foi necessario retiral-a. Não póde, pois, o branco trabalhar a terra e luctará com tanto maiores difficuldades, quanto mais se aproximar da zona baixa e argillosa do districto, onde justamente se encontram os terrenos mais ferteis e mais povoados pelos cafres.

Não se póde, pois, em Lourenço Marques, constituir familia, cultivar a terra, e difficilmente se resiste por muitos annos, sem vir refrescar á Europa, á influencia deleteria do clima. Como se poderá pensar, em taes condições, em fazer d’aquelle districto uma colonia de população?

E, com effeito, todas as tentativas n’esse sentido têm dado mau resultado.

Dizem uns que este facto é devido a serem os colonos lançados em Lourenço Marques, sem que o districto esteja preparado para os receber. Mas póde o governo dar-lhes os capitaes, a immunidade ao clima e as qualidades de que o colono careceria de ser dotado em Lourenço Marques? Decerto não.

Negócio dos Terrenos

Dizem outros que o mallogro se deve attribuir á carestia dos terrenos do Estado, que se manteve durante alguns annos. Mas de muitos mil hectares de terrenos concedidos a particulares, poucos ou nenhuns foram aproveitados, e quem d’elles tirou melhor proveito foram os que, sem maiores cuidados, pediram e obtiveram concessões, esperando em seguida que o progressivo augmento da cidade os valorisasse, para auferirem grossos lucros, como succedeu com a Polana, que, concedida por centos de mil reis a um inglez, foi vendida por centos de contos, e ainda com a Catembe, onde até á linha de costa, contra expressa determinação da lei, se fizeram concessões a individuos que com isso lucraram mais tarde muitos milhares de libras sem o menor trabalho. Tal foi durante muito tempo o resultado das concessões baratas, sem se cultivar um só dos milhares de hectares concedidos.

A meu vêr nenhuma d’estas razões colhe. Lourenço Marques não tem progredido como colonia de população, porque não está em condições de o poder ser.

A Baía e a África do Sul

Se passamos a considerar Lourenço Marques debaixo do ponto de vista commercial, as negras côres sob que acabamos de descrevel-o como colonia agricola, mudam por completo, para nos mostrarem aquella região como destinada a ser o emporio da Africa do Sul, a colonia commercial por excellencia, cuja importancia e valor se nos torna bem manifesta pelas multiplas cobiças que, felizmente para o nosso dominio, tem despertado.

E digo felizmente, porque a ellas se deve o conservarmos ainda nas nossas mãos aquelle esplendido porto, unico na costa oriental, em toda a extensão que vai desde o Cabo até Moçambique. A sua posse, porém, impõe-nos obrigações que o rapido progresso da civilisação do sul africano exige e ás quaes temos de satisfazer, sob pena de sermos em breve eliminados por não correspondermos á alta missão que nos incumbe.

Situada sobre o caminho commercial que conduz ao interior do Transvaal, na sua região mais rica, servida com facilidade pelas vias fluviaes de que dispõe o interior do districto e parte do territorio inglez do centro d’Africa, Lourenço Marques vai-se desenvolvendo de modo tal, que de um anno para o outro se transforma e amplia. As vantagens do porto impõem-se de tal fórma, que as mercadorias affluem em quantidade, todos os dias crescente, não obstante o pouco cuidado com que temos olhado para os seus melhoramentos materiaes, e tambem a guerra de toda a especie, que lhe tem sido movida pelos seus concorrentes naturaes.

Com effeito, as colonias sul africanas não podem vêr com bons olhos o desenvolvimento de Lourenço Marques e por isso vem de longe as difficuldades de toda a ordem que lhe têm levantado. Ha annos, jornaes, livros e publicações de toda a especie, declaravam ao mundo que a insalubridade da povoação era tal, que passar ali, equivalia a uma condemnação á morte; mas a população ia crescendo, em condições mais favoraveis do que em muitas colonias inglezas. Mais tarde quizeram inutilisar o nosso caminho de ferro, graças a uma completa liberdade de tarifas, que menos reflectidamente lhes tinhamos concedido; pudémos evitar esse mal, mas á custa da indemnisação que nos imporá o tribunal de Berna. Mais tarde ainda, procuraram fazer-nos passar por incapazes de manter a soberania portugueza no districto, levantando-nos toda a casta de difficuldades por intermedio dos regulos indigenas.

E muitos outros factos poderia citar, em que a má fé terminou sempre por se manifestar, de modo que hoje a supremacia de Lourenço Marques, como o primeiro porto da Africa oriental do sul está firmemente estabelecida.

A população de Lourenço Marques, que em 1864 era de 83 individuos, elevou-se em 1893 a 1:017 e hoje não é inferior a 4:000, homens e mulheres, europeus ou indianos.

O rendimento da alfandega, que em 1868 era de 3 contos de reis e em 1880 de 47 contos, foi em 1896 de 600 contos.

O numero de navios entrados no porto, que ha vinte annos era insignificante, foi durante 1892 de 228, em 1893 de 252, em 1894 de 265, em 1895 de 363 e em 1896 de 433, dos quaes 287 inglezes. No mez de janeiro ultimo ancoraram no porto 52 navios.

Pela sua parte o caminho de ferro attingiu o limite de trafego que o seu material comporta, e desde que o porto se encontre em boas condições, a affluencia de mercadorias obrigará decerto a dobrar a linha. Actualmente a média do movimento semanal é de 3 a 5 mil toneladas.

Mas nada dá idéa mais perfeita da avidez com que os estrangeiros procuram Lourenço Marques do que o extraordinario augmento de valor dos terrenos e das edificações, que tem decuplicado e por vezes centuplicado.

Apparecem ali representantes de syndicatos que compram tudo que lhes queiram vender quer sejam terrenos quer predios e ainda quarteirões inteiros, de preferencia na parte velha da cidade, havendo exemplos de se vender o metro quadrado de terreno por 10 libras, isto é, pelo dobro do preço maximo dos terrenos na Avenida da Liberdade, em Lisboa.

Todo este movimento e ainda as transacções que cada dia se fazem na colonia, representam muitos centos de milhares de libras sterlinas, mas o augmento da riqueza publica em muito pouco aproveita á metropole, que não só d’ali não tira proveitos directamente, o que aliás não era de esperar, mas ainda mesmo poucos aufere do commercio e da industria que os seus nacionaes ali exercem. Pelo contrario, não creio exaggerado suppôr que nos ultimos vinte annos, Portugal tem mandado para ali mais de 10:000 contos de reis.

Para conseguir tirar de Lourenço Marques todas as vantagens que nos é licito esperar, muito resta ainda fazer, não só ao governo mas principalmente á iniciativa particular.

Ao governo compete, é certo, tratar dos melhoramentos do porto, para os quaes se succedem uns aos outros os projectos e os estudos, adoptar providencias para melhorar a hygiene da cidade, escolher funccionarios idoneos para a administração do districto, mais importante decerto do que a da provincia inteira, e conserval-os não os substituindo de seis em seis mezes; e, finalmente, preferir sempre os nacionaes para quaesquer concessões que haja de fazer.

Este ultimo ponto, porém, já implica muito com a iniciativa particular, pois o governo tem, naturalmente, para melhorar as condições da cidade e seu porto, de entregar a execução dos melhoramentos necessarios a emprezas que d’elles se encarreguem mediante certas concessões.

Seria, pois, indispensavel que os capitaes portuguezes se não retrahissem tanto e confiassem mais nos lucros extraordinarios, por vezes fabulosos, que podem auferir em Lourenço Marques.

Infelizmente, porém, a iniciativa e os capitaes portuguezes pouco affluem á colonia, e se se encontram algumas poucas firmas portuguezas, como Cardoso, Fornazini, Baptista Carvalho, Nogueira Pinto, etc., que ali luctam pela vida, mantendo o commercio portuguez e a sua feição especial, em compensação abundam os estrangeiros, Mac Intosh, Gubler, Auerbach, Donaldson, Hoffman, Idulgy, e tantas outras, que principalmente açambarcam o commercio, possuem as melhores propriedades e dominam na praça.

Não vemos frequentemente homens energicos, de iniciativa, representando ou possuindo capitaes, partir para Lourenço Marques, a tentar novas industrias e fundar novos centros de nacionalisação, com o que muito ganham os estrangeiros, de modo que dos milhares de libras que representam o commercio da cidade, só uma pequena parte aproveita á metropole; o resto ou é absorvido pelo commercio estrangeiro europeu ou vai para a India.

Os Indianos

O commercio indiano tem um feitio especial; em lojas, quasi sempre de mesquinha apparencia, vêem-se alguns individuos, embrulhados em algodão branco, fallando a lingua cafreal, o portuguez e o inglez, vendendo em geral de tudo, desde a lata de conserva até aos productos cafreaes. D’estas lojas saem agentes do mesmo jaez que, espalhando-se pelo interior, vivendo como os indigenas cujas manias lisongeiam, e protegidos pelos regulos a quem fazem presentes, monopolisam por completo o commercio do interior. D’esta fórma as lojas dos indios e mouros são os centros d’onde irradiam centos de braços, que vão recolher no interior os milhares de libras que os cafres trazem annualmente do Transvaal e Natal, libras que são immediatamente mandadas para fóra do districto.

Estes homens, sustentando-se de arroz e pouco mais, vestindo-se com uma tira de algodão, tudo oriundo da India, nada consomem da metropole e fazem uma concorrencia ao europeu, que precisa vestir-se, alimentar-se e cuidar de si. Recolhido o seu peculio, voltam para a India, onde o vão gozar depois de purificados, purificação essa que os lava do contacto com infieis e tambem de todas as traficancias que tenham podido commetter.

Muitos d’estes indios são inglezes, o que mais aggrava a situação, pois que se encontram sempre apoiados pelo seu governo, para pretendidas indemnisações a que se podem julgar com direito por perdas soffridas no interior. E não se imagine que, ainda quando portuguezes, auxiliem o nosso dominio; quando durante a guerra de 1895, as tropas chegavam aos locaes onde os indios estavam estabelecidos, estes fugiam… com os cafres: um indio na Manhissa aconselhava os pretos a não receberem a prata portugueza, «que não era boa», e com effeito vendia carissimo quando elles lhe pagavam n’essa moeda.

É certo que algumas vezes prestaram, por interesse proprio, serviços ao governo, mas esse facto deu-se principalmente quando em Lourenço Marques quasi não havia colonos portuguezes. Hoje são um obstaculo, porque é difficil fazer-lhes concorrencia, e bom era que um imposto pesado os collocasse em circumstancias analogas aos europeus, pois que d’outro modo o commercio do interior continuará nas mãos d’elles e o ouro que vem do Transvaal continuará a seguir para a India.

A Moeda

Demais, a moeda portugueza usada em Lourenço Marques favorece a emigração do ouro: consiste ella em moeda de prata e notas da fazenda ou do Banco Ultramarino, com que se fazem os pagamentos ao governo, emquanto que a moeda ordinariamente usada nas transacções commerciaes é a libra sterlina. Ora, quando um paiz tem duas moedas, uma boa, o ouro, e outra má, a boa emigra e a outra fica.

Creio seria facil acabar com este inconveniente, determinando-se que todos os pagamentos fossem feitos em ouro, como o fez a Companhia de Moçambique, com bom resultado nos seus territorios, admittindo-se a prata só como moeda subsidiaria. Não haveria embaraços, como os não houve na Beira, e tambem não se alterava, para com o resto da provincia, o actual estado de coisas, por isso que a rupia que n’ella corre não é aceita em Lourenço Marques e até o Banco Ultramarino tem dois typos de notas, um para Lourenço Marques e outro para os demais districtos.

Por este meio havia tambem a vantagem de evitar as fraudes; como se poderá impedir que um individuo, que receba em ouro as receitas da fazenda, computando a libra em 4$500 reis, as entregue mais tarde em prata? Será isto uma falta? Moralmente sim, mas legalmente creio que não, ainda que a falta se podesse provar.

O typo de moeda ouro favoreceria certamente o commercio nacional e faria entrar em Portugal muitos milhares de libras; as receitas do districto são hoje superiores a 1:000 contos de reis e, recebidas que fossem em ouro, seria n’esta moeda que o governo pagaria aos seus funccionarios, principaes consumidores dos productos da metropole e tambem aos seus fornecedores, que devem ser, tanto quanto possivel, nacionaes.

A transferencia de capitaes para a metropole seria tambem facilitada: ha já hoje bancos estrangeiros em Lourenço Marques que a podem fazer em boas condições, pois que o Banco Ultramarino não tem prestado á provincia de Moçambique e sobretudo ao districto os serviços que d’elle era licito esperar; em 1892, chegou este banco a levar pela transferencia de dinheiro da metropole e pagando lá em notas suas, a insignificante percentagem de 30%.

Mas tudo o que se possa fazer em favor de Lourenço Marques de pouco valerá, se a iniciativa particular, o nosso commercio, a nossa industria e os nossos capitaes não forcejarem por tirar aos estrangeiros o predominio que até hoje têm tido na colonia, e por desapossal-os do monopolio do commercio, que tem como consequencia necessaria a drenagem do ouro sem que a metropole pouco ou nada aproveite da riqueza da sua colonia, de dia para dia crescente.

Não lhe enviemos, pois, colonos pobres que lá vão morrer, mas consagremos-lhe energias sãs, vontades firmes e capitaes abundantes. Raras vezes uma colonia póde dar um rendimento liquido á mãe patria; mas o que lhe dá e deve dar é um mercado para o consumo dos seus generos, e um lucrativo campo de emprego para os seus capitaes, de modo a compensar as despezas que por ella são feitas. E isto não se consegue só com medidas administrativas, mas sim com a boa vontade e a intelligencia commerciaes, que, luctando com a concorrencia estrangeira, evitem que só a esta venham a caber os fructos de tantos sacrificios, que não poucos, de homens e dinheiro, temos feito em Lourenço Marques.

Precisamos hoje, na colonia, de agentes commerciaes, representantes das nossas mais acreditadas casas da metropole, que, reunindo-se em sociedade, facilmente os poderiam para ali mandar; de empregados subalternos, que, aprendendo a lingua do paiz, vão ao interior recolher os centos de mil libras, que para ali levam os indigenas.

Os Magaíças

No Transvaal, só em Johannesburg, trabalham hoje mais de 45:000 cafres, um verdadeiro exercito, que as exigencias da exploração do ouro, sempre crescentes, dentro em poucos annos terão quadruplicado. De entre esses cafres, uma grande parte provém da nossa colonia, e por isso o impedir a emigração equivaleria a causar uma revolução economica no Rand; ora os cafres vão trabalhar para conseguir dinheiro para a compra de mulheres, armas e emfim dos objectos de que imaginam carecer, e voltam ás suas terras com sommas por vezes avultadas.

Não creio exaggerar, calculando em 15:000 cafres os que emigram em cada anno, e, suppondo que voltem com 20 libras cada um, corresponderia isso a uma entrada annual de 300:000 libras, que deveria ser aproveitada exclusivamente pelo commercio da metropole. Os algarismos citados estão decerto abaixo da verdade e mostram á evidencia a vantagem de não crear embaraços á emigração, tanto mais que não ha em Lourenço Marques industrias nossas que careçam de braços.

O Silva Maneta

Para aproveitar do commercio do interior não nos seria difficil encontrar portuguezes, habituados ao sertão, que podessem competir com os indios: alguns temos já hoje, que têm conquistado o respeito dos cafres e entre elles um conheci, cujo nome bem merece do paiz, um antigo soldado do corpo policial de Lourenço Marques, o Silva Maneta, cuja dedicação pela patria e coragem excepcional, que o levava a arrojar-se loucamente aos mais arriscados lances, tantos serviços prestou durante a campanha de 1895; e que me seja licito aqui, prestar a esse portuguez de lei, o tributo da minha admiração pelas brilhantes qualidades, que nunca se buscam debalde nos mais obscuros filhos da nossa pobre, mas gloriosa patria.

Voltando, porém, ao assumpto, de que me fez desviar a recordação de um verdadeiro heroe, n’esta cidade onde os feitos heroicos brilham em cada pagina da sua historia, direi ainda que mesmo entre os cafres educados na nossa escóla, poderiamos encontrar auxiliares, por isso que o cafre quando se chega a convencer de que é portuguez e branco, é mais cioso ainda do que este, das suas prerogativas, e até respeitado pelos outros pretos como se branco realmente fôra. E não ha decerto espectaculo mais comico do que vêr um grupo de negros tratar de «senhor» e de «branco» um outro cafre tão negro como elles, só porque traja e falla como os europeus.

Pelo que respeita ao commercio com o Transvaal, facilita-o a proximidade em que d’elle estamos, a sympathia que lhe merecemos, que maior seria se mais trabalhassemos, e ainda os tratados que a elle nos ligam.

O Comércio

Mas como condição essencial, necessario se torna que as nossas marcas sejam sempre as mesmas e que não succeda que, desde que um producto se acredita á custa de muito trabalho, os menos escrupulosos façam perder uma vantagem, que difficilmente se poderá recuperar. Não insisto, apesar de poder apresentar muitos exemplos, n’este facto, cuja importancia todos podem avaliar.

Muitos e variados são os productos com cujo commercio lucrariamos, quer no districto, quer no Transvaal, e de entre esses apenas me referirei aos que julgo de maior importancia.

Na cidade, temos o consumo proprio, que é o de uma cidade rica, e que deve ser exclusivamente fornecido pela metropole, ainda que á sombra de bem entendidos direitos de entrada, não tão exaggerados, que sejam apenas um incentivo ao contrabando.

No interior do districto, facil seria abrir mercado para os nossos vinhos brancos, convenientemente addicionados de aguardente, que vão sendo preferidos ao alcool, não só porque realmente os cafres os apreciam mais, mas ainda porque julgam que se aproximam do branco, bebendo-os; os missionarios suissos, no districto, têm conseguido que grande numero de cafres deixem de embriagar-se com a aguardente, aconselhando-os a beber só vinho, que elles consomem conscienciosamente. Tambem apreciam muito o vermouth, ou uma mistura que em garrafas lhes é vendida como tal. Aproveitando estas tendencias, certamente abririamos um mercado bastante largo para os nossos vinhos, e praticariamos ao mesmo tempo uma obra meritoria prohibindo a importação do alcool industrial em Lourenço Marques e a sua venda aos indigenas.

Mas muitos outros generos se poderiam consumir no interior, além dos vinhos.

A polvora e as armas brancas, facas, machados, zagaias, etc., dariam lucros bastante remuneradores, sendo fabricados segundo os typos preferidos.

Os tecidos, quer de algodão, quer de lã, pannos e cobertores, podem ser enviados da metropole e vendidos com lucro, não só porque obtêm preços altos, mas ainda porque muito os poderia proteger a differença de cambio e um bem entendido direito protector, não difficil de fiscalisar. Os typos de algodões e cobertores preferidos deviam ser mandados pelos governos do districto aos centros industriaes do paiz, afim de serem reproduzidos. Os algodões azues ou de fundo azul com desenhos brancos são muito apreciados; em 1893 trouxe varios typos de cobertores, que foram reproduzidos n’uma fabrica de Lisboa empregando-se lã de inferior qualidade, e sendo o seu preço de custo de 600 a 900 reis: taes cobertores tinham então em Lourenço Marques um preço de 4 a 6 shillings, o que dava margem para um commercio lucrativo.

Vendem os indianos aos cafres milhares de camisolas de malha, de fatos completos, capotes, chapéos, fardamentos velhos, tudo de fabrico inglez ou allemão; e tudo poderia ser enviado de Portugal, dando margem a lucros importantes.

Para o Transvaal, o nosso principal ramo de exportação não poderá deixar de ser o vinho; a este e como annexo, poder-se-iam juntar as conservas, sobretudo de peixe, quando bem fabricadas e conservando as marcas.

Apesar de ser um assumpto de que pouco conheço, não creio que para nos abrir o mercado do Transvaal baste a iniciativa do governo, que, quando muito, poderá apenas fornecer, por meio dos agentes consulares, as indicações geraes dos mercados aos viticultores nacionaes e os dados estatisticos sobre que se possam basear.

A meu vêr, os commissarios e exposições poucos resultados podem dar e a experiencia bem o tem mostrado. Vão effectivamente os vinhos, faz-se uma propaganda official, os individuos que os bebem acham-nos geralmente bons e… mandam comprar os vinhos que estão habituados a beber. Não julgo facil, n’um paiz como o Transvaal, habitado por uma população ingleza em parte, introduzir de repente typos de vinhos differentes dos vinhos do Cabo, que são os que mais frequentemente se encontram por toda a parte.

O meio a seguir, parece-me, deveria ser procurar, por meio dos nossos variadissimos typos, imitar, pelo menos nos primeiros tempos, os vinhos de maior consumo no Transvaal, preparando-os. Um commissario, enviado de Bordeus para estudar o alargamento do mercado de vinhos na republica sul africana, foi d’esta opinião, no relatorio que apresentou no seu regresso a França, e isto tratando-se dos vinhos de Bordeus que tão largo nome têm. Este modo de proceder tem já sido empregado para a fabricação de certas marcas especiaes de Champagne barato, de largo consumo no sul da Africa; não foram os francezes procurar convencer os sul africanos de que o Champagne, que é preferido n’aquella região, não é bom e verdadeiro Champagne, mas fabricam-lh’o segundo o seu gosto.

Além do Champagne, o Xerez, o Vermouth e muitos outros vinhos são largamente consumidos no Transvaal, e muitos d’estes não vêm de França, Hespanha ou Italia, mas dos paizes onde com igual facilidade se fabrica o Porto ou Madeira que nunca sahiram de Portugal.

Fazer despezas importantes para que os nossos typos de vinhos sejam preferidos, é, creio, empreza pouco realisavel e muito dispendiosa, mas sobretudo inutil, porque se o chegassemos a conseguir, logo os nossos vinhos seriam imitados por quem tivesse interesse em o fazer.

Assim, procurar conseguir vinhos semelhantes aos do consumo no paiz, dar-lhes boa apparencia e envasilhal-o de um modo agradavel á vista, parece-me ser o meio de alargar o consumo dos nossos productos entre a população sul africana; agentes commerciaes, trabalhando por interesse proprio, collocal-os-iam com facilidade.

Claro está que isto só diria respeito aos vinhos de pasto; os nossos vinhos generosos têm uma reputação universal e não conviria mudar-lhe os typos, bastando apenas que os agentes consulares perseguissem os contrafactores, que os ha e não poucos, até em Africa.

Além dos vinhos, as conservas poderão ter tambem consumo facil desde que vão melhor e mais artisticamente acondicionadas. É frequente em Africa, receber conservas de fructas portuguezas perfeitamente em papas, contrastando com o bello aspecto das fructas da California.

Ainda outros generos poderiam ser introduzidos quer na nossa colonia quer na Africa do sul, de que o nosso commercio poderia tirar largos lucros.

Mas, além do commercio, os capitaes portuguezes teriam tambem muitos meios de se empregar com vantagem, aproveitando os interesses que os capitaes estrangeiros vão auferir em Lourenço Marques.

A industria da pesca, que tantos resultados tem dado em Angola, e melhores daria se fosse bem dirigida, facilmente se poderia crear na bahia, abundante, bem como a costa do districto, em peixes de variadas especies. A sua exploração, combinada com a da fabricação do gelo, teria no Transvaal um largo campo de consumo, e se não se tem installado regularmente até hoje, é porque todos se têm preoccupado em obter o monopolio da pesca, que o governo não póde nem deve dar.

O Aterro do Pântano e o Cais

O saneamento do pantano, attribuindo a terrenos agora inutilisaveis uma grande facilidade de applicação, daria tambem lucros fabulosos, attendendo ao elevadissimo preço por que se estão hoje vendendo.

O aterro e aproveitamento de uma área comprehendida entre a costa e um muro-caes a estabelecer entre a ponte da alfandega e a Ponta Vermelha, daria perto de 20 hectares de terrenos, pouco insalubres, de um valor incalculavel, e de uma grande vantagem para o alargamento do porto e edificios do Estado, taes como a alfandega, capitania, etc. Esta concessão já foi pedida por estrangeiros e seria decerto um perigo se cahisse nas suas mãos, pois que, pelas concessões feitas, o governo não possue hoje na bahia uma extensão apreciavel de costa, a não ser aquella.

A construcção de uma ponte-caes para mercadorias em transito no rio do Espirito Santo, obra indicada por um dos homens de mais larga intelligencia, vastos conhecimentos e seguro golpe de vista, que nos ultimos tempos tem dirigido os destinos de Moçambique, o snr. conselheiro Antonio Ennes, daria além de grandes juros ao capital para ella necessario (300 contos aproximadamente) uma grande facilidade ao movimento do porto, por isso que ella seria acostavel em qualquer estado do tempo.

As construcções urbanas têm dado nos ultimos annos rendimentos avultados, não inferiores a 30 por cento. Ha pouco, era vulgar uma casa de custo não superior a 300 libras, ser alugada por 7 libras mensaes; e comquanto hoje este estado de coisas tenha mudado um tanto, é certo que os capitaes empregados em edificações rendem pelo menos 15 por cento.

E citarei apenas de passagem, para não alongar demasiadamente a exposição, as industrias ceramicas, a fabricação da cal e cimento, hoje produzidos já no Natal e que facilmente se installariam na Inhaca, as de docas de reparação, a de fabricação e reparação de lanchas e escaleres, etc., etc.

Creio que hoje não restará duvida que Lourenço Marques é e será uma colonia commercial e que o seu progresso e permanencia no dominio portuguez depende principalmente do commercio e industria nacionaes, aos quaes devemos subordinar tudo o mais. Quando os capitaes empregados em Lourenço Marques forem só inglezes, inglezas as casas commerciaes, ingleza toda a área em que assenta a cidade, o que equivale a dizer estrangeiro tudo, com que direito, com que razão nos poderemos ali conservar, verdadeiros parasitas, aproveitando sómente o trabalho alheio? Os direitos historicos, bem o sabemos, não bastam em Africa, e o nosso proprio decoro não nos permittiria que nos mostrassemos degenerados descendentes dos antigos moradores portuguezes.

Tipologia do Colono Ideal

Precisam, pois, affluir a Lourenço Marques, como já disse, não colonos pobres e anemicos ou velhos e creanças, como tem já succedido, para apenas concorrerem para o alargamento do cemiterio; mas sim individuos sãos de corpo e de espirito, representando o commercio e a industria da metropole, activos e emprehendedores, acompanhados por capitaes nacionaes, que vão recolher os largos juros que hoje são premio de capitaes estrangeiros.

O desenvolvimento do commercio e da industria trarão como consequencia a emigração especial de que estes precisam, por isso que carecem de edificações, obras de toda a especie, lanchas, vapores, carros, etc., que representam outras tantas necessidades, cuja satisfação póde dar vasto emprego a um grande numero de homens, engenheiros, operarios, marinheiros, pescadores, etc., que deverão ser tão bons como os melhores da metropole, d’onde deverão ir, para resistirem á influencia do meio. Já hoje um bom operario ganha em Lourenço Marques um salario avultado, não sendo raros os que no fim de certo periodo alcançam uma pequena fortuna; em compensação os maus operarios difficilmente alcançam meios de subsistencia.

Mas, se tudo isto é a consequencia necessaria do desenvolvimento da colonia, mais necessario se torna que ella se não desnacionalise, e que a lingua portugueza seja a que predomine, porque de outro modo os estrangeiros preferirão sempre os operarios seus compatriotas. E a desnacionalisação, só o augmento de relações commerciaes com a metropole e o affluxo de capitaes portuguezes poderão evital-a.

Ligações com a Metrópole

A uma outra necessidade tambem a industria particular deveria attender, ajudada pela protecção do governo; mal se comprehende que uma colonia commercial por excellencia, como é Lourenço Marques, possa estreitar as suas relações com a metropole, sem que haja navegação sob a bandeira nacional. Uma tentativa se fez, a da Mala Real, mas essa tristes resultados deu, não porque a empreza não tivesse em si largos elementos de exito, mas pela menos conveniente administração que teve, aggravada por exigencias por vezes injustas das auctoridades em Africa, que faziam demorar os vapores a seu talante, auctorisando-se para isso da irregularidade das carreiras.

Dos vapores da Mala não se sabia nunca, nem o dia da partida, nem o da chegada, e passageiros houve que levaram quasi tres mezes de Lisboa a Lourenço Marques, isto não obstante os vapores serem de primeira ordem e commandados por officiaes competentissimos.

Assim, resumindo, o futuro de Lourenço Marques está, a meu vêr, dependente da nossa iniciativa commercial e industrial. O seu desenvolvimento abre um largo campo de acção ás classes liberaes e ao operariado escolhido da metropole, que encontrarão n’um paiz de lingua, costumes e leis analogas ás da metropole, vantagens não inferiores ás que apontei para o commercio metropolitano.

Como Colónia de Exploração

Resta-me ainda dizer algumas palavras de Lourenço Marques como colonia de exploração, e debaixo d’este ponto de vista creio que, se o districto tem elementos de riqueza e futuro desenvolvimento, estão elles longe dos que se notam em Inhambane, Quilimane e outros districtos do norte da provincia. Entretanto, pela sua situação fóra dos tropicos e pela sua posição geographica, algumas probabilidades tem de aproveitamento, que conviria utilisar, imprimindo á colonisação do districto, além do caracter commercial predominante, uma feição de colonia de exploração, secundaria, ajudando-se as duas mutuamente.

A colonia de exploração propriamente dita deve poder produzir generos de venda remuneradora, taes como o café, o cacau, a canna, a quina, etc., que compensem as despezas e sacrificios da cultura e ao mesmo tempo dispôr de mão d’obra abundante e facil, que substitua a do europeu, que unicamente deve dirigir os trabalhos.

Lourenço Marques, pelo menos na região visinha da costa, onde os transportes são relativamente faceis, poderá talvez produzir os generos a que me referi, e entre outros a canna saccharina e a borracha já ali se desenvolvem. Produzirá igualmente os outros generos, com economia? Não sei, visto não haver experiencias que nol-o indiquem.

E merecerá a pena tentá-las, quando a pequena distancia para o norte da provincia temos regiões onde as condições do clima são excepcionaes, bem como a fertilidade do sólo, para o estabelecimento de colonias de exploração, como em toda a região do Zambeze? Não creio. Seria ir experimentar o duvidoso, desprezando o certo.

Custo da Mão de Obra

Demais, em Lourenço Marques a mão d’obra é cara. O preto ganha ali, trabalhando muito menos do que o europeu o faz na Europa, 2 a 3 shillings diarios ou seja de 600 a 900 reis, e não é facil encontral-os por preço menor, visto que é este o salario que podem ganhar em qualquer centro aurifero do Transvaal. Em tempos, o governo do districto, cedendo ás queixas geraes dos habitantes, quiz regulamentar os salarios dos cafres, esquecendo o principio geral da offerta e da procura, sendo o resultado perfeitamente nullo, por isso que, quando precisavam cafres, eram os que mais tinham reclamado, que iam offerecer maior salario aos do visinho.

O regulamento do preço dos salarios é praticamente inapplicavel em Lourenço Marques, pois para o conseguir seria necessario prohibir a emigração para o Transvaal e para o Natal, e esta medida, além de anti-economica e antipolitica, seria de difficil execução.

Pelo contrario, na Zambezia, não succede o mesmo. O preto ali, submette-se ao senhor do praso em que habita, trabalhando por um preço baixo, de 3$000 a 4$500 reis por mez, por isso que mal acredita que não está já sujeito ao regimen da escravatura, unico possivel para fazer trabalhar o negro, quando convenientemente fiscalisado. Os inglezes tanto assim o comprehenderam que, feitos grandes esforços, sob vãos pretextos de philantropia e generosidade, para acabar com a escravatura barbara dos antigos tempos, a reorganisaram com meios mais suaves, mas não menos firmes, em seu exclusivo proveito. E têm razão, pois que a liberdade que nós damos ao preto resume-se em lhe darmos só direitos, dos quaes o que lhes é mais precioso é o de não trabalharem, sem lhe impôrmos deveres.

Assim, temos na provincia de Moçambique pontos onde podemos ir implantar, sem receio de mau exito, as verdadeiras colonias de exloração, ricas, de largo futuro, não inferior ao da nossa colonia de S. Thomé, sem recorrermos para isso a Lourenço Marques.

É, porém, certo que este districto dispõe de recursos especiaes: é cortado de rios navegaveis, que tornam os transportes muito faceis: dispõe nos valles dos rios de fertilissimos terrenos, onde se poderiam installar culturas remuneradoras; pela sua posição fóra dos tropicos e proximidade da visinha colonia do Natal e da Republica sul africana, as experiencias n’aquelles paizes realisadas, poderiam decerto aproveitar-lhe; e finalmente ainda, é menos insalubre do que os outros districtos da provincia, á excepção talvez de alguns pontos de Inhambane e das terras altas do interior. Algumas localidades até, infelizmente pouco extensas, são relativamente salubres, dando-se o caso curioso de que não se podem sempre reconhecer á primeira vista as suas condições hygienicas. É assim que Incanine, no baixo Incomati, rodeado por toda a parte de pantanos e lodaçaes, se reconheceu ser o local mais salubre de todos os occupados em 1895 pelas nossas tropas; era por assim dizer um verdadeiro sanatorio.

Por isso, industrias agricolas ha que se devem installar em Lourenço Marques; serão naturalmente aquellas que exijam pouca mão d’obra, ou em que o trabalho possa ser feito por machinas e ainda as que possam tirar valor dos seus faceis meios de transporte, os rios.

Gado, Trigo e Milho

Taes são a creação de gados, quer vaccum, quer lanigero, e a cultura de cereaes, que poderia fornecer largamente a metropole. Que importa, com effeito, que a Huilla, que a região de Milange e tantas outras possam fornecer o milho e o trigo, se estes, por falta de transporte barato, não puderem sahir do paiz de producção?

A cultura do milho, sem duvida se póde realisar em Lourenço Marques; cultivam-n’o os pretos em todos os pontos onde ha agua, e não são poucos, e com magnifico resultado, pois se vêem as plantas attingir 3, 4 e mais metros de altura, com uma producção proporcional ao porte. Em todo o valle do baixo Incomati, do Limpopo e do Maputo, se vêem vastas planicies, onde ás areias se misturam as alluviões do rio, formando um sólo extremamente fertil.

O trigo deveria tambem dar-se, por isso que se produz em condições analogas no Natal; das experiencias feitas no districto, pouco se póde concluir, pois que ainda não foram regularmente seguidas para fornecer dados seguros; todas, porém, têm dado resultado e só de uma, feita nas visinhanças da cidade, soube que os resultados foram pouco animadores, mas é provavel que, se o trigo se manteve rachitico e sem desenvolvimento, foi porque as experiencias foram mal dirigidas, não se escolhendo a época favoravel á sementeira, nem o typo de semente mais apropriado. Na Beira, onde o dr. Arriaga, um dos benemeritos da colonisação africana da costa oriental, fez experiencias da cultura do trigo em larga escala, os resultados foram magnificos, obtendo em média 50 sementes; ora o que succedeu no valle do Busi, n’uma alta latitude, mais naturalmente succederá no do Incomati.

Nos postos do Incomati, no Marracuene, Manhissa, Magudi e no Maputo, foram estabelecidos, em 1895, com o atilado criterio de quem então dirigia os negocios da provincia, pequenas quintas regionaes, com o fim de se proceder ás necessarias experiencias de agricultura, e, apesar dos poucos meios de que a provincia podia dispor, muito ha a esperar do resultado d’estes trabalhos, que oxalá sejam dados a publico.

Quer o milho, quer o trigo, muito vantajosamente seriam importados pela metropole, pois decerto os transportes seriam baratos, em fretes de retorno. O milho, além do consumo no interior do districto, pois que, comquanto pareça incrivel, o districto de Lourenço Marques importa por vezes milhares de saccas de milho e arroz, poderia ser utilisado para fabricação do alcool exportavel para o Transvaal, producto de que já ha montadas fabricas importantes, quer na cidade, quer em Ressano Garcia.

Além d’estas culturas principaes e ainda do arroz, muitas outras se poderiam crear, não só para consumo local, mas talvez tambem para exportação. As arvores de fructo europeias desenvolvem-se bem no districto, conforme se verificou nas plantações de Anguane. As laranjeiras e limoeiros não têm difficuldade em medrar, pois que os ultimos são selvagens, encontrando-se ao longo das margens do Incomati milhares de limoeiros, carregados de esplendidos limões, que se reproduzem sem cultura, para gaudio dos cafres e dos macacos.

Nas vertentes dos Libombos, do rio dos Elephantes, até á fronteira sul do districto, em grande parte dos valles do Incomati, do Umbeluzi e do Limpopo, a creação de gado vaccum far-se-ia sem difficuldade, pois em qualquer d’estes pontos se vêem rebanhos de gado de centenares de cabeças, pertencentes aos cafres. O gado muar e os burros dar-se-iam tambem perfeitamente, podendo prestar grandes serviços n’aquelle paiz em que os cavallos morrem tão facilmente: duas muares vi no Incomati, que, tendo fugido aos donos, se tinham tornado selvagens, vivendo em liberdade e eram magnificos exemplares; infelizmente foram mortas a tiro, por quem decerto tinha pouco bom senso.

O gado lanigero, pelo menos raças semelhantes ás do Transvaal e do Cabo, encontraria tambem magnificas condições de desenvolvimento n’uma extensa zona nas vertentes dos Libombos, onde já se encontra, na posse dos cafres, se bem que em pequeno numero e de raça inferior. A exportação das lãs constitue hoje um dos principaes elementos de riqueza do Cabo da Boa-Esperança e do Transvaal, e podel-o-ia ser tambem de Lourenço Marques.

Avestruzes em Goba

Na zona que da base da vertente dos Libombos vem até á zona argillosa e humida, encontram-se, quando a população escasseia, avestruzes selvagens, indicando-nos o proveito que pela sua creação poderiamos tirar da região arenosa do districto, de um modo analogo áquelle por que no Cabo da Boa-Esperança se conseguiu tirar d’aquelles animaes um rendimento importante, de centos de mil libras annuaes.

A cultura do arroz e do algodão, o primeiro já hoje cultivado em pequena escala pelos negros, e o segundo, de que já se fizeram ensaios coroados de bom resultado, poderiam tambem concorrer para a prosperidade da colonia.

De tantos elementos de riqueza, e ainda outros que seria longo enumerar, pouco se aproveita hoje, apesar de muitos esforços por vezes empregados pelo governo. Já em 1780 foi necessario que o governador Pereira do Lago, obrigasse os moradores á cultura do algodão, e em 1760 o governador Pedro de Saldanha de Albuquerque forçou os habitantes de Lourenço Marques a entregarem-se á agricultura, «para ao menos evitarem que até o pão e a mandioca lhes viessem de fóra». Que diria elle hoje, em que vem de fóra não só o pão para os brancos, mas ainda o arroz e o milho para os cafres!

Das riquezas mineiras de Lourenço Marques pouco posso dizer. Ha talvez ouro, e minerios preciosos, nos filões dos Libombos e ao norte do districto, na camada de conglomerados, mas das pesquizas até hoje feitas nada se tem conseguido; verdade é que têm sido poucas e mal dirigidas; entretanto alguma vantagem haveria em que se fizessem methodicamente.

Se Lourenço Marques não está em condições de poder, como colonia de exploração propriamente dita, vir a attingir o elevado grau de prosperidade de S. Thomé, Cabo, Java, etc., nem por isso é tão desprotegido pela natureza, como vêmos, que não possa, amparado pela sua colonia commercial, desenvolver-se e medrar, concorrendo em curto periodo para libertar a metropole dos pesados encargos do seu deficit de producção cerealifera.

Mas se Lourenço Marques só póde ser principalmente uma colonia commercial, devendo-se a esta sua feição subordinar tudo o mais, nem por isso faltam, nos nossos vastos dominios coloniaes, regiões onde se installem colonias de outro genero.

O Resto de Moçambique

Na região alta do interior de Moçambique podem encontrar-se vastos terrenos salubres, com clima pouco differente do nosso e onde a população póde desenvolver-se sem obstaculos insuperaveis. Taes são Manica, Milange, a região do Nyassa, etc., e para ahi nos installarmos basta que o nosso povo ahi queira repetir os trabalhos que os nossos antepassados executaram na America; o governo só póde fazer os trabalhos de preparação, ou installar colonias penaes. As colonias militares, pelo seu caracter, não julgo que possam dar bom resultado.

Para colonias de exploração temos quasi toda a vasta área da provincia de Moçambique, que se abre á nossa actividade, apresentando-nos uma variedade de recursos que difficilmente se encontrarão n’outros pontos. Se estamos, ou por outra, se o nosso descuido levou outros, mais activos e trabalhadores, a nos deixarem reduzidos a uma tira de terreno ao longo da costa, essa mesma situação nos dá a posse dos melhores portos, testas obrigadas dos caminhos para o interior, que se podem encontrar desde o Cabo da Boa-Esperança até ao Guardafui.

Inhambane, n’uma zona de mais de 100 kilometros de largura e que corre parallelamente á costa, tem uma população numerosa e trabalhadora, terrenos fertilissimos, e a borracha e o café desenvolvem-se ali espontaneamente, sendo este de magnifica qualidade. Antigas plantações junto da villa, mostram ainda hoje a pujança dos cajueiros, coqueiros, mangueiras e outras muitas especies vegetaes. O café, que cresce quasi na costa, não tem animado ainda até hoje os nossos colonos a iniciarem plantações, limitando-se a ensaccar o que do interior é trazido pelos cafres; ha annos, porém, ensaiou-se ali uma larga plantação de chá, que morreu com o fallecimento do proprietario, tendo entretanto apresentado bons indicios. No interior do districto a caça, bufalos, zebras, antilopes e até elephantes, são abundantissimos.

Se de Inhambane passamos ao Zambeze, encontramos uma bella via fluvial, em cujas margens, e em tempos remotos, os nossos maiores estabeleceram grande numero de feitorias, povoações e centros agricolas, de que ainda restam vestigios.

Modernamente alguns homens de iniciativa têm, em pouco tempo, realisado fortunas avultadas e fundado magnificas plantações no baixo Zambeze. O coqueiro, de que se encontram ali milhões de exemplares, tem sido plantado largamente; a canna saccharina, o café, o arroz, etc., estão sendo cultivados com vantagem, e se os exemplos dados fossem seguidos, poderiamos em pouco tempo ter ali a primeira colonia de exploração portugueza, superior ainda a S. Thomé.

Nos prasos das margens do rio ha magnificas mattas onde a madeira podia ser explorada, e onde os elephantes ainda se encontram com abundancia; em Tête encontram-se jazigos de carvão, infelizmente de qualidade inferior na parte já reconhecida, e nos terrenos ainda não explorados ha indicios de importantes jazigos auriferos.

Na região alta do norte do Zambeze, o clima é semelhante ao da Europa, e ahi poderiam os colonos ir restabelecer-se, quando atacados das doenças inevitaveis no valle insalubre do rio.

Finalmente mais ao norte, no Ibo, Moçambique e Angoche, pouco se conhece do interior, mas a todos estes portos concorre o café selvagem do sertão e por elles se exportam annualmente muitos contos de reis de sementes oleaginosas. Desde que sejam conhecidos, provavel é encontrar territorios ainda mais bem dotados do que os da Zambezia, região esta onde a colonia de Blantyre, ha poucos annos começada, já hoje exporta mais toneladas de café do que toda a provincia de Moçambique exporta de saccas da mesma mercadoria.

O Futuro de Lourenço Marques

Não seria, pois, razoavel procurar fazer de Lourenço Marques uma colonia de exploração propriamente dita, tentando introduzir ali, com sacrificio, culturas que a provincia n’outros pontos espontaneamente nos dá. O futuro de Lourenço Marques está inteiramente ligado ao seu desenvolvimento commercial e á emigração para ali de individuos capazes de o alargarem e de capitaes que o facilitem, e isto está, mais uma vez o repito, nas mãos da iniciativa particular.

Ao governo compete não contrariar, pelas suas medidas administrativas, essas iniciativas e vigiar para que os seus agentes sigam a mesma-ordem de idéas. Por nós ou pelos estrangeiros, Lourenço Marques há-de fatalmente tornar-se o primeiro porto commercial da Africa do sul, e tudo o que contrarie esse destino redundará em nosso damno.

A permanencia dos governadores no districto (de 1881 até 1896 houve vinte e sete mudanças de governadores), a creação de tropas coloniaes, a separação naturalmente indicada de Lourenço Marques e Inhambane, n’um governo autonomo, do resto da provincia, a applicação dos rendimentos do districto ao seu melhoramento, sem os distrahir para fóra, a nomeação de pequeno numero de funccionarios, bons e bem pagos, em vez de muitos e mal pagos, o ensino obrigatorio da lingua cafreal, a organisação dos cafres no interior, sem vexames, causa de todas as revoltas, e tantas outras questões de administração, só podem ser ordenadas pelo governo, e muito contribuirão para a prosperidade do districto, com o qual a metropole já hoje não deveria fazer despezas.

Que os penosos e lentos sacrificios que nos impuzemos durante muitos seculos, não vão hoje, que a messe está madura, aproveitar a outros, que avidamente espreitam o momento de lançar mão dos nossos despojos; e que uma colonisação preponderante e activa nos mantenha aberto o vasto campo de expansão e actividade necessario a um povo que não está ainda completamente decadente e perdido, é o que devemos procurar.

Portistas Avante para Lourenço Marques

De entre os restos do nosso vasto dominio colonial é Lourenço Marques aquelle de que a avidez estrangeira mais nos demonstra a importancia capital para o futuro desenvolvimento de Moçambique. Para que a sua desnacionalisação não se opere, torna-se necessario que para ali concorra a actividade commercial, a industria e os capitaes, que são ainda mais do que os emigrantes, o nervo da colonisação, e de todos estes meios de acção nenhuma região é mais rica do que o norte do paiz e em nenhuma cidade elles se encontram mais largamente espalhados do que no Porto.

É por isso que, agradecendo ao Atheneu Commercial do Porto o honroso convite com que me distinguiu, e á assembléa a cortezia e attenção com que se dignou escutar o que diligenciei expôr, sem galas de estylo, mas com inteira franqueza e verdade, me sentirei verdadeiramente orgulhoso, se por pouco que seja, tiver conseguido attrahir sobre Lourenço Marques as attenções d’uma cidade, a primeira sempre no paiz, nos grandes emprehendimentos de que póde resultar para a nossa querida patria, riqueza, gloria e prosperidade.

(fim)

 

Fonte: Projecto Guttemberg.

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