THE DELAGOA BAY WORLD

24/10/2017

HISTÓRIA DE UMA PEQUENA FOTOGRAFIA

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Em baixo, um pequeno desabafo familiar, relacionado com a fotografia em cima.

Esta é a primeira de duas pequenas fotografias que encontrei, perdidas nos meus caixotes e que, depois de a digitalizar e ampliar, andei a restaurar no meu programazeco de limpar fotografias.

A foto original tem apenas 4×4 cm – mais pequena que uma caixa de fósforos. Sobreviveu às migrações dos meus Pais, primeiro para Macau, depois para Moçambique, de onde adveio uma retirada atribulada em meados dos anos 70. E depois EUA. Tem 64 anos. Data de Março-Abril de 1953 e mostra os meus Pais com dois irmãos meus na sala da sua pequena casa alugada em Macau, que se situava a uns 40 metros à esquerda das Portas do Cerco, que na altura eram o único acesso por via terrestre entre o pequeno território de Macau e a China. Junto às Portas do Cerco e na vedação que separava Macau da China haviam apenas três casas numa pequena rua e logo a seguir havia uma pequena fábrica de fósforos. E esta era uma das casas, que tinha um ninho com uma andorinha na pequena varanda da frente e cujo quintal dava directamente para a cerca, de onde se podiam ver, agressivos e rosnantes, os guardas fronteiriços chineses da República Popular da China, então recentemente constituída após o triunfo da revolução comunista de Mao-Tsé-Tung, armados até aos dentes.

O meu Pai, que nasceu em 1928 e cresceu na estonteante ilha açoriana de São Miguel, estava destacado no pequeno enclave português, onde era tenente miliciano e comandava as Tropas Landins, todas então recentemente recrutadas por ele em Moçambique, e que lideraria até 1958.

Foi esse o primeiro contacto da nossa Família com Moçambique e a sua gente.

O meu Pai casara com a minha Mãe por procuração quase quatro anos antes, quando ele estava a estudar no INEF (Instituto Nacional de Educação Física) em Lisboa e engravidara a minha Mãe, que estava em São Miguel durante as férias de verão após o seu primeiro ano em Lisboa.

Eles não eram casados. Na ilha, foi um escândalo que marcou profundamente tudo e todos, e o que veio a seguir. O assunto foi um absoluto tabú durante décadas (“descoberto” por mim no dia do 38º aniversário do casamento dos meus pais, quando me apercebi, em pleno almoço de celebração, que a minha Irmã mais velha nascera três meses depois deles se casarem). As enormes distâncias entre os Açores e onde fomos viver ajudaram.

Para a minha Mãe, sem qualquer margem de dúvida, o meu Pai foi o Homem e o Grande Amor da sua vida. Nos Açores, tiveram uma filha – Maria Margarida – a primeira, nascida em meados de Abril de 1949. Lá em casa todas as raparigas tinham como primeiro nome Maria e todos os rapazes tinham como segundo nome Manuel, excepto o meu irmão mais velho, que tomou o nome do meu Pai, acrescido de Júnior.

Entretanto, um dia em 1950, resultado de uma discussão com o meu Avô Manuel Inácio de Melo (ou MIM), o meu Pai foi directo ao centro de recrutamento do exército português na Baixa da pacata capital açoriana, Ponta Delgada, e pediu para ser colocado no sítio mais longe possível dos Açores. Foram ver no mapa.

Nesses tempos do Império, o lugar mais distante que havia dos Açores era a pequena colónia asiática de Macau.

No dia seguinte partiu num navio para a recruta em Mafra, deixando a minha Mãe apeada em casa dos meus avós paternos, com uma filha ao colo e já grávida da segunda filha – Maria Manula – que mais tarde nasceu, ainda nos Açores. Uns meses depois (na altura era assim) enviou pelo correio uma autorização escrita para ela viajar para Macau. Mas apenas com a Manuela. A Margarida iria ficar atrás com os avós.

A Margarida nunca viveria connosco e a minha Mãe nunca realmente perdoou ao meu Pai por isso. Eu literalmente só soube que ela existia quando, tendo eu 8 anos de idade, em 1968, soube que um capitão qualquer telefonara dos Açores lá para a nossa casa na Polana, em Lourenço Marques, a pedir ao meu Pai a sua mão em casamento.

E assim a minha Mãe viajou, sozinha, com a Manuela ainda recém-nascida, cerca de 1952, por barco, para Macau, via Lisboa, o Mar Mediterrâneo, Mar Vermelho, contornou a Índia, passou ao largo de Timor, onde o navio em que viajava (de bandeira dinamarquesa, sei por um postal que ela enviou à minha Tia Josefina) quase se ia afundando numa tempestade. A tripulação teve que lançar óleo em volta do navio para ajudar a acalmar a violência das ondas.

A viagem durou pouco mais que um mês. Por fim, lá chegou à Cidade do Santo Nome de Deus de Macau, a colónia a fervilhar, em sobressalto e em turbulência por causa dos milhares de refugiados chineses, fugidos da revolução de Mao.

Em Macau, instalou-se pacatamente com o meu Pai e a pequena Manuela na casinha perto das Portas do Cerco, que se situava numa zona de maior tensão militar (mas os portugueses são assim) porque a fronteira era mesmo ali e porque invariavelmente os incidentes nas Portas do Cerco eram quase diários.

Em Macau, o meu Pai, que era Tenente miliciano, comandava as Tropas Landins, todos moçambicanos negros, que viajaram com ele de barco desde Lourenço Marques para a pequena colónia. O meu pai, que era um ávido fotógrafo amador, guardou álbuns e álbuns de Macau e dos seus soldados Landins, o que eventualmente me confundiu quando as vi pela primeira vez, pois pensava que em Macau só havia chineses. Ficariam juntos durante oito anos, após o que ele regressaria aos Açores e eles a Moçambique.

Prontamente, após a sua chegada a Macau, a minha Mãe engravidou novamente. E no início de Fevereiro de 1953 nasceu em Macau o seu primeiro filho varão, a quem, como referi, foi dado o nome do Pai e do Avô paterno – Manuel. Que, irrequieto, berrava e mexia tanto, que lhe foi dada como alcunha Mesquita, o apelido de um célebre oficial da pequena colónia que se distingura numa revolta chinesa contra a guarnição local durante o século XIX – a única batalha ocorrida entre portugueses e chineses durante os quase quinhentos anos em que Portugal ali manteve a sua pequena cidade.

Esta história merece ser contada, até porque – pasme-se – envolveu um heróico moçambicano. Para tal, baseio-se num relato da Wikipédia.

Chamou-se a Batalha do Passaleão e aconteceu entre os dias 22 e 25 de Agosto de 1849 (datas que, até hoje, decoram os dois lados do arco das Portas do Cerco, do lado português – ver em baixo) . O então Governador de Macau, João Ferreira do Amaral, devido à sua dura política de reforço e afirmação da soberania portuguesa sobre Macau, foi assassinado perto das Portas do Cerco por um grupo de chineses armados e, segundo os rumores, ordenados e pagos pelo Vice-Rei de Cantão. Logo após este acontecimento sangrento, as forças militares chinesas começaram a concentrar-se dentro e em redor de um forte chinês chamado do Passaleão, que se localizava perto das Portas do Cerco. Segundo os cálculos dos vigias das fortalezas de Macau, havia naquele forte cerca de 500 soldados e nas elevações vizinhas mais de 1500 homens, com artilharia.

O exército chinês começou bombardear as Portas do Cerco com os seus vinte canhões, naquela altura guarnecidas por apenas 120 soldados portugueses e três peças de artilharia. O pânico instalou-se em Macau, cujos moradores portugueses e macaenses temiam pelo seu fim. Foi neste clima de grande alarme e tensão que, no dia 25 de Agosto de 1849, o segundo-tenente Vicente Nicolau de Mesquita, um macaense, autorizado pelo Conselho do Governo (que substituíu o Governador assassinado), organizou e liderou uma ofensiva ao forte de Passaleão, com apenas 32 soldados voluntários e apoiada por uma única peça de artilharia de montanha, duas peças de artilharia de campanha e dois canhões de uma canhoneira e de uma lorcha.

Logo no início, do conflito, a tal única peça de artilharia de montanha disparou apenas uma vez contra o forte chinês, tendo logo ficado inutilizada com o recuo. Porém, esse primeiro e único tiro disparado acertou precisamente na parte do forte chinês onde se encontravam mais soldados chineses, causando o pânico entre eles. Este pânico foi intensificado quando um soldado português, um africano landim, que foi o primeiro a saltar os muros do forte do Passaleão para iniciar o assalto, se abate sobre eles. Os soldados chineses, ao verem um preto, pensaram que viram um diabo e desataram a fugir com medo e aos gritos. Por isso, os 500 ocupantes do forte, confusos e com medo, foram desalojados pelos 32 corajosos soldados portugueses, liderados por Mesquita e pelo seu soldado Landim. As tropas chinesas que estavam perto do forte também se retiraram imediatamente.

E assim terminou a Batalha do Passaleão.

As Portas do Cerco, cerca dos anos 90. Era a única fronteira terrestre de Macau com a China. Ver as datas em ambos os lados da fachada do arco: 22 de Agosto de 1849 e 25 de Agosto de 1849.

Foi a partir deste Mesquita que o meu irmão mais velho passou a ter a alcunha de Mesquita, que durante anos eu pensava que era o nome dele.

Enfim, continuando.

Esses primeiros meses de 1952 e 1953, em que os meus pais moravam junto das Portas do Cerco, foram atribulados. As relações entre as autoridades portuguesas e chinesas eram notoriamente más e um dia, uns meses depois do Mesquita ter nascido (em Fevereiro de 1953) houve um grave incidente de violência de que resultaram vários mortos e trocas de tiros. As portas do Cerco foram encerradas e esperava- se o pior. A minha Mãe recordava-se perfeitamente do episódio porque, na altura, devido ao Mesquita, todas as semanas tinha que lavar e colocar a secar no quintal dezenas de fraldas de pano de algodão. E durante os dias dos incidentes, teve que deixar as fraldas penduradas na corda de secar do quintal sem as ir buscar, por receio de levar um tiro de um dos guardas chineses, que rosnavam do outro lado da vedação fronteiriça, feita de arame liso e arame farpado.

Em Macau, nasceriam mais dois filhos: O Chico, em Julho de 1955; e a Cló, em Agosto de 1956.

Alguns anos mais tarde, os meus pais decidiram ir viver para Moçambique, onde viveriam durante quase vinte anos, até pouco depois da Independência.

E onde viriam a ter mais três filhos.

Na foto, estão os meus Pais, Manuel e Leontina Botelho de Melo, a Manuela e o Mesquita, recém-nascido.

Os meus Pais já faleceram, em 2001 e 2005. A Margarida vive nos Açores, a Manuela vive em Lisboa. O Mesquita e a Cló vivem nos Estados Unidos. O Chico faleceu há cinco anos na Califórnia.

Os meus Pais vieram a ter um total de oito filhos.Eu sou o sétimo filho e o quarto rapaz, nascido em Lourenço Marques em Janeiro de 1960.

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07/01/2017

O Delagoa Bay World em 2017

Filed under: ABM, Delagoa Bay em 2017 — ABM @ 11:02

 

Depois de um hiato, e de um curto periodo em que esteve “fechado”, o The Delagoa Bay World volta em 2017, de novo acessível a todos os que se derem à maçada de o ler. Aqui quase nada de novo, tudo mais ou menos na mesma, desde a sua abertura em 2010. Mais umas fotos, mais umas conversas ao desafio. À meia dúzia de apreciadores, saudações.

Hóspedes na varanda do Hotel Polana em Lourenço Marques, anos 20 do Séc. XX

Hóspedes na varanda do Hotel Polana em Lourenço Marques, anos 20 do Séc. XX.

Dito isto, o mundo mudou significativamente. Isso certamente será reflectido aqui, ainda que marginalmente, pois o prato forte deste blogue sempre foi documentar e comentar o passado moçambicano, se possivel graficamente. No tempo em que esteve parado, amassou-se um conjunto de imagens e tópicos que, atempada e tranquilamente, serão aqui tratados.

Aos que lêem e acompanham o Delagoa Bay World, desejo um bom ano.

26/10/2013

O NETO QUE VEIO DE ÁFRICA, AGOSTO DE 1972

Filed under: ABM, António Botelho de Melo, Clotilde Botelho de Melo — ABM @ 23:55

Foto ABM.

Em Agosto de 1972 visitei com a minha irmã Cló os Açores pela primeira vez. Invariavelmente, nas duas semanas que lá estive, andava vestido assim: calções de kakhi, t-shirt e descalço, para desgosto da minha avó, que se desculpava perante terceiros dizendo "sabe, é o meu neto de África".

Em Agosto de 1972 visitei com a minha irmã Cló os Açores pela primeira vez. Invariavelmente, nas duas semanas que lá estive, andava vestido assim: calções de kakhi, t-shirt e descalço, para desgosto da minha avó, que se desculpava perante terceiros dizendo “sabe, ele é um dos meus netos de África”. Os Açores na altura pareceram-me bonitos – mas, ah, quase medievais. Tínhamos zero em comum excepto traços de DNA. Aqui estamos os dois nas escadas para o quintal dos meus avós paternos, Botelhos de Melo.

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