THE DELAGOA BAY WORLD

29/07/2019

OS EFEITOS DO CICLONE CLAUDE NA ENCOSTA DA MAXAQUENE EM LOURENÇO MARQUES, 1966

O Ciclone Claude, que se abateu sobre a zona de Lourenço Marques em Janeiro de 1966, teve um considerável impacto sobre a Cidade. Um deles, que me recordo relativamente bem (tinha seis anos de idade) foi que não houve água canalizada em toda a Cidade durante vários dias. Para colmatar a falta de água canalizada, durante dias eu lembro-me de tomarmos banho no quintal com baldes de água, tirada de bidons que o meu Pai tinha colocado nas caleiras de recolha da água da chuva do telhado. Pouco tempo depois, o meu Pai mandara construir um depósito de água com dois mil litros, sobre a varanda de trás da casa onde habitávamos na Rua dos Aviadores (e onde eu, à sucapa, em dias quentes, ia tomar banho às escondidas). De facto, penso que em resultado do Claude, tornou-se mandatório, ou pelo menos habitual, todos os prédios da Cidade terem depósitos de água.

Mas o impacto mais visível,, para mim, que ali passava todos os dias quando ia de casa nadar para a piscina do Desportivo, foi o desabar da Barreira da Maxaquene, situada entre o Hotel Cardoso e a ponta do Liceu Salazar (o agora Josina Machel). Foi uma pequena calamidade. Anteriormente, a Barreira da Maxaquene era mesmo uma barreira – mal se podia passar ali, pois a vegetação ali era mato cerrado. Havia apenas umas duas ou três passagens que permitiam uma pessoa descer até à zona do Sporting e do Desportivo.

E a orla da Barreira ficava situada muito mais à frente do que se vê actualmente e era muito mais íngreme. Tanto assim que o terreno onde está o pequeno jardim em frente ao Liceu era muito maior e ali havia um excelente miradouro sobre a parte Baixa da Cidade e a Baía.

A Barreira da Maxaquene em frente ao Liceu Salazar antes do Ciclone Claude, que aconteceu em Janeiro de 1966. Veja a mesma imagem em baixo, anotada.

O Claude mudou isso tudo e instalou o caos virtual, pois o mato ali cedeu e a barreira desabou para o Aterro da Maxaquene, criando uma situação instável na parte alta da Cidade.

A linha vermelha indica, aproximadamente, os efeitos do Ciclone Claude. O então Parque Silva Pereira ficou praticamente cortado em metade, desaparecendo o seu Miradouro (ver nº6). Outras anotações: 1) Liceus Salazar e Dona Ana da Costa Portugal; 2) Museu Álvaro de Castro; 3) Praça das Descobertas; 4) Hotel Cardoso; 5) Parque Silva Pereira.

Levou uns dois a três anos à Câmara Municipal a encontrar uma solução para o problema, que passou pela criação de uma nova barreira mais inclinada, coberta com um matope barrento cinzento escuro no qual crescia uma erva resistente, com linhas horizontais de captação de água, que iam desembocar em linhas descendentes de cimento, que escoavam as águas pluviais em segurança.

Na parte de cima da Barreira, foi desde logo esboçado um acesso viário, que futuramente deveria descer da Praça das Descobertas para a zona do campo de futebol do Desportivo (e que nunca foi construído). Foi esse acesso que resultou na destruição do miradouro do então Parque Silva Pereira e na sua considerável diminuição.

Assim, em 1968, ao contrário das restantes barreiras na orla da Baixa e da Estrada Marginal, a Barreira da Maxaquene não tinha qualquer vegetação para além do que acima descrevo, o que até deu para ali realizar algo de original: a exibição de uma peça de teatro, penso que um Auto de Natal, na base da Barreira, vista por milhares de residentes da Cidade, penso que em Dezembro de 1968, em que a multidão se sentava na Barreira. Foi durante o primeiro ano do mandato de Baltazar Rebelo de Sousa e se não me engano a iniciativa fora da sua Mulher.

As Barreiras da Maxaquene em obras após o desastre do Ciclone Claude, cerca de 1966-1967. A seguir aos trabalhos de terraplanagem, foi instalado um sistema de irrigação de águas pluviais. Foi neste preciso local que se realizou o tal Auto de Natal de que falo em cima.

04/03/2017

O LICEU SALAZAR E A EASTERN TELEGRAPH COMPANY EM LOURENÇO MARQUES

Pouca gente hoje se recorda, ou sabe, que nos terrenos onde foi construído o Liceu Salazar na Polana em Lourenço Marques, que foi inaugurado em Outubro de 1952 (e que hoje se chama Liceu Josina Machel, em memória da primeira mulher oficial do então chefe militar da Frente de Libertação de Moçambique), durante muitos anos esteve implantado um magnífico e considerável edifício que albergava os escritórios e operações da Eastern Telegraph Company, a empresa de capitais maioritariamente britânicos que operava o serviço de telégrafo (na sequência de um acordo celebrado por Andrade Corvo com a Eastern) que passou a ligar Lourenço Marques ao Mundo a partir de 1879.

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A estação telegráfica da Eastern & Telegraph em Lourenço Marques, final do Século XIX, nos terrenos onde depois foi construído o Liceu Salazar (actual Escola Josina Machel).

A partir de 1880, apesar de ser caro para a altura, podia-se enviar um telegrama para Durban (e por essa via, Cabo, Pretória e Joanesburgo), Ilha de Moçambique e, via Zanzibar, Aden e outros pontos, para a Europa, via Londres.

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Outra imagem da Estação Telegráfica da Eastern & Cable na Polana. Foto de Joseph e Maurice Lazarus cerca de 1900.

Digitalizado a partir da prova original 13x18cm, PRA/PK173

Ainda a Estação, rodeada por um imenso jardim.

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Neste mapa da Cidade de Lourenço Marques de 1925, pode-se ver assinalado o espaço ocupado pela Estação Telegráfica da Eastern Telegraph Company. Mais acima, muitos conheceram o então Instituto João de Deus como a Escola Comercial Azevedo e Silva.

Não tenho dados sobre quando o edifício foi demolido, mas presumo que nos anos 30.

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Uma maquete do futuro Liceu Salazar, concebido ainda nos anos 40 mas que só foi concluído no final de 1952.

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O Liceu Salazar, cerca de 1960. Ao fundo, o Hotel Cardoso, ainda na sua terceira fase de construção

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O Liceu, nos primeiros anos da década de 60. Em baixo à esquerda, o Museu Álvaro de Castro.

31/03/2012

MIRADOURO EM FRENTE AO LICEU SALAZAR EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 1960

O Miradouro em frente ao Liceu Salazar/Dona Ana da Costa Portugal na Polana (hoje Liceu Josina Machel), anos 1960, antes da então remodelação. Ao fundo em baixo, a cúpula do estádio coberto do Sporting Clube de Lourenço Marques.

26/02/2012

O HOTEL CARDOSO EM LOURENÇO MARQUES, anos 1960-70

 

O Hotel Cardoso na Polana. Ao lado, A Praça das Descobertas, o Liceu Salazar e o Museu Álvaro de Castro.

 

Um postal do Hotel Cardoso. Antes da Independência, nunca lá entrei.

11/02/2012

VISTA AÉREA DE LOURENÇO MARQUES A PARTIR DE NASCENTE, ANOS 1960

Fotografia do IICT, restaurada.

Vista aérea de Lourenço Marques, anos 1960. Nesta imagem podem-se ver as barreiras a nascente da Cidade e o Miradouro na Av. dos Duques de Connaught (hoje Av. Friderich Engels). Mais acima o início da Av. Pinheiro Chagas (actual Av. Dr. Eduardo Mondlane). À esquerda mais acima o complexo dos Liceus Salazar e Dona Ana Costa Portugal. Para ver esta fotografia em tamanho maior, prima na imagem duas vezes com o rato do seu computador.

27/12/2011

OS LICEUS SALAZAR E DONA ANA DA COSTA PORTUGAL EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 1960

Foto do IICT, restaurada.

Para ver as fotografias na totalidade, prima nas imagens duas vezes com o rato do seu computador.

Vista aérea do Liceu Salazar em Lourenço Marques. O estabelecimento hoje chama-se Liceu Josina Machel.

A fachada principal do Liceu.

30/11/2011

O LICEU SALAZAR EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 1960

Para ver esta fotografia em tamanho máximo, prima duas vezes na imagem com o rato do seu computador.

 

Fotografia aérea dos Liceus Salazar/D. Ana da Costa Portugal, actualmente Liceu Josina Machel. Situado na Polana, o complexo foi edificado no final dos anos 1940 e dos pontos de vista arquitectónico e funcional é considerado dos mais bem conseguidos.

25/08/2011

SOBRE O NOME DO LICEU DONA ANA DA COSTA PORTUGAL EM LOURENÇO MARQUES

Texto de Alfredo Pereira de Lima, pela mão da sua filha Cristina, reproduzido com vénia, a esclarecer o relativo mistério do nome do então sector feminino do conhecido complexo liceal na Polana, que incluia o sector masculino, o Liceu Salazar. Muita gente não sabe quem foi a senhora. Aqui revela-se quem foi. Hoje o complexo é o Liceu Josina Machel em Maputo. Josina Machel (10 de Agosto de 1945 -7 de Abril de 1971) foi casada com Samora Machel, primeiro presidente após a Independência e morreu em combate durante a guerra pela Independência.

Os liceus Salazar e Dona Ana da Costa Portugal em Lourenço Marques, anos 60.

“O final do Séc XVIII,convulsionado pela Revolução Francesa – o maior acontecimento da História Moderna que com ela finda – também foi muito agitado para Lourenço Marques com reflexo do que se processava na Europa.
Vendo-nos abandonados pela Espanha – com a maior ingratidão – e pela Inglaterra – que nos utilizara apenas em beneficio exclusivo dos seus interesses – os corsários franceses sentiram-se com ânimo, seguros de impunidade, para incomodar o que nos restava do comércio com o Ultramar.

Foi assim que na manhã trágica de 26 de Outubro de 1796, corsários franceses que infestavam o canal de Moçambique, embarcados em três navios bem artilhados, forçaram sem dificuldades a barra da Inhaca e investiram contra o frágil presídio que encontraram na margem esquerdo do rio do Espírito Santo como afirmação de presença de Portugal neste canto de Àfrica, desde os tempos de Joaquim de Araújo.

O frágil reduto, cuja defesa encontrava-se a cargo do governador João da Costa Soares – que aliás não estava á altura da situação- foi atacado, saqueado e destruído. Como era de madeira ardeu em poucas horas. A sua diminuta guarnição abandonara-o á sua sorte, refugiando-se no “mato”, ainda tentando alguns alcançar, por terra, a vila de Inhambane.
Desapareceu dêste modo inglóriamente em escassas horas o que levara tanto tempo a erguer à custa de penosos sacrifícios iniciados por Joaquim de Araújo, seu primeiro governador, que dando cumprimento ás ordenações de El-Rei D. José lançara os fundamentos do presidio, em 1782, e pelo qual não fora menor o sacrifício de vidas do governador Costa Portugal, de sua mulher, D. Ana, e de um filho de tenra idade, vítimas da insalubridade do clima. “
( “Pedras Que Já Não Falam” por Alfredo Pereira de Lima)

“ Morte de D. Ana da Costa Portugal”

Escassos são os documentos que temos, pelos quais nos seja dado reconstituir em pormenor os momentos dolorosos da morte do seu quarto governador, Joaquim da Costa Portugal, de sua mulher D. Ana e de um filho. No relato que nos deixou dos “Negócios da Capitania de Mossambique nos fins de Novembro do Anno de 1789” encontra-se feita por Nogueira de Andrade apenas esta citação:

“…Seguiu-se-lhe, Joaquim José da Costa Portugal, com a mesma ou mayor infelicidade, pois aly perdeo sua mulher, e hum filho, e elle morreu, deixando seus outros filhos e filhas em lastimoso desamparo. “

Que drama pungente se não teria passado naquele triste presídio, vendo o Governador Costa Portugal morrer, sem lhes poder valer, sua mulher e um filho ?! E quão grande não seria, depois sua amargura enquanto a Morte o não viesse libertar do seu sofrimento ?!”

( in “Edifícios Históricos de Lourenço Marques” por Alfredo Pereira de Lima )

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