THE DELAGOA BAY WORLD

13/01/2017

O ENVELOPE DE TAYOB ADAM KATCHI, E A FOTOGRAFIA DE NATÁLIA CORREIA E VERA LAGOA EM LISBOA, 1951

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O envelope, carimbado com data de 28 de Agosto de 1945, perto da data em que o Império do Japão se rendeu incondicionalmente aos Aliados, dando por finda a II Guerra Mundial.

De entre a documentação que rotineiramente analiso, incluo o visionamento das empresas e negócios que houve em Moçambique antes da Independência. Há uns dias, deparei-me com o envelope exibido em cima, datado Agosto de 1945. Não fazia ideia de que se tratava a empresa “T.A.Katchi”. Mais tarde, apercebi-me de que se relacionava com Tayob Adam Katchi.

Quem foi Tayob Adam Katchi? a análise do tecido empresarial moçambique anterior à Independência é um longo estudo ainda por fazer e quase todos os académicos o ignoram, abordando-o a não ser pela rama. Mas a internet permite fazer-se alguma coisa. Apanho um artigo de Jorge Morais, n’O Diabo, um histórico jornal conservador fundado por Vera Lagoa em Fevereiro de 1976, em que deparo com a fotografia em baixo, que me deixou surpreendido.

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Na sua residência na Rua dos Anjos, Nº13, em Lisboa, num jantar realizado a 13 de Abril de 1951, da esquerda, o empresário de Moçambique Tayob Adam Katchi, a jovem açoreana Natália Correia, o dramaturgo e ensaíasta Armando de Aguiar e Maria Armanda Falcão (aka Vera Lagoa, nascida circunstancialmente na Ilha de Moçambique). Natália e Vera vestidas a rigor com saris.

A fotografia foi tirada em casa de Tayob Adam Katchi em Lisboa, em Abril de 1951. O texto descreve-o como um “importante homem de negócios de origem indiana, uma figura do ‘jet set’ português dos anos 50 e um ‘entertainer’ da intelectualidade lisboeta”.

Curiosa a presença de Armando de Aguiar (ou D’Aguiar) nesta fotografia e ainda mais nesta companhia. Armando de Aguiar fora nos anos 30 a 60 um dos celebrados bardos do regime de Salazar. Entre outros, publicou em 1934, no Brasil, um livro com 252 páginas, ilustrado, chamado “Oliveira Salazar – O Homem e o Ditador (sua vida e sua obra)”. Dedicada aos brasileiros e os portugueses radicados naquele país sul-americano, d’Aguiar explica ao que vem: “este livro é de uma rigorosa informação. Sendo assim, só poderia ser um livro de verdade histórica e, ao mesmo tempo, de elogio a Salazar. ao homem intimo e ao ditador, pela simples exposição da sua vida e pela narrativa da obra que vem realizando em Portugal. É a sua figura nítida e clara, que está nestas páginas. Chefe de um governo de segura e enérgica orientação, demonstrou que já é passado o tempo dos governos sem entusiasmo. Desse entusiasmo vem usando em sua administração. Daí o relevo com que Salazar se projecta no mapa europeu, fazendo convergir para Portugal a curiosidade do mundo, pois todas as nações desejam conhecer esse homem admirável que sabe querer e sabe realizar.” A obra circulou livremente no Brasil durante alguns anos, até, em 1938, ser incluida pelo Departamento de Ordem Política e Social, um organismo estatal de censura, na sua lista de obras proibidas, na sequência de uma tentativa de golpe de direita contra a ditadura de Getúlio Vargas. Aguiar era jornalista do Diário de Notícias e um colaborador próximo de António Ferro, de cujo Secretariado de Propaganda Nacional (e depois o seu sucedâneo, o SNI) ele foi delegado. Em 1932, publicara A Ditadura e os Políticos. Em 1936, integra o “batalhão” de jornalistas portugueses, enviados a Espanha para cobrir a Guerra Civil, numa estratégia de propaganda salazarista de apoio a Francisco Franco. No fim da II Guerra Mundial, publica  Portugueses no Brasil, Entre 1951-54, publica O Mundo que os Portugueses Criaram; e, em 1964, Guiné, Minha Terra.

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Capa do livro de Armando de Aguiar sobre António de Oliveira Salazar, 1934

Pelo envelope em cima, sabe-se que Tayob tinha pelo menos uma empresa de importação e exportação em Moçambique durante a II Guerra Mundial. Mas pouco consta em relação a outros negócios.

Numa interessante tese de doutoramento de Sérgio Chichava, concluída em 2007, sobre a Zambézia, Tayob é referido brevemente, a propósito de José Roldão, uma figura política e socialmente importante da Zambézia, Presidente da Associação Africana da Zambézia em 1941, e que, como jornalista, colaborou de forma significativa na imprensa moçambicana assinando sob o pseudónimo F.Saldanha, sendo, de um rol de figuras conhecidas, o único que colaborava a partir de um ponto situado fora de Lourenço Marques. Neste contexto, Roldão é mencionado como tendo trabalhado directamente para Tayob Adam, “na altura um dos homens de negócios mais importantes de Quelimane”, sendo considerado o seu primeiro e principal colaborador.

Um documento adicional sugere uma dimensão religiosa e cultural peculiar de Tayob Adam, que era muçulmano. Duas publicações da The Islamic Review, uma revista que circulou no Ocidente entre 1913 e final dos anos 60, referem Tayob Adam como seu correspondente em Lisboa, inclusivé indicando como endereço postal a sua residência em Lisboa. A revista era uma versão sofisticada e a voz pública do movimento Ahmadiyya, que pode ser lida premindo aqui. Certamente que, na altura, poucos sabiam ou entendiam algo sobre os detalhes desta particular vertente do islamismo a que Tayob Adam se associara.

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Excerto da edição de Dezembro de 1952 da The Islamic Review , em que Tayob Adam Katchi surge, em baixo à esquerda, como colaborador da revista em Portugal, recebendo pedidos de subscrição.

 

 

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