THE DELAGOA BAY WORLD

17/10/2018

OS IRMÃOS CASTELO BRANCO NA IGREJA DE STO ANTÓNIO DA POLANA EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Filed under: Miguel Castelo-Branco, Nuno Castelo Branco — ABM @ 02:53

Imagem de Nuno Castelo Branco, retocada.

 

Or Irmãos Castelo Branco na Igreja de Santo António da Polana em Lourenço Marques, anos 60.

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16/10/2018

O PADRE ARNALDO NA IGREJA DE STO ANTÓNIO DA POLANA EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Imagem de Pedro Pimentel, retocada.

Fiz a catequese na Paróquia de Santo António da Polana durante o que pareceu duas vidas, parte das quais sob a égide do Padre Arnaldo, havendo entre nós um delicioso e refinado ódio de estimação – mútuo.

O Padre Arnaldo na Igreja de Santo António da Polana com escuteiros, anos 60.

02/10/2018

DUAS MULHERES NO PALMAR JUNTO À PRAIA DA POLANA EM LOURENÇO MARQUES, 1933

Filed under: Jovens Raparigas no Palmar de LM 1933 — ABM @ 02:26

O Ilustrado, suplemento do Notícias de Lourenço Marques, 1de Janeiro de 1934, Nº18, página 423.

 

O palmar da Polana era uma zona situada junto à praia a seguir ao Clube Naval e ao Pavilhão de Chá e que se estendia até à zona do antigo Parque de Campismo.

MENINAS DE LOURENÇO MARQUES NAS FESTAS DO GRÉMIO MILITAR, 1933

Filed under: Meninas de LM 1933 — ABM @ 02:25

O Ilustrado de Lourenço Marques, Nº8, 15 de Julho de 1933, p.134.

 

XXX

29/09/2018

LOOKING OUT FOR MR CHICHORRO: CATARINA PEREIRA ENTREVISTA ROBERTO CHICHORRO, 2018

Filed under: Roberto Chichorro - Pintor — ABM @ 16:49

A magnífica entrevista da jovem jornalista Catarina Gonçalves Pereira, publicada no inigualável Observador de 8 de Julho de 2018, com vénia.

Texto:

Cresceu em Lourenço Marques, mas foi em Portugal que se fixou. Com 76 anos, Chichorro, um dos mais conceituados pintores moçambicanos, fala sobre a família, a pintura e jogos de futebol com Eusébio.

“Vê-se mesmo que é uma casa de africanos”, disse Roberto Chichorro assim que chegámos à porta de sua casa. É que o encontro estava marcado para as 14h, mas só uma hora e meia depois conseguimos conversar com ele. “Ligou-me uma amiga a perguntar se tinha almoço para ela. É claro que tinha. Começámos a conversar e olha, só agora terminámos“. O homem, de calças azuis escuras, camisa de manga curta azul clara e chinelos, que esperava por nós descontraidamente naquela que deve ser uma das únicas casas de arquitetura moderna do Vale da Pêrra — uma aldeia entre Ourém e Fátima — é um dos mais conceituados pintores moçambicanos.

Cresceu no campo e diz que tem o campo dentro dele, razão pela qual fugiu da capital portuguesa para o sítio sossegado onde agora passa os dias a pintar e a contemplar a natureza. Ao Observador, Chichorro fala sobre a relação com os pais e a primeira nega que levou na pintura: “Ó rapaz, tira já aquilo dali para fora e deixa lá essas manias“. Recorda a infância passada em Lourenço Marques e conta como a laranjeira lá de casa lhe mudou a vida. Fala ainda sobre o refúgio que encontrava nos beija-flores e sobre a timidez que ainda hoje carrega carrega consigo. O pintor moçambicano lembra ainda como um “miúdo franzino” chamado Eusébio lhe deu “uma coça” quando jogava futebol no Clube Desportivo de Lourenço Marques.

O “Chagall moçambicano”, como muitos lhe chamam (sem razão, segundo o pintor), recorda as primeiras pinturas, os tempos que passou na tropa e as aventuras pela Europa até se fixar em Portugal, em 1986. Diz que continua a gostar da terra que o viu nascer, mas confessa que hoje o sentimento que nutre por Moçambique já não é igual. Conhecido pela utilização de uma paleta de cores garridas, Chichorro retrata “sempre as pessoas e a vida das pessoas”. Muitos dizem que só pinta alegria, mas ele diz que “se procurarem” há também um fundo de tristeza.

O artista plástico, ilustrador e pintor autodidata fez a primeira exposição de pintura na Galeria da Coop de Lourenço Marques, em 1967, e, a partir começou a expor a nível internacional. As suas obras passaram por países como Portugal, Guiné-Bissau, Espanha, Brasil e Cabo Verde, tendo ganhado vários prémios — entre os quais o Prémio Aquisição, no Salão de Arte Moderna de Angola, em 1973, e o Prémio MAC — Vida e Obra, em Portugal, em 2012. Chichorro tem hoje 76 anos e uma certeza. A certeza de que “a vida lhe ha dado tudo”.

Nasceu e cresceu em Moçambique. Como é que foi passada a sua infância?
Nasci em Lourenço Marques, hoje Maputo, nasci e cresci naquela cidade. Fui uma criança feliz, o meu pai era operário e vivíamos nos arredores da cidade, na parte suburbana, por isso foi uma infância passada no meio das árvores, do campo e dos pássaros. Olhe, deve ter sido tão feliz essa altura, que, aos sete anos, idade em que íamos para a escola primária, o médico disse à minha mãe: “Olhe lá, deixe o miúdo ficar mais um ano em casa”. Era um bocado tímido e nervoso, acho que foi por isso… Portanto só entrei para a escola aos oito anos, de modo que andei mais um ano divertidíssimo no meio daquilo tudo.

E essa timidez, ainda existe?
Era extremamente tímido… Treinei com a vida a não parecer tímido, mas ainda sou. Quando posso, prefiro encolher-me e desaparecer. Mas em miúdo era uma criança mesmo muito tímida. Passava a vida em cima das árvores, a observar os pássaros, adorava tê-los por perto. Passei muito tempo sozinho nessas coisas. E quando as amigas da minha mãe apareciam lá em casa com as filhas? A primeira coisa que eu fazia era procurar uma árvore, ia lá para cima e não havia conversa nenhuma com as miúdas, quando elas se iam embora eu descia da árvore e voltava para casa.

Então não era muito namoradeiro?
Não, não era nada, comecei a ser mais tarde. Mais tarde passei a ser, talvez por vingança do tempo de infância em que fugia muito disso.

Disse que o seu pai era operário. Passaram muitas dificuldades?
O meu pai ganhava o vencimento de operário, por isso passávamos dificuldades económicas, isso passávamos. O lema dele era “faltar tudo menos comida” naquela casa, e a verdade é que também não era difícil arranjar o que comer, porque criávamos coelhos, galinhas, a terra dava-nos de comer. Não éramos pessoas ricas, não tínhamos as coisas que alguns dos outros miúdos da escola tinham em termos de roupa e em termos brinquedos então nem se fala, nós fazíamos os nossos próprios brinquedos.

Que brinquedos eram esses?
Fazíamos carrinhos de arame, fazíamos bolas de trapos e volta e meia no Natal lá havia assim um carrinho especial. Ainda me lembro de que, quando vinha essa época, os meus pais iam à baixa e nós ficávamos ansiosos a pensar o que é que o Menino Jesus nos ia deixar no dia seguinte. Até que depois descobri que não havia Menino Jesus nenhum. Um dia entrei no quarto dos meus pais e vi uma série de embrulhos em cima do guarda-fatos e pensei: “Epá, isto cheira-me a esturro, deixa-me ir lá a cima ver o que é aquilo”. E vi que eram caixas de brinquedos. Mas até isso foi bom, acreditar nessa fantasia até aos sete, oito anos.

E nessa altura desejava ter algum brinquedo em especial?
Fui uma criança feliz, mas claro que, como todas as crianças, ambicionava por exemplo ter um triciclo. Claro que nunca tive, não havia dinheiro para isso… Por isso hoje em dia tenho um vício: normalmente, a primeira prenda que ofereço a uma criança é sempre um triciclo. Isso ficou cá dentro…

E a relação com os seus pais como é que era?
A relação com os meus pais? Era ótima, era ótima. Nós temos sempre tendência para dizer que os nossos pais são excecionais e cada um deles o era à sua maneira. A minha mãe era uma pessoa muito doce, muito tranquila, nunca a vi gritar, nunca a vi falar alto para ninguém, era assim quase uma sombra na sua suavidade. O meu pai era um homem de oficina, um homem trabalhador, era um operário com 120 quilos de força, não era de gordura, era de força. Era uma pessoa carinhosa, mas não demonstrava muito. Tinha uma certa dureza, não admitia fraquezas, mas era uma pessoa carinhosa. Por exemplo, nós íamos para a praia a pé, que ficava aí a meia hora de casa, porque não tínhamos carro e ele levava-me às cavalitas…

Eram gestos pequenos, mas…
Sim, eram gestos pequenos, mas que mostravam que era uma pessoa carinhosa. E depois tinha outra coisa: o meu pai chorava muito mais facilmente do que a minha mãe. Engraçado, a minha mãe era frágil, mas aguentava muitas coisas, ela tinha mais força nesse sentido. Tinha uma relação magnifica com eles, éramos uma família unida, mas o meu pai criou-me sem mariquices.

A sua mãe era mais dócil…
Era, nunca vi a minha mãe gritar com o meu pai, era tudo falado entre eles. Só a vi a falar assim de forma mais rígida uma vez com o meu pai. Nós vivíamos no campo e havia a matança dos animais. Um dia o meu pai disse-me: “Meu menino, já chegou a idade de começares a crescer”, eu tinha cerca de 12 anos, “hoje é dia de matança e vens para aqui também”, disse-me ele. Não tive outro remédio, nem me atrevia a dizer que não. O meu pai mandou-me agarrar nas patas do leitãozinho, os outros homens agarravam o resto do animal e de repente espetaram o punhal no bicho e ele gritava e estrebuchava, mas eu fiquei ali caladinho a aguentar aquilo tudo. Quando acabou, lá fui eu chorar para um canto da casa como um desalmado. A minha mãe viu e disse para o meu pai: “Nunca mais mandas o miúdo fazer isto. Nunca mais! Acabou aqui”. E foi a primeira vez que vi a minha mãe a apontar o dedo ao meu pai e a falar-lhe dessa forma.

E nunca mais?
E nunca mais… aparentemente era macia, mas era muito mais dura que o meu pai nesse aspeto. Mas se havia coisa que ele não admitia era desonestidades e mentiras.

Foi uma das coisas que lhe ensinou? A ser honesto?
Foi, foi. Nunca mais me esqueço da história da laranjeira. Um dia depois da escola — o meu pai saía as 17h do serviço — estávamos sentados ali em frente ao viveiro, onde tinha a laranjeira, eu a lanchar e ele a beber o seu uísque — normalmente quando saía do trabalho bebia sempre um uísque — e estávamos a conversar, ele a ensinar-me coisas da vida. De repente olhou para a laranjeira e perguntou-me:

— “Então qual é a laranja que achas mais bonita? Qual é aquela que gostavas de apanhar?”

— “Aquela lá em cima”, disse depois de analisar.

— “Pois, mas tu com o tamanho que tens, com os bracinhos que tens não podes arriscar ir buscar aquela laranja. E a vida é a mesma coisa, a gente só pode ir até onde os nossos braços chegam. Mais comprido que os teus braços não tentes nada, porque podes subir à laranjeira, podes cair e magoar-te.”

Essa foi uma grande lição: aprendi que na vida temos de saber estar com a nossa dimensão. A gente só deve ambicionar sem causar distúrbios nem a nós próprios nem a ninguém. Estica o teu bracinho até onde ele chegar e arranca a laranja que te compete.

Chegou a jogar futebol quando era jovem, não foi?
Sim, sim, joguei nos juniores. Ainda me lembro, no verão os nossos jogos começavam sempre às sete da manhã. Eu jogava no Desportivo de Lourenço Marques e uma vez fomos a um torneio a Namaacha. Nunca me esqueço, o Eusébio era ponta de lança e eu era defesa central, perguntei aos meus colegas quem era aquele rapaz, que era mais franzino que eu, mais pequeno, e nem fiquei preocupado. No último ano tínhamos ganho o campeonato com zero golos sofridos. De repente, aquele miúdo passava por mim a correr e eu só pensava: “Ai minha mãe, o que é que me está a acontecer?!”. Deu-nos uma coça, nesse dia levámos cinco do Eusébio, por causa dele apanhei cinco nesse dia… Mas depois ficámos amigos.

Depois como é que surge a pintura na sua vida? Lembra-se da primeira que fez?
Desde miúdo que eu pintava e desenhava, o meu pai também desenhava muito bem. Ele tinha um caderno cheio de gatos desenhados, tenho pena de não o ter conservado. E lembro-me de dizer que queria ser pintor. Um dos primeiros quadros que me lembro de pintar era a minha mãe a lavar a roupa no tanque, debaixo da laranjeira que tínhamos lá no quintal. Tenho também uma história com um dos primeiros quadros que fiz que me marcou… Os meus pais tinham ido ao cinema, que era na cidade, e eu fiquei em casa então arranjei um lençol velho e prendi-o a quatro barrotezitos de madeira para fazer uma tela. Pintei um cavalo no meio do campo, nunca mais me esqueço, e pendurei o quadro na parede da sala. Quando o meu pai chegou a casa olhou e disse: “Ó rapaz, tira já aquilo dali para fora e deixa lá essas manias”. Foi assim um grande não.

Quando é que começou a olhar de forma mais séria para a pintura?
Foi quando estava na tropa. Nessa altura comecei a ler muita coisa sobre pintura. E tinha um colega na tropa que era escritor, o António Augusto Carneiro Gonçalves, que era irmão do poeta Sebastião Alba. E a gente lia muito, conversávamos muito sobre o que líamos, trocávamos ideias, e eu comecei a pintar muito nessa altura. Sou autodidata, nunca fui a nenhuma escola aprender a pintar.

O que é que pintou na tropa? Lembra-se de algum quadro?
Quando andava na tropa namorava uma moça que trabalhava numa livraria e eu ia levá-la e buscá-la, como os namorados fazem. Lá perto, havia um miúdo que vendia jornais e estava sempre numa esquina a pedir esmola. Um dia cheguei a casa e pintei aquele miúdo que tinha uma forma muito engraçada de pedir. Ele dizia: “Bom dia nota”. E o quadro chama-se assim “Bom dia nota”. Depois dei-o à moça, não sei se ainda o tem se não, nem sei o que é feito da vida dela.

Foram muito difíceis esses tempos?
Foi um período complicado, mas também aprendi. Fui três anos para o norte, para Nampula e vi coisas que ninguém quer ver. Isso são coisas que marcam para o resto da vida e eu infelizmente vi-as, mas já lá vai o tempo.

Depois da tropa foi trabalhar em arquitetura, mas foi também nessa altura que fez a sua primeira exposição, certo?
Quando saímos da tropa, eu e o António voltámos para Lourenço Marques. Ele foi trabalhar para um jornal e eu para um escritório de arquitetos. Um dia o António disse-me que ia haver uma exposição de pintores lá da terra no Núcleo de Arte e disse-me para ir mostrar os meus quadros lá a um pintor que trabalhava com ele. Quando ele olhou para os meus quadros disse: “Eu não lhe digo nada”. Eu pensei: “Tem de haver aqui alguma coisa. Se ele não tivesse gostado tinha dito logo para tirar a ideia de ser pintor da cabeça”. E então decidi ir ao Núcleo de Arte, levei um quadro e foi aceite e foi o primeiro quadro que pendurei nas festas da cidade. Aí senti-me um bocado pintor, era capaz de fazer coisas que se penduravam assim nas paredes de uma organização a sério.

Como é que dá depois o salto para Espanha?
Estava a ver o campeonato do mundo de futebol, em 1982, acho que até foi em Espanha nesse ano, com uns amigos e estava lá um fulano da Embaixada que já tinha visto os meus quadros — porque eu continuei sempre a pintar e a expor. Perguntou onde é que eu tinha estudado e eu expliquei que nunca estudei pintura. Foi então que ele me perguntou se eu não gostava de ter uma bolsa para ir para Espanha. Eu disse que sim, claro, mas depois o meu pai ficou muito doente e eu tive de recusar porque não queria deixar a minha mãe sozinha com ele numa cadeira de rodas. Passados quatro anos, ele acabou por morrer e uns dois meses depois encontrei esse fulano da Embaixada que me disse que a bolsa ainda estava à minha espera. E foi assim que fui para Madrid…

Como foi a experiência de estudar fora?
Foi uma aventura boa. Estive três anos em Madrid, andei por aquela cidade e por outras cidades espanholas. A bolsa era muito boa, eram 180 mil pesetas, era uma bolsa de milionário. E eu não escolhi ir aprender a pintar, escolhi fazer gravura e cerâmica porque não conhecia a técnica, mas continuei a pintar e a expor e conheci imensas pessoas. Ao fim dos dois anos, quando terminava a bolsa e estava para me ir embora, disseram-me para ficar mais tempo. Fiz mais um ano, mas depois não consegui ficar mais tempo. Queria voltar para a minha terra. As minhas aventuras fora de Moçambique começavam por ser de um ano, dois anos, e aqueles três anos já estavam a ser demais, a rotina depois começa a cansar.

Já tinha estado antes na Europa. Foi por causa da rotina que também não ficou muito tempo em Itália?
Pois… Estar em Itália foi uma experiência ótima, mas foi assim uma coisa mais estranha porque fui por conta própria. Quando trabalhava como decorador nas feiras internacionais, os voos de Moçambique passavam por Roma e acabei por conhecer lá uma moça, que era a Isabella, e foi uma aventura. Fomos jantar, depois as coisas pegaram e fiquei lá a viver com ela. Ao fim de um ano em Itália disse que não queria ficar lá mais tempo, não podia passar o resto da vida em casa dela a pintar.

Só em Portugal é que a aventura durou mais tempo…
É, em Portugal a aventura ainda dura. A minha irmã já estava cá quando eu vim e na altura ia viver com ela, mas ela tinha cinco filhos, então um amigo convidou-me para ir morar com ele e com a mulher. A casa dele tinha 11 divisões e ele deu-me a escolher. Depois acabámos por criar os dois um atelier lá em casa. Ao fim de um ano, aluguei uma casa no Lumiar. Depois entretanto fui para Cascais e casei lá com uma angolana, mas passado algum tempo separámo-nos. Foi aí que conheci a Graça, a minha atual mulher, que, aliás, já conhecia há muito tempo. E cá estamos…

Eram amigos de infância?
De infância não, mas conheci-a quando ela tinha aí 14 anos. Era muito amiga da minha primeira mulher lá em Moçambique. A vida dá voltas… Um dia encontrei-a no supermercado e passado algum tempo, já os dois estávamos separados, começamos a ir ver exposições, a sair e entretanto estávamos a viver juntos. Já lá vão 18 anos.

E como é que vieram parar aqui ao Vale da Pêrra?
Já não estava a ser agradável estar na cidade, depois não havia estacionamento, era uma confusão… E já estávamos a ficar velhos. Nessa altura já vínhamos a Ourém muitas vezes porque eu era sócio da Editora Som da Tinta — inicialmente fundada pelo Saramago e outros — a convite de um dos fundadores, o Sérgio Ribeiro. Depois até foi ele que nos ajudou a encontrar um terreno para construir casa.

A integração aqui na terra foi fácil?
Sentimo-nos aqui bem, os vizinhos são gente boa, honesta. No princípio as pessoas achavam estranho era a nossa casa, porque não tem telhado, mas depois habituaram-se. Vinham cá algumas vezes e traziam-nos coisas até. É gente muito simpática e temos uma boa relação com eles… E depois há este sossego, esta paisagem para o castelo de Ourém.

Em certa medida esta paisagem tem semelhanças com Lourenço Marques?
Só o facto de isto ser uma paz de alma. Esta tranquilidade lá também existia, há esse paralelismo. Mas de resto, o clima é totalmente diferente, não tem nada a ver. As pessoas lá são muito mais garridas, mais alegres, aqui ainda não mudaram muito, são muito acinzentadas, lá somos mais festivos.

É a essa alegria moçambicana que vai buscar inspiração para os seus quadros?
A minha inspiração vem muito das minhas memórias dos tempos que lá vivi. É sempre as pessoas, a vida das pessoas, o sonho das pessoas, a alegria, mas também a própria tristeza…

E é por isso que os beija-flor estão muito retratados na sua obra?
Sim, porque eu passava os dias a olhar para os beija-flor, tinha gaiolas onde os prendia para os ter por perto… Era miúdo então não conseguia ver a diferença entre ter um pássaro preso e um pássaro solto. Também ia para cima das árvores, olhava para eles e conversava à distância, aprendia o assobio e era uma forma de conversar com eles. Houve um dia em que deixei de os ter e foi um dia um bocado complicado…

O que é que lhes aconteceu?
Eu tinha uma gaiola muito grande cheia de beija-flores de várias cores, eram azuis, vermelhos, verdes, laranjas, e depois havia aquela competição entre miúdos de ver quem é que tinha mais. Um cheguei da escola — e eu tinha o viveiro mesmo ao fundo da escada, perto do tanque onde a minha mãe lavava a roupa –, sentei-me ali a olhar para eles enquanto lanchava e senti que não tinha o direito de os ter ali presos, limitados. Disse para a minha mãe que os ia soltar e ela disse-me: “Tu vê lá o que é que vais fazer, tu vê lá, rapaz”. Soltei-os mesmo e quando saiu o último chorei baba e ranho, parecia que tinha perdido a última jóia.

Percebeu que precisavam da sua liberdade…
Sim. Desde aí nunca mais fechei um pássaro numa gaiola.

O Pierrot também é um elemento muito presente nos seus quadros. Porque é que o utiliza tanto? Qual o seu significado?
É, isso são os sonhos que nos ficam. A minha mãe era doméstica, fez só a quinta classe, mas era uma mulher extremamente culta, o meu pai era operário, era uma pessoa mais limitada em termos intelectuais. Ela lia muito, procurava saber tudo, falava-me de cinema, era uma mulher realmente culta. E falava-me muitas vezes da célebre história do Pierrot e da Colombina, que ainda hoje há uma música que retrata essa história. E isso foi um imaginário que me ficou, porque são sempre histórias de amor muito magoadas. E a verdade é que o carnaval me faz lembrar o circo e nunca gostei nem de um nem de outro, porque não são tão alegres como parecem. Por trás daquela alegria toda há sempre alguma tristeza. E é o mesmo com a Colombina e com o Pierrot, que passou o resto da vida a chorar porque a Colombina foi com o Arlequim, que era mais malandro. E depois porque são figuras esteticamente bonitas, os fatos são bonitos, eu gosto… Apesar de ser uma coisa que me magoa, gosto de o retratar…

Porque é que o magoa?
Hoje em dia há outro circo, mas a verdade é que cresci a ver e a ouvir as histórias de pessoas do circo que era gente sofrida, miserável, era gente pobre. Os filhos morriam e os palhaços tinham de fazer rir mesmo estando magoados e aquilo mexe comigo. Antigamente eu via pobreza no meio daquilo, as mulheres tinham as meias furadas, as pessoas do circo viviam na miséria… E por isso não é uma coisa que me faça feliz, ainda quando hoje quando penso no circo é uma fantasia que aleija.

E é por isso que utiliza cores tão vivas e garridas? Para tentar contornar essa mágoa?
As minhas pinturas são muito coloridas, muito alegres, há muita musica e muita festa, mas, no fundo, há sempre o falar de qualquer coisa de gente magoada. Se procurarem bem se calhar encontram isso nas minhas telas. Eu prefiro não pintar uma criança com as costelas de fora, mas sim pintá-la com o sonho dela… com o sonho de ter uma bola, de ter um brinquedo, para nos lembrarmos de que ela tem direito a isso. E é por isso que prefiro recorrer às cores fortes e alegres e não ao preto ou cinzento.

Há quem diga que é o Chagall moçambicano…
As pessoas se calhar não conseguem analisar bem a minha obra. Acho que a minha pintura não tem nada a ver com a dele… Tem se calhar no sonho, acho que passa um bocado por aí. A verdade é que nenhum homem é de geração espontânea, a mim ninguém me garante que aquele imaginário não tenha tido influência em mim, longe de mim dizer isso. Até porque temos de ir beber a algum lado. Mas a primeira vez que vi um quadro de Chagall já era um homem adulto, foi em Paris. Mas somos influenciados muitas vezes e não sabemos por quem nem quando. Olha, se calhar Chagall tem um bocado de culpa no meio destas coisas que eu vou fazendo, se calhar tem…

Retrata muito o erotismo e a figura feminina é uma constante. Considera-se um romântico?
Não sei. Agora, para mim há uma coisa: eu acho que a vida toda é um romance, nós crescemos dentro de um romance, somos fruto de um romance, somos frutos de um querer entre duas pessoas, quer isso depois resulte ou não, e somos realmente frutos do amor. Depois o romantismo é a forma como interpretamos, vem da forma como envolvemos as coisas… mas acho que se calhar sou, se calhar sou um romântico.

Há algum quadro pelo qual tenha um gosto especial?
Não tenho nenhum sentimento especial por nenhum quadro. Isto é como os filhos, não há preferência por nenhum. Mas gosto muito do “Jazz Band em compasso de 3×4”, simbolicamente é o espaço de uma cela. Porque, naquela altura, aquilo de que a malta minha amiga gostava era do Swing e usavam umas roupas muito próprias e, vai na volta, passavam a vida a ir para a cadeia. Talvez porque nas reuniões que eles faziam se conspirasse contra as leis do estado ou alguma coisa assim. E as grades da cela fazem mesmo parte da moldura, não são pintadas. Gosto muito deste quadro.

Depois o outro é o “Noite de lua luando”, porque na altura vendi-o por 180 contos à mulher do meu chefe lá do escritório de arquitetura. Passaram-se muitos anos e eu vim para Portugal e ela também acabou por vir. Um dia veio ter comigo e disse-me que ia colocar o meu quadro à venda e perguntou-me se conhecia alguém que o quisesse comprar. Acabei por lhe dizer que lho comprava. Recuperei a minha própria obra por quatro mil contos o que foi muito engraçado, mas é mesmo pelo facto de ser uma história caricata.

Hoje em dia como é que é a sua relação com Moçambique?
Continuo a gostar da minha terra, tenho lá os meus amigos, passei la a minha infância, mas às vezes acontecem coisas estranhas na vida das pessoas que eu próprio não sei explicar. Quando fiz 50 anos, fui convidado para expor em Moçambique, quando foi a visita do presidente brasileiro Collor de Mello. No dia da exposição comecei a receber ameaças, veio uma carta com frases escritas com letras recortadas de revistas. No início não queria acreditar, pensei que era uma brincadeira de mau gosto, mas um fulano lá da Assembleia da República disse-me que era a sério. Eu estava a dormir em casa do Hilário, o jogador do Sporting, dessa vez que fui lá e passei a ter militares armados ao pé da janela do meu quarto.

E o que é que se passava? Porque é que estava a ser ameaçado?
Até hoje não sei. Acho que tinha que ver com o mundo da pintura… Eu que já não estava no país é que fui convidado para fazer uma exposição, ainda por cima com a presença do presidente do Brasil lá, e aquilo não deve ter caído bem a muito boa gente. Só sei que saí daquela terra estilo James Bond. Vê lá que eu só tinha bilhete de ida, aquilo era a crónica de uma morte anunciada. Se queria ir passear tinha de avisar os guarda-costas, foi horrível…

Nunca mais lá voltou?
Voltei depois com o Cavaco Silva e com o Sampaio, mas dessa vez quando saí de lá chorava todos os dias e cheguei a dizer que nunca mais ia a Moçambique. Já lá vão vinte e tal anos, mas continuo a não me sentir lá muito bem. Ali os rancores também se guardam, as pessoas têm dessas coisas. Mas por que razão foi nunca soube.

É uma incógnita que fica…
É, mas a vida é uma coisa engraçada e vale a pena viver bem a vida. Só quero estar bem com as pessoas, quero gostar delas e que gostem de mim, não quero mais nada do que aquilo que tenho. Tive uma infância e uma vida feliz. A vida deu-me aquilo que eu realmente achava que devia ter. Há uma música que me impressionou toda a vida, da Mercedes Sosa que diz assim: “Gracias a la vida que me ha dado tanto”. E a minha vida deu-me tanto. Agradeço aquilo que ela me deu e aquilo que sou hoje. Tenho uma casa de que gosto num sítio do qual gosto, uma família e amigos de quem gosto…

E tem os seus netos também, que daqui a um bocadinho estão aí…
E tenho os meus netos, claro, para me azucrinarem a cabeça. Eu vi-os nascer, e é engraçado que não são netos verdadeiros, são da minha mulher, mas é como se fossem. Fui das primeiras pessoas a ir ver a Maria, que tem 11 anos, ainda por cima é rapariga, é muito bom. Depois tenho o Manuel, com oito anos. Tenho uma relação magnífica com eles. Quando chega as férias dizem sempre à mãe que querem vir para casa dos avós. Há dias em que se pegam um com o outro e mando-os calar, mas depois, quando saem porta fora, uma pessoa pensa: “Epá, fazem falta”.

O Roberto não tem filhos?
Não tenho filhos…comecei pelo fim, tenho netos.

E nunca pensou nisso?
Às vezes pensava nisso e gostava de ter. Esta é a quarta mulher que tenho, imagina que eu ia tendo filhos com cada uma? Eu gosto demasiado de crianças para depois lhes dar problemas. Estar a fazer criaturas para depois magoá-las? Não, isso não… Realmente nunca tive, mas às vezes fico com pena, por acaso, se tivesse um filho gostava de que fosse uma rapariga.

Porquê? Acha que são mais amigas?
Não sei, acho que são mais doces, mais meigas e mais amigas dos pais. Os rapazes começam a criar voz grossa e a falar mal com os pais e as meninas, mesmo depois de adultas, ainda se sentam ao nosso colo, é diferente. Se tivesse gostava de que fosse uma menina. Mas pronto, tenho a Maria que faz o mesmo papel.

Eles já têm dotes para a pintura como o avô ou nem por isso?
A Maria tem algumas coisas engraçadas. Ela no outro dia ficou espantada com estes quadros aqui pendurados [mostra três pinturas, que a neta fez quando tinha quatro anos, emolduradas e penduradas na parede da cozinha]. Ela é um autêntico Miró. Quando entrou aqui na cozinha nem conseguia falar, só dizia: “Ó pai, olha, olha”.

Fez o contrário do que fizeram consigo…
Pois, eu pendurei os quadros dela…

E agora, há projetos para o futuro?
Neste momento estou a trabalhar para uma galeria no Porto. Mas vou começar a pintar menos, pelo menos para exposições individuais. Vou participando em exposições coletivas quando as houver. Mas pintar assim para uma exposição individual é muito stress, depois há dias em que acordo e já não tenho nada cá dentro. Vou continuar a pintar, é certo, mas já tenho 76 anos, tenho de descansar, pintar com calma, estar com os netinhos, relaxar neste terreno, aproveitar este quintal, esta vida pacata. As pessoas pensam que é fácil pintar, que não cansa, mas isso é os pintores de domingo e eu não sou um pintor de domingo. Se calhar daqui a dois anos lembro-me de que quero voltar a pintar, mas logo se vê…

 

(fim)

ANTÓNIO ENNES, CO-FUNDADOR DE MOÇAMBIQUE COLONIAL

Filed under: António Ennes - político português — ABM @ 16:44

 

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28/09/2018

ADOLF HITLER VISTO DE LOURENÇO MARQUES, SETEMBRO DE 1933

Filed under: Adolf Hitler, Hitler e o Futuro 1933, Sobral dos Santos — ABM @ 00:43

O Ilustrado de Lourenço Marques, Nº11, 1 de Setembro de 1933, p.199.

Exactamente oito meses depois da eleição em que Hitler foi nomeado Chanceler e exactamente seis anos antes de invadir a Polónia, iniciando assim a II Guerra Mundial, a opinião de Sobral dos Santos a partir de Lourenço Marques.

Adolf Hitler discursa aos seus fiéis durante a Convenção do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei) em Nuremberga, 1935.

 

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27/09/2018

A CASA MARTINS EM LOURENÇO MARQUES, DE PANCHO GUEDES, 1953

 

Casa Martins em Lourenço Marques, 1953. Pancho Guedes

ANTÓNIO ENNES EM VIAGEM, FINAL DO SÉC. XIX

Imagens retiradas da revista lisboeta Serões, início do Século XX. Do que se pode ler naquela publicação, Ennes aceitou escrever um conjunto de textos sobre algumas das suas experiências e pensamentos, os quais foram acompanhados com fotografias. Neste caso, ilustrando uma das suas viagens à então África Oriental Portuguesa, a que se deslocou de barco, via o Canal do Suez. A meio da publicação da série de artigos, Ennes faleceu, a 6 de Agosto de 1901, em Sintra. Exactamente cinco meses depois, Mouzinho de Albuquerque o seu célebre e improvável companheiro das chamadas “Campanhas de Pacificação” (que consistiram na exterminação selectiva de quem se opusesse à Pax Lusitana) terá posto fim à sua vida numa carruagem em Benfica, um subúrbio de Lisboa.

1 – Ennes em primeiro plano e de monóculo, na cadeira de encosto, com duas pessoas não identificadas.

 

2 – Presumivelmente, o navio em que Ennes viajou na viagem que descreve.

 

3 – no texto de Ennes, a descrição que faz de Porto Said faria corar uma menina de coro.

 

4 – O Canal, então com uma largura navegável de 44 metros. menos que a largura de 190 metros que tem hoje. Foi  Inaugurado em 17 de novembro de 1869, após 10 anos de construção. Permite a um navio que vá da Europa para a Índia poupar semanas de navegação e uma distância de 7 mil quilómetros. Na cerimónia inaugural de 1869  esteve presente como jornalista convidado, o escritor Eça de Queiroz, que fez uma reportagem para o Diário de Notícias de Lisboa

26/09/2018

DOM LUIZ I, REI DE PORTUGAL

Filed under: Dom Luiz I - Rei de Portugal — ABM @ 10:41

 

D. Luiz I. Da ninhada de D. Maria II e D. Fernando. Já se assumia fora da linha de sucessão. Sucedeu ao irmão Pedro quando este morreu envenenado por, no Alentejo, beber água inquinada num poço junto com dois irmãos. Foi rei desde 1861 e até Novembro de 1889, ou seja a dois meses do Ultimato brtânico.

25/09/2018

AMÉRICO TOMAZ, PRESIDENTE DE PORTUGAL, 1958-1974

Filed under: Américo Tomás -Presidente de Portugal — ABM @ 22:58

 

 

Fotografia oficial de Américo Tomas.

O REI D. PEDRO V DE PORTUGAL E A RAINHA ESTEFÂNIA

 

1- A jovem Esttefânia Hohenzollern Sigmaringen, durante o breve periodo em que foi rainha de Portugal.

 

Pedro V. Para mais detalhes, ver aqui.

22/09/2018

GUNGUNHANA, GODIDE, MOLUNGO E ZIXAXA NOS AÇORES, 1904

Imagem colorida por mim.

Postal de 1904, dos exilados Nguni nos Açores. Por estas alturas já aqui estavam há oito anos. Eram, pelos vistos, celebridades locais.

20/09/2018

ASSENTANDO CALÇADA PORTUGUESA EM LOURENÇO MARQUES, 1961

Filed under: Assentando calçada portuguesa em LM — ABM @ 23:23

 

Assentando calçada portuguesa na Avenida Dom Luiz em Lourenço Marques, 1961.

UM DIA NA PRAÇA MAC-MAHON EM LOURENÇO MARQUES, 1961

 

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CARREGADORES NO PORTO DE LOURENÇO MARQUES, 1961

Filed under: Carregadores no porto de LM 1961, LM Cais - Porto — ABM @ 23:05

 

Carregadores no porto de Lourenço Marques, 1961.

O MONHÉ NO INTERIOR E UMA NOTA

Imagem colorida por mim.

 

Imagem na revista Serões, Nº9, página 37, cerca de 1900. O artigo que a acompanha é de gritos.

 

Durante centenas, se calhar mais que mil e quinhentos anos, a fio, o território era fechado, hostil, agressivo,

Mas eles sempre permaneceram lá, desde que primeiro vieram do Médio Oriente, e mais tarde da Índia, na busca de negócios.

Animais selvagens perigosos, inúmeras pequenas tribos com línguas e tradições diversas, frequentemente envolvidas em guerras intestinais entre si e das quais pouco se sabe, pois eles estavam lá logo após as grandes migrações bantu, que terão causado todo o tipo de disrupções na região. O clima frequentemente inclemente, intercalando secas com dilúvios. Não havia estradas, não havia comunicações, não havia pontes para se atravessarem rios. Não havia segurança a não ser a que se conseguia impor e a que se conseguia negociar. As doenças tropicais, mortíferas, davam cabo das pessoas, especialmente as que não tinham defesas contra o que ali aparecia. Não havia hospitais, nem medicamentos, nem curas.

Os negócios principais que faziam eram o tráfico de escravos para o Médio Oriente, os metais preciosos e o marfim para o sub-continente indiano (o maior mercado do mundo na altura), pois o Índico era o seu mar privado.

E ali traficava-se um pouco de tudo – cereais, gado, roupa, armas, peles, pedras preciosas – tudo o que permitisse a troca de bens (no caso da escravatura, das pessoas, que eram consideradas bens) pois na prática não havia moeda, não havia bancos, não havia transferências, não havia crédito.

Tudo era feito a pronto, presencialmente, negociado ali, na hora, entre as partes, com base no que havia para negociar, no conhecimento entre as partes, nas necessidades da hora, nas oportunidades que surgiam.

O que era levado para trocar era trazido do Norte em pangaios, num percurso que podia levar meses,  levado fisicamente da costa para o interior, em pequenos barcos ou, por vezes, longas filas de carregadores, alguns contratados, alguns escravos, guardados por homens armados, da confiança do negociante, quase sempre de origem árabe ou indiana. Durante as viagens, comiam e dormiam junto das suas mercadorias.

O que era negociado era trazido para a costa da mesma forma, a pé, penosamente, embarcado nos mesmos pangaios, que levavam a mercadoria para os mercados nas península arábica e a costa indiana.

Os lucros consideráveis ganhos com os seus negócios ficavam quase sempre todos nos territórios de onde vinham, no Médio Oriente e sub-continente indiano. Nunca construíriam nada em Moçambique. Radicavam-se, mas na maior parte nunca se integraram nem ficavam. Estavam lá, apenas. Falavam as suas línguas de origem, praticavam as suas religiões e, quando se queriam casar, importavam uma jovem lá de onde originaram. E, se pudessem, mandavam os seus filhos para lá serem educados.

Foi assim durante centenas de anos.

No ínício de 1500, o surgimento de um mero punhado de europeus na costa oriental de África, algo insólito, e ao princípio insignificante, causou alguma perturbação, mas não o suficiente para alterar significativamente as coisas. Apenas as complicou um pouco mais os processos, pois a sua vinda perturbou as rotas marítimas, as rotas comerciais e aumentaram os custos e os riscos.

Os brancos que vieram da Europa tinham uma presença muito localizada, em nacos de terra estratégicos, menos vulneráveis aos ataques tribais e propícios ao negócio, como Sofala, Moçambique, Quíloa, Mombasa e outros pontos na costa.

Gradualmente, esses europeus, que queriam uma fatia do negócio, criaram uma bolha de influência, ténue, que se estendia nas rotas marítimas, e à volta e para dentro em relação à pequena Ilha de Moçambique, ao Ibo e às Quirimbas. No interior, o eixo dessa presença, ia, vagamente, até à Praça de Tete.

Mas essa influência era, como se disse, ténue, uma mera gota no oceano. Cedo, perderam as praças que haviam conquistado no Corno de África e em seu redor, até Quíloa. O interior, tal como a costa, eram vastíssimos e porosos e esses tais europeus não tinham qualquer capacidade bélica, meios, pessoal, capital e sequer motivação, para fazerem mais do que já estavam a fazer e que era quase nada. Na maior parte, faziam, a partir na sua fortaleza impregnável na pequena Ilha, crucial para a ligação entre Lisboa e Goa e o Oriente, uma gestão administrativa daquilo que achavam que era seu, dependendo para isso em obscuras alianças com pessoas e potentados locais.

Outros europeus de outras nações começaram, eventualmente, a frequentar as costas orientais de África, à procura de pecúlio e lucros rápidos.

Nas costas, não no interior.

Pois para isso, nessa altura, os asiáticos e os seus descendentes já lá estavam quase há mil anos.

A sua força residia nos seus profundos conhecimentos e contactos, no interior africano, que frequentavam deste tempos quase imemoriais, e nos mercados asiáticos e na costa a partir de Zanzíbar, uma espécie de Dubai primitivo, a que estavam ligados pelo sangue, pela religião, pela cultura e pela língua – e pelos negócios, que obviamente geraram para eles lucros que correspondiam ao esforço dispendido e aos riscos incorridos. Falavam as línguas das tribos por onde passavam e conheciam bem os seus chefes. Nalguns casos, casavam com as suas filhas. Os ocasionais milandos eram resolvidos. A sua presença centenária era um facto da vida naquela região que é agora a África Oriental, até à zona delimitada, a Sul, pela Ilha de Moçambique.

Durante o séculos XVIII e XIX as coisas complicaram-se mais. Primeiro, o número de europeus a frequentar a costa aumentou, o que aumentou o negócio do tráficco de escravos para fora de África, que, agora, para além do Médio Oriente, começou a ser feito também para as Américas. Hoje, muitos americanos, brasileiros, e habitantes das ilhas nas Caraíbas, são descendentes directos dessas pessoas que foram traficadas nas suas costas naquela altura.

Depois vieram os britânicos, a superpotência marítima e comercial, que proibiram, não a escravatura em si, mas o transporte de escravos para o resto do mundo e a sua venda. Mais ou menos. Os próprios europeus guerreavam-se uns aos outros. Foi uma confusão e mudou pouco enquanto Zanzibar não caiu nas mãos dos britânicos (e depois dos alemães). Mas o restante negócio – marfins, etc – continuou, especialmente com o interior, pois, apesar das secas, das fomes, das inundações e das enormes guerras e matanças que ecoaram a vinda, para Norte, dos Nguni, eles eram os únicos que faziam o comércio e tinham os contactos internacionais.

No final do Século XIX, os portugueses, cuja presença havia sido esporádica fora da zona em redor da Ilha de Moçambique, pareciam agora que vinham para ficar, tentanto, em toda a parte, entre tiros e acções de charme, impôr as suas regras, a sua língua e proclamando a sua religião – permitindo, no entanto, que os negócios dos asiáticos continuassem, ainda que mais dissimulados e noutros, novos ramos. Pois de facto não havia alternativa. Afinal, até à terceira década do Século XX, as rotas centenárias dos asiáticos em Moçambique permaneceram as únicas que haviam, nem sequer afectadas com o surgimento gradual do soldado e do cantineiro português, pois até essa altura nem sequer estradas havia para as populações no interior.

Os portugueses conviviam com eles mas consideravam-nos adversários, desprezavam-nos. Subestimavam-nos.

Os asiáticos sobreviveram a breve era colonial portuguesa, adaptaram-se à enorme modernização que ela trouxe (um fenómeno que é frequentemente descontado por conveniência política e dialética) e  prosperaram, criando pequenos negócios, quer enquanto durou, quer quando ela acabou abruptamente em 1974, seguida pela destruição maciça do tecido administrativo, económico e comercial pela Frelimo, que teve o efeito, uns anos depois, de lhes cair quase tudo ao seu alcance, de mão beijada. Agora feitos empresários, com ligações à Frelimo, à Índia, à África do Sul, ao Paquistão, ao Dubai e a Lisboa, transferiram alguns activos e parte da família para estes países mas não sairam de Moçambique, tolerando o pior do chumbo frelimiano e mais tarde compactuando, com os novos donos da terra. A soberania é afinal um negócio muitíssimo melhor que o que havia no esquema colonial.  Estes, não tendo alternativa, sujeitaram-se-lhes e com eles partilham os negócios.

Esta é uma história insólita de sobrevivência, de resiliência, de adaptabilidade e sucesso, de uma minoria que ainda joga cartas no Moçambique actual e que continuará a jogar no futuro previsível.

E a fazer o que sempre fez.

 

18/09/2018

LUIZ FILIPE DE BRAGANÇA, PRÍNCIPE DA BEIRA, NA PRAIA, 1906

Filed under: Dom Luiz Filipe de Órléans e Bragança — ABM @ 21:18

Imagem retocada e pintada por mim, tirada da revista Serões, publicada em Lisboa.

AMÉLIA DE ÓRLÉANS E BRAGANÇA E A SUA IRMÃ HELÉNE, DÉCADA DE 1890

Imagem retocada e colorida por mim.

 

Amélia de Órléans e Bragança já Rainha de Portugal, posa com a sua irmã, a Princesa Heléne de Órléans (futura Duquesa de Aosta e Avó do actual pretendente ao trono italiano), na primeira metade da década de 1890. Porto Amélia, hoje Pemba, tinha o seu nome e a Beira foi assim desgnada em honra do seu primogénito, que visitaria Moçambique em 1907. Por sua vez, Heléne visitaria Moçambique, para caçar e tirar fotografias, EM 1910.

HINDUS EM LOURENÇO MARQUES, INÍCIO DO SÉCULO XX

Filed under: Hindus em LM 1900s — ABM @ 20:53

Imagem colorida e retocada por mim.

 

Mulheres e crianças Hindus em Lourenço Marques, início do Séc. XX.  Na verdade, há em Lourenço Marques, enquanto cidade nascente, três histórias que devem ser contadas: a dos brancos, adequadamente reflectida nos registos coloniais; a dos negros que viviam ali e em redor, que é agora contada de uma forma um tanto enquistada mas enfim; e a dos asiáticos e de origem asiática, que a meu ver está muito mal contada, o que surpreende se se levar em consideração que praticamente metade do espaço urbano original lhes pertencia. Os brancos ocupavam a Rua Araújo e a Rua Consiglieri Pedroso, e os  asiáticos (com várias designações) daí até à muralha Norte, delimitada pelo Pântano do Maé e que tinha como epicentro a Mesquita e a Rua da Gávea. E aí se calhar se fazia tanto negócio como se fazia do outro lado. Quando Lourenço Marques, um buraco miserável, acorda repentinamente quando se descobre ouro e diamantes no Transvaal e no Estado Livre de Orange (Kimberley depois abarbatado pelo Cabo) foram os asiáticos e não os portugueses os negociantes que se radicaram na insalubre urbe – e aguentaram lá, com as suas famílias. Nas minhas leituras, cruzei-me com inúmeros indicadores e descrições da sua presença na época, uma parte através de comentários displicentes de europeus, que não acreditavam no que estavam a ver e ainda que se interrogavam como é que os portugueses aceitavam conviver com “tais gentes” (a habitual conclusão era que se calhar os portugueses não eram bem europeus, mas uma raça inferior qualquer).

SOLDADOS INDÍGENAS EM LOURENÇO MARQUES, 1ª DÉCADA DE 1900

Filed under: Companhia indígena 1900s — ABM @ 19:52

 

Uma companhia indígena em exercícios em Lourenço Marques.

LEOPLDINA DE LACERDA EM MOÇAMBIQUE, 1939

Imagem copiada do espólio do sítio dedicado à memória do poeta Alberto de Lacerda e retocada.

 

Leopoldina de Lacerda, Mãe do poeta Alberto de Lacerda, posa na sua casa em Moçambique, 1939.

ANTÓNIO RITA FERREIRA EM LOURENÇO MARQUES, JULHO DE 1971

Filed under: António Rita-Ferreira 1922-2014 — ABM @ 19:21

O original desta foto está depositado na CC, aqui copiado com vénia.

 

António Rita-Ferreira, aqui com o casaco castanho pintado por mim, posando com um grupo, durante o Segundo Congresso de Sociologia da África Austral, em Lourenço Marques, 2 de Julho de 1971. Algum tempo depois, mudava-se para a casa ao lado da casa onde eu vivia na Rua dos Aviadores. Do outro lado ficava o Núcleo de Arte.

AUGUSTA VITÓRIA DE HOHENZOLLERN-SIGMARINGEN E O CONDE KARL ROBERT DOUGLAS

Augusta Vitória de Hohenzollern-Sigmaringen (19 de Agosto 1890 – 29 Agosto de 1966) era a única filha dos príncipes Guilherme de Hohenzollern-Sigmaringen e Maria Teresa de Bourbon-Duas Sicílias.

Foi a esposa e Rainha Consorte do último Rei de Portugal, D. Manuel II, ficando viúva dele em 1932.

Não tiveram filhos, o que, enfim, nestas coisas das monarquias hereditárias, é sempre visto como, enfim, uma grandessíssima chatice.

Em 1939, Augusta Vitória, com quarenta e oito anos de idade, casou-se em segundas núpcias com o conde Karl Robert Douglas, natural de Constança, Suíça, com cinquenta e nove anos de idade, e divorciado.

Consta que a SM a Rainha Dona Amélia, ficou um nadinha pouco menos que impressionada com o enlace.

Augusta Vitória ficou, novamente, viúva em 1955.

Por alguma razão, tirando algumas fotos da praxe, pouco ou nada se sabe dela, que, pelo menos formalmente, foi rainha de Portugal durante quase vinte anos. E ainda menos do Conde. Encontrar esta imagem dos dois, que retoquei, foi uma estafa.

 

Augusta Vitória, a última rainha portuguesa, com o então segundo marido, o Conde Karl Robert Douglas.

MORADIA DE LOURENÇO MARQUES DESENHADA POR PANCHO GUEDES

 

Casa desenhada por Pancho Guedes em Lourenço Marques.

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