THE DELAGOA BAY WORLD

10/11/2020

JOÃO DE SOUSA, 1947-2020

Filed under: João de Sousa - jornalista — ABM @ 01:24

Faleceu no dia 26 de Outubro de 2020 em Maputo o jornalista e personalidade da rádio, João de Sousa. Tinha 73 anos de idade e deixa mulher e penso que dois filhos.

Em jovem, assisti ao surgimento e rápida ascenção do então jovem João de Sousa na rádio de Lourenço Marques, resultante da sua voz serena e aveludada, dicção quase perfeita e presença. Depressa fez disso a tónica da sua carreira. Por volta de 1974, quando ocorreu a brusca mudança de regime, ele, que já era um figura conhecida em quase todo o Moçambique, alinhou pelo nascente regime da Frelimo e, navegando por entre os pingos da chuva (de que destaco a sua divertidíssima versão de como foi quase raptado” durante os nefastos eventos do 7 de Setembro de 1974, presumo que como forma de não ser ostracizado pela ditadura da Frelimo) prosseguiu a sua carreira dentro do possível, chegando a ser administrador da Rádio Moçambique, que entretanto se tornou no canal privilegiado da propaganda do regime até aparecer a concorrente TVM (concorrente, durante anos, apenas nas poucas cidades onde o sinal da televisão aparecia).

Afirmando-se nacionalista, João fazia questão de criticar o regime anterior, o que era – e é – demasiadamente fácil, mas coibia-se de comentar tudo o que se seguiu, o que, aliás, se calhar era como teria que ser. Ainda assim, afirmar que ele foi descriminado por não ser branco no tempo colonial é, penso, um pouco hiperbólico. Eu acho que não. Mas ele lá sabia.

Nos quase quarenta anos que se seguiram a 1974, João valorizou como pôde o que se foi fazendo em Moçambique, emprestando a sua qualidade profissional ao mesmo tempo que omitindo o passado que havia testemunhado, até se reformar da Rádio Moçambique, altura em que, presumo que para se manter ocupado, começou a escrever umas crónicas simpáticas e interessantes em que (afinal) referia o notório passado desportivo e as personalidades que o fizeram e com quem conviveu de perto. Muitos que se lembravam dele antes da Independência, quase todos hoje pelo menos sexagenários e vivendo fora de Moçambique, liam essas crónicas com prazer e até saudade – ou saudosismo. Frequentemente, copiava fotografias dos meus blogues de Moçambique para ilustrar o que dizia.

Penso que nunca mais falámos desde a minha infância.

Nas emissões que a Rádio Moçambique o deixou fazer até finalmente lhe cortarem algo abruptamente o último programa que ainda produzia, há poucos anos, ainda o ouvi algumas vezes. A mesma voz suave e aveludada, a mesma presença, a mesma qualidade de sempre.

João de Sousa “entrevistado” pelo meu Pai em Lourenço Marques, década de 1960. O meu Pai sempre se referiu ao João com enorme afecto.

João faleceu cedo demais, infelizmente.

À sua Família, desejo que guardem as mesmas boas memórias que retenho dele.

Aspecto do velório de João de Sousa no antigo Parque José Cabral. Imagem a preto e branco colorida por mim.

03/10/2020

RÁDIO-AMADORA LÚCIA SANTOS TOMÉ, 1954

Filed under: Lúcia Santos Tomé Rádio-operadora — ABM @ 19:16

Imagens retocadas.

 

Postal de confirmação de recepção da rádio-amadora da Beira, Lúcia Santos Tomé, 1954. Aqui, indica ao rádioamador W8JJW, situado algures nos Estados Unidos da América, ter escutado a sua emissão às 20:20 horas GMT do dia 27 de Março de 1954, na frequência de 14.000 Mhz em onda curta. Todos os rádioamadores que operavam em Moçambique tinham um número de identificação que começava com CR7. O de Lúcia era CR7LU.

 

Lúcia na sua sala de rádio. Obteve a sua licença de rádio-amador em 1952 e era uma popular YLRO (Young Lady Radio Operator), trabalhava nos CTT da Beira e quando não se estava a divertir a comunicar com outros operadores em todo o mundo, mantinha as comunicações com as aeronaves na região. Durante os anos, ganhou os prémios DXCC, WBE, WGSA e BERTA.

TÁXI GIRLS EM LOURENÇO MARQUES, 1933

Filed under: Táxi Girls de LM 1933 — ABM @ 19:13

Imagem retocada e colorida por mim.

 

Quatro Táxi Girls em Lourenço Marques, 1933. Estas mulheres trabalhavam nos casinos e dancing halls de Lourenço Marques, em que dançavam com um homem que pagasse um bilhete uma dança.

09/09/2020

A MIGRAÇÃO DE LOUIS TREGARDT, 1835-1838

Imagem retocada. Texto adaptado do texto publicado aqui, vastamente editado.

O mapa do êxodo do grupo de Louis Tregardt da Colónia do Cabo para o Norte é indicado em roxo e acaba na actual Cidade de Maputo, assinalada no mapa como Delagoa Bay.

Introdução

A migração de alguns grupos de farmeiros boer a partir da Colónia britânica do Cabo entre 1830-1854, acabando por forjar a identidade afrikaner e fundar três repúblicas boer entre aquela colónia e o que é hoje o Sul de Moçambique, foi um dos eventos seminais que dominariam a história da região nos quase 150 anos que se seguiram, com a particularidade de não ter sido uma colonização patrocinada por uma potência europeia. De facto precedeu-a em cerca de 50 anos. Pelo contrário, a migração dos boers do Cabo para Norte, foi uma reacção anti-colonial em relação à Grã-Bretanha e eventualmente levou a várias guerras entre boers e ingleses e, já no Século XX, a um recrudescimento e exaltação da identidade, da religião e do nacionalismo boer, mesmo dentro de um contexto colonial britânico, que eventualmente desembocou na eleição de uma coligação pró-boer em 1948 (que praticamente coincidiu com a inauguração, no ano seguinte, do Monumento Voortekker, nos arredores de Pretória, que exaltava ) na emanação da legislação conhecida como apartheid durante a governação do Dr. Verwoerd (assassinado por um activista nascido em Lourenço Marques em 1966) e na constituição da República da África do Sul em 1961 sob o controlo da minoria boer.

O Monumento em memória dos Voortrekkers, nos arredores de Pretória. Inaugurado em 1949, celebra a identidade boer e a sua história. Vale a pena visitar pois ajuda a entender um pouco melhor a história da África do Sul.

Até 1994, a maioria negra sul-africana era discriminada e estava legalmente impedida de participar na governação do país. Os boers só negociaram a mudança para a maioria negra após a queda do comunismo sovético, a partir de 1989 e após um longo período de resistência.

Hoje é demasiadamente fácil, e até considerado politicamente correcto, descontar o fenómeno boer e inscrevê-lo na categoria geral da dominação colonial europeia no continente africano. Na África do Sul, decorre uma verdadeira batalha para rever e apagar partes dessa história, nalguns casos justificadamente, noutros não. Este é um problema que só pode ser resolvido pelos sul-africanos.

Em baixo, refiro a viagem, relativamente mal sucedida, de uma dessas migrações, a do grupo de Louis Tregardt, por quatro razões.

A primeira, é que a expedição Tregardt acabou em Lourenço Marques em 1838, com a morte de Tregardt, da sua mulher e dos últimos sobreviventes.

A segunda é que, por um conjunto de razões, pela mão do historiador Alfredo Pereira de Lima, em 1968 foi inaugurado em Lourenço Marques um monumento evocativo de Tregardt e da sua expedição, junto ao local onde se situava o primeiro cemitério da então pequena localidade, onde foram sepultados os restos mortais do “pioneiro” boer. Esse monumento permanece intacto na Baixa de Maputo, e pode ser visitado.

A terceira razão é que, improvavelmente, Tregardt terá sido o único líder de uma migração boer que manteve um diário no qual que registou o dia-a-dia dessa migração. Retrata um mundo que, quase duzentos anos mais tarde, é quase incompreesnsível para as gerações actuais.

Finalmente, destaca o impacto significativo que os eventos da África do Sul, que permanece o “vizinho gigante” de Moçambique, tiveram na evolução do que se tornou numa colónia portuguesa e depois na República de Moçambique em 1975 e ainda nos anos seguintes.

A Migração Tregardt

Louis Johannes Tregardt (10 de agosto de 1783 – 25 de outubro de 1838), também escrito Trichardt, foi um agricultor de ascendência holandesa-huguenote (que foram os primeiros colonos brancos no Cabo, a partir da década de 1650) oriundo da fronteira oriental da Colónia do Cabo, que mais tarde se tornou um dos primeiros líderes da série de migrações Boer (chamados, no original afrikaans, “voortrekkers” ou “trekkers”), ocorrida a partir de meados da década de 1830, em resultado da rejeição, por estes, da Pax Britânica.

Procurando evitar a que consideravam a odiada autoridade na Colónia britânica do Cabo, tomada pelo Reino Unido no decurso das guerras napoleónicas, Tregardt emigrou do Cabo em 1834 para ir viver entre os Xhosa, antes de cruzar o rio Orange, entrando assim, em território considerado “neutro”, isto é, fora da alçada da Colónia do Cabo e do império britânico.

A sua jornada para o norte, junto com um companheiro boer chamado Johannes van Rensburg, começou no início de 1836. Trechardt liderou um pequeno grupo de emigrantes, composto por oito fazendeiros bôeres, as suas esposas, um total de 34 filhos, alguns escravos bosquímanos (africanos originários da zona do Cabo), vários servos bantus (que à primeira oportunidade pisgaram-se), e o seu gado, dirigindo-se em nove carroças puxadas por bois para o interior numa direcção para Nordeste do Cabo, para uma região até então inexplorada (pelos europeus) e que hoje compõe mais ou menos a parte da África do Sul junto à fronteira a Nordeste, encostada a Moçambique e ao Zimbabué.

Durante um ano, o grupo ficou mais ou menos acampado numa base nessa zona a que chamaram Zoutpansberg.
Neste ponto mais ao norte do que acabaria por a ser a sua longa jornada, as condições insalubres e um clima de guerra tribal, começaram a afectar homens e animais. Aparentemente abandonado por uma caminhada posterior, e distante de locais onde podia obter suprimentos e encontrar compradores para o seu marfim (que era de onde vinha o dinheiro) Tregardt abandonou o acampamento e conduziu o seu grupo para sudeste, até eventualmente chegar ao pequeno Presídio de Lourenço Marques, na altura uma espécie de posto avançado português, constituído uns cinquenta anos antes numa língua de terra na parte Norte da Baía do Espírito Santo, a que os britânicos chamavam Delagoa Bay.

A passagem de Tregardt por estas regiões coincidiu com uma altura de enorme efervescência social e violência política africana, com guerras terríveis, secas persistentes e migrações tribais.

A rota seguida para chegarem até ao oceano provou ser muito mais árdua de percorrer e incluiu o desafio de atravessar uma seçcão ao Norte da cadeia montanhosa dos Drakensberg. Apesar de eventualmente ter chegado ao Presídio de Lourenço Marques, vários de seus companheiros contraíram malária e morreram pelo caminho. A esposa de Tregardt morreu junto do Presídio de Lourenço Marques em Maio de 1838, seguida pelo próprio Tregardt seis meses mais tarde.

Tregardt coordenou os seus movimentos com os do seu amigo e também Voortrekker, Hendrik Potgieter, que era suposto seguir o seu percurso. Tregardt começou a jornada para o norte e foi acompanhado pelo grupo de Johannes (Hans) van Rensburg. Tregardt e Van Rensburg foram os primeiros Voortrekkers a passar perto de Thaba Nchu, onde a tribo Barolong do chefe Moroka II residia.

Ao chegar a Strydpoortberg, na actual província sul-africana de Limpopo, Tregardt e Van Rensburg separaram-se, depois de Tregardt ter argumentado que Van Rensburg estava a desperdiçar as suas munições na caça aos elefantes para obter marfim (presumivelmente, em vez de para proteger o seu grupo). Van Rensburg e o seu grupo de quarenta e nove pessoas seriam chacinados em Junho de 1836, por uma milícia de Soshangane (ou Manicuse, o lendário líder do império de Gaza, então no seu zénite), junto de um braço do rio Limpopo, após um ataque nocturno.

Tregardt permaneceu no promontório ocidental de Zoutpansberg entre Maio e Agosto de 1836, onde foi visitado pelo grupo de Potgieter, que lhe garantiu que logo o alcançariam e se juntariam ao seu grupo. Potgieter partiu então para o Norte à procura de Van Rensburg, que não encontrou. Em Julho, Tregardt iniciou a busca na direção leste e alcançou o curral de Sakana no Limpopo, perto de onde o grupo de Van Rensburg foi provavelmente dizimado. Aqui, considerando estar em perigo e prestes a cair numa cilada das populações locais, Tregardt decidiu voltar para trás, quase certo do destino trágico de Van Rensburg.

Em Novembro de 1836, Tregardt mudou o seu acampamento para Leste, onde encontrara um clima mais agradável, nas proximidades da, mais tarde, cidade de Schoemansdal e Louis Trichardt, outrora conhecida pelas tribos locais como Dzanani. O seu grupo permaneceria ali até Junho de 1837. Ali construíram casas rudimentares, uma oficina e uma escola para vinte e uma crianças.

Foi aqui que Tregardt teria intervindo na luta pela sucessão entre os filhos dum falecido chefe local, Mpofu. Tregardt teria ajudado seu filho Rasethau (ou seja, Ramabulana) a chegar à chefia da sua tribo, derrotando o seu irmão mais novo, Ramavhoya. Por razões desconhecidas, as páginas do relato de Tregardt sobre este incidente específico foram, no entanto, arrancadas do diário que mantinha. Em resultado deste apoio, e para proteger Tregardt contra grupos de assalto dos Matabele, Rasethau deu a Tregardt liberdade para ocupar algumas terras e garantiu-lhe o acesso a áreas de caça. Na altura, o grupo de Potgieter, atrasado por conflitos mais ao sul, estava distante.

Entre Junho e Agosto de 1837, o grupo de Tregardt acampou a leste do rio Doorn (actual fazenda do rio Doorn), e em seguida partiu de Zoutpansberg para tentar encontrar uma nova base e uma rota comercial para chegar ao mar. As suas comunicações esporádicas com os portugueses em Lourenço Marques indicavam que seria bem-vindo e ainda que a costa leste era escassamente povoada.

Tregardt decidiu rumar ao sul da Baía do Espírito Santo, evitando a região do Limpopo, onde o grupo de Van Rensburg fora assassinado e onde as moscas tsé-tsé eram endémicas nas zonas mais baixas. Tregardt chegou ao rio Olifants via Chuniespoort em 2 de outubro de 1837 e consultou o chefe Sekwati do povo Pedi quanto a que caminho deveria seguir. O chefe Sekwati visitou o grupo de forma cordial e amigável e avisou que a rota para o leste estava obstruída por montanhas intransitáveis, e sugeriu que eles deixassem as suas carroças para trás e prosseguissem a pé. Tregardt, agora com 54 anos, no entanto, estava decidido a cruzar as montanhas com as suas carroças, mesmo que elas tivessem que ser desmontadas e transportadas individualmente em peças.

O grupo de Tregardt procedeu a fazer o seu próprio reconhecimento das encostas cada vez mais acidentadas que circundam o Olifants e encontrou uma encosta transitável que conduzia ao cume, depois de se ter que cruzar o Olifants várias vezes. Os vagões, às vezes parcialmente desmontados e arrastados sobre galhos, foram levados até à crista dos Drakensberg , uma empreitada que levou dois meses e meio a completar.

Uma vez acampado na zona mais baixa do outro lado dos Drakensberg, (“Lowveld”) eles encontraram os habitantes locais, os Sekororo. Durante o dia, eles eram presenteados com potes de cerveja marula pela tribo Sekororo, mas à noite os membros da mesma tribo roubavam repetidamente o seu gado. Sem encontrar outra maneira de recuperar das suas perdas e de forma a evitar ter mais delitos com os Sekororo, Tregardt recorreu a aprisionar alguns membros da tribo e usá-los como reféns.

A etapa final de trezentos quilómetros da jornada para a Lourenço Marques começou em 5 de fevereiro de 1838, e o rio Olifants foi atravessado pela 14ª e última vez. Aqui, os súbditos Sekororo, sob a égide de Ngotshipana, vieram-se desculpar e conseguiram garantir a libertação dos quatro reféns, presenteando Tregardt com duas grandes presas de elefante. As tribos para além do rio Blyde garantiram a Tregardt as suas boas intenções, e a velha chefe Mosali pediu a Tregardt para arbitrar uma disputa com seu o rival, Magupe. Uma tribo local também auxiliou o grupo a atravessar uma parte do percurso. Os rios Klaserie e Sand foram atravessados em sucessão, e a região que integra actualmente a parte central do Parque Nacional Kruger foi atravessada sem incidentes. A leste da cordilheira dos Montes Lebombo, encontraram várias aldeias do povo Gwamba. Todos os seus habitantes eram amigáveis; eles e seu chefe, Makodelana, ofereceram a Tregardt vários presentes.

O grupo alcançou o rio Incomáti cerca de dois meses depois do início da jornada no (mais tarde chamado) Lowveld. Foi difícil cruzar o rio e vários dos animais foram perdidos ou roubados durante a travessia. Mais tarde passaram por um posto avançado português e continuaram ao longo de pântanos, lagoas e aldeias de tribos costeiras, até chegarem ao pequeno e miserável Presídio de Lourenço Marques, no dia 13 de Abril de 1838.

Cinco anos antes, o Presídio fora atacado e completamente destruído por tribos locais.

Louis Tregardt faleceria em Lourenço Marques a 25 de Outubro de 1838.

O Monumento Memorial Louis Tregardt na Baixa de Maputo, a dois quarteirões da Praça da Independência, junto ao local do primeiro cemitério de Lourenço Marques (que na verdade ficava sob o prédio que está à esquerda. Enfim) onde Tregardt, a sua mulher e alguns companheiros foram sepultados.

Como referi, Tregardt teve a particulardiade de ter sido o único líder Voortrekker a manter um registo escrito diário da sua jornada, um precioso documento em termos de linguística e etnologia, para além das suas muitas observações sobre os padrões climáticos, a geografia, a vida selvagem do interior e o mundo que encontrou. O documento, que, de alguma forma, sobreviveu a longa e penosa saga do grupo e a própria morte de Tregardt, detalha as suas reflexões pessoais sobre as interações sociais e experiências do dia a dia da sua pequena comunidade, escrito numa forma de holandês corrupto que evoluiria para a actual língua dos boers, o afrikaans.

A cidade sul-africana de Trichardtsdorp foi assim nomeada em sua homenagem em 1899, assinalando sua estada de um ano na base do Zoutpansberg. Em Mpumalanga, uma cidade chamada Trichardt está situada ao longo da sua rota para o Norte. Como um pouco por toda a África do Sul, mas nestes casos ainda mais, decorre há alguns anos uma verdadeira “batalha toponímica” para se alterarem os nomes das localidades para designações não boer, o que dava para escrever um artigo separado.

Boa sorte aos envolvidos. A verdade é que mudar nomes não muda a história do que aconteceu. Mas se alguns dormirem melhor à noite por causa disso, tanto melhor.

08/09/2020

PAUL KRUGER – BREVE ESBOÇO BIOGRÁFICO

Imagens retocadas.

Este é um breve esboço da vida de Paul Kruger, baseado num resumo que encontrei, e ilustrativo do impacto dos britânicos e do boers na história do Sul de África, com consequências para o que é, actualmente, Moçambique.

Parte da estátua evocativa de Paul Kruger, no centro da Church Square, uma praça situada no centro de Pretória. Por causa da guerra, a estátua esteve apeada durante anos num armazém no porto de Lourenço Marques, até ser finalmente levada para Pretória, onde por enquanto permanece.

Primeiros anos de vida

Stephanus Johannes Paulus Kruger nasceu em 10 de outubro de 1825 na fazenda do seu avô, Bulhoek Steyn, no distrito de Steynsburg (nomeado a partir do seu apelido), no Cabo Oriental, e cresceu na fazenda Vaalbank. Em toda a sua vida, ele só teria três meses de educação formal, o que não obstou a uma longa carreira política. Vaalbank era uma área agrícola acidentada, onde o jovem Paul aprendeu muito sobre a natureza. Quando a Grande Jornada dos Boers para Norte (o “Great Trek”) começou em 1836, para escaparem à soberania britânica, imposta na Colónia do Cabo desde o início do século XIX, o pai de Kruger, Casper Kruger, juntou-se ao grupo do “pioneiro” boer Hendrik Potgieter e a família Kruger mudou-se para o que mais tarde ficou conhecido como o Transvaal, com o objectivo de ali estabelecer um estado independente.

O pai de Paul Kruger decidiu estabelecer-se numa área hoje conhecida como Rustenburg. Por sua vez, Paul teve o direito de obter uma fazenda para si, tendo escolhido uma propriedade situada na base das montanhas de Magaliesberg onde se estabeleceu em 1841, com 16 anos de idade. Um ano mais tarde, casou-se com Maria du Plessis e o casal mudou-se para o Transvaal Oriental, junto à fronteira com o que é hoje o Sul de Moçambique.
Paul Kruger e sua pequena família voltaram mais tarde para Rustenburg e a esposa de Kruger e seu filho pequeno morreram logo a seguir, presume-se que devido à malária, endémica na região. Paul Kruger casou em seguida com Gezina du Plessis, de quem teve sete filhas e nove filhos e que morreria em 1901. Muitos dos filhos de Kruger morreram na infância.

Kruger surge como líder

Eventualmente, as fortes qualidades de liderança de Paul Kruger começaram a tornarem-se aparentes, primeiro com a sua nomeação para o cargo de Comandante-Geral da então República da África do Sul, mais tarde conhecido como Transvaal e depois quando ele foi nomeado membro de uma comissão do Volksraad, o Parlamento, que tinha a tarefa de redigir uma constituição. Diz-se que mais tarde ele desempenhou um papel importante na resolução de uma disputa entre o líder do Transvaal, Stephanus Schoeman, e Mathinus Wessel Pretorius, o primeiro Presidente do Transvaal.

O Vice-Presidente do Transvaal, 1874

Enquanto a África do Sul atravessava o primeiro período de enriquecimento súbito e migração com a descoberta de um gigantesco filão de diamantes em Kimberley, na fronteira entre o Estado Livre de Orange e o Cabo, com 48 anos de idade, Paul Kruger renunciou ao cargo de Comandante-Geral em 1873 e não assumiu nenhum cargo político durante algum tempo.

O Conselho de Administração da De Beers, 1888. Sentado ao centro, Cecil Rhodes, que, juntamente com um conjunto de magnatas, desempenhou um papel crucial na África do Sul a partir de 1870.

Ele retirou-se para sua fazenda, Boekenhoutfontein. O seu afastamento da política, no entanto, durou apenas um ano, altura em que ele foi eleito para o Conselho Executivo. Pouco depois, tornou-se Vice-Presidente do Transvaal. A vida de Kruger permaneceria centrada na política entre 1877 e 1882. Nessa época, Kruger liderou um movimento de resistência e se tornou-se o líder de uma comissão. A primeira guerra Anglo Boer ocorreu em 1880 e as forças britânicas foram derrotadas em Majuba em 1881. Nessa altura, no âmbito dessa comissão, Kruger foi fundamental nas negociações encetadas com os britânicos, que mais tarde levaram à restauração do Transvaal como um estado independente, ainda sob o domínio britânico.

Presidente Kruger

Em 1882, Paul Kruger, agora com 57 anos de idade, foi eleito Presidente do Transvaal. Ele partiu para a Inglaterra em 1883 para renegociar a Convenção de Pretória de 1881, um acordo que fora alcançado entre os Boers e os Ingleses no final da primeira Guerra Anglo Boer. Nessa altura, adquiriu vários aliados na Europa. Na Alemanha, por exemplo, participou num banquete em que foi apresentado ao então imperador, Guilherme I, e conversou longamente com Bismarck.

A descoberta de Ouro

Em1886, a descoberta no Witwatersrand do que viria a ser considerado o maior filão de ouro jamais descoberto no planeta, mudou radicalmente o clima político no Transvaal e não só, despertando novamente a cobiça britânica. Muitos caçadores de ouro de todo o mundo migraram para a África, bem como investidores e um exército de profissões afins. A República do Transvaal considerava os caçadores de ouro como ‘uitlanders’ (estrangeiros).

Para Leste, a 500 quilómetros em linha recta junto do mar, estava um lugarejo dormente e poeirento ocupado pelos portugueses – Lourenço Marques.

Lingotes de ouro obtidos no Witwatersrand, onde na altura surgiu a metrópole de Johnannesburg, provavelmente escavados por mineiros recrutados em Moçambique através da WENELA (Westerrn Native Labour Association). Durante décadas, os Magaíças constituiriam a base laboral das minas de ouro sul-africanas. Por as principais moedas do mundo industrializado serem baseadas no padrão de ouro, o metal precioso extraído na África do Sul teve um impacto enorme na economia e finanças mundiais.

O Raid Jameson

A liderança de Kruger, que no fim da primeira semana de Julho de 1895 inaugurara solenemente a nova linha férrea entre Lourenço Marques e Pretória, uma velha e grande obsessão sua e muito para desgrado dos imperialistas britânicos, foi posta à prova no final desse ano, quando ocorreu o chamado Jameson Raid, liderado pelo Doutor Starr Jameson, um aliado do político e magnata britânico Cecil Rhodes e cujo objectivo era tornar o Transvaal e o Estado Livre de Orange novamente em colónias britânicas. Tal como Rhodes, Jameson mais tarde tornar-se-ia primeiro-ministro da Colónia do Cabo. Em dezembro de 1896, um grupo resultante do ataque mal sucedido, iniciou um processo deliberado de deterioração das relações entre os britânicos e os bôeres que acabou levando à segunda guerra anglo-boer. No entretanto, Kruger foi eleito Presidente do Transaal e re-eleito três vezes, ocorrendo a sua última reeleição em 1898.

A Segunda Guerra Anglo-Boer, 1899-1902

A segunda Guerra Anglo-Boer, também conhecida como Guerra da África do Sul, começou em 11 de outubro de 1899 com um ataque dos boers às tropas britânicas estacionadas no território.

A residência do Cônsul britânico em Lourenço Marques, 1901. Actualmente a Embaixada britânica em Maputo, foi aqui que, em Dezembro de 1900, o então jovem Winston Churchill veio pedir assistência após a sua “espectacular” fuga de Pretória, escondido numa carruagem de um comboio que se dirigia para a capital da colónia portuguesa. Hoje, existe na fachada do edifício uma placa a assinalar o histórico evento.

Paul Kruger participou na última sessão do Volksraad (o parlamento) e em 29 de Maio do ano seguinte, fugiu de Pretória quando o exército britânico, liderado por Lord Roberts, avançou sobre a capital.

Uma das curiosidades “lusófonas” do Transvaal foi que o Ministro da Guerra do Transvaal durante a Segunda Guerra Anglo-Boer era Louis de Souza, um descendente de portugueses (ver em cima). Outra é a presença do jovem Fernando Pessoa em Durban durante parte do conflito na África do Sul, onde vivia (e que, penso, nunca mencionou). Ou seja, a meio, a família foi de férias a Portugal, durante mais que seis meses. Mais tarde (1910) a sua Mãe e Padrasto iriam viver para Pretória, onde o padrasto foi o cônsul de Portugal local até ali falecer em 5 de Outubro1919. A sua Mãe, que na altura regressou a Portugal, tivera um AVC ali em Dezembro de 1915, ficando, posteriormente, praticamente inválida.

Ele permaneceu na clandestinidade durante semanas e eventualmente, refugiou-se com os seus aliados europeus, enquanto a guerra continuava.

A pequena estção ferroviária de Nelspruit, 1898. Kruger passou por aqui a caminho do seu exílio.

Em 20 de Setembro de 1900 deslocou-se para a pequena e então fervilhante Lourenço Marques neutral no comboio presidencial e, após delicadas negociações, em 20 de Outubro partiu de Lourenco Marques para a Europa a bordo do couraçado militar holandês De Gelderland, enviado pela rainha Guilhermina até à capital da colónia portuguesa para o recolher.

A estação ferroviária de Lourenço Marques, 1900. Fica situada a cerca de 100 metros da actual estação de Maputo, dentro da zona agora reservada aos serviços portuários.

A sua mulher, Gezina Kruger estava muito doente quando o grupo deixou o Transvaal e não pôde acompanhá-lo. Ela morreria em Pretória a 20 de Julho de 1901. Na mesma altura, 5 dos seus 8 filhos sobrevivos (eles tieram 16 filhos) morreram numa questão de dias, quiçá, em parte, pelos mau tratos infligidos pelos invasores britânicos.

Aspecto da zona portuária de Lourenço Marques, tal como era por volta da Segunda Guerra Anglo-Boer. Nessa altura, a marinha britânica bloqueou a Cidade, ninguém entrava ou saía sem autorização dos britânicos.

 

Dois navios da companhia alemã Deustche Ostafrika Linie (DOA), o Kronprinz e o Peters, ancorados ao largo na Baía de Lourenço Marques, 1901. O Cais Gorjão só viria uns anos mais tarde, permitindo a atracagem dos navios.

O grupo de Kruger desembarcou na Cidade francesa de Marselha, recebido apoteoticamente por cerca de 60 mil pessoas. O mundo inteiro seguia a guerra dos boers na África do Sul pelos jornais, dia a dia, alimentado por imagens e relatos do conflito, enviados por telégrafo, uma relativa novidade. De seguida ele viajou pela Europa e até à propriedade Oranjelust, em Utrech, nos Países Baixos, onde permaneceu até ao final da guerra. Foi aqui que ele recebeu a notícia da assinatura do Tratado de Vereeniging, assinado a 31 de Maio de 1902. Depois de passar uns meses na Riviera francesa, Kruger mudou-se para Clarens, na Suíça, onde permaneceu os últimos seis meses da sua vida, falecendo em 14 de julho de 1904 de uma pneumonia. Os seus restos mortais foram transportados de volta para uma África do Sul meio destruída e já unida à força pelo império britânico, o seu país novamente uma colónia britânica. Com a autorização dos britânicos, seria sepultado em 16 de dezembro de 1904, no cemitério da Church Street, em Pretória, rodeado pelos seus apoiantes, o seu caixão envolto na bandeira do país que antes ajudara a criar.

A bandeira da África do Sul, utilizada entre 1928 e 1994, revela bem os resquícios do conflito anglo-boer, A bandeira do Transvaal é a pequena bandeira que se vê à direita, ao centro a bandeira do Estado Livre de Orange. Mesmo na actual bandeira em vigor na África do Sul, supostamente, três das cores ali presentes especificamente evocam as duas antigas repúblicas boer.

05/09/2020

CARTA RÉGIA NOMEANDO O GOVERNADOR DE MOÇAMBIQUE, 1752

Carta enviada pelo rei D. José I (governou Portugal entre 1750 e 1777) a Francisco de Mello e Castro, que foi Governador de Moçambique (na acepção da altura, nada a ver com o que Moçambique é hoje) entre 1750- Março de 1758, o que na altura era um mandato longuíssimo. A carta, datada de 23 de Abril de 1752 e cujo original está depositado num dos arquivos portugueses, era mais ou menos ditada pelo rei, preparada pelos assessores e assinada “rei” pelo monarca. Neste caso. nomea-o Governador e Capitão General de toda a costa situada entre Lourenço Marques e Cabo Delgado e ainda do interior (boa sorte). No fim da segunda página vem uma curta “cábula” para o rei saber o que estava a assinar.

Francisco foi o primeiro Capitão-General do território.

Segundo os registos, por altura do envio desta carta, Mello e Castro já estava em funções na Ilha de Moçambique desde 1750.

D. José I foi o monarca do Marquês de Pombal, dos Távoras, do terramoto de Lisboa e de mais meia dúzia de maleitas. Supostamente era absolutista (por delegação de poderes, presume-se) e ao mesmo tempo iluminista.

 

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02/09/2020

MARIA CARLOTA QUINTANILHA COM OS ALUNOS NA ESCOLA GENERAL MACHADO EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Imagem retocada e pintada por mim.

Maria Carlota Quintanilha foi uma dos professores memoráveis da Escola Preparatória General Joaquim José Machado (“a José Machado”), situada numa ruazinha na fronteira entre a Polana e a Maxaquene, em Lourenço Marques. Talvez isso ajude (um pouco) a explicar a presença de apenas um aluno de raça negra na fotografia. Uma curiosidade que hoje pode ser considerada obsoleta é que, obrigando a escola ao uso de uma farda meio militarizada (eu andei lá e achava-a simplesmente horrível) todas as balalaicas que aparecem na fotografia eram feitas manualmente em alfaiates. No meu caso, foi a minha mãe que a costurou em casa(fez duas), depois de comprar pano na Baixa.

A fotografia foi tirada na parte traseira da Escola, podendo-se ver atrás as salas de aula de trabalhos manuais.

Se o Exmo. Leitor conhecer algum dos presentes (ver a mesma fotografia numerada em baixo), por favor escreva uma nota para aqui.

 

A fotografia, numerada. Maria Carlota Quintanilha corresponde ao número 7.

Surpreendi-me de encontrar um esboço biográfico da Professora Quintanilha e do irmão, que deslumbram e seguem, com retoques:

Maria Carlota de Carvalho Quintanilha nasceu no dia 11 de Novembro de 1923, em Coimbra. É filha da bióloga Maria Suzana de Carvalho e do cientista Aurélio Quintanilha (este açoreano de nascimento).

Após o divórcio dos pais, ficou a viver com o pai. Quando este se exilou na Alemanha e em França, devido ao facto de ser contra o Estado Novo, ela e a irmã foram com ele. A sua madrasta, Lucya Tiedtke, mãe do seu irmão Alexandre Quintanilha [ver em baixo], terá uma forte influência na sua educação. O início da Segunda Guerra Mundial faz com que regresse a Portugal, onde irá morar em Lisboa com a mãe, que era professora no Liceu Feminino Filipa de Lencastre.

Depois de concluir o ensino médio, Carlota Quintanilha começou a estudar arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Sentindo que não é bem aceite no meio académico lisboeta por ser mulher, transferiu-se para a equivalente no Porto, onde se forma em 1953, com 17 valores. O seu projecto final, um jardim infantil em Vila real, mostra a sua preferência por uma arquitectura moderna. No mesmo ano, casa-se com João José Tinoco e parte com ele para para o Cunene, no sul de Angola. Lá trabalhou como arquitecta e em projectos com o marido.

Em 1956, Quintanilha e Tinoco mudaram-se para Lourenço Marques (hoje Maputo). Lá, ensinou design e geometria descritiva em várias escolas secundárias e profissionais, nomeadamente na Escola Industrial, na Escola Comercial, na Escola Preparatória do Ensino Secundário General Joaquim José Machado, na Escola Preparatória Feminina de Lourenço Marques e no Liceu António Enes. Ao mesmo tempo, desenhou várias obras para clientes privados e governamentais, parte delas em colaboração com o marido Tinoco e o amigo Alberto Soeiro.

Em 1972, Quintanilha regressa a Portugal, trazendo consigo a sua experiência e conhecimento do clima tropical de Angola e de Moçambique, que aplica em projectos arquitectónicos para o Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

Em 1973, foi trabalhar no Ministério da Educação e Investigação Científica, onde esteve até ao final da década de 1980 (reformou-se em 1989), para o qual elaborou estudos prévios que visavam a ampliação e intervenção em equipamentos escolares.

O marido faleceu em 1983.

(fim)

Sobre o seu irmão Alexandre Quintanilha, que tem costela Coca-Cola, um resumo biográfico refere o seguinte (editado por mim):

Alexandre Tiedtke Quintanilha nasceu em Lourenço Marques em 9 de Agosto de 1945 (o dia em que os EUA lançaram uma bomba atómica sobre a cidade japonesa de Nagasaki) e é filho do Prof. Doutor Aurélio Quintanilha, biólogo especialista em botânica, natural dos Açores, e de mãe alemã, Lucya Tiedtke, Alexandre Quintanilha, que tinham ido viver para Moçambique na década de 1940.

Completou o liceu em Lourenço Marques, tendo prosseguido os estudos universitários na África do Sul, licenciando-se em Física Teórica em 1968 na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, e doutorando-se em Física do Estado Sólido em 1972, na mesma universidade.

Trabalhou durante vários anos na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, onde foi diretor do Centro de Estudos Ambientais, tendo desenvolvido investigação nessa área. Entre 1983 e 1990, foi diretor assistente na secção de Energia e Ambiente do Laboratório Nacional Lawrence, nos EUA e, entre 1987 e 1990, desempenhou o cargo de diretor do Centro de Estudo de Tecnologia da Biosfera.

Em 1991 foi nomeado diretor do Centro de Citologia Experimental e professor no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto. É professor catedrático jubilado do ICBAS, diretor do Centro de Citologia Experimental e coordenador do Instituto de Biologia Molecular e Celular, situado também no Porto.

Publicou perto de 100 artigos em várias revistas científicas de nível mundial, foi editor e autor de seis volumes nas áreas da Biologia e Ambiente, foi consultor redatorial da Enciclopédia de Física Aplicada e escreveu dezenas de artigos e relatórios em livros, revistas e jornais de divulgação, sendo ainda coordenador e autor de vários trabalhos nas áreas da Biologia, do Ambiente e da Física Aplicada.

(fim)

06/08/2020

CARLOS LOPES PEREIRA E O PRÍNCIPE, 2019

Imagens retocadas.

Em 21 de Novembro de 2019, no (ah ah) Cinema Império, bem no centro de Londres, o veterinário Carlos Pereira recebeu o Prémio Tusk de Conservação 2019. A Tusk é uma organização que advoga a protecção animal e ambiental em África, tendo como patrono um dos herdeiros da coroa britânica, o Príncipe William Windsor, que foi quem entregou a salva de prata ao Carlos e posou com ele para a fotografia, o que é sempre agradável para os netos depois verem e partilharem no Feicebook.

A distinção, infelizmente dada por uma instituição estrangeira, dado que Moçambique parece não ter destas coisas, é mais do que merecida. Sempre segui o percurso do Carlos Pereira, com quem convivi na adolescência em Lourenço Marques, pois nadávamos juntos no Desportivo. Na verdade, ele era mais do grupo etário da minha irmã Cló, que também nadava.

Apesar de ter uma formação de veterinário, o Carlos, que no dia 23 de Agosto celebra o seu 65º aniversário, fez carreira na área da gestão da conservação animal, que trata de um património precioso da nação moçambicana e que merece todo o apoio.

 

A entrega da placa. Antes da Pandemia, ainda se podiam fazer estas poses.

Vídeo institucional da cerimónia:

 

O Cartão de nadador do Carlos, 1973. Salvei este documento literalmente do lixo na primeira visita que fiz a Moçambique após a independência, em Dezembro de 1984. O Desportivo estava completamente nas lonas e os documentos da secção de natação estavam num caixote prontos para serem deitados fora. Meti-os todos num saco e trouxe-os comigo. No meio, estava este cartão, obrigatório para quem competia em natação.

 

A minha irmã Cló e o Carlos em Lourenço Marques, 1975.

MULHER NA AVENIDA DA REPÚBLICA EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Imagem de Ricardo Rangel, retocada, agora parte de uma exposição em Maputo dedicada à mulher moçambicana.

 

Uma senhora, levando um bebé atrás, atravessa a Avenida da República em Lourenço Marques, levando consigo uma ovelha (acho eu), cedo de manhã, anos 60. Presumo que estivesse a caminho da Catembe. Atrás à direita, na esquina da Praça Vasco da Gama, onde se situa o Bazar, vê-se o Kiosk Olimpia, o último da Cidade, inacreditável e criminosamente demolido no final da década de 60 para ali implantar a sede do BCCI, que nunca foi inaugurada por causa da reviravolta com a independência (vinte anos mais tarde, viria a ser a sede do Banco Comercial de Moçambique e depois do Banco Internacional de Moçambique).

O LICEU SALAZAR EM LOURENÇO MARQUES, 1952

Filed under: Josina Machel, LM Liceu Salazar, Salazar — ABM @ 14:24

Imagem retocada.

O Liceu Salazar (depois Josina Machel) foi inaugurado no dia 6 de Outubro de 1952, uma segunda-feira, na Polana em Lourenço Marques, em terrenos onde antes funcionou durante décadas a Estação Telegráfica que ligava, desde 1880, Lourenço Marques à África do Sul e à Europa. Substituiu o Liceu 5 de Outubro, situado nas suas traseiras, que passou mais tarde a ser a Escola Comercial Azevedo e Silva. Custou 58.500 contos (um conto eram mil escudos, que em 1980 foram convertidos em meticais) e na altura era o maior e o melhor liceu em todo o território português.

O liceu foi baptizado com o nome de António de Oliveira Salazar, que seria Presidente do Conselho de Ministros de Portugal, entre 1932 e 1968 (efectivamente ditador de um regime de partido único) e cuja estátua alusiva, em pedra, decorava o seu átrio central, em frente à entrada principal do complexo. A estátua seria destruída por um engenho explosivo em 1962, sendo expeditamente substituída por uma igual, em metal. Após o golpe militar em Lisboa em Abril de 1974, foi logo removida do local e, para despachar, o liceu temporariamente chamado 5 de Outubro (nome do primeiro liceu da Cidade, evocativo do golpe de Estado em Lisboa que derrubou a monarquia em 1910), após o que seria substituído pelo nome de Josina Machel, a primeira Mrs. Samora Machel, que faleceu de doença em Dar es Salaam, em 1971.

Provavelmente por algum óbvio “revanchismo histórico” por parte dos novos poderes instalados, e ao contrário de outras obras de arte, a estátua de metal do ditador seria colocada não na Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, como Ennes e Albuquerque mas… num canto na parte de trás da Biblioteca Nacional, em plena Avenida 25 de Setembro em Maputo….virada contra uma parede (ah ah), onde ainda se pode visitar algo clandestinamente, exactamente cinquenta anos após a morte física do que foi o principal responsável pela gigantesca embrulhada em que ele envolveu o seu país e as suas colónias. Tipo gato escondido com o rabo de fora.

O Liceu Salazar. Atrás, a Escola Comercial.

04/08/2020

A HISTÓRIA DA VILLA MARGHERITA EM LOURENÇO MARQUES

Imagens retocadas.

A Villa Margherita que é, actualmente, e desde 1992, mais conhecida como o algo estranho edifício que actualmente aloja o Museu Nacional da Geologia em Maputo, tem uma história interessante – do pouco que se sabe e que relato em seguida.

A Villa Margherita na sua versão actual enquanto museu, a sua fachada pintada da cor de sanitário de quarto de banho e os muros originais substituídos por muros de arame simples.

Margherita foi uma mulher real que viveu durante décadas e que morreu em Lourenço Marques. Uma súbdita Italiana, nascida e criada em Cairo, no Egipto, no final do Século XIX, foi, supostamente, amante de um italiano que teve que ver com os Buccellatto (suponho que não o Giuseppe. O que me constou é que a sua ligação era com um dos arquitectos, também italiano, que Buccellatto contratou na altura para algumas das suas obras) e que a trouxe para Lourenço Marques, onde prosperava uma pequena mas  vibrante comunidade italiana, e lhe construiu a e ofereceu o confortável chalet num recanto agradável da Polana, um terreno de esquina onde se cruzavam a Avenida 24 de Julho e a Rua Fernandes Tomás (agora Avenida dos Mártires da Machava).

No topo da fachada à entrada da moradia, colocou o nome da sua dona e primeira habitante: Villa Margherita.

A fachada original da Villa Margherita, então nova. Note-se o nome por que ficou conhecida a casa, afixado no topo do varandim de entrada. Fotografia do espólio de Arlindo Malosso, retocada por mim.

Margherita nunca casou e não teve filhos.

A casa, construída no final da década de 1910, é ao estilo revivalista árabe rococó, muito condicente com o passado e perfil exótico da encantadora italiana que o foi habitar e ainda muito em voga no início do Século XX, quando se viviam em Itália momentos de enorme paixão e atenção pela cultura e arte do antigo Egipto.

Ali, Margherita viveu em algum esplendor durante mais que três décadas, lá para o fim mais esforçadamente, por falta de dinheiro e os efeitos da PDI.

O exterior da casa era completamente diferente daquilo que se vê hoje, profusamente colorida, pintada entre um amarelo casca de ovo apagado, intersectando com vibrantes faixas pintadas a vermelho tijolo, com um muro a condizer.

A Villa Margherita, tal como se apresentava originalmente, cerca de 1927, com as cores originais (mais ou menos). Imagem de um dos álbuns Rufino, colorida por mim com base no testemunho de Suzete Malosso, que conheceu Margherita e que foi proprietária do imóvel durante mais que vinte anos.

Margherita tinha duas sobrinhas que também viviam em Lourenço Marques. Foi com elas com quem foi viver, já velhinha, depois de eventualmente vender a casa – em 24 de Abril de 1952 – a um empresário local, chamado Arlindo Malosso. Malosso, filho dum italiano de Treviso (uma cidade meio austríaca situada relativamente perto de Veneza) e de uma portuguesa, já nascida em Moçambique . Eles eram amigos há muitos anos e Margherita vendeu-lhe o imóvel porque precisava de dinheiro.

Durante os vinte anos seguintes, a casa iria permanecer virtualmente fechada.

Por morte de Arlindo Malosso, em 1963, a Villa foi herdada pelo seu único filho, Arlindo do Vale Malosso.

Durante um ano e tal, em meados dos anos 60, a casa chegou a ser habitada por uma sul africana de origem italiana que em Pretória era vizinha do lendário General Jan Smuts, a Mrs. Brack. Na altura ela pertencia a uma família da high society de Pretória, daquelas que passavam sempre férias em Lourenço Marques no verão e que conhecia bem os Malosso, que tinham sido educados na África do Sul, que falavam fluentemente inglês e que visitavam aquele país com alguma assiduidade.

Mas o episódio Brack acabou por ser uma pequena aventura. Naquele ano (meados dos anos 60) ela alugara duas barracas na Praia da Polana, mas os filhos dela apanharam malária (foram tratados pelo Dr . Reis Costa). Um dia, a D. Suzete, mulher de Arlindo Malosso, levou a Sra Brack à casa (na Polana havia menos mosquitos)e disse-lhe que se calhar ela ali estaria mais segura com os filhos que nas palhotas junto dos mosquitos na praia. A casa estava fechada há anos, cheia de pó e a precisar de uma pintura e de algumas reparações. A Mrs. Brack imediatamente apaixonou-se pela casa e literalmente mudou-se para lá e procedeu a uma reabilitação. Logo de seguida, mandou vir da África do Sul quadros enormes, toalhas, lençóis, cortinas, loiças e mobílias e restaurou e decorou a casa, ali se instalando em renovado esplendor. Digamos que quando Arlindo Malosso eventualmente quis a casa de volta para a vender, foi uma pequena complicação tirá-la de lá, mesmo atendendo ao facto que o uso da casa fora concedido para umas curtas férias e gratuitamente. A Senhora Brack, que era suposta permanecer na Villa Margherita apenas por um período curto, de férias, com a família, foi ficando. Mas eventualmente saíu.

(A Sra Brack tinha vários filhos, um deles teve um negócio de exportação de flores e outro uma suinicultura. Não sei os seus nomes. Alguns devem estar vivos ainda mas não os conheço nem sei onde estão. Adoraria descobrir o seu paradeiro e falar com eles).

Tirando esse episódio singular e algo rocambolesco, a casa permaneceu sempre vaga.

Entretanto os tempos mudaram. No início dos anos 60 a construção e especulação imobiliária em Lourenço Marques era muito forte, pois o governo português pelos vistos achava que a era colonial era para durar mais umas décadazitas. A economia da então Província estava a crescer a níveis espectaculares, atraíndo muita mão de obra, principalmente de Portugal, e na capital havia uma enorme carência de habitações.

A decisão de quem então mandava era que a Cidade iria crescer na vertical. E em força.

Entre as áreas mais alvo dessa pressão especulativa eram, precisamente, as propriedades que circundavam os dois lados da Avenida 24 de Julho, em parte porque, derivado da forma como a cidade cresceu, regra geral os lotes de terreno eram enormes (mil a dois mil metros quadrados cada) permitindo a Câmara Municipal ali a edificação de prédios de apartamentos de grande volumetria, com até vinte andares de altura e até 60 apartamentos cada um, que depois podiam ser vendidos e alugados aos novos residentes, que vinham para atender ao enorme crescimento na actividade económica que então se observava na Cidade.

Foi um ver se te avias. Nos vinte anos que decorreram antre 1955 e 1975, a cidade “explodiu” em crescimento, mais visível na Baixa, e nas Avenidas 24 de Julho e António Ennes (actual Av. Dr. Julius Nyerere). Mas não só: a Somershield, o Bairro da Coop, Bairro do Triunfo, Matola, surgiram quase do nada nesta altura.

Quase tudo bairros de e para brancos, a maior parte deles portugueses.

Em redor da chamada Cidade de Cimento, por sua vez, dezenas de milhares de pessoas, a maioria pobre e sem educação, vindas do interior, tentavam a sua sorte e a sua quota parte do “milagre económico” em curso, versão colonial, radicando-se no Xipamanine, nas Mahotas, Benfica, Malhangalene, Chamanculo, Machava, Mafalala, Alto Maé. Surgia e afirmava-se a Cidade do Caniço, mais precária por comparação mas melhor que o abandono do mato, culturalmente não menos exuberante. Após a independência, a análise desta dicotomia racial/económica/social iria alimentar muitas e esotéricas, se insípidas, teses de doutoramento, escritas por académicos estrangeiros, empenhados em dissecar as miríades vicissitudes e injustiças do colonialismo português.

De facto, até ao início da década de 1960, a Cidade estava cheia de verdadeiras jóias de arquitectura, edificadas nas primeiras quatro décadas do Século XX, tais como a Villa Margherita, que (a meu ver, criminalmente) foram quase todas demolidas ou deformadas, para dar lugar aos horrendos “caixotes” de cimento que foram sendo erguidos pela Cidade.

No caso da Villa Margherita, para além de Arlindo do Vale Malosso ter a boa fortuna de ser abastado e não se sentir pressionado para ali construir depressa, erguendo mais um prédio de vinte andares indistinto, houve um “problema”, que no fim foi o que ajudou a salvar o imóvel: na óptica de Arlindo Malosso, apesar de uma localização excelente, excepcionalmente, acontecia que o lote onde a Villa Margherita estava implantada tinha uma dimensão de menos que mil metros quadrados. Ora, o que ele queria mesmo era edificar ali um grande edifício e que exigia uma área de implantação maior que o tamanho do lote onde estava a Villa podia comportar. Ele ainda entou adquirir um terreno vizinho (e o edifício, uma casa geminada) imediatamente atrás da Villa, mas não conseguiu o acordo dos seus proprietários, que ali residiam há décadas. Por essa razão, o assunto foi sendo empurrado para a frente e nada acontecia.

À esquerda, a Villa Margherita, em 1968, quando ainda era propriedade de Arlindo do Vale Malosso. Nesta altura a casa estava novamente em bom estado o seu exterior todo pintado de amarelo creme apagado,, devido à “ocupação” e restauro pela Mrs. Brack.

A casa, entretanto desocupada, e então já suscitando a curiosidade de quem por ali passava pelo seu exotismo arquitectónico, degradou-se lentamente, sendo, no início dos anos 70, já uma magnífica e digna semi-ruína. Eu lembro-me perfeitamente de uma vez ter lá ido, com cerca de dez anos de idade (entrei pela cave com um vizinho da rua) e de arrancar dois belos azulejos azuis da parede da cozinha, decorados magnificamente com motivos florais em azul, que logo a seguir ofereci ao casal Zéca e Jorge Mealha, os dois simpáticos artistas mais ou menos residentes no Núcleo de Arte e com cujos filhos eu então me dava e com quem estudava na Escola Primária Rebelo da Silva, ali a dois quarteirões. Como cresci numa casa na Rua dos Aviadores (actual Rua da Argélia, onde hoje é o nº267) e fiz toda a escola primária na Rebelo da Silva (a actual Escola Primária 3 de Fevereiro) literalmente passava mesmo à porta da Villa Marguerita (e da Vila Algarve, o que é outra história) todos os dias quando ia e vinha da escola, durante cinco anos seguidos.

No início dos anos 70, pouco antes da independência, Arlindo do Vale Malosso, que tinha vários outros projectos em mão, entre eles, nomeadamente, o gigantesco projecto do Bairro do Trevo, à entrada da Matola, decidiu vender a Villa Margherita, que herdara do Pai, a outro empresário, cujo nome desconheço.

E essa foi a segunda razão porque a casa sobreviveu. É que, entretanto com as mudanças radicais ocorridas a seguir a 1974, a propriedade privada foi esmagadoramente “nacionalizada” (o termo legal correcto é “confiscada”, pois, que eu saiba, ninguém pagou nada a ninguém) e ali ficou a apodrecer, inabitada, até à genial decisão do governo do dia de a reabilitar e ali instalar o Museu Nacional de Geologia, a partir do espólio de um outro museu (o Museu Freire de Andrade) cujo nome foi prontamente expurgado.

Pessoalmente, acho o imóvel totalmente inadequado para ser um museu, muito menos para um tema como a geologia de Moçambique. Do (muito) pouco que sei da verdadeiramente espectacular geologia de Moçambique, o país devia, porque tem matéria para isso, ter um museu com vinte vezes a dimensão do que deve estar lá dentro da antiga casa onde viveu a simpática D. Margherita (e já que o gás é um recurso geológico, esse novo museu devia ser pago com uma generosa contribuição por parte da ENI, da Total e afins, pois que para eles isso seria troco).

Mais faria sentido ser entregue à Cidade, declarado património protegido e ali operar um pequeno centro cultural com leituras de poesias, exposições de pintura e reuniões do BIM. Ou para um Private do Mozabanco, que acho que ainda não tem um.

Mais: a casa deveria ser restaurada para a sua traça original (ver em cima a fotografia a côres) pois representa um património que caracterizou uma fase do crescimento da Cidade que é a capital de Moçambique e que ajuda a contar e ilustrar esse percurso. Pintar aquilo de branco cor de sanita é perder metade do efeito.

02/08/2020

O HOTEL LAGE EM LOURENÇO MARQUES, SEGUNDA DÉCADA DO SÉC. XX

Imagem da autoria de Ignácio Piedade Pó, retocada e colorida por mim.

Per supuesto, o hotel ficava situado do lado direito do primeiro quarteirão da Rua Consiglieri Pedroso quando se entra naquela via, vindo da Praça Mac-Mahon (agora a Praça dos Trabalhadores). Ou seja, estrategicamente a menos que cem metros da estação ferroviária de Lourenço Marques.

A fachada do Hotel Lage em Lourenço Marques, segunda década do Séc. XX.

27/07/2020

A ORQUESTRA E CORO DA UNIVERSIDADE DE LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Filed under: Orquestra e Coro da ULM 1960s — ABM @ 14:11

Imagem retocada. A Universidade de Lourenço Marques foi o percursor da Universidade Dr. Eduardo Mondlane.

 

A Orquestra e Coro da Universidade de Lourenço Marques.

25/07/2020

OLIVEIRA MARTINS SOBRE CABO DELGADO, 1815-1890’S

A posse, ou soberania, portuguesa, do que constitui hoje a parte mais a Norte de Moçambique remonta a um tratado luso-britânico de 1815. Era uma posse em papel apenas, como refere o genial Oliveira Martins em baixo, explicando depois os detalhes do que aconteceu nas décadas que se seguiram, referindo o papel do “Imam” (o soberano muçulmano de Zanzibar), e os posteriores acordos e divergências com o Reino Unido e o império alemão, que se instalou no território a Norte do Rovuma sem grandes cerimónias – incluindo o bocadinho a Sul da foz do rio e que se chamava o Triângulo de Quionga.

Entretanto, a tal soberania colonial portuguesa virtual, foi alugada via a Companhia do Niassa, com sede de operações num lugarejo chamado Porto Amélia. Foi um fiasco. Aquilo só dava despesa e chatice.

No fim, e com o corolário da Conferência de Versalhes em 1919, a fronteira colonial ficou estabilizada onde está hoje.

 

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Veja-se neste mapa a Baía de Tungue, no centro da qual fica situado o lugarejo de Palma.

 

22/07/2020

JOSÉ RODRIGUES JÚNIOR, UM ESBOÇO BIOGRÁFICO

Imensamente grato a Mário Silva, Neto de JRJ, pela ajuda.  Imagem retocada por mim.

 

José Rodrigues Júnior em 1974.

José Rodrigues Júnior (JRJ) pode ser hoje considerado uma uma figura de destaque e uma referência na agora chamada literatura e escrita colonial portuguesa, devotada a Moçambique, a sua vasta obra tornada em parte uma curiosidade quase museológica pelos eventos da História, em parte porque, alas, a partir do dia 25 de Abril de 1974, ele constatou achar-se, mais que no lado errado da História, no lado que perdera estrondosamente. Ainda por cima ele, que tão acarinhado fora pelos augustos e afins do regime derrubado. Hoje, há estudos e teses académicas que debicam e dilaceram, ora deliciosamente, ora sadicamente, as variadas formas em que isso está reflectido no seu pensamento e naquilo que escreveu. O Rui Knopfli refere-se a Rodrigues Júnior displicentemente, assim: “ele é exemplo extremo da pseudoliteratura que pontifica sob os auspícios do establishment”. A querida Fátima Mendonça vociferou qualquer coisa sobre “produtos pseudo-culturais nascidos artificialmente da aberrante situação colonial”. Para não falar do que aconteceu em 1964 entre ele, o então jovem Luis Bernardo Honwana e o Malangatana. Enfim.

Tudo o que, a meu ver, só valoriza a obra de JRJ, pois, no seu agregado, ela ajuda, de forma singular e quase épica, a tentar explicar, ou procurar entender, porque é que aquilo de os portugueses permanecerem alegremente em colónias africanas durou o que durou. Naturalmente, não foi porque meia dúzia de colonos achavam que aquilo lá era porreiro. Foi, em boa parte, porque a elite de Lisboa e os sucessivos regimes portugueses, reforçaram uma visão do mundo em que ter-se colónias cheias de gente que era o que era era normal, e que até era justa, moral, legal e desejável, se necessária, a sua presença – até porque aquilo era “nosso”. A partir daqui, a perspectiva eurocêntrica, da mania da superioridade racial e cultural, o uso dos factos históricos para justificar isto ou aquilo, decorreram alegremente, para grande irritação dos poucos como o Rui Knopfli, um seu contemporâneo mais iluminado, especialmente e precisamente durante as seis décadas em que JRJ pontificou em Moçambique.

Até que ponto JRJ foi aproveitado pelo regime português? assumo que o foi, claro. Para eles, ele era um dos “bons”, era genuíno, de confiança  e falava, à sua maneira, com algum conhecimento de causa (bem, ele vivia em Moçambique). Daí advinham os contrastes. É que, durante a vigência do regime criado por Salazar, quem entre os brancos não fosse, não podia publicar, era perseguido, preso, convidado a estar calado e arrumado num canto. O privilégio, putativamente reservado aos brancos, de viverem em conforto lá na Cidade da Luz no cimo da Colina, tinha, no caso moçambicano, um preço: a cooptação para estarem calados, especialmente perante o enorme elefante na sala – que um dia, mais cedo ou mais tarde, o país teria que ascender à independência e ver a sua soberania exercida por moçambicanos, esmagadoramente negros, estivessem bem ou mal preparados (estavam mal mas isso é irrelevante para a questão).

Mais: na altura, muitos, brancos e também pretos, fundamentalmente, e independentemente de outras questões, pensavam exactamente como RJR: que Portugal sem as suas colónias seria nada, e que as colónias sem Portugal estariam perdidas.

Uma vez queixei-me que, fora das poucas boutiques académicas que se degladiam com estes assuntos mais ou menos esotéricos sobre a espuma da História, existia pouca informação sobre JRJ. Mas esta semana fui agradavelmente surpreendido pelo trabalho disponibilizado na Wikipédia, em boa parte compilado por Mário Silva, um seu neto.

Eis o texto da Wikipédia, aqui ligeiramente editado por mim:

(início)

José Rodrigues Júnior (Lisboa, 26 de Outubro 1902- 16 de Novembro de 1990) foi um escritor e jornalista português que se dedicou, durante as mais que seis décadas em que ali viveu, ao estudo de Moçambique e os seus desafios e problemas, realizando viagens de inquérito económico e social através de todo território moçambicano. Embora possa ser hoje considerada controversa por alguns, a sua obra é caracterizada por um espírito ideologicamente independente, e inclui mais de 50 publicações, entre ensaios, estudos, romances e reportagens.

Descendente de madeirenses, José Rodrigues Júnior nasceu acidentalmente em Lisboa, a 26 de Outubro de 1902. Em 1919, com 17 anos de idade, embarcou para Moçambique, onde iria viver durante os 57 anos seguintes, até abandonar aquela ex-colónia portuguesa após a formalização da sua independência, em 19 de Outubro de 1976.

Foi membro da Secção de Letras da Sociedade de Estudos de Moçambique, presidente do Centro Cultural dos Novos, chefe da redação de O Emancipador, de O Jornal e do Notícias, de Lourenço Marques, e redator-principal e proprietário da revista de arte e crítica Miragem. Colaborou na revista Seara Nova, de que foi correspondente em Nampula, assim como também na revista portuense Civilização, e representou, durante muitos anos, em Lourenço Marques, o Diário de Luanda.

Como delegado do Notícias, em 1953, foi convidado pela KLM para o vôo inaugural da carreira Amesterdão-Joanesburgo, em aviões Super-Constellation, escrevendo então o livro Viagem à Holanda. Da mesma forma, em 1955, ao serviço do mesmo jornal, participou na viagem inaugural dos Super-Constellation, que então passaram a ser usados na carreira da TAP entre Lisboa e Lourenço Marques, de que veio a publicar o volume Aguarelas. No ano de 1960, em representação do jornal Diário, foi a Goa, Damão e Diu, editando o livro Terra Nossa na Costa do Malabar. Em 1962, a convite do governo da República Federal Alemã e também ao serviço do jornal Diário, visitou aquele país, publicando em seguida o livro Caminhos da Alemanha Ocidental. Em 1963, também pelo mesmo jornal, foi a Angola integrado na comitiva de jornalistas que acompanhou o Presidente da República Portuguesa, dando ao público o volume Angola-Terra de Portugal. Da mesma forma o fez, na viagem do Presidente Américo Tomás a Moçambique, de que escreveu o livro Moçambique-Terra de Portugal. Em outubro de 1965, indicado pelo ministro do Ultramar, representou Moçambique no Primeiro Encontro de Escritores Portugueses, realizado na cidade do Porto, editando o volume de crónicas e ensaios Encontros.

Na opinião da critica metropolitana da altura, “os seus estudos sobre Moçambique são, a par de notáveis obras literárias, trabalhos de sociólogo, de colonialista, de moralista e, até, de economista – e muitas das melhores páginas da nossa novelística e da nossa reportagem, destes últimos 30 anos, por exemplo, saíram das suas infatigáveis mãos”.

Da sua obra destacam-se as publicações dos livros, O Homem Negro das Regiões do Sul do Save, Os Indígenas de Moçambique, Do Homem Negro – da Sua Vida e da sua Arte, Para Uma Cultura Africana de Expressão Portuguesa, A Aventura do Mato e a Colonização Dirigida, O Negro de Moçambique, Africa – Terra de Promissão (Prémio Literatura Ultramarina), Meque o Pescador Negro (1º Prémio de Jornalismo), Terra Nossa da Costa de Malabar (Prémio Nacional Afonso de Bragança), Ruy de Noronha – Poeta de Moçambique, os romances/obras de ficção, Sehura, O Branco da Motase, Calanga, Muende (Prémio Nacional Fernão Mendes Pinto), Era o Terceiro dia de Vento Sul (Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa) e Omar Ali.

Rodrigues Júnior foi ainda distinguido com o Prémio Afonso de Bragança, de jornalismo, entregue no Palácio Foz, em Lisboa, em 1962. Pelo conjunto da sua obra literária, foi distinguido com o Grau de Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique e com a Cruz de Cavaleiro da Soberana Ordem dos Cavaleiros de Colombo, pelo seu livro Caminhos da Alemanha Ocidental, em 1963.

A sua obra projectou-se para além de Portugal. Vários autores citam com relevo o seu trabalho como escritor, nas suas publicações, nomeadamente O ensaio Mozambique-Pueblo Nuevo, de Dom Francisco Elias Tejada, catedrático da universidade de Sevilha; o estudo Portuguese Africa, de James Duffy, catedrático da universidade de Harvard, em Cambridge, Massachussetts; o estudo crítico e histórico African Literature in the Portuguese Language, do Prof. Dr. Gerald M. Moser, da Pennsylvania University e o ensaio Estudios de Derecho Bantu, do prof Dr. José F. Lorca Navarrete, da Universidade de Córdova.

Após deixar Moçambique e radicar-se em Portugal, em 1976, com 74 anos de idade, residiu, entre Cabeço de Bustos (Distrito de Aveiro) e Benfica e Queluz de Baixo (Distrito de Lisboa), profundamente desiludido e amargurado com o que considerou um mundo hipócrita que não conseguiu entender, afastando-se dos homens, deixando-se aproximar e aconchegar no Mundo da Fé de Cristo, como católico que passou a acreditar ser em determinada fase da sua vida. Com 88 anos de idade, José Rodrigues Júnior faleceu no dia 16 de novembro de 1990, exilado da terra que tanto sentiu e amou durante a maior parte da sua vida – Moçambique.

Obras Publicadas:

Ensaios
A Paz e a Vida (1937)
Homem, Trabalho e Salário (1937)
Para Uma Cultura Moçambicana (1951)
Afirmação de Presença (1952)
Literatura Colonial (1953)
Considerações (1954)
Terra, Homens e Ideias (1957)
Literatura Ultramarina (O escritor, o Homem e o meio) (1962)
Depoimento (1964)
Poetas de Moçambique (1965)
Encontros (1966)
Mãe Negra (1967)
O Homem Negro das Regiões ao Sul do Save (contribuição para um juízo interpretativo do problema da sua promoção social) (1969)
Os indígenas de Moçambique (1971)
Alguns Poetas de Moçambique (1972)
Do Homem Negro – da sua Vida e da Sua Arte (1974)
Para Uma Cultura Africana de Expressão Portuguesa (1977)
Ruy de Noronha – Poeta de Moçambique (1980)
Estudos de Assuntos Ultramarinos
Caminhos de Ferro de Moçambique (1938)
Sobre indígenas e Missões (1940)
Aventura do Mato e Colonização Dirigida (1945)
O Negro de Moçambique (1955)
Transportes de Moçambique (1956)
Colonização (Contribuição para o seu estudo em Moçambique) (1959)
Alguns Aspectos Culturais do Turismo em Moçambique) (1961)
Reportagens-Inquérito
Problemas de Moçambique (1942)
Diário de Viagem (8.000 kms em Moçambique) (1943)
Actividades e Problemas do Niassa e de Manica e Sofala (1944)
A Voz dos Colonos de Moçambique (1945)
Terra Moçambicana (1945)
À Procura de Outras Terras e Outras Gentes (1947)
África – Terra de Promissão (1949)
Meque – O Pescador Negro (1950)
Por Terras de Monomotapa (1951)
Viagem à Holanda (1954)
Aguarelas (1956)
Negros e Brancos (1958)
Terra Nossa na Costa do Malabar (1961)
Caminhos da Alemanha Ocidental (1963)
Angola Terra de Portugal (1964)
Moçambique Terra de Portugal (1965)
Caminhos do Colonato do Limpopo (1965)
Quando se Pensa nos Que Lutam (1970)
Cabota-Bassa (1973)
A Alma da Nossa Rua (1974)
Romances
Sehura (1944)
O Branco da Motase (1952)
Calanga (1965)
Muende (1960)
Era o Terceiro Dia de Vento Sul (1968)
Omar Ali (1ª Edição em 1975 e 2ª Edição em 1977)
Prémios
Alguns destes trabalhos foram galardoados com diplomas, prémios nacionais e internacionais.

Diploma de Honra do Núcleo de Arte (1945)
Diploma de Honra do Concurso de Literatura Ultramarina (1945)
Prémio de Literatura Ultramarina (1949)
1º Prémio de Jornalismo (1950)
Diploma de Honra do Concurso de Literatura Ultramarina (1951)
Prémio Fernando Mendes Pinto, Nacional, de Literatura Ultramarina (1960)
Prémio Afonso de Bragança, Nacional, de Jornalismo (1962)
Grau de Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, pelo conjunto da sua obra literária (1964)
Cruz de Cavaleiro da Soberana Ordem dos Cavaleiros de Colombo, distinção Internacional, pelo seu livro “Caminhos da Alemanha Ocidental” (1965)
Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa, da classe Letras (1969)

(fim)

21/07/2020

A BEIRA, INÍCIO DO SÉCULO XX, POR J. WEXELSEN

Filed under: Beira, J. Wexelsen fotógrafo, Manica Trading Co. Ltd — ABM @ 20:22

Imagem retocada.

 

Um aspecto da Beira, primeira década do Século XX, retratado por J. Wexelsen. Atrás do homem sentado no carrinho de reboque, um armazém da Manica Trading.

LEÕES NO PARQUE NACIONAL DA GORONGOSA, ANOS 60

Imagens retocadas, de dois postais, da autoria do grande Carlos Alberto Vieira, o melhor fotógrafo do Século XX em Moçambique.

O Parque Nacional da Gorongosa era, em 1974, um dos mais impressionantes de África. Nos anos que se seguiram, foi destruído pela guerra pela desorganização local. Actualmente, está em curso um esforço com vista à sua reabilitação.

Uma leoa.

 

Um leão.

 

 

19/07/2020

A ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE LOURENÇO MARQUES, DÉCADA DE 1920, POSTAL DE A W BAYLY

Imagem retocada, postal de Arthur William Bayly.

 

A estação ferroviária, inaugurada em 10 de Março de 1910 mas só concluída seis anos mais tarde. Postal de A W Bayly.

 

Eis o que diz o SA Heritage Portal sobre Bayly, o fundador da Casa Bayly (tradução minha):

Arthur William Bayly (1855-1915)

Dez anos mais velho que o seu irmão Wilberforce, Arthur William Bayly nasceu em Southampton, no Reino Unido, em Março de 1855. Eventualmente tornou-se  um comerciante de sucesso em Barberton e em Lourenço Marques.

Na África do Sul, Arthur inicialmente viveu em Harrismith entre pelo menos 1883 e 1885, onde se casou com Mabel Olive Brodrick. O casal teve quatro filhos: Ernest William, Alan Leonard, Elfrida e Olive Isabella.

Posteriormente, Artur estabeleceu-se em Barberton, durante o ano de 1886 e onde fundou os jornais The Goldfields News e o Barberton Herald.

Ele também estabeleceu a AW Bayly & Co (comércio geral). Este negócio foi anunciado como sendo “Livreiros, papelaria, impressoras (encadernação) e vendedores de música”. Os papéis timbrados da AW Bayly & Co confirmam que o negócio também incluia a venda de máquinas de escrever e o fabrico de carimbos de borracha. Eles administraram ainda uma biblioteca itinerária e comercializavam (e alugavam também) pianos Bechstein e Broadway, bem como órgãos Thomas. Pianos e harmónios também eram afinados e reparados por este estabelecimento.

Mabel era uma parceira comercial da AW Bayly & Co, na medida em que detinha  uma quota de 1/6 nos negócios do marido.

Embora uma fonte confirme que Arthur era comerciante de sementes e fotógrafo, não se conhece nenhuma evidência de seu trabalho fotográfico até esta data. Poderia ser que pesquisadores anteriores confundissem com ele o seu irmão, o fotógrafo Wilberforce Bayly. A confusão provavelmente origina em Wilberforce, que tinha um estúdio fotográfico na Crossley Brothers o qual, no entanto, fora registado como …. um comércio de sementes.

No entanto, a AW Bayly & Co publicou cartões postais com imagens [como o que se vê em cima]. Por isso, pode ser que Arthur tenha tirado fotografias produzidas como cartões postais ou que seu irmão Wilberforce tenha fornecido as imagens ao seu irmão Arthur para impressão.

Arthur é registado como tendo sido o maestro da Sociedade Filarmónica de Barberton, formada em 9 de julho de 1887 (Bornman, 2007).

Arthur faleceu em Durban em julho de 1915 (com 60 anos de idade). Mabel faleceu, também em Durban, em outubro de 1917, com 56 anos de idade.

 

125 ANOS DE CAMINHOS DE FERRO EM MOÇAMBIQUE

Imagem retocada.

Assinalo o 125º aniversário da viagem inaugural, por via férrea, entre Lourenço Marques e Pretória, ocorrida na segunda feira, dia 8 de Julho de 1895, considerado o início do que veio a ser uma organização quase dominante em Moçambique. Na altura Lourenço Marques-Pretória (e Joanesburgo) era considerada a ligação ferroviária mais estratégica e valiosa no mundo e uma verdadeira dor de cabeça para a diplomacia britânica, empenhada há décadas a tentar isolar o Transvaal de um acesso directo aos oceanos, o que incluiu de tudo um pouco, nomeadamente a reiterada tentativa de (literalmente) comprar Lourenço Marques e ficar com o Sul do que é hoje Moçambique. Se Moçambique tem hoje um Sul, deve-o em boa parte às circunstâncias de que resultou a atribulada criação deste troço. Contra tudo e todos, se em tanta coisa mais cederam, os portugueses de então simplesmente nunca cederam neste aspecto.

Seria no entanto parcial, e porventura indecente, não mencionar que, por volta da mesma altura, por imposição britânica e de Cecil Rhodes (que essencialmente eram quase a mesma coisa) se construiu uma linha de caminho de ferro entre a Beira e a Rodésia, mais curta mas se calhar mais complicada, agravado pelo factor “o barato sai caro”, pois primeiro fizeram uma linha de bitola pequena e imediatamente após a conclusão tiveram que alargar a bitola e assim refazer tudo.

 

A locomotiva dos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques (CFLM) que transportou o Presidente Paulus Johannes Kruger (do Transvaal, nome formal República Sul-Africana) na viagem oficial de inauguração da linha ferroviária entre Lourenço Marques e Pretória.

16/07/2020

A BAIXA DE LOURENÇO MARQUES, O HOTEL TURISMO E A CASA BAILY, DÉCADA DE 1970

Imagens retocadas.

 

A Baixa de Lourenço Marques e a Avenida da República, final da década de 1960.

 

Esta imagem é um detalhe da imagem em cima, mostrando o então futuro Hotel Turismo (esquina das Avenidas Manuel de Arriaga e República) em construção, obra do empresário Jorge de Abreu, que na altura já era o dono do Hotel Tivoli e um dos principais empresários de Moçambique. No mesmo local, durante muitos anos, nesta esquina ficava um pequeno edifício onde funcionava a Casa Baily.

O MAESTRO BELO MARQUES EM LOURENÇO MARQUES, 1938-1941

Imagem retocada.

Belo Marques, num postal do Rádio Clube de Moçambique.

 

A Wikipédia dá um relato detalhado do percurso desta figura que passou brevemente pelo Rádio Clube de Moçambique (e por Moçambique) mas que deixou uma impressão.

(texto ligeiramente editado por mim):

José Ramos Belo Costa Marques du Boutac (Leiria, 25 de Janeiro de 1898 — Sobral de Monte Agraço, 27 de Março de 1987) foi um violoncelista, compositor e orquestrador português.

Com nove anos de idade, iniciou em Leiria os seus estudos musicais, com o Professor Joaquim Silva, aprendendo a lidação de vários instrumentos, e participando em vários agrupamentos musicais, prosseguindo-os depois em Lisboa. Na altura era considerado um “menino prodígio” por dominar já vários instrumentos aos treze anos, após apenas quatro anos de estudo, dado a que não teve uma formação musical convencional.

Em 1914, com 16 anos de idade, foi contratado para tocar no Casino Mondego, na Figueira da Foz, onde conheceu o violoncelista João Passos, que virá a ser o seu mentor na escolha desse instrumento.

Tornou-se músico profissional em 1918, actuando em paquetes que ligavam a Europa e a América do Sul, percorrendo vários países da Europa e da América, entretanto aprofundando os seus conhecimentos musicais.

Em 1924, regressou a Portugal para cumprir o serviço militar. Em 1926, foi para Santarém, onde fundou e dirigiu o Orfeão Scalabitano. Em 1929, viajou até aos Açores e a Madeira, dirigindo em Funchal uma orquestra privativa de 35 elementos, à qual imprimiu um estilo de grande qualidade, e que durou até ao final da sua carreira.

Regressou a Lisboa para fazer parte da Orquestra Sinfónica Portuguesa do Teatro de São Carlos, dirigida por Pedro Blanch, e da Orquestra Sinfónica de Lisboa, dirigida por David de Sousa e, entre 1932 e 1935, começou a trabalhar regularmente no Casino do Estoril. Em 1935, ingressou nos quadros da Emissora Nacional, onde permaneceu três anos como primeiro violoncelista da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, então dirigida por Pedro de Freitas Branco.

Durante a sua estadia na Emissora Nacional, Belo Marques orientou o quarteto vocal de Motta Pereira, Paulo Amorim, Guilherme Kjolner e Fernando Pereira, fundando também a Orquestra de Salão, e remodelando a Orquestra Típica Portuguesa, à altura dirigida por Raúl de Campos.

Moçambique, 1938-1941

Em 1938, saiu da Emissora Nacional e viajou até Lourenço Marques para desempenhar o cargo de Director do Rádio Clube de Moçambique, onde fundou o seu Coro Feminino e as suas Orquestras Típica e de Salão.

Durante a sua relativamente curta mas frutífera estada em Moçambique, estudou o folclore indígena, fez uma recolha etno-musicológica das regiões de Tonga, Machangane, Zavala e Inharrime, do qual resultou o livro Música Negra. Estudos do Folclore Tonga, editado pela Agência Geral das Colónias, em 1943.

Em 1940, compôs a “Marcha Triunfal a Mousinho”, nas festas dedicadas a Mouzinho de Albuquerque, no Teatro Gil Vicente, em Lourenço Marques (actual Maputo), um evento que viria a reunir os vários orfeões participantes – o orfeão do Instituto Portugal, Escola Chinesa, Escola de Artes e Ofícios da Moamba e o grupo coral Indo-Português, compondo em simultâneo a “Marcha à Mocidade Portuguesa de Inhambane”.

Em 1941, compôs o poema sinfónico “Bartolomeu Dias” e a fantasia “Masseça”, fantasia composta “sobre motivos indígenas”, tendo como base a canção que é cantada em tôda a região de Masseça com a mesma popularidade do «Vira» em Portugal. Ambas as peças foram incluídas na sua “Fantasia Negra”, fantasia em seis andamentos para coro e orquestra, onde o próprio conseguiu, com muita dificuldade, executar a técnica da Escala Nicrocromática do Quarto de Tom, recolhido pelo próprio em Moçambique, durante as suas investigações em Zavala, e aprovado por um Congresso Internacional em Viena.

Fantasia Negra viria a estrear em 19 de Outubro de 1944, no Teatro de São Carlos em Lisboa, com a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, dirigida por si.

Em Portugal, Outra Vez

Regressou à Emissora Nacional, em 1941, em plena II Guerra Mundial, onde se dedicou totalmente à canção popular e ligeira, sómente por motivos economico-financeiros, regressando à Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional como violoncelista e regente de ensaios, sendo responsável pela criação de quatro orquestras novas na estação pública: a Orquestra Ligeira, dirigida por Fernando de Carvalho e Tavares Belo, a Orquestra de Variedades, dirigida por António Melo e Fernando de Carvalho, a Orquestra Típica Portuguesa, refundada sob a sua direcção, e a Orquestra de Salão, em parceria com René Bohet, entre 1942 e 1945, e depois como titular entre 1948 e 1954.

Na Emissora Nacional, criou o Centro de Preparação de Artistas, que contribuiu para o lançamento de novas estrelas da rádio como os cançonetistas Francisco José, Júlia Barroso, Tony de Matos, Simone de Oliveira, Madalena Iglésias e Maria de Fátima Bravo, entre outros.

No Festival da Canção Latina, representou Portugal com Maria de Lourdes Resende e Guilherme Kjolner, sendo-lhes concedidos os dois primeiros prémios.

Dirigiu durante as décadas de 40 e 50, em simultâneo, a Orquestra Típica Portuguesa, até à sua extinção em 1954, a Orquestra de Salão da Emissora Nacional e o Coro Feminino da Emissora Nacional.

Com a extinção das mesmas, Belo Marques reformula a sua orquestra privativa de estúdio, e com os elementos da Orquestra Típica Portuguesa, fundou a sua própria orquestra típica, e ambas ficariam em constante actividade, gravando muitos discos até 1960.

Em 1956, viria a ser um dos ajudantes na fundação da Orquestra Típica e Coral de Alcobaça, que teria uma projecção e popularidade surpreendentes na década de 60 do Séc. XX, quando foi dirigida por Alves Coelho Filho.

Em 1958, foi demitido da Emissora Nacional, em virtude de se ter atrevido a votar no General Humberto Delgado (candidato da Oposição, que concorreu contra Américo Tomás, o candidato de Salazar e da União Nacional) e retirou-se na década de 1960, com o relançamento das gravações oficiais do “Fandango da Suite Alentejana” de Luís de Freitas Branco, e da “Rapsódia Alentejana” de Sousa Morais.

A seguir ao golpe militar de 25 de Abril de 1974, Belo Marques foi nomeado Consultor de Programas Musicais da Emissora Nacional, cargo que desempenhou até 1981, quando, já com 83 anos de idade, foi reformado. Nesse mesmo ano, Belo Marques foi homenageado por Raúl Solnado, Carlos Cruz e Fialho Gouveia no primeiro programa da série E o Resto São Cantigas, sendo ainda nomeado como director dos programas da então nova televisão de Moçambique.

Faleceu em 1987, na sua casa em Sobral do Monte Agraço, perto de Lisboa, onde hoje existe uma rua com o seu nome.

 

Uma genial recolha de Miguel Catarino,  que escreveu o seguite:  “esta gravação de “Mulowa” data de 1974, foi efectuada no Estúdio do Rádio Clube de Moçambique, em Lourenço Marques, num programa de Música Popular pelo Coro Feminino e Orquestra Típica da estação radiofónica moçambicana, sob a regência do maestro António Gavino, que se realizava habitualmente às 6ªs feiras. Aqui, escutamos uma interpretação impressionante de um tema popular do Folclore Tonga oriundo da Vila de João Belo (aka Xai-Xai), Chibuto, Zavala, Manjacaze e Inharrime, recolhido pelo maestro Belo Marques e que se tornou célebre nos anos 60 graças ao Duo Ouro Negro.
Eis as considerações que Belo Marques teceu a respeito do povo de Zavala: «O preto de Zavala não aprendeu música, apreendeu-a! A música do preto de Zavala veio-lhe das suas árvores, do seu solo, dos seus rios, das suas fontes, e ele, sem mais trabalho que interpretá-la, nasceu a cantar. Por isso a alma desta gente é boa, canta e canta sempre! (…) Na música negra, há uma grande beleza e muito que observar, porque tôda ela tem um princípio e uma base natural. Há em tôda a música um mando único; uma forma única que êles sentem mas não podem explicar por palavras. A música negra é como uma bela pintura sôbre a tela da natureza!».
Nessas investigações, realizadas em Zavala e Inharrine, Belo Marques encontrou um povo muito musical, e que é o único povo no mundo que concebeu o “quarto de tom”. E o maestro, por coisas que eles cantaram, conseguiu inventar um sistema de composição musical definitivo para o Compasso Quaternário, dado a que ainda não se tinha assentado nenhum sistema para a Escala Micro-Cromática. A introdução do novo sistema concretizou-se em 1939, ano em que foi concebida a “Fantasia Negra em Seis Andamentos”, fantasia vocal sinfónica para Solista Feminina, Coro e Orquestra Sinfónicos do maestro Belo Marques, parcialmente estreado em 31 de Julho de 1942, pela Orquestra Sinfónica Nacional, dirigida por Pedro de Freitas Branco, com a execução da “Valsa das Febres” e a “Dança Guerreira do Gugunhana”, e totalmente estreada em 29 de Outubro de 1944, no Teatro Nacional de São Carlos, num concerto patrocinado pelo Secretariado Nacional da Informação e pela Agência Geral das Colónias, e em que foram solistas Raquel Bastos (soprano) e Paulo Manso (violino), acompanhados pela Orquestra Sinfónica Nacional e pelo Orfeão Scalabitano, dirigidos pelo compositor. No entanto, e ainda hoje, a obra não foi muito bem acolhida, tanto pela resistência dos músicos a respeito da Escala Micro-Cromática, como por causa dos peritos considerarem esta obra como demonstrativa da incapacidade do Belo Marques em se afastar de uma concepção ocidentalizada da música. Em contrapartida e em contraponto, a Escala inventada por Belo Marques foi aprovada por unanimidade num Congresso da Filarmónica de Viena, e desde essa altura que existem instrumentos adoptados para executarem o “quarto de tom”, principalmente as harpas. Esta foi uma das músicas que Belo Marques recolheu do Folclore Tonga, e que instrumentou para o Coro Feminino e Orquestra Típica Portuguesa da Emissora Nacional. ”

 

Dados adicionais:

https://digitarq.adlra.arquivos.pt/details?id=1081123

http://rpm-ns.pt/index.php/rpm/article/download/125/128

http://ric.slhi.pt/Seara_Nova/visualizador/?id=09913.037.011&pag=16  (Fernando Lopes Graça “destrói” A Fantasia Negra, sem o dizer – para variar)

19/06/2020

ALUNOS E PROFESSORES DA ESCOLA TITO DE CARVALHO NA BEIRA, 1925

Filed under: Alunos de escola na Beira 1925 — ABM @ 19:15

Imagem retocada.

Sabe-se pouco sobre quem foi Tito de Carvalho, penso que foi o mesmo que escreveu e publicou em 1900 um livro sobre a economia das então colónias de Portugal.

 

Alunos e docentes da Escola Tito de Carvalho na Beira, 1925. Depreende-se que se dedicava exclusivamente ao ensino de naturais da região.

16/05/2020

FOLHETO DE BORDO DA DETA, VÔO UMTALI-BEIRA, MAIO DE 1968

Grato ao Exmo. Sennhor Joaquim Freire, dono deste blogue, imagens retocadas.

Folheto de Bordo para circulação entre os passageiros, indicando os nomes da tripulação, o percurso e outros detalhes do vôo TM-282 entre o aeródromo da pequena cidade fronteiriça rodesiana de Umtali (hoje Mutare) e a Beira.

Capa, indicando o número do vôo e a data – 6 de Maio de 1968 (uma segunda-feira).

Contracapa, com pedido para os passageiros circularem o folheto.

Interior do folheto, mencionando:  Luis Branco, Comandante; E. Fragoso, Co-Piloto; A.Viegas, Mecânico-Rádio; Maria Adelaide, Hospedeira de Bordo; duração do vôo: 37 minutos, Partida às 15 horas e chegada às 15:40 horas.

Mapa aeronáutico mostrando o percurso entre Umtali e a Beira. Umtali fica a quase 2 mil metros de altitude e a cerca de 250 kms de distância da Beira em linha recta.

O CR-AIC, “Quelimane” fez este võo. Um Fokker-27. Ver mais aqui.

Placa assinalando a entrada na pequena cidade fronteiriça de Umtali.

 

15/05/2020

PAULO AZEVEDO PUBLICA HOJE “OS PHOTOGRAPHOS PIONEIROS DE MOÇAMBIQUE”

A História de Moçambique não começou em 1975, quando foi declarada a sua independência, nem em 1891, quando foram delimitadas as suas fronteiras entre as potências coloniais europeias, nem em Março de 1498, quando Vasco da Gama primeiro aportou as suas costas. Nem em 1107, quando se estima chegaram os árabes muçulmanos a Zanzibar, de onde penetraram até ao actual centro de Moçambique. Conhecer essa história milenar exige uma aturada recolha, análise, contextualização e interpretação de um vasto conjunto de informações científicas, materiais, orais, documentais – e em imagem.

Capa de “Os Photographos Pioneiros de Moçambique”, mostrando I.R. Carvalho, de capacete, junto da Duquesa de Aosta (irmâ da então Rainha de Portugal) no Búzi, a Sul da Beira, enquanto ela, de joelhos, fotografava o feiticeiro que lhe lia na sina que ia ser muito infeliz (e foi).

E no que toca a este último, Paulo Azevedo, um investigador baseado em Vila do Conde (arredores do Porto) mas que (ainda) nasceu em Moçambique, publicou hoje o que certamente se vai tornar num marco no estudo das primeiras imagens fotográficas que foram recolhidas no que hoje é Moçambique, ou, mais precisamente, dos primeiros homens por detrás das câmaras, começando menos que meio século após o francês Louis Daguerre ter anunciado a invenção da fotografia moderna.

Com 163 páginas que incluem importantes fotografias inéditas que o autor recolheu, a obra, intitulada Os Photographos Pioneiros de Moçambique, e que a partir de hoje pode ser comprada por entre 14 e 16 euros na internet aqui e aqui e aqui (portes incluídos para Portugal) é a segunda do Autor – a primeira foi Joseph e Maurice Lazarus – Photographos Pioneiros de Moçambique – e constitui de longe o estudo mais completo, para não dizer definitivo, no que toca ao tema.

De facto, o texto reflecte um trabalho inédito e aturado de recolha biográfica e curricular que exigiu centenas de horas, sobre as pessoas que, por uma ou outra razão, foram as primeiras que fotografaram em Moçambique, e as suas obras. E elas são

Benjaminn Kisch

Manuel Romão Pereira

Louis Hily

Thomas Lee

Joseph e Maurice Lazarus (os meus favoritos, e pensar que há menos que dez anos ninguém sequer sabia quem tinham sido)

Eduardo Battaglia

José Ferreira Flores

Francisco S. Silva

Ignácio Piedade Pó

Sidney Hocking

e

J. Wexelsen (quiçá o trabalho de “detective” mais impressionante da obra)

Para além destes, a obra inclui uma longa e detalhada bibliografia e ainda capítulos sobre os álbuns publicados e a Fotografia Bayly.

Ainda que com mérito, de valor incontornável e certamente uma futura referência obrigatória para qualquer tese sobre a fotografia em Moçambique e em África, enquanto um trabalho académico brilhante, a obra de Paulo Azevedo é, ainda assim, eminentemente legível e interpretável e a meu ver obrigatória para todos aqueles que quiserem entender melhor o passado moçambicano, na fase crucial do início da colonização europeia – e do arranque da sua modernização.

Outras referências nesta área (mas focadas em Manoel Pereira) são as obras de Filipa Lowndes Vicente e Luisa Villarinho Pereira, e o historiador Alfredo Pereira de Lima, mencionados na bibliografia.

Tendo este blogue ao longo dos seus onze anos de existência, pelo seu enfoque visual, cruzado muitas vezes o caminho destes homens e o trabalho que fizeram, este é um momento importante, e esta uma futura referência aqui também. Assinalo ainda com redobrada emoção o autor inclusivé me ter mencionado em 1009º lugar, depois de agradecer a tudo e todos, aquém e além mar, pela sua execução (enfim, trocámos uns e-mails, deve ser por isso) e de se ter enganado no nome deste blogue, que é, recordo, The Delagoa Bay World.

Paulo Azevedo está de parabéns e merece todo o apoio que se lhe possa prestar na prossecução do seu trabalho, que inclui o Exmo. Leitor comprar este livro fabuloso e uns desses institutos do governo darem-lhe uns dinheiros para o ajudar nas suas pesquisas, que, fui informado, não terminaram, pelo contrário.

14/05/2020

O SULTÃO DE ZANZIBAR E A LINHA ISLÂMICA AO NORTE DE MOÇAMBIQUE

Imagens retocadas. O original da primeira pertence aos arquivos colonais da Alemanha.

Quem quiser entender melhor a história de Moçambique deve primeiro estudar a presença árabe islâmica na costa oriental africana e especialmente a história da Ilha de Zanzibar, nomeadamente antes e depois da tomada daquela ilha aos portugueses, cerca do ano de 1700, e a constituição de uma espécie de “estado islâmico” sustentado no comércio de (pois é) escravos e marfim. Ver em baixo um resumo muito resumido da Wikipédia, delapidado por mim.

Nos tempos que correm hoje, em que todos os analistas e académicos especializados nesta já cinquentenária “soberania frelimiana”, se atropelam à procura de conjuras e de justificativos para a chamada “insurgência” na agora “província rebelde” de Cabo Delgado, é sempre bom recapitular.

O palácio do sultão de Zanzibar, na Ilha de Zanzibar, segunda metade do Século XIX.

 

A Ilha de Zanzibar, epicentro de um estado árabe islâmico que chegava quase até à costa ocidental de África entre os Séculos XVIII e XIX e que fazia o colonialismo europeu parecer um picnic.

O Resumo da História de Zanzibar na Wikipédia (pesadamente editado por mim)

Estima-se que nas Ilhas índicas de Zanzibar e Pemba se fixaram as primeiras povoações árabes muçulmanas na costa da África oriental, há cerca de mil anos. Em Kizimkazi, na ilha de Zanzibar, existe uma inscrição numa parede que afirma “o Cheque al-Sayis Abi Amran” ordenou a construção duma mesquita naquele lugar, “no primeiro dia do mês de Dhul-Qada do ano 500” (da Hégira), o que no calendário Juliano significa o dia 27 de Julho de 1107.

Os árabes chamavam à ilha “Zanj-Bar”, que significa, na sua língua, “costa dos Zanj” ou “dos negros”.

Por essa altura, Zanzibar importava cerâmica do golfo pérsico e rapidamente se tornaria numa base para mercadores árabes, onde uma das mercadorias principais era o tráfico de escravos. O primeiro europeu a visitar a ilha foi o navegador português Vasco da Gama, aquando da sua épica primeira viagem até à costa indiana em 1499, acabando os portugueses por (essencialmente ao tiro e à espadeirada) estabelecer ali um entreposto comercial e uma missão católica, dominando Zanzibar e boa parte da costa oriental africana até a Arábia, durante os dois séculos seguintes.

Por volta de 1698, esse domínio degradara-se. Sinal desse enfraquecimento, o sultanato de Omã conquistou Zanzibar aos portugueses (essencialmente, ao tiro e à espadeirada) que de seguida tornou-se no principal entreposto comercial do oceano Índico Ocidental, vendendo escravos (capturados em gigantescos raids na contracosta) e marfim para o mundo árabe, a Índia e também para o mercados nas rotas do Oceano Atlântico.

É por esta altura que se começa a formar e consolidar uma nova linha invisível de demarcação entre o mundo islamizado e afro-islamizado e o mundo controlado (muito tenuamente) pelas autoridades portuguesas. Essa linha “de soberania” situava-se mais ou menos em Angoche, a Sul da Ilha de Moçambique – ilha crucial para a rota da Índia e que, justamente, por ser uma ilha fortificada, foi sempre impregnável, apesar de se situar, neste contexto, em terreno hostil.

A Norte dessa linha, os portugueses iriam ter sempre que lidar com os árabes de Oman, com os nativos muçulmanos rebeldes – e iriam ter sempre problemas.

Em 1841, o sultão Said Ibn (1805 – 1856) mudou a sua corte de Omã para Zanzibar.

Foi naquela altura que o muito cristão e muito britânico e celebrado Dr. David Livingstone andou por aquelas paragens, sendo que, em consequência do que viu, deixou relatos assustadores sobre a escravatura praticada pelos súbditos islâmicos do Sultão de Zanzibar, que, uns anos depois, dividiu os domínios entre Oman e Zanzíbar.

Em 1873, John Kirk, cônsul britânico no sultanato durante mais que vinte anos (entre 1866 e 1887), persuadiu finalmente o sultão de então, Sayyid Sir Barghash bin Said Al-Busaid, a pôr fim ao tráfico de escravos – bem, mais ou menos. Este era um objectivo da política externa britânica desde há décadas. Este filme iria durar pelo menos durante mais vinte anos.

Barghash bin Said Al-Busaid.

Entretanto, na sequência da Conferência de Berlim, os alemães, agora unidos no seu Primeiro Reich, decidiram (pura e simplesmente) ficar com o que se tornou no Tanganica, que constituía a maior parte do Sultanato no território continental africano – em frente a Zanzíbar.

A ponta Sul desse território confinava com o que os portugueses da altura diziam aos quatro ventos que era seu – o Rio Rovuma.

Na nova colónia alemã, tal como acontecia com os vizinhos portugueses, fez-se pouco ou nada.

 

Os rapazes de Mouzinho posam para a fotografia durante a chamada Campanha dos Namarrais, 1897. Aquilo correu mal e a tropa portuguesa teve que voltar lá umas vezes para “pacificar”.

Lá de cima, vieram dois salvos de aviso: no Planalto, a tribo dos Macondes, que eram tudo menos “moçambicanos”, reiteraram que não reconheciam e não se submeteriam à Pax Lusitana. Durante a Grande Guerra, prestarão assistência aos alemães; e mais ao lado, no que viria a ser o Território do Niassa, um outrora sultão muçulmano, de nome Ce Bwonomali Mkandu (aka Mataca III) captura, manda cortar o pescoço a um previamente quase desconhecido Tenente Eduardo Valadim, e ostensivamente avisa os portugueses que desapareçam dali para fora. Mataca III e os seus cerca de 45 mil súbditos pagarão caro pela brincadeira: em 1912 foram todos exilados a tiro para a África Oriental Alemã, a sua capital foi arrasada e no seu lugar edificado um forte, chamado Valadim, localidade que ainda existe com a mesma toponímia, para variar (hoje está no meio do Bloco de Caça D-2 da Província do Niassa).

E houve ainda a Guerra dos Namarrais, que, essencialmente por falta de recursos e erros de táctica de logística, se prolongou durante quase quinze anos, mas que tinha subjacente a mesma lógica.

O Tanganica foi alemão até meados da I Guerra Mundial, quando passou para controlo britânico.

Logo a Sul do Rio Rovuma, apesar de perdas consideráveis e largamente fúteis (e portanto trágicas) os portugueses aguentaram o embate e permaneceram. Em 1919 receberam o Triângulo de Quionga como saguate.

E nos 80 anos que se seguiram, todos sem excepção, incluindo os Libertadores, aparte o slogan fácil e despido de qualquer significado real de “Moçambique do Rovuma ao Maputo”, se esqueceram daquilo, pois o verdadeiro negócio, o dinheiro e o poder estavam em Lourenço Marques, depois Maputo.

Até ao dia em que se descobriram, há meia dúzia de anos, mesmo em frente ao Triângulo de Quionga, as enormes jazidas de gás.

Em frente ao Tanganica, entre 1890 e 1963, com os seus sultões, Zanzibar foi um protectorado britânico, excepto durante os quase quatro anos entre Novembro de 1914 e Setembro de 1918, quando esteve ocupada pelos otomanos, aliados aos alemães e adversários dos Aliados.

Zanzibar obteve a independência dos britânicos em 1963 e tornou-se numa monarquia constitucional, mas o sultão foi deposto logo de seguida numa revolução e o país uniu-se ao vizinho Tanganica em 1964 para, sob a égide do Professor Julius Nyerere, formar a actual Tanzânia. No entanto, Zanzibar ainda hoje mantém alguma autonomia: elege o seu próprio presidente, que funciona como chefe do governo da porção insular e uma assembleia denominada “Conselho Revolucionário”.

A Sul, Moçambique seguiu o seu caminho, de colónia para estado soberano. E , passados todos estes anos, aparte o pacto entre alguns Macondes e a elite sulista da Frelimo, para forçar a saída dos portugueses nos anos 60, a tal linha imaginária rebelde e islâmica de que falei em cima ainda está lá.

Intacta.

Que os locais agoram usem armas ligeiras, granadas, bazookas e mais o que conseguem arranjar por lá, e slogans de guerra islâmicos importados de outros teatros de guerra, e combatam o estado moçambicano em vez do português, é apenas sinal dos tempos.

Cabe aos moçambicanos de hoje decidirem se de facto aquilo e aquela gente lá em cima afinal faz ou não parte de Moçambique e tomarem as medidas decorrentes. Que poderão ter que passar por mais uma guerra civil, mais senão não menos dolorosa que a anterior.

Ou por um esforço de integração daquela região esquecida no todo da nação moçambicana, o que se vislumbra difícil dado Moçambique ser hoje perto de um estado falhado. E laico, o que no mínimo dificulta acomodar formas de islamismo digamos que mais fundamentalistas.

No fim, seja quem for que ganhe aquilo, ficará com um novo país. Ou dois.

E com o gás todo.

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