THE DELAGOA BAY WORLD

04/03/2017

A PASSAGEM DO ANO NO GRÉMIO DE LOURENÇO MARQUES, 1965-66

Fotografias de Francisco Duque Martinho.

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Jovens a celebrar a passagem de ano a 31 de Dezembro de 1965 no Grémio de Lourenço Marques

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Foto de grupo. Tudo chiquérrimo. Consta que o Grémio era frequentado pela fina flor lá do burgo Coca-Cola.

O CHEVROLET DOS RUSSELL EM LOURENÇO MARQUES, 1955

Filed under: Chevrolet 1955, José Alexandre Russell — ABM @ 22:58

Fotografia do José Alexandre Russell, que restaurei.

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Este Chevrolet foi o primeiro carro do Pai Russell em Lourenço Marques, 1955.  Está estacionado à porta da Pensão Belo Horizone.

CASAMENTO EM LOURENÇO MARQUES E A FOTO MÁRIO NO ALTO-MAÉ, ANOS 70

Filed under: Casamento em LM, Foto Mário LM — ABM @ 18:40

Não conhecia a Fotografia Mário, mas aqui vão alguns detalhes.

 

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Fotografia de um casamento em Lourenço Marques, início dos anos 70. Se alguém conhecer os nubentes, envie uma nota para aqui pr favor.

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O verso da fotografia com o carimbo da Foto Mário.

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O que resta da Foto Mário actualmente. Fotografia do Fernando Pinho. De facto, pelo que se vê, o estabelecimento hoje vende….roupa. O que aconteceu ao Mário?

OS PROFESSORES DA ESCOLA PREPARATÓRIA DA MATOLA, 1972-73

Fotografia cortesia do Eduardo Horta, que aparece na fotografia (Nº8 na grelha). Se faz favor de ver em baixo a mesma foto, indexada, e conhecendo o professor e a matéria que dava, por favor escreva para aqui para se tentar completar a informação.

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Os professores da Escola Preparatória da Matola, ano lectivo 1972-1973.

 

Eis a grelha com os nomes dos professores e a matéria que davam: 1 -Pinho (Trabalhos Mauais); 2-?; 3-?, 4-? (História); 5-?; 6-?, 7-Carlos Afflalo (Educação Musical); 8-Eduardo Horta (Educação Física), 9-Mota Bronze (Trabalhos Manuais); 10-?; 11-?;12-João Manuel Pereira dos Santos (?); 13-?, 14-?; 15-?; 16-Fernanda Gouveia ou Campos (Educação Física), 17-?; 18-?, 19-?; 20-?;21-?;22-?; 23-?, 24-?; 25-Maria Leopoldina Rodrigues “Mariazinha (?); 26-?, 27-Antónia (Matemática); 28-?, 29-?; 30-?; 31-Maria Emilia Varela Pereira Tinoco (Trabalhos Manuais); 32-Armanda Fonseca-(?); 33-?, 34-Celeste (Matemática); 35-?; 36-Alboim Inglês (Director), 37-?; 38-?, 39-?; 40-?; 41-?

BRINCANDO EM XINAVANE, 1965

Filed under: Luis Vidal Monteiro — ABM @ 15:50

Fotografia cortesia de Luis Vidal Monteiro.

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O Luis é o jovem cowboy à direita, com os irmãos.

02/02/2017

“PANDA”, DE ANA MARIA PLÁCIDO CASTELO BRANCO GRAÇA FERREIRA, 1954

Eternamente grato ao Nuno Castelo-Branco.

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“Panda”, pintado em 1954 por Ana Maria Plácido Castelo Branco Graça Ferreira. Panda é um Distrito de Moçambique, que fica situado a Oeste de Inhambane.

Esta fascinante pintura é apenas uma num conjunto de obras absolutamente notáveis, produzidas por Ana Maria ao longo de décadas.

Biografia da Autora

Ana Maria Plácido castelo Branco Graça, Ferreira pelo casamento com Vítor Wladimiro José Ferreira, professor do Ensino Secundário e do Superior, recentemente falecido.

Nasceu a 27 de Abril de 1933 no Errego, Circunscrição do Ile, Província da Zambézia, na então Colónia de Moçambique. Filha de Arlindo Dias Graça, aspirante do Quadro Administrativo – que faleceu em 1955 em Panda, vitimado por uma injecção quando era administrador de circunscrição, em processo de transferência para a de Zavala – ele filho de um luso-brasileiro de Ouro Preto (Minas Gerais, Brasil), capitalista e proprietário, que casou numa família de Valadares, arredores do Porto; trineta do escritor Camilo Castelo Branco e de Ana Augusta Plácido Braga por sua Mãe, Alice Augusta Plácido Castelo Branco, nascida em São Miguel de Seide, na chamada “Casa Amarela” em que o casal de escritores viveu os seus últimos trinta anos, hoje Casa Museu do ilustre escritor.

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Errego fica a 2/3 do caminho de Quelimane para o Gurué, na Zambézia.

Acompanhou, sempre, os Pais, nas deslocações profissionais paternas, tendo vivido na Zambézia, no Sul do Save e também na capital da Colónia moçambicana, Lourenço Marques. Fez os primeiros estudos nas circunscrições em que o Pai esteve colocado e recebeu, desde muito cedo, o encargo da orientação da casa dos pais, dados os problemas de saúde de sua Mãe, razão muito especial para que não tenha ido viver para a capital da então Colónia, e assim, continuar os estudos secundários.

Recebeu as primeiras caixas de lápis de cor ainda criança e desde então, nunca deixou de desenhar e de pintar. Pelos seus 12 anos esteve em Lourenço Marques durante umas semanas e frequentou o atelier do mestre Frederico Ayres (Lisboa, 1887 – Lourenço Marques, 1963), um pintor de forte influência académica, em cuja obra, no entanto, já perpassa um fluir impressionista e que deu aulas de pintura a muitos amadores da cidade, africanos, chineses e europeus. Frederico Ayres disse-lhe então, que não tinha nada a ensinar-lhe.

Continuou a sua formação, sempre como autodidacta, seguindo duas linhas fundamentais: por um lado, a análise de livros e revistas ligadas à Arte que o Pai adquiria ou assinava; por outro, a observação directa de tudo quanto a cercava, muito especialmente nos quatro anos vividos em Panda, onde chegou aos 18 anos, lugar aquele perdido no interior do Sul do Save, onde raros eram os portugueses, nenhum dos quais, aliás, com interesses artísticos , exceptuando o Pai que, em tempos de juventude, também manejara os pincéis e que desta forma, teve uma grande influência no seu desenvolvimento cultural.

Esta situação de isolamento – estado que muito aprecia e ainda cultiva – deixaram-lhe tempo para observar cuidadosamente as vivências da população negra que a cercava e de que tomou apontamentos que juntamente com a especial memoria visual de que é dotada, continuam a servir-lhe para os trabalhos que vem desenvolvendo desde que, em 1955, ficou a viver “na Cidade”[Lourenço Marques, hoje Maputo], i.e., há 53 anos, paixão a que, ainda hoje, continua a dedicar, vespertinamente, entre 4 a 5 horas diárias.

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Ana Maria em Lourenço Marques, anos 50.

Estabelecida, após a morte do Pai, na capital moçambicana, empregou-se como praticante de desenhadora na Missão de Fotogrametria Aérea, organismo autónomo que funcionava num espaço junto dos Serviços de Agrimensura em Lourenço Marques, tendo seguidamente feito a sua primeira exposição individual de pintura em 1956, na Associação dos Naturais de Moçambique; foi depois, sempre como desenhadora, funcionária dos Serviços de Acção Psicossocial e da Organização Provincial de Voluntários de Moçambique até 1974, ano em que seguiu com o marido e os três filhos para Portugal Continental e onde fixou residência.

Viveu primeiramente na Capital e depois em Caxias – pequena Vila situada a poucos quilómetros de Lisboa -, onde continua a pintar e a estudar centenas de livros das suas estantes, aqueles Mestres que mais lhe interessam, em especial os impressionistas que, em verdade, sempre considerou os de maior relevo para a sua prática de recolha dos usos e costumes dos povos africanos com que conviveu.

01/02/2017

A PRAIA DA POLANA E O CAIS ALMEIDA EM LOURENÇO MARQUES, INÍCIO DO SÉC. XX

Postal dos fotógrafos Joseph e Maurice Lazarus, acerca dos quais o Paulo Azevedo recentemente publicou um livro com os resultados de uma aturada pesquisa e a que farei referência brevemente.

 

A Praia da Polana e o Cais Almeida em Lourenço Marques, início do Séc. XX.

A Praia da Polana e o Cais Almeida em Lourenço Marques, início do Séc. XX. Nesta praia mais tarde foram edificados o Clube Naval e o Pavilhão de Chá da Polana. O cais permitia às pessoas embarcarem em pequenos barcos sem as complicações de terem que o fazer na praia.

MARIA DAS NEVES REBELO DE SOUSA DANÇA COM O FILHO MARCELO EM LOURENÇO MARQUES, 1970

O jovem universitário Marcelo Rebelo de Sousa, dança com a Mãe, Maria das Neves, então mulher do Governador-Geral de Moçambique, em Lourenço Marques, 1970.

O jovem universitário Marcelo Rebelo de Sousa, dança com a Mãe, Maria das Neves, então mulher do Governador-Geral de Moçambique, Baltazar Rebelo de Sousa, em Lourenço Marques, 1970. Em 2016, Marcelo foi eleito Presidente da República portuguesa.

A SEDE DA SOCIEDADE DE ESTUDOS DE MOÇAMBIQUE EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Filed under: Garizo do Carmo artista, LM Sociedade de Estudos — ABM @ 20:48

No que concerne a Sociedade de Estudos de Moçambique, e citando o Livro de Ouro de Moçambique, 1970, com o texto editado por mim:

“A Sociedade de Estudos de Moçambique foi instituída em 6 de Setembro de 1930, data em que foram aprovados os seus Estatutos, publicados pela Portaria n.° 1185, daquela data. Resultou de um movimento inspirado pelo Engenheiro de Minas, António Joaquim de Freitas, que veio a ser o seu Sócio Fundador n.° 1. No convite que dirigiu aos intelectuais de Moçambique, a propor a fundação da Sociedade, mencionava António Joaquim de Freitas, ser um dos objectivos ‘estabelecer um convívio intelectual necessário às pessoas que vivem pelo cérebro’.

Os Estatutos aprovados definiram como objectivos da Sociedade de Estudos, contribuir para o estudo e valorização económica de Moçambique; e contribuir para o desenvolvimento intelectual, moral e físico dos seus habitantes em geral, e, em especial, dos seus associados.”

A António Joaquim de Freitas juntaram-se 101 Sócios Fundadores. E depois, desde 1930, muitos outros, que com esforço, dedicação e inteligência pretenderam realizar com persistência os objectivos da Sociedade.

Foi o primeiro Presidente da Direcção da Sociedade de Estudos o Coronel Eduardo Augusto da Azambuja Martins. Sucederam-lhe o Eng.° Joaquim Jardim Granger (1932-34); o Coronel João José Soares Zilhão (1935 e 1940-41); o Eng.° Mário José Ferreira Mendes (1936-38 e 1946-49); o Comte. José Cardoso (1939); o Eng.° António Joaquim Freitas (1942-45); o Dr. António Esquivei (1950-60); o Contra-Almirante João Moreira Rato (1961-62); o Prof. Eng.° Manuel Gomes Guerreiro (1963). O Presidente em 1970 era o Eng.° João Fernandes Delgado.

 

A sede da Sociedade de Estudos em Lourenço Marques, anos 60.

A sede da Sociedade de Estudos em Lourenço Marques, final dos anos 60. O edifício fica situado na Somershield em Lourenço Marques (agora Maputo). Na fachada, o belo painel do artista Garizo do Carmo.

Os Estatutos aprovados em 1930 previam a edificação de ‘uma sede suficientemente ampla, cujos meios de trabalho e conforto irá sucessivamente aumentando, por forma a tornar a sua frequência cada vez mais agradável’. Depois de grandes esforços, foi finalmente decidia a construção do novo Edifício-Sede em 1962. Os encargos foram suportados por subsídios, concedidos pelo Governador-Geral de Moçambique, Contra-Almirante Sarmento Rodrigues, pela Fundação Calouste Gulbenkian, por reservas criadas, por quotização suplementar por parte dos sócios, e por um empréstimo a amortizar anualmente.

O edifício, segundo projecto do Arquitecto Marcos Guedes e o Eng.° Carlos Pó, foi executado em 1963, sob a orientação da Direcção presidida pelo Prof. Eng.° Manuel Gomes Guerreiro, tendo sido inaugurado oficialmente em 21 de Abril de 1964, pelo Governador-Geral de Moçambique, Contra-Almirante Sarmento Rodrigues. Registam-se também as ofertas recebidas de diversas entidades para o apetrechamento do novo Edifício-Sede.

Dentro da acção desenvolvida desde 1930, a Sociedade promoveu a realização de estudos, cursos, lições, conferências, congressos, exposições e sessões de cinema. Entre 1931 e 1974 publicou o ‘Boletim da Sociedade de Estudos de Moçambique’, com periodicidade trimestral. Editou também outras publicações, entre as quais se destaca ‘A Cartografia Antiga da África Central e a Travessia entre Angola e Moçambique, 1500-1860’ da autoria do Comandante Avelino Teixeira da Mota. As publicações da Sociedade de Estudos eram permutadas com as de numerosas instituições nacionais e estrangeiras em todo o Mundo. Foi assim organizada progressivamente uma Biblioteca de carácter enciclopédico, que em 1970 contava com cerca de 25 000 volumes e ainda uma biblioteca juvenil, com perto de 1500 volumes.

Resumindo e concluindo, parece-me que a Sociedade de Estudos de Moçambique pretendeu ser, de uma forma se calhar aligeirada e um pouco ao estilo da Sociedade de Geografia de Lisboa do Séc. XX, uma espécie de “think-tank” de uma certa elite intelectual principalmente da sociedade colonial de Lourenço Marques, se bem que, comparado com a veneranda organização de Lisboa, era muito mais aberta à participação das pessoas e da comunidade onde se inseria. No contexto da ditadura então vigente, que não favorecia exactamente o livre discurso, penso que nunca de venturou pelo campo da análise política, tendo no entanto feito muito trabalho académico de enorme interesse, uma vez que por ali passou gente de enorme calibre. Sendo uma organização essencialmente de portugueses e brancos ( os únicos pretos lá dentro deviam ser o jardineiro e a senhora do café) e com a saída em massa destes de Moçambique a partir de Setembro de 1974, e na face das prioridades “revolucionárias centralizadas” impostas pela nova ditadura comunista da Frelimo, para quem tudo o que era colonial era para destruir, e quanto mais depressa melhor, a Sociedade de Estudos não teve qualquer continuidade. Atrás, ficaram espalhados pelas bibliotecas do Mundo os seus Boletins, que constituem uma rica fonte de informação histórica sobre uma variedade de tópicos alusivos a Moçambique e ainda o edifício, com os seus memoráveis painéis de vidro, da autoria de Garizo do Carmo, hoje com um uso qualquer, vizinho da casa onde ainda mora nada menos que Marcelino dos Santos.

Bibliografia adicional: Albino Machava. «Notícia sobre a Sociedade de Estudos de Moçambique, 1930-1974», “Arquivo” (Boletim do Arquivo Histórico de Moçambique) Nº7,  Abril 1990, pp.83-98.

14/01/2017

O COMANDANTE AUGUSTO CARDOSO, AIDA SORGENTINI E O HOTEL CARDOSO EM LOURENÇO MARQUES

Filed under: Aida Sorgentini, Augusto Cardoso, Hotel Cardoso — ABM @ 23:55

Texto baseado na obra Edifícios Históricos de Lourenço Marques, de Alfredo Pereira de Lima, fotos do Comandante Cardoso e do anúncio publicitário cortesia do grande Paulo Azevedo, fotos dos Sorgentini e alguma informação preciosa de uma filha de Ítalo Sorgentini.

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Augusto Cardoso em Lourenço Marques, com o seu assistente especial a segurar a sua arma, fim do Século XIX. Parecem o Robinson Crusoé e o Sexta-Feira.

O actual Hotel Cardoso, ergue-se em terreno que outrora pertenceu ao Comandante da Marinha Augusto Cardoso – daí o seu nome.

Augusto de Melo Pinto Cardoso nasceu em Lisboa em 19 de Agosto de 1859.

Foi para Moçambique em 1881, com o posto de guarda-marinha. Fez extensas viagens de exploração, a partir da Costa até ao Lago Niassa, percorrendo 2500Km. Relacionados com as suas explorações, elaborou estudos de carácter científico nas áreas da Matemática, Astronomia e Meteorologia; foi ainda jornalista, distinguindo-se também na administração pública, onde ocupou vários lugares de relevo.

Em 1885, colabora com o explorador Alexandre Serpa Pinto nas suas viagens de exploração ao serviço do Governo, nomeadamente nas suas deslocações à região do Niassa, em que o substituiu quando Serpa Pinto ficou gravemente doente.

À acção do Comandante Augusto de Cardoso e aos seus consideráveis conhecimentos da região do Lago Niassa, ficou a dever-se o relevante facto de não ter sido contestado pela Grã-Bretanha o traçado das fronteiras naquela parte de Moçambique, fronteiras essas que foram reconhecidas pelo tratado Anglo-Luso de 1891, que se seguiu ao Ultimato inglês em Janeiro de 1890.

Em 1888, Cardoso foi nomeado Capitão do Porto de Lourenço Marques.

Para satisfazer as instruções que trazia para sua comissão, no início da década de 1890, e sobretudo às necessidades que tal serviço exigiam, o Governo, por intermédio das Obras Públicas, delimitou um terreno na Ponta Vermelha, junto à encosta defronte da Estação do Telégrafo e dentro dele mandou construir uma casa para habitação do Comandante Augusto Cardoso

Vedado o terreno com arame e construída a casa, o comandante passou a habitá-la, após o que começou a valorizar o terreno em volta, aliás bravio e inculto e a tal ponto que o governo, em 1892, satisfazendo o seu pedido e reconhecendo os trabalhos em que o distinto oficial se havia empenhado para desbravar aquilo que fora mato cerrado, decidiu vender-lhe a casa e o terreno anexo, pelo justo preço do seu valor, transacção que se efectuou nesse mesmo ano.

Postal do Cardozo's Hotel nos anos 20

Postal do Cardozo’s Hotel nos anos 20

Isto, pórem, originou no ano seguinte uma pendência com a Câmara Municipal sobre a posse do terreno, acabando tudo por se arrumar em 1894, sujeitando-se o Comandante Cardoso ao pagamento à Camara do foro, como esta lhe exigia.

Foi neste terreno que o Comandante Cardoso converteu a sua casa num pequeno e requintado hotel: o Hotel Cardoso.

Não o explorou. Foram seus arrendatários Dolores Vega Bernal (ou Bernin) e mais tarde Louis Boschian.

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A moradia do Comandante Cardoso na Vila da Ponta Vermelha, fim do Século XIX.

Por essa altura o comandante Cardoso retirou-se para Inhambane, chamado a administrar aquele distrito com o título de Governador de Distrito.

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Um anúncio publicitário do Cardozo Hotel, cerca de 1915. A sua esplanada a Sul tinha a melhor vista da Baixa de Lourenço Marques, que se pode ver ao fundo.

De entre as funções mais notáveis que se realizaram nesse primeiro hotel, que até ao início dos anos 20 era um dos melhores da cidade, e certamente o melhor na Ponta Vermelha, foi o banquete que nele foi oferecido de homenagem ao Conselheiro João de Azevedo Coutinho no fim do seu mandato com Governador-Geral de Moçambique, em 1906.

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Um postal do hotel, da época, com a sua designação em língua inglesa.

O Lourenço Marques Guardian assim reportou o acontecimento na sua edição de 19 de julho de 1906:

Realizou-se no último sábado, nas salas do Hotel Cardoso, o banquete oferecido por um grupo de amigos so Sr. Conselheiro João de Azevedo Coutinho. Além de Sua Exa e do Sr. Governador de Distrito, assistiram ao jantar os senhores….”

E lista entre os mais de cinquenta nomes da sociedade Lourenço Marquina, como Sousa Ribeiro, Pedro Gaivão Couceiro da Costa, Hugo de Lacerda,Casal Ribeiro, Alferes Cabral, etc, e detalha os discursos proferidos por cada um.

Defronte do Hotel Cardoso existia um chalé no qual foi inaugurado pelo Conselheiro Azevedo Coutinho, na noite de 14 de Setembro de 1906, o “Grémio de Lourenço Marques” cuja fundação se deveu à iniciativa do Eng. Lisboa de Lima. Ali se passou a reunir a sociedade elegante de Lourenço Marques do começo do século, em saraus que ficaram célebres .

Conforme referido, Augusto Cardoso, nunca esteve à testa do hotel. Era seu arrendatário, em 1917, Louis Boschian, e agia como seu procurador o D.Egas Moniz Coelho.

Por volta dessa altura, surgindo pela mão do Coronel Lopes Galvão a questão da necessidade de um hotel de maior qualidade em Lourenço Marques, Cardoso move-se contra a ideia. Lopes Galvão, que acabara de chegar a Moçambique e quiçá o maior promotor dessa aspiração na altura, se referiria mais tarde ao assunto, em carta de 26 de dezembro de 1950, que escreveu a um amigo de Lourenço Marques :

…Chego a Lourenço Marques em 1917, verifiquei que não havia ainda um hotel para receber ´pessoas de categoria, que nos visitavam. Passei a fazer parte do Conselho de Turismo, onde Pontificava o Comandante Augusto Cardoso, dono do Cardoso Hotel.

Das variadíssimas inssistências para que o Conselho tratasse de arranjar para Lourenço Marques um hotel decente, cheguei à conclusão que o assunto não interessava ao Conselho.

A casa do Comandante Augusto Cardoso em Lourenço Marques, cerca de 1927.

A casa do Comandante Augusto Cardoso em Lourenço Marques, cerca de 1927.

Apareceu-me nessa altura Adriano Maia, que me disse que amigos seus do Transvaal estavam dispostos a fazer um grande hotel em Lourenço Marques, em determinadas condições. Ouvi-o, ouvi as condições, que me pareceram aceitáveis e levei o caso ao conhecimento do Massano de Amorim [então Governador-Geral de Moçambique]. Este achou bem e autorizou-me a negociar.

Ouvindo falar do caso, o Comandante Cardoso, foi para o Conselho de Turismo, e diz: Ouvi dizer que há negociações para se fazer um hotel. E, olhando para mim, acrescentou: Alguém sabe dizer-me alguma coisa do que se passa? Resposta minha: Eu sei, mas não estou autorizado a dizê-lo. Mas como o Conselho despacha directamente com o Governador-Geral, é-lhe fácil saber o que há.

Na noite desse dia recebo no Hotel Cardoso uma carta do comandante Cardoso dizendo cobras e lagartos ! e cortando as relações comigo.

Mostrei a carta ao Mariano Machado e este pediu-me autorização para ir falar no assunto ao Comandante. E foi. Vem com a resposta de que jamais reataria relações comigo.

Levadas as negociações a bom termo, os capitalistas foram a Lourenço Marques e o Inspector Góis Pinto foi autorizado a lavrar o contrato.

Tratava-se do futuro Hotel Polana, soberbamente edificado numa faixa sobranceira à Praia da Polana, num extremo da Concessão Somershield, adquirida para o efeito. O Polana seria inaugurado em 1922.

Talvez por se dar por vencido, em 1920, Cardoso vendeu o hotel a uma sociedade por quotas denominada “Cardoso Hotel Syndicate, Ltd”, da qual era um dos sócios gerentes Ernest Salm.

Nesta situação se manteve o hotel, até 1924, ano em que o negócio foi trespassado pelo empresário italiano Giuseppe Sorgentini, a sua jovem mulher Aida e dois irmãos deste.

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Giuseppe e Aida Sorgentini em Lourenço Marques, 1921, com o seu filho Ítalo ao colo.

Fora Giuseppe Sorgentini que, em 1905 e ainda solteiro, primeiro chegou a Moçambique em 1905, onde viveu intermitentemente, tendo prestado serviço militar durante a I Guerra Mundial na Itália. Logo após a Grande Guerra, casaria com a bonita e jovem Aida, nascida em Treia, perto de Ancona, na costa adriática italiana e que traz para Lourenço Marques em 1919, juntando-se-lhes ali dois irmãos mais novos de Giuseppe.

Na altura do trespasse os Sorgentini já há alguns anos viviam em Lourenço Marques e exploravam alguns negócios, entre os quais o Quiosque Central, na Praça 7 de Março na Baixa (actual Praça 25 de Junho) e o Hotel Grande. A 3 de Outubro de 1925 Giuseppe Sorgentini faleceu subitamente, deixando Aida viúva aos 27 anos de idade e com dois filhos menores, Ítalo e Jorge. Os irmãos de Giuseppe (mais precisamente Sorgentino, ou Sorge, Biaggio e o cunhado Raoul Crute e Silva) na altura queriam recambiá-la para Itália e ficar com a exploração do hotel, que na verdade era mais pensão que hotel, mas a jovem viúva foi para tribunal e, após alguma contenda, negociou as partilhas de tal forma que ficou com o trespasse do Cardoso só para si.

Um manchimbombo de Lourenço Marques, cerca de 1927.

Um manchimbombo de Lourenço Marques, cerca de 1927, que ligava a Baixa da Cidade com a Polana. A placa diz “POLANA HOTEL VIA CARDOZO”.

Em 1930, Augusto Cardoso morre em Inhambane.

Em 1932, surge um novo desafio para Aida Sorgentini, pois o prazo do arrendamento do hotel caducava e os donos do imóvel tencionavam vendê-lo. Com um empréstimo de amigos, cuja identidade não consegui apurar, Aida consegue comprar o hotel.

Em 1938, autorizada pela Câmara Municipal, Aida Sorgentini demoliu o velho prédio, gradualmente edificando no mesmo local então o segundo Hotel Cardoso, já inteiramente moderno, em estilo Art Deco, que só ficou concluído no final em Agosto de 1965 com 131 quartos, serviço de lavandaria, piscinas interna e externa, e uma lendária boate, com muito pouco que recordasse ainda os velhos tempos de Augusto Cardoso, cuja histórica casa desapareceu.

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O jovem Ítalo Sorgentini, filho de Aida, quando prestou serviço militar no exército português, em Lourenço Marques, durante a II Guerra Mundial. Como Portugal permaneceu neutral durante o conflito, não participou em combate.

O novo edifício foi executado em quatro fases, a primeira em Fevereiro de 1940, a segunda concluída no final de 1941, a terceira em 1948 e a quarta e final em 1965, foi projectado pelo arquitecto italiano Paolo Gadini, que desenhara o Clube Naval de Lourenço Marques e que anos mais tarde desenharia a nova e sumptuosa sede do Rádio Clube de Moçambique.

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Aida Sorgentini à entrada do então Hotel Cardoso, em 1940, quando inaugurou a Primera Fase da construção do hotel.

O "novo" Hotel Cardoso de Aida Sorgentini, meados de 1943.

O “novo” Hotel Cardoso de Aida Sorgentini, meados de 1943.

 

O logotipo para bagagem do Hotel nos anos 50, em que ainda só tinha um andar, e sem piscina.

O logotipo para bagagem do Hotel nos anos 50, em que ainda só tinha um andar, e sem piscina.

Ao longo dos anos, a personalidade, o sacrifício e a perseverança de Aida Sorgentini conquistaram o respeito da Cidade e especialmente dos seus funcionários, ainda visíveis há alguns anos através de uma placa de bronze colocada no lobby do hotel, já depois da Independência e que ainda vi em 2008.

O Hotel em 1959.

O Hotel em 1959.

A piscina, 1959.

A piscina, 1959.

 

Um logotipo de bagagem do hotel, anos 50, evocando a sua bela piscina.

Um logotipo de bagagem do hotel, anos 50, evocando a sua bela piscina.

Os Sorgentini (Aida e os filhos Ítalo e Jorge) permaneceram donos do Hotel até ao início dos anos 90, já muito depois da Independência, em que operaram com enormes dificuldades de logística, resultantes das inúmeras carências que se faziam sentir na altura.

Aida Sorgentini faleceu no Hotel Cardoso a 4 de Novembro de 1987, com 93 anos de idade. Os seus filhos, Ítalo e Jorge, venderam o hotel mais tarde e radicaram-se em Joanesburgo. Jorge faleceu em 1991. Ítalo faleceu em 2012, com 92 anos de idade.

Um envelope do hotel, creio que dos anos 60.

Um envelope do hotel, creio que dos anos 60.

A descendência mais directa dos Sorgentini hoje inclui as três filhas de Ítalo, Jenny,  Alicia e Sandra  (Jenny e Sandra, que deslumbravam o Luis Arriaga nos anos 60). Jenny vive na Austrália, enquanto que Alicia e Sandra na África do Sul. Quanto a Jorge, o segundo filho de Aida, deixou apenas uma filha, Alba (ou Christine) que vive em Marbella, Espanha.

Em 1991, 59% do capital da sociedade que detém o Hotel foi adquirido pelo conglomerado internacional Lonrho, então liderado pelo mercurial homem de negócios britânico Roland Walter Fuhrhop, popularmente conhecido como Tiny Rowland. Os restantes 41 por cento das acções ficaram detidos pela firma Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) e pelo Estado moçambicano, representado pelo Instituto de Gestão e Participações do Estado (IGEPE).

Entre 1992 e 1994, aquando do fim do longo conflito civil, a cúpula da Renamo residiu no hotel, na altura num estado de alguma degradação.

Em Julho de 2013, um consórcio liderado pelos investidores suíços Rainer-Marc Frey and Thomas Schmidheiny adquiriu a Lonrho, sendo, ao que sei, os actuais accionistas maioritários.

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O Hotel Cardoso nos Anos 60, já depois de concluída a 4ª fase da sua construção.

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O Hotel Cardoso, tal como existe na actualidade, com a sua fachada frontal em Art Deco e já significativamente ampliado.

 

A parte do hotel que dá para a Baía.

A parte do hotel que dá para a Baía.

Fontes, para além das citadas:
http://fep.up.pt/docentes/cpimenta/lazer/WebFilatelicamente/public_html/r112/artigo_html/revista112_3.html

13/01/2017

O ENVELOPE DE TAYOB ADAM KATCHI, E A FOTOGRAFIA DE NATÁLIA CORREIA E VERA LAGOA EM LISBOA, 1951

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O envelope, carimbado com data de 28 de Agosto de 1945, perto da data em que o Império do Japão se rendeu incondicionalmente aos Aliados, dando por finda a II Guerra Mundial.

De entre a documentação que rotineiramente analiso, incluo o visionamento das empresas e negócios que houve em Moçambique antes da Independência. Há uns dias, deparei-me com o envelope exibido em cima, datado Agosto de 1945. Não fazia ideia de que se tratava a empresa “T.A.Katchi”. Mais tarde, apercebi-me de que se relacionava com Tayob Adam Katchi.

Quem foi Tayob Adam Katchi? a análise do tecido empresarial moçambique anterior à Independência é um longo estudo ainda por fazer e quase todos os académicos o ignoram, abordando-o a não ser pela rama. Mas a internet permite fazer-se alguma coisa. Apanho um artigo de Jorge Morais, n’O Diabo, um histórico jornal conservador fundado por Vera Lagoa em Fevereiro de 1976, em que deparo com a fotografia em baixo, que me deixou surpreendido.

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Na sua residência na Rua dos Anjos, Nº13, em Lisboa, num jantar realizado a 13 de Abril de 1951, da esquerda, o empresário de Moçambique Tayob Adam Katchi, a jovem açoreana Natália Correia, o dramaturgo e ensaíasta Armando de Aguiar e Maria Armanda Falcão (aka Vera Lagoa, nascida circunstancialmente na Ilha de Moçambique). Natália e Vera vestidas a rigor com saris.

A fotografia foi tirada em casa de Tayob Adam Katchi em Lisboa, em Abril de 1951. O texto descreve-o como um “importante homem de negócios de origem indiana, uma figura do ‘jet set’ português dos anos 50 e um ‘entertainer’ da intelectualidade lisboeta”.

Curiosa a presença de Armando de Aguiar (ou D’Aguiar) nesta fotografia e ainda mais nesta companhia. Armando de Aguiar fora nos anos 30 a 60 um dos celebrados bardos do regime de Salazar. Entre outros, publicou em 1934, no Brasil, um livro com 252 páginas, ilustrado, chamado “Oliveira Salazar – O Homem e o Ditador (sua vida e sua obra)”. Dedicada aos brasileiros e os portugueses radicados naquele país sul-americano, d’Aguiar explica ao que vem: “este livro é de uma rigorosa informação. Sendo assim, só poderia ser um livro de verdade histórica e, ao mesmo tempo, de elogio a Salazar. ao homem intimo e ao ditador, pela simples exposição da sua vida e pela narrativa da obra que vem realizando em Portugal. É a sua figura nítida e clara, que está nestas páginas. Chefe de um governo de segura e enérgica orientação, demonstrou que já é passado o tempo dos governos sem entusiasmo. Desse entusiasmo vem usando em sua administração. Daí o relevo com que Salazar se projecta no mapa europeu, fazendo convergir para Portugal a curiosidade do mundo, pois todas as nações desejam conhecer esse homem admirável que sabe querer e sabe realizar.” A obra circulou livremente no Brasil durante alguns anos, até, em 1938, ser incluida pelo Departamento de Ordem Política e Social, um organismo estatal de censura, na sua lista de obras proibidas, na sequência de uma tentativa de golpe de direita contra a ditadura de Getúlio Vargas. Aguiar era jornalista do Diário de Notícias e um colaborador próximo de António Ferro, de cujo Secretariado de Propaganda Nacional (e depois o seu sucedâneo, o SNI) ele foi delegado. Em 1932, publicara A Ditadura e os Políticos. Em 1936, integra o “batalhão” de jornalistas portugueses, enviados a Espanha para cobrir a Guerra Civil, numa estratégia de propaganda salazarista de apoio a Francisco Franco. No fim da II Guerra Mundial, publica  Portugueses no Brasil, Entre 1951-54, publica O Mundo que os Portugueses Criaram; e, em 1964, Guiné, Minha Terra.

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Capa do livro de Armando de Aguiar sobre António de Oliveira Salazar, 1934

Pelo envelope em cima, sabe-se que Tayob tinha pelo menos uma empresa de importação e exportação em Moçambique durante a II Guerra Mundial. Mas pouco consta em relação a outros negócios.

Numa interessante tese de doutoramento de Sérgio Chichava, concluída em 2007, sobre a Zambézia, Tayob é referido brevemente, a propósito de José Roldão, uma figura política e socialmente importante da Zambézia, Presidente da Associação Africana da Zambézia em 1941, e que, como jornalista, colaborou de forma significativa na imprensa moçambicana assinando sob o pseudónimo F.Saldanha, sendo, de um rol de figuras conhecidas, o único que colaborava a partir de um ponto situado fora de Lourenço Marques. Neste contexto, Roldão é mencionado como tendo trabalhado directamente para Tayob Adam, “na altura um dos homens de negócios mais importantes de Quelimane”, sendo considerado o seu primeiro e principal colaborador.

Um documento adicional sugere uma dimensão religiosa e cultural peculiar de Tayob Adam, que era muçulmano. Duas publicações da The Islamic Review, uma revista que circulou no Ocidente entre 1913 e final dos anos 60, referem Tayob Adam como seu correspondente em Lisboa, inclusivé indicando como endereço postal a sua residência em Lisboa. A revista era uma versão sofisticada e a voz pública do movimento Ahmadiyya, que pode ser lida premindo aqui. Certamente que, na altura, poucos sabiam ou entendiam algo sobre os detalhes desta particular vertente do islamismo a que Tayob Adam se associara.

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Excerto da edição de Dezembro de 1952 da The Islamic Review , em que Tayob Adam Katchi surge, em baixo à esquerda, como colaborador da revista em Portugal, recebendo pedidos de subscrição.

 

 

11/01/2017

O INTERIOR DO TEATRO VARIETÁ EM LOURENÇO MARQUES, 1913

Fotografia cortesia de Paulo Azevedo.

Até à sua demolição cerca de 1968, o Teatro Varietá manteve este aspecto.

 

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O interior do Teatro Varietá em 1913.  Clique na imagem para ver em tamanho maior.

A segunda casa de ópera situada a Sul do Equador, a seguir à Ópera de Port Elizabeth, na África do Sul, o Teatro Varietá foi inaugurado no dia 5 de Outubro de 1912, no segundo aniversário do golpe que derrubou a Monarquia. Ficava situado em Lourenço Marques, no início da Rua Araújo, perto da Praça 7 de Março (actual Praça 25 de Junho). Previamente, aqui houve um Ringue de Patinagem e Cinematógrafo com o mesmo nome, inaugurado a 16 de Julho de 1910 e antes um campo de hockey em patins – o primeiro em todo o espaço português, em que se disputaram jogos de hóquei em patins. O Teatro foi uma iniciativa dos empresários italianos Pietro Buffa Buccellato e Angelo Brussoni. No local onde estava implantado, foram inaugurados cerca de 1970 o Cinema Dicca e o Estúdio 222.

Eu ainda frequentei o Varietá quando era muito miúdo – 5 a 8 anos de idade. Na altura esta sala parecia-me verdadeiramente gigantesca. Como os B. de Melo eram mais que muitos, o Pai Melo comprava um camarote, habitualmente o primeiro no alinhamento de camarotes situados à esquerda na fotografia. Lembro-me nitidamente de aqui ter visto o filme épico Barrabás, sobre o ladrão bíblico que terá sido (no fim) crucificado com Jesus Cristo. Só que a violência era mais que muita, sangue por todos os lados e o raio do filme nunca mais acabava.

Outro problema logístico era que os quartos de banho do Varietá ficavam do lado direito da sala, a seguir às portas que se podem ver aqui à direita (o bar ficava do lado esquerdo). Ora, se eu quisesse fazer ir chichi a meio do filme, tinha que me levantar do primeiro camarote à direita, sair da sala para um corredor escuro como breu pela porta do camarote,que se pode ver na imagem, dar a volta ao teatro todo por fora até aos lavabos, fazer o serviço, e voltar todo o caminho de volta. Qual era a então solução? saía do camarote, descia mais dois camarotes, fazia lá o chichi e voltava, aliviado, para ver se o Barrabás já tinha morrido.

10/01/2017

CORRIE RAYNAL E A FLORISTA MAGNÓLIA EM LOURENÇO MARQUES

Muito grato a João Luis Raynal Lira, cuja Mãe Corrie fundou esta empresa.

Corrie Raynal nasceu em Lourenço Marques, filha de um casal britânico com o mesmo apelido, que foram viver para Moçambique nas primeiras décadas do Século XX.

Felix Raynal (Avô do João) foi contratado como electricista pela então Compagnie Générale de Electricité de Lourenço Marques, de capitais franceses, que ganhara a concessão e que providenciava energia eléctrica à Cidade (a “Light”, como se dizia então). Desde 1898 que Lourenço Marques dispunha de iluminação eléctrica para os seus espaços públicos.

Em Lourenço Marques, a sua mulher, Cornelia Raynal, Avó do João, que era uma mulher de armas, fundou a Raynal Commercial School, numa casa situada no início da Avenida 24 de Julho na Polana, onde se ensinava dactilografia, inglês e estenografia Pitmans. A escola tinha muitos alunos. Anos mais tarde, a sua gestão passou para a responsabilidade da Sra.Judith Pitschiler.

Cornélia Raynal teve quatro filhos: Felix, Victor, Corrie e Thérese. Corrie, que era a mais velha das filhas, saiu à Mãe.

Registado o seu nascimento no Consulado britânico em Lourenço Marques, Corrie permaneceu cidadã britânica.

Corrie casou com um português, João Lira, que eventualmente faleceu em Lourenço Marques, de quem teve o João, e a bela Gini, que ganhou um concurso como a Bebé Mais Bonita de Lourenço Marques e que mais tarde casou com Gonçalo Mesquitela, o mais velho dos irmãos do conhecido Clã Mesquitela. Casou em segundas núpcias com Odorico Rodrigues.

O seu filho João, nasceu e cresceu em Moçambique e hoje reside no Brasil.

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Um cartão de visita da Florista Magnólia, anos 60.

Em 1947, Corrie inaugurou a Florista Magnólia, na Rua Joaquim da Lapa (actualmente, a Rua Joe Slovo), junto de onde mais tarde se veio a construir o John Orr’s. Mais tarde, mudou o seu estabelecimento para um espaço situado no Nº25-B da Rua Princesa Patrícia, na Maxaquene, do outro lado da rua mas mais abaixo em relação à Pastelaria Princesa.  Uns anos mais tarde, abriu uma sucursal na Avenida da República, na Baixa, junto ao Hotel Tivoli.

Com a Grande Debandada de Moçambique em 1974-75, Corrie mudou-se temporariamente para a África do Sul. Segundo o seu filho, faleceu em 2004, no Brasil, onde se radicou ainda nos anos 70.

Algo surpreendentemente, a empresa Florista Magnólia perdurou até esta data em Moçambique, se bem que com proprietários diferentes, cuja identidade desconheço.

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Corrie Raynal e o seu segundo marido ao centro, com amigos, em Lourenço Marques, anos 60. Para ver nomes, consulte a imagem em baixo.

 

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Ajude a identificar as pessoas na foto escrevendo para aqui com os nomes. Sei que aqui estão Odorico Rodrigues, Joan Amaral, Piky Cruz. Legendas – 1-?, 2-Maria Celeste Clemente Martins, 3 – Mimi Nogueira?, 4- José Herculano Martins, 5 -marido da Mimi Nogueira?, 6- ?, 7- Corrie Raynal , 8-?, 9-?, 10-?, 11-?, 12 -Capitão Machado da Silva?, 13-?, 14-?, 15- Vera Cardiga

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

07/01/2017

A FACHADA DO TEATRO VARIETÁ NA RUA ARAÚJO EM LOURENÇO MARQUES, 1913

Fotografia cortesia do grande Paulo Azevedo, tratada por mim.

 

O Teatro Varietá foi inaugurado em Lourenço Marques em finais de 1912, no início da Rua Araújo (actual Rua do Bagamoyo) na altura a principal artéria da Cidade, que ligava a Praça 7 de Março (actual Praça 25 de Junho) com a Praça Azeredo, na qual se situava a então também nova estação ferroviária. Propriedade do empresário italiano Pietro Buffa Buccelatto, foi a primeira casa de ópera a funcionar, a Sul do Equador. Anteriormente naquele espaço operara também um espaço multiusos que era simultaneamente um ringue de patinagem – o primeiro em todo o espaço imperial português – um cinematógrafo, sala de espectáculos, sala de danças e sala para reuniões.

O Varietá operou sem interrupções durante mais que cinquenta anos, como casa de ópera, de teatro, reuniões e cerimónias e ainda como um cinema, tendo sido demolido na segunda metade dos anos 60, para ser ali implantado, em parte do terreno, o Cinema Dicca e o Estúdio 222.

 

A fachada do Varietá em Lourenço Marques, 1913.

A fachada do Varietá em Lourenço Marques, 1913.

 

17/06/2016

TROPAS LANDINS DE MOÇAMBIQUE, ANOS 40

Filed under: Tropas Landins 1940s — ABM @ 16:32

Fotos dos arquivos nacionais franceses.

 

Tropas landins de Moçambique, anos 40.

Tropas landins de Moçambique, anos 40.

 

Dois tropas landins.

Dois tropas landins.

ALUNOS DA ENGLISH PRIMARY SCHOOL OF LOURENÇO MARQUES, GRADE 1, 1965

Foto gentilmente cedida pelo Alan Fitzpatrick, restaurada por mim.

 

A turma da 1ª Classe da EPS de LM em 1965, com a Professora, Mrs. Giestiera

A turma da 1ª Classe da EPS de LM em 1965, com a Professora, Mrs. Giestiera

 

Uma grelha para os nomes de quem aparece na fotografia. Quem souber os nomes, por favor escreva para aqui.

Uma grelha para os nomes de quem aparece na fotografia. Quem souber os nomes, por favor escreva para aqui. 1 – ?, 2 – ?, 3- ?, 4- ?, 5- Alan Fitzpatrick; 6 – Professora Giestiera (afrikaner, casada com um sr português), 16 – filha do cônsul rodesiano em LM

O HOTEL POLANA E A POLANA EM LOURENÇO MARQUES, 1939

Esta foto faz parte de um conjunto de fotos aéreas tiradas na Cidade de Lourenço Marques aquando da visita do Presidente Óscar Carmona a Moçambique em 1939, mesmo antes do início da Segunda Guerra Mundial.

 

Vista aérea da Polana no local onde se situa o Hotel Polana, 1939. Ver as legendas em baixo.

Vista aérea da Polana no local onde se situa o Hotel Polana, 1939. Ver as legendas em baixo.

 

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A= Observatório Campos Rodrigues, B= Estação Telegráfica sem fios, podendo-se ver as torres das antenas de cada lado do edifício, C= Parque José Cabral, actualmente Parque dos Continuadores, D= local onde mais tarde se fez a Avenida Massana de Amorim, hoje Avenida Mao Tsé-Tung, E= Avenida António Ennes, actualmente Av. Dr. Julius Nyerere, F= Avenida dos Duques de Connaught, actualmente Av. Friedrich Engels, G= Estrada do Caracol, H= Hotel Polana

09/06/2016

EDUARDO HORTA, LEONG E CARLOS FERNANDES EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 1960

Foto cortesia de Eduardo Horta.

Eduardo Horta foi um grande nadador e desportista de Moçambique. Leong um grande praticante da peca desportiva. Carlos Fernandes não sei. Penso que estão no Clube Naval de Lourenço Marques.

 

Da esquerda: Carlos Fernandes, Leong e Eduardo Horta.

Da esquerda: Carlos Fernandes, Leong e Eduardo Horta.

O PRÉDIO “O LEÃO QUE RI” DO ARQUITECTO PANCHO GUEDES, EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Filed under: LM Prédio O Leão Que Ri, Pancho Guedes — ABM @ 15:54

 

A fachada lateral do edifício "O Leão Que Ri", concebido pelo Arquitecto Pancho Guedes.

A fachada lateral do edifício “O Leão Que Ri”, concebido pelo Arquitecto Pancho Guedes.

RICARDO CHIBANGA, TOUREIRO DE MOÇAMBIQUE

Filed under: Ricardo Chibanga Toureiro — ABM @ 14:59

Ricardo Chibanga hoje vive na Golegã, em Portugal.

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01/06/2016

CRIANÇAS DE MOÇAMBIQUE, DE J&M LAZARUS, 1902

 

Crianças de Moçambique, foto dos irmãos J&M Lazarus, 1902.

Crianças de Moçambique, foto dos irmãos J&M Lazarus, 1902.

O RÁDIO CLUBE DE MOÇAMBIQUE E A PRIMEIRA DIRECÇÃO DO GRÉMIO DOS RADIÓFILOS DE MOÇAMBIQUE, ANOS 1930

A primeira direcção do Grémio dos Radiófilos de Moçambique em Lourenço Marques, precursor do Rádio Clube de Moçambique.

A primeira direcção do Grémio dos Radiófilos da Colónia de Moçambique em Lourenço Marques, fundada em 18 de Março de 1933, precursor do Rádio Clube de Moçambique. Da esquerda: A. Morais, Abílio Brito, Aniano Serra, Ernesto Brito e Augusto Gonçalves.

Excerpto 1 do "Livro de Ouro do Mundo Português", 1971.

Excerpto 1 do “Livro de Ouro do Mundo Português”, 1971.

Excerpto 2 do "Livro de Ouro do Mundo Português", 1971.

Excerpto 2 do “Livro de Ouro do Mundo Português”, 1971.

Excepto 3.

Excepto 3 do “Livro de Ouro do Mundo Português, 1971.

 

CONJUNTOS MUSICAIS DE MOÇAMBIQUE, ANOS 1960

A maioria destas fotografias foram coleccionadas por Álvaro Loureiro Coimbra.

 

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A primeira actuação do conjunto ” Os Atlas ” – Junho de 1967 – num casamento na Associação Africana. Da esquerda: Beto, Tony, Aurélio Le Bon, Faruk e Álvaro na bateria .

 

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O Conjunto Little Boys, da Beira. Se souber os nomes dos artistas, escreva para aqui.

 

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Os Night Stars.

 

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Conjunto Os Diabólicos, da Beira. Faltam os nomes.

 

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Conjunto os Jaguares, da Beira.

 

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O Conjunto Os Rebeldes, da Beira.

 

A Banda Rosie & Ralph.

A Banda Rosie & Ralph.

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Rosie & Ralph (Pretorius). O Ralph tem conta no Facebook.

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O Conjunto ” Os Atlas ” – em Vila Pinto Teixeira – da esqª p / dirª. – v.solo-Faruk . Órgão elecº.-Milhazes . bateria-Alvaro C. . v.ritmo-Tony . v.baixo-Beto . ( 1969 )

 

O Conjunto de Oliveira Muge.

O Conjunto de Oliveira Muge.

 

Mais

Mais uma imagem do Conjunto de Oliveira Muge.

 

 

ALFREDO PEREIRA DE LIMA E O JARDIM MEMORIAL DE LOUIS TRICHARDT EM MAPUTO

Filed under: Alfredo Pereira de Lima, Louis Trichardt — ABM @ 16:46

Louis Trichadt, o legendário pioneiro boer, imagem dos arquivos do Parque Nacional Kruger. Está sepultado na Baixa de Maputo desde 1838.

Na sequência nas guerras na Europa no início do Século XIX, opondo principalmente a França e a Grã-Bretanha, esta última tomou a Colónia do Cabo, holandesa desde o início do Século XVII e ponto de paragem estratégico na rota para a Índia, que ocupava a área em redor da actual Cidade do Cabo.

Uns anos mais tarde surgiram atritos graves entre os colonos holandeses-huguenotes (doravante chamados boers) com os novos senhores do Cabo. A partir de 1835, um número elevado de boers iniciou o que eles chamam o “grande trek”, ou grande caminhada, cujo objectivo principal era dirigirem-se para fora da Colónia do Cabo, e estebelecerem-se como comunidades autónomas, independentes da coroa britânica.

Dessas migrações, descritas na cultura boer com muito folclore e épica, quase todas feitas para Norte-Nordeste, directamente apontadas na direcção de Maputo, resultou a eventual fundação de duas repúblicas, o Estado Livre de Orange, com capital em Bloemfontein, e a República Sul-Africana Meridional, ou Transvaal, com capital em Pretória.

As migrações, ou treks, foram várias. O processo foi complicado e durou cerca de vinte anos.

No entanto, um dos primeiros e talvez o “trek” mais importante de todos, foi o liderado pelo quiçá mais carismático dos líderes boers de então, um senhor de origem dinamarquesa chamado Louis Trichardt (os boers escrevem “Trechardt”), que é por muitos considerado o fundador do Transvaal, mais tarde a principal das duas nações boers que foram fundadas cerca de meados do Século XIX. Com ele co-liderava o pioneiro boer Hans van Rensburg.

A longa viagem a pé e de carroças puxadas por bois desde o Cabo até ao que hoje é o Parque Nacional Kruger durou quase dois anos. Aí a expedição separou-se e van Rensburg com um grupo seguiram para a grande baía no Sul de Moçambique enquanto Trichardt e parte da sua comitiva permaneceram numa zona mais alta e interior. Os registos indicam que van Rensburg e a sua comitiva foram mortos num assalto. Uns meses depois, Trichardt seguiu a mesma rota na direcção do mar.

É de salientar que desde os primórdios do projecto nacional boer, o acesso ao mar independente do controlo britânico foi uma autêntica obsessão, a que correspondeu igual determinação, por parte da diplomacia da Grâ-Bretanha, de limitar e controlar esse acesso. Este confronto de propósitos foi determinante para Moçambique e manteve as diplomacias da monarquia portuguesa e do império britânico ocupados durante o meio século que se seguiria.

No total, a viagem de Trichardt até aos arredores da acutal Maputo durou cerca de três anos (sete meses só para o percurso entre o Highveld e a Baía, com inúmeras mortes entre os que o acompanharam).

Mas mesmo assim a aventura acaba mal, por duas razões.

A primeira é que Louis Trichardt e os seus seguidores não só meteram-se pelo mato abaixo na direcção entre Nelspruit (Mbombela agora) e Maputo, zona essa que era quase certamente mortífera pois nem os homens nem os animais resistiam a coisas como a malária que ali era endémica e invariavelmente afectava que por ali passasse. Assim, a maior parte da comitiva morreu de malária e o próprio Trichardt e a mulher estavam doentes quando chegam ao então absolutamente miserando presídio de Lourenço Marques (onde hoje está a chamada Fortaleza de Maputo, que na realidade é um núcleo museológico construído nos anos 1940, mas que na altura era uma espelunca imunda feita com uns paus e matope no que facto era uma pequena ilha, separada do terreno adjacente do que é hoje Maputo por uma depressão onde hoje está mais ou menos situada a Av. 25 de Setembro.

A segunda razão porque a expedição de Trichardt correu mal é que, assim que ali chegou, no dia 13 de Abril de 1838, o chefe português do presídio, que dava pelo título de “governador”, disse-lhe que aqueles territórios pertenciam à Coroa de Portugal e que eles não podiam ficar com aquela região nem podiam ir viver para ali. Como resultado, o “trek” de Louis Trichardt termina com a sua recomendação de que os boers fundem a sua república para lá da zona infestada de malária, que terminava mais ou menos a dez quilómetros a Oeste de onde eventualmente foram definidas as actuais fronteiras entre Moçambique e o Transvaal, já nos finais de 1888, então já a propósito da não menos célebre disputa em redor do contrato com o norte-americano Macmurdo para a construção da linha de caminho de ferro que haveria de, sete anos mais tarde, passar a ligar Lourenço Marques à capital do Transvaal, Pretória.

Doentes com malária, esta parte da história acaba com a morte de Louis Trichardt e da sua mulher, no terceiro trimestre de 1838, em Lourenço Marques.

O que acontece a seguir é que é possivelmente a parte mais interessante deste longo episódio.

Com o tempo, a história do que veio a ser a actual África do Sul evolveu para uma enorme e implacável confrontação entre os boers e o império britânico, que culmina com a Guerra Anglo-Boer de 1899-1902, e mais tarde com um crescente domínio boer da União Sul-Africana, criada em 1910, domínio esse que recrudesce nos anos 20 e 30 do Século XX, com as grandes lideranças de Herzog e de Jan Smuts.

O monumento aos Voortrekkers, os pioneiros boers, em Proclamation Hill, perto de Pretória.

Durante esses anos, os boers olharam de novo para a sua história, na qual Louis Trichardt e a sua expedição adquiriram uma importância mítica e fundacional fulcral, semelhante, para eles, ao simbolismo com que se pretende associar os que combateram com armas pela independência de Moçambique.

No longo baixo-relevo no interior do Monumento aos Voortrekkers, Louis Trichardt em Lourenço Marques, presumo que com o governador do pequeno presídio.

Em 1938, o poder boer em plena ascenção numa aliança pouco fácil os residentes de origem inglesa, com enorme pompa, foi inaugurado nuns campos nos arredores de Pretória, o assombroso Monumento aos Voortrekkers, onde toda essa história e misticismo estão reflectidos – incluindo o episódio seminal do mais celebrado de todos os Voortrekkers – o trek de Louis Trichardt.

De certa forma, Trichardt foi uma espécie de Eduardo Mondlane para os boers, uma peça fundamental da lógica inescapável da justiça da causa da sua independência, especialmente face ao poder britânico.

Poucos anos após a inauguração do gigantesco monumento boer em Pretória, em Lourenço Marques, Alfredo Pereira de Lima, ali nascido e criado e então um jovem arquivista da Câmara Municipal da cidade Lourenço Marques, que detinha um grande fascínio por história, tendo ao longo da sua vida feito um trabalho inestimável, estudou o que havia em redor da história de Trichardt.

E foi Lima quem em 1944, já no final da II Guerra Mundial, descobriu onde, na capital moçambicana, Louis Trichardt havia sido sepultado com a sua mulher quando morreram ali em finais de 1838.

Mais tarde, com o sul-africano Dr. Colin Coetzee, descobriu também o local exacto onde, na Baía, os holandeses haviam edificado em 1720 uma fortaleza, pretendendo dessa forma tomar o comércio e disputar a sua posse com a coroa portuguesa.

Em 1964, Alfredo Pereira de Lima publicou a obra A História de Louis Trichardt (editado pela Minerva Central, com 137 páginas, esgotadérrimo).

O Jardim Memorial de Louis Trichardt, onde se encontram os restos mortais do pioneiro boer e de sua mulher.

A fachada principal do monumento.

A estátua à esquerda da entrada de do Dr. William Punt, que em 1964 era o presidente da Sociedade Louis Trichardt, sedeada em Pretória.

É nesta década que se decidiu edificar no local da sepultura de Trichardt um monumento memorial, que foi inaugurado às 14 horas do dia 12 de Outobro de 1968, pelo, do lado sul-africano, o então ministro da Educação Nacional da República da África do Sul, Jan de Klerk.

Estojo para os medalhões comemorativos da inauguração do monumento, 1968.

Um dos medalhões comemorativos.

Outro dos medalhões comemorativos.

Pelos seus esforços, Alfredo Pereira de Lima foi tornado membro da Sociedade Louis Trichardt, uma pequena organização sedeada em Pretória.

Ou seja, Louis Trichardt, uma das figuras mais “sagradas” da história e cultura boer, hoje um dos componentes do “arco-íris” sul-africano, está sepultado em plena baixa de Maputo.

De salientar que do esforço generalizado de retirada de monumentos por todo o país na altura da Independência de Moçambique, em Maputo só dois nunca foram tocados: o Monumento aos que morreram na 1ª Guerra Mundial em frente à estação dos Caminhos de Ferro, e o Jardim Memorial de Louis Trichardt.

Que por puro acaso visitei em Dezembro de 1984, altura em que o país estava já em plena guerra civil, Maputo deserta e vivendo em quieto e receoso desespero os dois últimos anos sob a tutela de Samora Machel. Para minha surpresa, lá encontrei o guarda-recepcionista, um senhor com alguma idade, impecavelmente vestido numa já algo velha farda, sorridente, explicando-me os detalhes do que lá está e oferecendo-me ao fim a assinar o livro de visitantes, o que fiz. Acho que pela tão calorosa recepção ofereci-lhe cinco dólares americanos, o que transformou a minha visita em dia de festa para ele, pois naquela altura cinco dólares em Maputo era uma pequena fortuna. Ainda bem, pensei.

Mas na altura não me apercebera de que aquele local repousavam os restos mortais do mítico líder boer. De facto, nunca soube desta história na sua totalidade até há menos de dois anos, por uma troca de mensagens com a filha de Alfredo Pereira de Lima, que me concedeu o privilégio de me providenciar dados e fotografias sobre o seu pai, que eu nunca conseguira encontrar, e que podem ser vistos premindo AQUI.

Esta história é não só interessante e curiosa: ela faz parte também da história de Maputo, de Moçambique e da África do Sul.

Tanto, entretanto, aconteceu desde esse dia em 1838 quando Trichardt faleceu junto à Baía. Depois de mais que 130 anos, Moçambique tornou-se numa nação independente. Na África do Sul terminou o apartheid e instituiu-se um regime democrático.

Uma visita ao Jardim em Memória de Louis Trichardt ajuda a lembrar como foi e como tudo mudou.

E deveria fazer parte obrigatória de qualquer roteiro histórico e cultural da Cidade de Maputo.

O QUE MATOU RUI DE NORONHA?

Filed under: Rui de Noronha — ABM @ 16:42

Rui de Noronha

A questão não fui eu que a coloquei.

Vamos por partes.

1ª Parte

Antes de mais, as coordenadas de base, que fui buscar à Wikipédia, (mas às quais tive que dar uma valente martelada editorial):

“Rui de Noronha (Lourenço Marques, 28 de outubro de 1909-25 de Dezembro de 1943) foi um poeta moçambicano.”

“De nome completo António Rui de Noronha, nasceu em Lourenço Marques a 28 de Outubro de 1909. Mestiço, de pai indiano, de origem brâmane, e de mãe negra, foi funcionário público (Serviço de Portos e Caminhos de Ferro) e jornalista. Colaborou na imprensa escrita de Moçambique, nomeadamente n’O Brado Africano, com apenas 17 anos de idade.

À sua produção inicial, que se reduziu a três contos, e que correspondem a uma fase digamos de afirmação literária, seguir-se-á, a partir de 1932 (tinha ele 23 anos de idade) uma intervenção mais activa na vida do jornal, chegando mesmo a integrar o seu corpo directivo.

Uma desilusão amorosa, causada pelo preconceito racial, fez, segundo os seus amigos, com que o escritor se deixasse morrer no hospital da capital de Moçambique, com 34 anos, no dia 25 de Dezembro de 1943.

Sua obra completa está reunida em Os Meus Versos, publicada em 2006, com organização notas e comentários de Fátima Mendonça.

Desde logo o Rui mostrou e deixou transparecer, na sua vida e na sua escrita, um temperamento recolhido, uma personalidade introvertida e amargurada. Foi, sem dúvida, um homem infeliz. Nunca chegou a concretizar um seu grande grande sonho que era publicar um livro com poemas seus.

Essa realização deveu-se mais tarde ao seu antigo professor de francês, o Dr. Domingos Reis Costa, que reuniu, seleccionou e reviu 60 poemas numa edição póstuma, intitulada Sonetos (1946), que foi editado pela Minerva Central.

Incluído em inúmeras antologias estrangeiras – na Rússia, na República Checa, na Holanda, na Itália, nos EUA, na França, na Argélia, na Suécia, no Brasil e em Portugal – Rui de Noronha é hoje considerado o precursor da poesia moderna Moçambicana.

(fim)

Neste pequeno texto não se analisa nem a sua obra nem o seu putativo papel seminal nas actuais letras moçambicanas. Sobre isso já correram rios de tinta, AQUI o exmo. Leitor que ainda não o conhece poderá ler um exemplo decente do que se diz sobre o assunto. Que se resume a, com o que escreveu, ter ele aberto uma brecha africana na muralha virtual branca e portuguesa que era a Lourenço Marques do seu tempo, que só por acaso admitia estar situada algures num canto daquela outra África que mais cedo ou mais tarde viria bater-lhe à porta (oh e se veio). Ainda por cima na língua do colono (hum, que outras línguas saberia ele falar?). Como se soi dizer-se, a minha querida Fátima Mendonça wrote the book on Rui de Noronha – a sua obra. Não a vida dele.

Enfim, a eterna dialéctica dessa inescapável, necessária religião moderna, o nacionalismo. Ou pelo menos a que se publica.

A Noémia, que estava mais dentro do assunto, apercebeu-se disso e, de longe, a posteriori, piscou-lhe o olho num poema. Quase dezassete anos mais nova, jamais falou com ele, se bem que se diz que ela o via passar à frente de sua casa.

Adiante.

2ª parte

Há quatro dias, recebi a seguinte mensagem neste blogue: “Procuro informações sobre Rui de Noronha. Sou seu sobrinho-neto e pouco (ou nada) sei sobre ele, em especial sobre a ‘verdadeira’ causa da sua morte. Meu avô, seu irmão, chamava-se Amâncio Miguel de Noronha.”

Assinava a mensagem o Sr. Carlos Alberto Dias (Noronha) da Silva.

3ª parte

Recapitulemos: jovem não branco na Lourenço Marques colonial (nem sei se há nome para a sua mistura racial), com dotes poéticos literários comprovados, suposta postura proto-nacionalista, escreve umas coisas para O Brado Africano, introvertido, acanhado, sonha em publicar um livrinho de poemas, trabalha nos Portos e Caminhos de Ferro….e de repente “uma desilusão amorosa, causada pelo preconceito racial, fez com que se deixasse morrer no hospital, aos 34 anos, no dia de Natal de 1943.”

Hum.

Segundo a Olga Iglésias, que estudou o assunto da sua biografia -mais ou menos – havia algo mais:

“Sobre a sua biografia sabe-se que nasceu a 28 de Outubro de 1909 no Língamo, em Lourenço Marques, hoje Maputo, tendo sido registado como António Rui de Noronha, filho de José Salvador Roque das Neves Noronha, goês, natural de Loutolim (Goa), escriturário – contabilista da WENELA (Agência de recrutamento de mão-de-obra para as minas da África do Sul), e de Lena Sofia Chiluvane (Florinha), sua primeira mulher, natural da Zululândia. O seu irmão mais velho, Amâncio Miguel de Noronha foi funcionário público, tal como Rui de Noronha o foi nos caminhos de ferro de Lourenço Marques. Da segunda mulher, Luisinha, José Salvador Roque das Neves teve quatro filhos – Luísa Grasmila das Neves Noronha (médica), Aires (contabilista), Edgar (engenheiro químico) e Célia (licenciada em farmácia).

Frequentou a Escola Central Paiva Manso, tendo concluído a instrução primária em 1921, quando tinha doze anos de idade, sendo aluno do professor Vasco da Gama Xavier Dantas da Silva. Mais tarde, frequentou o Liceu Nacional Central 5 de Outubro até ao 5º. ano, sem todavia o ter completado. Era uma aluno muito inteligente, recorda Alexandre Lobato, seu colega e amigo, que testemunha no “O Mundo Português” os hábitos dos estudantes de Coimbra, que caracterizavam o ambiente juvenil do liceu.

Envolvido nesse meio, Rui de Noronha cantava fados de Coimbra e fazia-se acompanhar à viola, sendo notável a interpretação de “A Samaritana”, “A Cruz de Guerra”, entre outras. Destacou-se, como autodidacta no campo musical, aprendendo através de livros sem mestre, tocava viola, guitarra e mais tarde violino. Escreveu os primeiros poemas dedicados aos colegas. Foram amigos dessa fase – Willy Waddington (jornalista), Alexandre Lobato (historiador), Deolinda Martins (médica) e Carlos Simões.

Sobre a [sua] Prosa: Do 1º. Conto – “O Canário” (1926) ao ensaio sobre “A Escravatura” (1935)Como hipótese de sistematização da sua obra, parece-nos que esta pode ser dividida em quatrograndes formas, segundo a temática abordada:1ª. ensaística, fiosófica, humanística – abordagem de binómios: Deus/Homem; Bem/Mal; Vida/Morte e de conceitos-chave da existência humana: Eu/Verdade/Razão;2ª. interventiva, jornalística, polémica – sobre a defesa dos pobres, dos “indígenas” – camponeses, mineiros, carregadores do cais; de crítica social, sobretudo à administração colonial e às mulatas, que nada querendo com os seus irmãos, procuram casar com homens brancos;3ª. política, associativa, utópica – de apelo à participação na Associação Africana para a defesa da causa africana e de belíssimos conselhos sobre a fraternidade e a silidariedade entre os homens;4ª. subjectiva, emocional, sensitiva – de ensaios, como se brotasse a primeira inspiração, numa ideia em rascunho, que mais tarde burilava em novas prosas e poemas.Para além destas quatro formas, parece-nos útil distinguir as várias fases por que passou a sua tão breve vida: 1ª. de 1926 a 1932 – a do jovem poeta e contista “naïf”; 2ª. de 1932 a 1936 – a do jornalista adulto, polémico e interventivo, “proto-nacionalista”; 3ª. de 1936 a 1943 – da fama à decadência, a fase da “desventura”, o que iremos desenvolver em seguida:1ª. O primeiro conto, que se conhece foi publicado n’ O Brado Africano, em 1926, colaborando na secção literária, quando tinha apenas 17 anos de idade. De uma grande ingenuidade, o conto intitula-se “O Canário”e, aparece assinado pelo jovem autor, Ruy de Noronha. Mas é n’ (O) Programa dos Teatros, em 1929, que se inicia como poeta, publicando os seus poemas com o pseudónimo de Cancarrinha de Aguilar, colaborando na secção de verso desta revista. Desta primeira fase são exemplos, os poemas “12 de Abril”[9], comemorando o primeiro aniversário da revista, bem como “Perfil”, I-VIII[10] com que delicia e retrata figuras femininas do meio “chic”, de Lourenço Marques.

Encontram-se em 1930, na referida revista, poemas admiráveis como “Tormenta”[11], “Amor e Ódio”[12], que assinou com o nome completo – António Rui de Noronha. Foi nessa altura, responsável pela secção de versos do “Programa dos Teatros”, mais tarde com a designação de “Miragem”. Interessante é notar, a direcção que imprimiu à dita secção de versos, como se pode constatar nos conselhos que deu ao seu amigo e jornalista Willy Waddington, ao devolver-lhe os versos sem os ter publicado, pois que primeiro devia ler António Feliciano de Castilho, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Antero de Quental e, concluídas as leituras, tendo aprendido a versejar poderia, então, Waddington ensaiar de novo a sua veia poética.

A partir de 1932 inicia-se a segunda fase, que segundo a nossa proposta vai desse ano até 1936, tempo esse que poderíamos chamar , dada a sua importância, de “activista social”, em que desempenha o cargo de 2º. Secretário, portanto membro eleito da Direcção do Grémio Africano, mais tarde Associação Africana, que congrega a elite africana e não só de Lourenço Marques, importante grupo de pressão, em “prol dos direitos dos naturais da Colónia de Moçambique”, como se expressava claramente em sub-título, o seu órgão O Brado Africano.

Foi aí, no Brado Africano, que Rui de Noronha abriu uma secção de crónicas sociais intituladas: “Ao Mata Bicho”[14], onde ensaiava como articulista social, assinando os seus irónicos artigos de crítica social, com o pseudónimo de Xis Kapa. No meio jornalístico ficaram conhecidos os seus amigos – Edmundo Cruz, Odragom e Midam (pseudónimos), assim como ficou célebre a polémica que teve com o advogado Nobre de Melo, de Inhambane, em torno da questão: “A Pátria Portuguesa” e na qual Rui de Noronha ou aliás, Xis Kapa defende que, a Pátria é o lugar onde se nasce. Primeiro indício de moçambicanidade? De proto – nacionalismo? Parece-nos que sim. Todavia, muito há que investigar sobre o pensamento fluído e profundo de Rui de Noronha. Ao analisar a imprensa africana, como propôs Alfredo Margarido e Mário Pinto de Andrade poderemos provar que, Rui de Noronha é mais do que um poeta que canta “amores impossíveis”, como queria reduzi-lo Ilídio Rocha.

Justamente através do estudo da sua prosa, irónica e profunda, podemos descortinar o seu pensamento, como um defensor da “causa africana”, já que se preocupou com o quotidiano dos africanos, lutou com a sua pena pelos seus direitos, pela educação, sobretudo da mulher chamada “indígena”, pela dignidade do trabalho, denunciando a situação do trabalhador mineiro, que vende a força do seu trabalho, nas minas do John (na África do Sul), do carregador explorado no cais, pela justiça em geral e, em particular, a condição dos mulatos, a sua própria condição, como mulato e assimilado. Veja-se o artigo: “Prostituição Indígena”, em que retratou a situação da mulher prostituta em Lourenço Marques nos anos trinta e, como defendeu as medidas tomadas pelo sistema socialista na União Soviética, face a esse grave problema social.

Nessa fase foi funcionário público, Aspirante dos caminhos de ferro de Lourenço Marques. E, em Agosto de 1932 noticiava (O) Brado Africano que, “acaba de assumir o lugar de Secretário da Redacção, o 2º. Secretário do Grémio Africano, o nosso muito ilustre patrício, snr. Rui de Noronha. Novo ainda, mas com qualidades brilhantes para o jornalismo, muito terá o nosso “Brado” a lucrar com a sua proventosa acção…”.

Casou-se nessa época com Albertina Carolina dos Santos, filha de Francisco Eduardo dos Santos, carcereiro do Presídio de Lourenço Marques e de Justina de Aguiar (N’timene), de origem aristocrática, princesa de um dos reinos de Maputo, afilhada de Roque de Aguiar, importante figura da Maçonaria, que lhe deu o apelido. Festejando o décimo sétimo aniversário da fundação do “Brado”, realizou-se uma festa na redacção do jornal. Noticiado o evento, aparece uma referência a Rui de Noronha, como redactor do jornal, semanário ao qual ficará ligado até ao fim da sua curta vida como colaborador.

A sua fase áurea, de 1934 a 1936, testemunharam-na os jornais da época. Correspondeu a um intenso período de vida social – Presidente do Clube Desportivo Vasco da Gama; Director de um Grupo Dramático, onde dirigiu a encenação da peça: “Frei Luís de Sousa”, apresentada a Alves da Costa, grande dramaturgo português, aquando da sua visita a Moçambique; membro do Centro Cultural dos Novos, onde apresentou pela primeira vez os “Sonetos”, submetidos ao fogo da crítica “para serem publicados em livro”; membro do Grémio Africano e do corpo redactorial do “Brado”. Fez pequenas palestras e conferências, nos clubes a que pertenceu, sendo a mais célebre, a que pronunciou sobre o tema: “A Escravatura”, muito elogiada na época.” (fim)

Realmente o Carlos Alberto tem razão: aqui há gato.

Aliás, há vários gatos.

E, para variar, os amigos que terão dito isto parece que não explicaram.

Primeiro, a cena do amor.

Pelo que leio, deduzo que se envolveu, ou tentou envolver, com uma menina de outra raça – vamos presumir que era branca – de Lourenço Marques, e sendo as coisas como parece que eram naqueles tempos, a coisa deu para o torto. Ou ela não lhe correspondeu, ou então (presume-se provável) familiares da menina caíram-lhes em cima e deram o assunto por terminado.

Só que o sítio O Baú da História diz que ele na altura era casado e que teve uma filha (a nossa D. Elsa de Noronha, dizedora de poemas, que vive em Lisboa).

A Elsa, que nasceu em Agosto de 1934, nove anos antes do seu pai falecer “de desgosto” no hospital em Lourenço Marques.

Misteriosamente, a Enciclopédia Britânica refere que “he lived an unhappy bohemian existence”.

Unhappy já sabíamos. Mas – “bohemian”? o que é que isso quer dizer? os ingleses não elaboram.

Num demasiadamente curto texto, o genial António Sopa refere-se a um outro aspecto da sua vida. Ele refere que em 1935 (com 26 anos de idade) Rui teve sérios problemas de saúde, “agravados” no ano seguinte pela sua ida para Nampula, onde residirá até 1939.

Afinal que doença é que ele tinha?

E o que é que fez durante três anos em Nampula (1936-1939)?

Correctamente, Sopa refere o clima de “cerco” do Estado Novo, cujos tentáculos se estendiam inexoravelmente para as então pouquíssimas e mínimas cidades coloniais moçambicanas, e o seu efeito nas minúsculas elites não-brancas. Pois a vida não era fácil naqueles dias, e não era só para eles. Que eu saiba levaram todos, então em Moçambique, que era um viveiro da oposição branca. Havia de tudo: comunistas, anarquistas, socialistas, maçónicos, republicanos de primeira vaga, monárquicos desterrados.

2. o que é que aconteceu em Nampula entre 1936 e 1939

3. as circunstâncias da sua morte.

Que história é essa de um homem com 34 anos, morrer de “desgosto” no dia de Natal em 1943?

Alguém viu os registos do hospital? a certidão de óbito? parece que não.

Resumindo:

No fim do dia, um pouco como aconteceu com Karel Pott, na racialmente estratificada sociedade urbana de Lourenço Marques dos anos 30 e 40, Rui de Noronha teve importância no seu meio tanto pelo que disse, como por quem ele era e o que ele era quando o disse. Não há melhor prova disso do que as palavras do meu saudoso Sr. José Craveirinha, que, socraticamente, pontificou desta forma sobre si próprio, em Janeiro de 1977, durante a primeira maré nacionalista pós-Independência:

“Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Pela parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai fiquei José.

Aonde? Na Av. do Zichacha entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.
Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. A seguir fui nascendo à medida das circunstancias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: o seu irmão. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.

A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra.

Nasci ainda mais uma vez no jornal “O Brado Africano”. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noemia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.

Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por causa da minha mãe só resignação.

Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.

Minha grande aventura: ser pai. Depois eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.

Escrever poemas, o meu refúgio, o meu país também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país, muitas vezes altas horas da noite.”

(fim)

Pois. O nacionalismo estava-lhes na pele.

Uma pele mulata.

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