THE DELAGOA BAY WORLD

23/03/2018

ADOLESCENTE EM LOURENÇO MARQUES, FOTOGRAFADA POR SID HOCKING, 1927

Sid Hocking foi um conhecido fotógrafo em Lourenço Marques, com um estúdio na Baixa. O próximo livro a ser publicado em breve por Paulo Azevedo trará mais detalhes sobre quem foi. Mas ainda não li.

 

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03/03/2018

JOSEPH LAZARUS, FOTÓGRAFO DE MOÇAMBIQUE, IN MEMORIAM

 

Joseph Lazarus, aqui em Lisboa, cerca de 1930, com uma condecoração do governo português. Retratou Lourenço Marques entre 1899-1908.

Durante vários anos, quando comecei a observar e coleccionar imagens de Moçambique e de Lourenço Marques, desde cedo identifiquei um conjunto de imagens referenciadas como sendo do que eu pensava ser um tal J&M Lazarus – que não fazia ideia quem era. Eventualmente, apercebi-me que eram duas pessoas. E que eram irmãos. E que eram judeus. E que eram de ascendência britânica. E que tiveram um estúdio em Lourenço Marques (primeiro na Rua Araújo 39, em frente e a seguir ao Varietá e depois no Avenida Buildings) e, brevemente, na Beira. Que antes de chegarem a Lourenço Marques, fizeram qualquer coisa em Barberton.

O Chefe Makwira e as suas mulheres, no Protectorado da Niassalândia, actualmente o Malawi. Fotografado pelos Lazarus.

E ainda que, a seguir, cerca de 1908, se mudaram de armas e bagagens para Lisboa e abriram um estúdio em Lisboa, numa das melhores ruas do Chiado (Rua Ivens, 59), onde ainda trabalharam durante uns anos, penso que até meados dos anos 40.

Uma imagem colhida pelos Lazarus na linha férrea que ligava Lourenço Marques à Suazilândia. Segundo o magnífico site HoM, que cita Pereira de Lima, isto é na Matola e é uma cerimónia com o Duque de Connaught (o sétimo filho da rainha Victória, que estava em LM de passagem) de arranque da obra, em 1906. Podem-se ver a bandeira do Reino Unido e a então bandeira branca e azul de Portugal.

António Sena, que escreveu sobre os Lazarus, detalha as circunstâncias da vinda dos irmãos para a capital portuguesa:

O Governador Geral Conselheiro Freire de Andrade, encarrega os Lazarus das reportagens oficiais da visita do Príncipe Real D Luiz Filipe a Moçambique em Julho-Agosto de 1907, de que virão a publicar imagens em periódicos como o Brasil-Portugal. Bem sucedidos os Lazarus aproveitam contactos para abrir em Lisboa a Photographia Ingleza, em 1909.

Arco precário instalado na Baixa de Lourenço Marques no início da Avenida Aguiar (depois Av D.Luiz, hoje Avenida Marechal Samora) para dar as boas-vindas ao Príncipe Luiz Filipe, filho primogénito dos então reis de Portugal, Carlos e Amélia. Os Lazarus cobriram o evento e conheceram o Príncipe. A ligação real manter-se-á por alguns anos, mesmo durante a I República, a Ditadura e o chamado Estado Novo.

 

Publicidade do estabelecimento dos Lazarus em Lisboa.

 

O Rei D. Manuel II posou para os Lazarus.

 

Os Condes de Vila Real, fotografados pelos Lazarus, cerca de 1920, arquivos da Casa de Mateus.

Pedro Bordalo Pinheiro, aqui retratado pelos Lazarus. Sobrinho do inigualável Rafael Bordalo Pinheiro, foi jornalista, administrador do Diário de Lisboa, co-fundador da revista Atlântida e era um dos intelectuais e artistas de referência da sua geração. Faleceu a 6 de Fevereiro de 1942.

 

Outro anuncio do estabelecimento dos Lazarus em Lisboa, este na Revista Colonial.

E depois…..nada.

Foi como se tivessem desaparecido da face da terra,

Um dia, há uns anos, recebi uma inesperada e surpreendente mensagem de correio electrónico. Vinha de uma senhora chamada Anne Joseph. Tinha lido um breve texto sobre as minhas deambulações quanto aos irmãos Lazarus e afirmava que Joseph era seu avô, mas que quase nada sabia sobre ele pois nunca o tinha conhecido.

A imagem em cima, que retrata Joseph Lazarus com uma condecoração presidencial portuguesa, é de Anne, que contou o fascinante final do percurso de Joseph e Maurice Lazarus.

Subsequentemente, troquei duas ou três (ou quatro) mensagens com Anne. Nas suas pesquisas, sei que foi a Portugal e depois a Moçambique, traçando os passos do seu enigmático avô. Anne, que é judia e que escreve sobre o que se chama Judaica em publicações electrónicas sobre o assunto, já escreveu pelo menos dois artigos relacionados com esta pesquisa, uma sobre o seu avô e outro sobre a ténue presença judaica em Lourenço Marques, reportando o pouco que se sabe sobre o assunto e imaginando Joseph e Maurice integrados nessa pequeníssima comunidade.

Joseph e Maurice operaram de facto a Photographia Ingleza de J&M Lazarus – em Lisboa, até aos anos 40. Maurice morreu antes da II Guerra Mundial e estará sepultado no pequeno cemitério judaico na capital portuguesa. Joseph penso que conseguiu dar o salto para o Reino Unido, onde tinha familiares, já depois do início da II Guerra Mundial e terá morrido depois.

Devido a circunstâncias que desconheço, Joseph teve um filho em Lisboa, que enviou para casa de (creio) uma irmã no Reino Unido, e que ali cresceu, convivendo muito pouco com Joseph, que visitava infrequentemente.

Esse filho de Joseph é o Pai de Anne. Que, excepto a fotografia e a condecoração no peito, sabia pouco ou nada sobre Joseph.

Anne, neta de Joseph, em Lisboa no Museu da Presidência, Julho de 2015, debruçada sobre a imagem do Presidente Óscar Carmona. Aparece na página do Museu da Presidência no Facebook.

Joseph Lazarus fotografou Lourenço Marques e Moçambique numa fase seminal de mudança de uma sociedade agrária e rural africana para os primórdios da modernidade, no contexto de um ténue e crescente surgimento da presença da autoridade e soberania colonial e de um punhado de cidadãos vindos um pouco de toda a parte, principalmente portugueses, criando as primeiras cidades moçambicanas (com a excepção da Ilha de Moçambique, a primeira cidade moçambicana). Fê-lo a partir da nascente capital de Moçambique, sob uma óptica citadina. Daqui a 500 anos, quando se quiser fazer o historial de Lourenço Marques, as imagens captadas pelos irmãos Lazarus permanecerão registos incontornáveis dessa narrativa.

Numa recente obra, o pesquisador Paulo Azevedo, um Coca-Cola que se especializa no estudo da fotografia feita em Moçambique, fez uma abordagem fascinante de, entre outros, os irmãos Lazarus. É uma obra que recomendo vivamente aos interessados nesta matéria. Mais: Azevedo está a trabalhar num novo livro com mais informações e revelações muito interessantes, relacionadas com a fotografia feita em Moçambique nos seus primórdios, que representará decerto um significativo avanço no sentido de um melhor entendimento dos contextos da fotografia naquela antiga colónia portuguesa.

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