THE DELAGOA BAY WORLD

18/04/2019

RUI KNOPFLI

Filed under: Rui Knopfli - poeta — ABM @ 21:43

R K fotógrafo amador.

Rui Manuel Correia Knopfli (Inhambane, 10 de agosto de 1932 – Lisboa, 25 de dezembro de 1997) foi um poeta, jornalista, tradutor e crítico literário e de cinema português.

Filho de portugueses, contava na sua ascendência um bisavô suíço, de quem herdou o apelido, segundo ele mesmo, “estranho”.

Ainda criança, foi com a família viver para Lourenço Marques .

Fez os seus estudos em Lourenço Marques e em Joanesburgo.

Entre 1958 e 1974, foi delegado de propaganda médica em Lourenço Marques.

Publicou uma obra que cruza as tradições literárias portuguesa e anglo-americana. Integrou o grupo de intelectuais que, em Lourenço Marques, se opôs ao regime português de então. Brevemente, foi director d’A Tribuna (1974-1975).

Editou ainda o caderno Letras e Artes da revista Tempo, no qual publicou traduções de numerosos poetas, tais como T.S. Eliot, William Blake, Sylvia Plath, Kaváfis, Dylan Thomas, Ezra Pound, René Char e Octavio Paz.

Com o poeta João Pedro Grabato Dias (aka o pintor António Quadros), fundou em 1972 os “célebres” e esgotados cadernos de poesia Caliban.

r k b 1

r k b 2

Deixou Moçambique em Março de 1975, com 43 anos de idade, expulso pelo sintomático e então alto-comissário Vítor Crespo, que tomou esta decisão com base num editorial em que Knopfli denunciava o conúbio da Frelimo com a polícia política de Ian Smith, passou quatro meses em Lisboa antes de partir para a capital britânica.

A nacionalidade portuguesa não impediu que a sua alma fosse assumidamente africana, mas a sua desilusão pelos acontecimentos políticos está expressa na sua poesia publicada após a saída da sua terra.

Colaborou em vários jornais e revistas.

Foi adido de imprensa da delegação portuguesa na assembleia-geral das Nações Unidas (1975).

Foi Conselheiro de Imprensa na Embaixada de Portugal em Londres (1975-1997).

Morreu de doença (penso que cancro) no dia 25 de Dezembro de 1997. O seu corpo está sepultado no cemitério de Vila Viçosa, no Alentejo em Portugal, de onde a sua Família originou.

Visitou Moçambique independente apenas uma vez, em 1989.

 

NATURALIDADE

Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
européias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem raiz de algum
pensamento europeu.
E provável… Não. E certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Indico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.

Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.

 

Princípio do dia

Rompe-me o sono um latir de cães

na madrugada. Acordo na antemanhã

de gritos desconexos e sacudo

de mim os restos da noite

e a cinza dos cigarros fumados

na véspera.

Digo adeus à noite sem saudade,

digo bom-dia ao novo dia.

Na mesa o retrato ganha contorno,

digo-lhe bom-dia

e sei que intimamente ele responde.

Saio para a rua

e vou dizendo bom-dia em surdina

às coisas e pessoas por que passo.

No escritório digo bom-dia.

Dizem-me bom-dia como quem fecha

uma janela sobre o nevoeiro,

palavras ditas com a epiderme,

som dissonante, opaco, pesado muro

entre o sentir e o falar.

E bom dia já não é mais a ponte

que eu experimentei levantar.

Calado,

sento-me à secretária, soturno, desencantado.

(Amanhã volto a experimentar).

Velho Colono

Sentado no banco cinzento
entre as alamedas sombreadas do parque.
Ali sentado só, àquela hora da tardinha,
ele e o tempo. O passado certamente,
que o futuro causa arrepios de inquietação.
Pois se tem o ar de ser já tão curto,
o futuro. Sós, ele e o passado,
os dois ali sentados no banco de cimento.

Há pássaros chilreando no arvoredo,
certamente. E, nas sombras mais densas
e frescas, namorados que se beijam
e se acariciam febrilmente. E crianças
rolando na relva e rindo tontamente.

Em redor há todo o mundo e a vida.
Ali está ele, ele e o passado,
sentados os dois no banco de frio cimento.
Ele a sombra e a névoa do olhar.
Ele, a bronquite e o latejar cansado
das artérias. Em volta os beijos húmidos,
as frescas gargalhadas, tintas de Outono
próximo na folhagem e o tempo.

O tempo que cada qual, a seu modo,
vai aproveitando.

Testamento

Se por acaso morrer durante o sono

não quero que te preocupes inutilmente.

Será apenas uma noite sucedendo-se

a outra noite interminavelmente.

Se a doença me tolher na cama

e a morte aí me for buscar,

beija Amor, com a força de quem ama,

estes olhos cansados, no último instante.

Se, pela triste monotonia do entardecer,

me encontrarem estendido e morto,

quero que me venhas ver

e tocar o frio e sangue do corpo.

Se, pelo contrário, morrer na guerra

e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,

quero que saibas, Amor, quero que saibas,

pelo cérebro rebentado, pela seca veia,

pela pólvora e pelas balas entranhadas

na dura carne gelada,

que morri sim, que não me repito,

mas que ecoo inteiro na força do meu grito.

ILHA DOURADA

A fortaleza mergulha no mar

os cansados flancos

e sonha com impossíveis

naves moiras

Tudo mais são ruas prisioneiras

e casas velhas a mirar o tédio

As gentes calam na

voz

uma vontade antiga de lágrimas

e um riquexó de sono

desce a Travessa da “Amizade”

Em pleno dia claro

vejo-te adormecer na distância,

Ilha de Moçambique,

e faço-te estes versos

de sal e esquecimento

De “A Ilha de Próspero”

UNIFORME DE POETA

Ajustei minha cabeleira longa,

coloquei-lhe ao de cima meu

chapéu de coco em fibra sintética,

sacudi a densa poeira das asas encardidas

e, dependurada a lira a tiracolo,

saio para a rua

em grande uniforme de poeta.

Tremei guardas-marinhas,

alferes do activo em

situação de disponibilidade:

meu ridículo hoje suplanta

o vosso e nele se enleia e perturba

o suspiro longo das meninas

romântico-calculistas.

MAXILAR TRISTE

Suave curva dolorosa

atenuando o bordo rijo

desse rosto derradeiro

de brancura infinita.

Impugnando-lhe a doçura,

a antinomia do tempo

acentuará os duros ângulos

num mapa de tristeza

irreparável. O sorriso

vago nela projecta um

brilho fosco de loiça antiga:

espreitando na carne

os dentes anunciam o resto.

 

Notas e ligações:

Comentário no sítio da extinta Livraria Trindade sobre Rui e a Ilha de Próspero.

Eduardo Pitta, que foi seu amigo, deixou uma impressionante nota memorial.

Sobre a obra do Rui, ver aqui e aqui.

Poetas de Moçambique – Rui Knopfli, antologia poética organizada pelo Eugenio Lisboa, Belo Horizonte: Editora ufmg, 2010. 198208 p. ISBN 978-85-7041-715-2, aqui.

Sobre o significado de Próspero e Caliban, ler aqui e aqui.

Ana Cristina Dias, quando estava na Universidade de Macau, escreveu isto sobre Próspero e Caliban.

19/08/2018

A ILHA DE PRÓSPERO, DE RUI KNOPFLI, 1972

Filed under: Livro A Ilha de Próspero, Rui Knopfli - poeta — ABM @ 00:06

Para um livro tão conceituado como este do Rui Knopfli, a única maneira de o ler é comprar num alfarrabista.

Outra questão semântica e dialética: pode um branco de origem portuguesa e nascido em Inhambane reclamar a moçambicanidade antes de 1975? é que no caso do Rui, para alguns, parece que sim. Não que ele tivesse mexido uma palha nesse sentido para além do que escreveu. Não que alguém em Moçambique tivesse mexido uma palha nesse sentido, alguma vez.

Pois, são os fantasmas que nunca desaparecem. Porque não podem. Enfim, adiante.

Capa

 

Ficha

 

O Rui com a máquina fotográfica.

 

 

 

Algumas leituras adicionais relacionadas, online:

A geografia do espelho na poesia de Rui Knopfli

A Ilha de Próspero e o Repensar do Colonialismo

Knopli’s Melody

Uma leitura de A Ilha de Próspero

Entre as savanas de aridez e os horizontes da poesia: a multifacetada geopoética de Rui Knopfli

Artigo da Ana Mafalda Leite

17/08/2018

ALBERTO DE LARCERDA COM RUI KNOPFLI EM LOURENÇO MARQUES, 1963

Filed under: Alberto de Lacerda poeta, Rui Knopfli - poeta — ABM @ 16:31

O original desta foto faz parte do espólio de Alberto de Lacerda e é reproduzido com vénia.

Foto tirada durante a única vez que Lacerda visitou Moçambique depois de sair da colónia em 1946.

 

Os dois poetas num jardim em Lourenço Marques, 1963.

02/08/2018

A CASA VIEGAS EM LOURENÇO MARQUES, DESENHO DE DANA MICHAHELLES

 

A Casa Viegas acho que ficava na Rua Consiglieri Pedroso. Desenho de Dana Michahelles.

 

Anúncio da Casa Viegas na primeira página do Diário de Lourenço Marques, 7 de Agosto de 1966.

 

Poema de Rui Knopfli, retirado daqui, dedicado a Dana e em que menciona a Casa Viegas.

DANA

Pelo trajecto sangrento das acácias,
da Mafalala às areias da Polana,
ou à maré morta da Catembe;
do Ho Ling à Casa Elefante,
da Casa Viegas ao Prédio Pott;
da opulenta sombra do cajueiro
à nobre majestade do eucalipto,

ainda resiste, na memória, uma cidade.
Por tardes de longa canícula,
sentada em seu regaço, a menina
dos cabelos cor de cobre regista-lhe,
com paciente labor, na brancura
do A3, a minúcia do perfil
que esbatido aos poucos, lentamente,

no deserto da memória vai morrendo.
Dele, em tempo, só restará o sal
teimoso que, a algum verso,
há-de emprestar o travo amargo
e o que, no rigor afectuoso dos seu traço,
da insanável ferida oculta,
é, obstinadamente, a visível cicatriz.

10/06/2013

OS POETAS DE MOÇAMBIQUE EM DISCO, AGOSTO DE 1960

Muito grato ao João José Osório Reis. O seu pai, que era dono da Poliarte, foi quem editou o disco, que contém uma nota do Rui Knopfli no verso (ver em baixo) e no qual são lidos pela grande Manuela Arraiano poemas de Reinaldo Ferreira, Rui Nogar, José Craveirinha e do Rui Knopfli. Já meti uma cunha para se fazer uma gravação para meter aqui, vamos lá a ver.

Capa do disco "Poetas de Moçambique", da Poliarte em Lourenço Marques.

Capa do disco “Poetas de Moçambique”, da Poliarte em Lourenço Marques.

Verso da capa.

Verso da capa.

Imagem do disco.

Imagem do disco.

03/05/2013

A GRANDE DANA MICHAHELLES (1933-2002) E LOURENÇO MARQUES NOS ANOS 70

Dana quando mais jovem, em Lourenço Marques.

Dana quando mais jovem, em Lourenço Marques.

Dana alguns anos mais tarde, a trabalhar.

Dana alguns anos mais tarde, a trabalhar.

Cópia de um dos desenhos a tinta da Dana, aqui a Rua Consiglieri Pedroso em Lourenço Marques, 1972.

Cópia de um dos desenhos a tinta da Dana, aqui a Rua Consiglieri Pedroso em Lourenço Marques, 1972.

Dana Michahelles (1933-2002) was born in Florence, Italy, and was the daughter of artists. Her father was the Florentine painter RAM (Ruggero Michahelles), her uncle was the Futurist painter Thayaht, and her great-grandfather was Hyram Powers, the Neoclassical American sculptor. She attended the Institute of Fine Arts in Florence, but at age 15, she left for Africa where she remained for 27 years, creating a contrasting identity as an artist. In Mozambique, she remained for 27 years, she had a family, and worked extensively, never ceasing to paint. Dana’s work is relatively unknown in her birth city, and this exhibition represents a selected retrospective of her finest works which can be considered narratives, cityscapes, and visual documentation illustrating life as it is being lived, never having lost her Florentine spirit. Many people remember her drawing in the streets with her pad of paper and her pens in Maputo (Mozambique), in Lisbon, in Cape Town, and in Florence. To everyone, she has left an impression of being a quiet yet very personable artist of great talent.Dana made her drawings in the midst of people, surrounded by noise, voices, movement, by LIFE itself. She put on paper the architecture that impressed her, with a decisive and strong line to represent the heavy and structural parts, while at the same time, she was able to capture an ephemeral world in constant mutation and movement, of people — of which she sketched lightly, giving the sensation of momentary passing and fleeting moments, as one can see in many of her works. Fundamentally for her drawing style, she worked as a draftsman for 10 years with the studio of the famous Portuguese architect Amandio Alpoim Guedes (known as Pancho Guedes). It was an era when everything was still drafted by hand; the technology and instruments of today did not exist. This was an advantage that permitted her to develop a fine sense of proportion and perspective while she perfected, year after year, a particular way of using pen and ink, her very specialization.

(texto copiado e ligeiramente editado, do sítio da SACI Gallery (Palazzo dei Cartelloni, Via Sant’Antonino, 11, 50123 Florença, Itália, T 055 289 948, e-mail gallery@saci-florence.edu) que entre Janeiro e Fevereiro de 2013 fez uma exposição das obras da Dana, indicando que algumas das suas peças ainda podem ser compradas à sua Família contactando directamente a Galeria.

Em 2001, a Editora Caminho publicou um livro ilustrado com 168 páginas de cópias dos trabalhos, capa azul, com o nome da Dana (ISBN: 9789722114301). que habitualmente está esgotado e que vai por uns 50 euros.

No Facebook há um pequeno grupo de amigos e admiradores de Dana que pode ser encontrando digitando o seu nome completo.

Um sketch de Malangatana Valente, 1961.

Um sketch de Malangatana Valente, 1961.

A AVenida Dom Luiz em Lourenço Marques, junto ao Avenida Building ("Prédio Pott"), 1972.

A Avenida Dom Luiz em Lourenço Marques, junto ao Avenida Building (“Prédio Pott”), 1972.

Interior do Bazar de Lourenço Marques, 1972.

Interior do Bazar de Lourenço Marques, 1972.

Mais uma artéria de Lourenço Marques, 1972.

Mais uma artéria de Lourenço Marques, 1972.

A netrada do Hotel Club na baixa de Lourenço Marques, 1972. Actualmente o edifício é um centro cultural estrangeiro.

A entrada do Hotel Club na baixa de Lourenço Marques, 1972. Actualmente o edifício é um centro cultural estrangeiro.

A Travessa que liga da Rua Araújo à Rua Consiglieri Pedroso, na baixa velha de Lourenço Marques, 1972.

A Travessa que liga da Rua Araújo à Rua Consiglieri Pedroso, na baixa velha de Lourenço Marques, 1972.

Poema de Rui Knopfli dedidcado a Dana.

Poema de Rui Knopfli dedidcado a Dana.

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: