THE DELAGOA BAY WORLD

05/07/2019

O RESTAURANTE DA COSTA DO SOL EM LOURENÇO MARQUES E A FAMÍLIA PETRAKAKIS

O Restaurante da Costa do Sol existe no que na altura parecia ser literalmente o fim do mundo e o limite físico da Cidade de Lourenço Marques, desde meados da década de 1930. Se me recordo, a carreira de Machimbombos Nº1 dos Serviços Municipalizados de Viação, a sua mais longa, ia da Baixa até em frente ao restaurante. Era uma viagem. E, pelo caminho (já havia a Estrada Marginal nos anos 60) praticamente não havia nada, nem ninguém para além do Horto Municipal, do Clube Marítimo, do circuito de corridas de automóvel e umas casinhas do então desolado Bairro do Triunfo, que uns bravos ali conseguiram convencer a Câmara Municipal de Lourenço Marques a deixá-los construir ali (daí o nome que deram de “Triunfo” ao bairro).

O Restaurante no início da década de 1960.

Não tenho a certeza se o restaurante foi construído de raíz ou trespassado, nos anos 30, para um cidadão de origem grega, de apelido Petrakakis, que fazia parte da pequena mas colorida e certamente influente comunidade grega de Lourenço Marques (e a quem literalmente foi abarbatado pela Frelimo o centro social que construiu e pagou- o Ateneu Grego – para ali se fazer um “palácio de casamentos” à moda marxista-leninista).

A verdade é que pelo menos três gerações de Petrakakis geriram o estabelecimento (que também era uma pensão, o que menos pessoas sabem) entre a década de 1930 e cerca de 2015, quando um neto do Petrakakis original, o Manuel Petrakakis, finalmente vendeu o imóvel e, não menos importante, uns hectares ao lado e atrás, que no meu tempo eram o pântano mais nojento tenebroso que se podia ver, mas que – milagre – por essa altura digamos que já valia um pouco mais.

O Restaurante da Costa do Sol – designação que, ironicamente, esteve na base da apressada mudança de nome do próximo Clube Sport Lourenço Marques e Benfica quando a Frelimo, patrioteiramente, mandou apagar todos os vestígios toponímicos e afins que evocassem a famigerada presença portuguesa em Moçambique – foi dos poucos estabelecimentos que atravessou e sobreviveu – por um fio – a era que sucedeu a independência do país. E ainda por cima sob a tutela da mesma família. Imagino que aquilo por que passaram dava um livro.

Lembro-me que, quando visitei a então já Maputo em Dezembro de 1984, em plena era do repolho e do carapau e o regime assediado pela Renamo e pelos sul-africanos, Maputo em “lockdown” e numa miséria caprina, ter dito ao meu anfitrião (o Sr. Carlos Gaspar da Casa do Café, um dos poucos brancos resistentes que permaneceu em Moçambique) que queria ir dar um passeio de carro na Marginal até ao Restaurante da Costa do Sol. O Gaspar basicamente disse que eu não devia ir pois já não havia segurança naquela zona e eu podia ser atacado pelos “bandidos armados”.

No fim do dia, revoluções, descolonizações e ideologias aparte, suponho que um tipo tem que comer.

Dia de Santo Domingo na praia e no Restaurante da Costa do Sol, penso que início da década de 1970.

Na era colonial, a impressão que eu tinha era que durante a semana o restaurante estava mais ou menos às moscas, para encher durante os fins de semana – era a ponta do percurso de passeio para os mais “resistentes” que faziam o Passeio dos Tristes, os passeios familiares de carro de quem não queria ficar em casa num dia agradável durante o fim de semana. Nos Passeios dos Tristes dos meus pais nunca se ia à Costa do Sol – era muito longe. O meu pai dava a volta no Clube Marítimo e na Praia do Dragão subíamos para a Avenida António Ennes (a agora Julius Nyerere).

Penso que o velho edifício do Restaurante da Costa do Sol, agora com novos proprietários, ainda existe, sendo uma vaga evocação do que aquilo fora – um escape exótico e distante para os residentes de Lourenço Marques. Com a construção da nova estrada que por ali passa e que estendeu a Marginal até Marracuene, e o crescimento expressivo da malha urbana da Cidade, aquilo agora é um local de passagem, quase despercebido, entre os bairros noveau riche, a turba que para ali migra aos fins de semana em frotas infindáveis de carros pimba, música aos berros, que arrasa com a zona com toneladas de lixo, de garrafas vazias de 2M e ossos de galinha grelhada no local. atrás as urbanizações faraónicas construídas com dinheiros que sabe-se de lá de quem e de onde vieram.

Sendo a zona o que é – uma língua de areia da praia trazida em séculos anteriores pelo vizinho Incomáti, que também criou a Grande Xefina, ao nível do mar, vai ser lindo quando um dia destes o mar subir dois metros e vier o próximo ciclone.

Tal como praticamente desde o dia em que foi fundada Lourenço Marques, Maputo hoje vive quase exclusivamente da especulação imobiliária e do facto que é a capital do país e praticamente a única cidade que semi-funciona em todo o Moçambique. Foi assim e é assim e fascina ver como, tirando os protagonistas, quase nada mudou.

Hum, por onde andas estes dias, Manuel Petrakakis?

04/03/2012

O RESTAURANTE DA COSTA DO SOL EM LOURENÇO MARQUES, 1938

Filed under: ENTIDADES, LM Rest. Costa do Sol, Rest. da Costa do Sol — ABM @ 11:55

Espólio de Paulo Pires Teixeira.

 

O Restaurante da Costa do Sol, pouco depois da sua inauguração em 1938. Note-se que o edifício é ainda uma parte do que se conhece actualmente. Desde sempre propriedade da Família Petrakakis.

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