THE DELAGOA BAY WORLD

16/08/2022

A ACLAMAÇÃO DO REI DOM MANUEL EM LOURENÇO MARQUES, 1908

Filed under: Aclamação do Rei D Manuel II em LM 1908 — ABM @ 13:49

Imagem retocada.

Cerimónia de aclamação do jovem Rei D. Manuel em frente ao então edifício da Câmara Municipal de Lourenço Marques, ocorrida na sequência do assassinato, em 1 de Fevereiro de 1908, do seu Pai, o Rei D. Carlos I e do seu irmão, o Príncipe da Beira, Luis Filipe, herdeiro da coroa portuguesa.

11/08/2022

NELSON SAÚTE ASSINALA RUI KNOPFLY E A SUA OBRA LITERÁRIA NO SEU 90º ANIVERSÁRIO

Imagem retocada. Este sublime, invulgar texto de Nelson Saúte foi publicado em 11 de Agosto de 2022 na Carta de Moçambique. Assinala o 90º aniversário natalício de Rui Knopfly, ocorrido ontem. Reproduzo com vénia.

Rui em Lourenço Marques, 1962.

Rui Knopfli, nascido em Inhambane, a 10 de Agosto de 1932, faria hoje 90 anos. Um acaso está na origem da minha descoberta juvenil de o “Reino Submarino”, publicado em 1962. Esse encontro desencadeou um tumulto, difícil de descrever, em mim. Aquele tom estava fora do tom. Aquela poesia parecia estranha. Aquelas imagens, aquela sonoridade, aquelas metáforas. Aquele poder discursivo, barroco, torrencial por vezes, alegórico. Sempre cativante, sedutor e encantatório. Quase sempre pungente, língua dilacerada e dilacerante. Voz dos eleitos. Oriundo de uma educação literária onde avultava a poesia engajada e revolucionária, no lídimo contexto de afirmação de um novo país, desconhecia este poeta tão impressivo. Aliás, havia um ensurdecedor silêncio à sua volta.

Não se falava à época, meados dos anos 80, de Rui Knopfli. Nascera em Inhambane. Filho de um funcionário da Administração, a sua família vivia, nos anos 30, em Vilanculos. A mãe foi tê-lo a Inhambane onde estavam asseguradas condições de assistência médica mínimas. O poeta só aos 20 anos irá conhecer a cidade que lhe dá naturalidade. Viverá na Moamba, na Namaacha, em Magude. Curiosamente, Magude tem uma importância capital sob o ponto de vista literário. Foi lá, aos 15 anos, que começou a ler livros emprestados. Estava-se nos finais dos anos 40.

No final da juventude e já na capital teve encontros decisivos: Fonseca Amaral e João Mendes – os mentores da sua geração – José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Nogar ou Ricardo Rangel. Em casa da Noémia, a pretexto de ouvir o mítico Daíco, empreendem conversas subversivas. Não estavam isentos da perseguição política. Aquando das eleições de 1949 e da candidatura desafiante de Norton de Matos (que concitou tantos jovens africanos em Moçambique e em outros países) colam cartazes, promovem reuniões, conspiram. Alguns são presos, interrogados e mesmo espancados. Aníbal Aleluia é violentamente sovado. Rangel e Noémia não são isentos da bordoada pidesca. Knopfli, por conta da raça, é humilhado verbalmente. Era branco e a PIDE tinha critérios epidérmicos no seu acto incriminatório. Mais tarde, em 1952, foi parar aos calaboiços por um dia. Tinham importado livros inobedientes.

Em 1959 publica, aos 27 anos, o seu primeiro livro. Alguns companheiros de juventude tinham emigrado ou se exilado noutras latitudes. Rui terá, no entanto, uma passagem por Joanesburgo onde estuda e escreve alguma poesia em inglês. Aliás, no seu livro de estreia essa influência anglo-saxónica já é visível: “Velho poema da cidade do ouro”. Mais tarde ver-se-á ampliada. Sobretudo no seu encontro com T.S. Eliot, que traduz e glosa. Mas é a evocação da sua cidade, do seu tempo de infância, “da sociologia de esquinas”, dos jogos “pueris de sexo”, mas também a consciência de um lugar e de um tempo em tumulto, em transição, em transformação. O título do livro é uma provocação ou, se quisermos, o assumir dessa consciência de um tempo que mudaria, inexoravelmente: “O País dos Outros”.

Como disse, intentei o seu conhecimento através de “Reino Submarino” (1962). Os poemas elegíacos foram aqueles que mais me impressionaram: “A Menina do Retrato”, “Encontro”, “Monólogo”, sobretudo “A Uma Criança Longe”: “Escrevo-te estas palavras/ sabendo que as não lerás” ou ainda: “A morte é isso, é acabar/ simplesmente, não acontecer mais.” Este é um dos poemas que mais remotamente recordo, um poema dolorosamente biográfico.

Rui Knopfli: “Nada me auxiliam as lágrimas/ que me salgam a face/ e o muito que tenho blasfemado/ de borco, rente ao teu silêncio gelado. / Esta a lógica prosaica dos factos: / Continuamos a viver, dolorida/ a consciência/ da tua cada vez maior ausência. / E teu pequeno corpo moreno, / que nem todo o meu amor aquece, / é um palmo de ternura/ que apodrece.”

Este livro dedicado à memória da filha é atravessado por esse tom pungente de versos elegíacos. O poema “Pequena Elegia” termina com estes versos que nunca me esqueci: “Inteira, a tua morte/ viaja dentro de mim.” O livro tem outras elegias, como aquela dedicada ao poeta Reinaldo Ferreira, que morreu em 1959: “O que na vida repartiu seu poema/ por alados guardanapos de papel, / o criador de sonhos logo perdidos/ na berma dos caminhos, / o mago que pressentia o segredo/ da beleza perene”. Este ano, pleno de efemérides literárias, foi também o ano do centenário de Reinaldo.

Deste livro destaco ainda o poema “Adeus Xico”, uma dolorida memória da juventude, poema que eu declamei inúmeras vezes. O poema é uma longa homenagem a um companheiro da juventude morto aos trinta anos. Ainda hoje quando recordo este texto oiço os acordes da “Patética” que o poeta cita profusamente neste texto. Seria, porém, “Winds of change” e “Velho Colono”, dois dos mais reveladores poemas deste impressivo “Reino Submarino”, que me acompanhariam, mais frequentemente, ao longo destas quatro décadas de convívio apertado com a poesia de Rui Knopfli.

Rui Knopfli: “Sentado no banco cinzento/ entre as alamedas sombreadas do parque. / Ali sentado só, àquela hora da tardinha, / ele e o tempo. O passado certamente, / que o futuro causa arrepios de inquietação. / Pois se tem o ar de ser e o passado, / os dois ali sentados no banco de cimento. // Há pássaros chilreando no arvoredo, / certamente. E, nas sombras mais densas/ e frescas, namorados que se beijam/ e se acariciam febrilmente. E crianças/ rolando na relva e rindo tontamente. // Em redor há todo o mundo e a vida. / Ali, está ele, ele e o passado, / sentados os dois no banco de frio cimento. / Ele, a sombra e a névoa do olhar. / Ele, a bronquite e o latejar cansado/ das artérias. Em volta os beijos húmidos, / as frescas gargalhadas, tintas de outono/ próximo na folhagem e o tempo. // O tempo que cada qual, a seu modo, / vai aproveitando.”

Citei o poema na íntegra. Aqui está já o grande poeta que se iria revelar, na plenitude, no livro “Mangas Verdes com Sal” (1969), depois de “Máquina de Areia” (1964). Apetecia-me citar na íntegra também o “Winds of change”. Li-o até à exaustão. Há outros poemas extraordinários neste livro. Como “Fim de tarde no café”. Como tantos outros. Não há aqui espaço para os acolher. A segunda obra de Rui Knopfli que eu li foi esse inigualável “Mangas Verdes com Sal”, o livro da sua completude. Tinha um sulfuroso prefácio do Eugénio Lisboa. Recordo-me de poemas e versos que me ficariam para sempre na memória. Do poema “Não obstante”: “nunca escrevi versos que não fossem de amor”. Ou “o meu Paris é Joanesburgo”, do poema “A Paris”. O poema aforístico “Progresso”: “Estamos nus como os gregos na Acrópole/ e o sol que nos mira também os fitou. / Mas fazemos amor de relógio no pulso”. Livro sardónico, como sempre, pungente, dolorido, profundo. Ali se amplia o estro que fala do seu quotidiano, do seu profundo humanismo. Ali está o poeta erudito e, sobretudo, a mestria do seu labor limae. O seu depurado labor oficinal.

Durante anos impressionou-me o poema “Aparição”, li e reli “Hackensack”, que cito no frontispício do “Maputo Blues” e como o título revela é uma referência a Thelonious Monk. Citei abundantemente o poema “Velasquez”: “Só de perto te apercebemos: é de baixo/ que os gigantes te miram”, li e reli “A Descoberta da Rosa”, declamei “Mangas Verdes com Sal”, glosei “Lembranças do futuro”: “só os poetas têm lembranças do futuro”, comovi-me com “Praça Sete de Março”, exultei com “Disparates seus no Índico”, pilhei versos como em “Contrição” ou consignei ao futuro a minha escolha da melhor poesia moçambicana do século XX o título “Nunca Mais é Sábado”.

A mitologia da Ilha como tema central da poesia moçambicana devemo-lo a Rui Knopfli e ao seu roteiro belíssimo sobre a “A Ilha de Próspero” (1972): “Ilha, velha ilha, metal remanchado, / minha paixão adolescente, / que doloridas lembranças do tempo/ em que, do alto do minarete, / Alá – o grande saca! – sorria/ aos tímidos versos bem comportados/ que eu te fazia”. Este livro é notável, uma alquimia perfeita entre texto e imagem, com fotografias belíssimas do poeta e fotógrafo. O livro tem uma origem remota – o poema “Ilha Dourada” -, que vem no seu livro de estreia O País dos Outros.

Rui Knopfli: “A fortaleza mergulha no mar/ os cansados flancos/ e sonha com impossíveis/ naves moiras. /Tudo mais são ruas prisioneiras/ e casas velhas a mirar o tédio. / As gentes calam na / voz/ uma vontade antiga de lágrimas/ e um riquexó de sono/ desce a Travessa da Amizade. / Em pleno dia claro/ vejo-te adormecer na distância, / Ilha de Moçambique, / e faço-te estes versos/ de sal e esquecimento”.

Se “Mangas Verdes com Sal” era, indubitavelmente, o seu alto canto, a plenitude, a maturidade, “O Escriba Acocorado” (1978), publicado depois de o poeta abandonar “a capital da memória”, coagido pelos ventos da História, seria aquele que haveria de me parecer o seu livro mais conseguido. Aliás, tanto este titulo, como “Máquina de Areia”, “A Ilha de Próspero”, ou, mais tarde, “O Corpo de Atena (1984) são poemas únicos em vários cantos.

Rui Knopfli: “Servidor incorruptível da verdade e da memória, / escrevo sentado e obscuro palavras terríveis/ de ignomínia e acusação” – começa assim o poema “Proposição”, que termina: “A História que há-de ler-se é por mim escrita. / Anonimato igual nos cobrirá. A estas palavras não.”. O poema seguinte chama-se “Pátria” e foi glosado por outros tantos poetas, entre os quais Heliodoro Baptista ou Luís Carlos Patraquim. “As árvores chamavam-se casuarina, / eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também/ tinham nomes por que era costume designá-los”.

O poema que mais me impressionou deste livro – “As Imagens Quebradas” – um diálogo intertextual com Eliot: “Uma última vez percorro a cidade no dia / em que começa a minha morte. Reconheço/ estes lugares apesar da mudança e a sua / esquiva familiaridade roça-me as tolhidas/ asas da memória. Aqui escrevi. Naquela // sombra imaginei. Entre uma e outra coisa, / vivi. (…) // Caminho// pelos lugares queridos, sem tristeza, nem mágoa, / altas, condoídas árvores, lagos serenos escorrendo/ de meus olhos, hálito azul da tarde que, por cair, / de sombras vai tranquilizando o horizonte. Só, / meu coração, bate contra a pedra e o silêncio.”

Publicaria antes, como aludi o livro “O Corpo de Atena”, em 1984, no qual recupera um belíssimo poema – “Notas para a regulamentação do discurso próprio”, inicialmente dado a conhecer nos cadernos Caliban, que promoveu com o poeta João Pedro Grabato Dias. Há depois um longo interregno, um ínterim poético que dura treze anos. “O Monhé das Cobras” (1997), a sua derradeira obra, é publicada meses antes do seu falecimento, que ocorre no dia de Natal desse ano.

Rui Knopfli dizia-me, numa remota entrevista, quando lhe perguntei como via a questão da nacionalidade literária, o seguinte: “A nacionalidade literária é aquela que é proclamada pelos livros que nós escrevemos, pela conjuntura cultural, pela inteligência social que os produziram. Os meus livros – mesmo aqueles que eu escrevi desde que saí daqui – o seu referente é sempre, obrigatoriamente, moçambicano”. Nessa mesma conversa, nobilitava Craveirinha: “Ele é o maior de todos nós, com a Noémia ao lado e eu. Honra minha.”

O poeta, que retornaria a Moçambique, numa comovida visita em 1989, não ficou apenas na “exclusividade da memória privada”. Encontrou-se, num jubiloso convívio, com uma nova geração, que o reivindicava. Vivia então em Londres, o seu “exílio doirado”. Haveria só de ir a Portugal para, no final da vida, se entrevistar com os deuses. No poema “As Origens”: “Paro diante do jazigo de família, / Vila Viçosa, Alentejo profundo. Afinal tudo/ principiou aqui. O apelido seria, / puramente como outros, alentejano, / não fora a incursão oportunista// do estrangeiro, que perturbaria o resto, / confundido o futuro e as interpretações.”

Seria despiciendo, nesta homenagem, referir-me, com exaustão, à extensa polêmica sobre a nacionalidade literária e a dificuldade que sempre houve em enquadrar a obra de Rui Knopfli, sobretudo em Portugal. Isso caberia numa outra circunstância, não sendo o escopo desta breve evocação neste dia em que celebramos os seus 90 anos. Regozijo-me, a esta distância, por verificar que há uma geração, muito mais nova que a minha, que o reivindica, cultua e mitifica. (Rui Knopfli: “Chamais-me europeu? Pronto, calo-me. / Mas dentro de mim há savanas de aridez/ e planuras sem fim/ com longos rios langues e sinuosos, / uma fita de fumo vertical, / um negro e uma viola estalando.”)

Quando o descobri, há quarenta anos, estava de certo modo proscrito. O tempo, esse grande escultor, devolveu-o ao nosso convívio. O tempo, que é a matéria primordial da sua fecunda poesia, uma das mais altas expressões líricas deste país. Felizmente, remido: lemo-lo, cultivamo-lo, amamo-lo. Citamo-lo e glosamos a sua obra. Há teses universitárias, há livros evocativos, os poemas circulam, na medida do possível. Esta recidiva acontece apenas dentro da tribo literária? Não importa. Ele está tão esquecido e deslembrado como estão tantos outros poetas. Coisas desta pátria, que é nossa, esta pátria que também é sua. Mesmo quando ele quer, como Fernando Pessoa”: “pátria é só a língua em que me digo”, Rui Knopfli é também, ou sobretudo, poeta moçambicano. Um grande poeta moçambicano.

Rui Knopfli: “Porque eu teimo, / recuso e não alinho. Sou só. / (…) / Não entro na forma, não acerto o passo, / não submeto a dureza agreste do que escrevo / ao sabor da maioria. / Prefiro as minorias. / De alguns. De poucos. De um só se necessário/ for. Tenho esperança porém: um dia / compreendereis o profundo significado da minha / originalidade: I am really the Underground.”

06/08/2022

DIA DE CHUVA NA BAIXA DE LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Imagem retocada e colorida.

A passadeira, na Avenida da República (hoje 25 de Setembro) que ligava as esquinas do Scala e do Continental, aqui vendo-se a esquina do Scala.

04/08/2022

JOÃO ANTÓNIO DE CARVALHO E A MINERVA CENTRAL EM LOURENÇO MARQUES, 1953

Recorte do Notícias, 4 de Agosto de 1953, anunciando o falecimento do fundador da Minerva Central, um dos negócios “históricos” de Moçambique e que creio ainda opera, ocorrido no dia 3.

Notícias de 4 de Agosto de 1953.
Verso de postal publicitando a Feira do Livro da Minerva Central.

02/08/2022

O GRANDE HOTEL DA BEIRA, ANOS 60

Imagens retocadas.

Fachada do Grande Hotel.
Salão à entrada.

29/07/2022

A BRIGADA DO CAFÉ SCALA EM LOURENÇO MARQUES, ANOS 60

Imagem retocada e colorida.

Sentados numa mesa do Café Scala na Baixa de Lourenço Marques, anos 60. Da esquerda: Ricardo Rangel, Malangatana Valente Ngweya, Teodomiro Leite de Vasconcelos e Rui Nogar. Eram curiosamente populares na Cidade e, ao mesmo tempo, uma espécie de “brigada de resistência” contra o regime vigente. Ver mais um pouco em baixo.

Ricardo Achilles Rangel

Fotógrafo. Mulato filho de um grego e de uma senhora mista, o que justifica a credencial, exaustivamente repetida, de ter sido o primeiro fotógrafo não branco a ser contratado pelos racistas inveterados do Notícias – perdão, do BNU. Nasceu em LM em 15 de Fevereiro de 1924 e cresceu no eixo Alto Maé-Malhangalene-Mafalala. Trabalhou nos jornais da Cidade e na Beira e no final dos anos 60 co-fundou a revista Tempo, publicação mais ou menos rebelde mas que, após a independência, se tornou. com o Notícias (agora do Banco de Moçambique), uma publicação oficiosa do regime, com verdadeiras aulas de marxismo-leninismo e cantando as miríades virtudes do comunismo. Com o Kok Nam, eram os decanos da fotografia pós-1975, se bem que eu continuo convicto de que, sem desfazer neles que eram bons rapazes, o Carlos Alberto Vieira era de longe o melhor de todos. Mas o Carlos Alberto era branco, estava conotado com a Outra Senhora e isso pelos vistos é sempre uma chatice. Fundou uma escola de fotografia e assistiu ao horror da morte da fotografia química e a mudança para a fotografia digital. Morreu em Maputo em 11 de Junho de 2009. Com a Béatrice, foi meu vizinho em Maputo durante quase seis anos. Era amigo do meu Pai, o que valia o que valia.

Malangatana

De longe o pintor mais conhecido de Moçambique, antes e depois de 1975. Um senhor. Nascido na mais do que obscura Matalana em 6 de Junho de 1936, cedo foi padrinhado por elementos da clique intelectual-artística de LM, passou uns tempos no Núcleo de Arte na Rua dos Aviadores antes do tempo do Jorge e da Zéca Mealha (onde o conhecia) e desenvolveu aquele estilo inconfundível das pinturas com os miúdinhos esfomeados miseráveis chorosos que eu pensava que com a independência iria mudar mas não mudou. Nacionalista, deu o apoio que pôde ao novo regime freliminiano e ia-se lixando. Felizmente mais tarde deixaram-no em paz e ficou rico a vender os seus quadros em todo o mundo. Morreu em Matosinhos, ao pé do Porto, em 5 de Janeiro de 2011. Os portugueses deram-lhe honras de Estado colocando o seu corpo em câmara ardente no Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, onde, excepcionalmente, eu estava e fui. Depois foi de avião para Moçambique.

Leite de Vasconcelos

O Teodomiro nasceu na muito portuguesa Arcos de Valdevez em 4 de Agosto de 1944 mas com um ano de idade foi levado para Moçambique, que não só sempre considerou a sua terra como fez o formalismo da nacionalidade após 1975. Foi um jornalista e um escritor. Cresceu na Beira, onde trabalhou na Rádio do Aeroclube da Beira e estudou ciências sociais em LM. Mais tarde, chegou a director do Rádio Clube, mas em 1972 foi para a (então) Metrópole, trabalhar na Rádio Renascença. Na madrugada do dia 25 de abril de 1974, Leite de Vasconcelos era o locutor da emissão do programa Limite, quando a canção Grândola, Vila Morena do Zeca Afonso foi transmitida às 00:20 horas, sinal que marcou o início da Operação Militar Especial em Portugal, coordenada pelo “compatriota” Otelo Saraiva de Carvalho e que concluiria poucas horas depois com o derrube da ditadura. Vivia em Maputo e morreu em Joanesburgo em 29 de Janeiro de 1997. Em vida, publicou um livrinho de poemas.

Rui Nogar

Nom de Guerre de Francisco Rui Moniz Barreto, o Rui era Coca-Cola vintage, nascido em LM em 2 de Fevereiro de 1932 (metade dos textos na internet, que emprenham pelos ouvidos, asseguram que foi em 1935) de pais imigrados de Goa, e onde cresceu, tendo trabalhado em firmas de contabilidade e de publicidade locais. Era um intelectual e membro encartado da brigada da resistência que conspirava no Scala. Tornou-se militante da Frelimo em 1964 e consequentemente foi logo preso pela PIDE e arreliado, que era mais ou menos o que a SNASP portuguesa fazia naquela altura aos simpatizantes dos Libertadores e que aliás lhe deu credenciais impecáveis para mais tarde. Tanto assim que após 1975 foi deputado da Assembleia Popular, Diretor do Museu da Revolução (no antigo 1º de Maio, que agora é propriedade privada da Frelimo), Diretor Nacional da Cultura e Secretário-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos. Publicou obra variada. e sobre isso ver nas fontes o elogio rasgado que o Nelson Saúte lhe fez. Morreu em Lisboa em 11 de Março de 1993 (metade da internet diz que foi em 1994).

Fontes

https://www.whoispopulartoday.com/Teodomiro-Leite-de-Vasconcelos/tt

https://pt.wikipedia.org/wiki/Teodomiro_Leite_de_Vasconcelos

https://pt.wikipedia.org/wiki/Malangatana

https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$rui-nogar

https://opais.co.mz/viva-rui-nogar/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ricardo_Rangel

24/07/2022

VENCEDORES DAS REGATAS DE LOURENÇO MARQUES, 24 DE JULHO DE 1941

Segundo o Eduardo Pitta, o dia 24 de Julho de 1875, que hoje completa 177 anos, começou a ser celebrado em Lourenço Marques como um feriado exactamente há 175 anos, em 1877.

A equipa do Clube Naval de Lourenço Marques que venceu as regatas do Dia da Cidade, posa para a fotografia, numa 5ª feira, 24 de Julho de 1941. Foi mais um dia de feriado na pequena e pacata capital moçambicana com cerca de 30 mil habitantes europeus e mais uns tantos negros e mulatos , que mantinha as suas dormentes rotinas, apesar de, à sua volta e lá longe na Europa, mais uma vez o mundo ardia numa guerra violenta e fraticida, Adolf Hitler e Josef Stalin tendo acabado de dizimar a Polónia e Hitler acbado de conquistar a França, Bélgica, Holanda e a Noruega, parecendo invencível. Enquanto Hitler se preparava para invadir as Ilhas britâncias, Portugal entretanto já declarara a neutralidade, ao contrário do Reino Unido e o seu vasto império, que incluía as suas colónias e estados associados na região: a relutante União Sul-Africana, a Suazilândia, Bechuanalândia, Niassalândia, as Rodésias do Norte e do Sul e o Tanganhica. Ou seja, o Moçambique colonial dessa altura era uma ilha formalmente neutral num mar britânico em guerra com a Alemanha. Todos em Lourenço Marques seguiam atentamente a guerra através da rádio em onda curta, a BBC a emitir de Londres e a Rádio Berlim a partir da capital alemã nazi.

1877 era apenas dois anos depois da histórica decisão de Mac-Mahon, ainda era Lourenço Marques uma vila miserável, infecta e barricada numa pequena ilha, numa ponta o velho presídio que aportava o nome do quase desconhecido comerciante que lhe dera o nome, povoada principalmente por estrangeiros, monhés (umas comunidade de comerciantes e suas famílias, originários do Médio Oriente e do sub-continente indiano, há séculos em Moçambique, que se estavam a mudar para a sua rua principal, que na verdade era a Rua da Gávea, não a Rua Araújo) e negros, vagamente sustentada pelo comércio local e com o Transvaal. Não tinha água potável, saneamento, comunicações, caminhos de ferro, porto. Só doze anos mais tarde, em 10 de Novembro de 1887, seria, por decreto real assinado por Dom Luis I, elevada ao estatuto de Cidade, o que lhe deveria dar o direito a uma estrutura municipal de auto-governo, mas nem sequer isso conseguia concretizar, pois não havia gente para eleger ou para ser eleita. Durante anos e anos, a sua câmara municipal seria efectivamente gerida por uma mistura de nomeados, por tecnocratas competentes enviados de Lisboa e pela a sua influente (e quase toda estrangeira) associação comercial. A língua que mais se falava era a inglesa.

Na base da decisão proferida em 24 de Julho de 1875, estavam disputas territoriais que vinham desde 1822, quando um capitão inglês, Owen, aportou o mísero presídio e, segundo os portugueses, à sucapa dos portugueses no Presídio, assinou tratados com os régulos Tembe e Maputo e assim reclamou para a Grã-Bretanha todo o território a Sul da Baía do Espírito Santo (hoje Baía de Maputo). Nessa altura, andava tudo à caça desses “tratados”, não se percebendo bem qual era o entendimento dessas autoridades indígenas quanto ao que realmente pensavam que estavam a assinar (mas que invariavelmente vinha acompanhado de umas caixas de whisky, uns charutos e uns saguates, o que, admita-se, sempre era alguma coisa).

A disputa manteve-se e escalou após a constituição das repúblicas Boer do Transvaal, Estado Livre de Orange e, do lado britânico, a constituição da Colónia do Natal. Em 1861, um navio britânico chegou ao Presídio e declarou que a Ilha da Inhaca passava a ser parte da Colónia do Natal. Levou oito anos aos portugueses reagir. Nesse ano, os ingleses enviaram um navio para a Inhaca – e içaram a bandeira britânica. Seis meses depois, um punhado de portugueses intrépidos foram numa barcaça à Inhaca, arrearam a bandeira inglesa, correram com a guarnição britânica e, perante o certamente atónito punhado de locais, içaram a bandeira da monarquia portuguesa. Nos corredores diplomáticos, acendeu-se a disputa entre Londres e Lisboa, unidas pelo dúbio pacto de Windsor desde há meio milénio, Portugal completamente nas lonas, enquanto que o Reino Unido se posicionava já como a nação mais poderosa no planeta. Os dois governos acordaram em submeter a questão a arbitragem internacional, para decisão final e vinculativa pelo presidente da República da França.

Que pela sua decisão de 24 de Julho de 1875, atribuíu a Portugal a posse da região mais ou menos entre a parte Sul da Baía e até à Ponta do Ouro e ao pequeno Protectorado da Suazilândia.

Após a independência nacional, as autoridades descartaram esta data e passaram a assinalar o dia 10 de Novembro de 1887 como Dia da Cidade. Mas não sem antes o inefável Samora Moisés ter feito mais uma das suas. Pitta relata como foi o dia 24 de Julho de 1975, primeiro centenário da Decisão:

A data celebra a sentença do marechal francês Mac-Mahon, que em 24 de Julho de 1875 arbitrou a favor de Portugal, contra a Grã-Bretanha, a posse da baía de Lourenço Marques, denominada «Delagoa Bay». Em 1975 cumpriu-se o centenário. Machel aproveitou a data para virar tudo do avesso. Discursando durante várias horas, decretou o fim da propriedade privada. Terra, habitação, actividades económicas, transportes, saúde, educação, média, agricultura, indústria, etc., passou tudo para a Frelimo. Assim que acabou de falar, consultórios médicos, escritórios de advogados, colégios e pequenas oficinas foram alvo de buscas. Um médico amigo teve dificuldade em justificar a posse de luvas de latex e um estetoscópio. No dia seguinte estava em Joanesburgo. Nesse dia decidimos deixar Moçambique. Com os aviões lotados até ao fim de Outubro, combinou-se que o Jorge [o seu companheiro na altura] viria a 3 de Novembro e eu mais minha mãe a 26 de Janeiro de 1976.

A Avenida 24 de Julho, a mais comprida da Cidade, essa, manteve a mesma designação até hoje, mas passando a assinalar um dos maiores actos de destruição económica do Moçambique independente, que levaria décadas a começar a desembrulhar.

23/07/2022

CHÁ DAS CINCO NO HOTEL POLANA EM LOURENÇO MARQUES, DÉCADA DE 1920

Imagem retocada.

Visitantes, presumivelmente sul-africanos, sentados na esplanada traseira do Hotel Polana em Lourenço Marques, década de 1920. O hotel foi inaugurado há precisamente cem anos, no dia 1 de Julho de 1922.

18/07/2022

INTERIOR DO AEROPORTO SACADURA CABRAL NA BEIRA, INÍCIO DOS ANOS 70

Imagem retocada.

Sala de embarque do então chamado Aeroporto Sacadura Cabral na Beira.

Expandida a pista e a gare no final dos anos 60, este aeroporto e e o Aeroporto Gago Coutinho, em Lourenço Marques, foram os primeiros aeroportos moçambicanos a poderem receber os então novos aviões Boeing 747 da TAP e processarem simultaneamente as centenas de passageiros, carga e bagagem, transportados pelas novas aeronaves.

O primeiros voos destas aeronaves de grande capacidade (lançadas pela Boeing em Seattle em 1970) para a Beira e para Lourenço Marques ocorreram no dia 4 de Junho de 1973.

Artur Sacadura Cabral (Celorico da Beira, 1881 – Mar do Norte, 1924), que quase momentaneamente deu o seu nome à estrutura modernizada na Beira, foi um cientista e aviador português mais conhecido por, com Gago Coutinho, ter feito a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, entre Lisboa e o Rio de Janeiro, em 1922. Viria a falecer num acidente aéreo no Mar do Norte em 15 de Maio de 1924, quando trazia um novo avião da Holanda para Lisboa. O seu corpo e a aeronave nunca foram encontrados.

Sacadura Cabral conhecia muito bem Moçambique, onde aliás conheceu Gago Coutinho e para onde foi trabalhar em 1901.

Navegou durante dois anos pelas costas de Moçambique e, em 1905, procedeu a um levantamento hidrográfico detalhado da baía de Lourenço Marques, em antecipação da modernização do seu porto. Com Bon de Sousa, Sacadura Cabral foi um dos oficiais escolhidos para este trabalho, em que elaborou uma carta hidrográfica do rio Espírito Santo e de trechos dos rios Tembe, Umbelúzi e Matola. Em 1906 e 1907 trabalhou como topógrafo na rectificação da fronteira entre o Transvaal e Moçambique, serviço que foi feito em colaboração com uma equipa de agrimensores enviados pelo Transvaal. Em 1907, tendo chegado a Moçambique uma missão geodésica de que era chefe Gago Coutinho, os dois trabalharam juntos entre 1907 e 1910 em várias missões geodésicas e geográficas em território moçambicano.

INAUGURAÇÃO DO AEROPORTO DE VILA CABRAL POR AMÉRICO TOMÁS, AGOSTO DE 1964

Imagem de Helder Martins, retocada.

O Aeroporto de Vila Cabral (creio que hoje, Lichinga) foi inaugurado durante a visita presidencial de Américo Tomás, o presidente português na altura, a Moçambique.

Américo Tomás, de farda branca, ao centro, é cumprimentado por uma guarda de honra militar à sua chegada a Vila Cabral para inaugurar o novo terminal aéreo.

13/07/2022

A NEGOCIAÇÃO DA NOVA FRONTEIRA ENTRE MOÇAMBIQUE E O MALAWI, 1954

Filed under: A negociação da fronteira com o Malawi 1954 — ABM @ 13:59

Imagens retocadas.

Capa de um documento sobre a fronteira entre Moçambique e actual Malawi, negociado entre Portugal, o Reino Unido e a Federação das Rodésias e a Niassalândia, mediante um acordo firmado em 18 de Novembro de 1954.

Eis uma peça de informação curiosa que não se aprendia no tempo colonial na escola: o território de Moçambique tem cerca de 4.212 quilómetros de fronteiras, em que 2.685 quilómetros são terrestres, 1.203 quilómetros são de fronteira fluvial e 322 quilómetros de fronteira lacustre. Possui ainda uma costa marítima com cerca de 2.700 quilómetros, onde, no mar, partilha fronteiras com a Tanzânia, as Ilhas Comores (em frente a Pemba), a França (no caso da minúscula Ilha Europa e o Baixo Bassas da Índia, mais ou menos em frente a Vilanculos), o Reino da Suazilândia (agora Eswatini) e a África do Sul.

A isto acresce o imenso território da chamada plataforma continental, sob o mar em frente à costa marítima, onde, por exemplo, se encontram as supostamente fabulosas reservas de gás natural que por estes dias estão a começar a serem extraídas.

Quase todo este território ficou definido entre meados e o final do Século XIX, entre os tratados feitos com os boers com o Transvaal, os alemães com a actual Tanzânia e com o Reino Unido para o resto, incluindo a arbitragem de Mac-Mahon em 1875. Houve depois uns acertos aqui e ali, feitos avulsamente.

Mas houve um acerto excepcional: o Acordo de Fronteiras visando o actual Malawi, assinado a 18 de Novembro de 1954.

Porquê?

Por duas razões: 1. porque o anterior statu quo era considerado inadequado pelos portugueses; 2. pela sua dimensão e impacto futuro no Moçambique independente.

Antes um pouco de história.

No seu trabalho sobre o assunto, Emílio Zeca explica tudo muito bem, infelizmente é um trabalho académico, o que significa que ler aquilo é uma seca. Portanto destilo.

Resumindo, juntamente com a parte Sul do actual Zimbabué (Machonalândia), o actual Malawi faziam parte daquela faixa cor de rosa, situada entre Angola e Moçambique, que os portugueses dos meados do Séc- XIX achavam que era, e teria que ser, sua, de forma a formarem o seu segundo Brasil. A Alemanha, o Reino Unido, Cecil Rhodes (que era uma espécie de Elon Musk britânico) e o infame Rei Leopoldo dos belgas, trocaram-lhes a voltas. Primeiro começaram por dizer que não bastava os portugueses terem estado lá há 300 anos, ou dizerem que quem descobriu primeiro era dono. Tinham que ter as pessoas e os recursos. Tinha que haver ocupação.

Mas isso era impossível. Em 1890 devia haver menos que mil portugueses em Moçambique inteiro e quase todos estavam em Lourenço Marques, na Ilha de Moçambique e um punhado no Ibo. Neste sentido, o tão apregoado “colonialismo” centenário dos portugueses em África era – sempre foi – pura ficção científica.

A seguir, deram o golpe do baú. Rhodes formou uma empresa (a British South Africa) e reclamou para ele o território que consiste essencialmente no actual Zimbabué. Mais a Nordeste, uma sociedade missionária escocesa – que também tinha a sua empresa de fretes e afins (a African Lakes), abriu umas missões protestantes e uns serviços algures no que é hoje o Malawi. Coisa pouca, mas mais do que os portugueses tinham.

Perante a inconstância e a indefinição, os intrépidos portugas, que tinham andado em manobras com os franceses e os alemães, não estiveram com meias medidas e avançaram. Paiva de Andrade (há quem escreva Andrada) um belo dia marcha para território adentro, com uma pequena guarnição, bandeira da monarquia em riste. Não só foram todos presos e levados para o Cabo (a bandeira foi confiscada e posteriormente devolvida a um algo surpreso Marechal Carmona, então Presidente da República de Salazar, quando este visitou Moçambique e a União Sul-Africana em Agosto de 1939), como Cecil Rhodes aperta com o Foreign Office em Londres, que a 14 de Janeiro manda um telegrama para Lisboa a dizer que ou os portugueses paravam com aquilo ou havia guerra. Antes do final desse dia, os portugueses capitularam. No ano seguinte, apesar de muito ofendidos e cantando A Portuguesa em comícios patrióticos, andaram às voltas e em 1891 fixaram as fronteiras do que é, mais ou menos, Moçambique. A Rodésia do Sul ficou para Rhodes, e os padres da associação missionária escocesa ficaram com o Malawi, a que chamavam Niassalândia. formalmente um Protectorado britânico.

Mesmo com o que sobrou – Moçambique – os portugueses não tinham nem gente nem dinheiro para fazer nada. Espertos, alugaram quase metade da sua nova colónia…a ingleses, franceses, belgas e alemães via as Companhias do Niassa, da Zambézia e de Moçambique.

Nas décadas seguintes. portugueses e ingleses andaram ocupados a tentar fixar a fronteira entre Moçambique e a Niassalândia.

Mas uma alteração significativa ocorreu com o Acordo de 18 de Novembro de 1954 – que só seria fechado em 29 de Novembro de 1963, uns escassos seis meses antes da colónia ser entregue ao Dr. Hastings Banda, a 6 de Julho de 1964.

Essa alteração seria o ajuste da fronteira junto do Lago Niassa.

a fronteira entre Moçambique e o Malawi.

A fronteira entre o Malawi e Moçambique tem uma extensão de 1569 quilómetros e começa no ponto da
fronteira Moçambique-Malawi-Zâmbia, no Planalto de Angónia, (ponta de cima do lado esquerdo de Tete no mapa em cima) seguindo irregularmente para sul e sudeste, passando por Dedza e perto de Vila Nova da Fronteira, onde inflecte para norte, passando por Milange, junto dos Lagos Chilwa e Chinta, terminando na margem oriental do Lago Niassa.

O Lago Niassa possui uma área de cerca de 31 mil quilómetros quadrados. Nos termos do Acordo assinado em 18 de Novembro de 1954, entre Portugal, o Reino Unido e a então Federação das Rodésias e Niassalândia, 6.400 quilómetros quadrados passaram a fazer parte do território moçambicano,

Após o Acordo de 1954, a fronteira moçambicana no Lago Niassa passou a ser uma linha a meio da parte central do lago, adicionado 6.400 quilómetros de superfície ao território de Moçambique. Anteriormente, a fronteira situava-se na …margem do lago junto a Moçambique. Ou seja, se um moçambicano fosse tomar banho no lago a partir de território moçambicano, estaria a nadar em território do Malawi.
Nos termos do Acordo de 1954, as Ilhas de Likoma e Chizumulu, que “sempre” foram da Niassalândia, permaneceram parte do Malawi mas passaram a ficar bem dentro do território moçambicano e mais perto da costa moçambicana que da malawiana.

No cômputo final, o parecer da Câmara Corporativa portuguesa quanto ao Acordo foi o seguinte:

“Apreciado quanto a extensão dos territórios que, por seu efeito, mudam de soberania, o balanço do acordo é o seguinte: Portugal adquire uma área de 6400 km2 no lago Niassa, mais 60 km2 no lago Chiuta, mais 4,7 km2 na região de Mutarara. As permutas de terrenos na região da Angónia saldam-se por uma diferença de 20 km2 favor da Niassalândia.”

O Aviso, publicado no Diário do Governo de Portugal, 1955.

Uma nota final. Por uma variedade de passos mal dados e incapacidades ocorridas entre alemães e britânicos durante décadas seguidas, relativas às fronteiras da actual Tanzânia, que foi administrada por mandato pelo Reino Unido entre o final da Primeira Guerra Mundial e a sua independência sob o Dr. Julius Nyerere (que tinha, para variar, vários ódios de estimação pelo Dr. Banda), acontece que, chegadas as independências, a fronteira entre a Tanzânia e o Malawi era…..a margem do Lago Niassa.

Ou seja, ainda hoje, se um tanzaniano for nadar no Lago a partir do seu território, está a entrar no Malawi.

Enquanto se achava um grande líder africano e apoiava os movimentos independentistas, tornando Dar-es-Salaam num corredor de movimentos de libertação que incluíam a Frelimo, Nyerere literalmente fez o pino para tentar resolver esta questão com o Malawi, sem nunca o conseguir, o mesmo sucedendo com os seus sucessores. No seu texto, o Emílio Zeca lista aturadamente todo esse percurso.

Até hoje.

Do lado moçambicano, tudo resolvido. Quando se nada no Lago, ainda se está em Moçambique.

Fontes:

Elíseo Amine – Delimitation of the Mozambique Maritime Boundaries with Neighboring
States (Including the Extended Continental Shelf) and the Management of Ocean Issues.
United Nation Nippon Fellowship Programmed 2006-2007. Division for Ocean Affairs and
Law of the Sea. United Nations: New York, 2007.

Emílio Jovando Zeca – Limites e Fronteiras na África Austral: Moçambique e o processo de delimitação e Desafios da Reafirmação Fronteiríça na Região – Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, Dourados, v.6. n.12, jul./dez. – pp 231-232.

https://debates.parlamento.pt/catalogo/r2/acc/01/06/02/037/1955-02-26?sft=true#p371

https://dre.tretas.org/dre/2461212/aviso-de-21-de-novembro

12/07/2022

O REPUXO DO JARDIM VASCO DA GAMA EM LOURENÇO MARQUES

Imagens retocadas.

Década de 1940.
Imagem recente.

HÁ CEM ANOS O HOTEL POLANA ABRIU EM LOURENÇO MARQUES

Imagens retocadas.

O Hotel Polana abriu em Lourenço Marques no dia 1 de Julho de 1922, na altura num promontório isolado distante da Baixa da Cidade e da Ponta Vermelha, defronte da Baía e da Praia da Polana e no extremo Sul da Concessão Somershield. Era dos melhores hotéis no continente africano, servindo principalmente viajantes, turistas sul-africanos endinheirados e homens de negócios.

Nos cem anos da sua existência, foi sendo repetidamente expandido e alterado e teve vários proprietários, individuais e corporativos. Em 1975, a propriedade foi nacionalizada pelo Estado moçambicano e desde então tem sido concessionada a privados, mais recentemente a uma organização ligada à comunidade ismaelita.

Surpreendentemente, parece que ninguém assinalou esta efeméride em Moçambique.

No topo desta inserção, o Exmo. Leitor encontra ligações a vários artigos e imagens relacionadas com o hotel.

1- anos 20
2 – anos 30
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5 –
6 – final dos anos 40
7 – anúncio do Hotel
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10- o antigo campo de bowling na relva.
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08/07/2022

127 ANOS DE CAMINHOS DE FERRO EM MOÇAMBIQUE

Imagens retocadas e a primeira colorida por mim.

Hoje (8 de Julho de 2022) a actual empresa dos caminhos de ferro de Moçambique assinalou o 127º aniversário da sua fundação num comunicado de imprensa, o que de certa forma me surpreendeu. O percurso dos caminhos de ferro em Moçambique foi diverso e parte, como a linha férrea entre a Beira e o então território da Rhodésia, propriedade da British South Africa Company (ou seja, de Cecil Rhodes) que abriu anos antes. Para não falar das várias linhas férreas que serviam alguns dos projectos específicos desenvolvidos em algumas zonas de Moçambique.

Mas de facto “a” linha, quase a única que realmente interessava e que mereceu a cobiça de tudo e tudos, era a linha entre Lourenço Marques e Pretória, da qual cerca de 90 quilómetros percorriam território moçambicano. E essa foi oficialmente inaugurada no dia 8 de Julho de 1895.

O comunicado surpreende também porque é normal o regime (ainda) da Frelimo invariavelmente ignorar tudo o que vem atrás da data mágica de 1975. A LAM, por exemplo, hoje quase em coma terminal, não era a DETA de 1936 (também criada pelos Caminhos de Ferro): era uma empresa pública constituída em 1980. Pois claro que sim.

Foto tirada na minúscula localidade fronteiriça de Ressano Garcia, junto à África do Sul, em Julho de 1907. SAR o Príncipe D. Luis Filipe, filho de D. Carlos e herdeiro da coroa portuguesa, estava de visita a Moçambique e ia visitar Pretória e Joanesburgo. Na imagem, tirada pouco antes de o Príncipe Real ali chegar, proveniente de Lourenço Marques, vários funcionários e oficiais portugueses e da África do Sul posam em frente à locomitiva dos camimhos de ferro da África do Sul, Classe 6L-2 hauling, que levaria a Carruagem Real desde esta localidade até à capital do Transvaal. Penduradas ao lado, vêem-se, lado a lado as então bandeiras da África do Sul e de Portugal.
A enorme confusão do lado português com a construção da linha férrea foi tal que quando o percurso Lourenço Marques-Pretória foi finalmente concluído e inaugurado em meados de 1895, já Pretória estava ligada ao Cabo, a Bloemfontein e a Johannesburgo. Mas Kruger, o monumental presidente do Transvaal e eternamente desconfiado dos desígnios dos britânicos e sentado em cima do maior filão de ouro da história da humanidade, só queria a linha de Lourenço Marques, a qual à partida escaparia ao controlo e influência ingleses. Nesta imagem, Kruger e Reitz, o seu congénere do Estado Livre de Orange, assinalavam a ligação entre as linhas férreas dos dois países boers, 21 de Maio de 1892.
A primeira estação ferroviária de Lourenço Marques. Ficava mais adiante da actual e mais perto do cais.
A estação ferroviária de Lourenço Marques à esquerda, Novembro de 1937.
A fachada da “nova” estação dos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques, iniciada cerca de 1908, inaugurada em Março de 1910 e concluída em 1916.
Vista aérea do complexo dos caminhos de ferro de Lourenço Marques, década de 1960. fonte: Portugal. S.E.I.T./D.G.I./Secção de Fotografia Nº 381292, cx. 464, env. 16. Uma parte dos terrenos que se vêem foi obtido através de aterros.
A fachada da estação de Lourenço Marques, 1961.
Foto tirada cerca de 1927 no porto de Lourenço Marques. Para maior conforto dos passageiros que se dirigiam a Pretória e a Johannesburgo, as carruagens eram levadas literalmente até junto dos navios que atracavam no Cais Gorjão e dali seguiam directamente para a fronteira sul-africana. Até aos anos 60, as alternativas para se viajar eram apenas por comboio ou navio.
Mais do que qualquer outro mecanismo, salvo o da própria colonização, foram os caminhos ferro, que eram quase um estado dentro do Estado, que arrancaram Moçambique para a Era Moderna (essencialmente na modalidade de capitalismo extractivo). Para além do transporte de passageiros, carga e correios para destinos até pouco antes completamente isolados do mundo, para operar, a empresa tinha que desenvolver vários tipos de infra-estruturas. Em cima, um hospital dos Caminhos de Ferro.

27/06/2022

JOHN ROSS E A LINHA FÉRREA ENTRE PRETÓRIA E LOURENÇO MARQUES, 1893

Filed under: John Ross e a linha férrea Delagoa 1893 — ABM @ 08:47

Imagem retocada.

Trabalhadores da NZASM posam para a posteridade na ponte de Brinkspruit, algures entre Nelspruit e Batberton, ainda inacabada, durante a construção da chamada linha de Delagoa Bay, 1892.

Esta é uma breve vinheta da época.

No dia 15 de janeiro de 1893, John Ross, um negro,  recebeu 15 chicotadas de um policia do Transvaal por alegada conduta imprópria.

Acontece que Ross era um engenheiro que trabalhava para a NZASM (a Nederlandsch-Zuid-Afrikaansche Spoorwegmaatschappij) na parte sul-africana da linha ferroviária que estava a ser construída entre Pretória e Lourenço Marques. Aparentemente, ele atrevera-se a reagir fortemente a comentários insultuosos feitos por um seu colega branco. Na segregada República Sul Africana (aqui refere-se apenas ao Transvaal, note-se) era costume os africanos serem sumaríssima e severamente punidos por tudo e por nada.

O que o agente da policia não sabia era que Ross era também um cidadão dos Estados Unidos da América.

Ross reclamou do tratamento de que fora e, do incidente, resultou uma disputa diplomática entre os Estados Unidos da América e o Transvaal.

Ross apresentou queixa pelo espancamento de que fora alvo no consulado dos Estados Unidos em Joanesburgo. O cônsul, um tal Sr. William Van Ness, relatou o assunto a seus superiores em Washington. Van Ness também confrontou o Secretário de Estado do Transvaal, Willem Johannes Leyds. Com o apoio do Departamento de Estado dos EUA, Ross exigiu 10.000 dólares em danos, uma verdadeira fortuna na época. Leyds, que se queria livrar do caso o mais rápido possível, viu que não havia outra opção a não ser pagar a indemnização.

Algumas dezenas de cidadãos americanos negros viviam na altura na República Sul-Africana. A maioria veio para a região durante o boom económico que se seguiu à descoberta de ouro no Witwatersrand em 1886.

Após o incidente com John Ross, o governo do Transvaal quis evitar mais problemas. Assim, passou a ser exigido que os negros americanos no Transvaal agora tinham que se registrar no consulado americano em Joanesburgo. Lá, eles receberiam um passe, indicando um “estatuto honorífico” que lhes garantia os mesmos privilégios acordados aos estrangeiros brancos.

Por exemplo, eles podiam pernoitar em qualquer hotel e viajar em primeira classe nos comboios.

Ross atribuiu grande importância a esse novo estatuto. Ele certamente não queria ser equiparado aos negros africanos. Em 1896, o Volksraad (o parlamento do Transvaal) aprovou uma lei exigindo que os negros que procuravam trabalho em certos distritos mineiros usassem um distintivo. Ross temia que todas as pessoas de cor fossem colocadas no mesmo nível que “os aborígenes rudes, selvagens e totalmente incultos, sendo compelidos a usar um distintivo no braço esquerdo”. Os temores de Ross eram injustificados: com a nova lei, a regra não se aplicava aos negros americanos. Para assegurar um bom relacionamento diplomático com os Estados Unidos, o governo do Transvaal não se importou de abrir uma excepção à sua rígida política de segregação.

Do lado português do projecto, não se conhecem situações semelhantes.

Fontes:

1. https://douwevandergalien.com

2. Ver  William W. Van Ness to Dr. Leyds, Lydenburg District, January 15, 1893, George F. Hollis to Josiah Quincy, Cape Town, May 9, 1893, Van Ness to Leyds, Johannesburg, September 18, 1893 and John Ross to Leyds, Johannesburg, September 16, 1893 in Consular Despatches, Cape Town General Records of the Department of State, Record Group 59. National Archives Microfilm publications, T. 191, roll 15.

3. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:18_Tonner_Brinkspruit_bridge.jpg

23/06/2022

O AEROPLANO “GOMES DA SILVA II”, PIONEIRO DA AVIAÇÃO EM MOÇAMBIQUE

Imagem do início do Séc. XX, dos arquivos de Alfredo Pereira de Lima, retocada e colorida.

18/06/2022

O PRÍNCIPE REAL DE PORTUGAL EM LOURENÇO MARQUES, 1907

S.A.R. o Príncipe D. Luiz Filipe de Órléans e Bragança, o jovem sentado no meio, rodeado pelo Governador Geral de Moçambique, Alfredo Augusto Freire de Andrede (à direita) e Ayres de Ornellas à esquerda, posando em frente à Residência do Governador-Geral na Ponta Vermelha em Lourenço Marques, meados de 1907, aquando da visita real a Moçambique.

09/10/2021

MARCELO CAETANO EM LOURENÇO MARQUES, 1969

Imagem retocada, do espólio de Alfredo Pereira de Lima.

Não foi a primeira visita de Marcelo Caetano a Lourenço Marques. Mas foi a primeira visita de um Presidente do Conselho português a Moçambique, cargo que despenhava pouco depois do AVC que invalidou Salazar. Engendrada por Baltazar Rebelo de Sousa, que na altura (e por cerca de dois anos) Governador-Geral da Província, a visita foi talvez demasiadamente apoteótica e enganou quase toda a gente, especialmente os brancos, que erroneamente pensaram que estava tudo bem e que havia tempo e futuro – o que depois se provou não ser correcto. Acima de todos enganou o próprio Marcelo.

Marcelo Caetano, à direita, é cumprimentado pelo Engenheiro Fernando Seixas, Director dos Serviços dos Portos, Caminhos de Ferro e Transportes de Moçambique, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lourenço Marques, sexta-feira, 18 de Abril de 1969.

08/09/2021

A 61ª COMPANHIA INDÍGENA EXPEDICIONÁRIA DE MOÇAMBIQUE EM TIMOR, ANOS 50

Imagem retocada.

Penso que estes são os oficiais e sargentos da Cia. Expedicionária.

04/09/2021

A PRAÇA MAC-MAHON EM LOURENÇO MARQUES, 1960S-1970S

Imagens retocadas.

Descansando na Praça Mac-Mahon, entre o monumento em memória dos mortos na I Guerra Mundial (inaugurado em 1935) e a fachada da estação ferroviária de Lourenço Marques, início dos anos 60. Do lado direito, vê-se o início da Rua Araújo.

A Praça Mac-Mahon (hoje Praça dos Trabalhadores), início dos anos 70. A seguir ao prédio da esquerda (Prédio Abreu Santos e Rocha, desenhado por Pancho Guedes) tem início a Rua Consiglieri Pedroso.

31/08/2021

RÉGULOS E CHEFES EM POVOAÇÃO DE SOFALA, 1913

Imagem retocada dos arquivos da Companhia de Moçambique.

Régulos e chefes em povoação de Sofala, 1913.

CARREGADORES DA ANGÓNIA, INÍCIO DO SÉC. XX

Imagem retocada.

Carregadores na Angónia, região ao Norte de Tete, Não sei bem o que estão a segurar. A Angónia tem este nome por ser o local para onde muitos colonos Ngunis foram viver durante o Século XIX, quando inavdiram o que hoje é Moçambique, vindos da actual África do Sul, pois nestas terras altas podiam fazer o pastoreio.

A folha em inglês da Wikipédia contém esta verdadeira pérola sobre a Angónia, que me dei à maçada de traduzir (e que inexiste na versão em língua portuguesa, o que é um mistério):

“O nome Angónia significa “Terra dos Angóni”. Angoni é o plural de Ngoni/Nguni, povos da África do Sul que após a desintegração do Império Zulu no século XIX invadiram [violentamente]a região. A língua falada no distrito é Chichewa, embora outros a chamem de Chingoni. Chichewa parece mais provável porque quando os Nguni chegaram à região já havia pessoas lá chamadas Achewa. Os Nguni mataram os homens Achewa e “casaram-se” com as mulheres Achewa. Como os seus filhos passavam a maior parte do tempo com as mães, acabaram por aprender a língua das suas mães (Chichewa) e não a língua dos seus pais, uma vez que os pais estavam fora a caçar ou a lutar.”

Recordo que Gungunhana era o chefe dos Nguni.

20/08/2021

A RUA CONSELHEIRO CASTILHO NA BEIRA, INÍCIO DO SÉCULO XX

Imagem retocada.

Hoje, 20 de Agosto de 2021, completam-se 114 anos desde o dia em que SAR Dom Luis Filipe de Bragança, o Príncipe da Beira, herdeiro da coroa portuguesa (o nome dele era Luís Filipe Maria Carlos Amélio Fernando Victor Manuel António Lourenço Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Bento de Saxe-Coburgo-Gotha e Bragança) na sua única visita a Moçambique e ao local, anunciou o decreto elevando a Beira ao estatuto de Cidade.

Uma rua da Beira, início do Século XX.

16/08/2021

LOURENÇO MARQUES NA GUERRA ANGLO-BOER (1899-1902): UM POSTAL

Filed under: LM na Guerra Anglo Boer: um postal — ABM @ 23:04

Imagem retocada.

Postal alusivo aos atritos entre o Reino Unido da Grã-Bretanha e o Império da Alemanha durante a Guerra Anglo-Boer (1899-1902). Na imagem vêem-se a Imperatriz Victória Saxe-Coburgo Gotha, do Reino Unido, abraçada pelo seu neto, o Imperador da Alemanha, Guilherme, este a dizer-lhe “não chores mais, Avó, podes contar comigo”. Atrás dele, ele segura uma mensagem de telegrama a dizer “enviem navios de guerra para Lourenço Marques”.

GUNGUNHANA NÃO POSA PARA LOUIS HILY, JANEIRO DE 1896

Imagem retocada. Muito grato a EMG que me escreveu a explicar.

Havia aqui qualquer coisa que não batia certo. Alguém escreveu que esta foto foi captada pelo Louis Hily na cabana onde o régulo foi preso pouco depois do Natal de 1895 pela expedição do major Mousinho.

Ora, que eu saiba, Louis Hily, um fotógrafo de referência de Lourenço Marques, não participou na expedição, que resultou de uma “vibe súbita” de Mousinho no dia de Natal de 1895 e que, aliás, tinha ordens expressas e muito específicas de António Ennes para, estritamente, assegurar o statu quo à data da sua partida de Lourenço Marques para Lisboa, considerando terminada a sua missão enquanto Comissário Régio de Moçambique.

Ou seja, a ideia de Ennes era que Gungunhana fosse deixado em paz,o que, tendo em conta tudo o que aconteceu depois, não é de descurar.

Mousinho estava fora de Lourenço Marques quando tomou essa súbita decisão, a todos os títulos quase suicida, supostamente ele e os seus adjuntos no mato, meio com os copos. Não conheço nenhuma fotografia tirada no local e no dia da detenção do então já mais que marginalizado régulo – mas ainda com forças mais do que suficientes para dar cabo da pequena equipa que apareceu no kraal, Mousinho incluído.

Após a detenção, Gungunhana foi levado para Lourenço Marques.

onde, supostamente, Hily teria captado esta imagem.

De seguida Mousinho mandou-o de barco para Lisboa. Ennes, digamos que pouco menos que satisfeito à primeira, soube do que se tinha passado por mensagem de telégrafo enquanto em trânsito para Lisboa.

Galvanizada pela demonização do Ngunis e principalmente pelo empolgar da figura do seu líder, que levara a cabo uma perigosa dança militar e diplomática que eventualmente perderia, apesar das manobras de Cecil Rhodes, a detenção foi acolhida apoteoticamente pelos portugueses, especialmente pela sua elite – e pela maior parte das tribos avassaladas aos Nguni, especialmente os Chope, que Gungunhana literalmente pareceu querer exterminar fisicamente.

Temporariamente, o Sul estava “pacificado”. Faltava o Norte, que levaria muito mais tempo e esforço.

Só que, malgrado as parecenças, este senhor não é o Rei Nguni. Segundo Patrick Harries, um antropólogo, trata-se de Ntchoungi, um sub-chefe Khosa. A foto foi incluída na primeira monografia de Junod. O original da mesma esterá nos arquivos da Missão Suíça em Lausanne, na Confederação Suíça.

Mr. Ntchoungi posa para a posteridade. Era um líder Khosa.

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