THE DELAGOA BAY WORLD

04/10/2020

A REPÚBLICA SUL-AFRICANA (TRANSVAAL)

Filed under: A República Sul Africana antes e agora — ABM @ 21:25

Imagens retocadas.

A República Sul Africana, fundada pelos Boers e internacionalmente reconhecida, existiu entre 1852 e 1902, quando foi tornada numa colónia britânica, a seguir à derrota numa guerra com o Reino Unido. O território, então já com o nome de Transvaal (“para além do Rio Vaal”) foi uma província da União da África do Sul entre 1910 e 1961 e depois da República da África do Sul entre 1961 e 1994, altura em que foi (mais ou menos) repartida entre as actuais províncias de Free State, Gauteng, Mpumalanga, Limpopo e Northwest (ver mapa em baixo).

 

O brasão de armas da República Sul-Africana (RAS), também conhecida por Transvaal..
Mapa mostrando a RAS e do Estado Livre de Orange, aquando da 2ª Guerra Anglo-Boer. À direita, vê-se o extremo Sul da Colónia portuguesa de Moçambique. Mostra ainda a Suazilândia como fazendo parte da RAS, o que de facto (mais ou menos) aconteceu durante um curto periodo. Por oposição dos portugueses, as fronteiras do Transvaal ficaram delimitadas a oriente pela colónia portuguesa de Moçambique. Por influência de Cecil Rhodes, a fronteira a Norte ficou delimitada pelo território da British South Africa Company, mais tarde conhecida como Rodésia do Sul e que constitui o actual Zimababué. As duas figuras à direita são o Presidente Kruger e o General Joubert, figuras cimeiras do conflito com o Reino Unido entre 1899-1902.

A repartição administrativa da actual República da África do Sul, desde 27 de Abril de 1994, altura em que houve eleições livres e com voto universal. A fronteira com Moçambique, negociada com os portugueses ainda no tempo do Transvaal Boer permaneceu intocada. Moçambique ascendeu ao estatuto de nação independente em 25 de Junho de 1975,



Carroça de bois boer, desmontável, que os sucessivos grupos de boers usaram na sua migração para Norte a partir da Colónia Britânica do Cabo e que fazem parte da mitologia fundacional boer.
Descrição detalhada de uma carroça de bois dos boers. Em afrikaans.

09/09/2020

A MIGRAÇÃO DE LOUIS TREGARDT, 1835-1838

Imagem retocada. Texto adaptado do texto publicado aqui, vastamente editado.

O mapa do êxodo do grupo de Louis Tregardt da Colónia do Cabo para o Norte é indicado em roxo e acaba na actual Cidade de Maputo, assinalada no mapa como Delagoa Bay.

Introdução

A migração de alguns grupos de farmeiros boer a partir da Colónia britânica do Cabo entre 1830-1854, acabando por forjar a identidade afrikaner e fundar três repúblicas boer entre aquela colónia e o que é hoje o Sul de Moçambique, foi um dos eventos seminais que dominariam a história da região nos quase 150 anos que se seguiram, com a particularidade de não ter sido uma colonização patrocinada por uma potência europeia. De facto precedeu-a em cerca de 50 anos. Pelo contrário, a migração dos boers do Cabo para Norte, foi uma reacção anti-colonial em relação à Grã-Bretanha e eventualmente levou a várias guerras entre boers e ingleses e, já no Século XX, a um recrudescimento e exaltação da identidade, da religião e do nacionalismo boer, mesmo dentro de um contexto colonial britânico, que eventualmente desembocou na eleição de uma coligação pró-boer em 1948 (que praticamente coincidiu com a inauguração, no ano seguinte, do Monumento Voortekker, nos arredores de Pretória, que exaltava ) na emanação da legislação conhecida como apartheid durante a governação do Dr. Verwoerd (assassinado por um activista nascido em Lourenço Marques em 1966) e na constituição da República da África do Sul em 1961 sob o controlo da minoria boer.

O Monumento em memória dos Voortrekkers, nos arredores de Pretória. Inaugurado em 1949, celebra a identidade boer e a sua história. Vale a pena visitar pois ajuda a entender um pouco melhor a história da África do Sul.

Até 1994, a maioria negra sul-africana era discriminada e estava legalmente impedida de participar na governação do país. Os boers só negociaram a mudança para a maioria negra após a queda do comunismo sovético, a partir de 1989 e após um longo período de resistência.

Hoje é demasiadamente fácil, e até considerado politicamente correcto, descontar o fenómeno boer e inscrevê-lo na categoria geral da dominação colonial europeia no continente africano. Na África do Sul, decorre uma verdadeira batalha para rever e apagar partes dessa história, nalguns casos justificadamente, noutros não. Este é um problema que só pode ser resolvido pelos sul-africanos.

Em baixo, refiro a viagem, relativamente mal sucedida, de uma dessas migrações, a do grupo de Louis Tregardt, por quatro razões.

A primeira, é que a expedição Tregardt acabou em Lourenço Marques em 1838, com a morte de Tregardt, da sua mulher e dos últimos sobreviventes.

A segunda é que, por um conjunto de razões, pela mão do historiador Alfredo Pereira de Lima, em 1968 foi inaugurado em Lourenço Marques um monumento evocativo de Tregardt e da sua expedição, junto ao local onde se situava o primeiro cemitério da então pequena localidade, onde foram sepultados os restos mortais do “pioneiro” boer. Esse monumento permanece intacto na Baixa de Maputo, e pode ser visitado.

A terceira razão é que, improvavelmente, Tregardt terá sido o único líder de uma migração boer que manteve um diário no qual que registou o dia-a-dia dessa migração. Retrata um mundo que, quase duzentos anos mais tarde, é quase incompreesnsível para as gerações actuais.

Finalmente, destaca o impacto significativo que os eventos da África do Sul, que permanece o “vizinho gigante” de Moçambique, tiveram na evolução do que se tornou numa colónia portuguesa e depois na República de Moçambique em 1975 e ainda nos anos seguintes.

A Migração Tregardt

Louis Johannes Tregardt (10 de agosto de 1783 – 25 de outubro de 1838), também escrito Trichardt, foi um agricultor de ascendência holandesa-huguenote (que foram os primeiros colonos brancos no Cabo, a partir da década de 1650) oriundo da fronteira oriental da Colónia do Cabo, que mais tarde se tornou um dos primeiros líderes da série de migrações Boer (chamados, no original afrikaans, “voortrekkers” ou “trekkers”), ocorrida a partir de meados da década de 1830, em resultado da rejeição, por estes, da Pax Britânica.

Procurando evitar a que consideravam a odiada autoridade na Colónia britânica do Cabo, tomada pelo Reino Unido no decurso das guerras napoleónicas, Tregardt emigrou do Cabo em 1834 para ir viver entre os Xhosa, antes de cruzar o rio Orange, entrando assim, em território considerado “neutro”, isto é, fora da alçada da Colónia do Cabo e do império britânico.

A sua jornada para o norte, junto com um companheiro boer chamado Johannes van Rensburg, começou no início de 1836. Trechardt liderou um pequeno grupo de emigrantes, composto por oito fazendeiros bôeres, as suas esposas, um total de 34 filhos, alguns escravos bosquímanos (africanos originários da zona do Cabo), vários servos bantus (que à primeira oportunidade pisgaram-se), e o seu gado, dirigindo-se em nove carroças puxadas por bois para o interior numa direcção para Nordeste do Cabo, para uma região até então inexplorada (pelos europeus) e que hoje compõe mais ou menos a parte da África do Sul junto à fronteira a Nordeste, encostada a Moçambique e ao Zimbabué.

Durante um ano, o grupo ficou mais ou menos acampado numa base nessa zona a que chamaram Zoutpansberg.
Neste ponto mais ao norte do que acabaria por a ser a sua longa jornada, as condições insalubres e um clima de guerra tribal, começaram a afectar homens e animais. Aparentemente abandonado por uma caminhada posterior, e distante de locais onde podia obter suprimentos e encontrar compradores para o seu marfim (que era de onde vinha o dinheiro) Tregardt abandonou o acampamento e conduziu o seu grupo para sudeste, até eventualmente chegar ao pequeno Presídio de Lourenço Marques, na altura uma espécie de posto avançado português, constituído uns cinquenta anos antes numa língua de terra na parte Norte da Baía do Espírito Santo, a que os britânicos chamavam Delagoa Bay.

A passagem de Tregardt por estas regiões coincidiu com uma altura de enorme efervescência social e violência política africana, com guerras terríveis, secas persistentes e migrações tribais.

A rota seguida para chegarem até ao oceano provou ser muito mais árdua de percorrer e incluiu o desafio de atravessar uma seçcão ao Norte da cadeia montanhosa dos Drakensberg. Apesar de eventualmente ter chegado ao Presídio de Lourenço Marques, vários de seus companheiros contraíram malária e morreram pelo caminho. A esposa de Tregardt morreu junto do Presídio de Lourenço Marques em Maio de 1838, seguida pelo próprio Tregardt seis meses mais tarde.

Tregardt coordenou os seus movimentos com os do seu amigo e também Voortrekker, Hendrik Potgieter, que era suposto seguir o seu percurso. Tregardt começou a jornada para o norte e foi acompanhado pelo grupo de Johannes (Hans) van Rensburg. Tregardt e Van Rensburg foram os primeiros Voortrekkers a passar perto de Thaba Nchu, onde a tribo Barolong do chefe Moroka II residia.

Ao chegar a Strydpoortberg, na actual província sul-africana de Limpopo, Tregardt e Van Rensburg separaram-se, depois de Tregardt ter argumentado que Van Rensburg estava a desperdiçar as suas munições na caça aos elefantes para obter marfim (presumivelmente, em vez de para proteger o seu grupo). Van Rensburg e o seu grupo de quarenta e nove pessoas seriam chacinados em Junho de 1836, por uma milícia de Soshangane (ou Manicuse, o lendário líder do império de Gaza, então no seu zénite), junto de um braço do rio Limpopo, após um ataque nocturno.

Tregardt permaneceu no promontório ocidental de Zoutpansberg entre Maio e Agosto de 1836, onde foi visitado pelo grupo de Potgieter, que lhe garantiu que logo o alcançariam e se juntariam ao seu grupo. Potgieter partiu então para o Norte à procura de Van Rensburg, que não encontrou. Em Julho, Tregardt iniciou a busca na direção leste e alcançou o curral de Sakana no Limpopo, perto de onde o grupo de Van Rensburg foi provavelmente dizimado. Aqui, considerando estar em perigo e prestes a cair numa cilada das populações locais, Tregardt decidiu voltar para trás, quase certo do destino trágico de Van Rensburg.

Em Novembro de 1836, Tregardt mudou o seu acampamento para Leste, onde encontrara um clima mais agradável, nas proximidades da, mais tarde, cidade de Schoemansdal e Louis Trichardt, outrora conhecida pelas tribos locais como Dzanani. O seu grupo permaneceria ali até Junho de 1837. Ali construíram casas rudimentares, uma oficina e uma escola para vinte e uma crianças.

Foi aqui que Tregardt teria intervindo na luta pela sucessão entre os filhos dum falecido chefe local, Mpofu. Tregardt teria ajudado seu filho Rasethau (ou seja, Ramabulana) a chegar à chefia da sua tribo, derrotando o seu irmão mais novo, Ramavhoya. Por razões desconhecidas, as páginas do relato de Tregardt sobre este incidente específico foram, no entanto, arrancadas do diário que mantinha. Em resultado deste apoio, e para proteger Tregardt contra grupos de assalto dos Matabele, Rasethau deu a Tregardt liberdade para ocupar algumas terras e garantiu-lhe o acesso a áreas de caça. Na altura, o grupo de Potgieter, atrasado por conflitos mais ao sul, estava distante.

Entre Junho e Agosto de 1837, o grupo de Tregardt acampou a leste do rio Doorn (actual fazenda do rio Doorn), e em seguida partiu de Zoutpansberg para tentar encontrar uma nova base e uma rota comercial para chegar ao mar. As suas comunicações esporádicas com os portugueses em Lourenço Marques indicavam que seria bem-vindo e ainda que a costa leste era escassamente povoada.

Tregardt decidiu rumar ao sul da Baía do Espírito Santo, evitando a região do Limpopo, onde o grupo de Van Rensburg fora assassinado e onde as moscas tsé-tsé eram endémicas nas zonas mais baixas. Tregardt chegou ao rio Olifants via Chuniespoort em 2 de outubro de 1837 e consultou o chefe Sekwati do povo Pedi quanto a que caminho deveria seguir. O chefe Sekwati visitou o grupo de forma cordial e amigável e avisou que a rota para o leste estava obstruída por montanhas intransitáveis, e sugeriu que eles deixassem as suas carroças para trás e prosseguissem a pé. Tregardt, agora com 54 anos, no entanto, estava decidido a cruzar as montanhas com as suas carroças, mesmo que elas tivessem que ser desmontadas e transportadas individualmente em peças.

O grupo de Tregardt procedeu a fazer o seu próprio reconhecimento das encostas cada vez mais acidentadas que circundam o Olifants e encontrou uma encosta transitável que conduzia ao cume, depois de se ter que cruzar o Olifants várias vezes. Os vagões, às vezes parcialmente desmontados e arrastados sobre galhos, foram levados até à crista dos Drakensberg , uma empreitada que levou dois meses e meio a completar.

Uma vez acampado na zona mais baixa do outro lado dos Drakensberg, (“Lowveld”) eles encontraram os habitantes locais, os Sekororo. Durante o dia, eles eram presenteados com potes de cerveja marula pela tribo Sekororo, mas à noite os membros da mesma tribo roubavam repetidamente o seu gado. Sem encontrar outra maneira de recuperar das suas perdas e de forma a evitar ter mais delitos com os Sekororo, Tregardt recorreu a aprisionar alguns membros da tribo e usá-los como reféns.

A etapa final de trezentos quilómetros da jornada para a Lourenço Marques começou em 5 de fevereiro de 1838, e o rio Olifants foi atravessado pela 14ª e última vez. Aqui, os súbditos Sekororo, sob a égide de Ngotshipana, vieram-se desculpar e conseguiram garantir a libertação dos quatro reféns, presenteando Tregardt com duas grandes presas de elefante. As tribos para além do rio Blyde garantiram a Tregardt as suas boas intenções, e a velha chefe Mosali pediu a Tregardt para arbitrar uma disputa com seu o rival, Magupe. Uma tribo local também auxiliou o grupo a atravessar uma parte do percurso. Os rios Klaserie e Sand foram atravessados em sucessão, e a região que integra actualmente a parte central do Parque Nacional Kruger foi atravessada sem incidentes. A leste da cordilheira dos Montes Lebombo, encontraram várias aldeias do povo Gwamba. Todos os seus habitantes eram amigáveis; eles e seu chefe, Makodelana, ofereceram a Tregardt vários presentes.

O grupo alcançou o rio Incomáti cerca de dois meses depois do início da jornada no (mais tarde chamado) Lowveld. Foi difícil cruzar o rio e vários dos animais foram perdidos ou roubados durante a travessia. Mais tarde passaram por um posto avançado português e continuaram ao longo de pântanos, lagoas e aldeias de tribos costeiras, até chegarem ao pequeno e miserável Presídio de Lourenço Marques, no dia 13 de Abril de 1838.

Cinco anos antes, o Presídio fora atacado e completamente destruído por tribos locais.

Louis Tregardt faleceria em Lourenço Marques a 25 de Outubro de 1838.

O Monumento Memorial Louis Tregardt na Baixa de Maputo, a dois quarteirões da Praça da Independência, junto ao local do primeiro cemitério de Lourenço Marques (que na verdade ficava sob o prédio que está à esquerda. Enfim) onde Tregardt, a sua mulher e alguns companheiros foram sepultados.

Como referi, Tregardt teve a particulardiade de ter sido o único líder Voortrekker a manter um registo escrito diário da sua jornada, um precioso documento em termos de linguística e etnologia, para além das suas muitas observações sobre os padrões climáticos, a geografia, a vida selvagem do interior e o mundo que encontrou. O documento, que, de alguma forma, sobreviveu a longa e penosa saga do grupo e a própria morte de Tregardt, detalha as suas reflexões pessoais sobre as interações sociais e experiências do dia a dia da sua pequena comunidade, escrito numa forma de holandês corrupto que evoluiria para a actual língua dos boers, o afrikaans.

A cidade sul-africana de Trichardtsdorp foi assim nomeada em sua homenagem em 1899, assinalando sua estada de um ano na base do Zoutpansberg. Em Mpumalanga, uma cidade chamada Trichardt está situada ao longo da sua rota para o Norte. Como um pouco por toda a África do Sul, mas nestes casos ainda mais, decorre há alguns anos uma verdadeira “batalha toponímica” para se alterarem os nomes das localidades para designações não boer, o que dava para escrever um artigo separado.

Boa sorte aos envolvidos. A verdade é que mudar nomes não muda a história do que aconteceu. Mas se alguns dormirem melhor à noite por causa disso, tanto melhor.

08/09/2020

PAUL KRUGER – BREVE ESBOÇO BIOGRÁFICO

Imagens retocadas.

Este é um breve esboço da vida de Paul Kruger, baseado num resumo que encontrei, e ilustrativo do impacto dos britânicos e do boers na história do Sul de África, com consequências para o que é, actualmente, Moçambique.

Parte da estátua evocativa de Paul Kruger, no centro da Church Square, uma praça situada no centro de Pretória. Por causa da guerra, a estátua esteve apeada durante anos num armazém no porto de Lourenço Marques, até ser finalmente levada para Pretória, onde por enquanto permanece.

Primeiros anos de vida

Stephanus Johannes Paulus Kruger nasceu em 10 de outubro de 1825 na fazenda do seu avô, Bulhoek Steyn, no distrito de Steynsburg (nomeado a partir do seu apelido), no Cabo Oriental, e cresceu na fazenda Vaalbank. Em toda a sua vida, ele só teria três meses de educação formal, o que não obstou a uma longa carreira política. Vaalbank era uma área agrícola acidentada, onde o jovem Paul aprendeu muito sobre a natureza. Quando a Grande Jornada dos Boers para Norte (o “Great Trek”) começou em 1836, para escaparem à soberania britânica, imposta na Colónia do Cabo desde o início do século XIX, o pai de Kruger, Casper Kruger, juntou-se ao grupo do “pioneiro” boer Hendrik Potgieter e a família Kruger mudou-se para o que mais tarde ficou conhecido como o Transvaal, com o objectivo de ali estabelecer um estado independente.

O pai de Paul Kruger decidiu estabelecer-se numa área hoje conhecida como Rustenburg. Por sua vez, Paul teve o direito de obter uma fazenda para si, tendo escolhido uma propriedade situada na base das montanhas de Magaliesberg onde se estabeleceu em 1841, com 16 anos de idade. Um ano mais tarde, casou-se com Maria du Plessis e o casal mudou-se para o Transvaal Oriental, junto à fronteira com o que é hoje o Sul de Moçambique.
Paul Kruger e sua pequena família voltaram mais tarde para Rustenburg e a esposa de Kruger e seu filho pequeno morreram logo a seguir, presume-se que devido à malária, endémica na região. Paul Kruger casou em seguida com Gezina du Plessis, de quem teve sete filhas e nove filhos e que morreria em 1901. Muitos dos filhos de Kruger morreram na infância.

Kruger surge como líder

Eventualmente, as fortes qualidades de liderança de Paul Kruger começaram a tornarem-se aparentes, primeiro com a sua nomeação para o cargo de Comandante-Geral da então República da África do Sul, mais tarde conhecido como Transvaal e depois quando ele foi nomeado membro de uma comissão do Volksraad, o Parlamento, que tinha a tarefa de redigir uma constituição. Diz-se que mais tarde ele desempenhou um papel importante na resolução de uma disputa entre o líder do Transvaal, Stephanus Schoeman, e Mathinus Wessel Pretorius, o primeiro Presidente do Transvaal.

O Vice-Presidente do Transvaal, 1874

Enquanto a África do Sul atravessava o primeiro período de enriquecimento súbito e migração com a descoberta de um gigantesco filão de diamantes em Kimberley, na fronteira entre o Estado Livre de Orange e o Cabo, com 48 anos de idade, Paul Kruger renunciou ao cargo de Comandante-Geral em 1873 e não assumiu nenhum cargo político durante algum tempo.

O Conselho de Administração da De Beers, 1888. Sentado ao centro, Cecil Rhodes, que, juntamente com um conjunto de magnatas, desempenhou um papel crucial na África do Sul a partir de 1870.

Ele retirou-se para sua fazenda, Boekenhoutfontein. O seu afastamento da política, no entanto, durou apenas um ano, altura em que ele foi eleito para o Conselho Executivo. Pouco depois, tornou-se Vice-Presidente do Transvaal. A vida de Kruger permaneceria centrada na política entre 1877 e 1882. Nessa época, Kruger liderou um movimento de resistência e se tornou-se o líder de uma comissão. A primeira guerra Anglo Boer ocorreu em 1880 e as forças britânicas foram derrotadas em Majuba em 1881. Nessa altura, no âmbito dessa comissão, Kruger foi fundamental nas negociações encetadas com os britânicos, que mais tarde levaram à restauração do Transvaal como um estado independente, ainda sob o domínio britânico.

Presidente Kruger

Em 1882, Paul Kruger, agora com 57 anos de idade, foi eleito Presidente do Transvaal. Ele partiu para a Inglaterra em 1883 para renegociar a Convenção de Pretória de 1881, um acordo que fora alcançado entre os Boers e os Ingleses no final da primeira Guerra Anglo Boer. Nessa altura, adquiriu vários aliados na Europa. Na Alemanha, por exemplo, participou num banquete em que foi apresentado ao então imperador, Guilherme I, e conversou longamente com Bismarck.

A descoberta de Ouro

Em1886, a descoberta no Witwatersrand do que viria a ser considerado o maior filão de ouro jamais descoberto no planeta, mudou radicalmente o clima político no Transvaal e não só, despertando novamente a cobiça britânica. Muitos caçadores de ouro de todo o mundo migraram para a África, bem como investidores e um exército de profissões afins. A República do Transvaal considerava os caçadores de ouro como ‘uitlanders’ (estrangeiros).

Para Leste, a 500 quilómetros em linha recta junto do mar, estava um lugarejo dormente e poeirento ocupado pelos portugueses – Lourenço Marques.

Lingotes de ouro obtidos no Witwatersrand, onde na altura surgiu a metrópole de Johnannesburg, provavelmente escavados por mineiros recrutados em Moçambique através da WENELA (Westerrn Native Labour Association). Durante décadas, os Magaíças constituiriam a base laboral das minas de ouro sul-africanas. Por as principais moedas do mundo industrializado serem baseadas no padrão de ouro, o metal precioso extraído na África do Sul teve um impacto enorme na economia e finanças mundiais.

O Raid Jameson

A liderança de Kruger, que no fim da primeira semana de Julho de 1895 inaugurara solenemente a nova linha férrea entre Lourenço Marques e Pretória, uma velha e grande obsessão sua e muito para desgrado dos imperialistas britânicos, foi posta à prova no final desse ano, quando ocorreu o chamado Jameson Raid, liderado pelo Doutor Starr Jameson, um aliado do político e magnata britânico Cecil Rhodes e cujo objectivo era tornar o Transvaal e o Estado Livre de Orange novamente em colónias britânicas. Tal como Rhodes, Jameson mais tarde tornar-se-ia primeiro-ministro da Colónia do Cabo. Em dezembro de 1896, um grupo resultante do ataque mal sucedido, iniciou um processo deliberado de deterioração das relações entre os britânicos e os bôeres que acabou levando à segunda guerra anglo-boer. No entretanto, Kruger foi eleito Presidente do Transaal e re-eleito três vezes, ocorrendo a sua última reeleição em 1898.

A Segunda Guerra Anglo-Boer, 1899-1902

A segunda Guerra Anglo-Boer, também conhecida como Guerra da África do Sul, começou em 11 de outubro de 1899 com um ataque dos boers às tropas britânicas estacionadas no território.

A residência do Cônsul britânico em Lourenço Marques, 1901. Actualmente a Embaixada britânica em Maputo, foi aqui que, em Dezembro de 1900, o então jovem Winston Churchill veio pedir assistência após a sua “espectacular” fuga de Pretória, escondido numa carruagem de um comboio que se dirigia para a capital da colónia portuguesa. Hoje, existe na fachada do edifício uma placa a assinalar o histórico evento.

Paul Kruger participou na última sessão do Volksraad (o parlamento) e em 29 de Maio do ano seguinte, fugiu de Pretória quando o exército britânico, liderado por Lord Roberts, avançou sobre a capital.

Uma das curiosidades “lusófonas” do Transvaal foi que o Ministro da Guerra do Transvaal durante a Segunda Guerra Anglo-Boer era Louis de Souza, um descendente de portugueses (ver em cima). Outra é a presença do jovem Fernando Pessoa em Durban durante parte do conflito na África do Sul, onde vivia (e que, penso, nunca mencionou). Ou seja, a meio, a família foi de férias a Portugal, durante mais que seis meses. Mais tarde (1910) a sua Mãe e Padrasto iriam viver para Pretória, onde o padrasto foi o cônsul de Portugal local até ali falecer em 5 de Outubro1919. A sua Mãe, que na altura regressou a Portugal, tivera um AVC ali em Dezembro de 1915, ficando, posteriormente, praticamente inválida.

Ele permaneceu na clandestinidade durante semanas e eventualmente, refugiou-se com os seus aliados europeus, enquanto a guerra continuava.

A pequena estção ferroviária de Nelspruit, 1898. Kruger passou por aqui a caminho do seu exílio.

Em 20 de Setembro de 1900 deslocou-se para a pequena e então fervilhante Lourenço Marques neutral no comboio presidencial e, após delicadas negociações, em 20 de Outubro partiu de Lourenco Marques para a Europa a bordo do couraçado militar holandês De Gelderland, enviado pela rainha Guilhermina até à capital da colónia portuguesa para o recolher.

A estação ferroviária de Lourenço Marques, 1900. Fica situada a cerca de 100 metros da actual estação de Maputo, dentro da zona agora reservada aos serviços portuários.

A sua mulher, Gezina Kruger estava muito doente quando o grupo deixou o Transvaal e não pôde acompanhá-lo. Ela morreria em Pretória a 20 de Julho de 1901. Na mesma altura, 5 dos seus 8 filhos sobrevivos (eles tieram 16 filhos) morreram numa questão de dias, quiçá, em parte, pelos mau tratos infligidos pelos invasores britânicos.

Aspecto da zona portuária de Lourenço Marques, tal como era por volta da Segunda Guerra Anglo-Boer. Nessa altura, a marinha britânica bloqueou a Cidade, ninguém entrava ou saía sem autorização dos britânicos.

 

Dois navios da companhia alemã Deustche Ostafrika Linie (DOA), o Kronprinz e o Peters, ancorados ao largo na Baía de Lourenço Marques, 1901. O Cais Gorjão só viria uns anos mais tarde, permitindo a atracagem dos navios.

O grupo de Kruger desembarcou na Cidade francesa de Marselha, recebido apoteoticamente por cerca de 60 mil pessoas. O mundo inteiro seguia a guerra dos boers na África do Sul pelos jornais, dia a dia, alimentado por imagens e relatos do conflito, enviados por telégrafo, uma relativa novidade. De seguida ele viajou pela Europa e até à propriedade Oranjelust, em Utrech, nos Países Baixos, onde permaneceu até ao final da guerra. Foi aqui que ele recebeu a notícia da assinatura do Tratado de Vereeniging, assinado a 31 de Maio de 1902. Depois de passar uns meses na Riviera francesa, Kruger mudou-se para Clarens, na Suíça, onde permaneceu os últimos seis meses da sua vida, falecendo em 14 de julho de 1904 de uma pneumonia. Os seus restos mortais foram transportados de volta para uma África do Sul meio destruída e já unida à força pelo império britânico, o seu país novamente uma colónia britânica. Com a autorização dos britânicos, seria sepultado em 16 de dezembro de 1904, no cemitério da Church Street, em Pretória, rodeado pelos seus apoiantes, o seu caixão envolto na bandeira do país que antes ajudara a criar.

A bandeira da África do Sul, utilizada entre 1928 e 1994, revela bem os resquícios do conflito anglo-boer, A bandeira do Transvaal é a pequena bandeira que se vê à direita, ao centro a bandeira do Estado Livre de Orange. Mesmo na actual bandeira em vigor na África do Sul, supostamente, três das cores ali presentes especificamente evocam as duas antigas repúblicas boer.

05/09/2020

MAPA DA ILHA DE MOÇAMBIQUE, 1751

Filed under: Mapa Ilha de Moç 1751 Bellin — ABM @ 19:21

Mapa da Ilha de Moçambique, datado de 1751, Tomo 1 Pág. 146, desenhado pelo cartógrafo francês Jacques-Nicolas Bellin (1703-1772) e pintado por mim esta semana.

 

Ilha de Moçambique, de Bellin, 1751.

CARTA RÉGIA NOMEANDO O GOVERNADOR DE MOÇAMBIQUE, 1752

Carta enviada pelo rei D. José I (governou Portugal entre 1750 e 1777) a Francisco de Mello e Castro, que foi Governador de Moçambique (na acepção da altura, nada a ver com o que Moçambique é hoje) entre 1750- Março de 1758, o que na altura era um mandato longuíssimo. A carta, datada de 23 de Abril de 1752 e cujo original está depositado num dos arquivos portugueses, era mais ou menos ditada pelo rei, preparada pelos assessores e assinada “rei” pelo monarca. Neste caso. nomea-o Governador e Capitão General de toda a costa situada entre Lourenço Marques e Cabo Delgado e ainda do interior (boa sorte). No fim da segunda página vem uma curta “cábula” para o rei saber o que estava a assinar.

Francisco foi o primeiro Capitão-General do território.

Segundo os registos, por altura do envio desta carta, Mello e Castro já estava em funções na Ilha de Moçambique desde 1750.

D. José I foi o monarca do Marquês de Pombal, dos Távoras, do terramoto de Lisboa e de mais meia dúzia de maleitas. Supostamente era absolutista (por delegação de poderes, presume-se) e ao mesmo tempo iluminista.

 

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04/08/2020

A HISTÓRIA DA VILLA MARGHERITA EM LOURENÇO MARQUES

Imagens retocadas.

A Villa Margherita que é, actualmente, e desde 1992, mais conhecida como o algo estranho edifício que actualmente aloja o Museu Nacional da Geologia em Maputo, tem uma história interessante – do pouco que se sabe e que relato em seguida.

A Villa Margherita na sua versão actual enquanto museu, a sua fachada pintada da cor de sanitário de quarto de banho e os muros originais substituídos por muros de arame simples.

Margherita foi uma mulher real que viveu durante décadas e que morreu em Lourenço Marques. Uma súbdita Italiana, nascida e criada em Cairo, no Egipto, no final do Século XIX, foi, supostamente, amante de um italiano que teve que ver com os Buccellatto (suponho que não o Giuseppe. O que me constou é que a sua ligação era com um dos arquitectos, também italiano, que Buccellatto contratou na altura para algumas das suas obras) e que a trouxe para Lourenço Marques, onde prosperava uma pequena mas  vibrante comunidade italiana, e lhe construiu a e ofereceu o confortável chalet num recanto agradável da Polana, um terreno de esquina onde se cruzavam a Avenida 24 de Julho e a Rua Fernandes Tomás (agora Avenida dos Mártires da Machava).

No topo da fachada à entrada da moradia, colocou o nome da sua dona e primeira habitante: Villa Margherita.

A fachada original da Villa Margherita, então nova. Note-se o nome por que ficou conhecida a casa, afixado no topo do varandim de entrada. Fotografia do espólio de Arlindo Malosso, retocada por mim.

Margherita nunca casou e não teve filhos.

A casa, construída no final da década de 1910, é ao estilo revivalista árabe rococó, muito condicente com o passado e perfil exótico da encantadora italiana que o foi habitar e ainda muito em voga no início do Século XX, quando se viviam em Itália momentos de enorme paixão e atenção pela cultura e arte do antigo Egipto.

Ali, Margherita viveu em algum esplendor durante mais que três décadas, lá para o fim mais esforçadamente, por falta de dinheiro e os efeitos da PDI.

O exterior da casa era completamente diferente daquilo que se vê hoje, profusamente colorida, pintada entre um amarelo casca de ovo apagado, intersectando com vibrantes faixas pintadas a vermelho tijolo, com um muro a condizer.

A Villa Margherita, tal como se apresentava originalmente, cerca de 1927, com as cores originais (mais ou menos). Imagem de um dos álbuns Rufino, colorida por mim com base no testemunho de Suzete Malosso, que conheceu Margherita e que foi proprietária do imóvel durante mais que vinte anos.

Margherita tinha duas sobrinhas que também viviam em Lourenço Marques. Foi com elas com quem foi viver, já velhinha, depois de eventualmente vender a casa – em 24 de Abril de 1952 – a um empresário local, chamado Arlindo Malosso. Malosso, filho dum italiano de Treviso (uma cidade meio austríaca situada relativamente perto de Veneza) e de uma portuguesa, já nascida em Moçambique . Eles eram amigos há muitos anos e Margherita vendeu-lhe o imóvel porque precisava de dinheiro.

Durante os vinte anos seguintes, a casa iria permanecer virtualmente fechada.

Por morte de Arlindo Malosso, em 1963, a Villa foi herdada pelo seu único filho, Arlindo do Vale Malosso.

Durante um ano e tal, em meados dos anos 60, a casa chegou a ser habitada por uma sul africana de origem italiana que em Pretória era vizinha do lendário General Jan Smuts, a Mrs. Brack. Na altura ela pertencia a uma família da high society de Pretória, daquelas que passavam sempre férias em Lourenço Marques no verão e que conhecia bem os Malosso, que tinham sido educados na África do Sul, que falavam fluentemente inglês e que visitavam aquele país com alguma assiduidade.

Mas o episódio Brack acabou por ser uma pequena aventura. Naquele ano (meados dos anos 60) ela alugara duas barracas na Praia da Polana, mas os filhos dela apanharam malária (foram tratados pelo Dr . Reis Costa). Um dia, a D. Suzete, mulher de Arlindo Malosso, levou a Sra Brack à casa (na Polana havia menos mosquitos)e disse-lhe que se calhar ela ali estaria mais segura com os filhos que nas palhotas junto dos mosquitos na praia. A casa estava fechada há anos, cheia de pó e a precisar de uma pintura e de algumas reparações. A Mrs. Brack imediatamente apaixonou-se pela casa e literalmente mudou-se para lá e procedeu a uma reabilitação. Logo de seguida, mandou vir da África do Sul quadros enormes, toalhas, lençóis, cortinas, loiças e mobílias e restaurou e decorou a casa, ali se instalando em renovado esplendor. Digamos que quando Arlindo Malosso eventualmente quis a casa de volta para a vender, foi uma pequena complicação tirá-la de lá, mesmo atendendo ao facto que o uso da casa fora concedido para umas curtas férias e gratuitamente. A Senhora Brack, que era suposta permanecer na Villa Margherita apenas por um período curto, de férias, com a família, foi ficando. Mas eventualmente saíu.

(A Sra Brack tinha vários filhos, um deles teve um negócio de exportação de flores e outro uma suinicultura. Não sei os seus nomes. Alguns devem estar vivos ainda mas não os conheço nem sei onde estão. Adoraria descobrir o seu paradeiro e falar com eles).

Tirando esse episódio singular e algo rocambolesco, a casa permaneceu sempre vaga.

Entretanto os tempos mudaram. No início dos anos 60 a construção e especulação imobiliária em Lourenço Marques era muito forte, pois o governo português pelos vistos achava que a era colonial era para durar mais umas décadazitas. A economia da então Província estava a crescer a níveis espectaculares, atraíndo muita mão de obra, principalmente de Portugal, e na capital havia uma enorme carência de habitações.

A decisão de quem então mandava era que a Cidade iria crescer na vertical. E em força.

Entre as áreas mais alvo dessa pressão especulativa eram, precisamente, as propriedades que circundavam os dois lados da Avenida 24 de Julho, em parte porque, derivado da forma como a cidade cresceu, regra geral os lotes de terreno eram enormes (mil a dois mil metros quadrados cada) permitindo a Câmara Municipal ali a edificação de prédios de apartamentos de grande volumetria, com até vinte andares de altura e até 60 apartamentos cada um, que depois podiam ser vendidos e alugados aos novos residentes, que vinham para atender ao enorme crescimento na actividade económica que então se observava na Cidade.

Foi um ver se te avias. Nos vinte anos que decorreram antre 1955 e 1975, a cidade “explodiu” em crescimento, mais visível na Baixa, e nas Avenidas 24 de Julho e António Ennes (actual Av. Dr. Julius Nyerere). Mas não só: a Somershield, o Bairro da Coop, Bairro do Triunfo, Matola, surgiram quase do nada nesta altura.

Quase tudo bairros de e para brancos, a maior parte deles portugueses.

Em redor da chamada Cidade de Cimento, por sua vez, dezenas de milhares de pessoas, a maioria pobre e sem educação, vindas do interior, tentavam a sua sorte e a sua quota parte do “milagre económico” em curso, versão colonial, radicando-se no Xipamanine, nas Mahotas, Benfica, Malhangalene, Chamanculo, Machava, Mafalala, Alto Maé. Surgia e afirmava-se a Cidade do Caniço, mais precária por comparação mas melhor que o abandono do mato, culturalmente não menos exuberante. Após a independência, a análise desta dicotomia racial/económica/social iria alimentar muitas e esotéricas, se insípidas, teses de doutoramento, escritas por académicos estrangeiros, empenhados em dissecar as miríades vicissitudes e injustiças do colonialismo português.

De facto, até ao início da década de 1960, a Cidade estava cheia de verdadeiras jóias de arquitectura, edificadas nas primeiras quatro décadas do Século XX, tais como a Villa Margherita, que (a meu ver, criminalmente) foram quase todas demolidas ou deformadas, para dar lugar aos horrendos “caixotes” de cimento que foram sendo erguidos pela Cidade.

No caso da Villa Margherita, para além de Arlindo do Vale Malosso ter a boa fortuna de ser abastado e não se sentir pressionado para ali construir depressa, erguendo mais um prédio de vinte andares indistinto, houve um “problema”, que no fim foi o que ajudou a salvar o imóvel: na óptica de Arlindo Malosso, apesar de uma localização excelente, excepcionalmente, acontecia que o lote onde a Villa Margherita estava implantada tinha uma dimensão de menos que mil metros quadrados. Ora, o que ele queria mesmo era edificar ali um grande edifício e que exigia uma área de implantação maior que o tamanho do lote onde estava a Villa podia comportar. Ele ainda entou adquirir um terreno vizinho (e o edifício, uma casa geminada) imediatamente atrás da Villa, mas não conseguiu o acordo dos seus proprietários, que ali residiam há décadas. Por essa razão, o assunto foi sendo empurrado para a frente e nada acontecia.

À esquerda, a Villa Margherita, em 1968, quando ainda era propriedade de Arlindo do Vale Malosso. Nesta altura a casa estava novamente em bom estado o seu exterior todo pintado de amarelo creme apagado,, devido à “ocupação” e restauro pela Mrs. Brack.

A casa, entretanto desocupada, e então já suscitando a curiosidade de quem por ali passava pelo seu exotismo arquitectónico, degradou-se lentamente, sendo, no início dos anos 70, já uma magnífica e digna semi-ruína. Eu lembro-me perfeitamente de uma vez ter lá ido, com cerca de dez anos de idade (entrei pela cave com um vizinho da rua) e de arrancar dois belos azulejos azuis da parede da cozinha, decorados magnificamente com motivos florais em azul, que logo a seguir ofereci ao casal Zéca e Jorge Mealha, os dois simpáticos artistas mais ou menos residentes no Núcleo de Arte e com cujos filhos eu então me dava e com quem estudava na Escola Primária Rebelo da Silva, ali a dois quarteirões. Como cresci numa casa na Rua dos Aviadores (actual Rua da Argélia, onde hoje é o nº267) e fiz toda a escola primária na Rebelo da Silva (a actual Escola Primária 3 de Fevereiro) literalmente passava mesmo à porta da Villa Marguerita (e da Vila Algarve, o que é outra história) todos os dias quando ia e vinha da escola, durante cinco anos seguidos.

No início dos anos 70, pouco antes da independência, Arlindo do Vale Malosso, que tinha vários outros projectos em mão, entre eles, nomeadamente, o gigantesco projecto do Bairro do Trevo, à entrada da Matola, decidiu vender a Villa Margherita, que herdara do Pai, a outro empresário, cujo nome desconheço.

E essa foi a segunda razão porque a casa sobreviveu. É que, entretanto com as mudanças radicais ocorridas a seguir a 1974, a propriedade privada foi esmagadoramente “nacionalizada” (o termo legal correcto é “confiscada”, pois, que eu saiba, ninguém pagou nada a ninguém) e ali ficou a apodrecer, inabitada, até à genial decisão do governo do dia de a reabilitar e ali instalar o Museu Nacional de Geologia, a partir do espólio de um outro museu (o Museu Freire de Andrade) cujo nome foi prontamente expurgado.

Pessoalmente, acho o imóvel totalmente inadequado para ser um museu, muito menos para um tema como a geologia de Moçambique. Do (muito) pouco que sei da verdadeiramente espectacular geologia de Moçambique, o país devia, porque tem matéria para isso, ter um museu com vinte vezes a dimensão do que deve estar lá dentro da antiga casa onde viveu a simpática D. Margherita (e já que o gás é um recurso geológico, esse novo museu devia ser pago com uma generosa contribuição por parte da ENI, da Total e afins, pois que para eles isso seria troco).

Mais faria sentido ser entregue à Cidade, declarado património protegido e ali operar um pequeno centro cultural com leituras de poesias, exposições de pintura e reuniões do BIM. Ou para um Private do Mozabanco, que acho que ainda não tem um.

Mais: a casa deveria ser restaurada para a sua traça original (ver em cima a fotografia a côres) pois representa um património que caracterizou uma fase do crescimento da Cidade que é a capital de Moçambique e que ajuda a contar e ilustrar esse percurso. Pintar aquilo de branco cor de sanita é perder metade do efeito.

02/08/2020

LOURENÇO MARQUES EM 1876 – DESENHO

Filed under: LM Baixa, Mapa de LM em 1876 — ABM @ 20:51

Desenho que penso que foi feito em 1923. O mapa refere a Vila de Lourenço Marques depois do grande incêndio e a importannte decisão de Mac-Mahon e pouco antes da chegada da “expedição técnica” liderada por Joaquim José Machado, que iniciaria alterações radicais no traçado do que veio a ser a capital da África Oriental Portuguesa. Para todos os efeitos, naquele ano, a Vila era efectivamente uma ilha.

Esta versão tem a curiosidade relativa de indicar que a antiga Estrada de Lidenburgo passava junto e mesmo a Sul do antigo cemitério da urbe e não a Norte.

Lourenço Marques em 1876.

25/07/2020

OLIVEIRA MARTINS SOBRE CABO DELGADO, 1815-1890’S

A posse, ou soberania, portuguesa, do que constitui hoje a parte mais a Norte de Moçambique remonta a um tratado luso-britânico de 1815. Era uma posse em papel apenas, como refere o genial Oliveira Martins em baixo, explicando depois os detalhes do que aconteceu nas décadas que se seguiram, referindo o papel do “Imam” (o soberano muçulmano de Zanzibar), e os posteriores acordos e divergências com o Reino Unido e o império alemão, que se instalou no território a Norte do Rovuma sem grandes cerimónias – incluindo o bocadinho a Sul da foz do rio e que se chamava o Triângulo de Quionga.

Entretanto, a tal soberania colonial portuguesa virtual, foi alugada via a Companhia do Niassa, com sede de operações num lugarejo chamado Porto Amélia. Foi um fiasco. Aquilo só dava despesa e chatice.

No fim, e com o corolário da Conferência de Versalhes em 1919, a fronteira colonial ficou estabilizada onde está hoje.

 

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Veja-se neste mapa a Baía de Tungue, no centro da qual fica situado o lugarejo de Palma.

 

22/07/2020

JOSÉ RODRIGUES JÚNIOR, UM ESBOÇO BIOGRÁFICO

Imensamente grato a Mário Silva, Neto de JRJ, pela ajuda.  Imagem retocada por mim.

 

José Rodrigues Júnior em 1974.

José Rodrigues Júnior (JRJ) pode ser hoje considerado uma uma figura de destaque e uma referência na agora chamada literatura e escrita colonial portuguesa, devotada a Moçambique, a sua vasta obra tornada em parte uma curiosidade quase museológica pelos eventos da História, em parte porque, alas, a partir do dia 25 de Abril de 1974, ele constatou achar-se, mais que no lado errado da História, no lado que perdera estrondosamente. Ainda por cima ele, que tão acarinhado fora pelos augustos e afins do regime derrubado. Hoje, há estudos e teses académicas que debicam e dilaceram, ora deliciosamente, ora sadicamente, as variadas formas em que isso está reflectido no seu pensamento e naquilo que escreveu. O Rui Knopfli refere-se a Rodrigues Júnior displicentemente, assim: “ele é exemplo extremo da pseudoliteratura que pontifica sob os auspícios do establishment”. A querida Fátima Mendonça vociferou qualquer coisa sobre “produtos pseudo-culturais nascidos artificialmente da aberrante situação colonial”. Para não falar do que aconteceu em 1964 entre ele, o então jovem Luis Bernardo Honwana e o Malangatana. Enfim.

Tudo o que, a meu ver, só valoriza a obra de JRJ, pois, no seu agregado, ela ajuda, de forma singular e quase épica, a tentar explicar, ou procurar entender, porque é que aquilo de os portugueses permanecerem alegremente em colónias africanas durou o que durou. Naturalmente, não foi porque meia dúzia de colonos achavam que aquilo lá era porreiro. Foi, em boa parte, porque a elite de Lisboa e os sucessivos regimes portugueses, reforçaram uma visão do mundo em que ter-se colónias cheias de gente que era o que era era normal, e que até era justa, moral, legal e desejável, se necessária, a sua presença – até porque aquilo era “nosso”. A partir daqui, a perspectiva eurocêntrica, da mania da superioridade racial e cultural, o uso dos factos históricos para justificar isto ou aquilo, decorreram alegremente, para grande irritação dos poucos como o Rui Knopfli, um seu contemporâneo mais iluminado, especialmente e precisamente durante as seis décadas em que JRJ pontificou em Moçambique.

Até que ponto JRJ foi aproveitado pelo regime português? assumo que o foi, claro. Para eles, ele era um dos “bons”, era genuíno, de confiança  e falava, à sua maneira, com algum conhecimento de causa (bem, ele vivia em Moçambique). Daí advinham os contrastes. É que, durante a vigência do regime criado por Salazar, quem entre os brancos não fosse, não podia publicar, era perseguido, preso, convidado a estar calado e arrumado num canto. O privilégio, putativamente reservado aos brancos, de viverem em conforto lá na Cidade da Luz no cimo da Colina, tinha, no caso moçambicano, um preço: a cooptação para estarem calados, especialmente perante o enorme elefante na sala – que um dia, mais cedo ou mais tarde, o país teria que ascender à independência e ver a sua soberania exercida por moçambicanos, esmagadoramente negros, estivessem bem ou mal preparados (estavam mal mas isso é irrelevante para a questão).

Mais: na altura, muitos, brancos e também pretos, fundamentalmente, e independentemente de outras questões, pensavam exactamente como RJR: que Portugal sem as suas colónias seria nada, e que as colónias sem Portugal estariam perdidas.

Uma vez queixei-me que, fora das poucas boutiques académicas que se degladiam com estes assuntos mais ou menos esotéricos sobre a espuma da História, existia pouca informação sobre JRJ. Mas esta semana fui agradavelmente surpreendido pelo trabalho disponibilizado na Wikipédia, em boa parte compilado por Mário Silva, um seu neto.

Eis o texto da Wikipédia, aqui ligeiramente editado por mim:

(início)

José Rodrigues Júnior (Lisboa, 26 de Outubro 1902- 16 de Novembro de 1990) foi um escritor e jornalista português que se dedicou, durante as mais que seis décadas em que ali viveu, ao estudo de Moçambique e os seus desafios e problemas, realizando viagens de inquérito económico e social através de todo território moçambicano. Embora possa ser hoje considerada controversa por alguns, a sua obra é caracterizada por um espírito ideologicamente independente, e inclui mais de 50 publicações, entre ensaios, estudos, romances e reportagens.

Descendente de madeirenses, José Rodrigues Júnior nasceu acidentalmente em Lisboa, a 26 de Outubro de 1902. Em 1919, com 17 anos de idade, embarcou para Moçambique, onde iria viver durante os 57 anos seguintes, até abandonar aquela ex-colónia portuguesa após a formalização da sua independência, em 19 de Outubro de 1976.

Foi membro da Secção de Letras da Sociedade de Estudos de Moçambique, presidente do Centro Cultural dos Novos, chefe da redação de O Emancipador, de O Jornal e do Notícias, de Lourenço Marques, e redator-principal e proprietário da revista de arte e crítica Miragem. Colaborou na revista Seara Nova, de que foi correspondente em Nampula, assim como também na revista portuense Civilização, e representou, durante muitos anos, em Lourenço Marques, o Diário de Luanda.

Como delegado do Notícias, em 1953, foi convidado pela KLM para o vôo inaugural da carreira Amesterdão-Joanesburgo, em aviões Super-Constellation, escrevendo então o livro Viagem à Holanda. Da mesma forma, em 1955, ao serviço do mesmo jornal, participou na viagem inaugural dos Super-Constellation, que então passaram a ser usados na carreira da TAP entre Lisboa e Lourenço Marques, de que veio a publicar o volume Aguarelas. No ano de 1960, em representação do jornal Diário, foi a Goa, Damão e Diu, editando o livro Terra Nossa na Costa do Malabar. Em 1962, a convite do governo da República Federal Alemã e também ao serviço do jornal Diário, visitou aquele país, publicando em seguida o livro Caminhos da Alemanha Ocidental. Em 1963, também pelo mesmo jornal, foi a Angola integrado na comitiva de jornalistas que acompanhou o Presidente da República Portuguesa, dando ao público o volume Angola-Terra de Portugal. Da mesma forma o fez, na viagem do Presidente Américo Tomás a Moçambique, de que escreveu o livro Moçambique-Terra de Portugal. Em outubro de 1965, indicado pelo ministro do Ultramar, representou Moçambique no Primeiro Encontro de Escritores Portugueses, realizado na cidade do Porto, editando o volume de crónicas e ensaios Encontros.

Na opinião da critica metropolitana da altura, “os seus estudos sobre Moçambique são, a par de notáveis obras literárias, trabalhos de sociólogo, de colonialista, de moralista e, até, de economista – e muitas das melhores páginas da nossa novelística e da nossa reportagem, destes últimos 30 anos, por exemplo, saíram das suas infatigáveis mãos”.

Da sua obra destacam-se as publicações dos livros, O Homem Negro das Regiões do Sul do Save, Os Indígenas de Moçambique, Do Homem Negro – da Sua Vida e da sua Arte, Para Uma Cultura Africana de Expressão Portuguesa, A Aventura do Mato e a Colonização Dirigida, O Negro de Moçambique, Africa – Terra de Promissão (Prémio Literatura Ultramarina), Meque o Pescador Negro (1º Prémio de Jornalismo), Terra Nossa da Costa de Malabar (Prémio Nacional Afonso de Bragança), Ruy de Noronha – Poeta de Moçambique, os romances/obras de ficção, Sehura, O Branco da Motase, Calanga, Muende (Prémio Nacional Fernão Mendes Pinto), Era o Terceiro dia de Vento Sul (Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa) e Omar Ali.

Rodrigues Júnior foi ainda distinguido com o Prémio Afonso de Bragança, de jornalismo, entregue no Palácio Foz, em Lisboa, em 1962. Pelo conjunto da sua obra literária, foi distinguido com o Grau de Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique e com a Cruz de Cavaleiro da Soberana Ordem dos Cavaleiros de Colombo, pelo seu livro Caminhos da Alemanha Ocidental, em 1963.

A sua obra projectou-se para além de Portugal. Vários autores citam com relevo o seu trabalho como escritor, nas suas publicações, nomeadamente O ensaio Mozambique-Pueblo Nuevo, de Dom Francisco Elias Tejada, catedrático da universidade de Sevilha; o estudo Portuguese Africa, de James Duffy, catedrático da universidade de Harvard, em Cambridge, Massachussetts; o estudo crítico e histórico African Literature in the Portuguese Language, do Prof. Dr. Gerald M. Moser, da Pennsylvania University e o ensaio Estudios de Derecho Bantu, do prof Dr. José F. Lorca Navarrete, da Universidade de Córdova.

Após deixar Moçambique e radicar-se em Portugal, em 1976, com 74 anos de idade, residiu, entre Cabeço de Bustos (Distrito de Aveiro) e Benfica e Queluz de Baixo (Distrito de Lisboa), profundamente desiludido e amargurado com o que considerou um mundo hipócrita que não conseguiu entender, afastando-se dos homens, deixando-se aproximar e aconchegar no Mundo da Fé de Cristo, como católico que passou a acreditar ser em determinada fase da sua vida. Com 88 anos de idade, José Rodrigues Júnior faleceu no dia 16 de novembro de 1990, exilado da terra que tanto sentiu e amou durante a maior parte da sua vida – Moçambique.

Obras Publicadas:

Ensaios
A Paz e a Vida (1937)
Homem, Trabalho e Salário (1937)
Para Uma Cultura Moçambicana (1951)
Afirmação de Presença (1952)
Literatura Colonial (1953)
Considerações (1954)
Terra, Homens e Ideias (1957)
Literatura Ultramarina (O escritor, o Homem e o meio) (1962)
Depoimento (1964)
Poetas de Moçambique (1965)
Encontros (1966)
Mãe Negra (1967)
O Homem Negro das Regiões ao Sul do Save (contribuição para um juízo interpretativo do problema da sua promoção social) (1969)
Os indígenas de Moçambique (1971)
Alguns Poetas de Moçambique (1972)
Do Homem Negro – da sua Vida e da Sua Arte (1974)
Para Uma Cultura Africana de Expressão Portuguesa (1977)
Ruy de Noronha – Poeta de Moçambique (1980)
Estudos de Assuntos Ultramarinos
Caminhos de Ferro de Moçambique (1938)
Sobre indígenas e Missões (1940)
Aventura do Mato e Colonização Dirigida (1945)
O Negro de Moçambique (1955)
Transportes de Moçambique (1956)
Colonização (Contribuição para o seu estudo em Moçambique) (1959)
Alguns Aspectos Culturais do Turismo em Moçambique) (1961)
Reportagens-Inquérito
Problemas de Moçambique (1942)
Diário de Viagem (8.000 kms em Moçambique) (1943)
Actividades e Problemas do Niassa e de Manica e Sofala (1944)
A Voz dos Colonos de Moçambique (1945)
Terra Moçambicana (1945)
À Procura de Outras Terras e Outras Gentes (1947)
África – Terra de Promissão (1949)
Meque – O Pescador Negro (1950)
Por Terras de Monomotapa (1951)
Viagem à Holanda (1954)
Aguarelas (1956)
Negros e Brancos (1958)
Terra Nossa na Costa do Malabar (1961)
Caminhos da Alemanha Ocidental (1963)
Angola Terra de Portugal (1964)
Moçambique Terra de Portugal (1965)
Caminhos do Colonato do Limpopo (1965)
Quando se Pensa nos Que Lutam (1970)
Cabota-Bassa (1973)
A Alma da Nossa Rua (1974)
Romances
Sehura (1944)
O Branco da Motase (1952)
Calanga (1965)
Muende (1960)
Era o Terceiro Dia de Vento Sul (1968)
Omar Ali (1ª Edição em 1975 e 2ª Edição em 1977)
Prémios
Alguns destes trabalhos foram galardoados com diplomas, prémios nacionais e internacionais.

Diploma de Honra do Núcleo de Arte (1945)
Diploma de Honra do Concurso de Literatura Ultramarina (1945)
Prémio de Literatura Ultramarina (1949)
1º Prémio de Jornalismo (1950)
Diploma de Honra do Concurso de Literatura Ultramarina (1951)
Prémio Fernando Mendes Pinto, Nacional, de Literatura Ultramarina (1960)
Prémio Afonso de Bragança, Nacional, de Jornalismo (1962)
Grau de Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, pelo conjunto da sua obra literária (1964)
Cruz de Cavaleiro da Soberana Ordem dos Cavaleiros de Colombo, distinção Internacional, pelo seu livro “Caminhos da Alemanha Ocidental” (1965)
Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa, da classe Letras (1969)

(fim)

20/07/2020

NOTAS DE WILLIAM C. SCULLY SOBRE LOURENÇO MARQUES EM 1872 E 1911

Filed under: William Scully e LM 1911 — ABM @ 23:18

Em baixo, uma interessante e divertidíssima nota de William C. Scully sobre Lourenço Marques (pp. 27-51, intermitentes), incluindo uma comparação que Scully fez das diferenças que encontrou na Cidade nas duas vezes que por lá passou, primeiro em 1872 e depois em 1911.  A sua nota faz parte de um livro de viagens, muito comuns na altura, chamado, em português, O Cume das Águas Brancas (em Afrikaans Witwatersrand), nome da região, então num canto da República Sul-Africana, a cerca de quinhentos quilómetros em linha recta de Lourenço Marques, onde em 1886 se descobriu o que se provou ser o maior filão de ouro jamais descoberto no mundo. O ouro saído da região dinamizou a economia mundial (ainda presa ao padrão-ouro), constituiu o primeiro mega-investimento extractivo em África, trazendo milhões em investimento e lucros para principalmente os britânicos e foi directamente responsável pelo despontar e crescimento da então Lourenço Marques e ainda do início do fenómeno dos magaíças, com inegável impacto político, social e cultural no Sul de Moçambique.

 

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19/07/2020

125 ANOS DE CAMINHOS DE FERRO EM MOÇAMBIQUE

Imagem retocada.

Assinalo o 125º aniversário da viagem inaugural, por via férrea, entre Lourenço Marques e Pretória, ocorrida na segunda feira, dia 8 de Julho de 1895, considerado o início do que veio a ser uma organização quase dominante em Moçambique. Na altura Lourenço Marques-Pretória (e Joanesburgo) era considerada a ligação ferroviária mais estratégica e valiosa no mundo e uma verdadeira dor de cabeça para a diplomacia britânica, empenhada há décadas a tentar isolar o Transvaal de um acesso directo aos oceanos, o que incluiu de tudo um pouco, nomeadamente a reiterada tentativa de (literalmente) comprar Lourenço Marques e ficar com o Sul do que é hoje Moçambique. Se Moçambique tem hoje um Sul, deve-o em boa parte às circunstâncias de que resultou a atribulada criação deste troço. Contra tudo e todos, se em tanta coisa mais cederam, os portugueses de então simplesmente nunca cederam neste aspecto.

Seria no entanto parcial, e porventura indecente, não mencionar que, por volta da mesma altura, por imposição britânica e de Cecil Rhodes (que essencialmente eram quase a mesma coisa) se construiu uma linha de caminho de ferro entre a Beira e a Rodésia, mais curta mas se calhar mais complicada, agravado pelo factor “o barato sai caro”, pois primeiro fizeram uma linha de bitola pequena e imediatamente após a conclusão tiveram que alargar a bitola e assim refazer tudo.

 

A locomotiva dos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques (CFLM) que transportou o Presidente Paulus Johannes Kruger (do Transvaal, nome formal República Sul-Africana) na viagem oficial de inauguração da linha ferroviária entre Lourenço Marques e Pretória.

14/05/2020

O SULTÃO DE ZANZIBAR E A LINHA ISLÂMICA AO NORTE DE MOÇAMBIQUE

Imagens retocadas. O original da primeira pertence aos arquivos colonais da Alemanha.

Quem quiser entender melhor a história de Moçambique deve primeiro estudar a presença árabe islâmica na costa oriental africana e especialmente a história da Ilha de Zanzibar, nomeadamente antes e depois da tomada daquela ilha aos portugueses, cerca do ano de 1700, e a constituição de uma espécie de “estado islâmico” sustentado no comércio de (pois é) escravos e marfim. Ver em baixo um resumo muito resumido da Wikipédia, delapidado por mim.

Nos tempos que correm hoje, em que todos os analistas e académicos especializados nesta já cinquentenária “soberania frelimiana”, se atropelam à procura de conjuras e de justificativos para a chamada “insurgência” na agora “província rebelde” de Cabo Delgado, é sempre bom recapitular.

O palácio do sultão de Zanzibar, na Ilha de Zanzibar, segunda metade do Século XIX.

 

A Ilha de Zanzibar, epicentro de um estado árabe islâmico que chegava quase até à costa ocidental de África entre os Séculos XVIII e XIX e que fazia o colonialismo europeu parecer um picnic.

O Resumo da História de Zanzibar na Wikipédia (pesadamente editado por mim)

Estima-se que nas Ilhas índicas de Zanzibar e Pemba se fixaram as primeiras povoações árabes muçulmanas na costa da África oriental, há cerca de mil anos. Em Kizimkazi, na ilha de Zanzibar, existe uma inscrição numa parede que afirma “o Cheque al-Sayis Abi Amran” ordenou a construção duma mesquita naquele lugar, “no primeiro dia do mês de Dhul-Qada do ano 500” (da Hégira), o que no calendário Juliano significa o dia 27 de Julho de 1107.

Os árabes chamavam à ilha “Zanj-Bar”, que significa, na sua língua, “costa dos Zanj” ou “dos negros”.

Por essa altura, Zanzibar importava cerâmica do golfo pérsico e rapidamente se tornaria numa base para mercadores árabes, onde uma das mercadorias principais era o tráfico de escravos. O primeiro europeu a visitar a ilha foi o navegador português Vasco da Gama, aquando da sua épica primeira viagem até à costa indiana em 1499, acabando os portugueses por (essencialmente ao tiro e à espadeirada) estabelecer ali um entreposto comercial e uma missão católica, dominando Zanzibar e boa parte da costa oriental africana até a Arábia, durante os dois séculos seguintes.

Por volta de 1698, esse domínio degradara-se. Sinal desse enfraquecimento, o sultanato de Omã conquistou Zanzibar aos portugueses (essencialmente, ao tiro e à espadeirada) que de seguida tornou-se no principal entreposto comercial do oceano Índico Ocidental, vendendo escravos (capturados em gigantescos raids na contracosta) e marfim para o mundo árabe, a Índia e também para o mercados nas rotas do Oceano Atlântico.

É por esta altura que se começa a formar e consolidar uma nova linha invisível de demarcação entre o mundo islamizado e afro-islamizado e o mundo controlado (muito tenuamente) pelas autoridades portuguesas. Essa linha “de soberania” situava-se mais ou menos em Angoche, a Sul da Ilha de Moçambique – ilha crucial para a rota da Índia e que, justamente, por ser uma ilha fortificada, foi sempre impregnável, apesar de se situar, neste contexto, em terreno hostil.

A Norte dessa linha, os portugueses iriam ter sempre que lidar com os árabes de Oman, com os nativos muçulmanos rebeldes – e iriam ter sempre problemas.

Em 1841, o sultão Said Ibn (1805 – 1856) mudou a sua corte de Omã para Zanzibar.

Foi naquela altura que o muito cristão e muito britânico e celebrado Dr. David Livingstone andou por aquelas paragens, sendo que, em consequência do que viu, deixou relatos assustadores sobre a escravatura praticada pelos súbditos islâmicos do Sultão de Zanzibar, que, uns anos depois, dividiu os domínios entre Oman e Zanzíbar.

Em 1873, John Kirk, cônsul britânico no sultanato durante mais que vinte anos (entre 1866 e 1887), persuadiu finalmente o sultão de então, Sayyid Sir Barghash bin Said Al-Busaid, a pôr fim ao tráfico de escravos – bem, mais ou menos. Este era um objectivo da política externa britânica desde há décadas. Este filme iria durar pelo menos durante mais vinte anos.

Barghash bin Said Al-Busaid.

Entretanto, na sequência da Conferência de Berlim, os alemães, agora unidos no seu Primeiro Reich, decidiram (pura e simplesmente) ficar com o que se tornou no Tanganica, que constituía a maior parte do Sultanato no território continental africano – em frente a Zanzíbar.

A ponta Sul desse território confinava com o que os portugueses da altura diziam aos quatro ventos que era seu – o Rio Rovuma.

Na nova colónia alemã, tal como acontecia com os vizinhos portugueses, fez-se pouco ou nada.

 

Os rapazes de Mouzinho posam para a fotografia durante a chamada Campanha dos Namarrais, 1897. Aquilo correu mal e a tropa portuguesa teve que voltar lá umas vezes para “pacificar”.

Lá de cima, vieram dois salvos de aviso: no Planalto, a tribo dos Macondes, que eram tudo menos “moçambicanos”, reiteraram que não reconheciam e não se submeteriam à Pax Lusitana. Durante a Grande Guerra, prestarão assistência aos alemães; e mais ao lado, no que viria a ser o Território do Niassa, um outrora sultão muçulmano, de nome Ce Bwonomali Mkandu (aka Mataca III) captura, manda cortar o pescoço a um previamente quase desconhecido Tenente Eduardo Valadim, e ostensivamente avisa os portugueses que desapareçam dali para fora. Mataca III e os seus cerca de 45 mil súbditos pagarão caro pela brincadeira: em 1912 foram todos exilados a tiro para a África Oriental Alemã, a sua capital foi arrasada e no seu lugar edificado um forte, chamado Valadim, localidade que ainda existe com a mesma toponímia, para variar (hoje está no meio do Bloco de Caça D-2 da Província do Niassa).

E houve ainda a Guerra dos Namarrais, que, essencialmente por falta de recursos e erros de táctica de logística, se prolongou durante quase quinze anos, mas que tinha subjacente a mesma lógica.

O Tanganica foi alemão até meados da I Guerra Mundial, quando passou para controlo britânico.

Logo a Sul do Rio Rovuma, apesar de perdas consideráveis e largamente fúteis (e portanto trágicas) os portugueses aguentaram o embate e permaneceram. Em 1919 receberam o Triângulo de Quionga como saguate.

E nos 80 anos que se seguiram, todos sem excepção, incluindo os Libertadores, aparte o slogan fácil e despido de qualquer significado real de “Moçambique do Rovuma ao Maputo”, se esqueceram daquilo, pois o verdadeiro negócio, o dinheiro e o poder estavam em Lourenço Marques, depois Maputo.

Até ao dia em que se descobriram, há meia dúzia de anos, mesmo em frente ao Triângulo de Quionga, as enormes jazidas de gás.

Em frente ao Tanganica, entre 1890 e 1963, com os seus sultões, Zanzibar foi um protectorado britânico, excepto durante os quase quatro anos entre Novembro de 1914 e Setembro de 1918, quando esteve ocupada pelos otomanos, aliados aos alemães e adversários dos Aliados.

Zanzibar obteve a independência dos britânicos em 1963 e tornou-se numa monarquia constitucional, mas o sultão foi deposto logo de seguida numa revolução e o país uniu-se ao vizinho Tanganica em 1964 para, sob a égide do Professor Julius Nyerere, formar a actual Tanzânia. No entanto, Zanzibar ainda hoje mantém alguma autonomia: elege o seu próprio presidente, que funciona como chefe do governo da porção insular e uma assembleia denominada “Conselho Revolucionário”.

A Sul, Moçambique seguiu o seu caminho, de colónia para estado soberano. E , passados todos estes anos, aparte o pacto entre alguns Macondes e a elite sulista da Frelimo, para forçar a saída dos portugueses nos anos 60, a tal linha imaginária rebelde e islâmica de que falei em cima ainda está lá.

Intacta.

Que os locais agoram usem armas ligeiras, granadas, bazookas e mais o que conseguem arranjar por lá, e slogans de guerra islâmicos importados de outros teatros de guerra, e combatam o estado moçambicano em vez do português, é apenas sinal dos tempos.

Cabe aos moçambicanos de hoje decidirem se de facto aquilo e aquela gente lá em cima afinal faz ou não parte de Moçambique e tomarem as medidas decorrentes. Que poderão ter que passar por mais uma guerra civil, mais senão não menos dolorosa que a anterior.

Ou por um esforço de integração daquela região esquecida no todo da nação moçambicana, o que se vislumbra difícil dado Moçambique ser hoje perto de um estado falhado. E laico, o que no mínimo dificulta acomodar formas de islamismo digamos que mais fundamentalistas.

No fim, seja quem for que ganhe aquilo, ficará com um novo país. Ou dois.

E com o gás todo.

13/05/2020

DISCURSO DE ALFREDO FREIRE DE ANDRADE SOBRE A COLONIZAÇÃO DE LOURENÇO MARQUES, 1897

Freire de Andrade.

Discurso proferido no dia 13 de Março de 1897 por Alfredo Freire de Andrade no Ateneu Comercial do Porto (na qualidade de Sócio Honorário) sob o tema “A Colonisação de Lourenço Marques”. Neste texto, que foi posteriormente passado para um folheto e publicado pelo Ateneu Comercial do Porto, é mantida a grafia da época. O subtítulos são meus.

Alfredo Augusto Freire de Andrade (1859-1929) nasceu em 19 de Dezembro de 1859, na Figueira da Foz. Frequentou, a partir de de 1874, a Escola Politécnica e a Escola do Exército. Cursou ainda a Escola de Minas de Paris, que concluiu, em 1888. Oficial do Exército na arma de Engenharia, integrou o pequeno grupo de oficiais que liderou as chamadas Campanhas de Pacificação em 1895-1897, na sequência dos ataques a Lourenço Marques no final de 1894. Foi governador interino do Distrito de Lourenço Marques, em 1892 e novamente em 1895. Foi Governador Geral de Moçambique entre 1906 e o derrube da Monarquia em Outubro de 1910. Adepto franquista, em seguida aderiu ao Partido Republicano Português  e, entre 1911 e 1913, foi Director Geral das Colónias, após o que foi Ministro dos Negócios Estrangeiros, entre Março e Dezembro de 1914. Faleceu em Lisboa, a 30 de Julho de 1929.

Quando fez o discurso, Freire de Andrade, então com 37 anos de idade, tinha regressado há relativamente pouco de Lourenço Marques, onde desepenhara cargos de relevo.

(Início)

A Colonisação de Lourenço Marques

Excelentíssimo Senhor Presidente, Meus Senhores,

É consultando mais o desejo de corresponder ao honroso convite da illustrada direcção d’este Atheneu do que as minhas forças e competencia, que eu venho hoje dizer aqui algumas palavras ácerca de Lourenço Marques. Outros o fariam com mais auctoridade e sobretudo com mais eloquencia, pois que, pela minha parte, só a boa vontade e bons desejos poderão ser titulos á benevolência de tão distincta assembleia para com as deficiências necessárias da minha exposição.

Pouco direi ácerca da situação, topographia e historia de Lourenço Marques, hoje bem conhecidas, graças aos excellentes trabalhos do visconde de Paiva Manso e do meu camarada Eduardo de Noronha.

De todas as nossas colonias, é Lourenço Marques a unica que apresenta os caracteres de um centro commercial em principio de um grande desenvolvimento, só comparavel ao das cidades da Africa do sul. A affluencia de navios ao porto, a actividade que se vê por toda a parte, as mercadorias amontoando-se nos caes, o movimento e a vida que se revelam ali, são um estimulo grandioso e magnifico que nos deve levar a acompanhar sem demora a corrente de trabalho e de progresso rapido da Africa do sul, sob pena de sermos esbulhados da mais bella joia do nosso dominio colonial.

A cidade de Lourenço Marques acha-se naturalmente dividida em duas partes: a velha ou baixa situada no local onde se estabeleceram as primeiras feitorias, e a nova ou alta, que, projectada sobre a vertente que se desdobra da Ponta Vermelha ao Mahé, se vai a pouco e pouco erguendo, por entre cerrados arvoredos, mostrando-se sob risonho aspecto a quem vem procurar o porto. Entre as duas encontra-se uma depressão larga e extensa, onde se reunem as aguas das chuvas e por vezes as do mar, produzindo um vasto pantano, causa principal da insalubridade da povoação.

Pelo Senhor Conselheiro António Ennes foi mandada ultimamente construir uma estrada de 3,5 kilometros ligando a cidade com a Ponta Vermelha, local bastante salubre, com 45 metros de altitude sobre o nivel do mar d’onde se ergue abruptamente e que está destinado a um largo desenvolvimento, pois que permittirá ao habitante, cansado do labutar diario na cidade commercial propriamente dita, o ir pela tarde respirar lá em cima o ar mais puro do oceano.

Pouco se tem emprehendido até hoje para o saneamento do pantano, aterrado apenas n’uma pequena área e isso mesmo pelas exigencias crescentes do alargamento da parte velha da cidade, que, junto á margem da bahia, será sempre a de maior valor.

Muitas tentativas se têm feito já e as camaras e commissões municipaes têm diligenciado resolver o problema, mas sem resultado, e isto por variadas razões. De entre os projectos estudados, um, do engenheiro Almeida Soeiro, aproveitava para edificações a área aterrada e drenada convenientemente, e outro utilisava o pantano para ahi estabelecer uma especie de porto interior, construindo um canal navegavel na base da vertente em que assenta a cidade nova. Qualquer dos dois projectos deveria ser adoptado sem demora e os trabalhos principiarem desde já, por isso que a extincção do pantano, além de uma necessidade impreterivel, daria tambem margem para uma operação commercial muito rendosa, em que os capitaes empregados obteriam um lucro remunerador. Basta considerar o preço por que poderiam ser vendidos os terrenos utilisaveis depois de concluidos os trabalhos, para avaliar das vantagens da operação; facilmente se obteriam 400:000 metros quadrados de terrenos para aforar ou vender, que teriam decerto comprador por um preço superior a uma libra o metro; o custo do aterro, em qualquer dos casos, não devia exceder metade d’esta quantia para igual superficie.

Adoptando-se o projecto da construcção de um porto interior, o preço das obras augmentaria muito, mas o valor dos terrenos ao longo do canal, iria além do que poderiamos prevêr, tanto mais que, sendo o porto um pouco desabrigado por occasião dos temporaes de sueste, o porto interior seria de grande recurso e portanto muito appetecidos os terrenos que o orlassem.

O interior do Districto de Lourenço Marques divide-se em tres zonas principaes. A dos Libombos, com algumas raras alturas de 600 metros, e formada pela vertente oriental dos montes do mesmo nome, que desce rapidamente até 200 metros de altitude, com arborisação basta e copada em alguns pontos, sobretudo nas margens dos rios, e constituida por porphyros feldspathicos e por uma extensa facha de conglomerados, parallela áquelles e correndo norte sul. A segunda zona é a das areias que, partindo dos conglomerados, vem descendo até á costa maritima, onde os depositos terciarios que a formam, se reunem aos do apparelho littoral; n’esta zona, geralmente secca e pouco povoada, o arvoredo ou é raro ou se concentra em mattas cerradas, de especies ora rachiticas e enfezadas, ora extremamente fortes e robustas, mas cujos troncos torcidos e recurvados parecem significar as difficuldades que oppõem ao seu crescimento aquelles terrenos tão aridos. Finalmente, a terceira zona ou zona argillosa é a constituida pelos depositos que os rios espalham largamente na occasião das cheias e ainda pelas argillas que arrastadas pelas chuvas, se vão depôr nas baixas da zona arenosa, constituindo assim os fundos impermeaveis de outras tantas lagoas, por vezes de muitos kilometros de extensão, que em grande numero se encontram principalmente para o sul do rio Incomati. A zona argillosa é a zona fertil, mas é tambem a zona pantanosa e insalubre por excellencia; o arvoredo é sempre forte e robusto, e as especies numerosas, dando por vezes madeiras de excellente qualidade, se bem que pouco aproveitaveis industrialmente.

Recortando todos estes terrenos, vêem-se rios importantes, taes como o Maputo, o Incomati e o Limpopo, que, trazendo as suas aguas do Transvaal, se apresentam caudalosos, dando navegação, senão facil, pelo menos possivel: o Incomati em quasi todo o seu curso no nosso territorio e o Limpopo até ao rio dos Elephantes, e talvez ainda mais acima. Se, porém, estes rios são faceis meios de transporte, são tambem elles, que, alargando-se sobre milhares de kilometros quadrados, por occasião das chuvas, deixam quando voltam aos seus leitos normaes, innumeros charcos e brejos, que contribuem para a insalubridade das regiões que atravessam.

Tendo assim resumido de um modo geral o que para o nosso ponto de vista especial mais importa conhecer das condições naturaes do districto, vejamos qual o systema de colonisação que se deverá adoptar em Lourenço Marques. Facilmente se comprehende que da escolha do processo a seguir depende o exito da colonisação, e que não poucos desastres têm tido como origem o querer-se implantar uma colonia em desharmonia com as condições dos territorios que têm de a receber.

Leroy Beaulieu classifica as colonias em tres typos principaes:

a) Colonias de população ou agricolas.—São aquellas em que, como na Australia e no Brazil, o europeu vai encontrar um clima pouco differente do que tem no seu paiz e póde constituir familia, formando nucleos de população, que, ajudados pela affluencia constante de novos colonos, terminam por povoar completamente a colonia. Se a metropole não póde fornecer o contingente necessario em cada anno, é natural que outros paizes d’isso se encarreguem, chegando n’esse caso a mudar por completo a feição da colonia, que se desnacionalisa; é o que succedeu com a Nova Amsterdam e a Nova Suecia, e poderá talvez dar-se um dia n’uma parte do Brazil.

b) Colonias commerciaes.—Chamam-se assim as que pela sua situação sobre grandes caminhos de commercio, dispondo de um porto de facil accesso, d’elles se utilisam para servirem como entrepostos ou emporios n’uma nova região e introduzir n’ella, principalmente, os productos da metropole. Estas colonias, taes como Hong-Kong, Singapura, etc., são necessariamente cosmopolitas e se não necessitam uma grande colonisação de homens, precisam em compensação de muita industria, muito tino e muita energia, e por consequencia de uma emigração escolhida, acompanhada de um grande affluxo de capitaes.

c) Finalmente, as colonias de exploração são as que, pela sua situação e clima especiaes, podem fornecer generos de largo consumo e preços remuneradores, que ali se produzam com facilidade e a cuja cultura em especial se destinem. Reclamam estas colonias muitos capitaes, e um regimen especial de trabalho, por isso que, não podendo ahi o branco trabalhar a terra, terá necessariamente de recorrer ao trabalho indigena ou de raças adaptaveis ao clima. Taes são, entre outras, as Antilhas, as Filippinas e entre nós a colonia tão largamente desenvolvida de S. Thomé, tão genuinamente portugueza apesar de serem relativamente poucos os colonos saídos da metropole.

O Distrito de Lourenço Marques

Dependendo o futuro de uma colonia do systema adoptado na sua colonisação, vejamos em qual d’estes typos se deve filiar Lourenço Marques.

Poderá ser uma colonia de população? Esta idéa, que tem tido larga corrente entre nós, a ponto de se querer fazer derivar para a provincia de Moçambique, e em especial para Lourenço Marques, uma parte da emigração que hoje se dirige ainda para o Brazil, deve, creio eu, ser completamente posta de parte. Centos de colonos têm desembarcado em Lourenço Marques, mais de mil nos ultimos annos, e quasi sem excepção, o seu destino invariavel tem sido o regressarem ao reino, mais doentes e pobres do que foram, com avultado dispendio do governo, ou a morte n’um periodo relativamente curto. Diz-se, e é certo, que a colonia não está preparada para os receber, mas não é menos certo que se lhes houvessem sido fornecidos terrenos para cultivar, alfaias agricolas, etc., o seu destino teria sido o mesmo.

Clima, Tuberculose e Paludismo

E senão vejamos. O clima de Lourenço Marques, se não é absolutamente mau, podendo-se facilmente ali viver com uma alimentação regular e uns certos cuidados que só um relativo cabedal e instrucção podem dar, não é tambem bom.

A temperatura média, quer de verão quer de inverno, não é exaggerada, mas as differenças de temperatura, muito rapidas por vezes e que chegam a attingir 18°c. no mesmo dia, são extremamente prejudiciaes, sobretudo nas doenças dos orgãos respiratorios.

Na cidade, depois da época das chuvas, de fevereiro a maio, as emanações trazidas pelos ventos reinantes, que durante o anno passam de Norte a Oeste rondando por Leste, são extremamente perniciosas, por isso que provêm dos muitos pantanos que rodeiam a povoação e ainda dos que orlam as margens da Catembe. A falta de esgotos, a accumulação de individuos de raças inferiores e o pantano do Infuléne, são ainda causas locaes, ás quaes se póde dar remedio, é certo, mas que ainda hoje existem, se bem que attenuadas.

Para aggravar este estado de coisas, as chuvas são por vezes torrenciaes, a ponto de em dez dias, como succedeu em 1895, se precipitar sobre o sólo uma camada de 40 centimetros de agua, o que concorre para a formação de novos charcos em pontos onde até então não tinham existido.

Se da cidade passamos ao interior do districto, as circumstancias, sobretudo nos terrenos mais ferteis, aggravam-se, e a quadra que se segue á época das chuvas é em geral perigosa, do que se faz facilmente idéa pela affluencia aos hospitaes.

Em 1893, uma estatistica da população de Lourenço Marques, certamente inferior á verdade, dava uma totalidade de 1:017 habitantes, europeus e asiaticos; a mortalidade no primeiro semestre d’esse anno foi de oitenta e oito individuos, entre europeus e asiaticos: da totalidade dos obitos 40 por cento proximamente foram devidos a febres de mau caracter e 8 por cento a tuberculose.

Dos soldados que fizeram parte da expedição de 1895, raros foram os que não soffreram das febres, e se os officiaes não foram tão castigados por ellas, decerto se deve esse facto a serem em geral mais velhos do que aquelles, comprovando-se assim mais uma vez a conveniencia de não seguirem para as colonias individuos de idade inferior a vinte e cinco annos.

Estes exemplos bastam para comprovar que, se em Lourenço Marques se póde viver em melhores condições talvez do que em muitos pontos insalubres da Europa, nem por isso deixam, quer a cidade, quer o districto, de constituir uma região pouco salubre, onde a vida deve ser rodeada de certos cuidados, que não podem conseguir colonos pobres, sem recursos, a quem as regras da hygiene são desconhecidas, e que algumas vezes já partem da metropole anemiados pela miseria ou pelo vicio.

Estes, com poucas excepções, nada têm feito em Lourenço Marques, emquanto que é frequente vêr individuos permanecer dez, quinze e mais annos na cidade, sem grave damno, porque souberam e puderam manter as necessarias cautelas; tanto mais que as condições hygienicas da cidade vão progressiva, se bem que lentamente, melhorando.

Para constituir uma colonia de população é necessario poder crear familia; ora em Lourenço Marques as creanças não medram, e só por excepção se poderão vêr ali filhos de colonos europeus, nascidos e creados no districto. Não os conheço e as poucas creanças que se encontram, essas vivem custosa e difficilmente; é por isso que não posso sem pezar, vêl-as partir para Lourenço Marques inconscientemente levadas pelas familias, sem que os paes imaginem qual o fim quasi inevitavel que as espera.

É a agricultura o principal recurso das colonias de população e isso mesmo se tem supposto em varios projectos de colonisação propostos para Lourenço Marques; é, porém, um facto averiguado que o branco, o europeu, não póde trabalhar ali a terra ou cultival-a elle proprio, sem grave risco de vida; bem o demonstrou a grande mortalidade que houve durante a construcção do caminho de ferro do Transvaal e ainda ultimamente alguns factos passados em 1895 vieram corroborar a opinião que já tinha a este respeito. Em Magude, n’um local secco, a 30 metros acima do rio e em terrenos de rocha e areia, foi necessario, por falta de cafres, que a guarnição do posto que ali se estabeleceu, removesse a areia para construir trincheiras, e este facto deu causa a uma excessiva mortalidade; em Xinavane, n’um terreno pantanoso, coberto pelas aguas na occasião das cheias, os soldados foram prohibidos de cavar, e não houve senão um obito e esse mesmo de uma praça vinda de Magude. Em Taninga, onde se fizeram importantes remoções de terras, as febres atacaram com tal força a guarnição, que foi necessario retiral-a. Não póde, pois, o branco trabalhar a terra e luctará com tanto maiores difficuldades, quanto mais se aproximar da zona baixa e argillosa do districto, onde justamente se encontram os terrenos mais ferteis e mais povoados pelos cafres.

Não se póde, pois, em Lourenço Marques, constituir familia, cultivar a terra, e difficilmente se resiste por muitos annos, sem vir refrescar á Europa, á influencia deleteria do clima. Como se poderá pensar, em taes condições, em fazer d’aquelle districto uma colonia de população?

E, com effeito, todas as tentativas n’esse sentido têm dado mau resultado.

Dizem uns que este facto é devido a serem os colonos lançados em Lourenço Marques, sem que o districto esteja preparado para os receber. Mas póde o governo dar-lhes os capitaes, a immunidade ao clima e as qualidades de que o colono careceria de ser dotado em Lourenço Marques? Decerto não.

Negócio dos Terrenos

Dizem outros que o mallogro se deve attribuir á carestia dos terrenos do Estado, que se manteve durante alguns annos. Mas de muitos mil hectares de terrenos concedidos a particulares, poucos ou nenhuns foram aproveitados, e quem d’elles tirou melhor proveito foram os que, sem maiores cuidados, pediram e obtiveram concessões, esperando em seguida que o progressivo augmento da cidade os valorisasse, para auferirem grossos lucros, como succedeu com a Polana, que, concedida por centos de mil reis a um inglez, foi vendida por centos de contos, e ainda com a Catembe, onde até á linha de costa, contra expressa determinação da lei, se fizeram concessões a individuos que com isso lucraram mais tarde muitos milhares de libras sem o menor trabalho. Tal foi durante muito tempo o resultado das concessões baratas, sem se cultivar um só dos milhares de hectares concedidos.

A meu vêr nenhuma d’estas razões colhe. Lourenço Marques não tem progredido como colonia de população, porque não está em condições de o poder ser.

A Baía e a África do Sul

Se passamos a considerar Lourenço Marques debaixo do ponto de vista commercial, as negras côres sob que acabamos de descrevel-o como colonia agricola, mudam por completo, para nos mostrarem aquella região como destinada a ser o emporio da Africa do Sul, a colonia commercial por excellencia, cuja importancia e valor se nos torna bem manifesta pelas multiplas cobiças que, felizmente para o nosso dominio, tem despertado.

E digo felizmente, porque a ellas se deve o conservarmos ainda nas nossas mãos aquelle esplendido porto, unico na costa oriental, em toda a extensão que vai desde o Cabo até Moçambique. A sua posse, porém, impõe-nos obrigações que o rapido progresso da civilisação do sul africano exige e ás quaes temos de satisfazer, sob pena de sermos em breve eliminados por não correspondermos á alta missão que nos incumbe.

Situada sobre o caminho commercial que conduz ao interior do Transvaal, na sua região mais rica, servida com facilidade pelas vias fluviaes de que dispõe o interior do districto e parte do territorio inglez do centro d’Africa, Lourenço Marques vai-se desenvolvendo de modo tal, que de um anno para o outro se transforma e amplia. As vantagens do porto impõem-se de tal fórma, que as mercadorias affluem em quantidade, todos os dias crescente, não obstante o pouco cuidado com que temos olhado para os seus melhoramentos materiaes, e tambem a guerra de toda a especie, que lhe tem sido movida pelos seus concorrentes naturaes.

Com effeito, as colonias sul africanas não podem vêr com bons olhos o desenvolvimento de Lourenço Marques e por isso vem de longe as difficuldades de toda a ordem que lhe têm levantado. Ha annos, jornaes, livros e publicações de toda a especie, declaravam ao mundo que a insalubridade da povoação era tal, que passar ali, equivalia a uma condemnação á morte; mas a população ia crescendo, em condições mais favoraveis do que em muitas colonias inglezas. Mais tarde quizeram inutilisar o nosso caminho de ferro, graças a uma completa liberdade de tarifas, que menos reflectidamente lhes tinhamos concedido; pudémos evitar esse mal, mas á custa da indemnisação que nos imporá o tribunal de Berna. Mais tarde ainda, procuraram fazer-nos passar por incapazes de manter a soberania portugueza no districto, levantando-nos toda a casta de difficuldades por intermedio dos regulos indigenas.

E muitos outros factos poderia citar, em que a má fé terminou sempre por se manifestar, de modo que hoje a supremacia de Lourenço Marques, como o primeiro porto da Africa oriental do sul está firmemente estabelecida.

A população de Lourenço Marques, que em 1864 era de 83 individuos, elevou-se em 1893 a 1:017 e hoje não é inferior a 4:000, homens e mulheres, europeus ou indianos.

O rendimento da alfandega, que em 1868 era de 3 contos de reis e em 1880 de 47 contos, foi em 1896 de 600 contos.

O numero de navios entrados no porto, que ha vinte annos era insignificante, foi durante 1892 de 228, em 1893 de 252, em 1894 de 265, em 1895 de 363 e em 1896 de 433, dos quaes 287 inglezes. No mez de janeiro ultimo ancoraram no porto 52 navios.

Pela sua parte o caminho de ferro attingiu o limite de trafego que o seu material comporta, e desde que o porto se encontre em boas condições, a affluencia de mercadorias obrigará decerto a dobrar a linha. Actualmente a média do movimento semanal é de 3 a 5 mil toneladas.

Mas nada dá idéa mais perfeita da avidez com que os estrangeiros procuram Lourenço Marques do que o extraordinario augmento de valor dos terrenos e das edificações, que tem decuplicado e por vezes centuplicado.

Apparecem ali representantes de syndicatos que compram tudo que lhes queiram vender quer sejam terrenos quer predios e ainda quarteirões inteiros, de preferencia na parte velha da cidade, havendo exemplos de se vender o metro quadrado de terreno por 10 libras, isto é, pelo dobro do preço maximo dos terrenos na Avenida da Liberdade, em Lisboa.

Todo este movimento e ainda as transacções que cada dia se fazem na colonia, representam muitos centos de milhares de libras sterlinas, mas o augmento da riqueza publica em muito pouco aproveita á metropole, que não só d’ali não tira proveitos directamente, o que aliás não era de esperar, mas ainda mesmo poucos aufere do commercio e da industria que os seus nacionaes ali exercem. Pelo contrario, não creio exaggerado suppôr que nos ultimos vinte annos, Portugal tem mandado para ali mais de 10:000 contos de reis.

Para conseguir tirar de Lourenço Marques todas as vantagens que nos é licito esperar, muito resta ainda fazer, não só ao governo mas principalmente á iniciativa particular.

Ao governo compete, é certo, tratar dos melhoramentos do porto, para os quaes se succedem uns aos outros os projectos e os estudos, adoptar providencias para melhorar a hygiene da cidade, escolher funccionarios idoneos para a administração do districto, mais importante decerto do que a da provincia inteira, e conserval-os não os substituindo de seis em seis mezes; e, finalmente, preferir sempre os nacionaes para quaesquer concessões que haja de fazer.

Este ultimo ponto, porém, já implica muito com a iniciativa particular, pois o governo tem, naturalmente, para melhorar as condições da cidade e seu porto, de entregar a execução dos melhoramentos necessarios a emprezas que d’elles se encarreguem mediante certas concessões.

Seria, pois, indispensavel que os capitaes portuguezes se não retrahissem tanto e confiassem mais nos lucros extraordinarios, por vezes fabulosos, que podem auferir em Lourenço Marques.

Infelizmente, porém, a iniciativa e os capitaes portuguezes pouco affluem á colonia, e se se encontram algumas poucas firmas portuguezas, como Cardoso, Fornazini, Baptista Carvalho, Nogueira Pinto, etc., que ali luctam pela vida, mantendo o commercio portuguez e a sua feição especial, em compensação abundam os estrangeiros, Mac Intosh, Gubler, Auerbach, Donaldson, Hoffman, Idulgy, e tantas outras, que principalmente açambarcam o commercio, possuem as melhores propriedades e dominam na praça.

Não vemos frequentemente homens energicos, de iniciativa, representando ou possuindo capitaes, partir para Lourenço Marques, a tentar novas industrias e fundar novos centros de nacionalisação, com o que muito ganham os estrangeiros, de modo que dos milhares de libras que representam o commercio da cidade, só uma pequena parte aproveita á metropole; o resto ou é absorvido pelo commercio estrangeiro europeu ou vai para a India.

Os Indianos

O commercio indiano tem um feitio especial; em lojas, quasi sempre de mesquinha apparencia, vêem-se alguns individuos, embrulhados em algodão branco, fallando a lingua cafreal, o portuguez e o inglez, vendendo em geral de tudo, desde a lata de conserva até aos productos cafreaes. D’estas lojas saem agentes do mesmo jaez que, espalhando-se pelo interior, vivendo como os indigenas cujas manias lisongeiam, e protegidos pelos regulos a quem fazem presentes, monopolisam por completo o commercio do interior. D’esta fórma as lojas dos indios e mouros são os centros d’onde irradiam centos de braços, que vão recolher no interior os milhares de libras que os cafres trazem annualmente do Transvaal e Natal, libras que são immediatamente mandadas para fóra do districto.

Estes homens, sustentando-se de arroz e pouco mais, vestindo-se com uma tira de algodão, tudo oriundo da India, nada consomem da metropole e fazem uma concorrencia ao europeu, que precisa vestir-se, alimentar-se e cuidar de si. Recolhido o seu peculio, voltam para a India, onde o vão gozar depois de purificados, purificação essa que os lava do contacto com infieis e tambem de todas as traficancias que tenham podido commetter.

Muitos d’estes indios são inglezes, o que mais aggrava a situação, pois que se encontram sempre apoiados pelo seu governo, para pretendidas indemnisações a que se podem julgar com direito por perdas soffridas no interior. E não se imagine que, ainda quando portuguezes, auxiliem o nosso dominio; quando durante a guerra de 1895, as tropas chegavam aos locaes onde os indios estavam estabelecidos, estes fugiam… com os cafres: um indio na Manhissa aconselhava os pretos a não receberem a prata portugueza, «que não era boa», e com effeito vendia carissimo quando elles lhe pagavam n’essa moeda.

É certo que algumas vezes prestaram, por interesse proprio, serviços ao governo, mas esse facto deu-se principalmente quando em Lourenço Marques quasi não havia colonos portuguezes. Hoje são um obstaculo, porque é difficil fazer-lhes concorrencia, e bom era que um imposto pesado os collocasse em circumstancias analogas aos europeus, pois que d’outro modo o commercio do interior continuará nas mãos d’elles e o ouro que vem do Transvaal continuará a seguir para a India.

A Moeda

Demais, a moeda portugueza usada em Lourenço Marques favorece a emigração do ouro: consiste ella em moeda de prata e notas da fazenda ou do Banco Ultramarino, com que se fazem os pagamentos ao governo, emquanto que a moeda ordinariamente usada nas transacções commerciaes é a libra sterlina. Ora, quando um paiz tem duas moedas, uma boa, o ouro, e outra má, a boa emigra e a outra fica.

Creio seria facil acabar com este inconveniente, determinando-se que todos os pagamentos fossem feitos em ouro, como o fez a Companhia de Moçambique, com bom resultado nos seus territorios, admittindo-se a prata só como moeda subsidiaria. Não haveria embaraços, como os não houve na Beira, e tambem não se alterava, para com o resto da provincia, o actual estado de coisas, por isso que a rupia que n’ella corre não é aceita em Lourenço Marques e até o Banco Ultramarino tem dois typos de notas, um para Lourenço Marques e outro para os demais districtos.

Por este meio havia tambem a vantagem de evitar as fraudes; como se poderá impedir que um individuo, que receba em ouro as receitas da fazenda, computando a libra em 4$500 reis, as entregue mais tarde em prata? Será isto uma falta? Moralmente sim, mas legalmente creio que não, ainda que a falta se podesse provar.

O typo de moeda ouro favoreceria certamente o commercio nacional e faria entrar em Portugal muitos milhares de libras; as receitas do districto são hoje superiores a 1:000 contos de reis e, recebidas que fossem em ouro, seria n’esta moeda que o governo pagaria aos seus funccionarios, principaes consumidores dos productos da metropole e tambem aos seus fornecedores, que devem ser, tanto quanto possivel, nacionaes.

A transferencia de capitaes para a metropole seria tambem facilitada: ha já hoje bancos estrangeiros em Lourenço Marques que a podem fazer em boas condições, pois que o Banco Ultramarino não tem prestado á provincia de Moçambique e sobretudo ao districto os serviços que d’elle era licito esperar; em 1892, chegou este banco a levar pela transferencia de dinheiro da metropole e pagando lá em notas suas, a insignificante percentagem de 30%.

Mas tudo o que se possa fazer em favor de Lourenço Marques de pouco valerá, se a iniciativa particular, o nosso commercio, a nossa industria e os nossos capitaes não forcejarem por tirar aos estrangeiros o predominio que até hoje têm tido na colonia, e por desapossal-os do monopolio do commercio, que tem como consequencia necessaria a drenagem do ouro sem que a metropole pouco ou nada aproveite da riqueza da sua colonia, de dia para dia crescente.

Não lhe enviemos, pois, colonos pobres que lá vão morrer, mas consagremos-lhe energias sãs, vontades firmes e capitaes abundantes. Raras vezes uma colonia póde dar um rendimento liquido á mãe patria; mas o que lhe dá e deve dar é um mercado para o consumo dos seus generos, e um lucrativo campo de emprego para os seus capitaes, de modo a compensar as despezas que por ella são feitas. E isto não se consegue só com medidas administrativas, mas sim com a boa vontade e a intelligencia commerciaes, que, luctando com a concorrencia estrangeira, evitem que só a esta venham a caber os fructos de tantos sacrificios, que não poucos, de homens e dinheiro, temos feito em Lourenço Marques.

Precisamos hoje, na colonia, de agentes commerciaes, representantes das nossas mais acreditadas casas da metropole, que, reunindo-se em sociedade, facilmente os poderiam para ali mandar; de empregados subalternos, que, aprendendo a lingua do paiz, vão ao interior recolher os centos de mil libras, que para ali levam os indigenas.

Os Magaíças

No Transvaal, só em Johannesburg, trabalham hoje mais de 45:000 cafres, um verdadeiro exercito, que as exigencias da exploração do ouro, sempre crescentes, dentro em poucos annos terão quadruplicado. De entre esses cafres, uma grande parte provém da nossa colonia, e por isso o impedir a emigração equivaleria a causar uma revolução economica no Rand; ora os cafres vão trabalhar para conseguir dinheiro para a compra de mulheres, armas e emfim dos objectos de que imaginam carecer, e voltam ás suas terras com sommas por vezes avultadas.

Não creio exaggerar, calculando em 15:000 cafres os que emigram em cada anno, e, suppondo que voltem com 20 libras cada um, corresponderia isso a uma entrada annual de 300:000 libras, que deveria ser aproveitada exclusivamente pelo commercio da metropole. Os algarismos citados estão decerto abaixo da verdade e mostram á evidencia a vantagem de não crear embaraços á emigração, tanto mais que não ha em Lourenço Marques industrias nossas que careçam de braços.

O Silva Maneta

Para aproveitar do commercio do interior não nos seria difficil encontrar portuguezes, habituados ao sertão, que podessem competir com os indios: alguns temos já hoje, que têm conquistado o respeito dos cafres e entre elles um conheci, cujo nome bem merece do paiz, um antigo soldado do corpo policial de Lourenço Marques, o Silva Maneta, cuja dedicação pela patria e coragem excepcional, que o levava a arrojar-se loucamente aos mais arriscados lances, tantos serviços prestou durante a campanha de 1895; e que me seja licito aqui, prestar a esse portuguez de lei, o tributo da minha admiração pelas brilhantes qualidades, que nunca se buscam debalde nos mais obscuros filhos da nossa pobre, mas gloriosa patria.

Voltando, porém, ao assumpto, de que me fez desviar a recordação de um verdadeiro heroe, n’esta cidade onde os feitos heroicos brilham em cada pagina da sua historia, direi ainda que mesmo entre os cafres educados na nossa escóla, poderiamos encontrar auxiliares, por isso que o cafre quando se chega a convencer de que é portuguez e branco, é mais cioso ainda do que este, das suas prerogativas, e até respeitado pelos outros pretos como se branco realmente fôra. E não ha decerto espectaculo mais comico do que vêr um grupo de negros tratar de «senhor» e de «branco» um outro cafre tão negro como elles, só porque traja e falla como os europeus.

Pelo que respeita ao commercio com o Transvaal, facilita-o a proximidade em que d’elle estamos, a sympathia que lhe merecemos, que maior seria se mais trabalhassemos, e ainda os tratados que a elle nos ligam.

O Comércio

Mas como condição essencial, necessario se torna que as nossas marcas sejam sempre as mesmas e que não succeda que, desde que um producto se acredita á custa de muito trabalho, os menos escrupulosos façam perder uma vantagem, que difficilmente se poderá recuperar. Não insisto, apesar de poder apresentar muitos exemplos, n’este facto, cuja importancia todos podem avaliar.

Muitos e variados são os productos com cujo commercio lucrariamos, quer no districto, quer no Transvaal, e de entre esses apenas me referirei aos que julgo de maior importancia.

Na cidade, temos o consumo proprio, que é o de uma cidade rica, e que deve ser exclusivamente fornecido pela metropole, ainda que á sombra de bem entendidos direitos de entrada, não tão exaggerados, que sejam apenas um incentivo ao contrabando.

No interior do districto, facil seria abrir mercado para os nossos vinhos brancos, convenientemente addicionados de aguardente, que vão sendo preferidos ao alcool, não só porque realmente os cafres os apreciam mais, mas ainda porque julgam que se aproximam do branco, bebendo-os; os missionarios suissos, no districto, têm conseguido que grande numero de cafres deixem de embriagar-se com a aguardente, aconselhando-os a beber só vinho, que elles consomem conscienciosamente. Tambem apreciam muito o vermouth, ou uma mistura que em garrafas lhes é vendida como tal. Aproveitando estas tendencias, certamente abririamos um mercado bastante largo para os nossos vinhos, e praticariamos ao mesmo tempo uma obra meritoria prohibindo a importação do alcool industrial em Lourenço Marques e a sua venda aos indigenas.

Mas muitos outros generos se poderiam consumir no interior, além dos vinhos.

A polvora e as armas brancas, facas, machados, zagaias, etc., dariam lucros bastante remuneradores, sendo fabricados segundo os typos preferidos.

Os tecidos, quer de algodão, quer de lã, pannos e cobertores, podem ser enviados da metropole e vendidos com lucro, não só porque obtêm preços altos, mas ainda porque muito os poderia proteger a differença de cambio e um bem entendido direito protector, não difficil de fiscalisar. Os typos de algodões e cobertores preferidos deviam ser mandados pelos governos do districto aos centros industriaes do paiz, afim de serem reproduzidos. Os algodões azues ou de fundo azul com desenhos brancos são muito apreciados; em 1893 trouxe varios typos de cobertores, que foram reproduzidos n’uma fabrica de Lisboa empregando-se lã de inferior qualidade, e sendo o seu preço de custo de 600 a 900 reis: taes cobertores tinham então em Lourenço Marques um preço de 4 a 6 shillings, o que dava margem para um commercio lucrativo.

Vendem os indianos aos cafres milhares de camisolas de malha, de fatos completos, capotes, chapéos, fardamentos velhos, tudo de fabrico inglez ou allemão; e tudo poderia ser enviado de Portugal, dando margem a lucros importantes.

Para o Transvaal, o nosso principal ramo de exportação não poderá deixar de ser o vinho; a este e como annexo, poder-se-iam juntar as conservas, sobretudo de peixe, quando bem fabricadas e conservando as marcas.

Apesar de ser um assumpto de que pouco conheço, não creio que para nos abrir o mercado do Transvaal baste a iniciativa do governo, que, quando muito, poderá apenas fornecer, por meio dos agentes consulares, as indicações geraes dos mercados aos viticultores nacionaes e os dados estatisticos sobre que se possam basear.

A meu vêr, os commissarios e exposições poucos resultados podem dar e a experiencia bem o tem mostrado. Vão effectivamente os vinhos, faz-se uma propaganda official, os individuos que os bebem acham-nos geralmente bons e… mandam comprar os vinhos que estão habituados a beber. Não julgo facil, n’um paiz como o Transvaal, habitado por uma população ingleza em parte, introduzir de repente typos de vinhos differentes dos vinhos do Cabo, que são os que mais frequentemente se encontram por toda a parte.

O meio a seguir, parece-me, deveria ser procurar, por meio dos nossos variadissimos typos, imitar, pelo menos nos primeiros tempos, os vinhos de maior consumo no Transvaal, preparando-os. Um commissario, enviado de Bordeus para estudar o alargamento do mercado de vinhos na republica sul africana, foi d’esta opinião, no relatorio que apresentou no seu regresso a França, e isto tratando-se dos vinhos de Bordeus que tão largo nome têm. Este modo de proceder tem já sido empregado para a fabricação de certas marcas especiaes de Champagne barato, de largo consumo no sul da Africa; não foram os francezes procurar convencer os sul africanos de que o Champagne, que é preferido n’aquella região, não é bom e verdadeiro Champagne, mas fabricam-lh’o segundo o seu gosto.

Além do Champagne, o Xerez, o Vermouth e muitos outros vinhos são largamente consumidos no Transvaal, e muitos d’estes não vêm de França, Hespanha ou Italia, mas dos paizes onde com igual facilidade se fabrica o Porto ou Madeira que nunca sahiram de Portugal.

Fazer despezas importantes para que os nossos typos de vinhos sejam preferidos, é, creio, empreza pouco realisavel e muito dispendiosa, mas sobretudo inutil, porque se o chegassemos a conseguir, logo os nossos vinhos seriam imitados por quem tivesse interesse em o fazer.

Assim, procurar conseguir vinhos semelhantes aos do consumo no paiz, dar-lhes boa apparencia e envasilhal-o de um modo agradavel á vista, parece-me ser o meio de alargar o consumo dos nossos productos entre a população sul africana; agentes commerciaes, trabalhando por interesse proprio, collocal-os-iam com facilidade.

Claro está que isto só diria respeito aos vinhos de pasto; os nossos vinhos generosos têm uma reputação universal e não conviria mudar-lhe os typos, bastando apenas que os agentes consulares perseguissem os contrafactores, que os ha e não poucos, até em Africa.

Além dos vinhos, as conservas poderão ter tambem consumo facil desde que vão melhor e mais artisticamente acondicionadas. É frequente em Africa, receber conservas de fructas portuguezas perfeitamente em papas, contrastando com o bello aspecto das fructas da California.

Ainda outros generos poderiam ser introduzidos quer na nossa colonia quer na Africa do sul, de que o nosso commercio poderia tirar largos lucros.

Mas, além do commercio, os capitaes portuguezes teriam tambem muitos meios de se empregar com vantagem, aproveitando os interesses que os capitaes estrangeiros vão auferir em Lourenço Marques.

A industria da pesca, que tantos resultados tem dado em Angola, e melhores daria se fosse bem dirigida, facilmente se poderia crear na bahia, abundante, bem como a costa do districto, em peixes de variadas especies. A sua exploração, combinada com a da fabricação do gelo, teria no Transvaal um largo campo de consumo, e se não se tem installado regularmente até hoje, é porque todos se têm preoccupado em obter o monopolio da pesca, que o governo não póde nem deve dar.

O Aterro do Pântano e o Cais

O saneamento do pantano, attribuindo a terrenos agora inutilisaveis uma grande facilidade de applicação, daria tambem lucros fabulosos, attendendo ao elevadissimo preço por que se estão hoje vendendo.

O aterro e aproveitamento de uma área comprehendida entre a costa e um muro-caes a estabelecer entre a ponte da alfandega e a Ponta Vermelha, daria perto de 20 hectares de terrenos, pouco insalubres, de um valor incalculavel, e de uma grande vantagem para o alargamento do porto e edificios do Estado, taes como a alfandega, capitania, etc. Esta concessão já foi pedida por estrangeiros e seria decerto um perigo se cahisse nas suas mãos, pois que, pelas concessões feitas, o governo não possue hoje na bahia uma extensão apreciavel de costa, a não ser aquella.

A construcção de uma ponte-caes para mercadorias em transito no rio do Espirito Santo, obra indicada por um dos homens de mais larga intelligencia, vastos conhecimentos e seguro golpe de vista, que nos ultimos tempos tem dirigido os destinos de Moçambique, o snr. conselheiro Antonio Ennes, daria além de grandes juros ao capital para ella necessario (300 contos aproximadamente) uma grande facilidade ao movimento do porto, por isso que ella seria acostavel em qualquer estado do tempo.

As construcções urbanas têm dado nos ultimos annos rendimentos avultados, não inferiores a 30 por cento. Ha pouco, era vulgar uma casa de custo não superior a 300 libras, ser alugada por 7 libras mensaes; e comquanto hoje este estado de coisas tenha mudado um tanto, é certo que os capitaes empregados em edificações rendem pelo menos 15 por cento.

E citarei apenas de passagem, para não alongar demasiadamente a exposição, as industrias ceramicas, a fabricação da cal e cimento, hoje produzidos já no Natal e que facilmente se installariam na Inhaca, as de docas de reparação, a de fabricação e reparação de lanchas e escaleres, etc., etc.

Creio que hoje não restará duvida que Lourenço Marques é e será uma colonia commercial e que o seu progresso e permanencia no dominio portuguez depende principalmente do commercio e industria nacionaes, aos quaes devemos subordinar tudo o mais. Quando os capitaes empregados em Lourenço Marques forem só inglezes, inglezas as casas commerciaes, ingleza toda a área em que assenta a cidade, o que equivale a dizer estrangeiro tudo, com que direito, com que razão nos poderemos ali conservar, verdadeiros parasitas, aproveitando sómente o trabalho alheio? Os direitos historicos, bem o sabemos, não bastam em Africa, e o nosso proprio decoro não nos permittiria que nos mostrassemos degenerados descendentes dos antigos moradores portuguezes.

Tipologia do Colono Ideal

Precisam, pois, affluir a Lourenço Marques, como já disse, não colonos pobres e anemicos ou velhos e creanças, como tem já succedido, para apenas concorrerem para o alargamento do cemiterio; mas sim individuos sãos de corpo e de espirito, representando o commercio e a industria da metropole, activos e emprehendedores, acompanhados por capitaes nacionaes, que vão recolher os largos juros que hoje são premio de capitaes estrangeiros.

O desenvolvimento do commercio e da industria trarão como consequencia a emigração especial de que estes precisam, por isso que carecem de edificações, obras de toda a especie, lanchas, vapores, carros, etc., que representam outras tantas necessidades, cuja satisfação póde dar vasto emprego a um grande numero de homens, engenheiros, operarios, marinheiros, pescadores, etc., que deverão ser tão bons como os melhores da metropole, d’onde deverão ir, para resistirem á influencia do meio. Já hoje um bom operario ganha em Lourenço Marques um salario avultado, não sendo raros os que no fim de certo periodo alcançam uma pequena fortuna; em compensação os maus operarios difficilmente alcançam meios de subsistencia.

Mas, se tudo isto é a consequencia necessaria do desenvolvimento da colonia, mais necessario se torna que ella se não desnacionalise, e que a lingua portugueza seja a que predomine, porque de outro modo os estrangeiros preferirão sempre os operarios seus compatriotas. E a desnacionalisação, só o augmento de relações commerciaes com a metropole e o affluxo de capitaes portuguezes poderão evital-a.

Ligações com a Metrópole

A uma outra necessidade tambem a industria particular deveria attender, ajudada pela protecção do governo; mal se comprehende que uma colonia commercial por excellencia, como é Lourenço Marques, possa estreitar as suas relações com a metropole, sem que haja navegação sob a bandeira nacional. Uma tentativa se fez, a da Mala Real, mas essa tristes resultados deu, não porque a empreza não tivesse em si largos elementos de exito, mas pela menos conveniente administração que teve, aggravada por exigencias por vezes injustas das auctoridades em Africa, que faziam demorar os vapores a seu talante, auctorisando-se para isso da irregularidade das carreiras.

Dos vapores da Mala não se sabia nunca, nem o dia da partida, nem o da chegada, e passageiros houve que levaram quasi tres mezes de Lisboa a Lourenço Marques, isto não obstante os vapores serem de primeira ordem e commandados por officiaes competentissimos.

Assim, resumindo, o futuro de Lourenço Marques está, a meu vêr, dependente da nossa iniciativa commercial e industrial. O seu desenvolvimento abre um largo campo de acção ás classes liberaes e ao operariado escolhido da metropole, que encontrarão n’um paiz de lingua, costumes e leis analogas ás da metropole, vantagens não inferiores ás que apontei para o commercio metropolitano.

Como Colónia de Exploração

Resta-me ainda dizer algumas palavras de Lourenço Marques como colonia de exploração, e debaixo d’este ponto de vista creio que, se o districto tem elementos de riqueza e futuro desenvolvimento, estão elles longe dos que se notam em Inhambane, Quilimane e outros districtos do norte da provincia. Entretanto, pela sua situação fóra dos tropicos e pela sua posição geographica, algumas probabilidades tem de aproveitamento, que conviria utilisar, imprimindo á colonisação do districto, além do caracter commercial predominante, uma feição de colonia de exploração, secundaria, ajudando-se as duas mutuamente.

A colonia de exploração propriamente dita deve poder produzir generos de venda remuneradora, taes como o café, o cacau, a canna, a quina, etc., que compensem as despezas e sacrificios da cultura e ao mesmo tempo dispôr de mão d’obra abundante e facil, que substitua a do europeu, que unicamente deve dirigir os trabalhos.

Lourenço Marques, pelo menos na região visinha da costa, onde os transportes são relativamente faceis, poderá talvez produzir os generos a que me referi, e entre outros a canna saccharina e a borracha já ali se desenvolvem. Produzirá igualmente os outros generos, com economia? Não sei, visto não haver experiencias que nol-o indiquem.

E merecerá a pena tentá-las, quando a pequena distancia para o norte da provincia temos regiões onde as condições do clima são excepcionaes, bem como a fertilidade do sólo, para o estabelecimento de colonias de exploração, como em toda a região do Zambeze? Não creio. Seria ir experimentar o duvidoso, desprezando o certo.

Custo da Mão de Obra

Demais, em Lourenço Marques a mão d’obra é cara. O preto ganha ali, trabalhando muito menos do que o europeu o faz na Europa, 2 a 3 shillings diarios ou seja de 600 a 900 reis, e não é facil encontral-os por preço menor, visto que é este o salario que podem ganhar em qualquer centro aurifero do Transvaal. Em tempos, o governo do districto, cedendo ás queixas geraes dos habitantes, quiz regulamentar os salarios dos cafres, esquecendo o principio geral da offerta e da procura, sendo o resultado perfeitamente nullo, por isso que, quando precisavam cafres, eram os que mais tinham reclamado, que iam offerecer maior salario aos do visinho.

O regulamento do preço dos salarios é praticamente inapplicavel em Lourenço Marques, pois para o conseguir seria necessario prohibir a emigração para o Transvaal e para o Natal, e esta medida, além de anti-economica e antipolitica, seria de difficil execução.

Pelo contrario, na Zambezia, não succede o mesmo. O preto ali, submette-se ao senhor do praso em que habita, trabalhando por um preço baixo, de 3$000 a 4$500 reis por mez, por isso que mal acredita que não está já sujeito ao regimen da escravatura, unico possivel para fazer trabalhar o negro, quando convenientemente fiscalisado. Os inglezes tanto assim o comprehenderam que, feitos grandes esforços, sob vãos pretextos de philantropia e generosidade, para acabar com a escravatura barbara dos antigos tempos, a reorganisaram com meios mais suaves, mas não menos firmes, em seu exclusivo proveito. E têm razão, pois que a liberdade que nós damos ao preto resume-se em lhe darmos só direitos, dos quaes o que lhes é mais precioso é o de não trabalharem, sem lhe impôrmos deveres.

Assim, temos na provincia de Moçambique pontos onde podemos ir implantar, sem receio de mau exito, as verdadeiras colonias de exloração, ricas, de largo futuro, não inferior ao da nossa colonia de S. Thomé, sem recorrermos para isso a Lourenço Marques.

É, porém, certo que este districto dispõe de recursos especiaes: é cortado de rios navegaveis, que tornam os transportes muito faceis: dispõe nos valles dos rios de fertilissimos terrenos, onde se poderiam installar culturas remuneradoras; pela sua posição fóra dos tropicos e proximidade da visinha colonia do Natal e da Republica sul africana, as experiencias n’aquelles paizes realisadas, poderiam decerto aproveitar-lhe; e finalmente ainda, é menos insalubre do que os outros districtos da provincia, á excepção talvez de alguns pontos de Inhambane e das terras altas do interior. Algumas localidades até, infelizmente pouco extensas, são relativamente salubres, dando-se o caso curioso de que não se podem sempre reconhecer á primeira vista as suas condições hygienicas. É assim que Incanine, no baixo Incomati, rodeado por toda a parte de pantanos e lodaçaes, se reconheceu ser o local mais salubre de todos os occupados em 1895 pelas nossas tropas; era por assim dizer um verdadeiro sanatorio.

Por isso, industrias agricolas ha que se devem installar em Lourenço Marques; serão naturalmente aquellas que exijam pouca mão d’obra, ou em que o trabalho possa ser feito por machinas e ainda as que possam tirar valor dos seus faceis meios de transporte, os rios.

Gado, Trigo e Milho

Taes são a creação de gados, quer vaccum, quer lanigero, e a cultura de cereaes, que poderia fornecer largamente a metropole. Que importa, com effeito, que a Huilla, que a região de Milange e tantas outras possam fornecer o milho e o trigo, se estes, por falta de transporte barato, não puderem sahir do paiz de producção?

A cultura do milho, sem duvida se póde realisar em Lourenço Marques; cultivam-n’o os pretos em todos os pontos onde ha agua, e não são poucos, e com magnifico resultado, pois se vêem as plantas attingir 3, 4 e mais metros de altura, com uma producção proporcional ao porte. Em todo o valle do baixo Incomati, do Limpopo e do Maputo, se vêem vastas planicies, onde ás areias se misturam as alluviões do rio, formando um sólo extremamente fertil.

O trigo deveria tambem dar-se, por isso que se produz em condições analogas no Natal; das experiencias feitas no districto, pouco se póde concluir, pois que ainda não foram regularmente seguidas para fornecer dados seguros; todas, porém, têm dado resultado e só de uma, feita nas visinhanças da cidade, soube que os resultados foram pouco animadores, mas é provavel que, se o trigo se manteve rachitico e sem desenvolvimento, foi porque as experiencias foram mal dirigidas, não se escolhendo a época favoravel á sementeira, nem o typo de semente mais apropriado. Na Beira, onde o dr. Arriaga, um dos benemeritos da colonisação africana da costa oriental, fez experiencias da cultura do trigo em larga escala, os resultados foram magnificos, obtendo em média 50 sementes; ora o que succedeu no valle do Busi, n’uma alta latitude, mais naturalmente succederá no do Incomati.

Nos postos do Incomati, no Marracuene, Manhissa, Magudi e no Maputo, foram estabelecidos, em 1895, com o atilado criterio de quem então dirigia os negocios da provincia, pequenas quintas regionaes, com o fim de se proceder ás necessarias experiencias de agricultura, e, apesar dos poucos meios de que a provincia podia dispor, muito ha a esperar do resultado d’estes trabalhos, que oxalá sejam dados a publico.

Quer o milho, quer o trigo, muito vantajosamente seriam importados pela metropole, pois decerto os transportes seriam baratos, em fretes de retorno. O milho, além do consumo no interior do districto, pois que, comquanto pareça incrivel, o districto de Lourenço Marques importa por vezes milhares de saccas de milho e arroz, poderia ser utilisado para fabricação do alcool exportavel para o Transvaal, producto de que já ha montadas fabricas importantes, quer na cidade, quer em Ressano Garcia.

Além d’estas culturas principaes e ainda do arroz, muitas outras se poderiam crear, não só para consumo local, mas talvez tambem para exportação. As arvores de fructo europeias desenvolvem-se bem no districto, conforme se verificou nas plantações de Anguane. As laranjeiras e limoeiros não têm difficuldade em medrar, pois que os ultimos são selvagens, encontrando-se ao longo das margens do Incomati milhares de limoeiros, carregados de esplendidos limões, que se reproduzem sem cultura, para gaudio dos cafres e dos macacos.

Nas vertentes dos Libombos, do rio dos Elephantes, até á fronteira sul do districto, em grande parte dos valles do Incomati, do Umbeluzi e do Limpopo, a creação de gado vaccum far-se-ia sem difficuldade, pois em qualquer d’estes pontos se vêem rebanhos de gado de centenares de cabeças, pertencentes aos cafres. O gado muar e os burros dar-se-iam tambem perfeitamente, podendo prestar grandes serviços n’aquelle paiz em que os cavallos morrem tão facilmente: duas muares vi no Incomati, que, tendo fugido aos donos, se tinham tornado selvagens, vivendo em liberdade e eram magnificos exemplares; infelizmente foram mortas a tiro, por quem decerto tinha pouco bom senso.

O gado lanigero, pelo menos raças semelhantes ás do Transvaal e do Cabo, encontraria tambem magnificas condições de desenvolvimento n’uma extensa zona nas vertentes dos Libombos, onde já se encontra, na posse dos cafres, se bem que em pequeno numero e de raça inferior. A exportação das lãs constitue hoje um dos principaes elementos de riqueza do Cabo da Boa-Esperança e do Transvaal, e podel-o-ia ser tambem de Lourenço Marques.

Avestruzes em Goba

Na zona que da base da vertente dos Libombos vem até á zona argillosa e humida, encontram-se, quando a população escasseia, avestruzes selvagens, indicando-nos o proveito que pela sua creação poderiamos tirar da região arenosa do districto, de um modo analogo áquelle por que no Cabo da Boa-Esperança se conseguiu tirar d’aquelles animaes um rendimento importante, de centos de mil libras annuaes.

A cultura do arroz e do algodão, o primeiro já hoje cultivado em pequena escala pelos negros, e o segundo, de que já se fizeram ensaios coroados de bom resultado, poderiam tambem concorrer para a prosperidade da colonia.

De tantos elementos de riqueza, e ainda outros que seria longo enumerar, pouco se aproveita hoje, apesar de muitos esforços por vezes empregados pelo governo. Já em 1780 foi necessario que o governador Pereira do Lago, obrigasse os moradores á cultura do algodão, e em 1760 o governador Pedro de Saldanha de Albuquerque forçou os habitantes de Lourenço Marques a entregarem-se á agricultura, «para ao menos evitarem que até o pão e a mandioca lhes viessem de fóra». Que diria elle hoje, em que vem de fóra não só o pão para os brancos, mas ainda o arroz e o milho para os cafres!

Das riquezas mineiras de Lourenço Marques pouco posso dizer. Ha talvez ouro, e minerios preciosos, nos filões dos Libombos e ao norte do districto, na camada de conglomerados, mas das pesquizas até hoje feitas nada se tem conseguido; verdade é que têm sido poucas e mal dirigidas; entretanto alguma vantagem haveria em que se fizessem methodicamente.

Se Lourenço Marques não está em condições de poder, como colonia de exploração propriamente dita, vir a attingir o elevado grau de prosperidade de S. Thomé, Cabo, Java, etc., nem por isso é tão desprotegido pela natureza, como vêmos, que não possa, amparado pela sua colonia commercial, desenvolver-se e medrar, concorrendo em curto periodo para libertar a metropole dos pesados encargos do seu deficit de producção cerealifera.

Mas se Lourenço Marques só póde ser principalmente uma colonia commercial, devendo-se a esta sua feição subordinar tudo o mais, nem por isso faltam, nos nossos vastos dominios coloniaes, regiões onde se installem colonias de outro genero.

O Resto de Moçambique

Na região alta do interior de Moçambique podem encontrar-se vastos terrenos salubres, com clima pouco differente do nosso e onde a população póde desenvolver-se sem obstaculos insuperaveis. Taes são Manica, Milange, a região do Nyassa, etc., e para ahi nos installarmos basta que o nosso povo ahi queira repetir os trabalhos que os nossos antepassados executaram na America; o governo só póde fazer os trabalhos de preparação, ou installar colonias penaes. As colonias militares, pelo seu caracter, não julgo que possam dar bom resultado.

Para colonias de exploração temos quasi toda a vasta área da provincia de Moçambique, que se abre á nossa actividade, apresentando-nos uma variedade de recursos que difficilmente se encontrarão n’outros pontos. Se estamos, ou por outra, se o nosso descuido levou outros, mais activos e trabalhadores, a nos deixarem reduzidos a uma tira de terreno ao longo da costa, essa mesma situação nos dá a posse dos melhores portos, testas obrigadas dos caminhos para o interior, que se podem encontrar desde o Cabo da Boa-Esperança até ao Guardafui.

Inhambane, n’uma zona de mais de 100 kilometros de largura e que corre parallelamente á costa, tem uma população numerosa e trabalhadora, terrenos fertilissimos, e a borracha e o café desenvolvem-se ali espontaneamente, sendo este de magnifica qualidade. Antigas plantações junto da villa, mostram ainda hoje a pujança dos cajueiros, coqueiros, mangueiras e outras muitas especies vegetaes. O café, que cresce quasi na costa, não tem animado ainda até hoje os nossos colonos a iniciarem plantações, limitando-se a ensaccar o que do interior é trazido pelos cafres; ha annos, porém, ensaiou-se ali uma larga plantação de chá, que morreu com o fallecimento do proprietario, tendo entretanto apresentado bons indicios. No interior do districto a caça, bufalos, zebras, antilopes e até elephantes, são abundantissimos.

Se de Inhambane passamos ao Zambeze, encontramos uma bella via fluvial, em cujas margens, e em tempos remotos, os nossos maiores estabeleceram grande numero de feitorias, povoações e centros agricolas, de que ainda restam vestigios.

Modernamente alguns homens de iniciativa têm, em pouco tempo, realisado fortunas avultadas e fundado magnificas plantações no baixo Zambeze. O coqueiro, de que se encontram ali milhões de exemplares, tem sido plantado largamente; a canna saccharina, o café, o arroz, etc., estão sendo cultivados com vantagem, e se os exemplos dados fossem seguidos, poderiamos em pouco tempo ter ali a primeira colonia de exploração portugueza, superior ainda a S. Thomé.

Nos prasos das margens do rio ha magnificas mattas onde a madeira podia ser explorada, e onde os elephantes ainda se encontram com abundancia; em Tête encontram-se jazigos de carvão, infelizmente de qualidade inferior na parte já reconhecida, e nos terrenos ainda não explorados ha indicios de importantes jazigos auriferos.

Na região alta do norte do Zambeze, o clima é semelhante ao da Europa, e ahi poderiam os colonos ir restabelecer-se, quando atacados das doenças inevitaveis no valle insalubre do rio.

Finalmente mais ao norte, no Ibo, Moçambique e Angoche, pouco se conhece do interior, mas a todos estes portos concorre o café selvagem do sertão e por elles se exportam annualmente muitos contos de reis de sementes oleaginosas. Desde que sejam conhecidos, provavel é encontrar territorios ainda mais bem dotados do que os da Zambezia, região esta onde a colonia de Blantyre, ha poucos annos começada, já hoje exporta mais toneladas de café do que toda a provincia de Moçambique exporta de saccas da mesma mercadoria.

O Futuro de Lourenço Marques

Não seria, pois, razoavel procurar fazer de Lourenço Marques uma colonia de exploração propriamente dita, tentando introduzir ali, com sacrificio, culturas que a provincia n’outros pontos espontaneamente nos dá. O futuro de Lourenço Marques está inteiramente ligado ao seu desenvolvimento commercial e á emigração para ali de individuos capazes de o alargarem e de capitaes que o facilitem, e isto está, mais uma vez o repito, nas mãos da iniciativa particular.

Ao governo compete não contrariar, pelas suas medidas administrativas, essas iniciativas e vigiar para que os seus agentes sigam a mesma-ordem de idéas. Por nós ou pelos estrangeiros, Lourenço Marques há-de fatalmente tornar-se o primeiro porto commercial da Africa do sul, e tudo o que contrarie esse destino redundará em nosso damno.

A permanencia dos governadores no districto (de 1881 até 1896 houve vinte e sete mudanças de governadores), a creação de tropas coloniaes, a separação naturalmente indicada de Lourenço Marques e Inhambane, n’um governo autonomo, do resto da provincia, a applicação dos rendimentos do districto ao seu melhoramento, sem os distrahir para fóra, a nomeação de pequeno numero de funccionarios, bons e bem pagos, em vez de muitos e mal pagos, o ensino obrigatorio da lingua cafreal, a organisação dos cafres no interior, sem vexames, causa de todas as revoltas, e tantas outras questões de administração, só podem ser ordenadas pelo governo, e muito contribuirão para a prosperidade do districto, com o qual a metropole já hoje não deveria fazer despezas.

Que os penosos e lentos sacrificios que nos impuzemos durante muitos seculos, não vão hoje, que a messe está madura, aproveitar a outros, que avidamente espreitam o momento de lançar mão dos nossos despojos; e que uma colonisação preponderante e activa nos mantenha aberto o vasto campo de expansão e actividade necessario a um povo que não está ainda completamente decadente e perdido, é o que devemos procurar.

Portistas Avante para Lourenço Marques

De entre os restos do nosso vasto dominio colonial é Lourenço Marques aquelle de que a avidez estrangeira mais nos demonstra a importancia capital para o futuro desenvolvimento de Moçambique. Para que a sua desnacionalisação não se opere, torna-se necessario que para ali concorra a actividade commercial, a industria e os capitaes, que são ainda mais do que os emigrantes, o nervo da colonisação, e de todos estes meios de acção nenhuma região é mais rica do que o norte do paiz e em nenhuma cidade elles se encontram mais largamente espalhados do que no Porto.

É por isso que, agradecendo ao Atheneu Commercial do Porto o honroso convite com que me distinguiu, e á assembléa a cortezia e attenção com que se dignou escutar o que diligenciei expôr, sem galas de estylo, mas com inteira franqueza e verdade, me sentirei verdadeiramente orgulhoso, se por pouco que seja, tiver conseguido attrahir sobre Lourenço Marques as attenções d’uma cidade, a primeira sempre no paiz, nos grandes emprehendimentos de que póde resultar para a nossa querida patria, riqueza, gloria e prosperidade.

(fim)

 

Fonte: Projecto Guttemberg.

01/05/2020

JOAQUIM FAUSTINO DA SILVA, UM SINDICALISTA EM LOURENÇO MARQUES

A primeira imagem, retocada, foi cedida a Luis Carvalho por Ronald Ramos, neto de Joaquim Faustino. Acompanha o texto, que editei a partir do original de Luis Carvalho, que foi publicado hoje no jornal ribatejano Mais Ribatejo, associado à celebração do feriado de 1 de Maio em Portugal, Dia dos Trabalhadores. A foto do Emancipador foi facultada pelo Ricardo Cardiga, neto de Manuel Alves Cardiga. O original da foto de Ignácio Piedade Pó está nos arquivos ferroviários sul-africanos.

 

Joaquim Faustino da Silva.

(início)

Neste 1.º de Maio de 2020 recorda-se aqui Joaquim Faustino da Silva, que se salientou na história social em Moçambique enquanto sindicalista em Lourenço Marques.

Joaquim nasceu no Vale de Santarém, em 1891. Ainda muito jovem, iniciou-se nas lutas laborais em Almeirim, quando ali trabalhou como empregado do comércio. A grande reivindicação deste sector profissional era, na altura,  pelo direito dos operários a poderem gozar um dia de folga por semana.

Rumou depois para Lisboa, onde, por volta de 1909, se tornou militante activo do antigo Partido Socialista Português, de cariz operário e marxista. Ali assistiu ao golpe de Estado republicano que derrubou a monarquia, no final de 1910 e instaurou um regime republicano laico e radical.

Esteve pela primeira vez em África durante a Primeira Guerra Mundial, quando foi enviado como soldado para Angola, e aí ficou durante um ano, após o que regressou a Portugal.

Em 1918 emigrou para Moçambique, onde foi trabalhar nos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques.

A então pequena capital moçambicana teve a particularidade de ter sido o palco da mais importante experiência sindical no contexto colonial português durante o período da Primeira República (1910 a 1926).

A estrutura portuária e ferroviária que ali se desenvolveu, para servir essencialmente os interesses britânicos na África do Sul e Rodésia do Sul, suscitou uma especial concentração de trabalhadores qualificados, vindos de Portugal, na condução e manutenção de máquinas e equipamentos e que ainda incluía outros sectores da actividade na Cidade, tais como empregados no comércio e operários da construção civil.

Cinco linhas de carruagens cheias de carvão mineral, trazidas de minas da África do Sul, para abastecer os navios atracados em Lourenço Marques, então o principal porto marítimo na costa oriental de África, década de 1920. Penso que esta é uma foto de Ignácio Piedade Pó.

Foi neste contexto que surgiram sindicatos e outras instituições de trabalhadores, tais como cooperativas, associações e imprensa e se travaram acirradas lutas laborais. Até existiu um núcleo socialista que chegou a atingir uma relevante expressão eleitoral.

O Emancipador

Na sua militância sindical e socialista, Joaquim Faustino da Silva destacou-se como um dos principais obreiros da Casa dos Trabalhadores de Lourenço Marques. Era um edifício construído de raiz em forma cooperativa, para servir de sede a vários sindicatos, com outras vertentes como uma biblioteca e uma escola.

Foi também um dos principais responsáveis pelo jornal operário e (mais tarde) antifascista O Emancipador, que ali se publicou desde 1919 até ser proibido pela ditadura de Salazar em 1937. Este jornal deixou um importante lastro histórico, na medida em que vários dos seus colaboradores estiveram na linha da frente da oposição à Ditadura em Moçambique até ao final da década de 1950.

Uma capa do Emancipador, “semanário operário” de Lourenço Marques, cujo director na altura era nada menos que Manuel Alves Cardiga, o mais tarde célebre e celebrado empresário coca-cola.

Outro traço de O Emancipador foi a admiração que nele se expressou pela Revolução Russa. O mais entusiasta terá sido Faustino da Silva, que se tornou um simpatizante da causa comunista para o resto da vida.

A repressão republicana

Em 1925, quando, no quadro de uma crise económica, as autoridades coloniais republicanas decidiram um corte profundo nas condições laborais dos ferroviários de Lourenço Marques, aproveitaram para despedir o seu mais destacado dirigente sindical nessa altura: Joaquim Faustino da Silva.

Em resposta e em solidariedade, um plenário com trezentos trabalhadores iniciou uma greve. Resistiram quatro meses. Mas acabaram derrotados à força de prisões, deportações, despedimentos e substituições com trabalhadores forçados. Famílias inteiras de grevistas foram despejadas das casas onde moravam. A Casa dos Trabalhadores foi ocupada pelo exército. E não faltaram tiros e violência.

Nessa altura, Faustino teve que passar à clandestinidade e partir depois para um exílio na África do Sul, onde viveu durante cerca de quatro anos. Aí, revelou simpatia pelo então recentemente formado Partido Comunista da África do Sul e pela postura deste contra a discriminação racial.

Faustino Antifascista

Faustino da Silva regressou à capital moçambicana no início de 1930, quando a ditadura militar instaurada em Portugal em 1926 ainda não se tinha tornado numa ditadura de cariz fascista, como viria a suceder em 1934. Com excepção do sector dos empregados no comércio, o movimento sindical livre em Lourenço Marques estava ali muito enfraquecido, mas ainda não tinha sido proibido.

Faustino juntou-se então à oposição democrática à Ditadura, como fundador e secretário-geral de um novo movimento político, a União dos Trabalhadores de Moçambique, que concorreu a umas eleição local que ali ainda se realizou em 1932. É também visível que teve nessa altura ligações com a oposição clandestina em Portugal, nomeadamente com o Partido Comunista Português.

Em 1945 surgiu como um dos fundadores e dirigentes do Movimento de Unidade Democrática (MUD) em Lourenço Marques. Em 1949 participou na campanha presidencial do general Norton de Matos, um destacado opositor a Salazar.

Memória

Joaquim Faustino da Silva permaneceu em Moçambique, vindo a falecer em Lourenço Marques em 1972, com 81 anos de idade.

Guardou até ao final da sua vida um importante espólio do antigo movimento operário daquela cidade, o qual posteriormente passou a integrar o património do Arquivo Histórico de Moçambique.

Merece certamente uma recordação na história do sindicalismo português e de Moçambique.

E também na história da terra e região ribatejana onde nasceu e onde deu os seus primeiros passos de lutador – pelos direitos da classe trabalhadora e por uma sociedade mais justa.

(fim)

18/04/2020

LOURENÇO MARQUES DURANTE A VISITA DO PRÍNCIPE REAL, JULHO DE 1907

Imagens retocadas, tiradas por W. Hackett.

Em baixo, oito fotografias alusivas à Visita Real de 1907 a Lourenço Marques.

SAR o Príncipe D. Luiz Filipe à direita no centro, no átrio do Palácio da Ponta Vermelha em Lourenço Marques, Julho de 1907.

 

Junto ao Palácio da Ponta Vermelha, o Príncipe Real sentado à direita da carruagem, com o então ministro da Marinha Ayres de Ornellas. À esquerda o Coronel Costa.

 

Junto à Residencial do Governador-Geral, SAR o Príncipe D. Luiz Filipe, posa com o que o fotógrafo Hackett descreve como um grupo de nativos da Suazilândia.

 

O Capitania Building ao fundo, e parte da Praça 7 de Março (hoje 25 de Junho) engalanadas para receber o herdeiro da coroa portuguesa. A actual “forteleza fica situada atrás e à esquerda do Capitania Building, que foi demolido no final dos anos 1950.

 

Arco triunfal na então Avenida T. de Souza, a que liga a ponta Sul da Praça 7 de Março à (mais tarde) Praça Mac-Mahon, hoje a Praça dos Trabalhadores.

 

Outro arco triunfal, junto ao Capitania Building, à esquerda.

 

A (então) Rua D. Luiz (depois a Consiglieri Pedroso), onde desemboca na Praça 7 de Março, pronta para uma parada. A actual Casa Amarela, ou Museu da Moeda, fica situada mesmo atrás do kiosk que se vê à frente.

 

Na estação ferroviária de Ressano Garcia, junto à fronteira com a África do Sul, oficiais portugueses e dos caminhos de ferro da África do Sul posam junto da locomotiva da classe 6L.2, dos caminhos de ferro da África do Sul, que transportaria a carruagem real desde a fronteira moçambicana até Pretória.

 

O PRÍNCIPE REAL D. LUIZ FILIPE DE ORLÉANS E BRAGANÇA EM LOURENÇO MARQUES, 1907

Imagem retocada.

Fotografia dos arquivos sul-africanos, tirada por W. Hackett, durante a visita do Príncipe herdeiro a Lourenço Marques, Julho de 1907.

 

SAR o Príncipe D. Luis Filipe em Lourenço Marques, Julho de 1907.

09/04/2020

A DUQUESA DE AOSTA VISITA O CENTRO DE MOÇAMBIQUE, 1909-1910

Helena, Princesa de Órléans, mais tarde Duquesa de Aosta (1871-1951), já foi por mais que uma vez mencionada neste blog, aqui. Era uma irmã mais nova da última rainha portuguesa, Amélia. Teve a particularidade de ter feito várias longas viagens por África, a segunda da qual (que durou 9 meses) incluiu, entre Dezembro de 1909 e Janeiro de 1910, uma épica e memorável paragem na Beira (nomeada pelo seu sobrinho, o Príncipe Luis-Filipe, herdeiro da coroa portuguesa) e uma visita a uma região ali perto, o Búzi e Luzitânia, onde pelos vistos andou nas caçadas, pelo que era conhecida. As viagens da Duquesa foram organizadas pelo Marquês de Piscicelli, um amigo que tinha alguma experiência de África e que aparece numa das vinte fotografias em baixo, que foram todas tiradas pelo fotógrafo I.R.Carvalho, que sempre se lhe referia como “S.A,”, para Sua Alteza Real. Helena usava muito a fotografia nas suas viagens.

Fotografias copiadas com vénia e retocadas, a partir das digitalizações no Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Lisboa.

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2. Piscicelli à direita.

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04/04/2020

APÓS O ARMSTÍCIO EM MOÇAMBIQUE, 1918

Filed under: Paul Emil Lettow von Vorbeck — ABM @ 20:43

Imagem retocada.

Este postal acaba por ser um pouco de propaganda a posteriori para consolo dos “aliados” portugueses e britânicos. Os britânicos tinham pouco mais que desprezo pelos seus “aliados centenários”. Na realidade ambos pouco conseguiram para impedir Paul Emil Lettow von Vorbeck de semear a confusão no Norte de Moçambique, os portugueses tendo sido particular e quase espectacularmente ineptos. O genial general alemão entregou-se pacificamente, uns dias depois de assinada a rendição alemã. O prémio de consolação português? O Triângulo de Quionga.

Amigos ma non troppo.

03/04/2020

PARADA MILITAR EM LOUREBNÇO MARQUES, ANOS 1960

Imagem retocada.

Penso que esta deve ter sido uma das paradas por ocasião do feriado do 10 de Junho em Lourenço Marques.

 

A Praça Mouzinho de Albuquerque em Lourenço Marques, vista do Prédio Funchal.

01/03/2020

A GRANDE PANDEMIA MUNDIAL DE 1918-1920 EM MOÇAMBIQUE

Filed under: A Grande Pandemia Mundial de 1918-20 — ABM @ 22:35

Há exactamente cem anos, aconteceu a que provavelmente foi maior tragédia humana na história recente de Moçambique, pior que a mortífera década de seca entre 1830-1840 que incendiou as migrações e lutas tribais da altura, trazendo os Suázis e um ramo dos Zulus para a metade a Sul do território que hoje é Moçambique, causando inúmeras mortes e derrubando a ordem estabelecida, com impacto na sua história até aos dias que correm .

O tratamento científico do assunto desta tragédia praticamente não existe na literatura, e ainda menos no que está publicado em língua portuguesa. A Grande Pandemia Mundial de 1918-1919, também chamada Gripe Espanhola (que, de espanhola nada tem) praticamente não consta nos registos formais, nem tão pouco (com talvez uma excepção) parece ter havido uma recolha e análise dos registos da imprensa e arquivos coloniais moçambicanos da altura, sendo necessário aprofundar mais este conhecimento para se terem os factos.

Em parte isto sucedeu porque na altura decorria a Primeira Guerra Mundial e, com raras excepções, a imprensa era controlada e censurada, pelo que a informação pública era manipulada para manter o foco no esforço de guerra e impactar a moral das populações e simplesmente não fluía. Desde Agosto de 1914, as nações envolvidas no esforço da guerra, centrado na Europa, dispendiam enormes recursos materiais e humanos, desviando-os do consumo de civis, donde resultaram fragilidades significativas, nomeadamente na sua nutrição e estado de saúde, agravado pelos factos de que na altura a medicina ainda se encontrava num estado de sofisticação muito mais rudimentar que o que conhecemos hoje em dia e as condições sanitárias das populações eram muito mais débeis. Um factor adicional foi o enorme aumento nos movimentos de pessoas e bens desde o fim do Século XIX, o que tornou possível a trasmissão do vírus.

Em 1914, apesar da actual retórica anti-colonial, Moçambique permanecia adormecido numa espécie de profundo sono pré-colonial. A seguir à paradigmática mas cirúrgica  investida de Mouzinho no Sul, vinte anos antes, a esmagadora maioria da população vivia desagregadamente no mato, de auto-sustentação e no mais em primitivo e esplêndido isolamento, as excepções sendo o ocasional surgimento de um português (ou estrangeiro, no caso das companhias majestáticas) a fazer negociatas, a querer cobrar impostos ou querer impor às populações serviços à borla. Na costa, o domínio colonial era uma ficção, vagamente sustentada pela invocação de tratados europeus em que era afirmada a soberania portuguesa, suportada por uns barquitos obsoletos. Um punhado de portugueses habitava, precariamente, em Lourenço Marques, a Ilha de Moçambique, o Ibo e a Beira.

Aparte a África do Sul, por causa do ouro e os diamantes e os Boers e os Britâmicos, não era assim tão diferente do resto de África, sendo que os outros ainda tinham algum dinheiro para fazer o colonialismo. Os portugueses, falidos, endividados e agora republicanos, não tinham e mantinham um “império” multicontinental quase impossível de gerir.

O início da Guerra, no final de 1914, faria prever algum crescimento económico, mas nem isso aconteceu. Por razões internas e de algum chico-espertismo, Portugal lembrou-se de fazer “alguma” guerra em Moçambique, que, para além de basicamente ter sido uma longa e mortífera palhaçada para putativos colonos e colonizados, teve o vago mérito de servir de (pequenino) palanque para os líderes da nascente (e moribunda) república, se sentarem em Versalhes, ainda assim em bicos dos pés, reclamando recompensas pelo sangue vertido e os sacrifícios feitos.

A única recompensa acabou sendo a “devolução” do Triângulo de Quionga (em frente ao qual está quase todo o gás de que se fala agora).

E é neste contexto, praticamente no fim desta guerra, que acontece a Pandemia.

A Gripe Aviária

Um artigo publicado em Novembro de 2018 sobre o grau de preparação dos países africanos para uma epidemia de gripe descreve assim o contexto geral e o percurso deste tipo de calamidade (tradução minha):

A gripe aviária de alta patogenicidade (vírus do tipo H5N1) não costuma infectar seres humanos, mas representa uma grande ameaça na forma da sua transferência da população animal para a humana, muitas vezes com resultados fatais quando os seres humanos estão infectados. Como exemplo, entre 1990 e 2000, o vírus aviário H5N1 circulou ativamente ininterruptamente entre aves migratórias e animais na Ásia, Europa e Mediterrâneo, dando assim a perspectiva de um sério surto de pandemia de gripe em humanos.

A gripe pandémica é uma doença rara causada por um novo vírus da gripe, um subtipo que tem a capacidade de causar uma transmissão sustentada de humano para humano e para o qual a população tem pouca ou nenhuma imunidade. Historicamente, houve 31 possíveis surtos de gripe desde 1580, ocorrendo aproximadamente a cada 15 anos, com 3 ocorrendo no século XX: os surtos de 1918, 1957 e 1968. O surto de influenza pandêmico de 1918 foi o mais devastador, causando entre 50 e 100 milhões de mortes no mundo. Na África, a contagem da fatalidade da gripe pandêmica foi de 2,3 milhões de mortes, o que é considerado subnotificado. As gripes pandêmicas de 1957 e 1968 em África causou cerca de 2 a 3 milhões e 1 milhão de mortes, respectivamente. No século XXI, uma pandemia de gripe ocorreu em 2009, causando 18.156 mortes em todo o mundo.

O Que Foi a Pandemia de 1918

A Pandemia de Gripre de 1918 (Janeiro de 1918 -Dezembro de 1920, vulgarmente conhecida como Gripe Espanhola) foi uma pandemia gripal mortal, envolvendo (sabe-se hoje) o vírus da gripe H1N1, que infectou cerca de 500 milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo pessoas em ilhas remotas do Oceano Pacífico e no Ártico, que resultou na morte de entre 50 e 100 milhões (três a cinco por cento da população total da Terra na altura), tornando-se um dos desastres naturais mais mortíferos da história humana.

A gripe, como todas as gripes, era transmitida por via áerea. Quando uma pessoa doente tossia, expelia cerca de um milhão de partículas, infectando todos à sua volta.

Três Ondas Mortíferas

A pandemia espalhou-se e impactou todo o planeta em três surtos, ou “ondas”. A primeira começou no início de 1918, a segunda começou em meados de 1918 e a terceira em meados de 1919.

Ao contrário do comportamento habitual das gripes, a Primeira Onda desenvolveu-se não no inverno mas na Primavera e início do Verão de 1918 (no Hemisfério Norte) mas já tinha algumas particularidades, nomeadamente as suas caracerísticas eram algo diferentes das tipologias habituais (provocando dúvidas no seu diagnóstico), era mais agressiva do que o habitual e apesar de atingir as partes da população “habituais” – os mais novos, mais velhos e pessoas com sistema imunitário comprometido – atingiu já algumas pessoas adultas e saudáveis. O ciclo desta primeira onda durou entre 4 a 6 semanas.

Quando a primeira onde passou, matando já milhões de pessoas, causando enorme confusão e sobrecarregando as parcas infra-estruturas de saúde, toda a gente pensava que, ainda assim, a pandemia tinha acabado.

Mas aconteceu precisamente o contrário.

A segunda onda, que começou no fim do Verão de 1918 no Hemisfério Norte, foi tão rápida e arrasadora como inesperada. Desta vez, apesar de não causar mortalidade nas pessoas previamente afectadas na primeira onda (donde se deduz que o segundo vírus tinha uma relação com o primeiro, causando alguma imunidade nestas pessoas) teve a particularidade de causar elevadíssimas taxas de mortalidade em pessoas que não tinham apanhado a gripe na primeira onda, e desta vez, especialmente, em pessoas adultas e saudáveis.

Foi uma razia assassina, em todo o mundo. Num espaço de apenas 4 a 7 semanas, centrada no mês de Outubro de 1918, dezenas e dezenas de milhões de pessoas morreram em todo o mundo.

A terceira onda, em meados de 1919, foi basicamente semelhante à primeira, mas quase residual por comparação com a segunda.

A Pandemia na África do Sul

Por ser um país vizinho e mais entrosado com a economia e a população de Moçambique (a Sul da Latitude 22 graus Sul) , importa ver o que aconteceu na África do Sul, uma vez que existem registos e estudos para este país – ainda que as estatísticas e outros aspectos sejam ainda alvo de revisão. Assim, o sítio sul-africano Health24 resume assim o que aconteceu na vizinha África do Sul:

  • A África do Sul foi o quinto do mundo país mais atingido pela gripe de 1918. Quase tantos sul-africanos morreram com a gripe de 1918 como morreram cidadãos norte-americanos.
  • 1,6 – 3 milhões de pessoas de uma população de cerca de 6 milhões – ou seja, metade de quem vivia na África do Sul – apanhou a gripe.
  • Quase meio milhão de pessoas morreu da epidemia de gripe na África do Sul.
  • Dois terços dos que morreram viviam na região da Cidade do Cabo.
  • Entre 23 e 44 em cada mil pessoas no país morreram da gripe (2-4 por cento do total).
  • Na Segunda Onda, estima-se que cerca de 140.000 pessoas morreram em apenas sete semanas, entre Setembro e Outubro de 1918:

Excepto da tese de Howard Philips (1984, pode ler lida descarregando o texto numa das fontes indicada em baixo) descrevendo a chegada da Segunda Onda da Pandemia à Cidade do Cabo, Setembro de 1918.

Segundo uma investigação pioneira de Howard Philips, a Segunda Onda foi primeiro visível com a chegada à Cidade do Cabo, no dia 13 de Setembro de 1918, do Juroslav, um navio com cerca de 1300 nativos sul-africanos regressados da Europa (desmobilizados da Guerra) e que fizera uma paragem em Freetwon, na colónia britânica de Sierra Leone (pág.24). À primeira, os responsáveis pela saúde pública isolaram o grupo, mas, não detectando nada, permitiram que essas pessoas se metessem em comboios e fossem para suas casas, nos dias 16 e 17 de Setembro. Dois dias depois, o vírus espalhara-se até Joanesburgo.

Mas há outros cenários e versões de como o virus chegou à África Austral.

O vírus surge em operários da minas de ouro em Joanesburgo em 18 de Setembro de 1918. Na tese acima, o autor expressa dúvidas (págs.10-11) quanto a se o surto originou em mineiros vindos de Durban ou do Sul de Moçambique.

Durante o mês de Outubro de 1918, dos 190 mil mineiros em Joanesburgo, 60 mil tiveram a gripe e milhares morreram.

No início de Novembro de 1918, as autoridades detectaram a chegada de mineiros de Moçambique já afectados com o vírus da Segunda Onda, de longe o mais mortífero. Num acordo assinado entre as autoridades sul-africanas e portuguesas a Wenela (a Witwatersrand Native Labour Association, entidade que retinha o monopólio do recrutamento de mineiros em Moçambique) suspendeu temporariamente o recrutamento no início de Dezembro (págs. 13-14), acordando ainda que os moçambicanos já nas minas permanecessem (forçosamente) no Transvaal durante este período. O acordo vigorou até Março de 1919 e voltou a ser imposto em Maio desse ano, quando se verificou a chegada da Terceira Onda. Exceptuando os 160 mineiros moçambicanos já hospitalizados e a morrer, os restantes aceitaram resignados a imposição das autoridades (pág. 19).

O impacto desta situação nas operações (e nos lucros) das minas foi muito significativo. Se as minas já tinham uma falta de pessoal estimada em 26 por cento antes da Segunda Onda, no final de 1918, segundo o relatório do Presidente da Chamber of Mines (citado por Philips), essa falta havia ascendido para 38 por cento. A situação foi considerada tão má que foi considerado reverter a proibição de recrutamento de mineiros a Norte da Latitude 22 graus Sul, imposta em 1913 devido à alegada detecção de uma muito elevada taxa de mortalidade entre as pessoas vindas dessas áreas. Sendo que a Latitude 22 graus Sul era a delimitação dos territórios sob administração da majestática Companhia de Moçambique. No entanto, no final, a proibição manteve-se (págs. 16-17).

(Como ilustração, a localidade de Vilanculos assenta quase exactamente na Latitude 22 graus Sul).

Na sua tese, Philips descreve em detalhe a progressão da Segunda Onda da Pandemia na Cidade do Cabo, em Kimberley (onde, em Outubro, um quarto dos cerca de 11.5 mil mineiros num campo morreram), em Bloemfontein, e no Transkei, a única zona africana rural alvo do seu estudo, com relevância em termos de ilustrar o que poderá ter sucedido nas zonas rurais de Moçambique.

Dados de Moçambique

Moçambique não escapou aos efeitos da Pandemia de 1918-1920. Para além das ligações com os países vizinhos, alguns portos de Moçambique estavam ligados a Portugal europeu por barco. E sabe-se que Portugal sofreu igualmente os efeitos da Pandemia.

Mas não conheço ainda estudos e evidências formais em relação ao que, precisamente, sucedeu em Moçambique. As únicas evidências, circunstanciais, chegaram-me de Alfredo Pereira de Lima e da sua Filha Cristina e ainda de um artigo académico da autoria do Dr. Júlio Machele, actualmente professor de História na Universidade Doutor Eduardo Mondlane, (ver a ligação para o seu artigo em baixo).

A primeira evidência já foi referida aqui e merece ser repetida. A propósito de um curto texto sobre os cemitérios de Lourenço Marques, Cristina Pereira de Lima escreveu:

“Pouco depois do final da Grande Guerra de 1914-1918 , para acorrer aos enterramentos em massa das muitas centenas de indígenas vitimados pela epidemia pneumónica, foi inaugurado o Cemitério de São José de Lhanguene.”

O então cemitério da Cidade, o São Francisco Xavier, já estava quase cheio e não havia maneira de acudir aos enterros em massa.

A segunda evidência é contida num segundo relato de Cristina Pereira de Lima, numa mensagem inédita que me enviou uns dias depois:

 A vida do meu Pai {o historiador de Moçambique Alfredo Pereira de Lima] tem tudo a ver com a peste bubónica[surto de 1918-1920] . O meu Avô {paterno] morreu no Chongoene juntamente com a sua população. Recusou-se a sair e tratava dos doentes nas palhotas e nas aldeias. Ele era administrativo e foi também infectado. Foi a população que tratou dele e que o enterrou no mato quando ele morreu. A minha Avó tambem foi infectada e levada para as palhotas, onde foi tratada com ervas e plantas e o meu Pai foi cuidado por eles todos, o meu Pai que tinha então apenas um ano e tal [de idade]. O meu Avô morreu com 29 anos de idade. Eram os únicos três brancos que viviam no Chongoene. É uma história muito bonita de sacrificio e abnegação do meu querido Avô que muito me comove. O meu Pai ficou órfão com 1 ano de idade.

Um exemplo de como o vírus se espalhou é contido no relato de Anne Rasmussen, uma britânica, na altura bebé, que penso cita o seu Pai:

Este é o caso do navio a vapor português “Moçambique”, fretado para o repatriamento das tropas portuguesas que, na colónia com o mesmo nome, participaram da Força Expedicionária contra as forças alemãs na África Oriental. Deixando a Ilha de Moçambique em 12 de Setembro, ele entrou na Cidade do Cabo no dia 29, onde a praga atingiu proporções aterradoras, particularmente entre os trabalhadores nas docas e encarregados de abastecer os navios. Em 1 de outubro, o navio deixou este vulcão pestilento e, no dia 4, estava cheio de pedidos aos médicos a bordo de soldados afetados pela gripe pneumónica; a primeira morte foi no dia 6; em rápida progressão, a contagem no dia 11 foi 43 mortes em 24 horas … da população total do navio, que era de 952 pessoas, 199 morreram durante a viagem para Lisboa, onde este navio sombrio ancorou em 21 de Outubro, e onze outras mortes ocorreram após o desembarque. Por outras palavras, a mortalidade geral chegou a 22%. Os 558 soldados que retornaram de uma estadia insalubre e se reuniram na quarta classe perderam 180 deles, 32,2%, ou quase um terço. [um livro de Ricardo Jorge de 1919,, referenciado em baixo,analisa em detalhe o caso do navio Moçambique]

Num artigo de José Manuel Sobral e Maria Luísa Lima sobre a pandemia, é referido que cerca de 135 mil portugueses residentes em Portugal metropolitano morreram durante esta pandemia, a maioria durante a Segunda Onda.

O artigo do Professor Júlio Machele refere alguns dados e ainda alguns testemunhos que atestam a natureza da pandemia (que refere muitos em Moçambique chamarem Xyponyoli, uma bastardização do termo português Espanhola, designação comum na altura) e a sua prevalência em quase todos os os pontos de Moçambique.

Acresce que, em 1918, exceptuando os hospitais em Lourenço Marques e na Ilha de Moçambique, vocacionados para servir as parcas populações urbanas, o aparato sanitário e de saúde era praticamente inexistente. A maior parte da população sofreu os efeitos das pandemia sem qualquer assistência a não ser eventualmente a medicina dos curandeiros locais.

Fontes

https://en.wikipedia.org/wiki/Spanish_flu

https://www.health24.com/Medical/Flu/The-1918-epidemic

https://open.uct.ac.za/bitstream/handle/11427/7852/thesis_hum_1984_phillips_h.pdf?sequence=1

https://www.academia.edu/13879389/_Xiponyola_The_Spanish_Influenza_in_Mozambique_1918-1919

Jorge, Ricardo (1919). La Grippe. Lisbonne: Imprimerie Nationale.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6236890/

 

12/12/2019

“BEIRA”, NOVO LIVRO SOBRE A CIDADE DA BEIRA, LANÇADO DIA 17 DE DEZEMBRO DE 2019

Filed under: Beira - novo livro 2019 — ABM @ 02:30

Na próxima terça-feira, 17 de Dezembro de 2019, pelas18 horas, vai haver uma cerimónia a assinalar a publicação de uma obra sobre a Cidade moçambicana da Beira, intitulada, somente, “Beira”, da co-autoria de Augusto Nascimento, o moçambicano Aurélio Rocha e Eugénia Rodrigues.

A cerimónia, que é aberta ao público (incluindo os exmos. Leitores que se interessem) vai ter lugar no Anfiteatro 3 da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (que fica algures ao pé do Campo Grande) e inclui uma apresentação pelo Doutor Pedro Aires Oliveira, um dos nossos craques em História, sobre o seu conteúdo.

Tanto há a aprender e ainda mais a dizer sobre a cidade moçambicana da Beira, criada cerca de 1890 no lado Norte da foz do Rio Pungué, mais ou menos a meio do que hoje é Moçambique, como sede da Companhia de Moçambique, uma das entidades majestáticas que fizeram o dúbio frete de trazer o colonialismo moderno à África Oriental Portuguesa e que durou uns cinquenta anos.

A Beira, inicialmente quase só britânica, centrava-ve em administrar e explorar o território que integrava a concessão da Cia. de Moçambique e a assegurar a ligação das Rodésias britânicas ao mar. Oito décadas mais tarde, cresceu e nos anos 70 era mais “portuguesa” e surge como a segunda cidade do nascente país. E desde então decorreram quase mais cinco décadas, em que a África negra entrou naquela espécie de reduto branco, entretanto virtualmente abandonada pelos anteriores residentes. Olhando para a Beira de hoje, o seu património e o seu passado, o que dizer? Do que penso que me apercebi de uma conversa com um dos co-autores, a obra agora a publicar faz um conjunto de reflexões sobre estas e outras temáticas, usando o presente da Cidade como referência.

 

Capa

Convite público.

10/12/2019

100 ANOS DA FUNDAÇÃO DO JORNAL O EMANCIPADOR EM LOURENÇO MARQUES

Filed under: 100 Anos do jornal O Emancipador — ABM @ 22:45

Numa louvável iniciativa dos académicos Luis de Carvalho, e Carlos Lopes Pereira, e ainda A Voz do Operário e o Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, vai haver no próximo sábado na sede da Voz do Operário no centro de Lisboa (ver detalhes em baixo) uma cerimónia a assinalar a fundação do jornal O Emancipador em 1919 e que circulou em Lourenço Marques, com as habituais peripécias, até ser “suicidado” pelo regime em 1937.

A cerimónia inclui abordagens ao tema por Luis de Carvalho e Carlos Lopes Pereira e récitas por Elsa de Noronha e Alexandre de Sousa.

Sugiro ao exmo. Leitor que segue estas coisas que vá lá assistir, é um sábado à tarde e a coisa promete.

16/09/2019

LOURENÇO MARQUES EM 1960 E EM 1887: UMA COMPARAÇÃO

Comparação feita por mim, a “olhómetro”.

 

A Baixa de Lourenço Marques cerca de 1960.

 

A- Definida pela linha cor de rosa, a antiga Enseada da Maxaquene, aterrada a partir de 1919; B – Definida pela linha a vermelho, a “ilha” que constituía o núcleo original da Cidade; C- Definido pela linha a verde, o Pântano que separava a “ilha” de (digamos) terra firme; 1- o aterro esteve quase intocado durante 40 anos, coberto por arvoredo; 2 – a antiga Câmara Municipal de Lourenço Marques em frente ao Desportivo, que originalmente ficava mesmo em frente à Praia da Câmara; 3- O Jardim Vasco da Gama, agora Tunduru, que tocava o Pântano a Sul; 4- O terreno na esquina da Avenida da República com a D. Luiz (hoje 25 Setembro com Samora Machel) onde ficava a estrada de acesso pelo Pântano ao núcleo original da Cidade; 5- O Presídio de Nossa Senhora da Concieção, que ficava directamente em frente à Baía; 6- A Praça 7 de Março (hoje 25 de Junho) originalmente Praça da Picota, o primeiro espaço público da Cidade; 7- A Avenida da República (hoje 25 de Setembro) coincide mais ou menos com a margem Sul do Pântano.

 

A Cidade em 1887. A verde azeitona, o Pântano. 

10/09/2019

PEÇA DE TEATRO ESCOLAR EM LOURENÇO MARQUES, 1901

Imagem retocada.

Em baixo, uma reportagem da Ilustração Portugueza, 29 de Junho de 1908, sobre os primórdios da escolaridade em Lourenço Marques. Correctamente, a peça começa referindo o lamentável estado da educação portuguesa de então, como preâmbulo para o facto da educação quase inexistente na sua segunda maior colónia, que era uma espécie de Faroeste português em África.

1 e 2

2 de 2

07/09/2019

A ENTRADA DO JARDIM VASCO DA GAMA EM LOURENÇO MARQUES, 1935

Imagem retocada.

 

Na pequena praça em frente à entrada principal do Jardim Vasco da Gama, em 1939 seria colocado um monumento a assinalar a passagem pela Cidade do Presidente Óscar Carmona, em 1939. A mesma seria retirada em 1975 e uns anos depois seria ali colocada uma pequena estátua do Presidente Samora machel.  Na esquina do terreno em cima à esquerda, seria colocada em 1972 a Casa de Ferro. Note-se,, ainda no cimo da fotografia, o topo da velha Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que seria demolida em 1944, e onde depois seria construída a sede do Rádio Clube de Moçambique.

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