THE DELAGOA BAY WORLD

16/10/2017

A ÚLTIMA FOTOGRAFIA DE PAUL KRUGER TIRADA NO TRANSVAAL PELOS IRMÃOS LAZARUS, SETEMBRO DE 1900

No final da primeira fase da II Guerra Anglo-Boer, em Setembro de 1900, os fotógrafos e irmãos Joseph e Maurice Lazarus, cidadãos britânicos judeus então recentemente radicados em Lourenço Marques, onde abriram um estúdio na Rua Araújo ali perto da Praça 7 de Março, , deslocaram-se até ao Transvaal, nomeadamente à zona mais perto da fronteira portuguesa de Moçambique, para fazerem alguma cobertura dos eventos da guerra.

 

A última fotografia de Paul Kruger antes de partir para o exílio, Setembro de 1900, tirada pelos Irmãos Lazarus. A indicação do mês está errada.

Nessa altura, a pequena Lourenço Marques vivia em polvorosa, cheia de britânicos e vários estrangeiros, inundada por refugiados boer e as suas famílias, o porto bloqueado pela Armada britânica, carregamentos de toda a espécie a chegar e a serem vistoriados. A pequena Cidade era um dos epicentros do grande conflito envolvendo a então maior potência mundial, a primeira guerra seguida pelo mundo inteiro via relatórios enviados por telégrafo, e por fotografia.

Um dos episódios mais memoráveis de toda a guerra, que reflecte a nova mediatização, foi a captura pelos Boers, e subsequente fuga, de um jovem aristocrata britânico que era um mistura de aventureiro imperial e jornalista, chamado Winston Churchill. Capturado e aprisionado em Pretória, Churchill foge a pé e por comboio para Lourenço Marques, onde se hospeda em casa do cônsul britânico local, e imediatamente redige um longo relato, que envia para os jornais de Londres pelo telégrafo local, causando uma enorme sensação entre o público inglês e tornando-o famoso mundialmente.

Ainda hoje, no edifício da antiga residência consular em Maputo, ao pé do antigo Rádio Clube, uma placa assinala a passagem de Churchill por Lourenço Marques em Dezembro de 1899. Só ficaria dois dias na Cidade, tendo logo apanhado um vapor para Durban, onde foi recebido por uma enorme multidão e aclamado como um herói. Nessa altura, coincidentemente, na capital do Natal vivia com a sua família um jovem tímido português com 11 anos e meio de idade, chamado…..Fernando Pessoa.

 

Por sua parte, entre vários outros problemas bilaterais, Portugal procurava suster o embate e a pressão britânica no sentido de derrotar os Boers.

 

Uma caricatura política publicada numa revista do Reino Unido em 1900, a atacar a suposta cumplicidade entre portugueses e boers em Lourenço Marques no transporte de armamentos para o Transvaal via o porto e caminho ferro de Lourenço Marques, apesar do boicote britânico e o compromisso formal do governo português de que por ali não estariam a passar armamentos para Pretória. Na imagem, o pequeno agente alfandegário português em Delagoa Bay (nome por que então era conhecida Lourenço Marques no mundo anglófono), tendo atrás de si armas muito mal dissimuladas, pergunta a um boer se tem algo a declarar nomeadamente se tem contrabando. Ao que o Boer responde “não, Deus, claro que não”.

No Transvaal, as tropas britânicas acabavam de tomar Johannesburgo e Pretória e dirigiam-se para Leste, na direcção da fronteira moçambicana ao longo da linha de caminho de ferro que ligava Pretória a Lourenço Marques e que ainda permanecia sob controlo Boer.

Saído de Pretória num dos últimos comboios antes da chegada à capital do exército imperial britânico, Paul Kruger, o Presidente da então República Sul-Africana (o nome formal do Transvaal) dirige-se primeiro para Machadodorp, a cerca de 200 quilómetros de Pretória, onde fica umas semanas, e em seguida segue para território português, atravessando a fronteira no dia 11 de Setembro de 1900. Em Lourenço Marques, território formalmente neutral, ele permanece durante umas semanas, hospedado em casa de Gerard Pott, o ainda seu cônsul-geral na Cidade, até partir para a Europa em 19 de Outubro de 1900. Kruger não regressará a África, falecendo na Suíça em 1904. Uns meses depois, os seus restos mortais serão depositados solenemente num cemitério em Pretória, junto dos de sua mulher, que falecera em 1901, já após a conquista e ocupação britânica daquela cidade.

 

A bordo do navio de guerra do Reino dos Países Baixos Die Gelderland, e acompanhado pelo seu guarda-costas e mais tarde secretário, Hermanus Christiann Bredell, o Presidente Paul Krueger deixa Lourenço Marques no dia 19 de Outubro de 1900. Ao fundo, a Catembe. (fonte)

 

Os Irmãos Lazarus ainda permaneceram em Komatipoort alguns dias, a tempo de verem chegar o exército britânico à pequena vila fronteiriça, e de fotografarem algumas cerimónias protocolares ali ocorridas.

 

Esta imagem, extemporânea ao tema do conhecido álbum editado pelos Irmãos Lazarus, Views of Lourenço Marques, de 1901, mostra uma parada de elementos do exército imperial britânico em Komatipoort, no dia 28 de Setembro de 1900.

 

Joseph e Maurice Lazarus trabalhariam durante cerca de oito anos em Lourenço Marques, após o que se mudaram de armas e bagagens para…..Lisboa. Mas essa é outra história, cuja elaboração muito deve ao Grande Paulo Azevedo.

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10/10/2017

O PRIMEIRO NÚMERO DE “O AFRICANO”, PUBLICADO POR JOÃO ALBASINI EM LOURENÇO MARQUES, 1908

João dos Santos Albasini nasceu em Magul em 1876 e faleceu em Lourenço Marques em 1922, com apenas 46 anos de idade. Membro do lendário Clã Albasini, fundado pelo Avô homónimo (1813-1888), fez marca no início da história moderna de Moçambique como um jornalista e escritor, sendo de destacar ter fundado (com o seu irmão José) em 1908 o jornal O Africano, a primeira publicação de imprensa de e para não-brancos em Lourenço Marques(incluindo ser parcialmente escrito na língua Ronga), de breve duração e,  em 1918, o semanário O Brado Africano. Em 1925, postumamente, foi publicado um livro com escritos da sua autoria, chamado O Livro da Dor.

João dos Santos Albasini fundou ainda o Grémio Africano, uma associação com relevância na futura dialética nacionalista em contraposição com o discurso colonial do tipo Portugal uber Alles, mas que inicialmente era essencialmente uma organização de carácter positivista, humanista e com foco na educação e nos “bons costumes” como a chave para a felicidade e a civilização, muito típica  das elites maçónicas de então.

O Número 0 de Africano, com a data da sua publicação, 25 de Dezembro de 1908.

Esta primeira edição de O Africano seguiu-se do primeiro número propriamente dito, que só saiu a 1 de Março de 1909. Num texto interessante de Hohlfeldt, refere o seguinte:

Financeiramente, sabe-se que foi ajudado, desde o início, por um grupo maçônico, de que faziam parte, dentre outros, o capitão Francisco Roque de Aguiar, presidente do Capítulo da instituição; o Dr. Jaime Ribeiro, militante socialista, e José Corrêa da Veiga. A publicação era semanal e foi suspensa poucas semanas depois, reaparecendo em 1912, sob a mesma equipe original, a qual se somou José dos Santos Rufino, como secretário de redação e administrador. O Africano, desde o início, tinha tipografia própria, do próprio João Albasini e de Santos Rufino, que passou a ser seu diretor e editor. 

Para saber mais sobre este assunto, penso ser quase obrigatório ler a recente (2015) obra de Fátima Mendonça e César Braga Pinto, João Albasini e as Luzes de Nwandzengele.

 

A CANHOEIRA CHERIM E O INÍCIO DO DOMÍNIO PORTUGUÊS EM MOÇAMBIQUE

Um sítio de leilões pela internet em Portugal recentemente leiloou as duas fotografias que se seguem. Chamou-me a atenção a breve referência, feita nas anotações, a Moçambique.

A Canhoeira Cherim, em Moçambique.

 

O pessoal da Canhoeira Cherim, fim do Século XIX. Brancos para um lado, pretos para o outro….enfim.

No último quartel do Século XIX, a Cherim fazia parte, juntamente com a Maravalt, da chamada Esquadrilha do Zambeze, encarregada de fazer algum policiamento português naquele rio e promover o que se chamavam “acções de soberania”, sendo que a soberania portuguesa, quer sobre a navegação do rio, quer sobre os territórios por onde passava, não estava mínimamente assegurada, nem era ainda reconhecida internacionalmente (para ser mais específico: reconhecida pelas restantes potências europeias com interesses semelhantes, de que destacava o Reino Unido, desde que o Dr. Livingstone publicara o seu livro essencialmente a dizer que aquilo era bom era para o Império Britânico).

Ou seja, quando o punhado de portugueses no Zambeze não estavam aos tiros com os nativos, estavam aos tiros com os britânicos.

A Cherim foi, juntamente com a Cuama, adquirida em 1889 por Portugal na Inglaterra para servir a Real Marinha de Guerra Portuguesa nos rios de Moçambique e ambas serviram naquele território entre 1889 e 1903.  Trata-se de um navio de uma roda propulsora movida a vapor, que deslocava 34 toneladas. Montava dois canhões-revólveres e duas metralhadoras.

Um breve e interessante texto de Francisco Gomes de Amorim, referente a João Azevedo Coutinho, uma das figuras incontornáveis nos anais da Marinha portuguesa e instrumental na formação do Moçambique colonial, refere assim o início da saga do então jovem João Coutinho no Norte do que é hoje aquele país – mencionando a Cherim:

Ainda não era oficial e já andava pela África, fazendo levantamentos no rio Muíte, defronte da ilha de Moçambique. Comandou, como guarda-marinha, na­quela colónia, os iates de vela “Luzio” e “Tungue”, e depois as canhoneiras “Maravalt e “Cherim”, o vapor “Auxiliar”, e mais tarde a “Liberal” e o transporte “Salvador Correia”.

Em 1885 combateu o régulo Sangage, que avassalou. Contava, então, vinte anos. Continuou a sua acção no Moguinquale e no Infusse.

Comandou a “Cherim” quando Serpa Pinto chegou à África com a sua missão encarregada de operar pelo lado do Zambeze, Chire e Ruo, nas vésperas do ul­timato. O fim da expedição consistia em manter o do­mínio português naquelas regiões onde os ingleses iam captando alguns régulos e entre eles o de Macololos.

Em 1889 foi encarregado de reduzir aqueles povos à obediência, em Chilomo, onde o gentio se entrinchei­rara. A tripulação da “Che­rim” compunha-se de dez brancos e trinta e quatro negros, que chegaram para vencer os rebeldes. O moço comandante viu o seu chapéu varado pelas balas.  Admirados pela vitória, os indígenas espalharam a sua fama e passou a ser conhecido por Musungo Icuro ou M’Pezene. Tomou a seguir as terras de Massea e Katunga; aprisionando o filho do soba e logo o régulo Gambi, estendeu o domínio português do Ruo ao Milange.

Portugal celebrou as suas vitórias e o nome do bravo tornou-se ilustre. Comandara vinte acções militares. O consul inglês Johnston, declarou que os Macololos estavam sob a protecção britânica e pretendeu impedir o avanço dos expedicionários, o que não conseguiu. Nasceu desta questão o ultimato [de 11 de Janeiro de 1890]. O seu nome ressoou mais intensamente e o Parlamento proclamou-o Benemérito da Pátria. Aos 24 anos de idade.

João Azevedo Coutinho, então um jovem, posa para uma fotografia com um miúdo. Tinha mais que 1.90 metros de altura. Aos 24 anos de idade era comemorado como um herói pelo establishment português e venerado na Vila onde nasceu, Alter do Chão.

Coutinho viria a desempenhar um papel crucial na imposição da Pax Lusitana na nascente colónia da África Oriental Portuguesa, pelo qual seria celebrado no seu país, intervindo contra os Namarrais, o Reino do Barué e noutros palcos, eventualmente sendo nomeado Governador-Geral, cargo que exerceu entre 1905-1906. Monárquico fiel ao seu Rei, a I República maltratou-o, forçando-o a uma longa travessia do deserto, que durou quase até à sua morte, em 1944. A sua imagem ilustrou as notas de cinquenta escudos em Moçambique entre 1970 e…..meados de 1980, quando a Frelimo introduziu o Metical e retirou o Escudo da circulação.

Nota de 50 escudos, que circulou em Moçambique entre 1970 e meados de 1980, com uma imagem de João de Azevedo Coutinho, neste caso já depois da Independência, como se pode ver pelo “Banco de Moçambique” estampado na face.

 

Quanto ao nome da canhoeira, a explicação é dada na página 106 de um livro de 1929 escrito por Sir Harry Johnston, um protagonista britânico da corrida a África  na segunda metade do Século XIX:

Excerpto do livro de Sir Harry, referindo a origem da designação usada para a Canhoera Cherim.

Cherim, é, então, o nome de um rio, tributário do Zambeze. O nome é um aportuguesamento de um termo usado localmente, significando “margem alta”. Ao rio os britânicos chamavam Shire e esteve na altura, no centro de um grande conflito diplomático entre Portugal e o Reino Unido.

18/09/2017

CHEGADA DO PRESIDENTE CRAVEIRO LOPES A QUELIMANE, 1956

Imagem da colecção de João Godinho, dedicada ao actual chefe da Frelimo na Zambézia, que há duas semanas acusou o actual autarca da Cidade de Quelimane, que não é do seu partido, de “querer trazer os colonos de volta”.

Francisco Higino Craveiro Lopes, que foi Presidente da República Portuguesa entre 1951 e 1958, teve uma relação especial com Moçambique, onde combateu na Primeira Guerra Mundial e onde se casou com Berta, uma jovem de Lourenço Marques. Membros da Família Craveiro Lopes cresceram e viveram em Moçambique.

 

À sua chegada a Quelimane, por avião, o Presidente Craveiro Lopes é recebido pelo Presidente da Câmara local, que lhe entrega uma recordação.

 

 

15/09/2017

RESIDENTES PORTUGUESES DE TETE, SÉC. XIX

Filed under: Portugueses de Tete Séc 19 — ABM @ 15:17

Imagem dos arquivos estatais franceses, retocada.

 

Portugueses de Tete. Onze.

JOSÉ DE ARÁUJO LOBO, CAPITÃO-MOR DO ZUMBO, SÉC. XIX

Filed under: José Araújo Lobo Capitão Mor do Zumbo, Zumbo — ABM @ 15:11

Imagem dos arquivos estatais franceses, retocada.

Para mais detalhes sobre a presença portuguesa no que é actualmente território de Moçambique a partir de 1505, e quem eram aos capitães-mor e o que faziam, ler aqui.

 

O Capitão-Mor do Zumbo e a sua família.

 

Localizada em Tete, o Zumbo é a localidade de Moçambique mais a Oeste.

 

10/09/2017

CELEBRAÇÃO DA BATALHA DE MAGUL, ANOS 50

Filed under: Batalha de Magul 1895, Gungunhana — ABM @ 21:36

Fotografia de Cristina Pereira de Lima, retocada por mim.

 

Uma missa campal em celebração junto de um monumento erguido no local onde se combateu a batalha de Magul, anos 50.

O colonialismo português naquilo que hoje é Moçambique começou em Outubro de 1894 em reacção a um ataque, por parte de um conjunto de tribos em redor da minúscula Lourenço Marques, à então pequena mas estratégica urbe, onde se ultimava a construção de uma linha ferroviária que ligaria a Baía com Pretória e Joanesburgo, e se planeava já a construção de um cais, mesmo ao lado dessa linha ferroviária. Entre Outubro de 1894 e Janeiro de 1895, quando finalmente chegou um navio com um punhado de tropas de Portugal e Angola, a pequena cidade contava impacientemente os dias, enquanto que ao larga na Baía um conjunto de navios estrangeiros marcavam presença para proteger os seus nacionais. A História regista que a pequena cidade foi salva de um saque na Batalha de Marracuene, um canto idílico uns 25 kms a Norte, junto ao Rio Incomáti, em 2 de Fevereiro de 1895 – um sábado.

Mas se essa vitória foi importante para Lourenço Marques, em pouco resolveu a situação em relação aos Ngunis, um grupo étnico zulu que, umas décadas antes, migrara para a região, vindo do Natal, e que, através de guerras e da força, submeteram uma parte substancial das tribos no Sul do que é hoje Moçambique.

O seu líder era Gungunhana, que estava no centro de intensas movimentações que envolviam, para além dos portugueses, que achavam que já tinham assegurado diplomaticamente os seus “direitos de soberania” junto do Reino Unido, em 1891, os britânicos que mandavam na África do Sul (de entre os quais se destacava Cecil Rhodes) e ainda os Boers do Transvaal. Na verdade, todos queriam Lourenço Marques, e achavam que Gungunhana poderia ser a chave para a expulsão dos portugueses de Lourenço Marques, abrindo a possibilidade de incorporar a região no Império britânico. Londres cumpriu o acordado, desencorajando as movimentações em curso no terreno e deixando Gungunhana entregue ao seu destino.

Estando os portugueses armados com metralhadoras Maxim, que os Ngunis não possuiam, e assentando a unidade nguni num precária alinaça de terror intertribal, a luta seria desigual.

A seguir à batalha em Marracuene, o pequeno destacamento português chegado em Janeiro a Lourenço Marques conduziu um conjunto de operações militares cirúrgicas (até porque não dispunham nem de meios humanos nem meios materiais) com o objectivo de neutralizar a ameaça militar dos Ngunis no Sul do então Distrito de Lourenço Marques.

E o momento-chave dessa estratégia foi a batalha de Magul, ocorrida naquele local em Gaza, a 8 de Setembro de 1895, um domingo.

O seu desfecho teria consequências claras: se os portugueses perdessem essa batalha, perderiam o Sul de Moçambique para Gungunhana e provavelmente para a África do Sul e Cecil Rhodes. Ao vencerem, efectivamente neutralizaram a ameaça Nguni e preservaram a então nascente colónia, tal como existe hoje a nação de Moçambique.

A prisão de Gungunhana, ocorrida dois meses e meio depois, foi uma iniciativa pessoal de um então oficial português pouco conhecido, contra as ordens expressas do Comissário Régio António Ennes. Se foi intensamente badalada e inspirou gerações de portugueses e mais tarde moçambicanos, de uma forma ou outra, a verdade é que o verdadeiro momento de viragem no conflito pelo controlo do território a Sul do Rio Save foi esta batalha em Magul.

07/09/2017

A MAÇONARIA EM MOÇAMBIQUE, 1900-1935: UMA NOTA

 

O Palácio Maçónico de Lourenço Marques, anos 20.

A presença, influência e impacto da maçonaria portuguesa em Moçambique colonial é ainda um assunto infelizmente pouco estudado. Mas para quem vai lendo e estudando a época entre 1890 e 1935, o tema é incontornável, no período dos últimos anos da Monarquia e especialmente durante a Primeira República (1910-1926) e até à proibição da existência das chamadas sociedades secretas por decreto de Salazar, em Maio de 1935.

Já dantes há notícia da presença de membros de lojas maçónicas no que é hoje território moçambicano. Num sítio da maçonaria portuguesa, que contém variados registos da actividade ao longo dos tempos, há variadas menções dessa actividade, desde pelo menos a segunda década do Século XIX, ainda que de forma incipiente, uma vez que a presença portuguesa naqueles territórios era praticamente inexistente, à excepção da pequena ilha de Moçambique.

Naquela altura, era relativamente comum “despachar” para Moçambique oponentes ao regime vigente. Durante a monarquia deportavam-se para Moçambique republicanos e membros da maçonaria (invariavelmente os republicanos eram membros da maçonaria) e depois do derrube da Monarquia, exilavam-se os monárquicos, alguns dos quais foram parar também a Moçambique – onde foram desportivamente marginalizados pelos republicanos maçónicos, que estavam nas posições-chave da administração colonial.

Conforme referi, António de Oliveira Salazar, na sua versão peculiar de ditadura conservadora católica, alteraria tudo isso.

A partir de 1935, tal como terá acontecido em Portugal, o movimento maçónico em Moçambique – ou o que sobrou dele – formalmente se desmembrou e suponho que uma parte passou a agir na clandestinidade.

Deve-se referir, no entanto, que, ao contrário de Portugal e da sua maior colónia – Angola – Moçambique, e em particular Lourenço Marques, a experiência maçónica foi muito diferente de qualquer ponto do então agregado colonial português, incluindo em Portugal. E isto por algumas razões interessantes.

  • Moçambique ficava muito distante de Portugal, e era, portanto, difícil de controlar e de monitorizar.
  • Moçambique estava rodeado por colónias e países sob tutela britânica, onde, quer por razões de formalidade, de costume e culturais, a actividade maçónica era vibrante, era legal, era aceite e era considerada socialmente positiva. Na União Sul-Africana, por exemplo, a actividade maçónica era um facto normal da vida, era conduzida totalmente em aberto e era, com raras excepções, universalmente aceite. Por toda a África do Sul, havia lojas maçónicas.
  • A deportação de membros da maçonaria para Moçambique só veio reforçar a sua presença e influência
  • A influência britânica em Moçambique, cuja comunidade até aos anos 20 funcionava quase como um estado dentro do estado, afectava a forma de encarar outras culturas, religiões e hábitos, que era quase completamente diferente daquilo que se observava em Portugal e Angola, que eram muito mais fechadas e expostas ao domínio e influência da Igreja Católica, adversária tradicional da diversidade religiosa e ainda mais dos movimentos maçónicos. No caso de Moçambique, para além duma fraca presença de portugueses e duma forte presença de estrangeiros (ao ponto de se considerar a colónia “perdida” para os portugueses e que como tal devia ser pura e simplesmente vendida), na sequência do Ultimato de 11 de Janeiro de 1890, a Grã-Bretanha impôs a Portugal a obrigatoriedade da observação da liberdade religiosa. E por essa via, presume-se, a liberdade de associação que está na base dos movimentos maçónicos.
  • Depreende-se, daquilo que se fez antes e especialmente a partir de 1910, que os maçónicos de Lourenço Marques estavam bem organizados e eram influentes. Estavam por detrás da criação do Jardim Vasco da Gama. Estavam por detrás da criação da Escola Primária 1º de Janeiro. Paulino dos Santos Gil, então um jovem empreendedor que se tornou no português mais rico de Lourenço Marques, pertencia à maçonaria ainda antes da República. A Associação dos Velhos Colonos de Moçambique, criada em 1919, tinha uma ligação com a maçonaria.

E a verdade é que a maior, mais visível, mais opulenta loja maçónica em território português, até hoje, foi o Palácio Maçónico de Lourenço Marques, pertencente à Loja do Cruzeiro do Sul, afiliada a uma ordem maçónica portuguesa.

A fachada do Palácio Maçónico de Lourenço Marques, em plena Avenida 24 de Julho, no meio da Cidade. Estimo que tenha sido edificado na segunda década do Século XX, ainda que haja menção de a loja em si ter sido iniciada em 1900.

 

Aspecto da sala principal do Palácio Maçónico de Lourenço Marques, final dos anos 20. Podem-se ler no centro, por cima dos símbolos, as iniciais da loja.  Foto da Wikimédia e Casa Comum.

 

Diploma do Grande Oriente Lusitano Unido, de 25 de Abril de 1905, em português, inglês e francês, a certificar que um certo indivíduo, com nome de guerra Luis de Camões, era um membro (“irmão”) da Loja do Cruzeiro do Sul em Lourenço Marques, exortando a que as organizações similares no resto do mundo prestem apoio.

 

Após a aprovação do Decreto que ilegalizou as chamadas sociedades secretas, presumo que a actividade maçónica passou a ser feita secretamente em Moçambique, como no restante território sob administração portuguesa. Mas, formalmente, as instituições foram desmanteladas. Algum tempo depois, o Palácio Maçónico em Lourenço Marques foi adquirido pelo Estado e convertido no que se tornou (e ainda é) a Escola Industrial de Lourenço Marques.

 

A Escola Industrial de Lourenço Marques, aqui em 1970, é o antigo Palácio Maçónico, alterado por algumas modificações estéticas e obras de ampliação.

Este é um tópico pouco fácil de estudar, pois o assunto tornou-se quase subversivo na sociedade de Moçambique após o decreto de 1935. Pouca documentação e testemunhos sobrevivem e ainda hoje, infelizmente, o assunto é quase tabu entre os descendentes dos antigos membros. A meu ver, erradamente. A História é o que é, e merece ser entendida.

Uma curiosidade quase maçónica: o Museu Álvaro de Castro era originalmente para ser uma escola primária, um tema favorito dos maçónicos, para quem a educação era uma virtude imperativa e uma prioridade da Primeira República, empenhada em retirar a igreja católica da educação pública. E Álvaro de Castro, que foi Governador-Geral na Primeira República, era, para além dum ferrenho, se exagerado, republicano, também membro da maçonaria. Mas o edifício ficou tão bonito que transferiram par ali o até então Museu Provincial, que durante vinte anos esteve alojado na casa Jóia, construída por Gerard Pott num terreno adjacente ao Jardim Vasco da Gama. E deram-lhe o nome de Álvaro de Castro.

 

DOM LUIS FILIPE DE PORTUGAL E A CIDADE DA BEIRA

 

Dom Luis Filipe de Bragança, o filho mais velho dos reis D. Carlos e D. Amélia. A Beira, então um ponto irrelevante mas estratégico na pantanosa e insalubre margem Norte do Rio Pungué, ficou destinada a ser o futuro ponto de acesso pelo mar para o centro da nascente colónia e para o então território da British South Africa Company de Cecil Rhodes, a Rhodésia. Em breve, teria um porto e uma linha férrea para o interior.

 

A Beira em 1891. Um buraco arenoso e pantanoso cheio de mosquitos e de malária.

 

Na fase inicial da Beira como povoado. Uma espelunca, tal, aliás, como Lourenço Marques, Inhambane, Tete, Porto Amélia e restantes Vilas e povoados, com a única excepção da pequena Ilha de Moçambique, mais a Norte. O que veio a ser Moçambique era então um imenso mato, ocupado por tribos que falavam línguas diferentes e a maioria das quais nem sabiam umas das outras e se guerreavam alegremente, com meia dúzia de intrépidos portugueses no meio. A consciência de “nação moçambicana”, uma importação europeia, levaria umas décadas a aparecer e mesmo assim apenas na classe mulata em e nos arredores de Lourenço Marques. Na inenarrável iniciativa de sub-aluguer de partes da então colónia a um punhado de “investidores estrangeiros” – ingleses, franceses, belgas e americanos- à Beira saiu-lhe na rifa passar a ser a sede da Companhia de Moçambique. Uma companhia majestática, com poderes do Estado delegados e licença para explorar tudo e todos. No fim, fez pouco porque não tinha dinheiro.

 

A implantação da linha de caminho de ferro para a Rhodésia do Sul. Para a Beira e o seu porto, era o “outro” negócio para além da Companhia de Moçambique. Na Cidade, os principais negócios eram ingleses e sul-africanos e mais depressa se falava inglês que português.

 

Como uma curiosidade, Luis Filipe de Bragança, a pessoa em honra de quem se deu o nome da Beira, visitou o local em 1907 (aqui vê-se a carruagem na qual deu uma voltinha pela então Vila), trazendo na sua bagagem a proclamação do Rei a elevar a Beira a Cidade. Um gesto simpático, se um pouco ousado.

 

Nas primeiras décadas do Seculo XX, a Beira era um agremiado de casas de madeira e zinco.

 

O brasão da Beira, na tradição das urbes portuguesas. Não sei qual o seu simbolismo.

25/08/2017

AS PORTAS PRINCIPAIS DE ACESSO À VILA DE LOURENÇO MARQUES, 1870: UMA EVOCAÇÃO

Filed under: As Portas de LM em 1870, LM Baixa — ABM @ 03:29

O original desta fotografia penso que está alojado no Arquivo Histórico de Moçambique. Foi retocada por mim.

Grato ao Vasco Freitas pela ajuda.

 

Esta era a entrada principal na Vila de Lourenço Marques, cerca de 1870, a única realmente em que se podia entrar e sair de carroça e que ligava à Estrada de Lydemburgo, o único acesso por terra ao hinterland sul-africano. Virada para Norte, atravessava um curto matagal/sapal que enchia com água salgada da Baía quando a maré subia…….

 

Esta era a entrada principal na Vila de Lourenço Marques, cerca de 1870, a única realmente em que se podia entrar e sair de carroça e que ligava à Estrada de Lydemburgo, então o único acesso por terra ao hinterland sul-africano.

Virada para Norte, atravessava um curto matagal/sapal que enchia com água salgada da Baía quando a maré subia. Era um nojo infernal e fedorento, cheio de mosquitos e caranguejos, especialmente nos verões quentes e sufocantes, entre Novembro e Março de cada ano, e o pessoal residente metade do tempo ou andava bêbado ou de cama com malária, cuja taxa de mortalidade era significativa. Os ingleses, então os Donos do Mundo, colonizadores informais e semi-oficiais de Portugal no Séc. XIX e patrocinadores oficiais do delírio imperial português na África Austral, ficavam em estado de choque com os que consideravam degradantes hábitos dos portugueses (exceptuando os dos Bragança e do Marquês de Soveral) e a sua capacidade de conviverem com as restantes raças inferiores em espaços urbanos já de si confinados e miserandos, nas condições mais imundas – e em proximidade! Um horror.

Para além de Lourenço Marques ser em 1870 uma miserável, lamentável e densa agremiação de palhotas e casinhas de madeira implantadas na língua de terra plana e arenosa (arderam quase todas num memorável incêndio exactamente cinco anos depois desta foto ter sido tirada, após o que se decidiu chutar com o pessoal maioritariamente negro das palhotas para fora de muralhas e passar a ser tudo construído em pedra e cal) a população da pequena Vila era para os Brits um perigoso, enigmático e insalubre cocktail de gentes de todas as côres, cheiros, religiões e proveniências (africanos, americanos, boers, ingleses, portugueses, baneanes, monhés, chineses) a viverem em condições que fariam qualquer imperial victoriano corar em pânico.

Sem saneamento, a água tirada duns poços e nascentes meio duvidosos escavados por perto, e – claro – o latente “perigo tribal negro” ali mesmo do outro lado do pântano nas colinas do Maé e da Maxaquene, a Vila era um objectivo militar e económico interessante e se calhar desejável para as tribos locais, que quando não estavam literalmente à estalada umas com as outras pelas mais mirabulantes razões, achavam por bem visitar o pequeno posto comercial marítimo de vez em quando, surpreendentemente bem armados, para, alternadamente, negociar alguns termos de comércio melhores (o comércio era baseado essencialmente na troca de produtos e serviços) ou meramente para o tentar saquear, caso fosse oportuno.

Naquela altura nenhum nativo naquelas paragens sonhava o que era “Moçambique” e muito menos onde é que ficava. “Moçambique” era a pequena Ilha de Moçambique. Não sabiam o que era o colonialismo, não tinham a mínima noção de que os brancos que por ali apareciam tinham a mania que eram da Raça Superior, que a sua terra poderia vir a ser conquistada a tiro de metralhadora, não tinham complexos de inferioridade de qualquer espécie e muito menos promoviam saraus com diálogos líricos sobre a igualdade e a fraternidade entre os homens, onde se distribuíam biscoitos e se liam poemas do Mia Couto.

Mas conheciam bem o punhado roufenho de portugueses que por ali insistia em ficar, conheciam os boers, os ingleses e, claro, o grande Albasini, que era uma espécie de Indiana Jones lusotrópico, enriquecendo com peles, pólvora e cachaça.

E naturalmente, naquela altura, um pouco como acontece agora, qualquer branco basicamente era carne para canhão, a não ser que ali houvesse business. E mesmo aí.

As únicas protecções relativas de que as maioritariamente almas perdidas que da Vila traficavam para os territórios boer e o hinterland dispunham, eram, a Sul, a língua de areia que confrontava a Baía, precariamente guardada pela dúbia eficácia dos suspeitos canhões da inepta guarnição encostada numa ponta da Praia do Albasini, que era onde se situava o pindérico Presídio de Nossa Senhora da Conceição, e, do outro lado a “muralha” que se pode ver nos lados das colunas que partem da entrada que aparece nesta fotografia (ah ah ah).

E ainda, claro, o próprio pântano, que, para além de ser uma fétida fonte de morte e insalubridade, infelizmente, insistia em vazar diariamente com as marés.

Mapa de 1876. A bolinha sinaliza a localização da entrada na foto em cima, que, segundo o Vasco, ficava mais ou menos junto da esquina do Scala/Avenida Buildings.

Mas melhores tempos viriam. Desde o início do Século XIX e após os milandos com os Boers no Cabo, os patrões britânicos tinha analisado os mapas e no fundo queriam aquilo para cintar e controlar os Boers que tinham migrado para o Norte, e a baía poderia vir a dar um excelente porto para a marinha britânica e assim proporcionar um acesso melhor aos negócios dos Boers e à região situada a Norte do Cabo – onde, providencialmente, num buraco qualquer a que vieram a chamar Kimberley, se descobriria, por volta da altura em que se tirou esta foto, o maior e mais rico filão de diamantes que já se encontrou num só ponto na História do Mundo.

Surpreendentemente, tiveram azar por uns tempos. Benevolentes, os ingleses aceitaram submeter o assunto da posse dos territórios na parte Sul da Baía mais Inhaca e Ilha dos Elefantes, que decorria há alguns anos, a arbitragem internacional – e lixaram-se. Em meados de 1875, um francês, Mac-Mahon, ditou que as redondezas da pequena Vila desgraçadamente fortificada, afinal pertenciam por direito aos delapidados quasi-súbditos latinos do Império Britânico, o que lhes dava o (extremamente) irritante direito de ali impôr as suas leis e especialmente, os seus impostos. E tudo em língua portuguesa!

E, o que ainda era pior, de permitir aos temíveis Boers, acederem ao mar sem terem que lhes pedir licença.

Providencialmente, em 1877, de Lisboa, Andrade Corvo, um ministro da fase da Rotação, mandou por navio um punhado de engenheiros liderados por um jovem e brilhante engenheiro, o Tenete-Coronel de Engenharia Joaquim José Machado, para a pestilenta mas estratégica Vila, cuja primeira reacção ao chegar de canoa à Cidade, no dia 7 de Março de 1877, praticamente, foi conspirar de imediato para aterrar o fétido pântano em redor da língua de terra junto à margem Norte da Baía.

Pouco depois, começou a verdadeira ópera de se montar um esquema qualquer para se construir uma linha férrea entre a infecunda localidade junto da Baía do Espírito Santo e a pequena capital Boer, a pacata Pretória. O projecto levaria quase vinte anos a realizar, com umas guerras pelo meio e tanta vigarice pegada e esquemas tipo PPP, e corrupção, que faria o governo socialista português de José Sócrates, cem anos mais tarde, parecer um conjunto de meninas de coro a debater a respectiva virgindade.

Não ajudava a fechar o assunto que, em Portugal, os governos caíam sucessiva, alegre, estrondosa e rapidamente, ano após ano, providenciando aos seus súbditos uma espécie de gestão nacional aos soluços.

Em Lisboa, para se manter o foco nas coisas, ainda em 1875, uns iluminados mas descapitalizados colonialistas de sofá criaram na Baixa a Sociedade de Geografia, onde, entre passes de charuto e copos de whisky, liam Livingstone e sonhavam a sua riqueza, debruçados sobre um gigantesco mapa de África.

Uma ilustração de uma obra de Augusto de Castilho, de 1881, mostrando a pequena Vila de Lourenço Marques, cercada a Norte pelo Pântano da Maxaquene, com a estrada que a ligava a terra firme, podendo-se ver a Muralha e a entrada com as duas colunas de 5 metros de altura.

Entretanto, em 1879, enquanto o Império Que Nunca Dorme tentava ligar Londres ao Cabo por linha de telégrafo submarino (altíssima tecnologia na altura), a pequena Vila de Lourenço Marques seria contemplada com …. a sua própria estação telegráfica! um assombro, quiçá pouco útil para os locais, mas assaz interessante para os navios que ali atracavam e os empresários de sucesso que por ali passavam. Ao governador da espelunca e ao cônsul da Sua Britânica Majestade, era permitido mandar os seus relatórios para Londres e Lisboa via Londres, por SMS, com desconto. Os ingleses liam, displicentes e divertidos, os relatórios confidenciais dos portugueses.

Mas o momento em que tudo mudou verdadeiramente para a pequena urbe foi quando, em 1886, aconteceu mais uma vez o simplesmente inacreditável: um dia, ali a 600 quilómetros, num obscuro canto rural do Transvaal boer, numa quinta perto de Pretória, se descobriu o maior filão de ouro que jamais se viu na História do Mundo (pois).

E para se chegar lá, de forma segura, rápida e eficiente a partir do mar, só havia uma forma ideal: pela Baía do Espírito Santo, através da infecunda, malcheirosa, indefensável vilória “portuguesa” de Lourenço Marques.

Todos logo se posicionaram para o negócio do Século, mas eis que, depois de, numa única e rápida visita a Lisboa, ter corrompido tudo e todos e sacado a cobiçada concessão ferroviária, o Coronel Edward Macmurdo, um americano bem conectado em Londres e Washington, nada menos, montou uma operação financeira tipo Dívida Ematum e já estava no processo de montar uma linha férrea para a ainda indefinida fronteira boer. Esta acabaria por ser definida junto de um corte nos Montes Libombos por onde passava um rio, o Incomáti, mas na altura ainda ninguém sabia isso, excepto, talvez, um tal de Ressano Garcia.

No entanto Macmurdo morre subitamente de um AVC, principalmente por causa do stress de ter que aturar os portugueses, que ofenderam tudo e todos ao inventarem um esquema para lhe confiscarem a concessão (a linha para Pretória seria concluída por Joaquim José Machado e a sua equipa) mas não sem antes publicar – pasme-se – a mais lida, a mais lírica e a mais linda História de Portugal, em dois volumes. Também ajudou nas vendas que praticamente era a única história de Portugal publicada em inglês, claro.

Em Lourenço Marques, alguns anos antes, um intrépido português, de nome Fernandes Piedade, entretanto, já tomara a inédita e corajosa decisão de se tornar no primeiro branco a morar fora das “muralhas” da Vila, numa casinha mesmo ali defronte numa encosta da Maxaquene, perto da qual pouco depois os britânicos, que nunca gostaram de se misturar com os locais, edificaram o seu consulado – qu ainda está lá. Tavez para os chatearem, os portugueses locais edificaram a sua nova “catedral” mesmo em frente ao consulado. De costas para o consulado. E mesmo atrás do Consulado, a nova sede da Polícia.

Surpreendentemente, os nativos tribais permaneceriam impassíveis. Por enquanto.

Um escasso ano volvido após a descoberta do ouro no Transvaal, o rei dos portugueses, Luis Primeiro, decreta que a espelunca, com a sua meia dúzia de portugueses sitiados num mar de nativos e de estrangeiros de todas as proveniências, passava a ser uma Cidade Portuguesa, dotada com, para além do exaltado estatuto de município e uma bandeira, e os seus próprios orgãos municipais, a segunda Cidade a seguir a Moçambique, que, lá nos confins da costa a Norte, era uma ilha a sério, e a primeira a ser constituída na África Oriental Portuguesa.

Na verdade, nada daquilo funcionava e meia dúzia de iluminados decidiam tudo, em alegre conluio com as personalidades de negócios locais e o Sr. governador. O que era preciso é que todos ganhassem algum. Em casos de dúvidas, mandava-se um telegrama para Lisboa.

Lourenço Marques crescia, mas agora sem o seu pântano, a sua muralha e os seus portões, ficava exposta.

15/08/2017

A DECISÃO DE MAC-MAHON E O SUL DE MOÇAMBIQUE, 24 DE JULHO DE 1875

A Praça Mac-Mahon em Lourenço Marques, cerca de 1940. Ao fundo, a estação ferroviária.

 

Em baixo, em língua inglesa, o texto completo da decisão francesa, dada a conhecer a 24 de Julho de 1875, quanto à posse dos territórios em redor e a Sul de Lourenço Marques (actualmente, Maputo). A disputa originou numa pretensão britânica de ficar com esses territórios, seguindo a sua política de criar uma zona-tampão para conter as repúblicas Boer numa espécie de cintura de ferro britânica. Só que Portugal argumentava que já estava lá há séculos, o que valia o que valia mas na jurisprudência de então, e até 1886, era o que valia mais. Numa acção de charme que lhe veio a custar, a Grã-Bretanha aceitou submeter a disputa a arbitragem por terceiros, tendo sido acordado que a decisão seria tomada pelo governo da França, a que, quase circunstancialmente, Mahon presidia. Na altura, foi uma vitória significativa da diplomacia portuguesa em relação à Grã-Bretanha, mas também um presente envenenado, na medida em que resultou num endurecimento da postura daquele país em relação ao futuro – como veio a acontecer em Janeiro de 1890.

Na tradição colonial de então, o episódio foi celebrado até ao Século XX, desde a denominação da praça onde se veio a edificar a estação dos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques com o nome de Mac-Mahon (anteriormente Praça Azeredo, um importante autarca da pequena cidade colonial, e que a Frelimo alterou para Praça dos Trabalhadores, a designação presente), até à designação do feriado municipal, que era a 24 de Julho e não a 10 de Novembro, data da elevação de Lourenço Marques ao estatuto de cidade, à alteração da maior avenida da Cidade de Francisco Costa para Avenida 24 de Julho (sorrateiramente, a Frelimo manteve o nome, agora referindo-se à data de algumas nacionalizações efectuadas em 1976) e, finalmente, à designação de uma das duas marcas de cervejas mais conhecidas de Moçambique – a 2M (de “Mac-Mahon”. A outra é a Laurentina) e que sobreviveu a quase meio século de demolição deliberada do património colonial herdado.

Verdadeiramente, Mac-Mahon ficaria surpreendido se alguém lhe tivesse dito que, num obscuro recanto de África, o seu nome alguma vez seria recordado.

 

 

09/12/2013

HIGINO CRAVEIRO LOPES E O NORTE DE MOÇAMBIQUE, 1914-1918

Alferes Duarte Ferreira, Higino Craveiro Lopes e Benard Guedes em Palma, 1915.

Alferes Duarte Ferreira, Higino Craveiro Lopes e Benard Guedes em Palma, no extremo Norte de Moçambique, 1915.

Com vénia, texto e fotos copiados na íntegra do blog de Nuno Craveiro Lopes, um descendente de Higino Craveiro Lopes, com o título “Francisco Higino Craveiro Lopes – Aventuras e Desventuras de um militar no norte de Moçambique durante a Iª Grande Guerra”.

(Início)

Nestes últimos anos foram publicados vários livros (vide “Os Fantasmas do Rovuma” de Ricardo Marques) que relembram a epopeia passada pelas tropas portuguesas durante a primeira Guerra Mundial (1914-1918) no norte de Moçambique.

Episódio esquecido (ou que se tentou fazer esquecer…) onde os militares portugueses passaram um martírio e muitos vieram a falecer, mais pela incúria como foram organizadas e apoiadas as tropas, no que diz respeito a abastecimentos e apoios dos governantes em Portugal do que por combate, mostrando apesar das más condições, valentia, chegando a vencer o “boche” e a ocupar território Alemão.

Este é um pequeno apontamento sobre a presença nesse teatro de operações de Francisco Higino Craveiro Lopes, que veio a ser mais tarde Presidente da República Portuguesa de 1951 a 1958.

Desde Outubro de 1914 que Portugal mantinha forças na fronteira norte de Moçambique, constituída pela 1ª Expedição comandada pelo Tenente-Coronel Massano de Amorim, com a finalidade de vigiar e proteger o território. Em Março de 1915 dá-se a declaração de guerra entre a Alemanha e Portugal. Receando-se um ataque a Moçambique vindo da colónia alemã do Tanganica (Malawi), organiza-se a 2ª Expedição a Moçambique sob o comando do Coronel Moura Mendes. Dessa expedição faz parte o Aspirante de Cavalaria Francisco Higino Craveiro Lopes. À chegada a Lourenço Marques, são recebidos em apoteose, recebendo de uma comissão de Senhoras da cidade, um estandarte bordado para servir como estandarte da expedição.

O comando, (4º Esquadrão do Regimento de Cavalaria 3 – Dragões de Olivença, com 9 Oficiais e 101 Praças) recebe em 16 de Abril de 1916 ordem para tomar Kionga, uma pequena faixa de território junto á Baia do mesmo nome a sul do rio Rovuma, que tinha sido ocupada à força pelos alemães em 1894. O então Alferes Craveiro Lopes comanda uma força de cavalaria, infantaria e três peças de artilharia enviada de Palma, que atravessa mato cerrado, pântanos e rios a vau, durante 3 dias e duas noites. A acção é executada com sucesso sem encontrar resistência, por retirada do inimigo. Esperando a reacção dos alemães, estabeleceram-se então vários postos de observação ao longo da margem sul do rio Rovuma, a partir dos quais se faziam acções de defesa contra investidas alemãs e reconhecimentos em território inimigo. Nestas acções tornou-se notável a intervenção de Craveiro Lopes oferecendo-se para comandar acções de combate por indisponibilidade de oficiais mais graduados, entrando várias vezes em contacto com o inimigo, sustentando vivo combate com intrepidez digna de louvor.

Em 27 de Maio de 1916 a Marinha de Guerra com o cruzador Adamastor e a canhonheira Chaimite bombardeiam pesadamente durante 2 horas a margem norte do Rovuma e é tentada uma travessia do rio por três colunas para ocupar a margem alemã em Namaca e Namiranga, mas apesar da bravura nos combates, teve que retirar com 33 mortos, 24 feridos, 8 prisioneiros e muito material perdido nas mãos dos alemães. Dos 1543 efectivos da 2ª Expedição, perderam-se 75%, a maioria por doença, 100 falecidos em acções de combate e 450 desaparecidos na selva.

Foi então decidido pelo comando da metrópole enviar outro contingente, a 3ª Expedição comandada pelo general Ferreira Gil com 4642 efectivos e organizar uma travessia e ocupação da margem alemã em maior escala, o que se veio a verificar com sucesso em 19 de Setembro de 1916, tendo também o Alferes Craveiro Lopes tomado parte na operação.

Após a ocupação da margem norte do Rovuma em território alemão, organizou-se uma coluna militar para marchar á conquista da fortificação de Newala e Massassi, base estratégica situada a 140 kilómetros no interior do território alemão. Dessa coluna faz parte o Alferes Craveiro Lopes integrando o 4º Esquadrão de Cavalaria 3 que após 8 dias de marcha, a 22 de Outubro é o primeiro a entrar em confronto, levando de vencida as tropas alemãs na ribeira de Newala, ponto de abastecimento de água do forte, após 5 horas de combate. Toma também parte no ataque ao forte de Newala a 27 de Outubro, que é tomado após duelo de artilharia e fuga das tropas alemãs. Na manhã seguinte Craveiro Lopes segue num destacamento de cavalaria que persegue os alemães em debandada, e mais uma vez é ele que primeiro troca tiroteio com o inimigo na estrada de Lulindi. É então reformada a coluna de marcha sobre Massassi comandada pelo Major Leopoldo da Silva que sai de Newala a 8 de Novembro com 23 oficiais, 347 praças europeias, 399 indígenas e 330 carregadores, incluindo 486 espingardas, quatro metralhadoras e duas peças de artilharia. O alferes Craveiro Lopes comanda o serviço de reconhecimento e observação e mais uma vez é ele que primeiro entra em contacto com o inimigo na batalha de Quivambo, e fá-lo de tal forma que mereceu os maiores louvores. Conta-se que com dois dos seus homens, se embrenhou de tal forma nas linhas inimigas, alvejando a curta distância uma posição de metralhadoras que arrasava as forças portuguesas.

Na confusão da batalha foi-lhe inclusivamente dada ordem de prisão, após ter sido alvejado por tropa portuguesa, julgando-o um oficial alemão. Durante a batalha Infelizmente o comandante do destacamento Leopoldo da Silva é morto por fogo inimigo mas as forças portuguesas acabam por repelir o inimigo e ocupar o posto alemão de Nangoma de Lulindi à vista de Massassi, onde permaneceram durante 10 dias, ao fim dos quais tiveram que retirar para Newala por doença, falta de alimentação e munições da maior parte dos efectivos.

A forma deficiente como foram organizadas as expedições pelos comandos na Metrópole, nomeadamente a falta de rendição das tropas doentes, as faltas de abastecimentos e medicamentos, e os transportes para suprir as necessidades das tropas, tornaram inútil ou quase inútil todo o esforço desprendido nestas gloriosas acções.

Newala foi cercada de novo pelos alemães em 22 de Novembro de 1916 e as tropas Portuguesas após 6 dias de cerco com bombardeamentos, fogo de metralhadoras e tentativas de assalto por parte das tropas alemãs, tiveram que retirar por falta de efectivos, falta de munições, falta de mantimentos e devido ás doenças que grassavam entre os sobreviventes. No cerco de Newala o alferes Craveiro Lopes “mostrou grande valor militar e coragem fazendo fogo com uma metralhadora do fortim, serviço que não lhe competia, expondo-se e arriscando a sua vida, porque o inimigo não poupava a sua posição” como reza um dos seus louvores.

Regressado a Portugal, recebe por estas acções em 1917 aos 23 anos a Cruz de Guerra e é feito Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada.

Tira em 1918 o curso de piloto militar, na Escola de Aviação francesa em Chatres, sendo na altura promovido a tenente.
Em Janeiro de 1917, foi requisitado ao Ministério das Colónias uma esquadrilha de aviação para cooperar com as tropas expedicionárias em campanha. A Esquadrilha Expedicionária a Moçambique, era constituída por três aparelhos Farman F.40 de entre os cinco que estavam estacionados em Vila Nova da Rainha. Os três Farman F.40 estavam dotados com motores Renault de 130 hp e tinham a capacidade de transportar dois homens (piloto e artilheiro/observador), uma metralhadora e diversas bombas ligeiras. A autonomia destes aparelhos rondava 2h 20mn.

Por não ter sido preparado um cais de acostagem para descarregar os aviões e todo o material, estes tiveram que ser passados do navio que os transportou para jangadas, descarregados na praia e levados “ás costas de nativos” para um planalto onde a base aérea foi então construída, pois ainda não existia.

Fizeram parte da Esquadrilha Expedicionária a Moçambique os pilotos Capitão João Luís de Moura (comandante da esquadrilha), Capitão Francisco da Cunha Aragão e o Tenente Sousa Gorgulho, o Tenente Francisco Higino Craveiro Lopes, os observadores Tenente Teodorico dos Santos, Tenente Santos Guerra e o Alferes Pinheiro Corrêa, o mecânico Norberto Gonçalves e dois mecânicos franceses contratados da firma Farman.

uM Farman F40 no teatro de operações em Mocimboa da Praia, 1918

Um Farman F40 no teatro de operações em Mocimboa da Praia, 1918

Ao fim de um mês, o único mecânico português que foi inicialmente com a expedição, acabou de montar o primeiro avião e assim puderam-se inicia os testes. Coube ao Alferes Jorge de Sousa Gorgulho fazer os primeiros voos de teste que foram afinal uma estreia em Moçambique. Infelizmente veio a despenhar-se e a falecer durante o segundo voo de testes. O mecânico ficou de tal modo afectado pelo sucedido que teve que ser evacuado e os voos foram interrompidos.

Assim os elementos que faziam parte da expedição foram incorporados numa “coluna de tropas irregulares” apeadas, encarregue de fazer exploração de terreno para descobrir o inimigo, enquanto se esperava a vinda de 2 mecânicos franceses da fábrica Farman.
Ao mesmo tempo em que o seu pai então Tenente-Coronel João Carlos Craveiro Lopes entra em combate na Flandres como comandante de brigada do Corpo Expedicionário Português e é feito prisioneiro na batalha de La Lys, o então Tenente Francisco Higino Craveiro Lopes, embarca de novo para Moçambique como expedicionário onde chega em Agosto de 1918 e é incorporado na Esquadrilha Expedicionária a Moçambique estacionada em Mocimboa da Praia, quando, finalmente chegaram os mecânicos franceses, tendo pouco depois em 11 de Novembro de 1918, sido anunciado o Armistício, sem que os aviões tenham podido entrar em acções militares, o que poderia ter mudado o curso dos acontecimentos, pois os alemães não possuíam aviação militar na zona de combates.

Craveiro Lopes manteve-se em Mocimboa da Praia até Dezembro de 1918 e posteriormente acompanha a esquadrilha para a Base do Alto da Matola, perto de Lourenço Marques então inaugurada, e em conjunto com o Capitão Luís de Moura executam 149 voos até Setembro de 1919, data em que a esquadrilha ficou sem mecânicos. A esquadrilha é desactivada em Maio 1920 e retorna à Metrópole.

Durante a sua estadia em Lourenço Marques, numa viagem em eléctrico dá o lugar a uma jovem que fica impressionada e mete conversa com o garboso piloto aviador na sua farda de oficial. Tratava-se de Berta Ribeiro Arthur, com quem vem a casar ainda em Lourenço Marques, em Dezembro de 1919, onde lhe nasce também o seu primeiro filho, João Carlos Craveiro Lopes.

Trinta anos depois, em 1956 já como Presidente da República de Portugal, quis transladar para o Continente os corpos dos seus companheiros de armas que faleceram no Rovuma e que se encontravam dispersos no Alto Namoto, mas Salazar não autorizou e apenas disponibilizou verbas para a Transladação até à Capital de Distrito em Mocímboa da Praia, onde Craveiro Lopes se deslocou para presidir à inauguração do então novo Ossário Militar, que ao longo das últimas 4 décadas foi sendo destruído e actualmente nada resta para atestar a glória destes Homens e a inépcia de quem os governava.

(FIM)

29/10/2013

A VISITA DE HASTINGS BANDA A MOÇAMBIQUE, 27 DE SETEMBRO DE 1971

Fotos enviadas pelo Alfredo Correia, falta identificar quem as tirou.

Hastings Kamuzu Banda foi durante mais que três décadas o líder fundacional e mais ou menos incontestado do Malawi, um país nascido dos lobbies missionários e caprichos escoceses junto da corôa britânica no fim do Século XIX e que acabou parcialmente encravado com Moçambique, entre Tete e Niassa. Foi uma figura ímpar em quase todos os aspectos, de entre os quais uma improvável amizade próxima com o governo português, especialmente o Eng. Jorge Jardim, na década crucial que antecedeu a Independência moçambicana, na qual dificultou consideravelmente a guerrilha da Frelimo, se bem que tudo indique que jogava para os dois lados.

Um mapa do Malawi

Um mapa do Malawi, que “entra” por Moçambique dentro. Reparem nas fronteiras sobre o Lago Niassa. Os portugueses de então negociaram com os britânicos a soberania territorial moçambicana sobre o Lago, que é o que se vê, mas “esqueceram-se” de fazer o mesmo com as suas próprias colónias. Donde resulta que, cinquenta anos mais tarde, a fronteira do Malawi com a Tanzania é…..a margem do Lago do lado Tanzaniano! Ou seja, se um tanzaniano der um mergulhinho no lago, entra no Malawi. Por causa disto, os dois países andam mais ou menos em atritos, a Tanzânia quer mudar as fronteiras e o Malawi diz que não aceita.

Após 1975 e até à sua retirada da política em 1994 (morreu em 25 de Novembro de 1997 , supostamente com cerca de cem anos de idade, numa clínica em Joanesburgo) Banda manteve relações particularmente difíceis com Machel e Chissano. Machel, que odiava Banda e lhe chamava “fascista” pelas costas, morreu num acidente aéreo em Outubro de 1986, depois de regressar dum encontro cujo tema era precisamente o apoio de Banda à Renamo e ao regime sul-africano contra Moçambique. Um mês antes, em 11 de Setembro de 1986, Machel deslocou-se a Blantyre para pressionar Banda, que tudo indicava havia aberto as portas do seu país para que a Renamo atacasse o Norte a partir da fronteira malawiana. Nessa reunião de duas horas, na qual estiveram presentes Kenneth Kaunda e Robert Mugabe, segundo o livro de Ian Christie sobre Machel, o presidente moçambicano atirou com tudo à cara do venerando presidente-para-toda-a-vida, incluindo uma cópia de um passaporte do Malawi passado a Afonso Dlakhama, já então o líder da Renamo. Mas quando, poucos dias depois, se assistiu a ai início de um mortífero ataque em território moçambicano a partir do Malawi, coordenado pela Renamo e em três frentes, aparentemente liderado por tropas especiais sul-africanos, Samora, que já estava severamente pressionado em várias frentes, perdeu a cabeça e ameaçou atacar o Malawi. Numa conferência de imprensa em Maputo, disse: “nós colocaremos mísseis na fronteira com o Malawi se o apoio aos bandidos não cessar. E nós encerraremos o trânsito de mercadorias entre o Malawi e a África do Sul que passa por Moçambique [Ian refere que na altura passavam por território moçambicano cerca de 70 camiões por dia nessa rota]. Uns dias mais tarde, numa visita a Tete, Machel disse à imprensa: “as autoridades do Malawi tornaram o seu país numa base para mercenários de várias nacionalidades, mas principalmente sul-africanos. Eu creio que o Presidente Hastings não é responsável, quem é responsável são alguns ministros, soldados, membros da polícia e da segurança do Malawi que foram comprados pelos sul-africanos e outros países que não nomearei agora, apesar de termos as provas na nossa posse.”

Num artigo da BBC, o administrador da sua herança estima que o Dr. Banda, que em 1971 já ostentava o título de “presidente Vitalício”, deixou uma fortuna pessoal que estima em 319 milhões de libras estrelinas, o que não é nada mau, considerando a miséria que por ali grassava e a que por ali ainda abunda.

Em baixo, imagens de uma “histórica” visita de Estado que o Dr. Banda fez a Moçambique colonial, aqui em Nampula, no dia 27 de Setembro de 1971, onde foi recebido pela hierarquia colonial com as honras e a pompa devidas. A cúpula da Frelimo, na altura já após o rescaldo do assassinato do Dr. Mondlane e consequente ascensão da troika hardliner comunista (Machel, Marcelino e Chissano) a qual nunca teve um momento fácil com o líder malawiano, deve ter rangido os dentes duas vezes. Um dos grandes objectivos estratégicos do Presidente malawiano em relação a Moçambique era abrir uma linha férrea entre o seu país e o porto moçambicano de Nacala, que está em fase de reabilitação agora mas cuja inauguração (do troço final da linha férrea) foi a razão da sua visita a Nampula e a Nacala em 1971.

Uma nota para adicionar algum surrealismo: apesar de ter tido relacionamentos com mulheres, e em baixo se fazer acompanhar por uma “primeira dama”,  Banda nunca casou. Mas teve uma longa relação com Cecilia Kadzamira, que fazia o lugar de primeira dama, e que se vê com ele nesta visita a Nampula, e que teve por sua vez um percurso também invulgar.

 

Foto 1

Banho de multidão no Aeroporto de Nampula à chegada do Presidente do Malawi.

Foto 2

Multidão à espera da comitiva do Malawi.

3

Comité de recepção, com as bandeirinhas portuguesas ao léu, como é preceito nestas ocasiões.

4

As madames esposas dos dignitários portugueses, trajadas para a ocasião, na fila de cumprimentos protocolares. Atrás, um Fokker da DETA.

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O Chede de Estado do Malawi à sua chegada, passa revista às tropas, acompanhado pelo então Governador-Geral de Moçambique, o Eng. Arantes e Oliveira.

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Cecilia Kadzamira cumprimenta as senhoras da comitiva de recepção.

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Cecília Kadzamira recebida com calor em Nampula.

Num palanque montado na pista do Aeroporto de Nampula,

Num palanque montado na pista do Aeroporto de Nampula para o efeito, o Presidente do Malawi e a comitiva de recepção preparam-se para ouvir os hinos de Portugal e do Malawi.

28/10/2013

A VISITA A MOÇAMBIQUE DO MINISTRO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS DA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA ALEMÃ, 1974

Filed under: Joaquim Chissano, MNE da RDA em Moçambique 1974 — ABM @ 01:30
Otto Winzer, ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha de Leste, visita Moçambique meses antes da proclamação da Independência.

Otto Winzer, ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha de Leste, visita Moçambique meses antes da proclamação da Independência.

O MNE da Alemanha de Leste com guerrilheiros da Frente de Libertação de Moçambique.

O MNE da Alemanha de Leste com guerrilheiros da Frente de Libertação de Moçambique.

Durante uma cerimónia em que o MNE da República Democra´tica Alemnã em Lourenço Marques.

Durante uma cerimónia em Lourenço Marques em que o MNE da República Democrática Alemã esteve presente.

O MNE da RDA entrega uma prenda ao Jovem Joaquim Chissano, então primeiro-ministro do Governo de Transição de Moçambique, que já era controlado pela Frente de Libertação de Moçambique.

O MNE da RDA entrega uma prenda ao então Jovem Joaquim Chissano, então primeiro-ministro do Governo de Transição de Moçambique, que já era controlado pela Frente de Libertação de Moçambique, e que tomou posse no dia 20 de Setembro de 1974. Pouco depois desta foto ter sido tirada Winzer deixou o cargo por razões de saúde e faleceu em Março de 1975.

O TERCEIRO CONGRESSO DA FRELIMO, 3 A 7 DE FEVEREIRO DE 1977

Filed under: III Congresso da Frelimo 1977 — ABM @ 01:13
Um desfile na rua na altura da realização do 3º Congresso da Frelimo, já então o único partido político autorizado em Moçambique.

Um desfile na antiga Praça Mousinho de Albuquerque, então recentemente rebaptizada de Independência, na altura da realização do 3º Congresso da Frelimo, já então o único partido político autorizado em Moçambique.

 

Uma maneira simpática de descrever o II Congresso foi que ali se deram ao trabalho de consubstanciar o regime que já era: o primeiro depois da Independência) transformando-se num partido. É adoptada a ideologia marxista-leninista e defendida a criação de um estado proletário e socialista. Moçambique passa a estar cada vez mais dependente dos apoios que recebe dos países socialistas (ex-URSS, China, RDA, etc), mas também a contar com a hostilidade dos países ditos "ocidentais". Em termos  regionais, o regime racista da África do Sul e da Rodésia (Zimbabué) vê esta opção como uma ameaça

Uma maneira simpática de descrever o III Congresso foi que ali os intelectuais de serviço do Regime deram-se ao trabalho de dar o nome às coisas e consubstanciar o regime que já era. Sendo o primeiro congresso do movimento guerrilheiro depois da Independência, transformou-se num partido (único), adoptou formalmente a ideologia marxista-leninista e  passou a defender a criação de um “estado proletário e socialista”. Na realidade Moçambique era cada vez mais dependente dos apoios que recebia dos países comunistas – URSS, China, RDA, etc – e passou também a contar com a aberta hostilidade dos países ditos “ocidentais”. Em termos regionais, a África do Sul e a Rodésia (Zimbabué) vêem esta opção e o apoio logístico do regime aos movimentos guerrilheiros a eles hostis como uma ameaça e ripostam. 

 

26/10/2013

A ESTÁTUA DO AVIADOR SACADURA CABRAL NO AEROPORTO DA BEIRA, ANOS 1970

Homenagem a Sacadura Cabral na Beira. Após a grande ampliação feita na aerogare da Beira durante os anos 60, o aeroporto foi designado com o nome deste aviador, parceiro de Gago Coutinho em 1922 e desaparecido em 1924.

Homenagem ao aviador português Sacadura Cabral na Beira. Após a grande ampliação feita na aerogare da Beira durante os anos 60, o aeroporto foi designado com o nome deste aviador, parceiro de Gago Coutinho em 1922 e desaparecido em 1924 e onde se encontrava esta estátua. Segundo o José Carlos Portela, a estátua é da autoria de Jorge Vasconcelos e é de 1972. Este escultor viveu entre 1962 e 1975 na cidade da Beira, actualmente vive no Norte de Portugal e faz parte do grupo Arte 6 em Braga.

Sacadura Cabral viveu e trabalhou em Moçambique. Refere a Wikipédia:

Artur de Sacadura Freire Cabral, mais conhecido por Sacadura Cabral GCTE • ComA (Celorico da Beira, São Pedro, 23 de Maio de 1881 — Mar do Norte, 15 de Novembro de 1924)1 foi um aviador e oficial da Marinha Portuguesa.

Era filho primogénito de Artur de Sacadura Freire Cabral (Celorico da Beira, São Pedro, 16 de Outubro de 1855 – Lisboa, 19 de Março de 1901) e de sua mulher (casados em Seia) Maria Augusta da Silva Esteves de Vasconcelos (Viseu, Sé Ocidental, 11 de Julho de 1861 – Lisboa, 3 de Abril de 1913).2 Após os estudos primários e secundários assentou praça em 10 de Novembro de 1897 como aspirante de marinha e frequentou a Escola Naval, onde foi o primeiro classificado do seu curso. Foi promovido a segundo-tenente em 27 de Abril de 1903, a primeiro-tenente a 30 de Setembro de 1911, a capitão-tenente em 25 de Abril de 1918 e, por distinção, a capitão-de-fragata em 1922. Terminado o seu curso, seguiu em 1901, a bordo do São Gabriel, para a Divisão Naval de Moçambique.

Serviu nas colónias ultramarinas no decurso da Primeira Guerra Mundial. Foi um dos primeiros instrutores da Escola Militar de Aviação, director dos serviços de Aeronáutica Naval e comandante de esquadrilha na Base Naval de Lisboa.

Unanimemente considerado um aviador distintíssimo pelas suas qualidades de coragem e inteligência, notabilizou-se a nível mundial, ultrapassando as insuficiências técnicas e materiais que na época se faziam sentir. Quando conheceu, em África, Gago Coutinho, incentivou-o a dedicar-se ao problema da navegação aérea, o que levou ao desenvolvimento do sextante de bolha artificial. Juntos inventaram um “corretor de rumos” para compensar o desvio causado pelo vento. Realizou diversas travessias aéreas memoráveis, notabilizando-se especialmente em 1922, ao efectuar com Gago Coutinho, a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

Navegou durante dois anos nas costas de Moçambique até que, em 1905, foi deliberado pelo governo que se procedesse a um levantamento hidrográfico rigoroso da baía de Lourenço Marques (hoje Maputo), em preparação da modernização do seu porto. Sacadura Cabral foi um dos oficiais escolhidos para este trabalho e, em colaboração com o seu camarada guarda-marinha, Bon de Sousa, fez uma carta hidrográfica do rio Espírito Santo e de trechos dos rios Tembe, Umbeluzi e Matola. Em 1906 e 1907 trabalhou como topógrafo na rectificação da fronteira entre o Transvaal e Lourenço Marques, serviço que foi feito em concorrência com os agrimensores ingleses do Transvaal.

Em 1907 chegou a Moçambique uma missão geodésica de que era chefe Gago Coutinho. No desempenho de missões geodésicas e geográficas, trabalharam juntos desde 1907 a 1910. Sacadura Cabral revelou nestes trabalhos as suas capacidades como geógrafo e astrónomo, bem como organizador.

Em 1911 concorreu aos serviços de Agrimensura de Angola, tendo sido nomeado para o lugar de subdirector destes serviços. Em Angola desempenhou vários serviços neste cargo, entre os quais observações astronómicas no Observatório de Angola e o reconhecimento da fronteira da Lunda. Em 1912 participou, com Gago Coutinho, na missão do Barotze, a fim de se delimitarem as fronteiras leste de Angola, o que foi feito em mais de 800 quilómetros. Sacadura Cabral regressou à metrópole em 1915.

Entretanto o Aero Club de Portugal procurava fazer propaganda da aviação e conseguiu que o governo abrisse um concurso para que os oficiais do exército e da marinha fossem enviados a várias escolas estrangeiras de aviação para nelas obterem o brevet de piloto aviador militar.

Sacadura Cabral foi para a França e deu entrada na Escola Militar de Chartres. Em 11 de Novembro de 1915 realizou o seu primeiro voo como passageiro e, a 16 de Janeiro de 1916 fez o seu primeiro voo como piloto. Em Março fez as provas de brevet com aprovação. Ainda em França seguiu para a Escola de Aviação Marítima de Saint Raphael, onde se especializou em hidroaviões. Frequentou ainda várias escolas de aperfeiçoamento e esteve na Escola de Buc, pilotando aviões Blériot e Caudron G.

Terminada a sua aprendizagem em França, regressou a Portugal em Agosto de 1916. Nesta altura estava a ser organizada a Escola de Aviação Militar em Vila Nova da Rainha e Sacadura Cabral foi aí incorporado como piloto instrutor.

Entretanto, tendo o governo resolvido enviar para Moçambique uma esquadrilha de aviação para cooperar com o exército, na região do Niassa, na defesa deste território em relação aos ataques alemães, Sacadura Cabral foi encarregado de adquirir em França o material necessário. Esta foi a primeira unidade de aviação constituída em Portugal.

Em seguida Sacadura Cabral foi encarregado de organizar a aviação marítima em Portugal, tendo sido nomeado, em 1918, director dos Serviços da Aeronáutica Naval e, a seguir, comandante da Esquadrilha Aérea da Base Naval de Lisboa. Em 1919 foi nomeado para fazer parte da Comissão encarregada de dar parecer sobre a melhor forma de pôr em prática um plano de navegação aérea. Nesse ano, a 11 de Março, foi feito Comendador da Ordem Militar de Avis.

Demonstrou, nesse mesmo ano, a viabilidade de vir a ser tentada a viagem aérea Lisboa-Rio de Janeiro, tendo sido nomeado para proceder aos estudos necessários para a sua efectivação. Foi então à Inglaterra e à França, a fim de escolher o melhor material para equipar a Aviação Marítima, e propor o tipo de aparelho em que poderia vir a ser tentada a viagem Portugal-Brasil.

Enquanto esteve nestes dois países desempenhou as funções de adido aeronáutico. Em 1920 fez parte da Comissão Mista de Aeronáutica.

Em 1921 realizou, com Gago Coutinho e Ortins de Bettencourt, a viagem Lisboa-Madeira, para experiência dos métodos e instrumentos criados por ele e Gago Coutinho para navegação aérea que, em 1922, vieram a ser comprovados durante a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

Nesse ano, a 1 de Maio, tornou-se o 347.º Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito5 e a 2 de Junho o 36.º Sócio Honorário do Ginásio Clube Figueirense.

Em 1923 elaborou um projecto de viagem aérea de circum-navegação, que não conseguiu realizar por falta de meios materiais. Em 1924, convencido de que o Governo não correspondia ao esforço por ele levado a cabo para a eficiência da Aviação Marítima, apresentou o seu pedido de demissão de oficial da Marinha, pedido que foi indeferido. Ainda em 1924, foi nomeado para estudar uma proposta feita ao governo para o estabelecimento de carreiras aéreas com fins comerciais. Morreu a 15 de Novembro de 1924, quando pilotava um Fokker 4146 de Amesterdão para Lisboa, um dos cinco aviões que haviam sido adquiridos por subscrição pública, e que seriam utilizados no seu projecto da viagem aérea à Índia, uma vez fracassado o seu projecto de circum-navegação.

Actividade científica

Juntamente com Gago Coutinho estudou um novo aparelho com o qual se viria a conseguir uma navegação estimada, e que viria a auxiliar e a completar a navegação astronómica por intermédio do sextante modificado por Gago Coutinho. Inicialmente este aparelho foi chamado “Plaqué de Abatimento” e mais tarde “Corrector de Rumos – Coutinho-Sacadura”.

Este aparelho foi experimentado na primeira viagem aérea Lisboa-Madeira realizada em 1921. Tendo obtido os melhores resultados na sua utilização, este aparelho foi apresentado ao Congresso Internacional de Navegação Aérea, realizado em Paris de 15 a 25 de Novembro de 1921, onde teve boa aceitação. A memória descritiva do “Corrector” foi publicada nos Anais do Club Militar Naval.

A preparação para a primeira travessia aérea do Atlântico Sul é da iniciativa de Sacadura Cabral, que expôs o projecto a Gago Coutinho, o que motivou que este acelerasse a adaptação do sextante clássico de navegação marítima à navegação aérea. A travessia iniciou-se em 30 de Março de 1922, em Belém no hidroavião “Lusitânia”. A primeira escala foi nas Canárias, de onde partiram para São Vicente, em Cabo Verde. Daqui partiram para os Penedos de São Pedro, com problemas de consumo de combustível. Ao amarar, uma vaga arrancou um dos flutuadores do “Lusitânia”, o que provocou o afundamento do avião. Os aviadores foram recolhidos pelo navio “República”. O “Lusitânia” acabara de realizar uma etapa de mais de onze horas sobre o oceano, sem navios de apoio, mantendo uma rota matematicamente rigorosa, o que mais uma vez veio provar a precisão do sextante modificado, pois os Penedos de São Pedro e São Paulo podem considerar-se um ponto insignificante na enorme vastidão atlântica.

O governo enviou um outro hidroavião Fairey 16, cujo motor veio a avariar no percurso entre os Penedos de São Pedro e São Paulo e a ilha de Fernando de Noronha. Foi pedido um novo Fairey ao governo português, que foi enviado no “Carvalho Araújo”. Três dias depois partiram para o troço final, chegando à baía de Guanabara e terminando a viagem no Rio de Janeiro a 17 de Junho, depois várias escalas.

Esta viagem aérea constituiu um marco importante na aviação mundial, pois veio comprovar a eficácia do sextante aperfeiçoado por Gago Coutinho, com a ajuda de Sacadura Cabral, que permitia a navegação aérea astronómica com uma precisão nunca antes conseguida.

Faleceu num desastre de aviação algures no Mar do Norte, em 1924, quando voava em direcção a Lisboa, pilotando um avião que se despenhou. O cadáver nunca foi encontrado. Acerca da sua morte escreveu um Poeta: “Encontrou a sepultura em pleno mar / Que a terra, donde andava foragido, / Era pequena demais para o sepultar.”

20/10/2013

ADRIANO BOMBA E O MIG 17, 1981

Filed under: Adriano Bomba 1981 — ABM @ 17:04
Em 1981, Adriano Bomba, então um piloto das FAM, fugiu para a África do Sul com um MIG 17.

Em 1981, Adriano Bomba, então um piloto da Força Aérea de Moçambique, fugiu para a África do Sul com um MIG 17.

18/10/2013

O CICLONE TROPICAL CLAUDE EM LOURENÇO MARQUES, JANEIRO DE 1966

Filed under: Ciclone Claude em LM Jan 1966 — ABM @ 00:12

Fotografias de Paulo Badinha, restauradas. O mapa foi copiado do sítio do serviço meteorológico da Austrália.

Neste mapa pode-se seguir o percurso que o Ciclone Tropical Claude fez desde a sua aparição, na noite de Natal de 1965, até

Neste mapa pode-se seguir o percurso que o Ciclone Tropical Claude fez desde a sua aparição, na noite de Natal de 1965, até ao dia 8 de Janeiro de 1966. Lourenço Marques foi directamente atingida pelo Ciclone nos dias 4 e 5 de Janeiro de 1966, uma terça e uma quarta-feira infernais. Com ventos acima dos cem quilómetros e uma estimativa de 650 mm de chuva nesse espaço de tempo, foi um dos principais fenómenos meteorológicos a atingir a capital moçambicana no Século XX.  Eu na altura tinha seis anos de idade e lembro-me desses dias e dos que se seguiram como se fosse hoje. O telhado da casa onde eu habitava na Ponta Vermelha foi derrubado pelo vento. Durante semanas não houve água canalizada na Cidade.

A Estrada Marginal de Lourenço Marques no dia 5 de Janeiro de 1966, quando o Claude assolou a capital de Moçambique.

A Estrada Marginal de Lourenço Marques no dia 5 de Janeiro de 1966, quando o Claude assolou a capital de Moçambique.

xxx

Após o Claude ter seguido o seu percurso Sudeste, a área metropolitana de Lourenço Marques ficou desvastada pelos efeitos do vento e da água.

Numerosas árvores caíram e o deslizamento de terras foram visíveis um pouco por toda a Cidade. As barreiras em frente ao Hotel Cardoso e o então Liceu Salazar (hoje Liceu Josina Machel) levaram meses a reparar.

Numerosas árvores caíram e o deslizamento de terras foram visíveis um pouco por toda a Cidade. As barreiras em frente ao Hotel Cardoso e o então Liceu Salazar (hoje Liceu Josina Machel) levaram meses a reparar.

Uma das ruas da Cidade.

Uma das ruas da Cidade.

Nos arredores da Cidade.

Nos arredores da Cidade.

Esquina da Avenida Dom Luiz com a Avenida da República (actuais Av. Marechal Samora Machel e 25 de Setembro)

Esquina da Avenida Dom Luiz com a Avenida da República (actuais Av. Marechal Samora Machel e 25 de Setembro). Á esquerda o Café Scala, em frente o Café Continental.

Em frente à Marta da Cruz & Tavares podia-se nadar.

Em frente à Marta da Cruz & Tavares podia-se nadar.

Na esquina das Avenidas da República e Dom Luiz, no (agora em ruínas) Edifício Pott, onde se encontrava a Mercearia Pérola do Oriente, este foi o cenário durante dias.

Na esquina das Avenidas da República e Dom Luiz, no (agora em ruínas) Edifício Pott, onde se encontrava a Mercearia Pérola do Oriente, este foi o cenário durante dias.

Em frente à Casa Coimbra e à Sede do Banco NacionalUltramarino (actualmente a Sede do Banco de Moçambique).

Em frente à Casa Coimbra e à Sede do Banco NacionalUltramarino (actualmente a Sede do Banco de Moçambique).

A AVenida da República (actual 25 de Setembro) em frente à Casa Bayly.

A Avenida da República (actual 25 de Setembro) em frente à Casa Bayly.

Vista da Avenida da República na direcção da Praça Mac-Mahon (actual Praça dos Trabalhadores).

Vista da Avenida da República na direcção da Praça Mac-Mahon (actual Praça dos Trabalhadores).

Na Estrada Marginal, um automóvel soterrado em areias caídas das Barreiras da Polana.

Na Estrada Marginal, um automóvel soterrado em areias caídas das Barreiras da Polana.

Uma carrinha táxi num buraco aberto na estrada.

Uma carrinha táxi num buraco aberto na estrada.

06/10/2013

O PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DA REPÚBLICA PORTUGUESA NA ILHA DE MOÇAMBIQUE, 1911

Imagem da celebração, na Ilha de Moçambique, do primeiro aniversário da imposição da república portuguesa.

Imagem da celebração, na Ilha de Moçambique, do primeiro aniversário da imposição da república portuguesa. Então, já não era a capital da Colónia.

A CELEBRAÇÃO DO DIA DE PORTUGAL EM LOURENÇO MARQUES, JUNHO DE 1973

Fotografia do Nuno Pires, que estava nas catacumbas dentro de sua casa, graciosamente enviada para restauro e que aqui se apresenta.

 

Vista de longe, a então Praça Mouzinho de Albuquerque (hoje a Praça da Independência) no domingo, dia 10 de Junho de 1973

Vista de longe, a então Praça Mouzinho de Albuquerque (hoje a Praça da Independência) em Lourenço Marques, no domingo, dia 10 de Junho de 1973, data em que se crê ter falecido o poeta Luiz Vaz de Camões (autor de, entre outros, o poema “Os Lusíadas”) e que ainda hoje é o feriado nacional da nação portuguesa. Na cidade, realizou-se uma parada militar e na praça podem-se observar populares e tropas em fila, no ar quatro helicópteros Alouette voando em formação. Dez meses e duas semanas depois, sob a liderança do “moçambicano” Otelo Saraiva de Carvalho, triunfava em Lisboa um pronunciamento militar que abriria o caminho para a Independência de Moçambique, mediante um cessar-fogo e um acordo assinado em Lusaka em 7 de Setembro de 1974 e, uma semana e meia mais tarde,  a entrega do governo do então Estado a representantes da  Frente de Libertação de Moçambique, o movimento guerrilheiro que combatia no Norte há dez anos.

 

 

21/07/2013

ROBERT KENNEDY, JOHN KENNEDY E EDUARDO MONDLANE: O TELEFONEMA DE 4ª FEIRA, 8 DE MAIO DE 1963

Dedicado ao Dr. Yussuf Adam em Maputo.

JFK e RFK na Casa Branca. A 8 de Maio de 1963 Bob Kennedy menciona Eduardo Mondlane pela primeira vez ao Presidente Kennedy, em baixo, oiça o telefonema e leia a transcrição desse histórico telefonema.

JFK e RFK na Casa Branca. Num telefonema feito a 8 de Maio de 1963, Bob Kennedy menciona Eduardo Mondlane pela primeira vez ao Presidente Kennedy, em baixo, oiça a gravação e leia a transcrição desse histórico telefonema.

Escutar a gravação da chamada feita por Robert Kennedy ao seu irmão John, então Presidente dos Estados Unidos, diz mais do que o mero texto sugere. JFK indicia que nunca tinha ouvido falar de Eduardo Mondlane, então há quase um ano a liderar o grupo de nacionalistas que queriam trazer a independência à colónia portuguesa de Moçambique. Pelo tom, o Presidente norte-americano nem sequer sabia bem se Moçambique era uma colónia portuguesa, se bem que ele soubesse umas coisas sobre Portugal, um dos primeiros países europeus a reconhecer a independência norte-americana após 1776 (o reconhecimento português foi formalizado a 15 de Fevereiro de 1783, o norte-americano em 21 de Fevereiro de 1791).

Antes de ter sido eleito presidente em 1960, John Fitzgerald Kennedy havia sido um dos dois Senadores pelo Estado de Massachusetts, a base do poder dos Kennedy e onde residiam milhares de portugueses originários do Arquipélago dos Açores, bem como muitos cabo-verdianos, que então eram também cidadãos portugueses. Nessa comunidade muitos se recordavam da autorização especial negociada por Kennedy para possibilitar a imigração para os EUA de milhares de açorianos aquando das erupções do vulcão dos Capelinhos, junto da Ilha do Faial, entre Setembro de 1957 e Outubro de 1958.

Os Açores, um conjunto de nove ilhas portuguesas no Oceano Atlântico situadas a dois terços do caminho dos EUA para a Europa, ilhas que muito rapidamente se tornaram num verdadeiro calcanhar de Aquiles da política norte-americana em relação a Portugal e às suas colónias, dada a sua importância estratégica para a Aliança Atlântica e no quadro da Guerra Fria – e curiosamente, para onde fora exilado Gungunhana, o chefe dos Vátuas de Moçambique, em 1896 e onde falecera dois dias antes do Natal de 1906.

Na Ilha açoriana da Terceira, desde a Segunda Guerra Mundial que funcionava uma enorme base aérea, que, singularmente, possibilitava o movimento rápido de tropas e munições dos Estados Unidos para a Europa e o Médio Oriente. A alternativa era o seu envio por barco, o que era incomensurável com os requisitos da guerra moderna.

Por outras palavras, face à nova pressão e à urgência norte-americana em ver Portugal a agir em relação às suas colónias em sincronia com o resto da Europa, Salazar não só resistiu, como tinha – e utilizou – a chantagem açoriana.

Mas naquela quarta-feira, dia 8 de Maio de 1963, de nada disso se falou. Robert Kennedy, o algo polémico Procurador-Geral do governo federal, mais ou menos focado em acabar com as redes de crime organizado nos Estados Unidos, mas em tudo o mais um leal e importante conselheiro do irmão, telefona-lhe para lhe falar de uma série de tópicos. O assunto Eduardo Mondlane ficou encaixado no meio de um conjunto de temas desconexos.

Quiçá mais do que o Presidente, o seu irmão RFK estava ciente da situação dinâmica da luta dos americanos negros pela sua integração plena na sociedade norte-americana, em crescendo desde os anos 50 e, no foro externo, do surgimento dos novos países africanos na cena internacional, em aliança com uma série de países asiáticos, os quais, a partir de 1960, reforçaram o contingente anti-colonial na Organização das Nações Unidas. No início dos anos 60, a Argélia francesa estava a ferro e fogo e a Grã-Bretanha movia-se rapidamente para tornar independentes as suas colónias. Em 1961 iniciou-se uma guerrilha anti-colonial em Angola, no final desse ano a Índia tomou para si as pequenas parcelas que constituíam o Estado Português da Índia, e em meados de 1962 os grupos independentistas de Moçambique juntavam-se numa frente única para articular o esforço pela independência. Por sugestão e pressão de Julius Nyerere, o mercurial novo líder da Tanganika, o Dr. Eduardo Mondlane, que então vivia nos Estados Unidos há vários anos e que estava casado com uma cidadã norte-americana, e que era uma escolha natural para liderar o movimento, aceitou presidir à Frelimo, cuja sede e base de operações passou a ser a futura Tanzânia.

Na ONU, vivia-se uma nova era, em que os países agora independentes insistiam em colocar na agenda a descolonização, tentando forçar o assunto pela via diplomática, algo que os Estados Unidos, também uma ex-colónia, nada tinham contra, excepto que tal mexia com as suas relações estratégicas com um conjunto de países europeus, entre os quais Portugal, onde mandava uma única figura desde 1932: António de Oliveira Salazar.

Salazar, veio-se a confirmar, tinha uma enorme desconfiança em relação aos Estados Unidos, a grande potência emergente no mundo após o término da Segunda Guerra Mundial, altura em que o poder real nas relações internacionais gravitou das mãos mais batidas e conhecidas da Grã-Bretanha para que o que ele considerava ser uma diplomacia menos experiente e mais volúvel.

Mais grave ainda, Salazar, que nunca visitara nenhuma colónia portuguesa durante toda a sua vida, achava que os destinos desses territórios eram assunto para Portugal decidir conforme considerasse melhor, sendo que aos residentes (ambos colonizados e colonos) não lhe ocorria fazer uma consulta sequer. E Salazar, como a chamada “ala dura” do regime por ele criado, perspectivava como sendo simplesmente impensável sequer discutir a questão da sua autonomia, quanto mais a sua independência, que provavelmente vislumbrava ocorrer dali a muitas dezenas de anos. Na óptica do regime, “aquilo é nosso”, tal como uma quinta em Trás-os-Montes.

Para os norte-americanos, especialmente para a Administração Kennedy, a postura de Salazar era completamente insana e jogava em favor do Bloco Chino-Soviético, adversário dos americanos na Guerra Fria, que já tinham dado claros sinais de quererem explorar plenamente a oportunidade de pressionar o Ocidente via o apoio e controlo de movimentos independentistas espalhados por todo o mundo. Esta percepção fora ainda mais agravada pela Crise dos Mísseis de Cuba, ocorrida em Outubro de 1962, e que colocara então os Estados Unidos a um fio de um conflito nuclear com a União Soviética.

Assim, os americanos, especialmente Bob Kennedy, sabiam que era importante e urgente para os Estados Unidos negarem esse espaço de manobra aos países da Cortina de Ferro, que se aproveitavam das descolonizações para demarcar o seus novos domínios, por assim dizer. No caso da Tanzânia, a aproximação fez-se com a China, que, como se podia prever, viria a desempenhar um papel importante e exercer uma enorme influência na então emergente Frelimo, apesar dos esforços dedicados do Dr. Mondlane e da sua mulher de diversificarem os apoios e assim reduzirem a dependência da Frente nas ditaduras comunistas.

Penso que é neste contexto global que se insere esta primeira abordagem formal do Dr. Eduardo Mondlane à Administração Kennedy em 1963. Certamente foi entendida como tal. No telefonema de 8 de Maio de 1963, RFK indica que tivera mais que um contacto com Mondlane e que ele ficara deveras impressionado com o então Presidente da Frelimo.

Registo da conversa telefónica entre JFK e RFK sobre Mondlane e Moçambique

Para escutar o telefonema, prima AQUI.

Início – 0827 mins
Fim – 10:00 mins

Documentos de John Fitzgerald Kennedy
Gravações Presidenciais – Dictabelts – Dictabelt 18B

(Início)

RFK: Now, one other thing. Uh, . . . I’ve had some conversations the last couple of
weeks with a fellow by the name of [Eduardo] Mondlane . . .

President: Yeah.

RFK: . . . who’s from Mozambique.

President: Yeah.

RFK: And he’s the fellow that’s leading the effort to, uh, make Mozambique
independent. He’s a terrifically impressive fellow.

President: Yeah.

RFK: And, uh . . .

President: That’s Portuguese?

RFK: Yeah.

RFK: Uh, . . . He, uh, . . . uh, . . . Some of his people have gotten . . . He’s the head
of it, but some of his people have gotten some aid and assistance from
Czechoslovakia and Poland. He needs help from the United States for two
reasons. Number one, so that he can indicate to them that there are people in
the West at least sympathetic to his efforts, and, uh, number two, just to keep
‘em going. And, uh, the figure that he’s mentioned, that they’ll need for a year
is a . . . uh, . . . is quite reasonable. First, he needs fifty thousand dollars for
help with the refugees. Uh, . . . I think that they . . . It’s a possibility that they
can get the second fifty thousand dollars from the Ford Foundation. At least
they’re working on that. Carl Kaysen is. Uh, but he’d need at least fifty
thousand dollars from us. Now, uh, Dean Rusk has felt that . . . uh, that he
wants to be able to sit down with the Portuguese and say none of these people
are getting any money. Uh, . . . if he turned this over to somebody like Averell
Harriman
or John McCone, just to use their own judgment, uh, . . . the he

wouldn’t have to kn–get involved in it . . .

President: Yeah.

RFK: . . . or know anything about it. Uh, . . . I think it would be damn helpful. Now,
we’ve had discussions on these things for the last week and Carl Kaysen can
fill you in on it. But this fellow’s going hack Wednesday–Mondlane–and he’s
gonna meet with the heads of all these African nations at this meeting, I guess
next week.

President: ‘Course, we wouldn’t want him to be saying that he got anything from us.

RFK: No, but you wouldn’t have that, you see. You’d have it though some private
foundation.

President: Yeah.

RFK: Then they could have cut-outs on it.

President: I see.

RFK: And John McCone can handle it. So it wouldn’t come from the agency.
President: Well, now, what does it depend on . . . Uh, you think we ought to give it?

RFK: Yes.

President: O.K., well, then, what do we give it?

RFK: Well, if–maybe if you call to Carl Kaysen about how it should be handled,
because if it’s to be handled so that Dean Rusk is happy and . . . and, uh,
Averell Harriman feels very strongly it should he given.

President: O.K.

RFK: But, uh, I think if it could be handled so that . . . maybe you could explain to
Dean Rusk he doesn’t haveto know about it directly.

President: Should we tell Dean Rusk?

RFK: Well, um, Carl Kaysen got all the facts on it, and he’ll have a suggestion as to
how it should be handled.

(Fim)

13/06/2013

A AMEAÇA DE ATAQUE A LOURENÇO MARQUES, NOVEMBRO DE 1894

Filed under: Ataque a LMarques 1894 — ABM @ 19:11

Com a entrada em funcionamento da linha férrea de Lourenço Marques para Pretória, os assuntos de Moçambique começaram a merecer um maior interesse por parte da imprensa britânica, sempre suspeita e algo displicente em relação à capacidade portuguesa de fazer seja o que for nas suas recentemente definidas colónias, especialmente no Sul de Moçambique, que os coloniais britânicos nunca realmente aceitaram não ter ficado para a então maior potência militar e económica do Mundo.

Em baixo, o The Graphic, uma revista ilustrada britânica, na sua edição de 15 de Dezembro de 1894, dá notícia do levantamento indígena que pouco antes ameaçara atacar e arrasar a pequena cidade de Lourenço Marques e das medidas já tomadas, e que incluíram a cidade se ter barricado com postos de vigia e a chegada de 550 tropas negros de Angola.

O jornal não sabia que, menos que três semanas mais tarde, chegaria a Lourenço Marques mais um navio com uma série de oficiais e armamento para proteger a cidade. No segundo dia de Fevereiro do ano seguinte, dava-se a Batalha de Marracuene, cujo objectivo principal era libertar Lourenço Marques da ameaça de um ataque.

 

A Página 672 da revista britânica The Graphic, 15 de Dezembro de 1894, sem querer anunciando o prelúdio do que os portugueses chamaram as "campanhas de pacificação", isto é, a aceitação da soberania portuguesa por parte das populações que habitavam dentro do que é hoje Moçambique.

A Página 672 da revista britânica The Graphic, 15 de Dezembro de 1894, sem querer anunciando o prelúdio do que os portugueses chamaram as “campanhas de pacificação”, isto é, a aceitação da soberania portuguesa por parte das variadíssimas populações que habitavam dentro do que é hoje Moçambique. O processo levou décadas.

12/06/2013

PRESTANDO VASSALAGEM À COROA EM MOÇAMBIQUE, FINAL DO SÉC. XIX

Filed under: fim Séc. XX, Tribo prestando vassalagem — ABM @ 16:17

Fotografia do Nuno Castelo-Branco, restaurada.

 

Para além da assinatura de "tratados-tipo", as tribos dentro dos territórios retalhados entre os países europeus

Para além da assinatura de “tratados-tipo”, às tribos residentes dentro dos territórios retalhados entre os países europeus era exigido que, para demonstrar (exibir?) o seu respeito pelo novo governo colonial, exibissem a bandeira do país em certas cerimónias. No caso em cima, a bandeira portuguesa.  Dada a periclitância das relações nestes tempos, tinha a vantagem para o oficial colonial, de saber de antemão se estava tudo bem. Se por acaso os súbditos nativos estivessem a rasgar e a pegar fogo à bandeira, talvez não fosse boa ideia comparecer….

10/06/2013

EDUARDO MONDLANE EM OBERLIN COLLEGE, EUA, 1953

Foto de Chude Mondlane.

O jovem Eduardo Mondlane no dia da sua formatura no Oberlin College, no Estado norte-americano de Ohio, 1953.

O jovem Eduardo Mondlane no dia da sua formatura no Oberlin College, no Estado norte-americano de Ohio, 1953. Tinha 23 anos de idade. Natural de Manjacaze, estudou na Missão Suíça, após o que tentou fazer os estudos na África do Sul, depois esteve algum tempo em Portugal na Universidade de Lisboa mas em seguida foi para Oberlin. Mais tarde, obteve um doutoramento em sociologia na Universidade de Northwestern, em Evanston, Illionois, EUA, situada junto de Chicago. Anos mais tarde, relutantemente, acedeu a liderar a Frente de Libertação de Moçambique, um agregado das organizações então activas no sentido de tornar a província independente e os seus destinos geridos pelos seus naturais.

O BERÇO DE ANTÓNIO OLIVEIRA SALAZAR

A casa onde o diatdor nasceu e cresceu na localidade de Santa Comba Dão (onde fui sepultado em Julho de 1970). Parte do mito.

A casa onde o diatdor nasceu e cresceu na localidade de Santa Comba Dão (onde fui sepultado em Julho de 1970). Parte do mito do político que nasceu pobre e morreu pobre, ainda hoje popular entre muitos dos seus compatriotas.

 

O Professor Doutor, posando para a posteridade no início da ditadura. Herdou um país que era um caco mas a longa permanência no poder   criou outros problemas.

O Professor Doutor, posando para a posteridade no início da ditadura. Herdou um país depauperado pelas tricas da 1º República, mas a longa permanência no poder criou outros problemas, nomeadamente o colonial, o desajustamento com os níveis de desenvolvimento económico e social dos seus vizinhos europeus e a perpetuação de um paradigma insustentável, para não falar da mania do dirigismo centralizado nas decisões estatais. Quem veio a seguir teve que apanhar os cacos outra vez – e não apanhou coisa nenhuma.

 

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