THE DELAGOA BAY WORLD

12/12/2019

“BEIRA”, NOVO LIVRO SOBRE A CIDADE DA BEIRA, LANÇADO DIA 17 DE DEZEMBRO DE 2019

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Na próxima terça-feira, 17 de Dezembro de 2019, pelas18 horas, vai haver uma cerimónia a assinalar a publicação de uma obra sobre a Cidade moçambicana da Beira, intitulada, somente, “Beira”, da co-autoria de Augusto Nascimento, o moçambicano Aurélio Rocha e Eugénia Rodrigues.

A cerimónia, que é aberta ao público (incluindo os exmos. Leitores que se interessem) vai ter lugar no Anfiteatro 3 da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (que fica algures ao pé do Campo Grande) e inclui uma apresentação pelo Doutor Pedro Aires Oliveira, um dos nossos craques em História, sobre o seu conteúdo.

Tanto há a aprender e ainda mais a dizer sobre a cidade moçambicana da Beira, criada cerca de 1890 no lado Norte da foz do Rio Pungué, mais ou menos a meio do que hoje é Moçambique, como sede da Companhia de Moçambique, uma das entidades majestáticas que fizeram o dúbio frete de trazer o colonialismo moderno à África Oriental Portuguesa e que durou uns cinquenta anos.

A Beira, inicialmente quase só britânica, centrava-ve em administrar e explorar o território que integrava a concessão da Cia. de Moçambique e a assegurar a ligação das Rodésias britânicas ao mar. Oito décadas mais tarde, cresceu e nos anos 70 era mais “portuguesa” e surge como a segunda cidade do nascente país. E desde então decorreram quase mais cinco décadas, em que a África negra entrou naquela espécie de reduto branco, entretanto virtualmente abandonada pelos anteriores residentes. Olhando para a Beira de hoje, o seu património e o seu passado, o que dizer? Do que penso que me apercebi de uma conversa com um dos co-autores, a obra agora a publicar faz um conjunto de reflexões sobre estas e outras temáticas, usando o presente da Cidade como referência.

 

Capa

Convite público.

10/12/2019

100 ANOS DA FUNDAÇÃO DO JORNAL O EMANCIPADOR EM LOURENÇO MARQUES

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Numa louvável iniciativa dos académicos Luis de Carvalho, e Carlos Lopes Pereira, e ainda A Voz do Operário e o Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, vai haver no próximo sábado na sede da Voz do Operário no centro de Lisboa (ver detalhes em baixo) uma cerimónia a assinalar a fundação do jornal O Emancipador em 1919 e que circulou em Lourenço Marques, com as habituais peripécias, até ser “suicidado” pelo regime em 1937.

A cerimónia inclui abordagens ao tema por Luis de Carvalho e Carlos Lopes Pereira e récitas por Elsa de Noronha e Alexandre de Sousa.

Sugiro ao exmo. Leitor que segue estas coisas que vá lá assistir, é um sábado à tarde e a coisa promete.

16/09/2019

LOURENÇO MARQUES EM 1960 E EM 1887: UMA COMPARAÇÃO

Comparação feita por mim, a “olhómetro”.

 

A Baixa de Lourenço Marques cerca de 1960.

 

A- Definida pela linha cor de rosa, a antiga Enseada da Maxaquene, aterrada a partir de 1919; B – Definida pela linha a vermelho, a “ilha” que constituía o núcleo original da Cidade; C- Definido pela linha a verde, o Pântano que separava a “ilha” de (digamos) terra firme; 1- o aterro esteve quase intocado durante 40 anos, coberto por arvoredo; 2 – a antiga Câmara Municipal de Lourenço Marques em frente ao Desportivo, que originalmente ficava mesmo em frente à Praia da Câmara; 3- O Jardim Vasco da Gama, agora Tunduru, que tocava o Pântano a Sul; 4- O terreno na esquina da Avenida da República com a D. Luiz (hoje 25 Setembro com Samora Machel) onde ficava a estrada de acesso pelo Pântano ao núcleo original da Cidade; 5- O Presídio de Nossa Senhora da Concieção, que ficava directamente em frente à Baía; 6- A Praça 7 de Março (hoje 25 de Junho) originalmente Praça da Picota, o primeiro espaço público da Cidade; 7- A Avenida da República (hoje 25 de Setembro) coincide mais ou menos com a margem Sul do Pântano.

 

A Cidade em 1887. A verde azeitona, o Pântano. 

10/09/2019

PEÇA DE TEATRO ESCOLAR EM LOURENÇO MARQUES, 1901

Imagem retocada.

Em baixo, uma reportagem da Ilustração Portugueza, 29 de Junho de 1908, sobre os primórdios da escolaridade em Lourenço Marques. Correctamente, a peça começa referindo o lamentável estado da educação portuguesa de então, como preâmbulo para o facto da educação quase inexistente na sua segunda maior colónia, que era uma espécie de Faroeste português em África.

1 e 2

2 de 2

07/09/2019

A ENTRADA DO JARDIM VASCO DA GAMA EM LOURENÇO MARQUES, 1935

Imagem retocada.

 

Na pequena praça em frente à entrada principal do Jardim Vasco da Gama, em 1939 seria colocado um monumento a assinalar a passagem pela Cidade do Presidente Óscar Carmona, em 1939. A mesma seria retirada em 1975 e uns anos depois seria ali colocada uma pequena estátua do Presidente Samora machel.  Na esquina do terreno em cima à esquerda, seria colocada em 1972 a Casa de Ferro. Note-se,, ainda no cimo da fotografia, o topo da velha Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que seria demolida em 1944, e onde depois seria construída a sede do Rádio Clube de Moçambique.

A SEDE DO RÁDIO CLUBE E A IGREJA DA IMACULADA CONCEIÇÃO EM LOURENÇO MARQUES

Imagens retocadas.

No preciso local onde fica a entrada da sede do Rádio Clube de Moçambique – actualmente a Rádio Moçambique, EP – existiu durante quase 60 anos uma igreja, a primeira igreja católica em Lourenço Marques, edificada no âmbito da conhecida missão liderada por Joaquim José Machado e que desembarcou em Lourenço Marques em 7 de Março de 1877. O templo foi dedicado à Imaculada Conceição que permanece como a Padroeira da Cidade. Num quase inexplicável rearranjo da Cidade iniciado na década de 1930, a igreja seria demolida no início da década de 1940, sendo, simultaneamente, edificada, mais abaixo na mesma rua, a Sé Catedral, também dedicada à Imaculada Conceição, que seria inaugurada pelo Cardeal Cerejeira em Agosto de 1944.

A Sede do RCM, anos 50. Ao fundo, a Sé Catedral.

 

A mesma perspectiva. À esquerda, o depósito de água do Jardim Vasco da Gama.

 

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, década de 1890. 

 

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, década de 1890, no mesmo local onde viria a ser edificada a sede do Rádio Clube.

09/08/2019

O HOTEL CARDOSO EM LOURENÇO MARQUES, DÉCADA DE 1960

Imagens retocadas.

 

A fachada do Hotel Cardoso vista do lado da rua no final da década de 1950. Nos anos que se seguiram, o edifício foi ampliado, acrescentando-se mais dois andares, mantendo no entanto o estilo (mais ou menos) art deco.

 

 

 

 

A piscina e o páteo com vista para a Baía.

 

A piscina. Notem-se as barreiras completamente cobertas por vegetação. Isso seria radicalmente alterado com os efeitos do Ciclone Claude em Janeiro de 1966.

 

02/08/2019

OS CEMITÉRIOS DE LOURENÇO MARQUES NOS SÉCULOS XIX E XX

Imagens retocadas.

Ao princípio não sei bem como era. Imagino que na região onde hoje se situa a capital de Moçambique, as populações nativas, quase todas oriundas, em tempos quase imemoriais, do Norte, algures na África Central e Ocidental, sepultavam os seus mortos perto dos locais onde viviam, no mato. Eventualmente seguiriam alguma forma de rito.

Mais ao Norte do que é hoje Moçambique, onde havia uma presença muçulmana desde o Século IX, os muçulmanos seguiam o rito prescrito nas suas escrituras.

A partir do Século XVI, começaram a passar por ali alguns europeus, a maioria cristãos, que tinham ritos mais ou menos bem estabelecidos quanto à disposição dos seus mortos. Os poucos portugueses que se estabeleceram principalmente em nichos na na costa oriental africana, para além de praças fortes para conduzirem o seu comércio e, no caso de Moçambique (a Ilha) constituírem uma base logística para suportar as rotas marítimas para outros pontos mais a Norte e a Leste (de que se destaca, claro, Goa, a partir de onde, de facto, eram governados os pontos na costa oriental africana, até meados do Século XVIII) construíram igrejas e conventos – e, presume-se, cemitérios.

Mas quase não conheço nenhum cemitério português em Moçambique que date dos Séculos XVI e XVII. E todos sabemos que os portugueses morriam – e morreram – que nem tordos, em África. Havia a malária, as pestes, as picadas e os ataques dos animais, as feridas resultantes de acidentes e combates que eram quase parte normal do quotidiano. Um ferimento, uma doença, naqueles tempos, era praticamente uma sentença de morte. Donde presumo que eram sepultados em valas comuns nos terrenos, que se perderam com o tempo.

Alguns indivíduos mais importantes, à semelhança do que aconteceu durante algum tempo na Europa, foram sepultados nos átrios das poucas igrejas existentes. Penso que isso aconteceu na Ilha de Moçambique.

Outros, como Vasco da Gama, que morreu em Cochim, então uma praça portuguesa na Índia, foram sepultados temporariamente e depois os seus restos mortais foram levados para Portugal e ali depositados (Vasco da Gama está no Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa e é uma atracção turística).

Enquanto urbe permanente ocupada por, maioritariamente, europeus, Lourenço Marques surge tardiamente, praticamente nas primeiras décadas do Século XIX.

Segundo Alfredo Pereira de Lima, citado pela sua filha Cristina, originalmente os que ali morriam eram sepultados mesmo ao lado do Presídio (a actual “fortaleza”), na então recinto da Praça (da Picota, a actual Praça 25 de Junho, anteriormente Praça 7 de Março), naquilo que era, praticamente, uma ilha.

Em 1838, depois de uma expedição Boer que correu mal, um conjunto dos chamados “pioneiros”, liderados por Louis Trechardt (também escrito Trichardt), foram, doentes, presumivelmente com malária, até ao Presídio, onde mais tarde, faleceram. Foram então sepultados num terreno situado bem fora da Povoação, que se veio a tornar no primeiro cemitério de Lourenço Marques: o Cemitério de São Timóteo.

São Timóteo

O local do primeiro cemitério da Cidade ficava situado mais ou menos onde fica o actual Monumento em memória de Louis Trechardt, na Baixa de Maputo, a cerca de um quilómetro a Oeste do Jardim Vasco da Gama (ou Tunduru).

Lourenço Marques mais ou menos em 1890.  Legendas: 1 – Praça da Picota, actualmente a Praça 25 de Junho (anteriormente Praça 7 de Março) onde se sepultavam os primeiros europeus; 2- Cemitério de São Timóteo; A – o Presídio; B- A verde, o pântano que separava a Cidade de terra firme; C- terrenos onde se construiu o futuro Jardim Botânico, hoje o Tunduru; D – A Estrada da Ponta Vermelha; E- à esquerda, o Hospital Civil e Militar que fica onde são hoje as escadas da Sé Catedral, e à direita a Igreja Paroquial, iniciada em 1878 que ficava onde hoje é a sede da Rádio Moçambique; E- A Estrada de Lidemburgo, através da qual se ia para a actual África do Sul.

Cristina Pereira de Lima escreveu o seguinte, tendo por fonte notas e artigos escritos pelo seu Pai, Alfredo Pereira de Lima, e que fazem parte do seu espólio:

“O local onde foram sepultados o pioneiro sul-africano Louis Trichardt e os seus companheiros de jornada de 1838 passou a servir de cemitério – o primeiro da cidade de Lourenço Marques – com o nome de Cemitério de S Timóteo. No Cemitério de S. Timóteo foram sepultados pioneiros dos mais destacados de Lourenço Marques, supondo-se que também o Governador Onofre de Andrade, bem como numerosos ingleses que prestavam serviço na velha Estação do cabo submarino. Foi só a partir de 1882 que se começaram a fazer registos dos enterramentos nesse cemitério e foram entáo colocadas cruzes pintadas de preto identificando os covais. Este local serviu de cemitério até 10 de Novembro de 1886, data em que abriu o segundo cemitério da cidade, o Cemitério S Francisco Xavier, mais acima, na direcção do Alto-Maé. Em 25 de Novembro do ano de 1933, as ossadas dos pioneiros sepultados no Cemitério de São Timóteo foram exumadas e transferidas para um sarcófago próprio no cemitério de S José de Lhanguene.”

A única fotografia que conheço do Cemitério de São Timóteo, datada de 1897. Na década de 1930, este cemitério seria extinto e as ossadas transferidas para um local no Cemitério de São José de Lhanguene. Em 1968, num terreno livre no mesmo local, entre prédios, foi construído o monumeno em memória de Louis Trechardt,

São Francisco Xavier

“O Cemitério de São Francisco Xavier foi o segundo cemitério que teve a Cidade, tendo sido inaugurado oficialmente a 20 de Novembro de 1886. Para além de gerações dos primeiros habitantes europeus da Cidade, muitos pioneiros, colonos e boa parte dos heróis das campanhas de África estão aqui enterrados, como o 1º tenente Filipe dos Santos Nunes, Caldas Xavier e Roque de Aguiar (das campanhas de 1895); o enfermeiro Fernando Poças (expedição a Macequece) ; D. Egas Moniz Coelho, Dr. Bernardino Pina Cabral, Comandante José Cardoso, Comandante. Augusto Cardoso (explorador do Niassa), D. Pedro de Sousa Chichorro etc. O Cemitério foi ampliado pela primeira vez em 1891, tendo sido prolongado no sentido Noedeste e foi encerrado em 20 de Novembro de 1951.”

“O Cemitério de São Francisco Xavier  tem anexados os Cemitérios Parse, Maometano e Judaico, abrange dois quarteirões quase inteiros, delimitados pelas Avenidas Manuel de Arriaga, Paiva Manso, Pinheiro Chagas, Latino Coelho e Dr Joel Serrão e ocupa a área de 60.769 metros quadrados. Muitos pioneiros encontram-se sepultados no Talhão dos Combatentes da Grande Guerra (1914-1918) e há ainda pioneiros sepultados em jazigos de familia.
No cemitério muçulmano estão sepultados muitos pioneiros maometanos, entre os primeiros habitantes da Cidade.”

São José de Lhanguene

“Pouco depois do final da Grande Guerra de 1914-1918 , para acorrer aos enterramentos em massa das muitas centenas de indígenas vitimados pela epidemia pneumónica, foi aberto o Cemitério de São José de Lhanguene. Desde a data da sua instituição até ao dia 20 de Novembro de 1951 este cemitério esteve reservado a nativos indigentes que tinham de ser sepultados em vala comum. A partir desta data a Câmara Municipal viu-se compelida a dotar a cidade com um novo cemitério e foi então alargado o covário de São José de Lhanguene e aberto ao público [tradução: aos brancos] nessa data. A cerimónia de abertura em 1951 revestiu-se de solenidade. Depois do ritual católico de benzimento do campo santo seguiu-se o primeiro enterramento oficial [dum branco]: o da ossada do velho colono Vitor José Milho da Rosa. Este velho colono que residia na Missão de S José de Lhanguene manifestara o desejo de ali ser enterrado, apesar de na altura o cemitério só conter valas comuns, e o seu desejo foi respeitado. A Secção dos Cemitérios da Câmara Municipal exumou os seus ossos [da Missão de São José de Lhanguene] colocou-os numa pequena urna e foi esse o primeiro enterramento oficial no novo Cemitério, dando á sua campa o Número 1.”

O histórico texto de Cristina Pereira de Lima coloca algumas questões:

  1. Obviamente os dois primeiros cemitérios da Cidade eram para brancos (o colonialismo …enfim). Fico sem perceber, onde, até à abertura de S. José de Lhanguene em 1918, a população negra era sepultada;
  2. Destaco a importância da informação em cima sobre a abertura de S. José de Lhanguene: abriu porque, durante 1918 (e até meados de 1919) grassava na zona de Lourenço Marques a pandemia mundial de pneumónica que se estima vitimou 3 a 5% da polução do planeta, entre 50 e 100 milhões de pessoas em todo o mundo, durante quase um ano (também conhecida como gripe espanhola). Até hoje, apesar de procurar e pesquisar há anos, tirando esta informação, nunca encontrei um só texto a falar sobre o que aconteceu em Moçambique durante essa mortífera pandemia. Li uma vez um texto que referia terem morrido na altura centenas de milhares de pessoas na África do Sul. Isto foi uma enorme tragédia e não encontro nada sobre o que aconteceu em Moçambique. Não há um académico caridoso que agarre neste assunto?
  3. O Cemitério de São Francisco Xavier tem importância histórica para a Cidade de Maputo (e para Moçambique) e deve ser preservado de alguma forma. Eu nunca lá entrei mas gostava de visitar um dia.

Fontes

“Obras de Alfredo Pereira de Lima” (FB) texto de Cristina Pereira de Lima dtd 1 de Novembro de 2016.

31/07/2019

A AVENIDA 24 DE JULHO EM LOURENÇO MARQUES, DÉCADA DE 1910, E FRANCISCO COSTA

A primeira imagem foi retocada.

A Avenida 24 de Julho era originalmente a mais longa da nova Lourenço Marques. Actualmente assinala um acto da Frelimo após a independência (penso que algumas “nacionalizações”) mas anteriormente assinalava um outro evento completamente diferente, a data em 1875 que consta da decisão de Mac-Mahon de conceder a Portugal (e não ao Reino Unido da Grã-Bretanha) o direito aos territórios que hoje constituem o Sul de Moçambique.

Mas o nome original daquela artéria era Avenida Francisco Costa. Em baixo está um esboço da vida deste homem, um homem do Império e da sua constituição na sua vertente adquirida na segunda metade do Século XIX e que obviamente, na altura, mereceu a atenção e o respeito dos poderes constituídos da Cidade, possivelmente por causa das causas que defendeu e medidas que tomou. Em 1897 a avenida já aportava o seu nome, dois anos antes da sua morte.

Outra interessante curiosidade: Francisco Costa era um maçon. E acontece que os membros da Maçonaria de Lourenço Marques, após a imposição da I República, construíram em Lourenço Marques aquele que ainda hoje é o maior edifício maçónico alguma vez construído em território português…. no meio da Avenida com o seu nome. E que após a proibição das sociedades secretas por Salazar em 1935, veio a ser a Escola Industrial (agora denominada de 1º de Maio).

A Avenida Francisco Costa, futuramente a 24 de Julho, no fim da primeira década de 1900, postal de Spanos e Tsitsias. A zona aqui retratada é a meio da então nova e mais longa avenida da Cidade (uns sete kms), à direita a seguir à última casa fez-se, no início dos anos 70 o Centro Comercial Man-Kay, que ficou conhecido como Loja Franca uns anos depois da independência (por ali ter existido uma “loja franca” de acesso restrito e que só vendia bens de primeira necessidade, escassos nna Cidade, em moeda estrangeira). Note-se que nesta altura, como em outras artérias da Cidade, apesar de já ter sido concebida uma avenida larga com dois sentidos, aqui se vê que apenas se construiu o que hoje é o lado que hoje é no sentido Polana-Alto-Maé.  Alto-Maé que se vê ao fundo. E no qual, se se escavar, ainda se podem encontrar os carris que se vêem, que eram da empresa Electric Tramways de Lourenço Marques, pertença da empresa britânica The Delagoa Bay Investments Company.

Quem Foi Francisco Costa

Francisco Costa.

Nome completo – Francisco Joaquim da Costa e Silva (1826-1899).

Nasceu no Porto em 31 de Agosto de 1826 e morreu em Lisboa a 1 de Março de 1899. Filho de António da Costa e Silva, 1.º barão e 1.º visconde de Ovar, par do reino e ministro da Guerra interino, e de Teresa da Conceição Oliveira. Casou com Margarida Helena de Almeida e Costa, filha de Torcato Máximo de Almeida, deputado por Sintra, e de Helena Joaquina de Almeida e Costa. Fez carreira na Administração Pública, sendo tenente do Batalhão dos Empregados Públicos quando foi nomeado secretário-geral de Angola (23.4.1847). Foi oficial e secretário graduado do Conselho Ultramarino e em 20 de Julho de 1876 ascendeu a director-geral do Ultramar, tendo sido grande colaborador de Rebelo da Silva quando este foi ministro da Marinha e Ultramar.

Pertenceu à Maçonaria e foi figura importante do Partido Regenerador. Foi eleito deputado para várias legislaturas: Angola (1851), Ovar (1860), Sintra (1864 e 1865), Mafra (1869, Março e Setembro de 1870, 1871 e 1875) e novamente por Sintra (1878). Foi eleito vice-secretário, vice-presidente e presidente da Mesa da Câmara dos Deputados. Pela forma como exerceu a presidência, especialmente, pela delicadeza, dignidade e imparcialidade, mereceu um voto de louvor da Câmara tanto em 1878, como em 1879. Integrou várias comissões, entre elas, as do Ultramar (1854, 1865 a 1867, 1870), Diplomática (1860, 1861, 1870), da Marinha (1865 a 1867, 1871, 1877) e de Verificação de Poderes (1870, 1875).

O primeiro projecto de lei que apresentou, em 1852, destinava-se a manter o livre comércio da urzela em Angola. Subscreveu também, entre outros, o projecto de lei que determinava que os bacharéis em Matemática pela Universidade de Coimbra seriam, em determinadas condições, equiparados aos que tivessem concluído na Escola Politécnica o curso de Estado Maior de Engenharia, podendo também ser admitidos na Escola do Exército; Destaque também para o que extinguia no Estado da Índia vários impostos, substituindo-os pela contribuição industrial (1866) e o que determinava o número de deputados que deviam representar em Cortes os círculos de Macau e de Timor (1870). As sublevações em Angola, em 1860, também motivaram a sua intervenção porque, conforme declarou, tendo exercido um cargo importante na administração daquela província, não podia ficar silencioso. Aquando da discussão do projecto de lei que alterava a pauta geral dos direitos de importação para géneros e mercadorias, incluindo os produzidos nas províncias ultramarinas, usou da palavra para se manifestar contra a ideia da sobrecarga dos géneros produzidos no Ultramar, e apresentou uma proposta para se considerarem os direitos de exportação do café que fossem pagos nos portos de procedência. Posteriormente apoiou também o projecto de lei autorizando o empréstimo de 800 contos destinado a obras públicas nas províncias ultramarinas. Além das questões ultramarinas sobre as quais interveio amiúde, a mais importante intervenção relacionada com interesses do seu círculo eleitoral, reportou-se à situação das arribas da Ericeira que ameaçavam desabar sobre o oceano.

Por carta régia de 29.12.1881, foi nomeado par do Reino Também nesta Câmara fez parte de numerosas comissões, nomeadamente as da Fazenda (1883 a 1886, 1890), Marinha (1884 a 1886, 1893, 1896), Ultramar (1886, 1887, 1896) e Especial para a Reforma Eleitoral (1884). A sua actividade foi exercida sobretudo nas comissões. Usou da palavra para responder às observações de António Augusto de Aguiar sobre o tratado com a Grã-Bretanha, de 26.1.1878, relativo à Índia portuguesa, esclarecendo, entre outros factos, que o governo português não tinha descurado o assunto e que estava a par de tudo o que se tinha feito. Quando se discutiu o parecer sobre o projecto de lei que autorizava a abertura de um crédito de 481.370$000 réis a favor do Ministério da Marinha e Ultramar, para saldar as despesas das províncias ultramarinas no ano económico de 1882-1883, interveio respondendo às afirmações de Pereira Dias sobre os gastos improdutivos das colónias. Fez um discurso em que lembrou que aquelas províncias faziam parte da Monarquia e por isso havia obrigação de atender às suas necessidades como se fazia na metrópole:

Quem tem colónias tem de prover às suas necessidades

e ainda

a conservação das nossas províncias de além-mar é a conservação da nossa autonomia […]. Pouco valeríamos sem elas, nenhuma consideração merecíamos se as não possuíssemos.

Nos últimos anos da sua vida abandonou a política, dedicando-se apenas ao desempenho das funções de director-geral do Ultramar. Tinha o grau de cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e o de comendador da Ordem de Carlos III (Espanha).

(Fonte deste esboço biográfico: aqui.) Ler ainda a nota fúnebre sobre Francisco Costa, aqui.

30/07/2019

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CASA DE FERRO EM LOURENÇO MARQUES

Este trabalho dedico ao fotógrafo Filipe Branquinho e especialmente à sua Mãe, que recentemente inquiriu, justamente, sobre a Casa de Ferro. Na altura eu pouco mais sabia que ela. Agradeço ainda ao PPT, ao AHM e à Cristina Pereira de Lima, uma filha do Grande Alfredo Pereira de Lima.

A Casa de Ferro, no local onde foi colocada em 1972, tal como se vê hoje.

Então vamos lá.

Introdução

A ideia da construção de edifícios pré-fabricados a partir do fim do Século 18 não surgiu de repente. Resultou de uma combinação de factores: a crescente industrialização, liderada pela Europa e pelos Estados Unidos da América, o surgimento de tecnologias novas, as necessidades surgidas, decorrentes de uma rápida expansão colonial pelos países europeus e nas Américas, e – claro – a guerra.

No caso da casas pré-fabricadas de metal, o aparecimento no Ocidente, das metalúrgicas com enorme capacidade de produção a baixos preços, a invenção em 1829 da chapa de zinco, inventada pelo britânico Henry Robinson Palmer (cuja patente Nº5786, vendeu ao seu carpinteiro Richard Walker, que dela fez várias inovações em termos do seu uso e que expirou em 1843) foram o primeiro passo. O primeiro uso comum de casas pré-fabricadas foi durante a corrida ao ouro na Califórnia em 1849, em que se exportaram para aquela região pequenas casas, armazéns, igrejas, lojas, escritórios, edifícios para a agricultura, etc. A primeira guerra em que foram usadas casas pré-fabricadas em massa foi a Guerra da Crimeia (1853), para as tropas da Grã-Bretanha terem locais secos e seguros para descansarem e guardarem as suas armas e quipamentos. Mas dada a necessidade de poupar ferro, usaram-se muito casas pré-fabricadas em madeira. Mais tarde, a prática – e o conceito – começaram a fazer parte do quotidiano. Na África do Sul, por exemplo, já na década de 1890, era mais comum verem-se casas pré-fabricadas de metal e de madeira que casas de alvernaria construídas de raíz. Aqui, havia uma preferência pelas casas em metal, pela simples razão que estas podiam ser novamente, e facilmente, desmontadas e montadas noutro local. Ainda assim, no exército britânico, permaneceu uma preferência pelo uso de tendas de pano para alojar as tropas, que foram usadas em ambas as guerras para colonizarem os territórios dos boers. Sendo que, no entanto, durante a talvez mais tenebrosa fase da segunda guerra anglo boer (1899-1902), em que os britânicos, abominavelmente recorreram ao uso de um enorme e complexo sistema de “blockhouses” reforçadas, estas foram pré-fabricadas numa combinação de materiais pré-fabricados de madeira e zinco. Cerca de oito mil foram construídas. Ao mesmo tempo, colocaram milhares de mulheres e crianças boer dentro de tendas de pano em campos de concentração em plena planície no interior da actual África do Sul (para chantagear os guerrilheiros boer que continuavam a assediar as suas tropas), tendo milhares morrido pelas tenebrosas condições e que marcou o imaginário do povo boer até estes dias.

Para além de pretender suprir as necessidades dos impérios britânico e americano na segunda metade do Século XIX, foram exportadas casas pré-fabricadas para África, nomeadamente para o Congo Belga, e as colónias francesas.

O caso português foi ligeiramente diferente, pois, com a vaga excepção de São Tomé e Príncipe, na altura em que o cacau local era uma espécie de ouro negro, obtida nas costas dos locais e de gentes importadas do continente africano, e que fez um punhado de milionários portugas, os portugueses fizeram quase rigorosamente nada nas suas colónias, em parte porque praticamente não houve qualquer emigração para as suas colónias, nem havia dinheiro, nem público nem privado. A meu ver, este constitui o grande “excepcionalismo” colonial português: os portugueses (e aqui falo do Estado e do sector privado, não das pessoas) não fizeram nada na África que supostamente era “sua” e o pouco que fizeram, quando fizeram, habitualmente foi tarde, a más horas e nem sequer tentaram envolver as pessoas locais.

Enfim.

A Casa de Ferro dos Primos

Curiosamente, há também uma “casa de ferro” no centro de Luanda, mas esta é absolutamente espectacular e foi espectacularmente restaurada (penso que por aquela empresa brasileira que andou na corrupção e em que todos os seus donos foram dentro lá no Brasil, a mando da Endiama, e custou uns meros 70 milhões de dólares, o que deve querer dizer que ali devem ter sido gastos 10 milhões pelo menos). Mas esta casa, que os Primos chamam Palácio de Ferro, nem sequer foi encomendada. Foi lá parar por puro acaso, um navio qualquer que por lá passou descarregou as peças e aquilo lá ficou, tendo sido comprada por uma companhia colonial que operava em Angola, a CCA. Penso que foi a sua sede durannte uns anos.

 

O Palácio de Ferro em Luanda. Dizem os jornais que foi mandado restaurar pela Endiama para ser um museu do Diamante (ah ah) mas depois de perceberem que não dava, pois devem ter percebido que os diamantes voavam dali para fora em minutos, ofereceram o imóvel ao Ministério Angolano da Cultura, que o vai usar como centro de arte contemporânea. Foto com vénia a Duarte Villas e ao Novojornal em Luanda. Vagamente, faz lembrar a original residência do Governador-Geral de Moçambique em Lourenço Marques, que depois foi apressadamente substituída pelo mastodonte que está hoje na Ponta Vermelha, para receber Oscar Carmona na sua viisita de 1939.

O Caso de Moçambique

No caso de Moçambique, por volta de 1870, as únicas “cidades” com um mínimo que se possa referir – vagamente – como urbanizações organizadas, eram Moçambique (a Ilha) e o Ibo. E ambas, tal como Luanda no outro lado, já eram centenárias e portanto quase medievais. Mas a partir de 1890, quando os britânicos basicamente “caíram” por cima dos portugueses por causa do acesso das suas colónias ao mar, duas novas urbanizações surgiram em Moçambique quase a partir do nada: Lourenço Marques e a Beira.

A pressão foi muito maior no caso de Lourenço Marques, que, de um momento para o outro, se tornou no novo epicentro económico, administrativo, militar e político da colónia. Alvo de todas as cobiças, especialmente de Cecil Rhodes, dos Boers e dos britânicos, os portugueses cedo perceberam que ou controlavam minimamente aquele território, ou o perdiam.

Implausivamente, e apesar do episódico incidente entre o régulo Mataca, que degolou o Tenente Valadim, e um conjunto de revoltas e sublevações, e à custa de alguma medida de ocupação militar, conseguiram um simulacro de ausência de conflito, que foi algo sorrateiramente considerado pelas restantes potências europeias como bastantes e estando em conformidade com os termos acordados em Fevereiro de 1886, na Conferência de Berlim, para a ocupação de África.

Lourenço Marques em Obras

De facto, em Lourenço Marques a tremenda “vassourada urbanística” começara antes, em meados da década de 1870. Para além da Sentença de Mac-Mahon em 24 de Julho de 1875, que, incrivelmente, a Grâ Bretanha, relutantemente, acatou (vingou-se em 1890), houve pouco depois um incêndio na Vila que quase a destruiu (as construções eram quase todas de madeira) e na altura já se percebia que alguma coisa tinha que se fazer ali pois tudo apontava para a necessidade de ali se fazer um porto a sério e uma linha de caminho de ferro para os domínios boer e britânicos a Oeste.

Para sorte dos futuros moçambicanos, em 7 de Março de 1877 desembarcou em Lourenço Marques um homem digamos que providencial: Joaquim José Machado. Um engenheiro que, com uma equipa capaz e com iniciativa, lançou mãos à obra e, nos anos que se seguiram, moldou a urbe que encontraram passando de uma espelunca para uma futura grande capital africana. Em sua honra, eventualmente a actual Praça 25 de Junho se chamaria 7 de Março, em honra destes homens.

Em 1892 Lourenço Marques tinha um problema peculiar. Tendo sido concluído o (mais um…) acordo com os imperialistas britânicos quanto ao formato, mais ou menos final, da futura colónia portuguesa, estando já em curso a construção da linha de caminho de ferro entre Lourenço Marques e Pretória (inaugurada no início de Julho de 1895), prevendo-se a construção do futuro porto, ali ao lado, e ainda o enorme boom no outro lado da fronteira por causa das descobertas de ouro no Witwatersrand e em Barberton (este segundo um falso alarme, digamos), previa-se que a Cidade iria crescer, a sério.

Uma Casa para Sua Excelência

Nessa altura a capital administrativa da nascente colónia ficava a dois mil quilómetros a Norte e era Moçambique (a ilha), que tinha as suas amenidades: um confortável palácio para S.Exa. o Senhor Governador-Geral e a sua excelsa família, escolas, hospitais, lojas, igrejas q.b., serviços administrativos, serviço de telégrafo para Lisboa, embarcadouro, uma brutal fortaleza, edifícios, jardins, praças. Enfim, para o padrão da altura podia-se considerar um sítio “civilizado”.

Na verdadeira espelunca nojenta, insalubre e desoladora que era Lourenço Marques (mas já tinha telégrafo) a única coisa que havia era um hospital militar (que ficava mais ou menos onde hoje estão as escadas da Sé Catedral), ao lado uma igreja meio esquisita ao lado (católica mas com traça anglicana, para variar) e uma modesta, pindérica casa de alvernaria (a primeira da cidade, supostamente) estrategicamente situada no lado oposto da Praça 7 de Março (a actual 25 de Junho), que servia como residência do exmo. Senhor Governador do Distrito. Essa edificação hoje é o Museu da Moeda de Moçambique). Ou seja, a casa ficava no meio do que era então a pequena cidade, ao pé da zona de desembarque original, ao lado do enorme pântano que separava a cidade dos terrenos circundantes (as encostas do Maé e da Maxaquene). Mais grave, a Praça 7 de Março de repente tornara-se o centro social e recreativo da Cidade, apinhada de gente aos fins de semana, banda a tocar, copos de vinho, barulho, confusão a tempo inteiro.

E aqui em 1892 começa a história da Casa de Ferro de Lourenço Marques, mesmo antes de Gungunhana e as suas tribos aliadas tentarem, em Outubro de 1894, fazer uma investida na pequena cidade do Sul da Colónia, motivando a vinda de, entre outros, o Sr. António Ennes e um obscuro major, Mouzinho de Albuquerque.

Casa Precisa-se

Nesse ido ano de 1892, alguém na Ilha de Moçambique, ligado ao gabinete de S.Exa o Senhor Governador-Geral, na altura o insigne Rafael Jácome de Andrade, teve a ideia peregrina de que o Senhor Governador do Distrito de Lourenço Marques, o mais alto dignitário no então Distrito mais a Sul da nascente colónia, precisaria, com urgência, de uma nova casa, noutro sítio talvez menos denso e insalubre e mais digno do estatuto de Sua Excelência.

E quem era o Governador do Distrito de Lourenço Marques entre 1890 e 1892?

Um tal Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque.

Pois, esse mesmo.

E, ainda, esse alguém se lembrou que talvez o melhor e mais expedito fosse encomendar na Europa, uma casa pré-fabricada, e mandar trazê-la para Lourenço Marques.

Segundo uma declaração de Bertrand Lemoine, um arquitecto francês que é considerado um perito na obra de Gustave Eiffel, numa entrevista concedida a Anne-Lise Carlos do jornal parisiense Le Monde (edição de 9 de Agosto de 2019), o presumível responsável pelo desenho e construção da Casa de Ferro é o engenheiro belga Joseph Danly, na sua fábrica Societé Annonyme des Forges d’Aiseau, na Bélgica.

Sucede que o Governador do Distrito de Lourenço Marques(João Canto e Castro, anos mais tarde 5º presidente da I República portuguesa, durante cerca de um ano, após o assassinato de Sidónio Pais) e sucessor de Mouzinho de Albuquerque, disse que não queria viver numa casa de ferro. Portanto o erário pagara uma casa pré-fabricada que não servia e a que urgia dar uso diverso.

A casa pré-fabricada em Lourenço Marques.

 

A Casa de Ferro manteve quase exactamente o aspecto original que tinha em 1892.

 

Esta foi a nova residência para uso pelo Governador do Distrito de Lourenço Marques. Imagem de 1901 (em A Souvenir of Lourenço Marques).

O que se segue é contado por Alfredo Pereira de Lima no seu Edifícios Históricos de Lourenço Marques e ainda, paulatina e muito chatamente, por Eduardo de Noronha no seu vôo rasante sobre o Sul de Moçambique, publicado em 1895, intitulado O Districto de Lourenço Marques e a África do Sul, que ele considerou um “estudo” e que o Exmo. Leitor pode ler a partir da ligação que inseri nas notas em baixo.

Segundo o Alfredo Pereira de Lima, Rafael de Andrade ainda tentou resolver o assunto ali propondo a instalação do tribunal de Lourenço Marques, mas a Câmara opôs-se. Após umas trocas de galhardetes, Eduardo de Noronha conta como foi:

O governador geral, Raphael de Andrade, ofereceu em 16 de março de 1893, ao bispo de Himéria [o célebre António Barroso que viria a dar o nome a um conhecido colégio de Lourenço Marques], a casa de ferro que se tinha mandado vir da Bélgica com destino á residência do governador, e que nunca fora aproveitada, a fim de ali se installar um estabelecimento de beneficiencia.

A portaria nº133 de 21 desse mesmo mez e anno, cria um instituto de ensino para o sexo feminino, regido por irmãs hospitaleiras; denomina-o de Dona Amélia, em homenagem a Sua Majestade a Rainha; entrega-lhe um fundo de 500.000 réis e manda que a Câmara Municipal pague um subsidio de 300.000 réis, determinando que as reparações sejam feitas por conta das Obras Públicas.

O instituto foi inaugurado com toda a pompa [18 de Agosto de 1895, cinco meses antes da Batalha de Marracuene] , assistindo á cerimónia as auctoridades, vereadores, funccionarios de todas as categorias e muito povo.

O Fernando prossegue, um pouco mais lírico, o seu relato:

A creação deste estabelecimento [representa] incontestavelmente um grande progresso; as religiosas que exercem uma das missões mais simpathicas da colónia, tem sabido chamar a si as creancinhas, e no seu affectuoso trato, que não conhece raças nem distingue cores, transformam aquelles entes, votados a uma boçal ignorância, em seres aproveitáveis, que serão um dia mães, e que ensinarão aos filhos o amor por si, amor que lhes foi inoculado pela catechese sensata o meiga das caritativas senhoras.

Dá gosto entrar ali. Na sala ampla, alta, arejada, echôa um chilrear de sons infantis, escalas alegres de gargalhadas crystallinas, que o olhar bondoso da professora não consegue reprimir. Distribuídos pelas carteiras, ou apinhados n’um grupo em volta da pedra, aquellas becas azougadas formam como que um tapete matizado das mais caprichosas cores; ali uma pretinha retinta, aqui uma mulata, acolá uma mestiça, alem uma india, mais perto uma chineza,
longe uma branca, e n’esta gradação de tons, a emoldurar-lhes os rostos buliçosos e joviaes, rtas e crespas carapinhas, cabellos annellados, tranças corredias, cabelleiras naturalmente fri- das. O vestuário typico e bizarro concorre poderosamente para o eflfeito geral; esta ostenta da capulana garrida onde predomina o vermelho, aquella cinge-se num quimão -, aqueiroutra daça o pescoço com grossas fiadas de missanga multicolor ; a maior parte traja á europêa, preferindo sempre os tecidos vistosos; ao fundo, as irmãs, envoltas no austero habito azul, rosário mdente, toalha de neve a circumdar-lhe a face.

Ha ali uma recordação vaga da familia, uma saudade intensa das caricias que nos fizeram a pequenos, um respeito que nos empolga, uma veneração que nos subjuga. A espada pesa mais que de costume, o tilintar do ferro desagrada, o fardamento incommoda, os conhecimentos militares fogem, varre-se da alma a profissão ; ha uma vontade quasi irresistível de começar a beijar toda aquella creançada, tão diversa na sua origem ; experimenta-se a cominoçUo indefinida de uma cousa que se sente e se não explica, e sem querermos, saímos d’ali com a convicção que aquellas duas mulheres, sós, expatriadas, abandonando as suas mais caras affeições, tendo por norma o progresso, por bordilo a crença, por alvo a civilisação, valem mais do que todo um exército.

Santa paciência com esta escrita do Século XIX.

Mesmo antes de ser despachada para as irmãs caritativas, ainda se tentou antes a ideia de ali se fazer um tribunal. Só que na altura tinha-se aparafusado a casa num sítio que na altura ficava não só situado nos confins da Cidade, como num sítio particularmente poeirento e arenoso e com um acesso digamos que questionável. Ir lá a pé ou de carroça era uma verdadeiro suplício. Todos protestaram ruidosamente, incluindo os senhores do tribunal, que achavam ser uma vergonha ter o tribunal da Cidade num edifício daqueles. Por isso, ficou o tal de Instituto Dona Amélia, que todos, como o nosso Fernando em cima, elogiaram carpidamente, safando o Governo da Colónia de mais uma barraca.

Entra Escola, sai Escola, entram Serviços Geográficos e Cadastrais

E assim seria até à I República em 1910, quando, no espasmo de raiva anticlerical e rigor republicano que caracterizaria o novo regime português, as freiras foram corridas dali e o nome da rainha Amélia apeado. O ensino era tirado à Igreja e revertia para o controlo do Estado – uma das suas mais estridentes bandeiras. Fez-se então ali uma escola pública, entregando-se a sua utilização à mais republicana e maçónica Sociedade de Instrução e Beneficiência 1º de Janeiro, que ali operou, por uns tempos a Escola João de Deus (em homenagem ao então defunto e lendário criador da Cartilha Maternal).

Entre 1912 e 1918, ali funcionou, provisoriamente, o primeiro Liceu da Cidade (e penso que de Moçambique) a que deram o nome da data do golpe de Estado republicano: 5 de Outubro.

Com o crescimento da população, foram-se fazendo edifícios para escolas e eventualmente ali instalaram no edifício a Agrimensura, mais tarde designada Direcção dos Serviços Geográficos e Cadastrais de Moçambique, .

Durante as décadas que se seguiram, a Casa de Ferro fez, feia e com aquele aspecto esquisito de pré-fabricado aparafusado,  o seu serviço, discreta senão completamente esquecida, enfiada dentro de um obscuro quarteirão algures na Encosta entre a Baixa e o Alto-Maé. No início dos anos 60, só mesmo quem trabalhava ou ia fisicamente à Direcção Provincial dos Serviços Geográficos e Cadastrais, é que tinha uma mínima noção de que havia ali um edifício esquisito e meio decrépito, feito de ferro. Ninguém sabia o que era e de onde via. Era mais uma velharia de Lourenço Marques.

Jorge, um topógrafo geómetra, actualmente reformado, trabalhando na Casa de Ferro, então situada no jardim exterior da Direcção dos Serviços Geográficos e Cadastrais de Moçambique, em Lourenço Marques, com os seus colegas Silva Carvalho e Pimentel, anos 60. Imagem copiada e retocada, com vénia, do seu blogue Azimute.

A Casa de Ferro era mais ou menos desconhecida em parte porque ficava num sítio perfeitamente escondido da Cidade, quase apenas conhecido dos empregados e frequentadores da velha Agrimensura. Poucos sequer sabiam da sua existência, mais um dos seus muitos exotismos arquitectónicos – e que eram mais do que muitos, desde palacetes exóticos a deslumbrantes e humildes casas de zinco e madeira com rendilhados e cores exuberantes, a simples mas encantadoras palhotas de caniço.

A intervenção de Alfredo Pereira de Lima e da Comissão dos Monumentos Históricos de Lourenço Marques

Tudo o que hoje sabemos e vemos na Casa de Ferro se deve, na minha opinião, a uma pessoa: Alfredo Pereira de Lima. Que, por isso, merece aqui o destaque que lhe dou.

Mais do que a Comissão dos Monumentos Naturais e Relíquias da Cidade, a que pertenceu, foi Pereira de Lima que não só reabilitou o assunto da Casa de Ferro, documentando o seu percurso e o seu lugarzinho na história da Cidade, como ainda foi ele que, ao longo de mais uma década, escrevendo cartas e artigos no Notícias de Lourenço Marques, se bateu pela reabilitação e valorização da Casa de Ferro, e, não menos importante, a sua relocalização para um lugar de destaque na Cidade, e o seu aproveitamento histórico e turístico.

O que sucedeu foi que, penso que em meados dos anos 60 os Serviços Geográficos e Cadastrais fizeram novas instalações. Nesse processo, desmontou-se a então já algo decrépita Casa de Ferro, cujas partes, algumas meio enferrujadas, foram colocadas num canto dum terreno camarário. Provavelmente não fosse Pereira de Lima, então historiador dos Caminhos de Ferro de Moçambique (e o autor do mais incontornável, autoritativo e absolutamente magnífico trabalho sobre a história dos CFM, que se confunde com a própria construção do País) estas linhas nunca seriam escritas.

Como referi, parte do problema original é que quase ninguém em Lourenço Marques sequer conhecia o edifício. A razão é a sua localização original:

Mapa de LM de 1903, a que dei uma martelada para ilustrar porque é que quase ninguém sabia da Casa de Ferro no final da década de 1960.  A – localização da Casa de Ferro até ao início da década de 1960, antes de ser desmontada, enfiada no meio de um quarteirão no meio de nenhures; B – localização onde foi colocada para alojar o Museu dos Serviços Geográficos e Cadastrais de Moçambique em 1972, em plena Avenida Dom Luiz, tornando-se numa referência turística. Outras curiosidades: 1 – a original Igreja de NS da Conceição; 2 – Residência do Cônsul da Grâ-Bretanha; 3 – Hotel Clube; 4 – Casa do Pott, junto ao Jardim Botânico de LM, a Verde; 5 – Bazar de Lm na Praça Vasco da Gama; 6 -Avenida Buildings; 7- Prisão, depois Imprensa Nacional; 8 -Paiol; 9- Câmara Municipal; 10 – Mesquita Velha; 11 – primeira casa de alvernaria de LM e residência do Governador do Distrito (agora “Casa Amarela”); 12 – Praça Azeredo, futura Praça Mac-Mahon e agora Praça dos Trabalhadores; 13 – Casa dos Azulejos; 14 – Praça 7 de Março, actual Praça 25 de Junho; e 15 – Presídio de Lourenço Marques, junto do qual existiu o Capitania Building e a que agora chamam (à obra de Pancho Guedes) “fortaleza”.

Penso que o toque de génio, foi a combinação do levantamento histórico, do restauro, da relocalização e o uso como museu, estiveram na base do sucesso e valorização patrimonial da Casa de Ferro.

A entrada do Jardim vasco da Gama, final da década de 1950. À esquerda, o terreno onde se ergueria, no início da década de 1970, a Casa de Ferro. Nesta altura era basicamente um quintal murado de uma casa.

Vendida a ideia e assegurados os fundos para o projecto, as componentes da Casa de Ferro foram cuidadosamente restauradas, arranjou-se um terreno bem localizado numa ponta do quarteirão onde está situado o Hotel Club, bem mais no centro da Cidade e muitíssimo mais visível. Os Serviços Geográficos e Cadastrais organizaram um museu (supostamente em homenagem a Gago Coutinho, entre outras coisas um excelente topógrafo que ajudou a delimitar as fronteiras do que hoje é Moçambique).

A Casa de Ferro a ser novamente montada após o restauro das peças, no terreno junto à entrada do Jardim Vasco da Gama, 1971.

 

Aspecto do interior do edifício a ser reconstruído. Note-se que todas as peças estavam numeradas.

O rés-do-chão acabado. Ao fundo o Prédio do Montepio (ou da TAP).

A Casa concluída e pronta a inaugurar, 1972.

Dia da inauguração do novo Museu da Cidade, penso que Outubro de 1972. O Governador-Geral, Eng. Pimentel dos Santos, chega ao local e é cumprimentado por pessoas que não identifiquei.

O Governador-Geral de Moçambique visita o nnovo Museu da Cidade.

O Governador-Geral sai do edifício após a inauguração.

Interior do Museu, 1972.

Outra imagem do interior.

Interior.

Interior, 1972.

Interior, 1972.

Notas Finais

Após a independência a Frelimo, ao que parece, desmantelou o museu. O edifício em seguida teve usos diversos e penso que agora é usado por um organismo do Estado moçambicano.

No entanto, a sua valorização enquanto monumento manteve-se e hoje é um local de visita quase obrigatório para a única indústria que tem alguma chance de ajudar os moçambicanos: o turismo.

Se a Casa de Ferro ainda existe, muito se deve a um conjunto de interessados com visão, de que se realça a intervenção de Alfredo Pereira de Lima (que também desempenhou um papel importante na preservação das chamadas Fortaleza e Casa Amarela). O passado da grande capital de Moçambique, que é colonial na sua parte edificada, merece respeito, merece ser estudado e preservado. Pois é parte integrante da história do país e quem não sabe de onde veio, dificilmente sabe para onde vai.

Existem alguns líricos que, por razões que não entendo, inventaram a história de que o engenheiro e empresário francês Gustave Eiffel (ver a biografia dele na ligação em baixo) teve alguma coisa a ver com a Casa de Ferro. Ao que apurei, isso é completamente falso. Como é totalmente falso que Eiffel terá tido seja o que for a ver com a cúpula da Estação dos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques. O que se sabe é que o edifício foi mandado vir da Bélgica onde de facto havia na altura fábricas que as faziam, mas de momento nem se sabe em qual foi fabricado. Se o exmo Leitor quiser ver obras de Eiffel viaje até Portugal, onde há várias obras da sua autoria, de que destaco, claro, a Ponte Dona Maria Pia na Cidade do Porto, que não só é da sua autoria como foi uma obra crucial para a sua carreira.

Interior da entrada da Casa de Ferro, recentemente. O mobiliário é, no mínimo, questionável.

 

FONTES E DADOS ADICIONAIS

http://housesofmaputo.blogspot.com/2016/01/casa-de-ferro-institutos-d-amelia-e.html

https://core.ac.uk/download/pdf/146463385.pdf

https://pt.wikipedia.org/wiki/Gustave_Eiffel

https://archive.org/stream/odistrictodelou00norogoog/odistrictodelou00norogoog_djvu.txt

https://kanimambo-carlos.blogspot.com/2014/01/africa-mocambique-13.html

https://sgcmocambique.blogspot.com/

Alfredo Pereira de Lima, Edifícios Históricos de Lourenço Marques.

29/07/2019

OS EFEITOS DO CICLONE CLAUDE NA ENCOSTA DA MAXAQUENE EM LOURENÇO MARQUES, 1966

O Ciclone Claude, que se abateu sobre a zona de Lourenço Marques em Janeiro de 1966, teve um considerável impacto sobre a Cidade. Um deles, que me recordo relativamente bem (tinha seis anos de idade) foi que não houve água canalizada em toda a Cidade durante vários dias. Para colmatar a falta de água canalizada, durante dias eu lembro-me de tomarmos banho no quintal com baldes de água, tirada de bidons que o meu Pai tinha colocado nas caleiras de recolha da água da chuva do telhado. Pouco tempo depois, o meu Pai mandara construir um depósito de água com dois mil litros, sobre a varanda de trás da casa onde habitávamos na Rua dos Aviadores (e onde eu, à sucapa, em dias quentes, ia tomar banho às escondidas). De facto, penso que em resultado do Claude, tornou-se mandatório, ou pelo menos habitual, todos os prédios da Cidade terem depósitos de água.

Mas o impacto mais visível,, para mim, que ali passava todos os dias quando ia de casa nadar para a piscina do Desportivo, foi o desabar da Barreira da Maxaquene, situada entre o Hotel Cardoso e a ponta do Liceu Salazar (o agora Josina Machel). Foi uma pequena calamidade. Anteriormente, a Barreira da Maxaquene era mesmo uma barreira – mal se podia passar ali, pois a vegetação ali era mato cerrado. Havia apenas umas duas ou três passagens que permitiam uma pessoa descer até à zona do Sporting e do Desportivo.

E a orla da Barreira ficava situada muito mais à frente do que se vê actualmente e era muito mais íngreme. Tanto assim que o terreno onde está o pequeno jardim em frente ao Liceu era muito maior e ali havia um excelente miradouro sobre a parte Baixa da Cidade e a Baía.

A Barreira da Maxaquene em frente ao Liceu Salazar antes do Ciclone Claude, que aconteceu em Janeiro de 1966. Veja a mesma imagem em baixo, anotada.

O Claude mudou isso tudo e instalou o caos virtual, pois o mato ali cedeu e a barreira desabou para o Aterro da Maxaquene, criando uma situação instável na parte alta da Cidade.

A linha vermelha indica, aproximadamente, os efeitos do Ciclone Claude. O então Parque Silva Pereira ficou praticamente cortado em metade, desaparecendo o seu Miradouro (ver nº6). Outras anotações: 1) Liceus Salazar e Dona Ana da Costa Portugal; 2) Museu Álvaro de Castro; 3) Praça das Descobertas; 4) Hotel Cardoso; 5) Parque Silva Pereira.

Levou uns dois a três anos à Câmara Municipal a encontrar uma solução para o problema, que passou pela criação de uma nova barreira mais inclinada, coberta com um matope barrento cinzento escuro no qual crescia uma erva resistente, com linhas horizontais de captação de água, que iam desembocar em linhas descendentes de cimento, que escoavam as águas pluviais em segurança.

Na parte de cima da Barreira, foi desde logo esboçado um acesso viário, que futuramente deveria descer da Praça das Descobertas para a zona do campo de futebol do Desportivo (e que nunca foi construído). Foi esse acesso que resultou na destruição do miradouro do então Parque Silva Pereira e na sua considerável diminuição.

Assim, em 1968, ao contrário das restantes barreiras na orla da Baixa e da Estrada Marginal, a Barreira da Maxaquene não tinha qualquer vegetação para além do que acima descrevo, o que até deu para ali realizar algo de original: a exibição de uma peça de teatro, penso que um Auto de Natal, na base da Barreira, vista por milhares de residentes da Cidade, penso que em Dezembro de 1968, em que a multidão se sentava na Barreira. Foi durante o primeiro ano do mandato de Baltazar Rebelo de Sousa e se não me engano a iniciativa fora da sua Mulher.

As Barreiras da Maxaquene em obras após o desastre do Ciclone Claude, cerca de 1966-1967. A seguir aos trabalhos de terraplanagem, foi instalado um sistema de irrigação de águas pluviais. Foi neste preciso local que se realizou o tal Auto de Natal de que falo em cima.

17/07/2019

A ACLAMAÇÃO DO REI DOM MANUEL II EM LOURENÇO MARQUES, 1908

Imagem retocada, da revista Ilustração Portuguesa, 1908.

 

As cerimónias fúnebres por D. Carlos I, assassinado com o seu filho o Príncipe Luiz Filipe, em Lisboa no dia 1 de Fevereiro de 1908, e a aclamação de D. Manuel II,  em frente à então Câmara Municipal de Lourenço Marques, 1908.

03/07/2019

O FACHO OLÍMPICO USADO NA INAUGURAÇÃO DO ESTÁDIO SALAZAR EM LOURENÇO MARQUES

Dedicado ao grande blog Big Slam.

Imagem retocada do então Presidente da República portuguesa, Almirante Américo Tomás, com atletas, a acender o facho olímpico que mais tarde figurou memoravelmente na inauguração solene do Estádio Salazar, em Lourenço Marques, a 30 de Junho de 1968, quando o Grande José Magalhães desfilou perante a audiência de 50 mil espectadores e com o mesmo facho acendido por Américo Tomás, acendeu a pira olímpica do novo recinto desportivo. A cerimónia do acendimento do facho decorreu durante as festas comemorativas do XI centenário da presúria de Portugale por Vímara Peres, que, creio aconteceu no Porto. Fonte: Arquivo Municipal do Porto.

Claro que isto tresandava a colonialismo e fascismo etc e tal. Mas na altura foi giro, presume-se. Eu tinha oito anos de idade mas só me lembro de ter ido de comboio para o estádio (entre a estção dos CFLM e um apeadeiro perto do estádio), da enorme confusão e pouco mais.

Nota histórica: em 868 AD, Vimara Peres, um nativo do Reino das Astúrias, foi elevado a primeiro Conde do Condado Portucalense, território então capturado (“presuriado”) aos muçulmanos locais e tornado num condado, uma unidade territorial e administrativa medieval, que era regida pelo conde e que por sua vez reconhecia a ascendência do rei – e que eram cristãos. Vimara Peres logo fundou um lugarejo de onde governava o seu Condado, a que chamou Vimaranis – que eventualmente se tornou na actual Cidade de Guimarães. Morreu em 873. Os seus descendentes seriam condes de Portucale até 1071, quando Nuno Mendes, o último conde, morreu numa batalha contra uns galegos.  Tudo isto bem antes de Afonso Henriques e os seus Pais.

Agora, o que tem Vimara Peres a ver com o estádio Salazar….pois. Não percebo.

 

Américo Tomás entrega a um atleta o facho que seria usado na inauguração do Estádio Salazar em Lourenço Marques, no outro lado do mundo.

 

José Magalhães entra e percorre o Estádio Salazar segurando o facho acendido por Américo Tomás, até subir à pira olímpica, que acende exactamente às 15 horas e 15 minutos daquele domingo, 30 de Junho de 1968. Imagino que, subsequentemente, o José nunca mais ouviu o fim da história da parte dos frelos que se seguiram – e que usaram o mesmo estádio – cujo nome foi mudado imediatamente – para proclamar a independência formal da colónia, sete anos mais tarde, no início do dia 25 de Junho de 1975.

29/06/2019

EDITORIAL DE FERNANDO TITO MARTINS NO JORNAL “DEMOCRACIA” DE LOURENÇO MARQUES, 1934

Imagens retocadas, gentilmente cedidas por Fernando Martins, neto de Fernando Tito Martins.

 

A primeira página da edição de Democracia de 5ªfeira, 18 de Janeiro de 1934, publicado em Lourenço Marques e cujo dono e editor era Fernando Tito Martins. Este jornal, ostensivamente de oposição à crescente ditadura do Estado Novo, e que se fazia sentir em Moçambique, será publicado durante dois anos, entre 1933 e 1935, precisamente os três anos em que a ditadura aperta o cerco em todo o país, especialmente aos republicanos e democratas. Lourenço Marques não foi excepção, malgrado as distâncias. A Universidade de Coimbra tem as cópias todas deste jornal de Tito Martins, que merecem ser estudadas para se entender a dinnâmica da época,

 

O editorial da mesma edição, ampliado para melhor leitura, defendendo o direito dos cidadãos a combaterem a tirania dos governantes. Leia-se Salazar.

 

O Avô de Fernando Martins, em Nampula, penso que num bar que explorava, anos 60.

26/06/2019

O MINISTRO DAS COLÓNIAS DE PORTUGAL VISITA INHAMBANE, 1932

Imagens retocadas, gentilemente cedidas por Luis Deveza Portugal, neto de Luiz Portugal, que aparece com a sua mulher, na fotografia.

Armindo Monteiro, aqui ministro português das Colónias em 1932 (sentado, 5º a contar da esquerda), merece uma curta nota. Um indivíduo culto, sofisticado e cosmopolita, formado durante a 1ª República e que a sobreviveu politicamente, terá sido efectiamente a “concorrência” de Salazar pelo cargo de primeiro ministro (ele foi nomeado precisamente em 1932) e o principal mencionável para o substituir, excepto que a Velha Raposa o driblou sucessivamente (a começar pelo cargo de ministro das Colónias entre 1931 e 1935, depois de ter sido uma espécie de adjunto do ditador nas Finanças), depois ministro dos Negócios Estrangeiros, até o afastar em 1943, altura em que Monteiro foi exonerado do cargo de embaixador em Londres (1937-1943) para um confortável cargo de administração (em Lisboa) na Refinaria Colonial, uma empresa da “moçambicana” Sena Sugar Estates. Para um esboço biográfico mais completo de Armindo Monteiro, ver aqui.

 

A comitiva ministerial, que inclui essencialmente a equipa do ministro e acompanhantes e ainda os pesos pesados da asministração da Colónia de Moçambique, posa para uma fotografia no jardim da residência do Governador Distrital em Inhambane, 1932. Para identificar as pessoas, ver a nota em baixo. O Avô do Luiz está de pé à direita, a Avó é a senhora sentada mais à direita. Não consegui apurar se o Tenente de Cavalaria F. da Silva Pais é o (mais tarde) big boss da PIDE. Pois supreendi-me de não encontrar qualquer referência curricular do Major Fernando Silva Pais.

 

A lista que legenda a fotografia

22/06/2019

ÁLVARO DE CASTRO, GOVERNADOR-GERAL DE MOÇAMBIQUE, 1915-1918

Imagem retocada.

O texto original veio da Enciclopédia Portuguesa e Brasileira de Cultura, vol. III, pág. 229, mas foi muito significativamente editado por mim.

Álvaro de Castro.

 

Esboço Biográfico

Álvaro Xavier de Castro nasceu na Cidade da Guarda em 9 de Novembro de 1878, filho do Dr. José de Castro e de Maria Benedita de Castro Pignatelli.

Acabou o curso de oficial de infantaria em 1901, o curso de Direito em 1908 e ainda um terceiro curso que pelos vistos havia naquela altura, o de Assuntos Coloniais, em 1911, aqui já com 33 anos de idade.

Republicano convicto desde cedo (ou seja, anti-monarquia constitucional, que era o regime português até 5 de Outubro de 1910), colaborou na Revista Nova e na Arte e Vida, participando activamente em conspirações republicanas contra os Bragança em Coimbra em 1908 e em 1910.

Após o golpe militar que derrubou o Rei D. Manuel II, Álvaro foi feito deputado na Assembleia Constituinte de 1911, integrando o chamado grupo dos «Jovens Turcos», sendo ministro da Justiça no governo de Afonso Costa, em Janeiro de 1913 e ministro das Finanças no governo de Azevedo Coutinho, em Dezembro de 1914.

Foi uma das figuras que liderou a chamada Revolução de 14 de Maio de 1915 que, tendo provocado um banho de sangue em Lisboa, conseguiu derrubar o governo da altura, de Pimenta de Castro.

Nomeado então, como todos os outros dirigentes revolucionários, para postos chaves que permitissem levar a uma participação activa de Portugal na I Guerra Mundial, assim consolidando a periclitante república com uma mobilização e um banho de sangue, foi nomeado Governador-Geral de Moçambique nesse mesmo ano, substituindo Alfredo Baptista Coelho e assumindo o cargo em 31 de Outubro de 1915 na colónia onde, desde o final de 1914, os alemães assediavam a meia dúzia de portugueses lá em Cabo Delgado. Mais tarde, e adicionalmente, assumiria mesmo o comando das forças expedicionárias portuguesas em Moçambique, em Abril de 1917, após a demissão do general Ferreira Gil, em 24 de Dezembro de 1916.

Ainda não estudei o que é que exactamente ele andou a fazer em Moçambique entre 1915 e 1918, para além de se meter na questão da guerra com os alemães, que, aliás, essencialmente, foi mais ou menos o mesmo que a maior parte da chamada guerra colonial: era uma coisa qualquer, perdida lá nos confins do Norte, no meio do mato, de que se ouvia dizer qualquer coisa em Lourenço Marques, e em que quase todos os mortos (uns expressivos cinco mil) viriam a morrer de picadas de mosquitos, de acidentes, de ataques de feras, de má nutrição e da falta de tudo um pouco.

E isto tudo, basicamente, no caso de Moçambique, por causa de um tal genial alemão, Paul Emil von Lettow-Vorbeck e um punhado de Askaris, que vieram da colónia alemã a Norte de Moçambique.

Em 2016, por causa do apresamento dos navios alemães atracados em vários portos portugueses, neutrais, entre os quais Lourenço Marques e penso que na Beira (foram divididos com os britânicos) o Império alemão declarou guerra a Portugal. Foi uma formalidade: os alemães andavam aos tiros com os portugueses em Angola e Moçambique há já algum tempo.

Em 17 de Dezembro de 1917 Álvaro demitiu-se do cargo de Governador-Geral de Moçambique (sendo sucedido por Pedro Massano de Amorim) devido a mais uma tomada do poder, em Lisboa, desta vez do sedutor e episódico Sidónio Pais, de quem ele não gostava, tendo sido muito activo na Revolta de Santarém, em Janeiro de 1919, desencadeada contra o regime Sidonista, o qual, no entanto, efectivamente, terminara com o súbito assassinato do próprio Sidónio em plena gare da estação ferroviária do Rossio, em Lisboa, em meados de Dezembro de 1918, ou seja um mês depois do fim da Primeira Guerra Mundial e um mês antes da sua revolta.

Politicamente a Primeira República foi uma carnificina abjecta e uma espécie de guerra civil disfarçada, uma nojeira com um nível de violência tal que justificaria a futura ditadura de Salazar e faria o sonâmbulo rotativismo da monarquia parecer quase idílico.

Na altura Álvaro aproveitou os tempos livres que tinha entre cargos e revoltas e escreveu o livro África Oriental Portuguesa [Lisboa, 1918 e que infelizmente ainda não li] e ainda fundou o seu próprio partido político, o Partido Republicano de Reconstituição Nacional – também chamado o «Reconstituinte» – via uma cisão do Partido Democrático, tendo presidido a um governo que durou uns meros dez dias, entre 20 e 30 de Novembro de 1920 e ainda a um outro governo, que durou uns prolongados 6 meses, entre 18 de Dezembro de 1923 e 6 de Julho de 1924 (na Primeira República, certamente para tirar o mau sabor do rotativismo burguês e porreiraço da monarquia, havia novos governos quase semanalmente, parecia).

Álvaro de Castro ainda viria a ser nomeado Governador-Geral de Moçambique por mais duas vezes, em 1919 e em 1926, mas em ambos os casos, expeditamente, recusou, antes de ser empossado.

Após o golpe militar e a memorável marcha de Braga para Lisboa (mas claro) levado a cabo pelo venerando Marechal Gomes da Costa em 28 de Maio de 1926, Castro foi prontamente detido e internado numa prisão em Elvas, donde se conseguiu evadir, exilando-se na capital francesa, Paris. Tendo eventualmente adoecido gravemente, pediu autorização para regressar ao seu país, tendo já chegado moribundo a sua casa, na Cidade de Coimbra, vindo a morrer poucos dias depois, a 29 de Junho de 1928, com apenas 49 anos de idade.

Penso que, para além do seu nome em tempos adornar um museu na Polana, havia uma rua em Lourenço Marques com o seu nome.

O Museu Álvaro de Castro. Quando lhe foi dada a designação, Álvaro de Castro já havia falecido há sete anos.

 

Informação adicional

Para obter mais detalhes sobre Álvaro de Castro, sugiro a leitura de Álvaro de Castro – Jovem Turco da República, da autoria de Ana Catarina Pinto [Lisboa, edit pela Assembleia da República, 2014, 240 pp].

20/06/2019

O MUSEU ÁLVARO DE CASTRO EM CONSTRUÇÃO EM LOURENÇO MARQUES, DÉCADA DE 1930

Imagem retocada.

Inicialmente era para ser uma escola primária, uma das grandes manias dos maçónicos “democratas republicanos” na Primeira República, com longa presença em Moçambique e que tiveram uma expressão peculiar em Lourenço Marques. Mas os poderes constituídos devem ter achado que a construção seria épica demais para este fim e em vez disso, transferiram para aqui o espólio do Museu Provincial, que desde 1913 estava alojado na Vila Jóia, e deram-lhe o nome de um relativamente obscuro Governador-Geral da Primeira República, Álvaro de Castro (1915-1918). No posterior processo de obliteração de tudo o que recordasse Portugal e o que os portugueses fizeram, a designação foi alterada pelos senhores que se seguiram para Museu de História Natural.

 

O edifício da escola primária que depois passou a ser um museu.

11/06/2019

AS TROPAS LANDINS EM TIMOR, 11 DE DEZEMBRO DE 1945

Imagem retocada, tirada daqui e mencionada aqui.

Um comentário prévio.

Eu tento seguir, na medida do possível, os trabalhos académicos relacionados com Moçambique, actividade assaz difícil pois não sou académico e a informação é tendencialmente disseminda das formas mais quixotescas, desde em livros que custam 150 euros e que se têm que mandar vir da Patagónia do Sul, até artigos de meia dúzia de páginas que sítios idióticos predadores “alugam” por 50 dólares para serem lidos online durante  apenas 24 horas. Pelo menos um académico que sigo e que respeito (o que é infrequente) assegurou-me que, para além da obrigação profissional de produzir e publicar, ele não ganha um tusto com a publicação dos seus trabalhos sobre Moçambique – sendo, claro, esta, também, uma das razões que nunca jamais consideraria uma carreira académica (ou de jardinagem, que também aprecio muito mas que paga muito mal), ficando-me, no que concerne à minha peculiar curiosidade em relação ao que aconteceu no que é hoje Moçambique, por este modesto blog (e mais três), onde acumulo as poeiras que vou destapando aqui e ali.

Uma rara excepção é o sítio Academia.edu, que, não sei se por causa das suas regras ou de eu ter feito alguma canganhiça de que não me recordo, me vai enviando este ou aquele artigo académico, que invariavelmente leio, e que, recentemente, me chamou a atenção para um curto e quase simpático trabalho do académico brasileiro Daniel de Lucca (o documento diz que é professor numa tal Escola de Sociologia e Política, em São Paulo mas o sítio diz também que lecciona numa tal Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira), que, um tanto ambiciosamente, rotulou “Moçambique em Timor e Timor em Moçambique: diáspora, guerra e revolução nas margens do índico”. Nas suas notas até descobri que tinha mencionado este blog, de onde copiou uma imagem, pelo que, portanto, só pode ser boa gente.

O texto do Daniel tem potencial mas ficou um pouco pela rama, donde espero que um dia ele volte à carga e reforce algumas coisas, especialmente neste caso das relações entre o Moçambique da Frelimo e o suporte dado aos timorenses no indescritível período da dominação indonésia. Recuou, na sua análise, até à II Guerra Mundial. Achei pouco o que ele disse e algo incompleto, e vai ter dois problemas em breve: todos os protagomistas ou já morreram ou estão a morrer, e alguns tornaram-se gente importante e aproveitam para dourar a pílula. Eu, que já bebi uns improváveis copos com os Lobatos, em Moçambique e na casa deles lá nas montanhas em Timor, entre as esplêndidas mas delapidadas plantações de café do tempo colonial, quase sei mais que ele.

Desse texto, realço duas coisas que não têm quase nada a ver com o assunto e que têm que ver com Moçambique:

1.  Uma citação absolutamente priceless do Samora, feita por nada menos que Luis Guterres, um dos timoreses referenciáveis, que quando cumprimentou os aparentemente pelintramente vestidos delegados da Fretilin em Maputo em 1975, lhes segredou, pragmaticamente: “Se quiserem ser bem tratados pelos que te recebem [sic], devem-se vestir melhor que eles”.

2. O comentário do Daniel, tendencioso, desnecessário e errado, feito en passand, em que ele simplesmente escreve que os brancos de Moçambique (os “colonos”presumivelmente como eu – claro), logo após a independência, andaram “a sabotar e a resistir” à Nova Ordem Frelimiana. Escreveu ele: “De facto, as dificuldades enfrentadas pelo país africano cresciam rapidamente: as crises de produção que sucederam a independência; o êxodo de portugueses e outros profissionais técnicos especializados; o boicote e a sabotagem dos antigos colonos; a hostilidade da Rodésia de Ian Smith e da África do Sul do apartheid; além da guerra com a Renamo (…).” Obviamente o Daniel, que sei que não estava lá portanto não viu, engoliu sem questionar o discurso de cassete-padrão da Frelimo – que ainda hoje é usado – e achou por bem repassá-lo. Pois. Só que é tudo falso. No mínimo, o êxodo foi orquestrado pela Frelimo, que sabia precisamente que ia chacinar completamente a economia moçambicana herdada, mas que, liricamente, achava que os camaradas comunistas russos, chineses, etc, iriam de seguida criar a Nova Economia Socialista. A “hostilidade” da Rodésia e dos Boers foi definitvamente assegurada assim que o Samora anunciou na rádio que ia começar a apoiar a guerrilha naqueles países, a partir de bases em Moçambique; e gostava que o Daniel me desse evidência concreta dos tais boicotes e sabotagem dos antigos colonos, a seguir a 1975. Já o presciente Joe Hanlon uma vez veio com aquela fábula dos “colonos” cimentarem os canos de água das suas casas e empresas antes de, generosamente, serem expropriados, presos e expulsos pelos heróicos libertadores. Mas quando lhe perguntei, directamente, onde é que ele foi buscar essa história, a resposta dele foi que aquilo era o que se dizia em Maputo. Ai sim Joe? és tão esperto mas essa é a tua fonte? alguém disse? Nestas coisas, o Professor Daniel deve tentar aprender a pôr de lado o porreirismo fraternal afro-brasileiro, muito comum em alguns textos académicos brasileiros, e a estudar e contextualizar os factos com rigor e tentar não emprenhar pelos ouvidos.

Enfim.

O que considerei mais interessante no artigo escrito pelo Daniel, no entanto, foi a fotografia em baixo, tirada no dia 11 de Dezembro de 1945 pelo sargento Australiano Keith Benjamin Davis no pátio do forte timorense de Bobanaro, na fronteira entre o então revertido território de Timor e, presumo, a outra metade da ilha, que formalmente ainda era uma colónia holandesa, de uma companhia de Tropas Landins. O que o Daniel refere eu já sabia mas merece ser referida aqui.

No início de 1942, os japoneses invadiram Timor (na altura ninguém se referia a Timor como “Timor-Leste”), que muito teoricamente poderia ser usada como base para atacar Darwin, no Norte da Austrália, 600 quilómetros de Dili em linha recta, e em três anos e meio fizeram tanta chacina na metade portuguesa da ilha, o que, por comparação, fez o pior do colonialismo português parecer um acto de irmandade inter-étnico (quase precisamente o mesmo viria a ser feito pelos indonésios, entre 1975 e 2000).

Logo no final de 1941, Salazar, neutral, formal, didáctico, solícito e sempre cioso dos direitos épico-dinásticos portugueses relativos às suas possessões ultramarítimas, e inicialmente pouco ciente da ferocidade nipónica, ordena que os seus militares montem uma expedição militar para retomar a colónia asiática, a partir da pequena e plácida Lourenço Marques (que o Daniel chama “Maputo” quando se refere a Lourenço Marques em 1942), em Moçambique, de onde, em 26 de Janeiro de 1942, parte em direcção ao Oriente, em dois navios da marinha portuguesa, o João Belo e o Gonçalves Zarco. Volvidas umas semanas, ao se aproximarem da ilha e percebendo da potencial chacina face aos pouco cooperantes japoneses, fizeram uma prudente marcha-atrás e demandaram a pequena colónia de Goa, ali mais perto.

Até Agosto de 1945, que foi quando os norte-americanos, para variar, derrotaram e ocuparam o Japão, a acção portuguesa limitou-se a actos de diplomacia. Salazar gastou o tempo todo em considerandos, pareceres, negociações e telegramas, trocados com o beligerantes envolvidos, para assegurar que Timor no fim voltasse para a posse portuguesa – documentação que o Ministério dos Negócios Estrangeiros português, invulgarmente, publicou, penso que nos anos 80, em dez fartos volumes, presumivelmente, impecavelmente sanitizados, para mostrar o génio do ditador de saber navegar as turbulentas águas da política internacional daquela década..

Segundo o excelente sítio Defesa Nacional, citado pelo Exmo. Leitor Fernando Silva Morgado em baixo nos comentários, que deve ser lido, os portugueses, também em Lourenço Marques, prepararam em Lourenço Marques, desde Junho de 1944, uma segunda expedição para recuperar Timor.

Como acontecera em 1942, esta segunda expedição para retomar Timor incluía também uma companhia de Tropas Landins, recrutadas no Sul de Moçambique, que aparentemente foram recebidos como (entenda-se o paradoxo) libertadores pelos martirizados timorenses.

As Tropas Landins em formação no pátio do Forte de Bobanaro, em Timor, 3ª Feira, dia 11 de Dezembro de 1945, como parte da retoma da soberania portuguesa na metade da Ilha, uns meses após a rendição japonesa.

 

O Gonçalves Zarco e o Bartolomeu Dias, ancorados ao largo de Dili, 29 de Setembro de 1945: a Pax Lusitana regressava a Timor, por mais uns anos. Poucos sabem que Timor foi formalmente território português até 2001. Tanto assim que ainda hoje, qualquer timorense nascido até esse ano é formalmente considerado cidadão português e pode pedir BI e passaporte português e ir residir em Portugal.

 

 

10/06/2019

DESFILE MILITAR DO DIA DE PORTUGAL EM LOURENÇO MARQUES, 1963

Imagem retocada.

 

Parada militar na Avenida da República na Baixa de Lourenço Marques, assinalando o feriado nacional português, 10 de Junho de 1963, na altura designado o “Dia da Raça”. Nesta altura a Frelimo ainda estava a pensar se fazia ou não a guerra e, mais importante, do lado esquerdo e no lugar do costume, estava o Luna Parque, que, com os circos, descendia na Cidade anualmente, para gozo das crianças e das famílias, maioritariamente alheias ao que se passava à sua volta e no mundo.

01/06/2019

A DELAGOA BAY LANDS SYNDICATE EM 1904 E LOURENÇO MARQUES

Em baixo, o Relatório e Contas do conglomerado anglo-sul africano Barnato Consolidated Mines para o ano operacional terminado a 31 de Outubro de 1904, apresentado na Assembleia de accionistas em Joanesburgo no dia 8 de Maio de 1904 e publicado no jornal The Standard de sexta-feira, 9 de Outubro de 1904.

Apesar de considerável, o conglomerado Barnato Consolidated Mines em 1904 já era apenas uma pequena parte do gigantesco império outrora criado pelo chamado Randlord Barney Barnato, em tempos um rival de Cecil Rhodes pelos negócios de ouro, diamantes e imobiliário na África do Sul. Em 1904, Barney Barnato, um genial judeu britânico que capturou de forma singular as oportunidades decorrentes das descobertas em Kimberley e no Witwatersrand, já havia falecido, misteriosamente caindo de um barco em que ele viajava para Londres mesmo ao lado da…Ilha da Madeira, em 14 de Junho de 1897. Portanto em 1904 este conglomerado deveria ter como accionistas os seus descendentes e outros.

Com 7604 acções em 1904, a Barnato Consolidated Mines já era um accionista de referência da The Delagoa Bay Lands Syndicate, Limited (DBLS), que, desde 1903, detia, eventualmente entre outros, activos, a chamada Concessão Somershield, cerca de mil hectares e que incluiam toda a faixa de terreno desde o Hotel Polana até ao Clube Marítimo de Desportos e que fora alienada à empresa pelo médico, aventureiro e empresário britânico Óscar Somershield em 1896, penso que numa combinação de dinheiro e de algumas acções da própria DBLS, património que deixaria de herança à sua mulher Marta (e penso que uma filha menor), quando ele faleceu em 1917 nos arredores da Cidade do Cabo (caçar estes documentos dá trabalho).

Segundo o relatório em baixo, os activos da DBLS em 1904 estavam estimados em cerca de 1.6 milhões de libras estrelinas, uma verdadeira fortuna naquela altura.

A partir daqui, a DBLS passaria os quase cinquenta anos seguintes em tribunal com a Câmara Municipal de Lourenço Marques, numa sucessão de contendas e em fases, que só terminaria cerca de 1950 com o acordo para a criação e venda do algo quixotesco e pouco característico projecto imobiliário que formalmente se chamaria Bairro dos Cronistas mas que todos chamavam Somershield – e que, por desconhecimento, escreviam, e escrevem, erradamente, “Sommerschield”(por aquela altura, já ninguém sabia quem ele fora).

A DBLS foi constituída em 1896, com sede em Joanesburgo e escritório em Lourenço Marques, penso que especificamente para lidar com a alienação da Concessão Somershield.

Entre outros aspectos, a DBLS tinha todo o tempo e todo o dinheiro e todos os advogados a peso de ouro do mundo, para confrontar a Câmara nos tribunais.

O Hotel Polana, que foi inaugurado em meados de 1922, resultou de um esquema meio macaco que envolveu o governo da Província e a DBLS, que inicialmente ficou com o hotel, construído no extremo Sul da Concessão Somershield, para desespero do Comandante Augusto Cardoso. Eventualmente venderia o hotel aos Schlesinger, sul-africanos judeus, que o exploraram durante vários anos.

Ali ao lado, durante o longo mandato de José Cabral (1879-1956), Governador-Geral entre 1926 e 1938, construiu-se ainda um Parque, nomeado José Cabral em honra do Governador-Geral, outrora um belo jardim, hoje chamado “Parque dos Continuadores”(completamente desfigurado por um campo de atletismo e uma feira de artesanato) ainda em terrenos que tinham sido desta Concessão, e que incluia a estação telegráfica e, mesmo na ponta, o Observatório Campos Rodrigues.

 

30/05/2019

LOURENÇO MARQUES E A DELAGOA BAY DEVELOPMENT CORPORATION, LTD,1905

 

O estudo de como Lourenço Marques evoluiu, especialmente da óptica de quem realmente tomou as decisões e meteu lá o dinheiro ainda está um pouco por esclarecer, uma vez que a maior parte dos académicos que li ou ainda estão a bater nas teclas da libertação e do racismo ou de como o colonialismo era isto e aquilo, ou de como os portugueses eram isto ou aquilo. Claro que não deixa de ser interessante e relevante como foi construir Roma e Joanesburgo – e se calhar é tudo verdade- mas haja santa paciência: há mais que isso para analisar.

Veja-se por exemplo, como realmente foi desenvolvida e financiada parte da infra-estrutura de Lourenço Marques: com capital britânico e sul-africano.

Em baixo, o anúncio, publicado no jornal londrino The Standard, de 10 de Março de 1905, de uma emissão pública de dívida, no valor de 180 mil libras, para financiar os investimentos que a The Delagoa Bay Development Corporation, Limited estava a fazer em Lourenço Marques, nomeadamente no sistema de fornecimento de água à Cidade, do qual a empresa era a concessionária exclusiva, no sistema de transporte público de eléctricos, na compra da companhia local de telefones, de alguns terrenos e ainda na edificação do Capitania Building. Anos mais tarde (1910) a empresa adquiriria ainda a concessionária do fornecimento de electricidade (a Compagnie Genérale d’Electricité de Lourenço Marques).

Duas curiosidades: as presenças de Baltazar Freire Cabral no Board da Delagoa Bay Development Corporation Ltd, e de William Pott no Board da Henderson’s Transvaal Estates Ltd. Eles deviam ser a “Maputo connection” para estas empresas, um pouco como se faz hoje em Moçambique com os notáveis da Frelimo.

Se o Exmo. Leitor ler a língua inglesa, os textos em baixo são uma delícia der ler.

Em segundo plano, o Capitania Building, pertencente à Delagoa Bay Development Corporation, Limited e sua sede em Lourenço Marques. Em primeiro plano, a futura Praça 7 de Março, ainda um pardieiro, a ser aterrada para ali se fazer um jardim, 1903. Esta imagem surge num estudo de Zamparoni para ilustrar (segundo ele) as condições de exploração e mau tratos infligidos aos indígenas, nomeadamente que não usavam camisa no trabalho. Ao fundo, a Ponta Vermelha.

Não menos interessante era perceber a quem pertencia a The Delagoa Bay Development Corporation: ao conglomerado anglo-sul africano Henderson’s Transvaal Estates, Limited. Para ver quem era esta entidade, ler em baixo.

A

SOBRE A HENDERSON’S TRANSVAAL ESTATES

Cito a referência contida na obra de Walter H. Hills, The Anglo-African Who’s Who and Biographical Sketch-Book, página 47:

The enormous interests and holdings of Henderson’s Transvaal Estates, Limited, in the Transvaal and other parts of South Africa, place it in the front rank of land and mining corporations in that country. Henderson’s Transvaal Estates, besides carrying  on operations on some of its own properties in various parts of the Transvaal for the  purpose of proving the existence of and developing gold or other ore bodies, controls  several companies, and, generally speaking, as far as present conditions will allow, it is doing its share to advance the material interests of the country.

The capital of the company is 2,000,000 £, and the directors include Messrs. J. C. A. Henderson (chairman),
W. Bryson Butler (general manager), Alfred Gaussen, E. J. Halsey, Geo. Lawson Johnston, and Roger C. Richards. The local committee at Johannesburg is composed of Messrs. T. W. G. Moir, Emrys Evans, C.M.G., Samuel Thomson, G. W. Cooke, and William Pott.

The companies under the control of Henderson’s Transvaal Estates are : Consolidated South Rand Mines Deep, Limited ; Daggafontein Gold Mining Co., Limited ; Tyne Valley Colliery, Limited ; and the Delagoa Bay Development Corporation, Limited.

28/05/2019

“O CATOLICISMO E A POLÍTICA NO CENTRO DE MOÇAMBIQUE, 1940-1986” DE ERIC MORIER GENOUD

Vai ser lançada no mercado dentro de duas semanas uma obra nova e fascinante da autoria do Professor Eric Morier-Genoud (Professor de História de África na Queen’s University em Belfast, no Reino Unido ) um dos académicos de referência da actual geração relativamente a Moçambique.

Intitulada ” O Catolicismo e a Política no Centro de Moçambique, 1940-1986″ (no original, Catholicism and the Making of Politics in Central Mozambique, 1940-1986) o trabalho analisa um tema de eminentíssimo interesse e importância para um melhor entendimento da história recente de Portugal, de Moçambique e da Igreja Católica, relacionado com os eventos na Beira e no Centro de Moçambique, no periodo decorrido entre 1940, ano da Concordata e do Acordo Missionário, e 1986, .

O livro será publicado em língua inglesa, seguindo-se posteriormente, espera-se, uma edição em língua portuguesa.

Capa da nova obra de Eric Morier-Genoud.

Com 264 páginas, o livro tem a seguinte estrutura:

Introdução
A construção da diocese da Beira
Diversidade e Dinâmica da Igreja Imperial
A formação de uma igreja africana
O Surgir da Tempestade: o Vaticano II encontra o nacionalismo africano
Descolonização? Guerra, Implosão e o Vaticano
Independência: entre a revolução e a contra-revolução
Epílogo, Notas e Bibliografia

Para além de escritinar o complexo panorama católico moçambicano nas décadas antes e depois da Independência, a obra debruça-se sobre, entre algumas figuras paradigmáticas do catolicismo português daquela era e referidos neste blog, tais como os Cardeais Manuel Cerejeira e Teodósio Clemente de Gouveia, e os Bispos Dom Custódio Alvim Pereira e Dom Sebastião Soares de Resende, o primeiro bispo da Beira.

O Professor Eric Morier-Genoud.

Uma nota do editor descreve assim a obra:

Este livro foca-se na diversidade interna e complexidade da Igreja Católica. Destina-se a explorar, decifrar e explicar como funciona a instituição católica, como as suas políticas são feitas e como estas impactaram o contexto em que operava. Usando a diocese da Beira no centro de Moçambique como estudo de caso, e seguindo os pensamentos de Max Weber, o autor, Eric Morier-Genoud, adoptou uma nova abordagem “horizontal” de olhar as congregações dentro da Igreja como uma série de entidades autónomas, em vez de se concentrar na estrutura hierárquica da Instituição.

Entre 1940 e 1980, haviam na diocese da Beira cerca de quinze congregações diferentes, desde jesuítas a franciscanos, de burgos a padres Picpus. Como aconteceu em muitas outras áreas do mundo, a década de 1960 trouxe conflito às congregações católicas no centro de Moçambique, com o nacionalismo africano e as reformas do Vaticano II desempenhando um papel de relevo. O conflito manifestou-se de muitas maneiras: a fuga de um bispo da sua diocese, uma congregação abandonando o território em protesto contra o conluio entre igreja e estado e uma declaração de luta de classes na igreja. Todos estes eventos, ocorridos no contexto da guerra pela independência de Moçambique, tornam a região um local especialmente frutífero para a análise pioneira oferecida neste importante estudo.

A publicação tem a chancela da Imprensa da Universidade de Rochester. Para mais informação sobre o lançamento, ler aqui.

22/05/2019

O NAVIO GELDERLAND QUE LEVOU PAUL KRUGER DE LOURENÇO MARQUES PARA A EUROPA, 1900

Imagens retocadas.

No fim do que se revelou ser a primeira fase da 2ª Guerra Anglo-Boer (1899-1902), Paul Krueger saiu de Pretória, a capital da República Sul-Africana (Transvaal) mesmo antes do exército britânico capturar a cidade e viajou para Lourenço Marques num comboio especial. Ficou algumas semanas na pequena capital da colónia de Moçambique, de onde um navio de guerra do Reino da Holanda, eniado pela Rainha Guilhermina, o transportou para o exílio na Europa, desembarcando o histórico líder boer em Marselha no dia 22 de Novembro de 1900.

Postal com imagem do Gelderland, alusivo à viagem em que foi buscar Kruger a Lourenço Marques em Outubro de 1900.

 

O HMS Gelderland no dia em que chegou ao porto francês de Marselha, 22 de Novembro de 1900, trazendo Paul Kruger para o exílio europeu.

 

Paul Kruger, o Presidente da República Sul-Africana (Transvaal) desembarca do Gelderland.

 

Mais uma imagem do Gelderalnd em Marselha, 22 de Novembro de 1900.

04/05/2019

MAPA DA BAÍA DE LOURENÇO MARQUES, 1870

Filed under: Mapa de Lourenço Marques 1870 — ABM @ 15:37

Imagem retocada.

Lourenço Marques e arredores, cerca de 1870. O sítio ainda é chamado de Presídio pelos portugueses e nada demais estava a acontecer. Ainda. As festividades começariam pouco depois da decisão de Mac-Mahon (24 de Julho de 1875), o enorme incéndio que queimou o lugarejo em 1875 e a subsequente missão técnica mandada de Lisboa (comandada pelo Major Joaquim José Machado) para ver se aquilo podia ficar um pouco melhor que o esgoto a céu aberto que era. Em menos de vinte anos, o Rei D. Luis elevaria o local a cidade, a segunda a seguir à Ilha que deu o nome ao país.

18/04/2019

NOTÁVEIS DA CIDADE DE LOURENÇO MARQUES, INÍCIO DO SÉC. XX

O Ilustrado, Nº16 15 de Novembro de 1933, p.325.

Não sendo datada, a imagem deve remontar à primeira década de 1900.

xx

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