THE DELAGOA BAY WORLD

09/12/2013

HIGINO CRAVEIRO LOPES E O NORTE DE MOÇAMBIQUE, 1914-1918

Alferes Duarte Ferreira, Higino Craveiro Lopes e Benard Guedes em Palma, 1915.

Alferes Duarte Ferreira, Higino Craveiro Lopes e Benard Guedes em Palma, no extremo Norte de Moçambique, 1915.

Com vénia, texto e fotos copiados na íntegra do blog de Nuno Craveiro Lopes, um descendente de Higino Craveiro Lopes, com o título “Francisco Higino Craveiro Lopes – Aventuras e Desventuras de um militar no norte de Moçambique durante a Iª Grande Guerra”.

(Início)

Nestes últimos anos foram publicados vários livros (vide “Os Fantasmas do Rovuma” de Ricardo Marques) que relembram a epopeia passada pelas tropas portuguesas durante a primeira Guerra Mundial (1914-1918) no norte de Moçambique.

Episódio esquecido (ou que se tentou fazer esquecer…) onde os militares portugueses passaram um martírio e muitos vieram a falecer, mais pela incúria como foram organizadas e apoiadas as tropas, no que diz respeito a abastecimentos e apoios dos governantes em Portugal do que por combate, mostrando apesar das más condições, valentia, chegando a vencer o “boche” e a ocupar território Alemão.

Este é um pequeno apontamento sobre a presença nesse teatro de operações de Francisco Higino Craveiro Lopes, que veio a ser mais tarde Presidente da República Portuguesa de 1951 a 1958.

Desde Outubro de 1914 que Portugal mantinha forças na fronteira norte de Moçambique, constituída pela 1ª Expedição comandada pelo Tenente-Coronel Massano de Amorim, com a finalidade de vigiar e proteger o território. Em Março de 1915 dá-se a declaração de guerra entre a Alemanha e Portugal. Receando-se um ataque a Moçambique vindo da colónia alemã do Tanganica (Malawi), organiza-se a 2ª Expedição a Moçambique sob o comando do Coronel Moura Mendes. Dessa expedição faz parte o Aspirante de Cavalaria Francisco Higino Craveiro Lopes. À chegada a Lourenço Marques, são recebidos em apoteose, recebendo de uma comissão de Senhoras da cidade, um estandarte bordado para servir como estandarte da expedição.

O comando, (4º Esquadrão do Regimento de Cavalaria 3 – Dragões de Olivença, com 9 Oficiais e 101 Praças) recebe em 16 de Abril de 1916 ordem para tomar Kionga, uma pequena faixa de território junto á Baia do mesmo nome a sul do rio Rovuma, que tinha sido ocupada à força pelos alemães em 1894. O então Alferes Craveiro Lopes comanda uma força de cavalaria, infantaria e três peças de artilharia enviada de Palma, que atravessa mato cerrado, pântanos e rios a vau, durante 3 dias e duas noites. A acção é executada com sucesso sem encontrar resistência, por retirada do inimigo. Esperando a reacção dos alemães, estabeleceram-se então vários postos de observação ao longo da margem sul do rio Rovuma, a partir dos quais se faziam acções de defesa contra investidas alemãs e reconhecimentos em território inimigo. Nestas acções tornou-se notável a intervenção de Craveiro Lopes oferecendo-se para comandar acções de combate por indisponibilidade de oficiais mais graduados, entrando várias vezes em contacto com o inimigo, sustentando vivo combate com intrepidez digna de louvor.

Em 27 de Maio de 1916 a Marinha de Guerra com o cruzador Adamastor e a canhonheira Chaimite bombardeiam pesadamente durante 2 horas a margem norte do Rovuma e é tentada uma travessia do rio por três colunas para ocupar a margem alemã em Namaca e Namiranga, mas apesar da bravura nos combates, teve que retirar com 33 mortos, 24 feridos, 8 prisioneiros e muito material perdido nas mãos dos alemães. Dos 1543 efectivos da 2ª Expedição, perderam-se 75%, a maioria por doença, 100 falecidos em acções de combate e 450 desaparecidos na selva.

Foi então decidido pelo comando da metrópole enviar outro contingente, a 3ª Expedição comandada pelo general Ferreira Gil com 4642 efectivos e organizar uma travessia e ocupação da margem alemã em maior escala, o que se veio a verificar com sucesso em 19 de Setembro de 1916, tendo também o Alferes Craveiro Lopes tomado parte na operação.

Após a ocupação da margem norte do Rovuma em território alemão, organizou-se uma coluna militar para marchar á conquista da fortificação de Newala e Massassi, base estratégica situada a 140 kilómetros no interior do território alemão. Dessa coluna faz parte o Alferes Craveiro Lopes integrando o 4º Esquadrão de Cavalaria 3 que após 8 dias de marcha, a 22 de Outubro é o primeiro a entrar em confronto, levando de vencida as tropas alemãs na ribeira de Newala, ponto de abastecimento de água do forte, após 5 horas de combate. Toma também parte no ataque ao forte de Newala a 27 de Outubro, que é tomado após duelo de artilharia e fuga das tropas alemãs. Na manhã seguinte Craveiro Lopes segue num destacamento de cavalaria que persegue os alemães em debandada, e mais uma vez é ele que primeiro troca tiroteio com o inimigo na estrada de Lulindi. É então reformada a coluna de marcha sobre Massassi comandada pelo Major Leopoldo da Silva que sai de Newala a 8 de Novembro com 23 oficiais, 347 praças europeias, 399 indígenas e 330 carregadores, incluindo 486 espingardas, quatro metralhadoras e duas peças de artilharia. O alferes Craveiro Lopes comanda o serviço de reconhecimento e observação e mais uma vez é ele que primeiro entra em contacto com o inimigo na batalha de Quivambo, e fá-lo de tal forma que mereceu os maiores louvores. Conta-se que com dois dos seus homens, se embrenhou de tal forma nas linhas inimigas, alvejando a curta distância uma posição de metralhadoras que arrasava as forças portuguesas.

Na confusão da batalha foi-lhe inclusivamente dada ordem de prisão, após ter sido alvejado por tropa portuguesa, julgando-o um oficial alemão. Durante a batalha Infelizmente o comandante do destacamento Leopoldo da Silva é morto por fogo inimigo mas as forças portuguesas acabam por repelir o inimigo e ocupar o posto alemão de Nangoma de Lulindi à vista de Massassi, onde permaneceram durante 10 dias, ao fim dos quais tiveram que retirar para Newala por doença, falta de alimentação e munições da maior parte dos efectivos.

A forma deficiente como foram organizadas as expedições pelos comandos na Metrópole, nomeadamente a falta de rendição das tropas doentes, as faltas de abastecimentos e medicamentos, e os transportes para suprir as necessidades das tropas, tornaram inútil ou quase inútil todo o esforço desprendido nestas gloriosas acções.

Newala foi cercada de novo pelos alemães em 22 de Novembro de 1916 e as tropas Portuguesas após 6 dias de cerco com bombardeamentos, fogo de metralhadoras e tentativas de assalto por parte das tropas alemãs, tiveram que retirar por falta de efectivos, falta de munições, falta de mantimentos e devido ás doenças que grassavam entre os sobreviventes. No cerco de Newala o alferes Craveiro Lopes “mostrou grande valor militar e coragem fazendo fogo com uma metralhadora do fortim, serviço que não lhe competia, expondo-se e arriscando a sua vida, porque o inimigo não poupava a sua posição” como reza um dos seus louvores.

Regressado a Portugal, recebe por estas acções em 1917 aos 23 anos a Cruz de Guerra e é feito Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada.

Tira em 1918 o curso de piloto militar, na Escola de Aviação francesa em Chatres, sendo na altura promovido a tenente.
Em Janeiro de 1917, foi requisitado ao Ministério das Colónias uma esquadrilha de aviação para cooperar com as tropas expedicionárias em campanha. A Esquadrilha Expedicionária a Moçambique, era constituída por três aparelhos Farman F.40 de entre os cinco que estavam estacionados em Vila Nova da Rainha. Os três Farman F.40 estavam dotados com motores Renault de 130 hp e tinham a capacidade de transportar dois homens (piloto e artilheiro/observador), uma metralhadora e diversas bombas ligeiras. A autonomia destes aparelhos rondava 2h 20mn.

Por não ter sido preparado um cais de acostagem para descarregar os aviões e todo o material, estes tiveram que ser passados do navio que os transportou para jangadas, descarregados na praia e levados “ás costas de nativos” para um planalto onde a base aérea foi então construída, pois ainda não existia.

Fizeram parte da Esquadrilha Expedicionária a Moçambique os pilotos Capitão João Luís de Moura (comandante da esquadrilha), Capitão Francisco da Cunha Aragão e o Tenente Sousa Gorgulho, o Tenente Francisco Higino Craveiro Lopes, os observadores Tenente Teodorico dos Santos, Tenente Santos Guerra e o Alferes Pinheiro Corrêa, o mecânico Norberto Gonçalves e dois mecânicos franceses contratados da firma Farman.

uM Farman F40 no teatro de operações em Mocimboa da Praia, 1918

Um Farman F40 no teatro de operações em Mocimboa da Praia, 1918

Ao fim de um mês, o único mecânico português que foi inicialmente com a expedição, acabou de montar o primeiro avião e assim puderam-se inicia os testes. Coube ao Alferes Jorge de Sousa Gorgulho fazer os primeiros voos de teste que foram afinal uma estreia em Moçambique. Infelizmente veio a despenhar-se e a falecer durante o segundo voo de testes. O mecânico ficou de tal modo afectado pelo sucedido que teve que ser evacuado e os voos foram interrompidos.

Assim os elementos que faziam parte da expedição foram incorporados numa “coluna de tropas irregulares” apeadas, encarregue de fazer exploração de terreno para descobrir o inimigo, enquanto se esperava a vinda de 2 mecânicos franceses da fábrica Farman.
Ao mesmo tempo em que o seu pai então Tenente-Coronel João Carlos Craveiro Lopes entra em combate na Flandres como comandante de brigada do Corpo Expedicionário Português e é feito prisioneiro na batalha de La Lys, o então Tenente Francisco Higino Craveiro Lopes, embarca de novo para Moçambique como expedicionário onde chega em Agosto de 1918 e é incorporado na Esquadrilha Expedicionária a Moçambique estacionada em Mocimboa da Praia, quando, finalmente chegaram os mecânicos franceses, tendo pouco depois em 11 de Novembro de 1918, sido anunciado o Armistício, sem que os aviões tenham podido entrar em acções militares, o que poderia ter mudado o curso dos acontecimentos, pois os alemães não possuíam aviação militar na zona de combates.

Craveiro Lopes manteve-se em Mocimboa da Praia até Dezembro de 1918 e posteriormente acompanha a esquadrilha para a Base do Alto da Matola, perto de Lourenço Marques então inaugurada, e em conjunto com o Capitão Luís de Moura executam 149 voos até Setembro de 1919, data em que a esquadrilha ficou sem mecânicos. A esquadrilha é desactivada em Maio 1920 e retorna à Metrópole.

Durante a sua estadia em Lourenço Marques, numa viagem em eléctrico dá o lugar a uma jovem que fica impressionada e mete conversa com o garboso piloto aviador na sua farda de oficial. Tratava-se de Berta Ribeiro Arthur, com quem vem a casar ainda em Lourenço Marques, em Dezembro de 1919, onde lhe nasce também o seu primeiro filho, João Carlos Craveiro Lopes.

Trinta anos depois, em 1956 já como Presidente da República de Portugal, quis transladar para o Continente os corpos dos seus companheiros de armas que faleceram no Rovuma e que se encontravam dispersos no Alto Namoto, mas Salazar não autorizou e apenas disponibilizou verbas para a Transladação até à Capital de Distrito em Mocímboa da Praia, onde Craveiro Lopes se deslocou para presidir à inauguração do então novo Ossário Militar, que ao longo das últimas 4 décadas foi sendo destruído e actualmente nada resta para atestar a glória destes Homens e a inépcia de quem os governava.

(FIM)

29/10/2013

A VISITA DE HASTINGS BANDA A MOÇAMBIQUE, 27 DE SETEMBRO DE 1971

Fotos enviadas pelo Alfredo Correia, falta identificar quem as tirou.

Hastings Kamuzu Banda foi durante mais que três décadas o líder fundacional e mais ou menos incontestado do Malawi, um país nascido dos lobbies missionários e caprichos escoceses junto da corôa britânica no fim do Século XIX e que acabou parcialmente encravado com Moçambique, entre Tete e Niassa. Foi uma figura ímpar em quase todos os aspectos, de entre os quais uma improvável amizade próxima com o governo português, especialmente o Eng. Jorge Jardim, na década crucial que antecedeu a Independência moçambicana, na qual dificultou consideravelmente a guerrilha da Frelimo, se bem que tudo indique que jogava para os dois lados.

Um mapa do Malawi

Um mapa do Malawi, que “entra” por Moçambique dentro. Reparem nas fronteiras sobre o Lago Niassa. Os portugueses de então negociaram com os britânicos a soberania territorial moçambicana sobre o Lago, que é o que se vê, mas “esqueceram-se” de fazer o mesmo com as suas próprias colónias. Donde resulta que, cinquenta anos mais tarde, a fronteira do Malawi com a Tanzania é…..a margem do Lago do lado Tanzaniano! Ou seja, se um tanzaniano der um mergulhinho no lago, entra no Malawi. Por causa disto, os dois países andam mais ou menos em atritos, a Tanzânia quer mudar as fronteiras e o Malawi diz que não aceita.

Após 1975 e até à sua retirada da política em 1994 (morreu em 25 de Novembro de 1997 , supostamente com cerca de cem anos de idade, numa clínica em Joanesburgo) Banda manteve relações particularmente difíceis com Machel e Chissano. Machel, que odiava Banda e lhe chamava “fascista” pelas costas, morreu num acidente aéreo em Outubro de 1986, depois de regressar dum encontro cujo tema era precisamente o apoio de Banda à Renamo e ao regime sul-africano contra Moçambique. Um mês antes, em 11 de Setembro de 1986, Machel deslocou-se a Blantyre para pressionar Banda, que tudo indicava havia aberto as portas do seu país para que a Renamo atacasse o Norte a partir da fronteira malawiana. Nessa reunião de duas horas, na qual estiveram presentes Kenneth Kaunda e Robert Mugabe, segundo o livro de Ian Christie sobre Machel, o presidente moçambicano atirou com tudo à cara do venerando presidente-para-toda-a-vida, incluindo uma cópia de um passaporte do Malawi passado a Afonso Dlakhama, já então o líder da Renamo. Mas quando, poucos dias depois, se assistiu a ai início de um mortífero ataque em território moçambicano a partir do Malawi, coordenado pela Renamo e em três frentes, aparentemente liderado por tropas especiais sul-africanos, Samora, que já estava severamente pressionado em várias frentes, perdeu a cabeça e ameaçou atacar o Malawi. Numa conferência de imprensa em Maputo, disse: “nós colocaremos mísseis na fronteira com o Malawi se o apoio aos bandidos não cessar. E nós encerraremos o trânsito de mercadorias entre o Malawi e a África do Sul que passa por Moçambique [Ian refere que na altura passavam por território moçambicano cerca de 70 camiões por dia nessa rota]. Uns dias mais tarde, numa visita a Tete, Machel disse à imprensa: “as autoridades do Malawi tornaram o seu país numa base para mercenários de várias nacionalidades, mas principalmente sul-africanos. Eu creio que o Presidente Hastings não é responsável, quem é responsável são alguns ministros, soldados, membros da polícia e da segurança do Malawi que foram comprados pelos sul-africanos e outros países que não nomearei agora, apesar de termos as provas na nossa posse.”

Num artigo da BBC, o administrador da sua herança estima que o Dr. Banda, que em 1971 já ostentava o título de “presidente Vitalício”, deixou uma fortuna pessoal que estima em 319 milhões de libras estrelinas, o que não é nada mau, considerando a miséria que por ali grassava e a que por ali ainda abunda.

Em baixo, imagens de uma “histórica” visita de Estado que o Dr. Banda fez a Moçambique colonial, aqui em Nampula, no dia 27 de Setembro de 1971, onde foi recebido pela hierarquia colonial com as honras e a pompa devidas. A cúpula da Frelimo, na altura já após o rescaldo do assassinato do Dr. Mondlane e consequente ascensão da troika hardliner comunista (Machel, Marcelino e Chissano) a qual nunca teve um momento fácil com o líder malawiano, deve ter rangido os dentes duas vezes. Um dos grandes objectivos estratégicos do Presidente malawiano em relação a Moçambique era abrir uma linha férrea entre o seu país e o porto moçambicano de Nacala, que está em fase de reabilitação agora mas cuja inauguração (do troço final da linha férrea) foi a razão da sua visita a Nampula e a Nacala em 1971.

Uma nota para adicionar algum surrealismo: apesar de ter tido relacionamentos com mulheres, e em baixo se fazer acompanhar por uma “primeira dama”,  Banda nunca casou. Mas teve uma longa relação com Cecilia Kadzamira, que fazia o lugar de primeira dama, e que se vê com ele nesta visita a Nampula, e que teve por sua vez um percurso também invulgar.

 

Foto 1

Banho de multidão no Aeroporto de Nampula à chegada do Presidente do Malawi.

Foto 2

Multidão à espera da comitiva do Malawi.

3

Comité de recepção, com as bandeirinhas portuguesas ao léu, como é preceito nestas ocasiões.

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As madames esposas dos dignitários portugueses, trajadas para a ocasião, na fila de cumprimentos protocolares. Atrás, um Fokker da DETA.

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O Chede de Estado do Malawi à sua chegada, passa revista às tropas, acompanhado pelo então Governador-Geral de Moçambique, o Eng. Arantes e Oliveira.

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Cecilia Kadzamira cumprimenta as senhoras da comitiva de recepção.

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Cecília Kadzamira recebida com calor em Nampula.

Num palanque montado na pista do Aeroporto de Nampula,

Num palanque montado na pista do Aeroporto de Nampula para o efeito, o Presidente do Malawi e a comitiva de recepção preparam-se para ouvir os hinos de Portugal e do Malawi.

28/10/2013

A VISITA A MOÇAMBIQUE DO MINISTRO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS DA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA ALEMÃ, 1974

Filed under: Joaquim Chissano, MNE da RDA em Moçambique 1974 — ABM @ 01:30
Otto Winzer, ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha de Leste, visita Moçambique meses antes da proclamação da Independência.

Otto Winzer, ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha de Leste, visita Moçambique meses antes da proclamação da Independência.

O MNE da Alemanha de Leste com guerrilheiros da Frente de Libertação de Moçambique.

O MNE da Alemanha de Leste com guerrilheiros da Frente de Libertação de Moçambique.

Durante uma cerimónia em que o MNE da República Democra´tica Alemnã em Lourenço Marques.

Durante uma cerimónia em Lourenço Marques em que o MNE da República Democrática Alemã esteve presente.

O MNE da RDA entrega uma prenda ao Jovem Joaquim Chissano, então primeiro-ministro do Governo de Transição de Moçambique, que já era controlado pela Frente de Libertação de Moçambique.

O MNE da RDA entrega uma prenda ao então Jovem Joaquim Chissano, então primeiro-ministro do Governo de Transição de Moçambique, que já era controlado pela Frente de Libertação de Moçambique, e que tomou posse no dia 20 de Setembro de 1974. Pouco depois desta foto ter sido tirada Winzer deixou o cargo por razões de saúde e faleceu em Março de 1975.

O TERCEIRO CONGRESSO DA FRELIMO, 3 A 7 DE FEVEREIRO DE 1977

Filed under: III Congresso da Frelimo 1977 — ABM @ 01:13
Um desfile na rua na altura da realização do 3º Congresso da Frelimo, já então o único partido político autorizado em Moçambique.

Um desfile na antiga Praça Mousinho de Albuquerque, então recentemente rebaptizada de Independência, na altura da realização do 3º Congresso da Frelimo, já então o único partido político autorizado em Moçambique.

 

Uma maneira simpática de descrever o II Congresso foi que ali se deram ao trabalho de consubstanciar o regime que já era: o primeiro depois da Independência) transformando-se num partido. É adoptada a ideologia marxista-leninista e defendida a criação de um estado proletário e socialista. Moçambique passa a estar cada vez mais dependente dos apoios que recebe dos países socialistas (ex-URSS, China, RDA, etc), mas também a contar com a hostilidade dos países ditos "ocidentais". Em termos  regionais, o regime racista da África do Sul e da Rodésia (Zimbabué) vê esta opção como uma ameaça

Uma maneira simpática de descrever o III Congresso foi que ali os intelectuais de serviço do Regime deram-se ao trabalho de dar o nome às coisas e consubstanciar o regime que já era. Sendo o primeiro congresso do movimento guerrilheiro depois da Independência, transformou-se num partido (único), adoptou formalmente a ideologia marxista-leninista e  passou a defender a criação de um “estado proletário e socialista”. Na realidade Moçambique era cada vez mais dependente dos apoios que recebia dos países comunistas – URSS, China, RDA, etc – e passou também a contar com a aberta hostilidade dos países ditos “ocidentais”. Em termos regionais, a África do Sul e a Rodésia (Zimbabué) vêem esta opção e o apoio logístico do regime aos movimentos guerrilheiros a eles hostis como uma ameaça e ripostam. 

 

26/10/2013

A ESTÁTUA DO AVIADOR SACADURA CABRAL NO AEROPORTO DA BEIRA, ANOS 1970

Homenagem a Sacadura Cabral na Beira. Após a grande ampliação feita na aerogare da Beira durante os anos 60, o aeroporto foi designado com o nome deste aviador, parceiro de Gago Coutinho em 1922 e desaparecido em 1924.

Homenagem ao aviador português Sacadura Cabral na Beira. Após a grande ampliação feita na aerogare da Beira durante os anos 60, o aeroporto foi designado com o nome deste aviador, parceiro de Gago Coutinho em 1922 e desaparecido em 1924 e onde se encontrava esta estátua. Segundo o José Carlos Portela, a estátua é da autoria de Jorge Vasconcelos e é de 1972. Este escultor viveu entre 1962 e 1975 na cidade da Beira, actualmente vive no Norte de Portugal e faz parte do grupo Arte 6 em Braga.

Sacadura Cabral viveu e trabalhou em Moçambique. Refere a Wikipédia:

Artur de Sacadura Freire Cabral, mais conhecido por Sacadura Cabral GCTE • ComA (Celorico da Beira, São Pedro, 23 de Maio de 1881 — Mar do Norte, 15 de Novembro de 1924)1 foi um aviador e oficial da Marinha Portuguesa.

Era filho primogénito de Artur de Sacadura Freire Cabral (Celorico da Beira, São Pedro, 16 de Outubro de 1855 – Lisboa, 19 de Março de 1901) e de sua mulher (casados em Seia) Maria Augusta da Silva Esteves de Vasconcelos (Viseu, Sé Ocidental, 11 de Julho de 1861 – Lisboa, 3 de Abril de 1913).2 Após os estudos primários e secundários assentou praça em 10 de Novembro de 1897 como aspirante de marinha e frequentou a Escola Naval, onde foi o primeiro classificado do seu curso. Foi promovido a segundo-tenente em 27 de Abril de 1903, a primeiro-tenente a 30 de Setembro de 1911, a capitão-tenente em 25 de Abril de 1918 e, por distinção, a capitão-de-fragata em 1922. Terminado o seu curso, seguiu em 1901, a bordo do São Gabriel, para a Divisão Naval de Moçambique.

Serviu nas colónias ultramarinas no decurso da Primeira Guerra Mundial. Foi um dos primeiros instrutores da Escola Militar de Aviação, director dos serviços de Aeronáutica Naval e comandante de esquadrilha na Base Naval de Lisboa.

Unanimemente considerado um aviador distintíssimo pelas suas qualidades de coragem e inteligência, notabilizou-se a nível mundial, ultrapassando as insuficiências técnicas e materiais que na época se faziam sentir. Quando conheceu, em África, Gago Coutinho, incentivou-o a dedicar-se ao problema da navegação aérea, o que levou ao desenvolvimento do sextante de bolha artificial. Juntos inventaram um “corretor de rumos” para compensar o desvio causado pelo vento. Realizou diversas travessias aéreas memoráveis, notabilizando-se especialmente em 1922, ao efectuar com Gago Coutinho, a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

Navegou durante dois anos nas costas de Moçambique até que, em 1905, foi deliberado pelo governo que se procedesse a um levantamento hidrográfico rigoroso da baía de Lourenço Marques (hoje Maputo), em preparação da modernização do seu porto. Sacadura Cabral foi um dos oficiais escolhidos para este trabalho e, em colaboração com o seu camarada guarda-marinha, Bon de Sousa, fez uma carta hidrográfica do rio Espírito Santo e de trechos dos rios Tembe, Umbeluzi e Matola. Em 1906 e 1907 trabalhou como topógrafo na rectificação da fronteira entre o Transvaal e Lourenço Marques, serviço que foi feito em concorrência com os agrimensores ingleses do Transvaal.

Em 1907 chegou a Moçambique uma missão geodésica de que era chefe Gago Coutinho. No desempenho de missões geodésicas e geográficas, trabalharam juntos desde 1907 a 1910. Sacadura Cabral revelou nestes trabalhos as suas capacidades como geógrafo e astrónomo, bem como organizador.

Em 1911 concorreu aos serviços de Agrimensura de Angola, tendo sido nomeado para o lugar de subdirector destes serviços. Em Angola desempenhou vários serviços neste cargo, entre os quais observações astronómicas no Observatório de Angola e o reconhecimento da fronteira da Lunda. Em 1912 participou, com Gago Coutinho, na missão do Barotze, a fim de se delimitarem as fronteiras leste de Angola, o que foi feito em mais de 800 quilómetros. Sacadura Cabral regressou à metrópole em 1915.

Entretanto o Aero Club de Portugal procurava fazer propaganda da aviação e conseguiu que o governo abrisse um concurso para que os oficiais do exército e da marinha fossem enviados a várias escolas estrangeiras de aviação para nelas obterem o brevet de piloto aviador militar.

Sacadura Cabral foi para a França e deu entrada na Escola Militar de Chartres. Em 11 de Novembro de 1915 realizou o seu primeiro voo como passageiro e, a 16 de Janeiro de 1916 fez o seu primeiro voo como piloto. Em Março fez as provas de brevet com aprovação. Ainda em França seguiu para a Escola de Aviação Marítima de Saint Raphael, onde se especializou em hidroaviões. Frequentou ainda várias escolas de aperfeiçoamento e esteve na Escola de Buc, pilotando aviões Blériot e Caudron G.

Terminada a sua aprendizagem em França, regressou a Portugal em Agosto de 1916. Nesta altura estava a ser organizada a Escola de Aviação Militar em Vila Nova da Rainha e Sacadura Cabral foi aí incorporado como piloto instrutor.

Entretanto, tendo o governo resolvido enviar para Moçambique uma esquadrilha de aviação para cooperar com o exército, na região do Niassa, na defesa deste território em relação aos ataques alemães, Sacadura Cabral foi encarregado de adquirir em França o material necessário. Esta foi a primeira unidade de aviação constituída em Portugal.

Em seguida Sacadura Cabral foi encarregado de organizar a aviação marítima em Portugal, tendo sido nomeado, em 1918, director dos Serviços da Aeronáutica Naval e, a seguir, comandante da Esquadrilha Aérea da Base Naval de Lisboa. Em 1919 foi nomeado para fazer parte da Comissão encarregada de dar parecer sobre a melhor forma de pôr em prática um plano de navegação aérea. Nesse ano, a 11 de Março, foi feito Comendador da Ordem Militar de Avis.

Demonstrou, nesse mesmo ano, a viabilidade de vir a ser tentada a viagem aérea Lisboa-Rio de Janeiro, tendo sido nomeado para proceder aos estudos necessários para a sua efectivação. Foi então à Inglaterra e à França, a fim de escolher o melhor material para equipar a Aviação Marítima, e propor o tipo de aparelho em que poderia vir a ser tentada a viagem Portugal-Brasil.

Enquanto esteve nestes dois países desempenhou as funções de adido aeronáutico. Em 1920 fez parte da Comissão Mista de Aeronáutica.

Em 1921 realizou, com Gago Coutinho e Ortins de Bettencourt, a viagem Lisboa-Madeira, para experiência dos métodos e instrumentos criados por ele e Gago Coutinho para navegação aérea que, em 1922, vieram a ser comprovados durante a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

Nesse ano, a 1 de Maio, tornou-se o 347.º Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito5 e a 2 de Junho o 36.º Sócio Honorário do Ginásio Clube Figueirense.

Em 1923 elaborou um projecto de viagem aérea de circum-navegação, que não conseguiu realizar por falta de meios materiais. Em 1924, convencido de que o Governo não correspondia ao esforço por ele levado a cabo para a eficiência da Aviação Marítima, apresentou o seu pedido de demissão de oficial da Marinha, pedido que foi indeferido. Ainda em 1924, foi nomeado para estudar uma proposta feita ao governo para o estabelecimento de carreiras aéreas com fins comerciais. Morreu a 15 de Novembro de 1924, quando pilotava um Fokker 4146 de Amesterdão para Lisboa, um dos cinco aviões que haviam sido adquiridos por subscrição pública, e que seriam utilizados no seu projecto da viagem aérea à Índia, uma vez fracassado o seu projecto de circum-navegação.

Actividade científica

Juntamente com Gago Coutinho estudou um novo aparelho com o qual se viria a conseguir uma navegação estimada, e que viria a auxiliar e a completar a navegação astronómica por intermédio do sextante modificado por Gago Coutinho. Inicialmente este aparelho foi chamado “Plaqué de Abatimento” e mais tarde “Corrector de Rumos – Coutinho-Sacadura”.

Este aparelho foi experimentado na primeira viagem aérea Lisboa-Madeira realizada em 1921. Tendo obtido os melhores resultados na sua utilização, este aparelho foi apresentado ao Congresso Internacional de Navegação Aérea, realizado em Paris de 15 a 25 de Novembro de 1921, onde teve boa aceitação. A memória descritiva do “Corrector” foi publicada nos Anais do Club Militar Naval.

A preparação para a primeira travessia aérea do Atlântico Sul é da iniciativa de Sacadura Cabral, que expôs o projecto a Gago Coutinho, o que motivou que este acelerasse a adaptação do sextante clássico de navegação marítima à navegação aérea. A travessia iniciou-se em 30 de Março de 1922, em Belém no hidroavião “Lusitânia”. A primeira escala foi nas Canárias, de onde partiram para São Vicente, em Cabo Verde. Daqui partiram para os Penedos de São Pedro, com problemas de consumo de combustível. Ao amarar, uma vaga arrancou um dos flutuadores do “Lusitânia”, o que provocou o afundamento do avião. Os aviadores foram recolhidos pelo navio “República”. O “Lusitânia” acabara de realizar uma etapa de mais de onze horas sobre o oceano, sem navios de apoio, mantendo uma rota matematicamente rigorosa, o que mais uma vez veio provar a precisão do sextante modificado, pois os Penedos de São Pedro e São Paulo podem considerar-se um ponto insignificante na enorme vastidão atlântica.

O governo enviou um outro hidroavião Fairey 16, cujo motor veio a avariar no percurso entre os Penedos de São Pedro e São Paulo e a ilha de Fernando de Noronha. Foi pedido um novo Fairey ao governo português, que foi enviado no “Carvalho Araújo”. Três dias depois partiram para o troço final, chegando à baía de Guanabara e terminando a viagem no Rio de Janeiro a 17 de Junho, depois várias escalas.

Esta viagem aérea constituiu um marco importante na aviação mundial, pois veio comprovar a eficácia do sextante aperfeiçoado por Gago Coutinho, com a ajuda de Sacadura Cabral, que permitia a navegação aérea astronómica com uma precisão nunca antes conseguida.

Faleceu num desastre de aviação algures no Mar do Norte, em 1924, quando voava em direcção a Lisboa, pilotando um avião que se despenhou. O cadáver nunca foi encontrado. Acerca da sua morte escreveu um Poeta: “Encontrou a sepultura em pleno mar / Que a terra, donde andava foragido, / Era pequena demais para o sepultar.”

20/10/2013

ADRIANO BOMBA E O MIG 17, 1981

Filed under: Adriano Bomba 1981 — ABM @ 17:04
Em 1981, Adriano Bomba, então um piloto das FAM, fugiu para a África do Sul com um MIG 17.

Em 1981, Adriano Bomba, então um piloto da Força Aérea de Moçambique, fugiu para a África do Sul com um MIG 17.

18/10/2013

O CICLONE TROPICAL CLAUDE EM LOURENÇO MARQUES, JANEIRO DE 1966

Filed under: Ciclone Claude em LM Jan 1966 — ABM @ 00:12

Fotografias de Paulo Badinha, restauradas. O mapa foi copiado do sítio do serviço meteorológico da Austrália.

Neste mapa pode-se seguir o percurso que o Ciclone Tropical Claude fez desde a sua aparição, na noite de Natal de 1965, até

Neste mapa pode-se seguir o percurso que o Ciclone Tropical Claude fez desde a sua aparição, na noite de Natal de 1965, até ao dia 8 de Janeiro de 1966. Lourenço Marques foi directamente atingida pelo Ciclone nos dias 4 e 5 de Janeiro de 1966, uma terça e uma quarta-feira infernais. Com ventos acima dos cem quilómetros e uma estimativa de 650 mm de chuva nesse espaço de tempo, foi um dos principais fenómenos meteorológicos a atingir a capital moçambicana no Século XX.  Eu na altura tinha seis anos de idade e lembro-me desses dias e dos que se seguiram como se fosse hoje. O telhado da casa onde eu habitava na Ponta Vermelha foi derrubado pelo vento. Durante semanas não houve água canalizada na Cidade.

A Estrada Marginal de Lourenço Marques no dia 5 de Janeiro de 1966, quando o Claude assolou a capital de Moçambique.

A Estrada Marginal de Lourenço Marques no dia 5 de Janeiro de 1966, quando o Claude assolou a capital de Moçambique.

xxx

Após o Claude ter seguido o seu percurso Sudeste, a área metropolitana de Lourenço Marques ficou desvastada pelos efeitos do vento e da água.

Numerosas árvores caíram e o deslizamento de terras foram visíveis um pouco por toda a Cidade. As barreiras em frente ao Hotel Cardoso e o então Liceu Salazar (hoje Liceu Josina Machel) levaram meses a reparar.

Numerosas árvores caíram e o deslizamento de terras foram visíveis um pouco por toda a Cidade. As barreiras em frente ao Hotel Cardoso e o então Liceu Salazar (hoje Liceu Josina Machel) levaram meses a reparar.

Uma das ruas da Cidade.

Uma das ruas da Cidade.

Nos arredores da Cidade.

Nos arredores da Cidade.

Esquina da Avenida Dom Luiz com a Avenida da República (actuais Av. Marechal Samora Machel e 25 de Setembro)

Esquina da Avenida Dom Luiz com a Avenida da República (actuais Av. Marechal Samora Machel e 25 de Setembro). Á esquerda o Café Scala, em frente o Café Continental.

Em frente à Marta da Cruz & Tavares podia-se nadar.

Em frente à Marta da Cruz & Tavares podia-se nadar.

Na esquina das Avenidas da República e Dom Luiz, no (agora em ruínas) Edifício Pott, onde se encontrava a Mercearia Pérola do Oriente, este foi o cenário durante dias.

Na esquina das Avenidas da República e Dom Luiz, no (agora em ruínas) Edifício Pott, onde se encontrava a Mercearia Pérola do Oriente, este foi o cenário durante dias.

Em frente à Casa Coimbra e à Sede do Banco NacionalUltramarino (actualmente a Sede do Banco de Moçambique).

Em frente à Casa Coimbra e à Sede do Banco NacionalUltramarino (actualmente a Sede do Banco de Moçambique).

A AVenida da República (actual 25 de Setembro) em frente à Casa Bayly.

A Avenida da República (actual 25 de Setembro) em frente à Casa Bayly.

Vista da Avenida da República na direcção da Praça Mac-Mahon (actual Praça dos Trabalhadores).

Vista da Avenida da República na direcção da Praça Mac-Mahon (actual Praça dos Trabalhadores).

Na Estrada Marginal, um automóvel soterrado em areias caídas das Barreiras da Polana.

Na Estrada Marginal, um automóvel soterrado em areias caídas das Barreiras da Polana.

Uma carrinha táxi num buraco aberto na estrada.

Uma carrinha táxi num buraco aberto na estrada.

06/10/2013

O PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DA REPÚBLICA PORTUGUESA NA ILHA DE MOÇAMBIQUE, 1911

Imagem da celebração, na Ilha de Moçambique, do primeiro aniversário da imposição da república portuguesa.

Imagem da celebração, na Ilha de Moçambique, do primeiro aniversário da imposição da república portuguesa. Então, já não era a capital da Colónia.

A CELEBRAÇÃO DO DIA DE PORTUGAL EM LOURENÇO MARQUES, JUNHO DE 1973

Fotografia do Nuno Pires, que estava nas catacumbas dentro de sua casa, graciosamente enviada para restauro e que aqui se apresenta.

 

Vista de longe, a então Praça Mouzinho de Albuquerque (hoje a Praça da Independência) no domingo, dia 10 de Junho de 1973

Vista de longe, a então Praça Mouzinho de Albuquerque (hoje a Praça da Independência) em Lourenço Marques, no domingo, dia 10 de Junho de 1973, data em que se crê ter falecido o poeta Luiz Vaz de Camões (autor de, entre outros, o poema “Os Lusíadas”) e que ainda hoje é o feriado nacional da nação portuguesa. Na cidade, realizou-se uma parada militar e na praça podem-se observar populares e tropas em fila, no ar quatro helicópteros Alouette voando em formação. Dez meses e duas semanas depois, sob a liderança do “moçambicano” Otelo Saraiva de Carvalho, triunfava em Lisboa um pronunciamento militar que abriria o caminho para a Independência de Moçambique, mediante um cessar-fogo e um acordo assinado em Lusaka em 7 de Setembro de 1974 e, uma semana e meia mais tarde,  a entrega do governo do então Estado a representantes da  Frente de Libertação de Moçambique, o movimento guerrilheiro que combatia no Norte há dez anos.

 

 

21/07/2013

ROBERT KENNEDY, JOHN KENNEDY E EDUARDO MONDLANE: O TELEFONEMA DE 4ª FEIRA, 8 DE MAIO DE 1963

Dedicado ao Dr. Yussuf Adam em Maputo.

JFK e RFK na Casa Branca. A 8 de Maio de 1963 Bob Kennedy menciona Eduardo Mondlane pela primeira vez ao Presidente Kennedy, em baixo, oiça o telefonema e leia a transcrição desse histórico telefonema.

JFK e RFK na Casa Branca. Num telefonema feito a 8 de Maio de 1963, Bob Kennedy menciona Eduardo Mondlane pela primeira vez ao Presidente Kennedy, em baixo, oiça a gravação e leia a transcrição desse histórico telefonema.

Escutar a gravação da chamada feita por Robert Kennedy ao seu irmão John, então Presidente dos Estados Unidos, diz mais do que o mero texto sugere. JFK indicia que nunca tinha ouvido falar de Eduardo Mondlane, então há quase um ano a liderar o grupo de nacionalistas que queriam trazer a independência à colónia portuguesa de Moçambique. Pelo tom, o Presidente norte-americano nem sequer sabia bem se Moçambique era uma colónia portuguesa, se bem que ele soubesse umas coisas sobre Portugal, um dos primeiros países europeus a reconhecer a independência norte-americana após 1776 (o reconhecimento português foi formalizado a 15 de Fevereiro de 1783, o norte-americano em 21 de Fevereiro de 1791).

Antes de ter sido eleito presidente em 1960, John Fitzgerald Kennedy havia sido um dos dois Senadores pelo Estado de Massachusetts, a base do poder dos Kennedy e onde residiam milhares de portugueses originários do Arquipélago dos Açores, bem como muitos cabo-verdianos, que então eram também cidadãos portugueses. Nessa comunidade muitos se recordavam da autorização especial negociada por Kennedy para possibilitar a imigração para os EUA de milhares de açorianos aquando das erupções do vulcão dos Capelinhos, junto da Ilha do Faial, entre Setembro de 1957 e Outubro de 1958.

Os Açores, um conjunto de nove ilhas portuguesas no Oceano Atlântico situadas a dois terços do caminho dos EUA para a Europa, ilhas que muito rapidamente se tornaram num verdadeiro calcanhar de Aquiles da política norte-americana em relação a Portugal e às suas colónias, dada a sua importância estratégica para a Aliança Atlântica e no quadro da Guerra Fria – e curiosamente, para onde fora exilado Gungunhana, o chefe dos Vátuas de Moçambique, em 1896 e onde falecera dois dias antes do Natal de 1906.

Na Ilha açoriana da Terceira, desde a Segunda Guerra Mundial que funcionava uma enorme base aérea, que, singularmente, possibilitava o movimento rápido de tropas e munições dos Estados Unidos para a Europa e o Médio Oriente. A alternativa era o seu envio por barco, o que era incomensurável com os requisitos da guerra moderna.

Por outras palavras, face à nova pressão e à urgência norte-americana em ver Portugal a agir em relação às suas colónias em sincronia com o resto da Europa, Salazar não só resistiu, como tinha – e utilizou – a chantagem açoriana.

Mas naquela quarta-feira, dia 8 de Maio de 1963, de nada disso se falou. Robert Kennedy, o algo polémico Procurador-Geral do governo federal, mais ou menos focado em acabar com as redes de crime organizado nos Estados Unidos, mas em tudo o mais um leal e importante conselheiro do irmão, telefona-lhe para lhe falar de uma série de tópicos. O assunto Eduardo Mondlane ficou encaixado no meio de um conjunto de temas desconexos.

Quiçá mais do que o Presidente, o seu irmão RFK estava ciente da situação dinâmica da luta dos americanos negros pela sua integração plena na sociedade norte-americana, em crescendo desde os anos 50 e, no foro externo, do surgimento dos novos países africanos na cena internacional, em aliança com uma série de países asiáticos, os quais, a partir de 1960, reforçaram o contingente anti-colonial na Organização das Nações Unidas. No início dos anos 60, a Argélia francesa estava a ferro e fogo e a Grã-Bretanha movia-se rapidamente para tornar independentes as suas colónias. Em 1961 iniciou-se uma guerrilha anti-colonial em Angola, no final desse ano a Índia tomou para si as pequenas parcelas que constituíam o Estado Português da Índia, e em meados de 1962 os grupos independentistas de Moçambique juntavam-se numa frente única para articular o esforço pela independência. Por sugestão e pressão de Julius Nyerere, o mercurial novo líder da Tanganika, o Dr. Eduardo Mondlane, que então vivia nos Estados Unidos há vários anos e que estava casado com uma cidadã norte-americana, e que era uma escolha natural para liderar o movimento, aceitou presidir à Frelimo, cuja sede e base de operações passou a ser a futura Tanzânia.

Na ONU, vivia-se uma nova era, em que os países agora independentes insistiam em colocar na agenda a descolonização, tentando forçar o assunto pela via diplomática, algo que os Estados Unidos, também uma ex-colónia, nada tinham contra, excepto que tal mexia com as suas relações estratégicas com um conjunto de países europeus, entre os quais Portugal, onde mandava uma única figura desde 1932: António de Oliveira Salazar.

Salazar, veio-se a confirmar, tinha uma enorme desconfiança em relação aos Estados Unidos, a grande potência emergente no mundo após o término da Segunda Guerra Mundial, altura em que o poder real nas relações internacionais gravitou das mãos mais batidas e conhecidas da Grã-Bretanha para que o que ele considerava ser uma diplomacia menos experiente e mais volúvel.

Mais grave ainda, Salazar, que nunca visitara nenhuma colónia portuguesa durante toda a sua vida, achava que os destinos desses territórios eram assunto para Portugal decidir conforme considerasse melhor, sendo que aos residentes (ambos colonizados e colonos) não lhe ocorria fazer uma consulta sequer. E Salazar, como a chamada “ala dura” do regime por ele criado, perspectivava como sendo simplesmente impensável sequer discutir a questão da sua autonomia, quanto mais a sua independência, que provavelmente vislumbrava ocorrer dali a muitas dezenas de anos. Na óptica do regime, “aquilo é nosso”, tal como uma quinta em Trás-os-Montes.

Para os norte-americanos, especialmente para a Administração Kennedy, a postura de Salazar era completamente insana e jogava em favor do Bloco Chino-Soviético, adversário dos americanos na Guerra Fria, que já tinham dado claros sinais de quererem explorar plenamente a oportunidade de pressionar o Ocidente via o apoio e controlo de movimentos independentistas espalhados por todo o mundo. Esta percepção fora ainda mais agravada pela Crise dos Mísseis de Cuba, ocorrida em Outubro de 1962, e que colocara então os Estados Unidos a um fio de um conflito nuclear com a União Soviética.

Assim, os americanos, especialmente Bob Kennedy, sabiam que era importante e urgente para os Estados Unidos negarem esse espaço de manobra aos países da Cortina de Ferro, que se aproveitavam das descolonizações para demarcar o seus novos domínios, por assim dizer. No caso da Tanzânia, a aproximação fez-se com a China, que, como se podia prever, viria a desempenhar um papel importante e exercer uma enorme influência na então emergente Frelimo, apesar dos esforços dedicados do Dr. Mondlane e da sua mulher de diversificarem os apoios e assim reduzirem a dependência da Frente nas ditaduras comunistas.

Penso que é neste contexto global que se insere esta primeira abordagem formal do Dr. Eduardo Mondlane à Administração Kennedy em 1963. Certamente foi entendida como tal. No telefonema de 8 de Maio de 1963, RFK indica que tivera mais que um contacto com Mondlane e que ele ficara deveras impressionado com o então Presidente da Frelimo.

Registo da conversa telefónica entre JFK e RFK sobre Mondlane e Moçambique

Para escutar o telefonema, prima AQUI.

Início – 0827 mins
Fim – 10:00 mins

Documentos de John Fitzgerald Kennedy
Gravações Presidenciais – Dictabelts – Dictabelt 18B

(Início)

RFK: Now, one other thing. Uh, . . . I’ve had some conversations the last couple of
weeks with a fellow by the name of [Eduardo] Mondlane . . .

President: Yeah.

RFK: . . . who’s from Mozambique.

President: Yeah.

RFK: And he’s the fellow that’s leading the effort to, uh, make Mozambique
independent. He’s a terrifically impressive fellow.

President: Yeah.

RFK: And, uh . . .

President: That’s Portuguese?

RFK: Yeah.

RFK: Uh, . . . He, uh, . . . uh, . . . Some of his people have gotten . . . He’s the head
of it, but some of his people have gotten some aid and assistance from
Czechoslovakia and Poland. He needs help from the United States for two
reasons. Number one, so that he can indicate to them that there are people in
the West at least sympathetic to his efforts, and, uh, number two, just to keep
‘em going. And, uh, the figure that he’s mentioned, that they’ll need for a year
is a . . . uh, . . . is quite reasonable. First, he needs fifty thousand dollars for
help with the refugees. Uh, . . . I think that they . . . It’s a possibility that they
can get the second fifty thousand dollars from the Ford Foundation. At least
they’re working on that. Carl Kaysen is. Uh, but he’d need at least fifty
thousand dollars from us. Now, uh, Dean Rusk has felt that . . . uh, that he
wants to be able to sit down with the Portuguese and say none of these people
are getting any money. Uh, . . . if he turned this over to somebody like Averell
Harriman
or John McCone, just to use their own judgment, uh, . . . the he

wouldn’t have to kn–get involved in it . . .

President: Yeah.

RFK: . . . or know anything about it. Uh, . . . I think it would be damn helpful. Now,
we’ve had discussions on these things for the last week and Carl Kaysen can
fill you in on it. But this fellow’s going hack Wednesday–Mondlane–and he’s
gonna meet with the heads of all these African nations at this meeting, I guess
next week.

President: ‘Course, we wouldn’t want him to be saying that he got anything from us.

RFK: No, but you wouldn’t have that, you see. You’d have it though some private
foundation.

President: Yeah.

RFK: Then they could have cut-outs on it.

President: I see.

RFK: And John McCone can handle it. So it wouldn’t come from the agency.
President: Well, now, what does it depend on . . . Uh, you think we ought to give it?

RFK: Yes.

President: O.K., well, then, what do we give it?

RFK: Well, if–maybe if you call to Carl Kaysen about how it should be handled,
because if it’s to be handled so that Dean Rusk is happy and . . . and, uh,
Averell Harriman feels very strongly it should he given.

President: O.K.

RFK: But, uh, I think if it could be handled so that . . . maybe you could explain to
Dean Rusk he doesn’t haveto know about it directly.

President: Should we tell Dean Rusk?

RFK: Well, um, Carl Kaysen got all the facts on it, and he’ll have a suggestion as to
how it should be handled.

(Fim)

13/06/2013

A AMEAÇA DE ATAQUE A LOURENÇO MARQUES, NOVEMBRO DE 1894

Filed under: Ataque a LMarques 1894 — ABM @ 19:11

Com a entrada em funcionamento da linha férrea de Lourenço Marques para Pretória, os assuntos de Moçambique começaram a merecer um maior interesse por parte da imprensa britânica, sempre suspeita e algo displicente em relação à capacidade portuguesa de fazer seja o que for nas suas recentemente definidas colónias, especialmente no Sul de Moçambique, que os coloniais britânicos nunca realmente aceitaram não ter ficado para a então maior potência militar e económica do Mundo.

Em baixo, o The Graphic, uma revista ilustrada britânica, na sua edição de 15 de Dezembro de 1894, dá notícia do levantamento indígena que pouco antes ameaçara atacar e arrasar a pequena cidade de Lourenço Marques e das medidas já tomadas, e que incluíram a cidade se ter barricado com postos de vigia e a chegada de 550 tropas negros de Angola.

O jornal não sabia que, menos que três semanas mais tarde, chegaria a Lourenço Marques mais um navio com uma série de oficiais e armamento para proteger a cidade. No segundo dia de Fevereiro do ano seguinte, dava-se a Batalha de Marracuene, cujo objectivo principal era libertar Lourenço Marques da ameaça de um ataque.

 

A Página 672 da revista britânica The Graphic, 15 de Dezembro de 1894, sem querer anunciando o prelúdio do que os portugueses chamaram as "campanhas de pacificação", isto é, a aceitação da soberania portuguesa por parte das populações que habitavam dentro do que é hoje Moçambique.

A Página 672 da revista britânica The Graphic, 15 de Dezembro de 1894, sem querer anunciando o prelúdio do que os portugueses chamaram as “campanhas de pacificação”, isto é, a aceitação da soberania portuguesa por parte das variadíssimas populações que habitavam dentro do que é hoje Moçambique. O processo levou décadas.

12/06/2013

PRESTANDO VASSALAGEM À COROA EM MOÇAMBIQUE, FINAL DO SÉC. XIX

Filed under: fim Séc. XX, Tribo prestando vassalagem — ABM @ 16:17

Fotografia do Nuno Castelo-Branco, restaurada.

 

Para além da assinatura de "tratados-tipo", as tribos dentro dos territórios retalhados entre os países europeus

Para além da assinatura de “tratados-tipo”, às tribos residentes dentro dos territórios retalhados entre os países europeus era exigido que, para demonstrar (exibir?) o seu respeito pelo novo governo colonial, exibissem a bandeira do país em certas cerimónias. No caso em cima, a bandeira portuguesa.  Dada a periclitância das relações nestes tempos, tinha a vantagem para o oficial colonial, de saber de antemão se estava tudo bem. Se por acaso os súbditos nativos estivessem a rasgar e a pegar fogo à bandeira, talvez não fosse boa ideia comparecer….

10/06/2013

EDUARDO MONDLANE EM OBERLIN COLLEGE, EUA, 1953

Foto de Chude Mondlane.

O jovem Eduardo Mondlane no dia da sua formatura no Oberlin College, no Estado norte-americano de Ohio, 1953.

O jovem Eduardo Mondlane no dia da sua formatura no Oberlin College, no Estado norte-americano de Ohio, 1953. Tinha 23 anos de idade. Natural de Manjacaze, estudou na Missão Suíça, após o que tentou fazer os estudos na África do Sul, depois esteve algum tempo em Portugal na Universidade de Lisboa mas em seguida foi para Oberlin. Mais tarde, obteve um doutoramento em sociologia na Universidade de Northwestern, em Evanston, Illionois, EUA, situada junto de Chicago. Anos mais tarde, relutantemente, acedeu a liderar a Frente de Libertação de Moçambique, um agregado das organizações então activas no sentido de tornar a província independente e os seus destinos geridos pelos seus naturais.

O BERÇO DE ANTÓNIO OLIVEIRA SALAZAR

A casa onde o diatdor nasceu e cresceu na localidade de Santa Comba Dão (onde fui sepultado em Julho de 1970). Parte do mito.

A casa onde o diatdor nasceu e cresceu na localidade de Santa Comba Dão (onde fui sepultado em Julho de 1970). Parte do mito do político que nasceu pobre e morreu pobre, ainda hoje popular entre muitos dos seus compatriotas.

 

O Professor Doutor, posando para a posteridade no início da ditadura. Herdou um país que era um caco mas a longa permanência no poder   criou outros problemas.

O Professor Doutor, posando para a posteridade no início da ditadura. Herdou um país depauperado pelas tricas da 1º República, mas a longa permanência no poder criou outros problemas, nomeadamente o colonial, o desajustamento com os níveis de desenvolvimento económico e social dos seus vizinhos europeus e a perpetuação de um paradigma insustentável, para não falar da mania do dirigismo centralizado nas decisões estatais. Quem veio a seguir teve que apanhar os cacos outra vez – e não apanhou coisa nenhuma.

 

03/06/2013

MARCELO CAETANO: UM PERFIL PESSOAL E POLÍTICO

Filed under: Marcelo Caetano, Marcelo Caetano - perfil pessoal — ABM @ 16:32
Marcelo Caetano sucedeu a Salazar como Presidente do Conselho de Ministros de Portugal, em 1968. Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, 12 anos tarde demais.

Marcelo Caetano sucedeu a Salazar como Presidente do Conselho de Ministros de Portugal, em 1968. Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, 12 anos tarde demais. Whatever. A biografia em baixo, contada por quem lhe era próximo, em três segmentos, que apanhei por acaso.

02/06/2013

MOUZINHO DE ALBUQUERQUE, 1901

Filed under: Mouzinho de Albuquerque, Mouzinho de Albuquerque — ABM @ 19:05
A última fotografia de Mouzinho de Albuquerque, 1901.

A última fotografia de Mouzinho de Albuquerque, 1901, que restaurei e coloquei umas cores para efeito. Ele falecerá em circunstâncias misteriosas a 8 de Janeiro de 1902. A prisão de Gungunhana e, não menos importante, a sua acção crucial no terreno enquanto o segundo Comissário Régio de Moçambique tornam-no uma figura incontornável da história de Moçambique. Um monárquico convicto, mas brusco, inconstante e irreverente, desprezava sem fim os políticos portugueses da sua época. Para os seus contemporâneos, foi um herói muito inconveniente. O seu famoso prisioneiro ainda viveria em Angra por mais cinco anos após a sua morte.

27/04/2013

INDEMNIZAÇÕES ALEMÃS NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL EM MOÇAMBIQUE E FERNANDO PESSOA

A bandeira imperial alemã, até 1919.

A bandeira imperial alemã, até 1919.

Parte da dialética dos dias que correm, em que Portugal está encostado, ou encostou-se, à parede financeira com aquela mistura hilariante e venenosa de Socialismo, endividamento público e privado, obras faraónicas que pouco ou nada produzem, e a adesão ao Euro, passa por, digamos, chamar a atenção da Alemanha para relaxar o sufoco monetário, permitindo a impressão liberalizada da moeda, e assim, juntamente com a desvalorização da moeda europeia e uma dose provável de inflação, criar alguma noção de movimento, real ou ilusória.

A Alemanha, preparada e relativamente imune ao estado de coisas, após o esforço titânico de absorver a ex-RDA, está contra.

Um dos argumentos da moda, uma espécie de terapêutica populista que tem estado a dar algum brado nos jornais, é vir recordar aos eventuais alemães que estejam a ler (não há) os estragos causados por duas guerras na Europa (“mundiais”), os danos causados – e o contabilizar pelo não-ressarcimento por esses danos.

Claro que o assunto, para além de uma Caixa de Pandora, tem precedente, nomeadamente com os alemães, na chamada Grande Guerra de 1914-1918 – e que correu mal. Durante esse conflito e após, as nações vitoriosas “castigaram” o ex-Império alemão, causando uma verdadeira razia na Alemanha (antes mas especialmente após a queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929) que não só tornaram impossível sequer pagar os juros das tais dívidas estabelecidas em Versailles, como, em última instância, ajudaram a criar as condições para a vil experiência Nazi, um dos grandes horrores da humanidade, a par apenas com o Comunismo de Stalin e de Mao, que no conjunto, tornaram o Século XX numa era de carnificina sem igual.

Pessoalmente, não creio que este tipo de abordagem tenha qualquer outro efeito que não seja distanciar mais a Alemanha dos que a ela recorrem. Já em outros escritos referi que o tema central desta geração – a construção de um projecto europeu – se é para ocorrer, dependerá de todos, e não só de um. Que não esteja a acontecer, resulta essencialmente da falta de coragem e de visão para fazer o que tem que ser feito – e aí há muitas opções. Talvez nem todas sejam muito simpáticas, nem inteligentes, muito menos visionárias, mas que podem ser adoptadas, disso não há dúvida, seja a saída da Alemanha do Euro, seja a saída de Portugal, seja o continuar do apertar do cinto, seja outra qualquer.

Enfim, vejamos o que aconteceu em Moçambique.

Quando a Grande Guerra começou em Agosto de 1914, Portugal tinha duas fronteiras com o Império alemão, uma ao Sul de Angola e a outra a Norte de Moçambique. Ambas as colónias portuguesas correspondiam muito vagamente a duas “areas de influência” portuguesas, na verdade praticamente inexistentes (enfim, sempre mais do que o que os alemães previamente tinham em África, que era rigorosamente nada) mas que serviram para a diplomacia portuguesa avançar com o argumento da posse. Bismarck, que previamente ignorara África, decide entrar no jogo, essencialmente porque podia sacar algo em retorno pelaprojecção do crescente poder alemão na Europa. Entre 1884 e 1892 andou tudo muito ocupado de régua e esquadra a repartir os territórios.

Soldados portugueses em Lisboa, embarcando para África. Quase metade nunca voltaram, quase todos mortos por doença.

Soldados portugueses em Lisboa, embarcando para África. Quase metade nunca voltaram, quase todos mortos por doença.

Copio o resumo feito na Wikipédia, com alguns retoques meus:

Após um ataque alemão ao posto fronteiriço de Maziua, no Rovuma, o governo de Portugal enviou para Moçambique uma força de 1527 homens. Essa força, que chegou a Moçambique em Outubro de 1914, estava completamente desorganizada, de tal forma que, passados alguns meses, mesmo sem ter tido nenhum contacto com o inimigo, já tinha perdido 21% dos seus efectivos devido a doença.

Em Novembro de 1915 chegou a Moçambique uma segunda força de 1543 homens, comandados por Moura Mendes. Essa força tinha como finalidade recuperar a Ilha de Quionga, mas também devido a desorganização idêntica à da primeira força, só em 4 meses perdeu, por doença, metade dos efectivos. Só em Abril de 1916 é que a pequena ilha de Quionga foi recuperada.

Em finais de Junho de 1916 chega a Moçambique a 3ª força enviada de Portugal, constituída por 4642 homens comandados por Ferreira Gil, com a finalidade de passar o Rovuma e atacar as tropas alemães ao mesmo tempo que estas eram atacadas no Tanganica por forças inglesas, da Rodésia, da União Sul-Africana, do Quénia, do Congo Belga e da Índia. Esta 3ª força consegue passar o Rovuma e conquistar Nevala mas, logo de seguida, é derrotada no combate de Nevala, tendo que retirar novamente para Moçambique.

As tropas portuguesas entrincheiradas na margem Sul do Rio Rovuma.

As tropas portuguesas entrincheiradas na margem Sul do Rio Rovuma.

Em 1917 Portugal envia a 4ª força para Moçambique, esta constituída por 9786 homens e comandada por Sousa Rosa.

Durante todo este período, a Alemanha tinha na África Oriental, uma força de apenas 4000 askaris (tropas indígenas, geniais) e 305 oficiais europeus, comandados pelo general Lettow von Vorbeck, que praticamente agiu sózinha e sem quaisquer reforços durante toda a duração do conflito mundial. Vorbeck conseguiu sempre resistir aos ataques das forças inglesas, apesar de estas serem em número vastamente superior. Isto foi possível devido a von Vorbeck ter utilizado uma nova forma de guerra – a guerrilha – não lhe interessando manter ou conquistar posições, mas sim manter o inimigo sempre ocupado, de modo que este não pudesse libertar soldados para enviar de volta à Europa.

Paul Emil Lettow von Vorbeck, talvez o mais glorioso de todos os generais alemães no Século XX. E para azar dos portugueses, estava na África Oriental Alemã quando começou a Guerra.

Paul Emil Lettow von Vorbeck, talvez o mais genial e glorioso de todos os generais alemães no Século XX. E, para grande azar dos portugueses, estava na África Oriental Alemã quando começou a Guerra.

Em Novembro de 1917, Vorbeck passa o Rovuma e derrota as tropas portuguesas em Negomano, e percorre o interior de Moçambique, sempre fugindo e derrotando as tropas que encontrava pelo caminho e provocando a revolta das populações locais contra os portugueses. Em seguida voltou ao Tanganica.

Com o final da guerra na Europa, o grupo alemão, que se encontrava nessa altura no que hoje é o Zimbabué, acabou por se render, sem nunca ter sido derrotado.

Para Portugal ficaram, além das grandes derrotas militares, as revoltas das populações locais, que demoraram a ser reprimidas.

(fim)

Este texto é generoso, pois na realidade a miséria, a falta de condições e a morte abjecta e quase sem qualquer chance de sucesso foram a grande marca desta “campanha” moçambicana, motivada, essencialmente, pela fixação dos governantes republicanos de então em entrar na guerra e com essa participação marcar a presença da decrépita república portuguesa, a meu ver por razões que se prendem mais com a sua busca de legitimação interna do regime (o Reino Unido quase tudo fez para manter Portugal fora da guerra) e o receio de não terem depois argumentos para sentarem junto com os vitoriosos para reclamarem o seu quinhão.

E reclamaram.

O principal, no caso de Moçambique, foi a metade previamente alemã do chamado Triângulo de Kionga (ou Quionga).

Mapa da fronteira entre a África Oriental Portuguesa e a África Oriental Alemã antes do início da Grande Guerra. Repare-se que a parte portuguesa - separada por parte do chamado Triângulo de Kionga - não tocava na foz do Rio Rovuma.

Mapa da fronteira entre a África Oriental Portuguesa e a África Oriental Alemã antes do início da Grande Guerra. Repare-se que a parte portuguesa – separada por parte do chamado Triângulo de Kionga e terminando na ponta de Cabo Delgado – não tocava na foz do Rio Rovuma.

O Triângulo de Kionga é uma parcela de território situado entre a foz dos rios Rovuma e Minengani. Em 1887, quando alemães e portugueses negociavam as fronteiras, os diplomatas portugueses reclamaram para Portugal o território até à foz do Rovuma. Mas os alemães queriam a foz do Rovuma só para si e, invocando estar aquela sob sob a influência do Sultão de Zanzíbar (que estava na mão dos alemães e dos britânicos, com mantinham uma espécie de entendimento colonial) e depois de umas breves escaramuças e de uma breve mas tensa negociação, ficaram com a metade Norte do Triângulo, para enorme irritação dos portugueses (dizem os livros, eu não estava lá) que ficaram com a parte Sul. Durante a Grande Guerra, os portugueses ainda tentaram ocupar o pequeno território com soberania alemã – uma irrelevância estratégica se se tiver em conta o tipo de guerra conduzida por von Vorbeck – mas a sua posse para Portugal só ocorreu como recompensa pelo esforço português, no Tratado de Versailles, em 1919.

E assim, durante 29 anos, entre cerca de 1890 e 1919, uma pequena parcela da actual República de Moçambique fez parte de uma colónia…..alemã.

Curiosamente, veja o exmo. Leitor onde, quase exactamente cem anos depois, se descobre onde estão enormes jazigos de gás:

Localização dos jazigos de gás natural em território moçambicano

Localização dos jazigos de gás natural em território moçambicano. As pesquisas prosseguem.

ALguns Exmos Leitores porventura não saberão que a entrada na Guerra dos portugueses deveu-se a um acto bélico português: o apresamento e confisco, em Março de 1916, de todos os navios alemães ancorados em portos portugueses (até então neutrais). Só após esse acto de guerra, é que o Império Alemão declarou guerra a Portugal.

Importa, no caso de Moçambique, referir um navio que fez parte desse confisco.  não, e que posteriormente serviram na marinha mercante colonial.

O Kronprinz ("Príncipe hHerdeiro"), concluido em Junho de 1900

O “Kronprinz” (“Príncipe Herdeiro”), da Deustsch Ostafrika Linie, concluido em Junho de 1900. Em Agosto de 1914, estava no Porto de Lourenço Marques, um porto neutral, onde permaneceu até que, em 23 de Fevereiro de 1916, as autoridades portuguesas confiscaram-no. Posteriormente rebaptizado com o nome “Quelimane”, operou sob administração portuguesa até 1927, quando foi para a sucata.

O Herzog, da Deutsch Ostafrika Linie, uma das duas principais linhas que ligavam a costa moçambicana com o mundo (a outra era a britânica Union Castle)

O Herzog, da Deutsch Ostafrika Linie, uma das duas principais linhas que ligavam a costa moçambicana com o mundo (a outra era a britânica Union Castle), aqui fotografado na costa da actual Tanzânia em 1896.  Em 1911 o “Herzog” foi vendido a uma empresa de navegação portuguesa e baptizado com o nome de “Beira”, tendo operado sob a bandeira portuguesa até 1925.

Cartaz da Deutsche OstAfrika Linien, a empresa que assegurava as comunicações por navio entre a Europa e as colónias alemãs, e que servia a costa oriental de África. A outra grande empresa era a Union-Castle.

Cartaz da Deutsche Ost Afrika Linien, a empresa que assegurava as comunicações por navio entre a Europa e as colónias alemãs, e que servia a costa oriental de África. A outra grande empresa era a Union-Castle. Com o fim da Grande Guerra, à Alemanha seriam confiscadas as suas colónias africanas.

Um artigo de Eberhard Strotzner sobre o Herzog, publicado na revista Deutsche Afrika-Linien News de Julho de 2012.

Um artigo de Eberhard Stroetzner sobre o Herzog, publicado na revista Deutsche Afrika-Linien News de Julho de 2012. O Herzog tem a dúbia mas peculiar relevância de em 1903 ter transportado um então jovem enteado do Cônsul português em Durban na viagem de regresso de Lisboa, depois de umas férias em Lisboa, Açores e Algarve. Esse jovem chamava-se Fernando Pessoa.

O jovem Fernando Pessoa fotografado em Durban, a 600 kms de Lourenço Marques, 1898. Aqui tinha dez anos de idade.

O jovem Fernando Pessoa fotografado na Cidade de Durban, a 600 kms de Lourenço Marques, 1898 (restaurei a foto). Aqui o Fernando tinha dez anos de idade. Tirando as férias passadas em Portugal, viveu nesta cidade entre 1895 e 1905 ou seja entre os sete e os dezassete anos de idade. Tirando uma carta recentemente descoberta com um breve resmungo, o de outro modo desconcertantemente prolífico e multifacetado futuro poeta laureado da língua portuguesa – que ali aprendeu inglês – nunca, mas nunca, fez qualquer referência por escrito a África ou à sua vivência africana. Foi como se África não existisse e ele nunca tivesse estado lá a maior parte da sua infância e adolescência. Curioso, tendo em conta que ele vivia em casa dum cônsul português e tendo sido testemunha da Guerra Anglo-Boer, incluindo o memorável desembarque (vindo de Lourenço Marques) de Winston Churchill. Muito curioso. Eu tenho algumas teorias sobre porque é que foi assim mas o assunto fica para outras núpcias.

24/03/2013

A FOZ DO RIO ROVUMA NA COSTA ORIENTAL DE ÁFRICA, 1873

Em baixo, a foz do Rio Rovuma num desenho publicado na Grã-Bretanha, 1873. Na altura a foz deste rio não fazia fronteira com coisíssima nenhuma (os alemães, pela mão de Carl Peters, com um empurrãozinho do Príncipe von Bismarck, só apareceriam por ali na segunda metade da década de 1880). Como ficava para além da área de influência do Sultão de Zanzibar (protegido da Grã-Bretanha) em Lisboa os portugueses diziam que era “deles”. Pois claro que era. Mas em 1892, numa interpretação peculiar do tratado entre Portugal e o Império Germânico, os alemães decidiram que aquilo era deles e ocuparam-no (tradução: mandaram para lá uns desgraçados com a bandeira do Reich). A diplomacia portuguesa chorou baba e ranho mas ninguém meteu lá uma unha, não fossem os germânicos irritarem-se. Essa faixa com 25 kms da costa de Moçambique, a que os portugueses chamavam o Triângulo de Kionga (Kionga é um vilarejo lá no meio), foi a única parcela dos domínios coloniais portugueses (e agora a República de Moçambique) que foi território alemão durante 27 anos. Em 1919, na Conferência de Versailles, perto de Paris, para castigar os alemães pelo descaramento de terem feito a I Guerra Mundial, a África Oriental Alemã passou a ser um território administrado pela Grâ-Bretanha. Ali, Portugal, em troca da pouca vergonha que foi La Lys, exigiu, e recebeu “de volta”, o Triângulo de Kionga (que também se escreve Quionga). O Triângulo hoje é absolutamente estratégico para Moçambique: mesmo em frente às suas praias, sob o mar, situam-se entre as maiores reservas de gás natural do mundo, que até este momento permanecem intocadas. A actual fronteira entre Moçambique e a Tanzânia na costa é constituída pela foz do rio. vida tem destas coisas.

A foz do Rio Rovuma, 1873. Na altura não fazia fronteira com coisíssima nenhuma (os alemães, pela mão de Carl Peters, com um empurrãozinho do Príncipe von Bismarck, só apareceriam por ali na segunda metade da década de 1880). Como ficava para além da área de influência do Sultão de Zanzibar, em Lisboa os portugueses diziam que era "deles". Pois.

A foz do Rio Rovuma num desenho publicado na Grã-Bretanha, 1873. 

28/11/2012

LANÇAMENTO DO LIVRO “ESTAÇÕES DOS CORREIOS DE MOÇAMBIQUE, 1875-1975”, DE ALTINO SILVA PINTO

A capa da obra.

Recebi a nota em baixo com a foto em cima, (o texto levou um toque meu):

Vai ser lançado o Livro: “Estações dos Correios de Moçambique (1875-1975)”, da a autoria do Dr. Altino Silva Pinto, médico agora reformado e um declarado amante de Moçambique, de onde é natural. Por influência do seu pai, esteve sempre ligado aos correios de Portugal desde pequeno e a sua paixão pela filatelia começou desde muito cedo. Sendo um especialista no que toca à história dos correios em Moçambique, conseguiu reunir neste fantástico livro, tudo o que tem a ver com 100 anos de história dos CTT naquele país entre 1875 e 1975. Não é só um livro, mas também um documento histórico que além do interesse cultural, contém imagens inéditas e nunca antes publicadas.

Definitivamente, este é para comprar, se ainda houver dinheiro. Dá uma boa prenda de Natal.

10/11/2012

MAPUTO, A CAPITAL DE MOÇAMBIQUE, CELEBRA HOJE 125 ANOS DESDE A ELEVAÇÃO DE LOURENÇO MARQUES AO ESTATUTO DE CIDADE EM 1887

Filed under: Maputo celebra 125 como cidade — ABM @ 09:11

Na 5ª feira, dia 10 de Novembro de 1887, a Vila de Lourenço Marques foi oficialmente elevada ao estatuto de Cidade, por despacho assinado por S.M. o rei de Portugal, D. Luis I. Foi a segunda cidade da então nascente Colónia de Moçambique e a primeira no seu território continental, onde até então praticamente não existia nenhuma zona urbana de referência. Anos mais tarde, destronaria Moçambique como capital política e administrativa do país em formação.

 

Lourenço Marques no início do Século XX. Foi a segunda cidade do agora país, a seguir a Moçambique, na ilha com o mesmo nome situada mais a Norte.

 

A Rua Consiglieri Pedroso no cruzamento que termina na Praça 7 de Março (hoje Praça 25 de Junho). Na altura em que a fotografia foi tirada, cerca de 1910, esta era a principal artéria comercial da pequena cidade portuária que já era a capital de Moçambique.

 

A Rua Consiglieri Pedroso em meados dos anos 1920. A esquerda a 1ª Esquadra da polícia, que ainda existe hoje, à direita a sucursal do BNU, que já foi, substituída pela actual sede do Banco de Moçambique.

 

A Rua Major Araújo, vista do lado da Praça 7 de Março. Hoje é a Rua de Bagamoyo. À esquerda, o defunto Teatro Varietá, a única casa de ópera na África subsahariana. Mais à frente, os Casinos. Ao fundo, a estacção dos Caminhos de Ferro, com ligações a Pretória, Joanesburgo, Durban e Cabo.

 

 

 

07/10/2012

A VISITA DO PRESIDENTE HIGINO CRAVEIRO LOPES A MOÇAMBIQUE, 1956

Fotografias muito gentilmente enviadas por Paulo Azevedo e restauradas.

O Presidente português na altura era Francisco Higino Craveiro Lopes, casado com uma senhora de Lourenço Marques (D. Berta) e que participou na defesa de Moçambique contra os alemães da então África Oriental Alemã (a actual Tanzânia), com destaque para a zona junto da qual recentemente foram descobertos enormes jazigos de gás natural.

Na terminal do Aeroporto de Mavalane, aguarda-se a chegada da comitiva presidencial. Repare-se nos símbolos dos CFM no edifício.

O Presidente Craveiro Lopes à sua chegada a Moçambique, à esquerda na fotografia.

O Presidente e comitiva no outro lado da terminal do Aeroporto de Mavalane.

Locomotiva classe 300 dos Caminhos de Ferro de Moçambique que rebocou, na linha do Limpopo, a carruagem presidencial.

Francisco Duque Martinho, que viu estas fotografias, escreveu esta nota: “A título de curiosidade, identifico algumas pessoas nas fotos: na 5ª fotografia do lado direito (de quem olha para a foto) do Presidente está o Engº Trigo de Morais; na 9ª fotografia à esquerda do PCV está o Engº Pereira Leite, então Director dos CFM; na 10ª e última foto está do lado esquerdo o Engº Pereira Leite e do lado direito parece-me o Engº Stofell, na altura Director de Exploração dos Caminhos de Ferro da Beira. Já agora, a Brigada de Estudos, Reconhecimento e Contrução da Linha do Limpopo foi chefiada pelo meu Pai [Engº Duque Martinho]. Só a construção durou quase três anos. De acordo com documentos que tenho, a linha tinha 534 Kms até à fronteira em Pafuri e 565 na ex-Rodésia do Sul até Bulawayo. A Brigada de construção era constituída por 500 “europeus” e 5000 “indígenas”, tendo custado 860 mil contos.”

Presidente Craveiro Lopes e comitiva na ponte sobre a barragem do Limpopo. Segundo as minhas contas, nesta altura Samora Machel e a sua família residiam perto daqui.

Craveiro Lopes, momentos antes de entrar para o comboio com que foi inaugurada oficialmente a linha do Limpopo. Na imagem, Lord Malvern e o então Ministro do Ultramar.

Multidão que assistiu à chegada do comboio presidencial à Aldeia da Barragem, o ciclópico projecto social e agrícola do Eng. Trigo de Morais.

O comboio presidencial estacionado na Aldeia do Guijá.

Já na divisão da Beira, o Presidente recebe da parte do diretor dos C. F. M. explicações sobre os gráficos que lhe foram presentes.

O Presidente Craveiro Lopes verificando e solicitando esclarecimentos sobre os planos do Porto e Caminhos de Ferro da Beira.

13/09/2012

O MONUMENTO A CALDAS XAVIER NA BEIRA, ANOS 1970

Monumento a Caldas Xavier, um militar português que morreu algum tempo depois do combate em Marracuene na madrugada de 2 de Fevereiro de 1895, considerada uma batalha que marcou a viragem crítica na instabilidade no Sul de Moçambique na altura e salvou a pequena Lourenço Marques de ser atacada. O monumento estava numa praça da Beira e foi apeado após 1975. Caldas Xavier foi considerado pelos seus contemporâneos “o” verdadeiro herói do momento, entre eles Paiva Couceiro. Mas na altura quase tudo foi ofuscado pelo insane assalto e aprisionamento de Gungunhana por Mouzinho de Albuquerque.

 

A Wikipédia refere o seguinte, sobre Caldas Xavier: ”

A expedição partiu de Lourenço Marques a 28 de Janeiro de 1895, adoptando um dispositivo de marcha que facilitava a rápida formação em quadrado, estratégia que havia sido ensaiada como a melhor resposta a nas regiões de savana aberta a um eventual ataque das forças africanas, de longe mais numerosas, mas mal armadas. A formação consistia na formação de um vasto quadrado, com as forças auxiliares africanas no exterior e a artilharia e as metralhadoras nos vértices, deixando as forças europeias protegidas e móveis no seu interior para poderem responder a qualquer brecha que o inimigo abrisse.

A expedição passou a noite de 28 de Janeiro bivacado em Anguane, e chegou a Marracuene pelas quatro da tarde do dia seguinte. Depois de ter permanecido no local durante três dias de tranquilidade, na madrugada de 2 de Fevereiro, a coluna foi violentamente atacada. Neste confronto, que ficou conhecido pelo Combate de Marracuene, o dispositivo em quadrado chegou a ser penetrado pelas forças inimigas, pondo em risco toda a estratégia defensiva que havia sido montada.

Contudo, Caldas Xavier, que comandava a coluna por doença do major Ribeiro, ajudado pelos capitães Roque de Aguiar e Eduardo Costa e os tenentes Paiva Couceiro e Aires de Ornelas, rapidamente conseguiram refazer a face do quadrado que havia colapsado e após hora e meia de descargas cerradas as forças da resistência africana foram repelidas.

Estava consumada a primeira de uma série de vitórias militares que terminariam com a destruição de Manjacaze, a capital do Império de Gaza e o aprisionamento de em Chaimite do poderosos Ngungunhane. Mas, para além de ter sido a primeira grande vitória portuguesa nas campanhas de pacificação de Moçambique, a vitória em Marracuene ficou célebre por ter permitido demonstrar que a estratégia do quadrado, mesmo quando penetrada, era defensável, pois até então, quadrado roto era considerado perdido.

A expedição vitoriosa regressou a Lourenço Marques a 5 de Fevereiro, trazendo à frente Caldas Xavier, pois o estado do major José Ribeiro Júnior tinha-se agravado, tendo desfilado pelas ruas da cidade.

Depois da expedição a Marracuene, e porque Caldas Xavier não estava em comissão militar em Moçambique, mas sim ao serviço do Ministério dos Negócios Estrangeiros, não lhe foi dado comando de tropas. Apesar disso, o comissário régio António Enes, aproveitou as suas qualidades militares e prestígio nas operações seguintes, nomeando-o comandante do Serviço de Etapas, o órgão de apoio logístico e de socorro imediato às colunas empenhadas nas campanhas de pacificação.

Porém, a doença tropical, que há muito o minava, não lhe permitiu muito mais tempo de actividade. Teve de se recolher em casa de uma família amiga de Lourenço Marques numa tentativa de se restabelecer. Tal não aconteceu e Alfredo Augusto Caldas Xavier faleceu, na então cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, vítima de doença contraída em África, a 8 de Janeiro de 1896, poucos dias após a chegada como prisioneiro àquela cidade de Ngungunhane (o Gungunhana), o principal inimigo das pretensões portuguesas no território que viria a ser Moçambique. “

02/09/2012

O MONUMENTO E SEPULTURA DE LOUIS TRICHARDT E SUA MULHER NA BAIXA DE LOURENÇO MARQUES, ANOS 1960

A entrada do monumento e sepultura de Louis Trichardt e da sua mulher na baixa de Lourenço Marques, anos 1960. Trichardt faleceu no então presídio português em meados de 1838, depois da migração dos seus, para o norte do Cabo, para escapar ao domínio britânico da então colónia do Cabo, conhecida como o Great Trek.

 

O interior do monumento. Louis Trichardt e a sua expedição (1836-1838) constituem um momento seminal na história da África do Sul, especialmente do povo Boer, com um impacto enorme em tudo o que se seguiu na África Austral. A descoberta da sepultura do casal Trichardt deve-se em grande parte a Alfredo Pereira de Lima, um historiador já celebrado aqui no Delagoa Bay World.

28/06/2012

TEODÓSIO GOUVEIA, ARCEBISPO DE LOURENÇO MARQUES, NO RIO DE JANEIRO, 1955

Em, cima, oito dos dezoito cardeais presentes no 36º Congresso Eucarístico Internacional, realizado em Julho de 1955 na cidade do Rio de Janeiro. Da esquerda: Cardeal Dom Teodósio de Gouveia, Arcebispo de Lourenço Marques;  Cardeal José M. Caro Rodrigues, Arcebispo de Santiago, Chile; Cardeal Francis Spellman, Arcebispo de Nova Iorque; Cardeal Carlos Carmelo Vasconcellos Motta, Arcebispo de São Paulo;  Cardeal Samuel Stritch, Arcebispo de Chicago; Cardeal Gregory Peter XV Aganianian, Patriarca da Gilicia dos Arménios; Cardeal Pierre Gerlier, Arcebispo de Lyon,; e Cardeal Adeodato Piazza, Bispo de Sabina e Poggio Herteto, que era também Secretário da Congregação Sagrada do Consistório. Tudo boa gente. Mas enquanto que na Igreja Católica basicamente chovia-se sobre o molhado (até João XXIII ter dado um breve mas memorável safanão à estrutura convocando um concílio), três meses antes, na terceira semana de Abril, realizou-se uma conferência na até obscura cidadezinha de Bandung, na Indonésia, que reuniu 29 países e na qual foi feito o primeiro aviso sério à navegação quanto ao colonialismo. O mundo em plena bipolarização, os russos e os chineses entraram no negócio da libertação, directamente e através de terceiros, enquanto que a Europa e os EUA vacilavam. Em Portugal, para além duns preparativos militares meio mixurucas, basicamente assobiou-se para o lado. Salazar estava convicto que o arranjo imperial duraria mais 300 anos. Durou mais vinte.

26/06/2012

A VISITA DO PRESIDENTE CARMONA A MOÇAMBIQUE, JULHO DE 1939

Fotografias gentilmente cedidas por Fernando Morgado, do seu pai Alberto José Augusto Morgado, que passou uma vida em Moçambique e conhecia o meu pai.

A fotografia do Marechal Carmona foi copiada e referenciada à Fundação Gulbenkian.

A  fotografia do então Ministro das Colónias foi desavergonhadamente copiada do sítio dos antigos colaboradores do BNU, que contém um excelente e revelador esboço biográfico de Francisco José Vieira Machado. A ligação a esse texto está mais abaixo.

Todas as fotos foram restauradas.

A guarda de honra junto do Cais Gorjão na segunda-feira, dia 17 de Julho de 1939, para o desembarque do Presidente e Marechal António Óscar de Fragoso Carmona, no que foi a primeira visita de um presidente da república à então colónia portuguesa. Foto de Fernando Morgado, cujo pai fazia parte da referida guarda.

O Esquadrão de Dragões desfila na Avenida da República em Lourenço Marques (actual Av. 25 de Setembro), aqui na esquina entre a Avenida da República e a Av. Dom Luiz (a actual Av. Samora Machel). Ao funo a Ponta Vermelha e à esquerda o Café Scala (que não se vê na fotografia).

Na viagem às colónias portuguesas e à África do Sul, que durou três meses mas cujo trecho em Moçambique decorreu entre 17 de Julho e 13 de Agosto de 1939, Carmona foi acompanhado pelo então Ministro das Colónias, Dr. Francisco José Vieira Machado, aqui a desembarcar, de cartola, em Lourenço Marques. Vieira Machado é uma figura importante na saga colonial e deve ser estudado.

Para um esboço biográfico do Dr. Francisco José Vieira Machado,sugiro a leitura do sítio do BNU que aborda o assunto (o Dr. Vieira Machado foi uma figura daquele banco e da banca durante décadas).

Quando Carmona desembarca em Lisboa pelo Cais das Colunas na Praça do Comércio, no dia 12 de Setembro de 1939, uma terça-feira, já a Europa se encontrava em guerra, após a invasão, pelo exército da Alemanha, da Polónia, ocorrida na madrugada do dia 1 desse mês. Carmona, normalmente considerado um fantoche do ditador Dr. António Oliveira Salazar, morreu em funções no dia 18 de Abril de 1951, tendo sido substituído pelo “moçambicanófilo” General Higino Craveiro Lopes, cuja mulher, Berta, era de Lourenço Marques, onde ele se casou no início dos anos 1920.

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