THE DELAGOA BAY WORLD

14/05/2020

O SULTÃO DE ZANZIBAR E A LINHA ISLÂMICA AO NORTE DE MOÇAMBIQUE

Imagens retocadas. O original da primeira pertence aos arquivos colonais da Alemanha.

Quem quiser entender melhor a história de Moçambique deve primeiro estudar a presença árabe islâmica na costa oriental africana e especialmente a história da Ilha de Zanzibar, nomeadamente antes e depois da tomada daquela ilha aos portugueses, cerca do ano de 1700, e a constituição de uma espécie de “estado islâmico” sustentado no comércio de (pois é) escravos e marfim. Ver em baixo um resumo muito resumido da Wikipédia, delapidado por mim.

Nos tempos que correm hoje, em que todos os analistas e académicos especializados nesta já cinquentenária “soberania frelimiana”, se atropelam à procura de conjuras e de justificativos para a chamada “insurgência” na agora “província rebelde” de Cabo Delgado, é sempre bom recapitular.

O palácio do sultão de Zanzibar, na Ilha de Zanzibar, segunda metade do Século XIX.

 

A Ilha de Zanzibar, epicentro de um estado árabe islâmico que chegava quase até à costa ocidental de África entre os Séculos XVIII e XIX e que fazia o colonialismo europeu parecer um picnic.

O Resumo da História de Zanzibar na Wikipédia (pesadamente editado por mim)

Estima-se que nas Ilhas índicas de Zanzibar e Pemba se fixaram as primeiras povoações árabes muçulmanas na costa da África oriental, há cerca de mil anos. Em Kizimkazi, na ilha de Zanzibar, existe uma inscrição numa parede que afirma “o Cheque al-Sayis Abi Amran” ordenou a construção duma mesquita naquele lugar, “no primeiro dia do mês de Dhul-Qada do ano 500” (da Hégira), o que no calendário Juliano significa o dia 27 de Julho de 1107.

Os árabes chamavam à ilha “Zanj-Bar”, que significa, na sua língua, “costa dos Zanj” ou “dos negros”.

Por essa altura, Zanzibar importava cerâmica do golfo pérsico e rapidamente se tornaria numa base para mercadores árabes, onde uma das mercadorias principais era o tráfico de escravos. O primeiro europeu a visitar a ilha foi o navegador português Vasco da Gama, aquando da sua épica primeira viagem até à costa indiana em 1499, acabando os portugueses por (essencialmente ao tiro e à espadeirada) estabelecer ali um entreposto comercial e uma missão católica, dominando Zanzibar e boa parte da costa oriental africana até a Arábia, durante os dois séculos seguintes.

Por volta de 1698, esse domínio degradara-se. Sinal desse enfraquecimento, o sultanato de Omã conquistou Zanzibar aos portugueses (essencialmente, ao tiro e à espadeirada) que de seguida tornou-se no principal entreposto comercial do oceano Índico Ocidental, vendendo escravos (capturados em gigantescos raids na contracosta) e marfim para o mundo árabe, a Índia e também para o mercados nas rotas do Oceano Atlântico.

É por esta altura que se começa a formar e consolidar uma nova linha invisível de demarcação entre o mundo islamizado e afro-islamizado e o mundo controlado (muito tenuamente) pelas autoridades portuguesas. Essa linha “de soberania” situava-se mais ou menos em Angoche, a Sul da Ilha de Moçambique – ilha crucial para a rota da Índia e que, justamente, por ser uma ilha fortificada, foi sempre impregnável, apesar de se situar, neste contexto, em terreno hostil.

A Norte dessa linha, os portugueses iriam ter sempre que lidar com os árabes de Oman, com os nativos muçulmanos rebeldes – e iriam ter sempre problemas.

Em 1841, o sultão Said Ibn (1805 – 1856) mudou a sua corte de Omã para Zanzibar.

Foi naquela altura que o muito cristão e muito britânico e celebrado Dr. David Livingstone andou por aquelas paragens, sendo que, em consequência do que viu, deixou relatos assustadores sobre a escravatura praticada pelos súbditos islâmicos do Sultão de Zanzibar, que, uns anos depois, dividiu os domínios entre Oman e Zanzíbar.

Em 1873, John Kirk, cônsul britânico no sultanato durante mais que vinte anos (entre 1866 e 1887), persuadiu finalmente o sultão de então, Sayyid Sir Barghash bin Said Al-Busaid, a pôr fim ao tráfico de escravos – bem, mais ou menos. Este era um objectivo da política externa britânica desde há décadas. Este filme iria durar pelo menos durante mais vinte anos.

Barghash bin Said Al-Busaid.

Entretanto, na sequência da Conferência de Berlim, os alemães, agora unidos no seu Primeiro Reich, decidiram (pura e simplesmente) ficar com o que se tornou no Tanganica, que constituía a maior parte do Sultanato no território continental africano – em frente a Zanzíbar.

A ponta Sul desse território confinava com o que os portugueses da altura diziam aos quatro ventos que era seu – o Rio Rovuma.

Na nova colónia alemã, tal como acontecia com os vizinhos portugueses, fez-se pouco ou nada.

 

Os rapazes de Mouzinho posam para a fotografia durante a chamada Campanha dos Namarrais, 1897. Aquilo correu mal e a tropa portuguesa teve que voltar lá umas vezes para “pacificar”.

Lá de cima, vieram dois salvos de aviso: no Planalto, a tribo dos Macondes, que eram tudo menos “moçambicanos”, reiteraram que não reconheciam e não se submeteriam à Pax Lusitana. Durante a Grande Guerra, prestarão assistência aos alemães; e mais ao lado, no que viria a ser o Território do Niassa, um outrora sultão muçulmano, de nome Ce Bwonomali Mkandu (aka Mataca III) captura, manda cortar o pescoço a um previamente quase desconhecido Tenente Eduardo Valadim, e ostensivamente avisa os portugueses que desapareçam dali para fora. Mataca III e os seus cerca de 45 mil súbditos pagarão caro pela brincadeira: em 1912 foram todos exilados a tiro para a África Oriental Alemã, a sua capital foi arrasada e no seu lugar edificado um forte, chamado Valadim, localidade que ainda existe com a mesma toponímia, para variar (hoje está no meio do Bloco de Caça D-2 da Província do Niassa).

E houve ainda a Guerra dos Namarrais, que, essencialmente por falta de recursos e erros de táctica de logística, se prolongou durante quase quinze anos, mas que tinha subjacente a mesma lógica.

O Tanganica foi alemão até meados da I Guerra Mundial, quando passou para controlo britânico.

Logo a Sul do Rio Rovuma, apesar de perdas consideráveis e largamente fúteis (e portanto trágicas) os portugueses aguentaram o embate e permaneceram. Em 1919 receberam o Triângulo de Quionga como saguate.

E nos 80 anos que se seguiram, todos sem excepção, incluindo os Libertadores, aparte o slogan fácil e despido de qualquer significado real de “Moçambique do Rovuma ao Maputo”, se esqueceram daquilo, pois o verdadeiro negócio, o dinheiro e o poder estavam em Lourenço Marques, depois Maputo.

Até ao dia em que se descobriram, há meia dúzia de anos, mesmo em frente ao Triângulo de Quionga, as enormes jazidas de gás.

Em frente ao Tanganica, entre 1890 e 1963, com os seus sultões, Zanzibar foi um protectorado britânico, excepto durante os quase quatro anos entre Novembro de 1914 e Setembro de 1918, quando esteve ocupada pelos otomanos, aliados aos alemães e adversários dos Aliados.

Zanzibar obteve a independência dos britânicos em 1963 e tornou-se numa monarquia constitucional, mas o sultão foi deposto logo de seguida numa revolução e o país uniu-se ao vizinho Tanganica em 1964 para, sob a égide do Professor Julius Nyerere, formar a actual Tanzânia. No entanto, Zanzibar ainda hoje mantém alguma autonomia: elege o seu próprio presidente, que funciona como chefe do governo da porção insular e uma assembleia denominada “Conselho Revolucionário”.

A Sul, Moçambique seguiu o seu caminho, de colónia para estado soberano. E , passados todos estes anos, aparte o pacto entre alguns Macondes e a elite sulista da Frelimo, para forçar a saída dos portugueses nos anos 60, a tal linha imaginária rebelde e islâmica de que falei em cima ainda está lá.

Intacta.

Que os locais agoram usem armas ligeiras, granadas, bazookas e mais o que conseguem arranjar por lá, e slogans de guerra islâmicos importados de outros teatros de guerra, e combatam o estado moçambicano em vez do português, é apenas sinal dos tempos.

Cabe aos moçambicanos de hoje decidirem se de facto aquilo e aquela gente lá em cima afinal faz ou não parte de Moçambique e tomarem as medidas decorrentes. Que poderão ter que passar por mais uma guerra civil, mais senão não menos dolorosa que a anterior.

Ou por um esforço de integração daquela região esquecida no todo da nação moçambicana, o que se vislumbra difícil dado Moçambique ser hoje perto de um estado falhado. E laico, o que no mínimo dificulta acomodar formas de islamismo digamos que mais fundamentalistas.

No fim, seja quem for que ganhe aquilo, ficará com um novo país. Ou dois.

E com o gás todo.

13/05/2020

DISCURSO DE ALFREDO FREIRE DE ANDRADE SOBRE A COLONIZAÇÃO DE LOURENÇO MARQUES, 1897

Freire de Andrade.

Discurso proferido no dia 13 de Março de 1897 por Alfredo Freire de Andrade no Ateneu Comercial do Porto (na qualidade de Sócio Honorário) sob o tema “A Colonisação de Lourenço Marques”. Neste texto, que foi posteriormente passado para um folheto e publicado pelo Ateneu Comercial do Porto, é mantida a grafia da época. O subtítulos são meus.

Alfredo Augusto Freire de Andrade (1859-1929) nasceu em 19 de Dezembro de 1859, na Figueira da Foz. Frequentou, a partir de de 1874, a Escola Politécnica e a Escola do Exército. Cursou ainda a Escola de Minas de Paris, que concluiu, em 1888. Oficial do Exército na arma de Engenharia, integrou o pequeno grupo de oficiais que liderou as chamadas Campanhas de Pacificação em 1895-1897, na sequência dos ataques a Lourenço Marques no final de 1894. Foi governador interino do Distrito de Lourenço Marques, em 1892 e novamente em 1895. Foi Governador Geral de Moçambique entre 1906 e o derrube da Monarquia em Outubro de 1910. Adepto franquista, em seguida aderiu ao Partido Republicano Português  e, entre 1911 e 1913, foi Director Geral das Colónias, após o que foi Ministro dos Negócios Estrangeiros, entre Março e Dezembro de 1914. Faleceu em Lisboa, a 30 de Julho de 1929.

Quando fez o discurso, Freire de Andrade, então com 37 anos de idade, tinha regressado há relativamente pouco de Lourenço Marques, onde desepenhara cargos de relevo.

(Início)

A Colonisação de Lourenço Marques

Excelentíssimo Senhor Presidente, Meus Senhores,

É consultando mais o desejo de corresponder ao honroso convite da illustrada direcção d’este Atheneu do que as minhas forças e competencia, que eu venho hoje dizer aqui algumas palavras ácerca de Lourenço Marques. Outros o fariam com mais auctoridade e sobretudo com mais eloquencia, pois que, pela minha parte, só a boa vontade e bons desejos poderão ser titulos á benevolência de tão distincta assembleia para com as deficiências necessárias da minha exposição.

Pouco direi ácerca da situação, topographia e historia de Lourenço Marques, hoje bem conhecidas, graças aos excellentes trabalhos do visconde de Paiva Manso e do meu camarada Eduardo de Noronha.

De todas as nossas colonias, é Lourenço Marques a unica que apresenta os caracteres de um centro commercial em principio de um grande desenvolvimento, só comparavel ao das cidades da Africa do sul. A affluencia de navios ao porto, a actividade que se vê por toda a parte, as mercadorias amontoando-se nos caes, o movimento e a vida que se revelam ali, são um estimulo grandioso e magnifico que nos deve levar a acompanhar sem demora a corrente de trabalho e de progresso rapido da Africa do sul, sob pena de sermos esbulhados da mais bella joia do nosso dominio colonial.

A cidade de Lourenço Marques acha-se naturalmente dividida em duas partes: a velha ou baixa situada no local onde se estabeleceram as primeiras feitorias, e a nova ou alta, que, projectada sobre a vertente que se desdobra da Ponta Vermelha ao Mahé, se vai a pouco e pouco erguendo, por entre cerrados arvoredos, mostrando-se sob risonho aspecto a quem vem procurar o porto. Entre as duas encontra-se uma depressão larga e extensa, onde se reunem as aguas das chuvas e por vezes as do mar, produzindo um vasto pantano, causa principal da insalubridade da povoação.

Pelo Senhor Conselheiro António Ennes foi mandada ultimamente construir uma estrada de 3,5 kilometros ligando a cidade com a Ponta Vermelha, local bastante salubre, com 45 metros de altitude sobre o nivel do mar d’onde se ergue abruptamente e que está destinado a um largo desenvolvimento, pois que permittirá ao habitante, cansado do labutar diario na cidade commercial propriamente dita, o ir pela tarde respirar lá em cima o ar mais puro do oceano.

Pouco se tem emprehendido até hoje para o saneamento do pantano, aterrado apenas n’uma pequena área e isso mesmo pelas exigencias crescentes do alargamento da parte velha da cidade, que, junto á margem da bahia, será sempre a de maior valor.

Muitas tentativas se têm feito já e as camaras e commissões municipaes têm diligenciado resolver o problema, mas sem resultado, e isto por variadas razões. De entre os projectos estudados, um, do engenheiro Almeida Soeiro, aproveitava para edificações a área aterrada e drenada convenientemente, e outro utilisava o pantano para ahi estabelecer uma especie de porto interior, construindo um canal navegavel na base da vertente em que assenta a cidade nova. Qualquer dos dois projectos deveria ser adoptado sem demora e os trabalhos principiarem desde já, por isso que a extincção do pantano, além de uma necessidade impreterivel, daria tambem margem para uma operação commercial muito rendosa, em que os capitaes empregados obteriam um lucro remunerador. Basta considerar o preço por que poderiam ser vendidos os terrenos utilisaveis depois de concluidos os trabalhos, para avaliar das vantagens da operação; facilmente se obteriam 400:000 metros quadrados de terrenos para aforar ou vender, que teriam decerto comprador por um preço superior a uma libra o metro; o custo do aterro, em qualquer dos casos, não devia exceder metade d’esta quantia para igual superficie.

Adoptando-se o projecto da construcção de um porto interior, o preço das obras augmentaria muito, mas o valor dos terrenos ao longo do canal, iria além do que poderiamos prevêr, tanto mais que, sendo o porto um pouco desabrigado por occasião dos temporaes de sueste, o porto interior seria de grande recurso e portanto muito appetecidos os terrenos que o orlassem.

O interior do Districto de Lourenço Marques divide-se em tres zonas principaes. A dos Libombos, com algumas raras alturas de 600 metros, e formada pela vertente oriental dos montes do mesmo nome, que desce rapidamente até 200 metros de altitude, com arborisação basta e copada em alguns pontos, sobretudo nas margens dos rios, e constituida por porphyros feldspathicos e por uma extensa facha de conglomerados, parallela áquelles e correndo norte sul. A segunda zona é a das areias que, partindo dos conglomerados, vem descendo até á costa maritima, onde os depositos terciarios que a formam, se reunem aos do apparelho littoral; n’esta zona, geralmente secca e pouco povoada, o arvoredo ou é raro ou se concentra em mattas cerradas, de especies ora rachiticas e enfezadas, ora extremamente fortes e robustas, mas cujos troncos torcidos e recurvados parecem significar as difficuldades que oppõem ao seu crescimento aquelles terrenos tão aridos. Finalmente, a terceira zona ou zona argillosa é a constituida pelos depositos que os rios espalham largamente na occasião das cheias e ainda pelas argillas que arrastadas pelas chuvas, se vão depôr nas baixas da zona arenosa, constituindo assim os fundos impermeaveis de outras tantas lagoas, por vezes de muitos kilometros de extensão, que em grande numero se encontram principalmente para o sul do rio Incomati. A zona argillosa é a zona fertil, mas é tambem a zona pantanosa e insalubre por excellencia; o arvoredo é sempre forte e robusto, e as especies numerosas, dando por vezes madeiras de excellente qualidade, se bem que pouco aproveitaveis industrialmente.

Recortando todos estes terrenos, vêem-se rios importantes, taes como o Maputo, o Incomati e o Limpopo, que, trazendo as suas aguas do Transvaal, se apresentam caudalosos, dando navegação, senão facil, pelo menos possivel: o Incomati em quasi todo o seu curso no nosso territorio e o Limpopo até ao rio dos Elephantes, e talvez ainda mais acima. Se, porém, estes rios são faceis meios de transporte, são tambem elles, que, alargando-se sobre milhares de kilometros quadrados, por occasião das chuvas, deixam quando voltam aos seus leitos normaes, innumeros charcos e brejos, que contribuem para a insalubridade das regiões que atravessam.

Tendo assim resumido de um modo geral o que para o nosso ponto de vista especial mais importa conhecer das condições naturaes do districto, vejamos qual o systema de colonisação que se deverá adoptar em Lourenço Marques. Facilmente se comprehende que da escolha do processo a seguir depende o exito da colonisação, e que não poucos desastres têm tido como origem o querer-se implantar uma colonia em desharmonia com as condições dos territorios que têm de a receber.

Leroy Beaulieu classifica as colonias em tres typos principaes:

a) Colonias de população ou agricolas.—São aquellas em que, como na Australia e no Brazil, o europeu vai encontrar um clima pouco differente do que tem no seu paiz e póde constituir familia, formando nucleos de população, que, ajudados pela affluencia constante de novos colonos, terminam por povoar completamente a colonia. Se a metropole não póde fornecer o contingente necessario em cada anno, é natural que outros paizes d’isso se encarreguem, chegando n’esse caso a mudar por completo a feição da colonia, que se desnacionalisa; é o que succedeu com a Nova Amsterdam e a Nova Suecia, e poderá talvez dar-se um dia n’uma parte do Brazil.

b) Colonias commerciaes.—Chamam-se assim as que pela sua situação sobre grandes caminhos de commercio, dispondo de um porto de facil accesso, d’elles se utilisam para servirem como entrepostos ou emporios n’uma nova região e introduzir n’ella, principalmente, os productos da metropole. Estas colonias, taes como Hong-Kong, Singapura, etc., são necessariamente cosmopolitas e se não necessitam uma grande colonisação de homens, precisam em compensação de muita industria, muito tino e muita energia, e por consequencia de uma emigração escolhida, acompanhada de um grande affluxo de capitaes.

c) Finalmente, as colonias de exploração são as que, pela sua situação e clima especiaes, podem fornecer generos de largo consumo e preços remuneradores, que ali se produzam com facilidade e a cuja cultura em especial se destinem. Reclamam estas colonias muitos capitaes, e um regimen especial de trabalho, por isso que, não podendo ahi o branco trabalhar a terra, terá necessariamente de recorrer ao trabalho indigena ou de raças adaptaveis ao clima. Taes são, entre outras, as Antilhas, as Filippinas e entre nós a colonia tão largamente desenvolvida de S. Thomé, tão genuinamente portugueza apesar de serem relativamente poucos os colonos saídos da metropole.

O Distrito de Lourenço Marques

Dependendo o futuro de uma colonia do systema adoptado na sua colonisação, vejamos em qual d’estes typos se deve filiar Lourenço Marques.

Poderá ser uma colonia de população? Esta idéa, que tem tido larga corrente entre nós, a ponto de se querer fazer derivar para a provincia de Moçambique, e em especial para Lourenço Marques, uma parte da emigração que hoje se dirige ainda para o Brazil, deve, creio eu, ser completamente posta de parte. Centos de colonos têm desembarcado em Lourenço Marques, mais de mil nos ultimos annos, e quasi sem excepção, o seu destino invariavel tem sido o regressarem ao reino, mais doentes e pobres do que foram, com avultado dispendio do governo, ou a morte n’um periodo relativamente curto. Diz-se, e é certo, que a colonia não está preparada para os receber, mas não é menos certo que se lhes houvessem sido fornecidos terrenos para cultivar, alfaias agricolas, etc., o seu destino teria sido o mesmo.

Clima, Tuberculose e Paludismo

E senão vejamos. O clima de Lourenço Marques, se não é absolutamente mau, podendo-se facilmente ali viver com uma alimentação regular e uns certos cuidados que só um relativo cabedal e instrucção podem dar, não é tambem bom.

A temperatura média, quer de verão quer de inverno, não é exaggerada, mas as differenças de temperatura, muito rapidas por vezes e que chegam a attingir 18°c. no mesmo dia, são extremamente prejudiciaes, sobretudo nas doenças dos orgãos respiratorios.

Na cidade, depois da época das chuvas, de fevereiro a maio, as emanações trazidas pelos ventos reinantes, que durante o anno passam de Norte a Oeste rondando por Leste, são extremamente perniciosas, por isso que provêm dos muitos pantanos que rodeiam a povoação e ainda dos que orlam as margens da Catembe. A falta de esgotos, a accumulação de individuos de raças inferiores e o pantano do Infuléne, são ainda causas locaes, ás quaes se póde dar remedio, é certo, mas que ainda hoje existem, se bem que attenuadas.

Para aggravar este estado de coisas, as chuvas são por vezes torrenciaes, a ponto de em dez dias, como succedeu em 1895, se precipitar sobre o sólo uma camada de 40 centimetros de agua, o que concorre para a formação de novos charcos em pontos onde até então não tinham existido.

Se da cidade passamos ao interior do districto, as circumstancias, sobretudo nos terrenos mais ferteis, aggravam-se, e a quadra que se segue á época das chuvas é em geral perigosa, do que se faz facilmente idéa pela affluencia aos hospitaes.

Em 1893, uma estatistica da população de Lourenço Marques, certamente inferior á verdade, dava uma totalidade de 1:017 habitantes, europeus e asiaticos; a mortalidade no primeiro semestre d’esse anno foi de oitenta e oito individuos, entre europeus e asiaticos: da totalidade dos obitos 40 por cento proximamente foram devidos a febres de mau caracter e 8 por cento a tuberculose.

Dos soldados que fizeram parte da expedição de 1895, raros foram os que não soffreram das febres, e se os officiaes não foram tão castigados por ellas, decerto se deve esse facto a serem em geral mais velhos do que aquelles, comprovando-se assim mais uma vez a conveniencia de não seguirem para as colonias individuos de idade inferior a vinte e cinco annos.

Estes exemplos bastam para comprovar que, se em Lourenço Marques se póde viver em melhores condições talvez do que em muitos pontos insalubres da Europa, nem por isso deixam, quer a cidade, quer o districto, de constituir uma região pouco salubre, onde a vida deve ser rodeada de certos cuidados, que não podem conseguir colonos pobres, sem recursos, a quem as regras da hygiene são desconhecidas, e que algumas vezes já partem da metropole anemiados pela miseria ou pelo vicio.

Estes, com poucas excepções, nada têm feito em Lourenço Marques, emquanto que é frequente vêr individuos permanecer dez, quinze e mais annos na cidade, sem grave damno, porque souberam e puderam manter as necessarias cautelas; tanto mais que as condições hygienicas da cidade vão progressiva, se bem que lentamente, melhorando.

Para constituir uma colonia de população é necessario poder crear familia; ora em Lourenço Marques as creanças não medram, e só por excepção se poderão vêr ali filhos de colonos europeus, nascidos e creados no districto. Não os conheço e as poucas creanças que se encontram, essas vivem custosa e difficilmente; é por isso que não posso sem pezar, vêl-as partir para Lourenço Marques inconscientemente levadas pelas familias, sem que os paes imaginem qual o fim quasi inevitavel que as espera.

É a agricultura o principal recurso das colonias de população e isso mesmo se tem supposto em varios projectos de colonisação propostos para Lourenço Marques; é, porém, um facto averiguado que o branco, o europeu, não póde trabalhar ali a terra ou cultival-a elle proprio, sem grave risco de vida; bem o demonstrou a grande mortalidade que houve durante a construcção do caminho de ferro do Transvaal e ainda ultimamente alguns factos passados em 1895 vieram corroborar a opinião que já tinha a este respeito. Em Magude, n’um local secco, a 30 metros acima do rio e em terrenos de rocha e areia, foi necessario, por falta de cafres, que a guarnição do posto que ali se estabeleceu, removesse a areia para construir trincheiras, e este facto deu causa a uma excessiva mortalidade; em Xinavane, n’um terreno pantanoso, coberto pelas aguas na occasião das cheias, os soldados foram prohibidos de cavar, e não houve senão um obito e esse mesmo de uma praça vinda de Magude. Em Taninga, onde se fizeram importantes remoções de terras, as febres atacaram com tal força a guarnição, que foi necessario retiral-a. Não póde, pois, o branco trabalhar a terra e luctará com tanto maiores difficuldades, quanto mais se aproximar da zona baixa e argillosa do districto, onde justamente se encontram os terrenos mais ferteis e mais povoados pelos cafres.

Não se póde, pois, em Lourenço Marques, constituir familia, cultivar a terra, e difficilmente se resiste por muitos annos, sem vir refrescar á Europa, á influencia deleteria do clima. Como se poderá pensar, em taes condições, em fazer d’aquelle districto uma colonia de população?

E, com effeito, todas as tentativas n’esse sentido têm dado mau resultado.

Dizem uns que este facto é devido a serem os colonos lançados em Lourenço Marques, sem que o districto esteja preparado para os receber. Mas póde o governo dar-lhes os capitaes, a immunidade ao clima e as qualidades de que o colono careceria de ser dotado em Lourenço Marques? Decerto não.

Negócio dos Terrenos

Dizem outros que o mallogro se deve attribuir á carestia dos terrenos do Estado, que se manteve durante alguns annos. Mas de muitos mil hectares de terrenos concedidos a particulares, poucos ou nenhuns foram aproveitados, e quem d’elles tirou melhor proveito foram os que, sem maiores cuidados, pediram e obtiveram concessões, esperando em seguida que o progressivo augmento da cidade os valorisasse, para auferirem grossos lucros, como succedeu com a Polana, que, concedida por centos de mil reis a um inglez, foi vendida por centos de contos, e ainda com a Catembe, onde até á linha de costa, contra expressa determinação da lei, se fizeram concessões a individuos que com isso lucraram mais tarde muitos milhares de libras sem o menor trabalho. Tal foi durante muito tempo o resultado das concessões baratas, sem se cultivar um só dos milhares de hectares concedidos.

A meu vêr nenhuma d’estas razões colhe. Lourenço Marques não tem progredido como colonia de população, porque não está em condições de o poder ser.

A Baía e a África do Sul

Se passamos a considerar Lourenço Marques debaixo do ponto de vista commercial, as negras côres sob que acabamos de descrevel-o como colonia agricola, mudam por completo, para nos mostrarem aquella região como destinada a ser o emporio da Africa do Sul, a colonia commercial por excellencia, cuja importancia e valor se nos torna bem manifesta pelas multiplas cobiças que, felizmente para o nosso dominio, tem despertado.

E digo felizmente, porque a ellas se deve o conservarmos ainda nas nossas mãos aquelle esplendido porto, unico na costa oriental, em toda a extensão que vai desde o Cabo até Moçambique. A sua posse, porém, impõe-nos obrigações que o rapido progresso da civilisação do sul africano exige e ás quaes temos de satisfazer, sob pena de sermos em breve eliminados por não correspondermos á alta missão que nos incumbe.

Situada sobre o caminho commercial que conduz ao interior do Transvaal, na sua região mais rica, servida com facilidade pelas vias fluviaes de que dispõe o interior do districto e parte do territorio inglez do centro d’Africa, Lourenço Marques vai-se desenvolvendo de modo tal, que de um anno para o outro se transforma e amplia. As vantagens do porto impõem-se de tal fórma, que as mercadorias affluem em quantidade, todos os dias crescente, não obstante o pouco cuidado com que temos olhado para os seus melhoramentos materiaes, e tambem a guerra de toda a especie, que lhe tem sido movida pelos seus concorrentes naturaes.

Com effeito, as colonias sul africanas não podem vêr com bons olhos o desenvolvimento de Lourenço Marques e por isso vem de longe as difficuldades de toda a ordem que lhe têm levantado. Ha annos, jornaes, livros e publicações de toda a especie, declaravam ao mundo que a insalubridade da povoação era tal, que passar ali, equivalia a uma condemnação á morte; mas a população ia crescendo, em condições mais favoraveis do que em muitas colonias inglezas. Mais tarde quizeram inutilisar o nosso caminho de ferro, graças a uma completa liberdade de tarifas, que menos reflectidamente lhes tinhamos concedido; pudémos evitar esse mal, mas á custa da indemnisação que nos imporá o tribunal de Berna. Mais tarde ainda, procuraram fazer-nos passar por incapazes de manter a soberania portugueza no districto, levantando-nos toda a casta de difficuldades por intermedio dos regulos indigenas.

E muitos outros factos poderia citar, em que a má fé terminou sempre por se manifestar, de modo que hoje a supremacia de Lourenço Marques, como o primeiro porto da Africa oriental do sul está firmemente estabelecida.

A população de Lourenço Marques, que em 1864 era de 83 individuos, elevou-se em 1893 a 1:017 e hoje não é inferior a 4:000, homens e mulheres, europeus ou indianos.

O rendimento da alfandega, que em 1868 era de 3 contos de reis e em 1880 de 47 contos, foi em 1896 de 600 contos.

O numero de navios entrados no porto, que ha vinte annos era insignificante, foi durante 1892 de 228, em 1893 de 252, em 1894 de 265, em 1895 de 363 e em 1896 de 433, dos quaes 287 inglezes. No mez de janeiro ultimo ancoraram no porto 52 navios.

Pela sua parte o caminho de ferro attingiu o limite de trafego que o seu material comporta, e desde que o porto se encontre em boas condições, a affluencia de mercadorias obrigará decerto a dobrar a linha. Actualmente a média do movimento semanal é de 3 a 5 mil toneladas.

Mas nada dá idéa mais perfeita da avidez com que os estrangeiros procuram Lourenço Marques do que o extraordinario augmento de valor dos terrenos e das edificações, que tem decuplicado e por vezes centuplicado.

Apparecem ali representantes de syndicatos que compram tudo que lhes queiram vender quer sejam terrenos quer predios e ainda quarteirões inteiros, de preferencia na parte velha da cidade, havendo exemplos de se vender o metro quadrado de terreno por 10 libras, isto é, pelo dobro do preço maximo dos terrenos na Avenida da Liberdade, em Lisboa.

Todo este movimento e ainda as transacções que cada dia se fazem na colonia, representam muitos centos de milhares de libras sterlinas, mas o augmento da riqueza publica em muito pouco aproveita á metropole, que não só d’ali não tira proveitos directamente, o que aliás não era de esperar, mas ainda mesmo poucos aufere do commercio e da industria que os seus nacionaes ali exercem. Pelo contrario, não creio exaggerado suppôr que nos ultimos vinte annos, Portugal tem mandado para ali mais de 10:000 contos de reis.

Para conseguir tirar de Lourenço Marques todas as vantagens que nos é licito esperar, muito resta ainda fazer, não só ao governo mas principalmente á iniciativa particular.

Ao governo compete, é certo, tratar dos melhoramentos do porto, para os quaes se succedem uns aos outros os projectos e os estudos, adoptar providencias para melhorar a hygiene da cidade, escolher funccionarios idoneos para a administração do districto, mais importante decerto do que a da provincia inteira, e conserval-os não os substituindo de seis em seis mezes; e, finalmente, preferir sempre os nacionaes para quaesquer concessões que haja de fazer.

Este ultimo ponto, porém, já implica muito com a iniciativa particular, pois o governo tem, naturalmente, para melhorar as condições da cidade e seu porto, de entregar a execução dos melhoramentos necessarios a emprezas que d’elles se encarreguem mediante certas concessões.

Seria, pois, indispensavel que os capitaes portuguezes se não retrahissem tanto e confiassem mais nos lucros extraordinarios, por vezes fabulosos, que podem auferir em Lourenço Marques.

Infelizmente, porém, a iniciativa e os capitaes portuguezes pouco affluem á colonia, e se se encontram algumas poucas firmas portuguezas, como Cardoso, Fornazini, Baptista Carvalho, Nogueira Pinto, etc., que ali luctam pela vida, mantendo o commercio portuguez e a sua feição especial, em compensação abundam os estrangeiros, Mac Intosh, Gubler, Auerbach, Donaldson, Hoffman, Idulgy, e tantas outras, que principalmente açambarcam o commercio, possuem as melhores propriedades e dominam na praça.

Não vemos frequentemente homens energicos, de iniciativa, representando ou possuindo capitaes, partir para Lourenço Marques, a tentar novas industrias e fundar novos centros de nacionalisação, com o que muito ganham os estrangeiros, de modo que dos milhares de libras que representam o commercio da cidade, só uma pequena parte aproveita á metropole; o resto ou é absorvido pelo commercio estrangeiro europeu ou vai para a India.

Os Indianos

O commercio indiano tem um feitio especial; em lojas, quasi sempre de mesquinha apparencia, vêem-se alguns individuos, embrulhados em algodão branco, fallando a lingua cafreal, o portuguez e o inglez, vendendo em geral de tudo, desde a lata de conserva até aos productos cafreaes. D’estas lojas saem agentes do mesmo jaez que, espalhando-se pelo interior, vivendo como os indigenas cujas manias lisongeiam, e protegidos pelos regulos a quem fazem presentes, monopolisam por completo o commercio do interior. D’esta fórma as lojas dos indios e mouros são os centros d’onde irradiam centos de braços, que vão recolher no interior os milhares de libras que os cafres trazem annualmente do Transvaal e Natal, libras que são immediatamente mandadas para fóra do districto.

Estes homens, sustentando-se de arroz e pouco mais, vestindo-se com uma tira de algodão, tudo oriundo da India, nada consomem da metropole e fazem uma concorrencia ao europeu, que precisa vestir-se, alimentar-se e cuidar de si. Recolhido o seu peculio, voltam para a India, onde o vão gozar depois de purificados, purificação essa que os lava do contacto com infieis e tambem de todas as traficancias que tenham podido commetter.

Muitos d’estes indios são inglezes, o que mais aggrava a situação, pois que se encontram sempre apoiados pelo seu governo, para pretendidas indemnisações a que se podem julgar com direito por perdas soffridas no interior. E não se imagine que, ainda quando portuguezes, auxiliem o nosso dominio; quando durante a guerra de 1895, as tropas chegavam aos locaes onde os indios estavam estabelecidos, estes fugiam… com os cafres: um indio na Manhissa aconselhava os pretos a não receberem a prata portugueza, «que não era boa», e com effeito vendia carissimo quando elles lhe pagavam n’essa moeda.

É certo que algumas vezes prestaram, por interesse proprio, serviços ao governo, mas esse facto deu-se principalmente quando em Lourenço Marques quasi não havia colonos portuguezes. Hoje são um obstaculo, porque é difficil fazer-lhes concorrencia, e bom era que um imposto pesado os collocasse em circumstancias analogas aos europeus, pois que d’outro modo o commercio do interior continuará nas mãos d’elles e o ouro que vem do Transvaal continuará a seguir para a India.

A Moeda

Demais, a moeda portugueza usada em Lourenço Marques favorece a emigração do ouro: consiste ella em moeda de prata e notas da fazenda ou do Banco Ultramarino, com que se fazem os pagamentos ao governo, emquanto que a moeda ordinariamente usada nas transacções commerciaes é a libra sterlina. Ora, quando um paiz tem duas moedas, uma boa, o ouro, e outra má, a boa emigra e a outra fica.

Creio seria facil acabar com este inconveniente, determinando-se que todos os pagamentos fossem feitos em ouro, como o fez a Companhia de Moçambique, com bom resultado nos seus territorios, admittindo-se a prata só como moeda subsidiaria. Não haveria embaraços, como os não houve na Beira, e tambem não se alterava, para com o resto da provincia, o actual estado de coisas, por isso que a rupia que n’ella corre não é aceita em Lourenço Marques e até o Banco Ultramarino tem dois typos de notas, um para Lourenço Marques e outro para os demais districtos.

Por este meio havia tambem a vantagem de evitar as fraudes; como se poderá impedir que um individuo, que receba em ouro as receitas da fazenda, computando a libra em 4$500 reis, as entregue mais tarde em prata? Será isto uma falta? Moralmente sim, mas legalmente creio que não, ainda que a falta se podesse provar.

O typo de moeda ouro favoreceria certamente o commercio nacional e faria entrar em Portugal muitos milhares de libras; as receitas do districto são hoje superiores a 1:000 contos de reis e, recebidas que fossem em ouro, seria n’esta moeda que o governo pagaria aos seus funccionarios, principaes consumidores dos productos da metropole e tambem aos seus fornecedores, que devem ser, tanto quanto possivel, nacionaes.

A transferencia de capitaes para a metropole seria tambem facilitada: ha já hoje bancos estrangeiros em Lourenço Marques que a podem fazer em boas condições, pois que o Banco Ultramarino não tem prestado á provincia de Moçambique e sobretudo ao districto os serviços que d’elle era licito esperar; em 1892, chegou este banco a levar pela transferencia de dinheiro da metropole e pagando lá em notas suas, a insignificante percentagem de 30%.

Mas tudo o que se possa fazer em favor de Lourenço Marques de pouco valerá, se a iniciativa particular, o nosso commercio, a nossa industria e os nossos capitaes não forcejarem por tirar aos estrangeiros o predominio que até hoje têm tido na colonia, e por desapossal-os do monopolio do commercio, que tem como consequencia necessaria a drenagem do ouro sem que a metropole pouco ou nada aproveite da riqueza da sua colonia, de dia para dia crescente.

Não lhe enviemos, pois, colonos pobres que lá vão morrer, mas consagremos-lhe energias sãs, vontades firmes e capitaes abundantes. Raras vezes uma colonia póde dar um rendimento liquido á mãe patria; mas o que lhe dá e deve dar é um mercado para o consumo dos seus generos, e um lucrativo campo de emprego para os seus capitaes, de modo a compensar as despezas que por ella são feitas. E isto não se consegue só com medidas administrativas, mas sim com a boa vontade e a intelligencia commerciaes, que, luctando com a concorrencia estrangeira, evitem que só a esta venham a caber os fructos de tantos sacrificios, que não poucos, de homens e dinheiro, temos feito em Lourenço Marques.

Precisamos hoje, na colonia, de agentes commerciaes, representantes das nossas mais acreditadas casas da metropole, que, reunindo-se em sociedade, facilmente os poderiam para ali mandar; de empregados subalternos, que, aprendendo a lingua do paiz, vão ao interior recolher os centos de mil libras, que para ali levam os indigenas.

Os Magaíças

No Transvaal, só em Johannesburg, trabalham hoje mais de 45:000 cafres, um verdadeiro exercito, que as exigencias da exploração do ouro, sempre crescentes, dentro em poucos annos terão quadruplicado. De entre esses cafres, uma grande parte provém da nossa colonia, e por isso o impedir a emigração equivaleria a causar uma revolução economica no Rand; ora os cafres vão trabalhar para conseguir dinheiro para a compra de mulheres, armas e emfim dos objectos de que imaginam carecer, e voltam ás suas terras com sommas por vezes avultadas.

Não creio exaggerar, calculando em 15:000 cafres os que emigram em cada anno, e, suppondo que voltem com 20 libras cada um, corresponderia isso a uma entrada annual de 300:000 libras, que deveria ser aproveitada exclusivamente pelo commercio da metropole. Os algarismos citados estão decerto abaixo da verdade e mostram á evidencia a vantagem de não crear embaraços á emigração, tanto mais que não ha em Lourenço Marques industrias nossas que careçam de braços.

O Silva Maneta

Para aproveitar do commercio do interior não nos seria difficil encontrar portuguezes, habituados ao sertão, que podessem competir com os indios: alguns temos já hoje, que têm conquistado o respeito dos cafres e entre elles um conheci, cujo nome bem merece do paiz, um antigo soldado do corpo policial de Lourenço Marques, o Silva Maneta, cuja dedicação pela patria e coragem excepcional, que o levava a arrojar-se loucamente aos mais arriscados lances, tantos serviços prestou durante a campanha de 1895; e que me seja licito aqui, prestar a esse portuguez de lei, o tributo da minha admiração pelas brilhantes qualidades, que nunca se buscam debalde nos mais obscuros filhos da nossa pobre, mas gloriosa patria.

Voltando, porém, ao assumpto, de que me fez desviar a recordação de um verdadeiro heroe, n’esta cidade onde os feitos heroicos brilham em cada pagina da sua historia, direi ainda que mesmo entre os cafres educados na nossa escóla, poderiamos encontrar auxiliares, por isso que o cafre quando se chega a convencer de que é portuguez e branco, é mais cioso ainda do que este, das suas prerogativas, e até respeitado pelos outros pretos como se branco realmente fôra. E não ha decerto espectaculo mais comico do que vêr um grupo de negros tratar de «senhor» e de «branco» um outro cafre tão negro como elles, só porque traja e falla como os europeus.

Pelo que respeita ao commercio com o Transvaal, facilita-o a proximidade em que d’elle estamos, a sympathia que lhe merecemos, que maior seria se mais trabalhassemos, e ainda os tratados que a elle nos ligam.

O Comércio

Mas como condição essencial, necessario se torna que as nossas marcas sejam sempre as mesmas e que não succeda que, desde que um producto se acredita á custa de muito trabalho, os menos escrupulosos façam perder uma vantagem, que difficilmente se poderá recuperar. Não insisto, apesar de poder apresentar muitos exemplos, n’este facto, cuja importancia todos podem avaliar.

Muitos e variados são os productos com cujo commercio lucrariamos, quer no districto, quer no Transvaal, e de entre esses apenas me referirei aos que julgo de maior importancia.

Na cidade, temos o consumo proprio, que é o de uma cidade rica, e que deve ser exclusivamente fornecido pela metropole, ainda que á sombra de bem entendidos direitos de entrada, não tão exaggerados, que sejam apenas um incentivo ao contrabando.

No interior do districto, facil seria abrir mercado para os nossos vinhos brancos, convenientemente addicionados de aguardente, que vão sendo preferidos ao alcool, não só porque realmente os cafres os apreciam mais, mas ainda porque julgam que se aproximam do branco, bebendo-os; os missionarios suissos, no districto, têm conseguido que grande numero de cafres deixem de embriagar-se com a aguardente, aconselhando-os a beber só vinho, que elles consomem conscienciosamente. Tambem apreciam muito o vermouth, ou uma mistura que em garrafas lhes é vendida como tal. Aproveitando estas tendencias, certamente abririamos um mercado bastante largo para os nossos vinhos, e praticariamos ao mesmo tempo uma obra meritoria prohibindo a importação do alcool industrial em Lourenço Marques e a sua venda aos indigenas.

Mas muitos outros generos se poderiam consumir no interior, além dos vinhos.

A polvora e as armas brancas, facas, machados, zagaias, etc., dariam lucros bastante remuneradores, sendo fabricados segundo os typos preferidos.

Os tecidos, quer de algodão, quer de lã, pannos e cobertores, podem ser enviados da metropole e vendidos com lucro, não só porque obtêm preços altos, mas ainda porque muito os poderia proteger a differença de cambio e um bem entendido direito protector, não difficil de fiscalisar. Os typos de algodões e cobertores preferidos deviam ser mandados pelos governos do districto aos centros industriaes do paiz, afim de serem reproduzidos. Os algodões azues ou de fundo azul com desenhos brancos são muito apreciados; em 1893 trouxe varios typos de cobertores, que foram reproduzidos n’uma fabrica de Lisboa empregando-se lã de inferior qualidade, e sendo o seu preço de custo de 600 a 900 reis: taes cobertores tinham então em Lourenço Marques um preço de 4 a 6 shillings, o que dava margem para um commercio lucrativo.

Vendem os indianos aos cafres milhares de camisolas de malha, de fatos completos, capotes, chapéos, fardamentos velhos, tudo de fabrico inglez ou allemão; e tudo poderia ser enviado de Portugal, dando margem a lucros importantes.

Para o Transvaal, o nosso principal ramo de exportação não poderá deixar de ser o vinho; a este e como annexo, poder-se-iam juntar as conservas, sobretudo de peixe, quando bem fabricadas e conservando as marcas.

Apesar de ser um assumpto de que pouco conheço, não creio que para nos abrir o mercado do Transvaal baste a iniciativa do governo, que, quando muito, poderá apenas fornecer, por meio dos agentes consulares, as indicações geraes dos mercados aos viticultores nacionaes e os dados estatisticos sobre que se possam basear.

A meu vêr, os commissarios e exposições poucos resultados podem dar e a experiencia bem o tem mostrado. Vão effectivamente os vinhos, faz-se uma propaganda official, os individuos que os bebem acham-nos geralmente bons e… mandam comprar os vinhos que estão habituados a beber. Não julgo facil, n’um paiz como o Transvaal, habitado por uma população ingleza em parte, introduzir de repente typos de vinhos differentes dos vinhos do Cabo, que são os que mais frequentemente se encontram por toda a parte.

O meio a seguir, parece-me, deveria ser procurar, por meio dos nossos variadissimos typos, imitar, pelo menos nos primeiros tempos, os vinhos de maior consumo no Transvaal, preparando-os. Um commissario, enviado de Bordeus para estudar o alargamento do mercado de vinhos na republica sul africana, foi d’esta opinião, no relatorio que apresentou no seu regresso a França, e isto tratando-se dos vinhos de Bordeus que tão largo nome têm. Este modo de proceder tem já sido empregado para a fabricação de certas marcas especiaes de Champagne barato, de largo consumo no sul da Africa; não foram os francezes procurar convencer os sul africanos de que o Champagne, que é preferido n’aquella região, não é bom e verdadeiro Champagne, mas fabricam-lh’o segundo o seu gosto.

Além do Champagne, o Xerez, o Vermouth e muitos outros vinhos são largamente consumidos no Transvaal, e muitos d’estes não vêm de França, Hespanha ou Italia, mas dos paizes onde com igual facilidade se fabrica o Porto ou Madeira que nunca sahiram de Portugal.

Fazer despezas importantes para que os nossos typos de vinhos sejam preferidos, é, creio, empreza pouco realisavel e muito dispendiosa, mas sobretudo inutil, porque se o chegassemos a conseguir, logo os nossos vinhos seriam imitados por quem tivesse interesse em o fazer.

Assim, procurar conseguir vinhos semelhantes aos do consumo no paiz, dar-lhes boa apparencia e envasilhal-o de um modo agradavel á vista, parece-me ser o meio de alargar o consumo dos nossos productos entre a população sul africana; agentes commerciaes, trabalhando por interesse proprio, collocal-os-iam com facilidade.

Claro está que isto só diria respeito aos vinhos de pasto; os nossos vinhos generosos têm uma reputação universal e não conviria mudar-lhe os typos, bastando apenas que os agentes consulares perseguissem os contrafactores, que os ha e não poucos, até em Africa.

Além dos vinhos, as conservas poderão ter tambem consumo facil desde que vão melhor e mais artisticamente acondicionadas. É frequente em Africa, receber conservas de fructas portuguezas perfeitamente em papas, contrastando com o bello aspecto das fructas da California.

Ainda outros generos poderiam ser introduzidos quer na nossa colonia quer na Africa do sul, de que o nosso commercio poderia tirar largos lucros.

Mas, além do commercio, os capitaes portuguezes teriam tambem muitos meios de se empregar com vantagem, aproveitando os interesses que os capitaes estrangeiros vão auferir em Lourenço Marques.

A industria da pesca, que tantos resultados tem dado em Angola, e melhores daria se fosse bem dirigida, facilmente se poderia crear na bahia, abundante, bem como a costa do districto, em peixes de variadas especies. A sua exploração, combinada com a da fabricação do gelo, teria no Transvaal um largo campo de consumo, e se não se tem installado regularmente até hoje, é porque todos se têm preoccupado em obter o monopolio da pesca, que o governo não póde nem deve dar.

O Aterro do Pântano e o Cais

O saneamento do pantano, attribuindo a terrenos agora inutilisaveis uma grande facilidade de applicação, daria tambem lucros fabulosos, attendendo ao elevadissimo preço por que se estão hoje vendendo.

O aterro e aproveitamento de uma área comprehendida entre a costa e um muro-caes a estabelecer entre a ponte da alfandega e a Ponta Vermelha, daria perto de 20 hectares de terrenos, pouco insalubres, de um valor incalculavel, e de uma grande vantagem para o alargamento do porto e edificios do Estado, taes como a alfandega, capitania, etc. Esta concessão já foi pedida por estrangeiros e seria decerto um perigo se cahisse nas suas mãos, pois que, pelas concessões feitas, o governo não possue hoje na bahia uma extensão apreciavel de costa, a não ser aquella.

A construcção de uma ponte-caes para mercadorias em transito no rio do Espirito Santo, obra indicada por um dos homens de mais larga intelligencia, vastos conhecimentos e seguro golpe de vista, que nos ultimos tempos tem dirigido os destinos de Moçambique, o snr. conselheiro Antonio Ennes, daria além de grandes juros ao capital para ella necessario (300 contos aproximadamente) uma grande facilidade ao movimento do porto, por isso que ella seria acostavel em qualquer estado do tempo.

As construcções urbanas têm dado nos ultimos annos rendimentos avultados, não inferiores a 30 por cento. Ha pouco, era vulgar uma casa de custo não superior a 300 libras, ser alugada por 7 libras mensaes; e comquanto hoje este estado de coisas tenha mudado um tanto, é certo que os capitaes empregados em edificações rendem pelo menos 15 por cento.

E citarei apenas de passagem, para não alongar demasiadamente a exposição, as industrias ceramicas, a fabricação da cal e cimento, hoje produzidos já no Natal e que facilmente se installariam na Inhaca, as de docas de reparação, a de fabricação e reparação de lanchas e escaleres, etc., etc.

Creio que hoje não restará duvida que Lourenço Marques é e será uma colonia commercial e que o seu progresso e permanencia no dominio portuguez depende principalmente do commercio e industria nacionaes, aos quaes devemos subordinar tudo o mais. Quando os capitaes empregados em Lourenço Marques forem só inglezes, inglezas as casas commerciaes, ingleza toda a área em que assenta a cidade, o que equivale a dizer estrangeiro tudo, com que direito, com que razão nos poderemos ali conservar, verdadeiros parasitas, aproveitando sómente o trabalho alheio? Os direitos historicos, bem o sabemos, não bastam em Africa, e o nosso proprio decoro não nos permittiria que nos mostrassemos degenerados descendentes dos antigos moradores portuguezes.

Tipologia do Colono Ideal

Precisam, pois, affluir a Lourenço Marques, como já disse, não colonos pobres e anemicos ou velhos e creanças, como tem já succedido, para apenas concorrerem para o alargamento do cemiterio; mas sim individuos sãos de corpo e de espirito, representando o commercio e a industria da metropole, activos e emprehendedores, acompanhados por capitaes nacionaes, que vão recolher os largos juros que hoje são premio de capitaes estrangeiros.

O desenvolvimento do commercio e da industria trarão como consequencia a emigração especial de que estes precisam, por isso que carecem de edificações, obras de toda a especie, lanchas, vapores, carros, etc., que representam outras tantas necessidades, cuja satisfação póde dar vasto emprego a um grande numero de homens, engenheiros, operarios, marinheiros, pescadores, etc., que deverão ser tão bons como os melhores da metropole, d’onde deverão ir, para resistirem á influencia do meio. Já hoje um bom operario ganha em Lourenço Marques um salario avultado, não sendo raros os que no fim de certo periodo alcançam uma pequena fortuna; em compensação os maus operarios difficilmente alcançam meios de subsistencia.

Mas, se tudo isto é a consequencia necessaria do desenvolvimento da colonia, mais necessario se torna que ella se não desnacionalise, e que a lingua portugueza seja a que predomine, porque de outro modo os estrangeiros preferirão sempre os operarios seus compatriotas. E a desnacionalisação, só o augmento de relações commerciaes com a metropole e o affluxo de capitaes portuguezes poderão evital-a.

Ligações com a Metrópole

A uma outra necessidade tambem a industria particular deveria attender, ajudada pela protecção do governo; mal se comprehende que uma colonia commercial por excellencia, como é Lourenço Marques, possa estreitar as suas relações com a metropole, sem que haja navegação sob a bandeira nacional. Uma tentativa se fez, a da Mala Real, mas essa tristes resultados deu, não porque a empreza não tivesse em si largos elementos de exito, mas pela menos conveniente administração que teve, aggravada por exigencias por vezes injustas das auctoridades em Africa, que faziam demorar os vapores a seu talante, auctorisando-se para isso da irregularidade das carreiras.

Dos vapores da Mala não se sabia nunca, nem o dia da partida, nem o da chegada, e passageiros houve que levaram quasi tres mezes de Lisboa a Lourenço Marques, isto não obstante os vapores serem de primeira ordem e commandados por officiaes competentissimos.

Assim, resumindo, o futuro de Lourenço Marques está, a meu vêr, dependente da nossa iniciativa commercial e industrial. O seu desenvolvimento abre um largo campo de acção ás classes liberaes e ao operariado escolhido da metropole, que encontrarão n’um paiz de lingua, costumes e leis analogas ás da metropole, vantagens não inferiores ás que apontei para o commercio metropolitano.

Como Colónia de Exploração

Resta-me ainda dizer algumas palavras de Lourenço Marques como colonia de exploração, e debaixo d’este ponto de vista creio que, se o districto tem elementos de riqueza e futuro desenvolvimento, estão elles longe dos que se notam em Inhambane, Quilimane e outros districtos do norte da provincia. Entretanto, pela sua situação fóra dos tropicos e pela sua posição geographica, algumas probabilidades tem de aproveitamento, que conviria utilisar, imprimindo á colonisação do districto, além do caracter commercial predominante, uma feição de colonia de exploração, secundaria, ajudando-se as duas mutuamente.

A colonia de exploração propriamente dita deve poder produzir generos de venda remuneradora, taes como o café, o cacau, a canna, a quina, etc., que compensem as despezas e sacrificios da cultura e ao mesmo tempo dispôr de mão d’obra abundante e facil, que substitua a do europeu, que unicamente deve dirigir os trabalhos.

Lourenço Marques, pelo menos na região visinha da costa, onde os transportes são relativamente faceis, poderá talvez produzir os generos a que me referi, e entre outros a canna saccharina e a borracha já ali se desenvolvem. Produzirá igualmente os outros generos, com economia? Não sei, visto não haver experiencias que nol-o indiquem.

E merecerá a pena tentá-las, quando a pequena distancia para o norte da provincia temos regiões onde as condições do clima são excepcionaes, bem como a fertilidade do sólo, para o estabelecimento de colonias de exploração, como em toda a região do Zambeze? Não creio. Seria ir experimentar o duvidoso, desprezando o certo.

Custo da Mão de Obra

Demais, em Lourenço Marques a mão d’obra é cara. O preto ganha ali, trabalhando muito menos do que o europeu o faz na Europa, 2 a 3 shillings diarios ou seja de 600 a 900 reis, e não é facil encontral-os por preço menor, visto que é este o salario que podem ganhar em qualquer centro aurifero do Transvaal. Em tempos, o governo do districto, cedendo ás queixas geraes dos habitantes, quiz regulamentar os salarios dos cafres, esquecendo o principio geral da offerta e da procura, sendo o resultado perfeitamente nullo, por isso que, quando precisavam cafres, eram os que mais tinham reclamado, que iam offerecer maior salario aos do visinho.

O regulamento do preço dos salarios é praticamente inapplicavel em Lourenço Marques, pois para o conseguir seria necessario prohibir a emigração para o Transvaal e para o Natal, e esta medida, além de anti-economica e antipolitica, seria de difficil execução.

Pelo contrario, na Zambezia, não succede o mesmo. O preto ali, submette-se ao senhor do praso em que habita, trabalhando por um preço baixo, de 3$000 a 4$500 reis por mez, por isso que mal acredita que não está já sujeito ao regimen da escravatura, unico possivel para fazer trabalhar o negro, quando convenientemente fiscalisado. Os inglezes tanto assim o comprehenderam que, feitos grandes esforços, sob vãos pretextos de philantropia e generosidade, para acabar com a escravatura barbara dos antigos tempos, a reorganisaram com meios mais suaves, mas não menos firmes, em seu exclusivo proveito. E têm razão, pois que a liberdade que nós damos ao preto resume-se em lhe darmos só direitos, dos quaes o que lhes é mais precioso é o de não trabalharem, sem lhe impôrmos deveres.

Assim, temos na provincia de Moçambique pontos onde podemos ir implantar, sem receio de mau exito, as verdadeiras colonias de exloração, ricas, de largo futuro, não inferior ao da nossa colonia de S. Thomé, sem recorrermos para isso a Lourenço Marques.

É, porém, certo que este districto dispõe de recursos especiaes: é cortado de rios navegaveis, que tornam os transportes muito faceis: dispõe nos valles dos rios de fertilissimos terrenos, onde se poderiam installar culturas remuneradoras; pela sua posição fóra dos tropicos e proximidade da visinha colonia do Natal e da Republica sul africana, as experiencias n’aquelles paizes realisadas, poderiam decerto aproveitar-lhe; e finalmente ainda, é menos insalubre do que os outros districtos da provincia, á excepção talvez de alguns pontos de Inhambane e das terras altas do interior. Algumas localidades até, infelizmente pouco extensas, são relativamente salubres, dando-se o caso curioso de que não se podem sempre reconhecer á primeira vista as suas condições hygienicas. É assim que Incanine, no baixo Incomati, rodeado por toda a parte de pantanos e lodaçaes, se reconheceu ser o local mais salubre de todos os occupados em 1895 pelas nossas tropas; era por assim dizer um verdadeiro sanatorio.

Por isso, industrias agricolas ha que se devem installar em Lourenço Marques; serão naturalmente aquellas que exijam pouca mão d’obra, ou em que o trabalho possa ser feito por machinas e ainda as que possam tirar valor dos seus faceis meios de transporte, os rios.

Gado, Trigo e Milho

Taes são a creação de gados, quer vaccum, quer lanigero, e a cultura de cereaes, que poderia fornecer largamente a metropole. Que importa, com effeito, que a Huilla, que a região de Milange e tantas outras possam fornecer o milho e o trigo, se estes, por falta de transporte barato, não puderem sahir do paiz de producção?

A cultura do milho, sem duvida se póde realisar em Lourenço Marques; cultivam-n’o os pretos em todos os pontos onde ha agua, e não são poucos, e com magnifico resultado, pois se vêem as plantas attingir 3, 4 e mais metros de altura, com uma producção proporcional ao porte. Em todo o valle do baixo Incomati, do Limpopo e do Maputo, se vêem vastas planicies, onde ás areias se misturam as alluviões do rio, formando um sólo extremamente fertil.

O trigo deveria tambem dar-se, por isso que se produz em condições analogas no Natal; das experiencias feitas no districto, pouco se póde concluir, pois que ainda não foram regularmente seguidas para fornecer dados seguros; todas, porém, têm dado resultado e só de uma, feita nas visinhanças da cidade, soube que os resultados foram pouco animadores, mas é provavel que, se o trigo se manteve rachitico e sem desenvolvimento, foi porque as experiencias foram mal dirigidas, não se escolhendo a época favoravel á sementeira, nem o typo de semente mais apropriado. Na Beira, onde o dr. Arriaga, um dos benemeritos da colonisação africana da costa oriental, fez experiencias da cultura do trigo em larga escala, os resultados foram magnificos, obtendo em média 50 sementes; ora o que succedeu no valle do Busi, n’uma alta latitude, mais naturalmente succederá no do Incomati.

Nos postos do Incomati, no Marracuene, Manhissa, Magudi e no Maputo, foram estabelecidos, em 1895, com o atilado criterio de quem então dirigia os negocios da provincia, pequenas quintas regionaes, com o fim de se proceder ás necessarias experiencias de agricultura, e, apesar dos poucos meios de que a provincia podia dispor, muito ha a esperar do resultado d’estes trabalhos, que oxalá sejam dados a publico.

Quer o milho, quer o trigo, muito vantajosamente seriam importados pela metropole, pois decerto os transportes seriam baratos, em fretes de retorno. O milho, além do consumo no interior do districto, pois que, comquanto pareça incrivel, o districto de Lourenço Marques importa por vezes milhares de saccas de milho e arroz, poderia ser utilisado para fabricação do alcool exportavel para o Transvaal, producto de que já ha montadas fabricas importantes, quer na cidade, quer em Ressano Garcia.

Além d’estas culturas principaes e ainda do arroz, muitas outras se poderiam crear, não só para consumo local, mas talvez tambem para exportação. As arvores de fructo europeias desenvolvem-se bem no districto, conforme se verificou nas plantações de Anguane. As laranjeiras e limoeiros não têm difficuldade em medrar, pois que os ultimos são selvagens, encontrando-se ao longo das margens do Incomati milhares de limoeiros, carregados de esplendidos limões, que se reproduzem sem cultura, para gaudio dos cafres e dos macacos.

Nas vertentes dos Libombos, do rio dos Elephantes, até á fronteira sul do districto, em grande parte dos valles do Incomati, do Umbeluzi e do Limpopo, a creação de gado vaccum far-se-ia sem difficuldade, pois em qualquer d’estes pontos se vêem rebanhos de gado de centenares de cabeças, pertencentes aos cafres. O gado muar e os burros dar-se-iam tambem perfeitamente, podendo prestar grandes serviços n’aquelle paiz em que os cavallos morrem tão facilmente: duas muares vi no Incomati, que, tendo fugido aos donos, se tinham tornado selvagens, vivendo em liberdade e eram magnificos exemplares; infelizmente foram mortas a tiro, por quem decerto tinha pouco bom senso.

O gado lanigero, pelo menos raças semelhantes ás do Transvaal e do Cabo, encontraria tambem magnificas condições de desenvolvimento n’uma extensa zona nas vertentes dos Libombos, onde já se encontra, na posse dos cafres, se bem que em pequeno numero e de raça inferior. A exportação das lãs constitue hoje um dos principaes elementos de riqueza do Cabo da Boa-Esperança e do Transvaal, e podel-o-ia ser tambem de Lourenço Marques.

Avestruzes em Goba

Na zona que da base da vertente dos Libombos vem até á zona argillosa e humida, encontram-se, quando a população escasseia, avestruzes selvagens, indicando-nos o proveito que pela sua creação poderiamos tirar da região arenosa do districto, de um modo analogo áquelle por que no Cabo da Boa-Esperança se conseguiu tirar d’aquelles animaes um rendimento importante, de centos de mil libras annuaes.

A cultura do arroz e do algodão, o primeiro já hoje cultivado em pequena escala pelos negros, e o segundo, de que já se fizeram ensaios coroados de bom resultado, poderiam tambem concorrer para a prosperidade da colonia.

De tantos elementos de riqueza, e ainda outros que seria longo enumerar, pouco se aproveita hoje, apesar de muitos esforços por vezes empregados pelo governo. Já em 1780 foi necessario que o governador Pereira do Lago, obrigasse os moradores á cultura do algodão, e em 1760 o governador Pedro de Saldanha de Albuquerque forçou os habitantes de Lourenço Marques a entregarem-se á agricultura, «para ao menos evitarem que até o pão e a mandioca lhes viessem de fóra». Que diria elle hoje, em que vem de fóra não só o pão para os brancos, mas ainda o arroz e o milho para os cafres!

Das riquezas mineiras de Lourenço Marques pouco posso dizer. Ha talvez ouro, e minerios preciosos, nos filões dos Libombos e ao norte do districto, na camada de conglomerados, mas das pesquizas até hoje feitas nada se tem conseguido; verdade é que têm sido poucas e mal dirigidas; entretanto alguma vantagem haveria em que se fizessem methodicamente.

Se Lourenço Marques não está em condições de poder, como colonia de exploração propriamente dita, vir a attingir o elevado grau de prosperidade de S. Thomé, Cabo, Java, etc., nem por isso é tão desprotegido pela natureza, como vêmos, que não possa, amparado pela sua colonia commercial, desenvolver-se e medrar, concorrendo em curto periodo para libertar a metropole dos pesados encargos do seu deficit de producção cerealifera.

Mas se Lourenço Marques só póde ser principalmente uma colonia commercial, devendo-se a esta sua feição subordinar tudo o mais, nem por isso faltam, nos nossos vastos dominios coloniaes, regiões onde se installem colonias de outro genero.

O Resto de Moçambique

Na região alta do interior de Moçambique podem encontrar-se vastos terrenos salubres, com clima pouco differente do nosso e onde a população póde desenvolver-se sem obstaculos insuperaveis. Taes são Manica, Milange, a região do Nyassa, etc., e para ahi nos installarmos basta que o nosso povo ahi queira repetir os trabalhos que os nossos antepassados executaram na America; o governo só póde fazer os trabalhos de preparação, ou installar colonias penaes. As colonias militares, pelo seu caracter, não julgo que possam dar bom resultado.

Para colonias de exploração temos quasi toda a vasta área da provincia de Moçambique, que se abre á nossa actividade, apresentando-nos uma variedade de recursos que difficilmente se encontrarão n’outros pontos. Se estamos, ou por outra, se o nosso descuido levou outros, mais activos e trabalhadores, a nos deixarem reduzidos a uma tira de terreno ao longo da costa, essa mesma situação nos dá a posse dos melhores portos, testas obrigadas dos caminhos para o interior, que se podem encontrar desde o Cabo da Boa-Esperança até ao Guardafui.

Inhambane, n’uma zona de mais de 100 kilometros de largura e que corre parallelamente á costa, tem uma população numerosa e trabalhadora, terrenos fertilissimos, e a borracha e o café desenvolvem-se ali espontaneamente, sendo este de magnifica qualidade. Antigas plantações junto da villa, mostram ainda hoje a pujança dos cajueiros, coqueiros, mangueiras e outras muitas especies vegetaes. O café, que cresce quasi na costa, não tem animado ainda até hoje os nossos colonos a iniciarem plantações, limitando-se a ensaccar o que do interior é trazido pelos cafres; ha annos, porém, ensaiou-se ali uma larga plantação de chá, que morreu com o fallecimento do proprietario, tendo entretanto apresentado bons indicios. No interior do districto a caça, bufalos, zebras, antilopes e até elephantes, são abundantissimos.

Se de Inhambane passamos ao Zambeze, encontramos uma bella via fluvial, em cujas margens, e em tempos remotos, os nossos maiores estabeleceram grande numero de feitorias, povoações e centros agricolas, de que ainda restam vestigios.

Modernamente alguns homens de iniciativa têm, em pouco tempo, realisado fortunas avultadas e fundado magnificas plantações no baixo Zambeze. O coqueiro, de que se encontram ali milhões de exemplares, tem sido plantado largamente; a canna saccharina, o café, o arroz, etc., estão sendo cultivados com vantagem, e se os exemplos dados fossem seguidos, poderiamos em pouco tempo ter ali a primeira colonia de exploração portugueza, superior ainda a S. Thomé.

Nos prasos das margens do rio ha magnificas mattas onde a madeira podia ser explorada, e onde os elephantes ainda se encontram com abundancia; em Tête encontram-se jazigos de carvão, infelizmente de qualidade inferior na parte já reconhecida, e nos terrenos ainda não explorados ha indicios de importantes jazigos auriferos.

Na região alta do norte do Zambeze, o clima é semelhante ao da Europa, e ahi poderiam os colonos ir restabelecer-se, quando atacados das doenças inevitaveis no valle insalubre do rio.

Finalmente mais ao norte, no Ibo, Moçambique e Angoche, pouco se conhece do interior, mas a todos estes portos concorre o café selvagem do sertão e por elles se exportam annualmente muitos contos de reis de sementes oleaginosas. Desde que sejam conhecidos, provavel é encontrar territorios ainda mais bem dotados do que os da Zambezia, região esta onde a colonia de Blantyre, ha poucos annos começada, já hoje exporta mais toneladas de café do que toda a provincia de Moçambique exporta de saccas da mesma mercadoria.

O Futuro de Lourenço Marques

Não seria, pois, razoavel procurar fazer de Lourenço Marques uma colonia de exploração propriamente dita, tentando introduzir ali, com sacrificio, culturas que a provincia n’outros pontos espontaneamente nos dá. O futuro de Lourenço Marques está inteiramente ligado ao seu desenvolvimento commercial e á emigração para ali de individuos capazes de o alargarem e de capitaes que o facilitem, e isto está, mais uma vez o repito, nas mãos da iniciativa particular.

Ao governo compete não contrariar, pelas suas medidas administrativas, essas iniciativas e vigiar para que os seus agentes sigam a mesma-ordem de idéas. Por nós ou pelos estrangeiros, Lourenço Marques há-de fatalmente tornar-se o primeiro porto commercial da Africa do sul, e tudo o que contrarie esse destino redundará em nosso damno.

A permanencia dos governadores no districto (de 1881 até 1896 houve vinte e sete mudanças de governadores), a creação de tropas coloniaes, a separação naturalmente indicada de Lourenço Marques e Inhambane, n’um governo autonomo, do resto da provincia, a applicação dos rendimentos do districto ao seu melhoramento, sem os distrahir para fóra, a nomeação de pequeno numero de funccionarios, bons e bem pagos, em vez de muitos e mal pagos, o ensino obrigatorio da lingua cafreal, a organisação dos cafres no interior, sem vexames, causa de todas as revoltas, e tantas outras questões de administração, só podem ser ordenadas pelo governo, e muito contribuirão para a prosperidade do districto, com o qual a metropole já hoje não deveria fazer despezas.

Que os penosos e lentos sacrificios que nos impuzemos durante muitos seculos, não vão hoje, que a messe está madura, aproveitar a outros, que avidamente espreitam o momento de lançar mão dos nossos despojos; e que uma colonisação preponderante e activa nos mantenha aberto o vasto campo de expansão e actividade necessario a um povo que não está ainda completamente decadente e perdido, é o que devemos procurar.

Portistas Avante para Lourenço Marques

De entre os restos do nosso vasto dominio colonial é Lourenço Marques aquelle de que a avidez estrangeira mais nos demonstra a importancia capital para o futuro desenvolvimento de Moçambique. Para que a sua desnacionalisação não se opere, torna-se necessario que para ali concorra a actividade commercial, a industria e os capitaes, que são ainda mais do que os emigrantes, o nervo da colonisação, e de todos estes meios de acção nenhuma região é mais rica do que o norte do paiz e em nenhuma cidade elles se encontram mais largamente espalhados do que no Porto.

É por isso que, agradecendo ao Atheneu Commercial do Porto o honroso convite com que me distinguiu, e á assembléa a cortezia e attenção com que se dignou escutar o que diligenciei expôr, sem galas de estylo, mas com inteira franqueza e verdade, me sentirei verdadeiramente orgulhoso, se por pouco que seja, tiver conseguido attrahir sobre Lourenço Marques as attenções d’uma cidade, a primeira sempre no paiz, nos grandes emprehendimentos de que póde resultar para a nossa querida patria, riqueza, gloria e prosperidade.

(fim)

 

Fonte: Projecto Guttemberg.

01/05/2020

JOAQUIM FAUSTINO DA SILVA, UM SINDICALISTA EM LOURENÇO MARQUES

A primeira imagem, retocada, foi cedida a Luis Carvalho por Ronald Ramos, neto de Joaquim Faustino. Acompanha o texto, que editei a partir do original de Luis Carvalho, que foi publicado hoje no jornal ribatejano Mais Ribatejo, associado à celebração do feriado de 1 de Maio em Portugal, Dia dos Trabalhadores. A foto do Emancipador foi facultada pelo Ricardo Cardiga, neto de Manuel Alves Cardiga. O original da foto de Ignácio Piedade Pó está nos arquivos ferroviários sul-africanos.

 

Joaquim Faustino da Silva.

(início)

Neste 1.º de Maio de 2020 recorda-se aqui Joaquim Faustino da Silva, que se salientou na história social em Moçambique enquanto sindicalista em Lourenço Marques.

Joaquim nasceu no Vale de Santarém, em 1891. Ainda muito jovem, iniciou-se nas lutas laborais em Almeirim, quando ali trabalhou como empregado do comércio. A grande reivindicação deste sector profissional era, na altura,  pelo direito dos operários a poderem gozar um dia de folga por semana.

Rumou depois para Lisboa, onde, por volta de 1909, se tornou militante activo do antigo Partido Socialista Português, de cariz operário e marxista. Ali assistiu ao golpe de Estado republicano que derrubou a monarquia, no final de 1910 e instaurou um regime republicano laico e radical.

Esteve pela primeira vez em África durante a Primeira Guerra Mundial, quando foi enviado como soldado para Angola, e aí ficou durante um ano, após o que regressou a Portugal.

Em 1918 emigrou para Moçambique, onde foi trabalhar nos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques.

A então pequena capital moçambicana teve a particularidade de ter sido o palco da mais importante experiência sindical no contexto colonial português durante o período da Primeira República (1910 a 1926).

A estrutura portuária e ferroviária que ali se desenvolveu, para servir essencialmente os interesses britânicos na África do Sul e Rodésia do Sul, suscitou uma especial concentração de trabalhadores qualificados, vindos de Portugal, na condução e manutenção de máquinas e equipamentos e que ainda incluía outros sectores da actividade na Cidade, tais como empregados no comércio e operários da construção civil.

Cinco linhas de carruagens cheias de carvão mineral, trazidas de minas da África do Sul, para abastecer os navios atracados em Lourenço Marques, então o principal porto marítimo na costa oriental de África, década de 1920. Penso que esta é uma foto de Ignácio Piedade Pó.

Foi neste contexto que surgiram sindicatos e outras instituições de trabalhadores, tais como cooperativas, associações e imprensa e se travaram acirradas lutas laborais. Até existiu um núcleo socialista que chegou a atingir uma relevante expressão eleitoral.

O Emancipador

Na sua militância sindical e socialista, Joaquim Faustino da Silva destacou-se como um dos principais obreiros da Casa dos Trabalhadores de Lourenço Marques. Era um edifício construído de raiz em forma cooperativa, para servir de sede a vários sindicatos, com outras vertentes como uma biblioteca e uma escola.

Foi também um dos principais responsáveis pelo jornal operário e (mais tarde) antifascista O Emancipador, que ali se publicou desde 1919 até ser proibido pela ditadura de Salazar em 1937. Este jornal deixou um importante lastro histórico, na medida em que vários dos seus colaboradores estiveram na linha da frente da oposição à Ditadura em Moçambique até ao final da década de 1950.

Uma capa do Emancipador, “semanário operário” de Lourenço Marques, cujo director na altura era nada menos que Manuel Alves Cardiga, o mais tarde célebre e celebrado empresário coca-cola.

Outro traço de O Emancipador foi a admiração que nele se expressou pela Revolução Russa. O mais entusiasta terá sido Faustino da Silva, que se tornou um simpatizante da causa comunista para o resto da vida.

A repressão republicana

Em 1925, quando, no quadro de uma crise económica, as autoridades coloniais republicanas decidiram um corte profundo nas condições laborais dos ferroviários de Lourenço Marques, aproveitaram para despedir o seu mais destacado dirigente sindical nessa altura: Joaquim Faustino da Silva.

Em resposta e em solidariedade, um plenário com trezentos trabalhadores iniciou uma greve. Resistiram quatro meses. Mas acabaram derrotados à força de prisões, deportações, despedimentos e substituições com trabalhadores forçados. Famílias inteiras de grevistas foram despejadas das casas onde moravam. A Casa dos Trabalhadores foi ocupada pelo exército. E não faltaram tiros e violência.

Nessa altura, Faustino teve que passar à clandestinidade e partir depois para um exílio na África do Sul, onde viveu durante cerca de quatro anos. Aí, revelou simpatia pelo então recentemente formado Partido Comunista da África do Sul e pela postura deste contra a discriminação racial.

Faustino Antifascista

Faustino da Silva regressou à capital moçambicana no início de 1930, quando a ditadura militar instaurada em Portugal em 1926 ainda não se tinha tornado numa ditadura de cariz fascista, como viria a suceder em 1934. Com excepção do sector dos empregados no comércio, o movimento sindical livre em Lourenço Marques estava ali muito enfraquecido, mas ainda não tinha sido proibido.

Faustino juntou-se então à oposição democrática à Ditadura, como fundador e secretário-geral de um novo movimento político, a União dos Trabalhadores de Moçambique, que concorreu a umas eleição local que ali ainda se realizou em 1932. É também visível que teve nessa altura ligações com a oposição clandestina em Portugal, nomeadamente com o Partido Comunista Português.

Em 1945 surgiu como um dos fundadores e dirigentes do Movimento de Unidade Democrática (MUD) em Lourenço Marques. Em 1949 participou na campanha presidencial do general Norton de Matos, um destacado opositor a Salazar.

Memória

Joaquim Faustino da Silva permaneceu em Moçambique, vindo a falecer em Lourenço Marques em 1972, com 81 anos de idade.

Guardou até ao final da sua vida um importante espólio do antigo movimento operário daquela cidade, o qual posteriormente passou a integrar o património do Arquivo Histórico de Moçambique.

Merece certamente uma recordação na história do sindicalismo português e de Moçambique.

E também na história da terra e região ribatejana onde nasceu e onde deu os seus primeiros passos de lutador – pelos direitos da classe trabalhadora e por uma sociedade mais justa.

(fim)

18/04/2020

LOURENÇO MARQUES DURANTE A VISITA DO PRÍNCIPE REAL, JULHO DE 1907

Imagens retocadas, tiradas por W. Hackett.

Em baixo, oito fotografias alusivas à Visita Real de 1907 a Lourenço Marques.

SAR o Príncipe D. Luiz Filipe à direita no centro, no átrio do Palácio da Ponta Vermelha em Lourenço Marques, Julho de 1907.

 

Junto ao Palácio da Ponta Vermelha, o Príncipe Real sentado à direita da carruagem, com o então ministro da Marinha Ayres de Ornellas. À esquerda o Coronel Costa.

 

Junto à Residencial do Governador-Geral, SAR o Príncipe D. Luiz Filipe, posa com o que o fotógrafo Hackett descreve como um grupo de nativos da Suazilândia.

 

O Capitania Building ao fundo, e parte da Praça 7 de Março (hoje 25 de Junho) engalanadas para receber o herdeiro da coroa portuguesa. A actual “forteleza fica situada atrás e à esquerda do Capitania Building, que foi demolido no final dos anos 1950.

 

Arco triunfal na então Avenida T. de Souza, a que liga a ponta Sul da Praça 7 de Março à (mais tarde) Praça Mac-Mahon, hoje a Praça dos Trabalhadores.

 

Outro arco triunfal, junto ao Capitania Building, à esquerda.

 

A (então) Rua D. Luiz (depois a Consiglieri Pedroso), onde desemboca na Praça 7 de Março, pronta para uma parada. A actual Casa Amarela, ou Museu da Moeda, fica situada mesmo atrás do kiosk que se vê à frente.

 

Na estação ferroviária de Ressano Garcia, junto à fronteira com a África do Sul, oficiais portugueses e dos caminhos de ferro da África do Sul posam junto da locomotiva da classe 6L.2, dos caminhos de ferro da África do Sul, que transportaria a carruagem real desde a fronteira moçambicana até Pretória.

 

O PRÍNCIPE REAL D. LUIZ FILIPE DE ORLÉANS E BRAGANÇA EM LOURENÇO MARQUES, 1907

Imagem retocada.

Fotografia dos arquivos sul-africanos, tirada por W. Hackett, durante a visita do Príncipe herdeiro a Lourenço Marques, Julho de 1907.

 

SAR o Príncipe D. Luis Filipe em Lourenço Marques, Julho de 1907.

09/04/2020

A DUQUESA DE AOSTA VISITA O CENTRO DE MOÇAMBIQUE, 1909-1910

Helena, Princesa de Órléans, mais tarde Duquesa de Aosta (1871-1951), já foi por mais que uma vez mencionada neste blog, aqui. Era uma irmã mais nova da última rainha portuguesa, Amélia. Teve a particularidade de ter feito várias longas viagens por África, a segunda da qual (que durou 9 meses) incluiu, entre Dezembro de 1909 e Janeiro de 1910, uma épica e memorável paragem na Beira (nomeada pelo seu sobrinho, o Príncipe Luis-Filipe, herdeiro da coroa portuguesa) e uma visita a uma região ali perto, o Búzi e Luzitânia, onde pelos vistos andou nas caçadas, pelo que era conhecida. As viagens da Duquesa foram organizadas pelo Marquês de Piscicelli, um amigo que tinha alguma experiência de África e que aparece numa das vinte fotografias em baixo, que foram todas tiradas pelo fotógrafo I.R.Carvalho, que sempre se lhe referia como “S.A,”, para Sua Alteza Real. Helena usava muito a fotografia nas suas viagens.

Fotografias copiadas com vénia e retocadas, a partir das digitalizações no Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Lisboa.

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2. Piscicelli à direita.

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04/04/2020

APÓS O ARMSTÍCIO EM MOÇAMBIQUE, 1918

Filed under: Paul Emil Lettow von Vorbeck — ABM @ 20:43

Imagem retocada.

Este postal acaba por ser um pouco de propaganda a posteriori para consolo dos “aliados” portugueses e britânicos. Os britânicos tinham pouco mais que desprezo pelos seus “aliados centenários”. Na realidade ambos pouco conseguiram para impedir Paul Emil Lettow von Vorbeck de semear a confusão no Norte de Moçambique, os portugueses tendo sido particular e quase espectacularmente ineptos. O genial general alemão entregou-se pacificamente, uns dias depois de assinada a rendição alemã. O prémio de consolação português? O Triângulo de Quionga.

Amigos ma non troppo.

03/04/2020

PARADA MILITAR EM LOUREBNÇO MARQUES, ANOS 1960

Imagem retocada.

Penso que esta deve ter sido uma das paradas por ocasião do feriado do 10 de Junho em Lourenço Marques.

 

A Praça Mouzinho de Albuquerque em Lourenço Marques, vista do Prédio Funchal.

01/03/2020

A GRANDE PANDEMIA MUNDIAL DE 1918-1920 EM MOÇAMBIQUE

Filed under: A Grande Pandemia Mundial de 1918-20 — ABM @ 22:35

Há exactamente cem anos, aconteceu a que provavelmente foi maior tragédia humana na história recente de Moçambique, pior que a mortífera década de seca entre 1830-1840 que incendiou as migrações e lutas tribais da altura, trazendo os Suázis e um ramo dos Zulus para a metade a Sul do território que hoje é Moçambique, causando inúmeras mortes e derrubando a ordem estabelecida, com impacto na sua história até aos dias que correm .

O tratamento científico do assunto desta tragédia praticamente não existe na literatura, e ainda menos no que está publicado em língua portuguesa. A Grande Pandemia Mundial de 1918-1919, também chamada Gripe Espanhola (que, de espanhola nada tem) praticamente não consta nos registos formais, nem tão pouco (com talvez uma excepção) parece ter havido uma recolha e análise dos registos da imprensa e arquivos coloniais moçambicanos da altura, sendo necessário aprofundar mais este conhecimento para se terem os factos.

Em parte isto sucedeu porque na altura decorria a Primeira Guerra Mundial e, com raras excepções, a imprensa era controlada e censurada, pelo que a informação pública era manipulada para manter o foco no esforço de guerra e impactar a moral das populações e simplesmente não fluía. Desde Agosto de 1914, as nações envolvidas no esforço da guerra, centrado na Europa, dispendiam enormes recursos materiais e humanos, desviando-os do consumo de civis, donde resultaram fragilidades significativas, nomeadamente na sua nutrição e estado de saúde, agravado pelos factos de que na altura a medicina ainda se encontrava num estado de sofisticação muito mais rudimentar que o que conhecemos hoje em dia e as condições sanitárias das populações eram muito mais débeis. Um factor adicional foi o enorme aumento nos movimentos de pessoas e bens desde o fim do Século XIX, o que tornou possível a trasmissão do vírus.

Em 1914, apesar da actual retórica anti-colonial, Moçambique permanecia adormecido numa espécie de profundo sono pré-colonial. A seguir à paradigmática mas cirúrgica  investida de Mouzinho no Sul, vinte anos antes, a esmagadora maioria da população vivia desagregadamente no mato, de auto-sustentação e no mais em primitivo e esplêndido isolamento, as excepções sendo o ocasional surgimento de um português (ou estrangeiro, no caso das companhias majestáticas) a fazer negociatas, a querer cobrar impostos ou querer impor às populações serviços à borla. Na costa, o domínio colonial era uma ficção, vagamente sustentada pela invocação de tratados europeus em que era afirmada a soberania portuguesa, suportada por uns barquitos obsoletos. Um punhado de portugueses habitava, precariamente, em Lourenço Marques, a Ilha de Moçambique, o Ibo e a Beira.

Aparte a África do Sul, por causa do ouro e os diamantes e os Boers e os Britâmicos, não era assim tão diferente do resto de África, sendo que os outros ainda tinham algum dinheiro para fazer o colonialismo. Os portugueses, falidos, endividados e agora republicanos, não tinham e mantinham um “império” multicontinental quase impossível de gerir.

O início da Guerra, no final de 1914, faria prever algum crescimento económico, mas nem isso aconteceu. Por razões internas e de algum chico-espertismo, Portugal lembrou-se de fazer “alguma” guerra em Moçambique, que, para além de basicamente ter sido uma longa e mortífera palhaçada para putativos colonos e colonizados, teve o vago mérito de servir de (pequenino) palanque para os líderes da nascente (e moribunda) república, se sentarem em Versalhes, ainda assim em bicos dos pés, reclamando recompensas pelo sangue vertido e os sacrifícios feitos.

A única recompensa acabou sendo a “devolução” do Triângulo de Quionga (em frente ao qual está quase todo o gás de que se fala agora).

E é neste contexto, praticamente no fim desta guerra, que acontece a Pandemia.

A Gripe Aviária

Um artigo publicado em Novembro de 2018 sobre o grau de preparação dos países africanos para uma epidemia de gripe descreve assim o contexto geral e o percurso deste tipo de calamidade (tradução minha):

A gripe aviária de alta patogenicidade (vírus do tipo H5N1) não costuma infectar seres humanos, mas representa uma grande ameaça na forma da sua transferência da população animal para a humana, muitas vezes com resultados fatais quando os seres humanos estão infectados. Como exemplo, entre 1990 e 2000, o vírus aviário H5N1 circulou ativamente ininterruptamente entre aves migratórias e animais na Ásia, Europa e Mediterrâneo, dando assim a perspectiva de um sério surto de pandemia de gripe em humanos.

A gripe pandémica é uma doença rara causada por um novo vírus da gripe, um subtipo que tem a capacidade de causar uma transmissão sustentada de humano para humano e para o qual a população tem pouca ou nenhuma imunidade. Historicamente, houve 31 possíveis surtos de gripe desde 1580, ocorrendo aproximadamente a cada 15 anos, com 3 ocorrendo no século XX: os surtos de 1918, 1957 e 1968. O surto de influenza pandêmico de 1918 foi o mais devastador, causando entre 50 e 100 milhões de mortes no mundo. Na África, a contagem da fatalidade da gripe pandêmica foi de 2,3 milhões de mortes, o que é considerado subnotificado. As gripes pandêmicas de 1957 e 1968 em África causou cerca de 2 a 3 milhões e 1 milhão de mortes, respectivamente. No século XXI, uma pandemia de gripe ocorreu em 2009, causando 18.156 mortes em todo o mundo.

O Que Foi a Pandemia de 1918

A Pandemia de Gripre de 1918 (Janeiro de 1918 -Dezembro de 1920, vulgarmente conhecida como Gripe Espanhola) foi uma pandemia gripal mortal, envolvendo (sabe-se hoje) o vírus da gripe H1N1, que infectou cerca de 500 milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo pessoas em ilhas remotas do Oceano Pacífico e no Ártico, que resultou na morte de entre 50 e 100 milhões (três a cinco por cento da população total da Terra na altura), tornando-se um dos desastres naturais mais mortíferos da história humana.

A gripe, como todas as gripes, era transmitida por via áerea. Quando uma pessoa doente tossia, expelia cerca de um milhão de partículas, infectando todos à sua volta.

Três Ondas Mortíferas

A pandemia espalhou-se e impactou todo o planeta em três surtos, ou “ondas”. A primeira começou no início de 1918, a segunda começou em meados de 1918 e a terceira em meados de 1919.

Ao contrário do comportamento habitual das gripes, a Primeira Onda desenvolveu-se não no inverno mas na Primavera e início do Verão de 1918 (no Hemisfério Norte) mas já tinha algumas particularidades, nomeadamente as suas caracerísticas eram algo diferentes das tipologias habituais (provocando dúvidas no seu diagnóstico), era mais agressiva do que o habitual e apesar de atingir as partes da população “habituais” – os mais novos, mais velhos e pessoas com sistema imunitário comprometido – atingiu já algumas pessoas adultas e saudáveis. O ciclo desta primeira onda durou entre 4 a 6 semanas.

Quando a primeira onde passou, matando já milhões de pessoas, causando enorme confusão e sobrecarregando as parcas infra-estruturas de saúde, toda a gente pensava que, ainda assim, a pandemia tinha acabado.

Mas aconteceu precisamente o contrário.

A segunda onda, que começou no fim do Verão de 1918 no Hemisfério Norte, foi tão rápida e arrasadora como inesperada. Desta vez, apesar de não causar mortalidade nas pessoas previamente afectadas na primeira onda (donde se deduz que o segundo vírus tinha uma relação com o primeiro, causando alguma imunidade nestas pessoas) teve a particularidade de causar elevadíssimas taxas de mortalidade em pessoas que não tinham apanhado a gripe na primeira onda, e desta vez, especialmente, em pessoas adultas e saudáveis.

Foi uma razia assassina, em todo o mundo. Num espaço de apenas 4 a 7 semanas, centrada no mês de Outubro de 1918, dezenas e dezenas de milhões de pessoas morreram em todo o mundo.

A terceira onda, em meados de 1919, foi basicamente semelhante à primeira, mas quase residual por comparação com a segunda.

A Pandemia na África do Sul

Por ser um país vizinho e mais entrosado com a economia e a população de Moçambique (a Sul da Latitude 22 graus Sul) , importa ver o que aconteceu na África do Sul, uma vez que existem registos e estudos para este país – ainda que as estatísticas e outros aspectos sejam ainda alvo de revisão. Assim, o sítio sul-africano Health24 resume assim o que aconteceu na vizinha África do Sul:

  • A África do Sul foi o quinto do mundo país mais atingido pela gripe de 1918. Quase tantos sul-africanos morreram com a gripe de 1918 como morreram cidadãos norte-americanos.
  • 1,6 – 3 milhões de pessoas de uma população de cerca de 6 milhões – ou seja, metade de quem vivia na África do Sul – apanhou a gripe.
  • Quase meio milhão de pessoas morreu da epidemia de gripe na África do Sul.
  • Dois terços dos que morreram viviam na região da Cidade do Cabo.
  • Entre 23 e 44 em cada mil pessoas no país morreram da gripe (2-4 por cento do total).
  • Na Segunda Onda, estima-se que cerca de 140.000 pessoas morreram em apenas sete semanas, entre Setembro e Outubro de 1918:

Excepto da tese de Howard Philips (1984, pode ler lida descarregando o texto numa das fontes indicada em baixo) descrevendo a chegada da Segunda Onda da Pandemia à Cidade do Cabo, Setembro de 1918.

Segundo uma investigação pioneira de Howard Philips, a Segunda Onda foi primeiro visível com a chegada à Cidade do Cabo, no dia 13 de Setembro de 1918, do Juroslav, um navio com cerca de 1300 nativos sul-africanos regressados da Europa (desmobilizados da Guerra) e que fizera uma paragem em Freetwon, na colónia britânica de Sierra Leone (pág.24). À primeira, os responsáveis pela saúde pública isolaram o grupo, mas, não detectando nada, permitiram que essas pessoas se metessem em comboios e fossem para suas casas, nos dias 16 e 17 de Setembro. Dois dias depois, o vírus espalhara-se até Joanesburgo.

Mas há outros cenários e versões de como o virus chegou à África Austral.

O vírus surge em operários da minas de ouro em Joanesburgo em 18 de Setembro de 1918. Na tese acima, o autor expressa dúvidas (págs.10-11) quanto a se o surto originou em mineiros vindos de Durban ou do Sul de Moçambique.

Durante o mês de Outubro de 1918, dos 190 mil mineiros em Joanesburgo, 60 mil tiveram a gripe e milhares morreram.

No início de Novembro de 1918, as autoridades detectaram a chegada de mineiros de Moçambique já afectados com o vírus da Segunda Onda, de longe o mais mortífero. Num acordo assinado entre as autoridades sul-africanas e portuguesas a Wenela (a Witwatersrand Native Labour Association, entidade que retinha o monopólio do recrutamento de mineiros em Moçambique) suspendeu temporariamente o recrutamento no início de Dezembro (págs. 13-14), acordando ainda que os moçambicanos já nas minas permanecessem (forçosamente) no Transvaal durante este período. O acordo vigorou até Março de 1919 e voltou a ser imposto em Maio desse ano, quando se verificou a chegada da Terceira Onda. Exceptuando os 160 mineiros moçambicanos já hospitalizados e a morrer, os restantes aceitaram resignados a imposição das autoridades (pág. 19).

O impacto desta situação nas operações (e nos lucros) das minas foi muito significativo. Se as minas já tinham uma falta de pessoal estimada em 26 por cento antes da Segunda Onda, no final de 1918, segundo o relatório do Presidente da Chamber of Mines (citado por Philips), essa falta havia ascendido para 38 por cento. A situação foi considerada tão má que foi considerado reverter a proibição de recrutamento de mineiros a Norte da Latitude 22 graus Sul, imposta em 1913 devido à alegada detecção de uma muito elevada taxa de mortalidade entre as pessoas vindas dessas áreas. Sendo que a Latitude 22 graus Sul era a delimitação dos territórios sob administração da majestática Companhia de Moçambique. No entanto, no final, a proibição manteve-se (págs. 16-17).

(Como ilustração, a localidade de Vilanculos assenta quase exactamente na Latitude 22 graus Sul).

Na sua tese, Philips descreve em detalhe a progressão da Segunda Onda da Pandemia na Cidade do Cabo, em Kimberley (onde, em Outubro, um quarto dos cerca de 11.5 mil mineiros num campo morreram), em Bloemfontein, e no Transkei, a única zona africana rural alvo do seu estudo, com relevância em termos de ilustrar o que poderá ter sucedido nas zonas rurais de Moçambique.

Dados de Moçambique

Moçambique não escapou aos efeitos da Pandemia de 1918-1920. Para além das ligações com os países vizinhos, alguns portos de Moçambique estavam ligados a Portugal europeu por barco. E sabe-se que Portugal sofreu igualmente os efeitos da Pandemia.

Mas não conheço ainda estudos e evidências formais em relação ao que, precisamente, sucedeu em Moçambique. As únicas evidências, circunstanciais, chegaram-me de Alfredo Pereira de Lima e da sua Filha Cristina e ainda de um artigo académico da autoria do Dr. Júlio Machele, actualmente professor de História na Universidade Doutor Eduardo Mondlane, (ver a ligação para o seu artigo em baixo).

A primeira evidência já foi referida aqui e merece ser repetida. A propósito de um curto texto sobre os cemitérios de Lourenço Marques, Cristina Pereira de Lima escreveu:

“Pouco depois do final da Grande Guerra de 1914-1918 , para acorrer aos enterramentos em massa das muitas centenas de indígenas vitimados pela epidemia pneumónica, foi inaugurado o Cemitério de São José de Lhanguene.”

O então cemitério da Cidade, o São Francisco Xavier, já estava quase cheio e não havia maneira de acudir aos enterros em massa.

A segunda evidência é contida num segundo relato de Cristina Pereira de Lima, numa mensagem inédita que me enviou uns dias depois:

 A vida do meu Pai {o historiador de Moçambique Alfredo Pereira de Lima] tem tudo a ver com a peste bubónica[surto de 1918-1920] . O meu Avô {paterno] morreu no Chongoene juntamente com a sua população. Recusou-se a sair e tratava dos doentes nas palhotas e nas aldeias. Ele era administrativo e foi também infectado. Foi a população que tratou dele e que o enterrou no mato quando ele morreu. A minha Avó tambem foi infectada e levada para as palhotas, onde foi tratada com ervas e plantas e o meu Pai foi cuidado por eles todos, o meu Pai que tinha então apenas um ano e tal [de idade]. O meu Avô morreu com 29 anos de idade. Eram os únicos três brancos que viviam no Chongoene. É uma história muito bonita de sacrificio e abnegação do meu querido Avô que muito me comove. O meu Pai ficou órfão com 1 ano de idade.

Um exemplo de como o vírus se espalhou é contido no relato de Anne Rasmussen, uma britânica, na altura bebé, que penso cita o seu Pai:

Este é o caso do navio a vapor português “Moçambique”, fretado para o repatriamento das tropas portuguesas que, na colónia com o mesmo nome, participaram da Força Expedicionária contra as forças alemãs na África Oriental. Deixando a Ilha de Moçambique em 12 de Setembro, ele entrou na Cidade do Cabo no dia 29, onde a praga atingiu proporções aterradoras, particularmente entre os trabalhadores nas docas e encarregados de abastecer os navios. Em 1 de outubro, o navio deixou este vulcão pestilento e, no dia 4, estava cheio de pedidos aos médicos a bordo de soldados afetados pela gripe pneumónica; a primeira morte foi no dia 6; em rápida progressão, a contagem no dia 11 foi 43 mortes em 24 horas … da população total do navio, que era de 952 pessoas, 199 morreram durante a viagem para Lisboa, onde este navio sombrio ancorou em 21 de Outubro, e onze outras mortes ocorreram após o desembarque. Por outras palavras, a mortalidade geral chegou a 22%. Os 558 soldados que retornaram de uma estadia insalubre e se reuniram na quarta classe perderam 180 deles, 32,2%, ou quase um terço. [um livro de Ricardo Jorge de 1919,, referenciado em baixo,analisa em detalhe o caso do navio Moçambique]

Num artigo de José Manuel Sobral e Maria Luísa Lima sobre a pandemia, é referido que cerca de 135 mil portugueses residentes em Portugal metropolitano morreram durante esta pandemia, a maioria durante a Segunda Onda.

O artigo do Professor Júlio Machele refere alguns dados e ainda alguns testemunhos que atestam a natureza da pandemia (que refere muitos em Moçambique chamarem Xyponyoli, uma bastardização do termo português Espanhola, designação comum na altura) e a sua prevalência em quase todos os os pontos de Moçambique.

Acresce que, em 1918, exceptuando os hospitais em Lourenço Marques e na Ilha de Moçambique, vocacionados para servir as parcas populações urbanas, o aparato sanitário e de saúde era praticamente inexistente. A maior parte da população sofreu os efeitos das pandemia sem qualquer assistência a não ser eventualmente a medicina dos curandeiros locais.

Fontes

https://en.wikipedia.org/wiki/Spanish_flu

https://www.health24.com/Medical/Flu/The-1918-epidemic

https://open.uct.ac.za/bitstream/handle/11427/7852/thesis_hum_1984_phillips_h.pdf?sequence=1

https://www.academia.edu/13879389/_Xiponyola_The_Spanish_Influenza_in_Mozambique_1918-1919

Jorge, Ricardo (1919). La Grippe. Lisbonne: Imprimerie Nationale.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6236890/

 

12/12/2019

“BEIRA”, NOVO LIVRO SOBRE A CIDADE DA BEIRA, LANÇADO DIA 17 DE DEZEMBRO DE 2019

Filed under: Beira - novo livro 2019 — ABM @ 02:30

Na próxima terça-feira, 17 de Dezembro de 2019, pelas18 horas, vai haver uma cerimónia a assinalar a publicação de uma obra sobre a Cidade moçambicana da Beira, intitulada, somente, “Beira”, da co-autoria de Augusto Nascimento, o moçambicano Aurélio Rocha e Eugénia Rodrigues.

A cerimónia, que é aberta ao público (incluindo os exmos. Leitores que se interessem) vai ter lugar no Anfiteatro 3 da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (que fica algures ao pé do Campo Grande) e inclui uma apresentação pelo Doutor Pedro Aires Oliveira, um dos nossos craques em História, sobre o seu conteúdo.

Tanto há a aprender e ainda mais a dizer sobre a cidade moçambicana da Beira, criada cerca de 1890 no lado Norte da foz do Rio Pungué, mais ou menos a meio do que hoje é Moçambique, como sede da Companhia de Moçambique, uma das entidades majestáticas que fizeram o dúbio frete de trazer o colonialismo moderno à África Oriental Portuguesa e que durou uns cinquenta anos.

A Beira, inicialmente quase só britânica, centrava-ve em administrar e explorar o território que integrava a concessão da Cia. de Moçambique e a assegurar a ligação das Rodésias britânicas ao mar. Oito décadas mais tarde, cresceu e nos anos 70 era mais “portuguesa” e surge como a segunda cidade do nascente país. E desde então decorreram quase mais cinco décadas, em que a África negra entrou naquela espécie de reduto branco, entretanto virtualmente abandonada pelos anteriores residentes. Olhando para a Beira de hoje, o seu património e o seu passado, o que dizer? Do que penso que me apercebi de uma conversa com um dos co-autores, a obra agora a publicar faz um conjunto de reflexões sobre estas e outras temáticas, usando o presente da Cidade como referência.

 

Capa

Convite público.

10/12/2019

100 ANOS DA FUNDAÇÃO DO JORNAL O EMANCIPADOR EM LOURENÇO MARQUES

Filed under: 100 Anos do jornal O Emancipador — ABM @ 22:45

Numa louvável iniciativa dos académicos Luis de Carvalho, e Carlos Lopes Pereira, e ainda A Voz do Operário e o Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, vai haver no próximo sábado na sede da Voz do Operário no centro de Lisboa (ver detalhes em baixo) uma cerimónia a assinalar a fundação do jornal O Emancipador em 1919 e que circulou em Lourenço Marques, com as habituais peripécias, até ser “suicidado” pelo regime em 1937.

A cerimónia inclui abordagens ao tema por Luis de Carvalho e Carlos Lopes Pereira e récitas por Elsa de Noronha e Alexandre de Sousa.

Sugiro ao exmo. Leitor que segue estas coisas que vá lá assistir, é um sábado à tarde e a coisa promete.

16/09/2019

LOURENÇO MARQUES EM 1960 E EM 1887: UMA COMPARAÇÃO

Comparação feita por mim, a “olhómetro”.

 

A Baixa de Lourenço Marques cerca de 1960.

 

A- Definida pela linha cor de rosa, a antiga Enseada da Maxaquene, aterrada a partir de 1919; B – Definida pela linha a vermelho, a “ilha” que constituía o núcleo original da Cidade; C- Definido pela linha a verde, o Pântano que separava a “ilha” de (digamos) terra firme; 1- o aterro esteve quase intocado durante 40 anos, coberto por arvoredo; 2 – a antiga Câmara Municipal de Lourenço Marques em frente ao Desportivo, que originalmente ficava mesmo em frente à Praia da Câmara; 3- O Jardim Vasco da Gama, agora Tunduru, que tocava o Pântano a Sul; 4- O terreno na esquina da Avenida da República com a D. Luiz (hoje 25 Setembro com Samora Machel) onde ficava a estrada de acesso pelo Pântano ao núcleo original da Cidade; 5- O Presídio de Nossa Senhora da Concieção, que ficava directamente em frente à Baía; 6- A Praça 7 de Março (hoje 25 de Junho) originalmente Praça da Picota, o primeiro espaço público da Cidade; 7- A Avenida da República (hoje 25 de Setembro) coincide mais ou menos com a margem Sul do Pântano.

 

A Cidade em 1887. A verde azeitona, o Pântano. 

10/09/2019

PEÇA DE TEATRO ESCOLAR EM LOURENÇO MARQUES, 1901

Imagem retocada.

Em baixo, uma reportagem da Ilustração Portugueza, 29 de Junho de 1908, sobre os primórdios da escolaridade em Lourenço Marques. Correctamente, a peça começa referindo o lamentável estado da educação portuguesa de então, como preâmbulo para o facto da educação quase inexistente na sua segunda maior colónia, que era uma espécie de Faroeste português em África.

1 e 2

2 de 2

07/09/2019

A ENTRADA DO JARDIM VASCO DA GAMA EM LOURENÇO MARQUES, 1935

Imagem retocada.

 

Na pequena praça em frente à entrada principal do Jardim Vasco da Gama, em 1939 seria colocado um monumento a assinalar a passagem pela Cidade do Presidente Óscar Carmona, em 1939. A mesma seria retirada em 1975 e uns anos depois seria ali colocada uma pequena estátua do Presidente Samora machel.  Na esquina do terreno em cima à esquerda, seria colocada em 1972 a Casa de Ferro. Note-se,, ainda no cimo da fotografia, o topo da velha Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que seria demolida em 1944, e onde depois seria construída a sede do Rádio Clube de Moçambique.

A SEDE DO RÁDIO CLUBE E A IGREJA DA IMACULADA CONCEIÇÃO EM LOURENÇO MARQUES

Imagens retocadas.

No preciso local onde fica a entrada da sede do Rádio Clube de Moçambique – actualmente a Rádio Moçambique, EP – existiu durante quase 60 anos uma igreja, a primeira igreja católica em Lourenço Marques, edificada no âmbito da conhecida missão liderada por Joaquim José Machado e que desembarcou em Lourenço Marques em 7 de Março de 1877. O templo foi dedicado à Imaculada Conceição que permanece como a Padroeira da Cidade. Num quase inexplicável rearranjo da Cidade iniciado na década de 1930, a igreja seria demolida no início da década de 1940, sendo, simultaneamente, edificada, mais abaixo na mesma rua, a Sé Catedral, também dedicada à Imaculada Conceição, que seria inaugurada pelo Cardeal Cerejeira em Agosto de 1944.

A Sede do RCM, anos 50. Ao fundo, a Sé Catedral.

 

A mesma perspectiva. À esquerda, o depósito de água do Jardim Vasco da Gama.

 

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, década de 1890. 

 

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, década de 1890, no mesmo local onde viria a ser edificada a sede do Rádio Clube.

09/08/2019

O HOTEL CARDOSO EM LOURENÇO MARQUES, DÉCADA DE 1960

Imagens retocadas.

 

A fachada do Hotel Cardoso vista do lado da rua no final da década de 1950. Nos anos que se seguiram, o edifício foi ampliado, acrescentando-se mais dois andares, mantendo no entanto o estilo (mais ou menos) art deco.

 

 

 

 

A piscina e o páteo com vista para a Baía.

 

A piscina. Notem-se as barreiras completamente cobertas por vegetação. Isso seria radicalmente alterado com os efeitos do Ciclone Claude em Janeiro de 1966.

 

02/08/2019

OS CEMITÉRIOS DE LOURENÇO MARQUES NOS SÉCULOS XIX E XX

Imagens retocadas.

Ao princípio não sei bem como era. Imagino que na região onde hoje se situa a capital de Moçambique, as populações nativas, quase todas oriundas, em tempos quase imemoriais, do Norte, algures na África Central e Ocidental, sepultavam os seus mortos perto dos locais onde viviam, no mato. Eventualmente seguiriam alguma forma de rito.

Mais ao Norte do que é hoje Moçambique, onde havia uma presença muçulmana desde o Século IX, os muçulmanos seguiam o rito prescrito nas suas escrituras.

A partir do Século XVI, começaram a passar por ali alguns europeus, a maioria cristãos, que tinham ritos mais ou menos bem estabelecidos quanto à disposição dos seus mortos. Os poucos portugueses que se estabeleceram principalmente em nichos na na costa oriental africana, para além de praças fortes para conduzirem o seu comércio e, no caso de Moçambique (a Ilha) constituírem uma base logística para suportar as rotas marítimas para outros pontos mais a Norte e a Leste (de que se destaca, claro, Goa, a partir de onde, de facto, eram governados os pontos na costa oriental africana, até meados do Século XVIII) construíram igrejas e conventos – e, presume-se, cemitérios.

Mas quase não conheço nenhum cemitério português em Moçambique que date dos Séculos XVI e XVII. E todos sabemos que os portugueses morriam – e morreram – que nem tordos, em África. Havia a malária, as pestes, as picadas e os ataques dos animais, as feridas resultantes de acidentes e combates que eram quase parte normal do quotidiano. Um ferimento, uma doença, naqueles tempos, era praticamente uma sentença de morte. Donde presumo que eram sepultados em valas comuns nos terrenos, que se perderam com o tempo.

Alguns indivíduos mais importantes, à semelhança do que aconteceu durante algum tempo na Europa, foram sepultados nos átrios das poucas igrejas existentes. Penso que isso aconteceu na Ilha de Moçambique.

Outros, como Vasco da Gama, que morreu em Cochim, então uma praça portuguesa na Índia, foram sepultados temporariamente e depois os seus restos mortais foram levados para Portugal e ali depositados (Vasco da Gama está no Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa e é uma atracção turística).

Enquanto urbe permanente ocupada por, maioritariamente, europeus, Lourenço Marques surge tardiamente, praticamente nas primeiras décadas do Século XIX.

Segundo Alfredo Pereira de Lima, citado pela sua filha Cristina, originalmente os que ali morriam eram sepultados mesmo ao lado do Presídio (a actual “fortaleza”), na então recinto da Praça (da Picota, a actual Praça 25 de Junho, anteriormente Praça 7 de Março), naquilo que era, praticamente, uma ilha.

Em 1838, depois de uma expedição Boer que correu mal, um conjunto dos chamados “pioneiros”, liderados por Louis Trechardt (também escrito Trichardt), foram, doentes, presumivelmente com malária, até ao Presídio, onde mais tarde, faleceram. Foram então sepultados num terreno situado bem fora da Povoação, que se veio a tornar no primeiro cemitério de Lourenço Marques: o Cemitério de São Timóteo.

São Timóteo

O local do primeiro cemitério da Cidade ficava situado mais ou menos onde fica o actual Monumento em memória de Louis Trechardt, na Baixa de Maputo, a cerca de um quilómetro a Oeste do Jardim Vasco da Gama (ou Tunduru).

Lourenço Marques mais ou menos em 1890.  Legendas: 1 – Praça da Picota, actualmente a Praça 25 de Junho (anteriormente Praça 7 de Março) onde se sepultavam os primeiros europeus; 2- Cemitério de São Timóteo; A – o Presídio; B- A verde, o pântano que separava a Cidade de terra firme; C- terrenos onde se construiu o futuro Jardim Botânico, hoje o Tunduru; D – A Estrada da Ponta Vermelha; E- à esquerda, o Hospital Civil e Militar que fica onde são hoje as escadas da Sé Catedral, e à direita a Igreja Paroquial, iniciada em 1878 que ficava onde hoje é a sede da Rádio Moçambique; E- A Estrada de Lidemburgo, através da qual se ia para a actual África do Sul.

Cristina Pereira de Lima escreveu o seguinte, tendo por fonte notas e artigos escritos pelo seu Pai, Alfredo Pereira de Lima, e que fazem parte do seu espólio:

“O local onde foram sepultados o pioneiro sul-africano Louis Trichardt e os seus companheiros de jornada de 1838 passou a servir de cemitério – o primeiro da cidade de Lourenço Marques – com o nome de Cemitério de S Timóteo. No Cemitério de S. Timóteo foram sepultados pioneiros dos mais destacados de Lourenço Marques, supondo-se que também o Governador Onofre de Andrade, bem como numerosos ingleses que prestavam serviço na velha Estação do cabo submarino. Foi só a partir de 1882 que se começaram a fazer registos dos enterramentos nesse cemitério e foram entáo colocadas cruzes pintadas de preto identificando os covais. Este local serviu de cemitério até 10 de Novembro de 1886, data em que abriu o segundo cemitério da cidade, o Cemitério S Francisco Xavier, mais acima, na direcção do Alto-Maé. Em 25 de Novembro do ano de 1933, as ossadas dos pioneiros sepultados no Cemitério de São Timóteo foram exumadas e transferidas para um sarcófago próprio no cemitério de S José de Lhanguene.”

A única fotografia que conheço do Cemitério de São Timóteo, datada de 1897. Na década de 1930, este cemitério seria extinto e as ossadas transferidas para um local no Cemitério de São José de Lhanguene. Em 1968, num terreno livre no mesmo local, entre prédios, foi construído o monumeno em memória de Louis Trechardt,

São Francisco Xavier

“O Cemitério de São Francisco Xavier foi o segundo cemitério que teve a Cidade, tendo sido inaugurado oficialmente a 20 de Novembro de 1886. Para além de gerações dos primeiros habitantes europeus da Cidade, muitos pioneiros, colonos e boa parte dos heróis das campanhas de África estão aqui enterrados, como o 1º tenente Filipe dos Santos Nunes, Caldas Xavier e Roque de Aguiar (das campanhas de 1895); o enfermeiro Fernando Poças (expedição a Macequece) ; D. Egas Moniz Coelho, Dr. Bernardino Pina Cabral, Comandante José Cardoso, Comandante. Augusto Cardoso (explorador do Niassa), D. Pedro de Sousa Chichorro etc. O Cemitério foi ampliado pela primeira vez em 1891, tendo sido prolongado no sentido Noedeste e foi encerrado em 20 de Novembro de 1951.”

“O Cemitério de São Francisco Xavier  tem anexados os Cemitérios Parse, Maometano e Judaico, abrange dois quarteirões quase inteiros, delimitados pelas Avenidas Manuel de Arriaga, Paiva Manso, Pinheiro Chagas, Latino Coelho e Dr Joel Serrão e ocupa a área de 60.769 metros quadrados. Muitos pioneiros encontram-se sepultados no Talhão dos Combatentes da Grande Guerra (1914-1918) e há ainda pioneiros sepultados em jazigos de familia.
No cemitério muçulmano estão sepultados muitos pioneiros maometanos, entre os primeiros habitantes da Cidade.”

São José de Lhanguene

“Pouco depois do final da Grande Guerra de 1914-1918 , para acorrer aos enterramentos em massa das muitas centenas de indígenas vitimados pela epidemia pneumónica, foi aberto o Cemitério de São José de Lhanguene. Desde a data da sua instituição até ao dia 20 de Novembro de 1951 este cemitério esteve reservado a nativos indigentes que tinham de ser sepultados em vala comum. A partir desta data a Câmara Municipal viu-se compelida a dotar a cidade com um novo cemitério e foi então alargado o covário de São José de Lhanguene e aberto ao público [tradução: aos brancos] nessa data. A cerimónia de abertura em 1951 revestiu-se de solenidade. Depois do ritual católico de benzimento do campo santo seguiu-se o primeiro enterramento oficial [dum branco]: o da ossada do velho colono Vitor José Milho da Rosa. Este velho colono que residia na Missão de S José de Lhanguene manifestara o desejo de ali ser enterrado, apesar de na altura o cemitério só conter valas comuns, e o seu desejo foi respeitado. A Secção dos Cemitérios da Câmara Municipal exumou os seus ossos [da Missão de São José de Lhanguene] colocou-os numa pequena urna e foi esse o primeiro enterramento oficial no novo Cemitério, dando á sua campa o Número 1.”

O histórico texto de Cristina Pereira de Lima coloca algumas questões:

  1. Obviamente os dois primeiros cemitérios da Cidade eram para brancos (o colonialismo …enfim). Fico sem perceber, onde, até à abertura de S. José de Lhanguene em 1918, a população negra era sepultada;
  2. Destaco a importância da informação em cima sobre a abertura de S. José de Lhanguene: abriu porque, durante 1918 (e até meados de 1919) grassava na zona de Lourenço Marques a pandemia mundial de pneumónica que se estima vitimou 3 a 5% da polução do planeta, entre 50 e 100 milhões de pessoas em todo o mundo, durante quase um ano (também conhecida como gripe espanhola). Até hoje, apesar de procurar e pesquisar há anos, tirando esta informação, nunca encontrei um só texto a falar sobre o que aconteceu em Moçambique durante essa mortífera pandemia. Li uma vez um texto que referia terem morrido na altura centenas de milhares de pessoas na África do Sul. Isto foi uma enorme tragédia e não encontro nada sobre o que aconteceu em Moçambique. Não há um académico caridoso que agarre neste assunto?
  3. O Cemitério de São Francisco Xavier tem importância histórica para a Cidade de Maputo (e para Moçambique) e deve ser preservado de alguma forma. Eu nunca lá entrei mas gostava de visitar um dia.

Fontes

“Obras de Alfredo Pereira de Lima” (FB) texto de Cristina Pereira de Lima dtd 1 de Novembro de 2016.

31/07/2019

A AVENIDA 24 DE JULHO EM LOURENÇO MARQUES, DÉCADA DE 1910, E FRANCISCO COSTA

A primeira imagem foi retocada.

A Avenida 24 de Julho era originalmente a mais longa da nova Lourenço Marques. Actualmente assinala um acto da Frelimo após a independência (penso que algumas “nacionalizações”) mas anteriormente assinalava um outro evento completamente diferente, a data em 1875 que consta da decisão de Mac-Mahon de conceder a Portugal (e não ao Reino Unido da Grã-Bretanha) o direito aos territórios que hoje constituem o Sul de Moçambique.

Mas o nome original daquela artéria era Avenida Francisco Costa. Em baixo está um esboço da vida deste homem, um homem do Império e da sua constituição na sua vertente adquirida na segunda metade do Século XIX e que obviamente, na altura, mereceu a atenção e o respeito dos poderes constituídos da Cidade, possivelmente por causa das causas que defendeu e medidas que tomou. Em 1897 a avenida já aportava o seu nome, dois anos antes da sua morte.

Outra interessante curiosidade: Francisco Costa era um maçon. E acontece que os membros da Maçonaria de Lourenço Marques, após a imposição da I República, construíram em Lourenço Marques aquele que ainda hoje é o maior edifício maçónico alguma vez construído em território português…. no meio da Avenida com o seu nome. E que após a proibição das sociedades secretas por Salazar em 1935, veio a ser a Escola Industrial (agora denominada de 1º de Maio).

A Avenida Francisco Costa, futuramente a 24 de Julho, no fim da primeira década de 1900, postal de Spanos e Tsitsias. A zona aqui retratada é a meio da então nova e mais longa avenida da Cidade (uns sete kms), à direita a seguir à última casa fez-se, no início dos anos 70 o Centro Comercial Man-Kay, que ficou conhecido como Loja Franca uns anos depois da independência (por ali ter existido uma “loja franca” de acesso restrito e que só vendia bens de primeira necessidade, escassos nna Cidade, em moeda estrangeira). Note-se que nesta altura, como em outras artérias da Cidade, apesar de já ter sido concebida uma avenida larga com dois sentidos, aqui se vê que apenas se construiu o que hoje é o lado que hoje é no sentido Polana-Alto-Maé.  Alto-Maé que se vê ao fundo. E no qual, se se escavar, ainda se podem encontrar os carris que se vêem, que eram da empresa Electric Tramways de Lourenço Marques, pertença da empresa britânica The Delagoa Bay Investments Company.

Quem Foi Francisco Costa

Francisco Costa.

Nome completo – Francisco Joaquim da Costa e Silva (1826-1899).

Nasceu no Porto em 31 de Agosto de 1826 e morreu em Lisboa a 1 de Março de 1899. Filho de António da Costa e Silva, 1.º barão e 1.º visconde de Ovar, par do reino e ministro da Guerra interino, e de Teresa da Conceição Oliveira. Casou com Margarida Helena de Almeida e Costa, filha de Torcato Máximo de Almeida, deputado por Sintra, e de Helena Joaquina de Almeida e Costa. Fez carreira na Administração Pública, sendo tenente do Batalhão dos Empregados Públicos quando foi nomeado secretário-geral de Angola (23.4.1847). Foi oficial e secretário graduado do Conselho Ultramarino e em 20 de Julho de 1876 ascendeu a director-geral do Ultramar, tendo sido grande colaborador de Rebelo da Silva quando este foi ministro da Marinha e Ultramar.

Pertenceu à Maçonaria e foi figura importante do Partido Regenerador. Foi eleito deputado para várias legislaturas: Angola (1851), Ovar (1860), Sintra (1864 e 1865), Mafra (1869, Março e Setembro de 1870, 1871 e 1875) e novamente por Sintra (1878). Foi eleito vice-secretário, vice-presidente e presidente da Mesa da Câmara dos Deputados. Pela forma como exerceu a presidência, especialmente, pela delicadeza, dignidade e imparcialidade, mereceu um voto de louvor da Câmara tanto em 1878, como em 1879. Integrou várias comissões, entre elas, as do Ultramar (1854, 1865 a 1867, 1870), Diplomática (1860, 1861, 1870), da Marinha (1865 a 1867, 1871, 1877) e de Verificação de Poderes (1870, 1875).

O primeiro projecto de lei que apresentou, em 1852, destinava-se a manter o livre comércio da urzela em Angola. Subscreveu também, entre outros, o projecto de lei que determinava que os bacharéis em Matemática pela Universidade de Coimbra seriam, em determinadas condições, equiparados aos que tivessem concluído na Escola Politécnica o curso de Estado Maior de Engenharia, podendo também ser admitidos na Escola do Exército; Destaque também para o que extinguia no Estado da Índia vários impostos, substituindo-os pela contribuição industrial (1866) e o que determinava o número de deputados que deviam representar em Cortes os círculos de Macau e de Timor (1870). As sublevações em Angola, em 1860, também motivaram a sua intervenção porque, conforme declarou, tendo exercido um cargo importante na administração daquela província, não podia ficar silencioso. Aquando da discussão do projecto de lei que alterava a pauta geral dos direitos de importação para géneros e mercadorias, incluindo os produzidos nas províncias ultramarinas, usou da palavra para se manifestar contra a ideia da sobrecarga dos géneros produzidos no Ultramar, e apresentou uma proposta para se considerarem os direitos de exportação do café que fossem pagos nos portos de procedência. Posteriormente apoiou também o projecto de lei autorizando o empréstimo de 800 contos destinado a obras públicas nas províncias ultramarinas. Além das questões ultramarinas sobre as quais interveio amiúde, a mais importante intervenção relacionada com interesses do seu círculo eleitoral, reportou-se à situação das arribas da Ericeira que ameaçavam desabar sobre o oceano.

Por carta régia de 29.12.1881, foi nomeado par do Reino Também nesta Câmara fez parte de numerosas comissões, nomeadamente as da Fazenda (1883 a 1886, 1890), Marinha (1884 a 1886, 1893, 1896), Ultramar (1886, 1887, 1896) e Especial para a Reforma Eleitoral (1884). A sua actividade foi exercida sobretudo nas comissões. Usou da palavra para responder às observações de António Augusto de Aguiar sobre o tratado com a Grã-Bretanha, de 26.1.1878, relativo à Índia portuguesa, esclarecendo, entre outros factos, que o governo português não tinha descurado o assunto e que estava a par de tudo o que se tinha feito. Quando se discutiu o parecer sobre o projecto de lei que autorizava a abertura de um crédito de 481.370$000 réis a favor do Ministério da Marinha e Ultramar, para saldar as despesas das províncias ultramarinas no ano económico de 1882-1883, interveio respondendo às afirmações de Pereira Dias sobre os gastos improdutivos das colónias. Fez um discurso em que lembrou que aquelas províncias faziam parte da Monarquia e por isso havia obrigação de atender às suas necessidades como se fazia na metrópole:

Quem tem colónias tem de prover às suas necessidades

e ainda

a conservação das nossas províncias de além-mar é a conservação da nossa autonomia […]. Pouco valeríamos sem elas, nenhuma consideração merecíamos se as não possuíssemos.

Nos últimos anos da sua vida abandonou a política, dedicando-se apenas ao desempenho das funções de director-geral do Ultramar. Tinha o grau de cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e o de comendador da Ordem de Carlos III (Espanha).

(Fonte deste esboço biográfico: aqui.) Ler ainda a nota fúnebre sobre Francisco Costa, aqui.

30/07/2019

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CASA DE FERRO EM LOURENÇO MARQUES

Este trabalho dedico ao fotógrafo Filipe Branquinho e especialmente à sua Mãe, que recentemente inquiriu, justamente, sobre a Casa de Ferro. Na altura eu pouco mais sabia que ela. Agradeço ainda ao PPT, ao AHM e à Cristina Pereira de Lima, uma filha do Grande Alfredo Pereira de Lima.

A Casa de Ferro, no local onde foi colocada em 1972, tal como se vê hoje.

Então vamos lá.

Introdução

A ideia da construção de edifícios pré-fabricados a partir do fim do Século 18 não surgiu de repente. Resultou de uma combinação de factores: a crescente industrialização, liderada pela Europa e pelos Estados Unidos da América, o surgimento de tecnologias novas, as necessidades surgidas, decorrentes de uma rápida expansão colonial pelos países europeus e nas Américas, e – claro – a guerra.

No caso da casas pré-fabricadas de metal, o aparecimento no Ocidente, das metalúrgicas com enorme capacidade de produção a baixos preços, a invenção em 1829 da chapa de zinco, inventada pelo britânico Henry Robinson Palmer (cuja patente Nº5786, vendeu ao seu carpinteiro Richard Walker, que dela fez várias inovações em termos do seu uso e que expirou em 1843) foram o primeiro passo. O primeiro uso comum de casas pré-fabricadas foi durante a corrida ao ouro na Califórnia em 1849, em que se exportaram para aquela região pequenas casas, armazéns, igrejas, lojas, escritórios, edifícios para a agricultura, etc. A primeira guerra em que foram usadas casas pré-fabricadas em massa foi a Guerra da Crimeia (1853), para as tropas da Grã-Bretanha terem locais secos e seguros para descansarem e guardarem as suas armas e quipamentos. Mas dada a necessidade de poupar ferro, usaram-se muito casas pré-fabricadas em madeira. Mais tarde, a prática – e o conceito – começaram a fazer parte do quotidiano. Na África do Sul, por exemplo, já na década de 1890, era mais comum verem-se casas pré-fabricadas de metal e de madeira que casas de alvernaria construídas de raíz. Aqui, havia uma preferência pelas casas em metal, pela simples razão que estas podiam ser novamente, e facilmente, desmontadas e montadas noutro local. Ainda assim, no exército britânico, permaneceu uma preferência pelo uso de tendas de pano para alojar as tropas, que foram usadas em ambas as guerras para colonizarem os territórios dos boers. Sendo que, no entanto, durante a talvez mais tenebrosa fase da segunda guerra anglo boer (1899-1902), em que os britânicos, abominavelmente recorreram ao uso de um enorme e complexo sistema de “blockhouses” reforçadas, estas foram pré-fabricadas numa combinação de materiais pré-fabricados de madeira e zinco. Cerca de oito mil foram construídas. Ao mesmo tempo, colocaram milhares de mulheres e crianças boer dentro de tendas de pano em campos de concentração em plena planície no interior da actual África do Sul (para chantagear os guerrilheiros boer que continuavam a assediar as suas tropas), tendo milhares morrido pelas tenebrosas condições e que marcou o imaginário do povo boer até estes dias.

Para além de pretender suprir as necessidades dos impérios britânico e americano na segunda metade do Século XIX, foram exportadas casas pré-fabricadas para África, nomeadamente para o Congo Belga, e as colónias francesas.

O caso português foi ligeiramente diferente, pois, com a vaga excepção de São Tomé e Príncipe, na altura em que o cacau local era uma espécie de ouro negro, obtida nas costas dos locais e de gentes importadas do continente africano, e que fez um punhado de milionários portugas, os portugueses fizeram quase rigorosamente nada nas suas colónias, em parte porque praticamente não houve qualquer emigração para as suas colónias, nem havia dinheiro, nem público nem privado. A meu ver, este constitui o grande “excepcionalismo” colonial português: os portugueses (e aqui falo do Estado e do sector privado, não das pessoas) não fizeram nada na África que supostamente era “sua” e o pouco que fizeram, quando fizeram, habitualmente foi tarde, a más horas e nem sequer tentaram envolver as pessoas locais.

Enfim.

A Casa de Ferro dos Primos

Curiosamente, há também uma “casa de ferro” no centro de Luanda, mas esta é absolutamente espectacular e foi espectacularmente restaurada (penso que por aquela empresa brasileira que andou na corrupção e em que todos os seus donos foram dentro lá no Brasil, a mando da Endiama, e custou uns meros 70 milhões de dólares, o que deve querer dizer que ali devem ter sido gastos 10 milhões pelo menos). Mas esta casa, que os Primos chamam Palácio de Ferro, nem sequer foi encomendada. Foi lá parar por puro acaso, um navio qualquer que por lá passou descarregou as peças e aquilo lá ficou, tendo sido comprada por uma companhia colonial que operava em Angola, a CCA. Penso que foi a sua sede durannte uns anos.

 

O Palácio de Ferro em Luanda. Dizem os jornais que foi mandado restaurar pela Endiama para ser um museu do Diamante (ah ah) mas depois de perceberem que não dava, pois devem ter percebido que os diamantes voavam dali para fora em minutos, ofereceram o imóvel ao Ministério Angolano da Cultura, que o vai usar como centro de arte contemporânea. Foto com vénia a Duarte Villas e ao Novojornal em Luanda. Vagamente, faz lembrar a original residência do Governador-Geral de Moçambique em Lourenço Marques, que depois foi apressadamente substituída pelo mastodonte que está hoje na Ponta Vermelha, para receber Oscar Carmona na sua viisita de 1939.

O Caso de Moçambique

No caso de Moçambique, por volta de 1870, as únicas “cidades” com um mínimo que se possa referir – vagamente – como urbanizações organizadas, eram Moçambique (a Ilha) e o Ibo. E ambas, tal como Luanda no outro lado, já eram centenárias e portanto quase medievais. Mas a partir de 1890, quando os britânicos basicamente “caíram” por cima dos portugueses por causa do acesso das suas colónias ao mar, duas novas urbanizações surgiram em Moçambique quase a partir do nada: Lourenço Marques e a Beira.

A pressão foi muito maior no caso de Lourenço Marques, que, de um momento para o outro, se tornou no novo epicentro económico, administrativo, militar e político da colónia. Alvo de todas as cobiças, especialmente de Cecil Rhodes, dos Boers e dos britânicos, os portugueses cedo perceberam que ou controlavam minimamente aquele território, ou o perdiam.

Implausivamente, e apesar do episódico incidente entre o régulo Mataca, que degolou o Tenente Valadim, e um conjunto de revoltas e sublevações, e à custa de alguma medida de ocupação militar, conseguiram um simulacro de ausência de conflito, que foi algo sorrateiramente considerado pelas restantes potências europeias como bastantes e estando em conformidade com os termos acordados em Fevereiro de 1886, na Conferência de Berlim, para a ocupação de África.

Lourenço Marques em Obras

De facto, em Lourenço Marques a tremenda “vassourada urbanística” começara antes, em meados da década de 1870. Para além da Sentença de Mac-Mahon em 24 de Julho de 1875, que, incrivelmente, a Grâ Bretanha, relutantemente, acatou (vingou-se em 1890), houve pouco depois um incêndio na Vila que quase a destruiu (as construções eram quase todas de madeira) e na altura já se percebia que alguma coisa tinha que se fazer ali pois tudo apontava para a necessidade de ali se fazer um porto a sério e uma linha de caminho de ferro para os domínios boer e britânicos a Oeste.

Para sorte dos futuros moçambicanos, em 7 de Março de 1877 desembarcou em Lourenço Marques um homem digamos que providencial: Joaquim José Machado. Um engenheiro que, com uma equipa capaz e com iniciativa, lançou mãos à obra e, nos anos que se seguiram, moldou a urbe que encontraram passando de uma espelunca para uma futura grande capital africana. Em sua honra, eventualmente a actual Praça 25 de Junho se chamaria 7 de Março, em honra destes homens.

Em 1892 Lourenço Marques tinha um problema peculiar. Tendo sido concluído o (mais um…) acordo com os imperialistas britânicos quanto ao formato, mais ou menos final, da futura colónia portuguesa, estando já em curso a construção da linha de caminho de ferro entre Lourenço Marques e Pretória (inaugurada no início de Julho de 1895), prevendo-se a construção do futuro porto, ali ao lado, e ainda o enorme boom no outro lado da fronteira por causa das descobertas de ouro no Witwatersrand e em Barberton (este segundo um falso alarme, digamos), previa-se que a Cidade iria crescer, a sério.

Uma Casa para Sua Excelência

Nessa altura a capital administrativa da nascente colónia ficava a dois mil quilómetros a Norte e era Moçambique (a ilha), que tinha as suas amenidades: um confortável palácio para S.Exa. o Senhor Governador-Geral e a sua excelsa família, escolas, hospitais, lojas, igrejas q.b., serviços administrativos, serviço de telégrafo para Lisboa, embarcadouro, uma brutal fortaleza, edifícios, jardins, praças. Enfim, para o padrão da altura podia-se considerar um sítio “civilizado”.

Na verdadeira espelunca nojenta, insalubre e desoladora que era Lourenço Marques (mas já tinha telégrafo) a única coisa que havia era um hospital militar (que ficava mais ou menos onde hoje estão as escadas da Sé Catedral), ao lado uma igreja meio esquisita ao lado (católica mas com traça anglicana, para variar) e uma modesta, pindérica casa de alvernaria (a primeira da cidade, supostamente) estrategicamente situada no lado oposto da Praça 7 de Março (a actual 25 de Junho), que servia como residência do exmo. Senhor Governador do Distrito. Essa edificação hoje é o Museu da Moeda de Moçambique). Ou seja, a casa ficava no meio do que era então a pequena cidade, ao pé da zona de desembarque original, ao lado do enorme pântano que separava a cidade dos terrenos circundantes (as encostas do Maé e da Maxaquene). Mais grave, a Praça 7 de Março de repente tornara-se o centro social e recreativo da Cidade, apinhada de gente aos fins de semana, banda a tocar, copos de vinho, barulho, confusão a tempo inteiro.

E aqui em 1892 começa a história da Casa de Ferro de Lourenço Marques, mesmo antes de Gungunhana e as suas tribos aliadas tentarem, em Outubro de 1894, fazer uma investida na pequena cidade do Sul da Colónia, motivando a vinda de, entre outros, o Sr. António Ennes e um obscuro major, Mouzinho de Albuquerque.

Casa Precisa-se

Nesse ido ano de 1892, alguém na Ilha de Moçambique, ligado ao gabinete de S.Exa o Senhor Governador-Geral, na altura o insigne Rafael Jácome de Andrade, teve a ideia peregrina de que o Senhor Governador do Distrito de Lourenço Marques, o mais alto dignitário no então Distrito mais a Sul da nascente colónia, precisaria, com urgência, de uma nova casa, noutro sítio talvez menos denso e insalubre e mais digno do estatuto de Sua Excelência.

E quem era o Governador do Distrito de Lourenço Marques entre 1890 e 1892?

Um tal Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque.

Pois, esse mesmo.

E, ainda, esse alguém se lembrou que talvez o melhor e mais expedito fosse encomendar na Europa, uma casa pré-fabricada, e mandar trazê-la para Lourenço Marques.

Segundo uma declaração de Bertrand Lemoine, um arquitecto francês que é considerado um perito na obra de Gustave Eiffel, numa entrevista concedida a Anne-Lise Carlos do jornal parisiense Le Monde (edição de 9 de Agosto de 2019), o presumível responsável pelo desenho e construção da Casa de Ferro é o engenheiro belga Joseph Danly, na sua fábrica Societé Annonyme des Forges d’Aiseau, na Bélgica.

Sucede que o Governador do Distrito de Lourenço Marques(João Canto e Castro, anos mais tarde 5º presidente da I República portuguesa, durante cerca de um ano, após o assassinato de Sidónio Pais) e sucessor de Mouzinho de Albuquerque, disse que não queria viver numa casa de ferro. Portanto o erário pagara uma casa pré-fabricada que não servia e a que urgia dar uso diverso.

A casa pré-fabricada em Lourenço Marques.

 

A Casa de Ferro manteve quase exactamente o aspecto original que tinha em 1892.

 

Esta foi a nova residência para uso pelo Governador do Distrito de Lourenço Marques. Imagem de 1901 (em A Souvenir of Lourenço Marques).

O que se segue é contado por Alfredo Pereira de Lima no seu Edifícios Históricos de Lourenço Marques e ainda, paulatina e muito chatamente, por Eduardo de Noronha no seu vôo rasante sobre o Sul de Moçambique, publicado em 1895, intitulado O Districto de Lourenço Marques e a África do Sul, que ele considerou um “estudo” e que o Exmo. Leitor pode ler a partir da ligação que inseri nas notas em baixo.

Segundo o Alfredo Pereira de Lima, Rafael de Andrade ainda tentou resolver o assunto ali propondo a instalação do tribunal de Lourenço Marques, mas a Câmara opôs-se. Após umas trocas de galhardetes, Eduardo de Noronha conta como foi:

O governador geral, Raphael de Andrade, ofereceu em 16 de março de 1893, ao bispo de Himéria [o célebre António Barroso que viria a dar o nome a um conhecido colégio de Lourenço Marques], a casa de ferro que se tinha mandado vir da Bélgica com destino á residência do governador, e que nunca fora aproveitada, a fim de ali se installar um estabelecimento de beneficiencia.

A portaria nº133 de 21 desse mesmo mez e anno, cria um instituto de ensino para o sexo feminino, regido por irmãs hospitaleiras; denomina-o de Dona Amélia, em homenagem a Sua Majestade a Rainha; entrega-lhe um fundo de 500.000 réis e manda que a Câmara Municipal pague um subsidio de 300.000 réis, determinando que as reparações sejam feitas por conta das Obras Públicas.

O instituto foi inaugurado com toda a pompa [18 de Agosto de 1895, cinco meses antes da Batalha de Marracuene] , assistindo á cerimónia as auctoridades, vereadores, funccionarios de todas as categorias e muito povo.

O Fernando prossegue, um pouco mais lírico, o seu relato:

A creação deste estabelecimento [representa] incontestavelmente um grande progresso; as religiosas que exercem uma das missões mais simpathicas da colónia, tem sabido chamar a si as creancinhas, e no seu affectuoso trato, que não conhece raças nem distingue cores, transformam aquelles entes, votados a uma boçal ignorância, em seres aproveitáveis, que serão um dia mães, e que ensinarão aos filhos o amor por si, amor que lhes foi inoculado pela catechese sensata o meiga das caritativas senhoras.

Dá gosto entrar ali. Na sala ampla, alta, arejada, echôa um chilrear de sons infantis, escalas alegres de gargalhadas crystallinas, que o olhar bondoso da professora não consegue reprimir. Distribuídos pelas carteiras, ou apinhados n’um grupo em volta da pedra, aquellas becas azougadas formam como que um tapete matizado das mais caprichosas cores; ali uma pretinha retinta, aqui uma mulata, acolá uma mestiça, alem uma india, mais perto uma chineza,
longe uma branca, e n’esta gradação de tons, a emoldurar-lhes os rostos buliçosos e joviaes, rtas e crespas carapinhas, cabellos annellados, tranças corredias, cabelleiras naturalmente fri- das. O vestuário typico e bizarro concorre poderosamente para o eflfeito geral; esta ostenta da capulana garrida onde predomina o vermelho, aquella cinge-se num quimão -, aqueiroutra daça o pescoço com grossas fiadas de missanga multicolor ; a maior parte traja á europêa, preferindo sempre os tecidos vistosos; ao fundo, as irmãs, envoltas no austero habito azul, rosário mdente, toalha de neve a circumdar-lhe a face.

Ha ali uma recordação vaga da familia, uma saudade intensa das caricias que nos fizeram a pequenos, um respeito que nos empolga, uma veneração que nos subjuga. A espada pesa mais que de costume, o tilintar do ferro desagrada, o fardamento incommoda, os conhecimentos militares fogem, varre-se da alma a profissão ; ha uma vontade quasi irresistível de começar a beijar toda aquella creançada, tão diversa na sua origem ; experimenta-se a cominoçUo indefinida de uma cousa que se sente e se não explica, e sem querermos, saímos d’ali com a convicção que aquellas duas mulheres, sós, expatriadas, abandonando as suas mais caras affeições, tendo por norma o progresso, por bordilo a crença, por alvo a civilisação, valem mais do que todo um exército.

Santa paciência com esta escrita do Século XIX.

Mesmo antes de ser despachada para as irmãs caritativas, ainda se tentou antes a ideia de ali se fazer um tribunal. Só que na altura tinha-se aparafusado a casa num sítio que na altura ficava não só situado nos confins da Cidade, como num sítio particularmente poeirento e arenoso e com um acesso digamos que questionável. Ir lá a pé ou de carroça era uma verdadeiro suplício. Todos protestaram ruidosamente, incluindo os senhores do tribunal, que achavam ser uma vergonha ter o tribunal da Cidade num edifício daqueles. Por isso, ficou o tal de Instituto Dona Amélia, que todos, como o nosso Fernando em cima, elogiaram carpidamente, safando o Governo da Colónia de mais uma barraca.

Entra Escola, sai Escola, entram Serviços Geográficos e Cadastrais

E assim seria até à I República em 1910, quando, no espasmo de raiva anticlerical e rigor republicano que caracterizaria o novo regime português, as freiras foram corridas dali e o nome da rainha Amélia apeado. O ensino era tirado à Igreja e revertia para o controlo do Estado – uma das suas mais estridentes bandeiras. Fez-se então ali uma escola pública, entregando-se a sua utilização à mais republicana e maçónica Sociedade de Instrução e Beneficiência 1º de Janeiro, que ali operou, por uns tempos a Escola João de Deus (em homenagem ao então defunto e lendário criador da Cartilha Maternal).

Entre 1912 e 1918, ali funcionou, provisoriamente, o primeiro Liceu da Cidade (e penso que de Moçambique) a que deram o nome da data do golpe de Estado republicano: 5 de Outubro.

Com o crescimento da população, foram-se fazendo edifícios para escolas e eventualmente ali instalaram no edifício a Agrimensura, mais tarde designada Direcção dos Serviços Geográficos e Cadastrais de Moçambique, .

Durante as décadas que se seguiram, a Casa de Ferro fez, feia e com aquele aspecto esquisito de pré-fabricado aparafusado,  o seu serviço, discreta senão completamente esquecida, enfiada dentro de um obscuro quarteirão algures na Encosta entre a Baixa e o Alto-Maé. No início dos anos 60, só mesmo quem trabalhava ou ia fisicamente à Direcção Provincial dos Serviços Geográficos e Cadastrais, é que tinha uma mínima noção de que havia ali um edifício esquisito e meio decrépito, feito de ferro. Ninguém sabia o que era e de onde via. Era mais uma velharia de Lourenço Marques.

Jorge, um topógrafo geómetra, actualmente reformado, trabalhando na Casa de Ferro, então situada no jardim exterior da Direcção dos Serviços Geográficos e Cadastrais de Moçambique, em Lourenço Marques, com os seus colegas Silva Carvalho e Pimentel, anos 60. Imagem copiada e retocada, com vénia, do seu blogue Azimute.

A Casa de Ferro era mais ou menos desconhecida em parte porque ficava num sítio perfeitamente escondido da Cidade, quase apenas conhecido dos empregados e frequentadores da velha Agrimensura. Poucos sequer sabiam da sua existência, mais um dos seus muitos exotismos arquitectónicos – e que eram mais do que muitos, desde palacetes exóticos a deslumbrantes e humildes casas de zinco e madeira com rendilhados e cores exuberantes, a simples mas encantadoras palhotas de caniço.

A intervenção de Alfredo Pereira de Lima e da Comissão dos Monumentos Históricos de Lourenço Marques

Tudo o que hoje sabemos e vemos na Casa de Ferro se deve, na minha opinião, a uma pessoa: Alfredo Pereira de Lima. Que, por isso, merece aqui o destaque que lhe dou.

Mais do que a Comissão dos Monumentos Naturais e Relíquias da Cidade, a que pertenceu, foi Pereira de Lima que não só reabilitou o assunto da Casa de Ferro, documentando o seu percurso e o seu lugarzinho na história da Cidade, como ainda foi ele que, ao longo de mais uma década, escrevendo cartas e artigos no Notícias de Lourenço Marques, se bateu pela reabilitação e valorização da Casa de Ferro, e, não menos importante, a sua relocalização para um lugar de destaque na Cidade, e o seu aproveitamento histórico e turístico.

O que sucedeu foi que, penso que em meados dos anos 60 os Serviços Geográficos e Cadastrais fizeram novas instalações. Nesse processo, desmontou-se a então já algo decrépita Casa de Ferro, cujas partes, algumas meio enferrujadas, foram colocadas num canto dum terreno camarário. Provavelmente não fosse Pereira de Lima, então historiador dos Caminhos de Ferro de Moçambique (e o autor do mais incontornável, autoritativo e absolutamente magnífico trabalho sobre a história dos CFM, que se confunde com a própria construção do País) estas linhas nunca seriam escritas.

Como referi, parte do problema original é que quase ninguém em Lourenço Marques sequer conhecia o edifício. A razão é a sua localização original:

Mapa de LM de 1903, a que dei uma martelada para ilustrar porque é que quase ninguém sabia da Casa de Ferro no final da década de 1960.  A – localização da Casa de Ferro até ao início da década de 1960, antes de ser desmontada, enfiada no meio de um quarteirão no meio de nenhures; B – localização onde foi colocada para alojar o Museu dos Serviços Geográficos e Cadastrais de Moçambique em 1972, em plena Avenida Dom Luiz, tornando-se numa referência turística. Outras curiosidades: 1 – a original Igreja de NS da Conceição; 2 – Residência do Cônsul da Grâ-Bretanha; 3 – Hotel Clube; 4 – Casa do Pott, junto ao Jardim Botânico de LM, a Verde; 5 – Bazar de Lm na Praça Vasco da Gama; 6 -Avenida Buildings; 7- Prisão, depois Imprensa Nacional; 8 -Paiol; 9- Câmara Municipal; 10 – Mesquita Velha; 11 – primeira casa de alvernaria de LM e residência do Governador do Distrito (agora “Casa Amarela”); 12 – Praça Azeredo, futura Praça Mac-Mahon e agora Praça dos Trabalhadores; 13 – Casa dos Azulejos; 14 – Praça 7 de Março, actual Praça 25 de Junho; e 15 – Presídio de Lourenço Marques, junto do qual existiu o Capitania Building e a que agora chamam (à obra de Pancho Guedes) “fortaleza”.

Penso que o toque de génio, foi a combinação do levantamento histórico, do restauro, da relocalização e o uso como museu, estiveram na base do sucesso e valorização patrimonial da Casa de Ferro.

A entrada do Jardim vasco da Gama, final da década de 1950. À esquerda, o terreno onde se ergueria, no início da década de 1970, a Casa de Ferro. Nesta altura era basicamente um quintal murado de uma casa.

Vendida a ideia e assegurados os fundos para o projecto, as componentes da Casa de Ferro foram cuidadosamente restauradas, arranjou-se um terreno bem localizado numa ponta do quarteirão onde está situado o Hotel Club, bem mais no centro da Cidade e muitíssimo mais visível. Os Serviços Geográficos e Cadastrais organizaram um museu (supostamente em homenagem a Gago Coutinho, entre outras coisas um excelente topógrafo que ajudou a delimitar as fronteiras do que hoje é Moçambique).

A Casa de Ferro a ser novamente montada após o restauro das peças, no terreno junto à entrada do Jardim Vasco da Gama, 1971.

 

Aspecto do interior do edifício a ser reconstruído. Note-se que todas as peças estavam numeradas.

O rés-do-chão acabado. Ao fundo o Prédio do Montepio (ou da TAP).

A Casa concluída e pronta a inaugurar, 1972.

Dia da inauguração do novo Museu da Cidade, penso que Outubro de 1972. O Governador-Geral, Eng. Pimentel dos Santos, chega ao local e é cumprimentado por pessoas que não identifiquei.

O Governador-Geral de Moçambique visita o nnovo Museu da Cidade.

O Governador-Geral sai do edifício após a inauguração.

Interior do Museu, 1972.

Outra imagem do interior.

Interior.

Interior, 1972.

Interior, 1972.

Notas Finais

Após a independência a Frelimo, ao que parece, desmantelou o museu. O edifício em seguida teve usos diversos e penso que agora é usado por um organismo do Estado moçambicano.

No entanto, a sua valorização enquanto monumento manteve-se e hoje é um local de visita quase obrigatório para a única indústria que tem alguma chance de ajudar os moçambicanos: o turismo.

Se a Casa de Ferro ainda existe, muito se deve a um conjunto de interessados com visão, de que se realça a intervenção de Alfredo Pereira de Lima (que também desempenhou um papel importante na preservação das chamadas Fortaleza e Casa Amarela). O passado da grande capital de Moçambique, que é colonial na sua parte edificada, merece respeito, merece ser estudado e preservado. Pois é parte integrante da história do país e quem não sabe de onde veio, dificilmente sabe para onde vai.

Existem alguns líricos que, por razões que não entendo, inventaram a história de que o engenheiro e empresário francês Gustave Eiffel (ver a biografia dele na ligação em baixo) teve alguma coisa a ver com a Casa de Ferro. Ao que apurei, isso é completamente falso. Como é totalmente falso que Eiffel terá tido seja o que for a ver com a cúpula da Estação dos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques. O que se sabe é que o edifício foi mandado vir da Bélgica onde de facto havia na altura fábricas que as faziam, mas de momento nem se sabe em qual foi fabricado. Se o exmo Leitor quiser ver obras de Eiffel viaje até Portugal, onde há várias obras da sua autoria, de que destaco, claro, a Ponte Dona Maria Pia na Cidade do Porto, que não só é da sua autoria como foi uma obra crucial para a sua carreira.

Interior da entrada da Casa de Ferro, recentemente. O mobiliário é, no mínimo, questionável.

 

FONTES E DADOS ADICIONAIS

http://housesofmaputo.blogspot.com/2016/01/casa-de-ferro-institutos-d-amelia-e.html

Click to access 146463385.pdf

https://pt.wikipedia.org/wiki/Gustave_Eiffel

https://archive.org/stream/odistrictodelou00norogoog/odistrictodelou00norogoog_djvu.txt

https://kanimambo-carlos.blogspot.com/2014/01/africa-mocambique-13.html

https://sgcmocambique.blogspot.com/

Alfredo Pereira de Lima, Edifícios Históricos de Lourenço Marques.

29/07/2019

OS EFEITOS DO CICLONE CLAUDE NA ENCOSTA DA MAXAQUENE EM LOURENÇO MARQUES, 1966

O Ciclone Claude, que se abateu sobre a zona de Lourenço Marques em Janeiro de 1966, teve um considerável impacto sobre a Cidade. Um deles, que me recordo relativamente bem (tinha seis anos de idade) foi que não houve água canalizada em toda a Cidade durante vários dias. Para colmatar a falta de água canalizada, durante dias eu lembro-me de tomarmos banho no quintal com baldes de água, tirada de bidons que o meu Pai tinha colocado nas caleiras de recolha da água da chuva do telhado. Pouco tempo depois, o meu Pai mandara construir um depósito de água com dois mil litros, sobre a varanda de trás da casa onde habitávamos na Rua dos Aviadores (e onde eu, à sucapa, em dias quentes, ia tomar banho às escondidas). De facto, penso que em resultado do Claude, tornou-se mandatório, ou pelo menos habitual, todos os prédios da Cidade terem depósitos de água.

Mas o impacto mais visível,, para mim, que ali passava todos os dias quando ia de casa nadar para a piscina do Desportivo, foi o desabar da Barreira da Maxaquene, situada entre o Hotel Cardoso e a ponta do Liceu Salazar (o agora Josina Machel). Foi uma pequena calamidade. Anteriormente, a Barreira da Maxaquene era mesmo uma barreira – mal se podia passar ali, pois a vegetação ali era mato cerrado. Havia apenas umas duas ou três passagens que permitiam uma pessoa descer até à zona do Sporting e do Desportivo.

E a orla da Barreira ficava situada muito mais à frente do que se vê actualmente e era muito mais íngreme. Tanto assim que o terreno onde está o pequeno jardim em frente ao Liceu era muito maior e ali havia um excelente miradouro sobre a parte Baixa da Cidade e a Baía.

A Barreira da Maxaquene em frente ao Liceu Salazar antes do Ciclone Claude, que aconteceu em Janeiro de 1966. Veja a mesma imagem em baixo, anotada.

O Claude mudou isso tudo e instalou o caos virtual, pois o mato ali cedeu e a barreira desabou para o Aterro da Maxaquene, criando uma situação instável na parte alta da Cidade.

A linha vermelha indica, aproximadamente, os efeitos do Ciclone Claude. O então Parque Silva Pereira ficou praticamente cortado em metade, desaparecendo o seu Miradouro (ver nº6). Outras anotações: 1) Liceus Salazar e Dona Ana da Costa Portugal; 2) Museu Álvaro de Castro; 3) Praça das Descobertas; 4) Hotel Cardoso; 5) Parque Silva Pereira.

Levou uns dois a três anos à Câmara Municipal a encontrar uma solução para o problema, que passou pela criação de uma nova barreira mais inclinada, coberta com um matope barrento cinzento escuro no qual crescia uma erva resistente, com linhas horizontais de captação de água, que iam desembocar em linhas descendentes de cimento, que escoavam as águas pluviais em segurança.

Na parte de cima da Barreira, foi desde logo esboçado um acesso viário, que futuramente deveria descer da Praça das Descobertas para a zona do campo de futebol do Desportivo (e que nunca foi construído). Foi esse acesso que resultou na destruição do miradouro do então Parque Silva Pereira e na sua considerável diminuição.

Assim, em 1968, ao contrário das restantes barreiras na orla da Baixa e da Estrada Marginal, a Barreira da Maxaquene não tinha qualquer vegetação para além do que acima descrevo, o que até deu para ali realizar algo de original: a exibição de uma peça de teatro, penso que um Auto de Natal, na base da Barreira, vista por milhares de residentes da Cidade, penso que em Dezembro de 1968, em que a multidão se sentava na Barreira. Foi durante o primeiro ano do mandato de Baltazar Rebelo de Sousa e se não me engano a iniciativa fora da sua Mulher.

As Barreiras da Maxaquene em obras após o desastre do Ciclone Claude, cerca de 1966-1967. A seguir aos trabalhos de terraplanagem, foi instalado um sistema de irrigação de águas pluviais. Foi neste preciso local que se realizou o tal Auto de Natal de que falo em cima.

17/07/2019

A ACLAMAÇÃO DO REI DOM MANUEL II EM LOURENÇO MARQUES, 1908

Imagem retocada, da revista Ilustração Portuguesa, 1908.

 

As cerimónias fúnebres por D. Carlos I, assassinado com o seu filho o Príncipe Luiz Filipe, em Lisboa no dia 1 de Fevereiro de 1908, e a aclamação de D. Manuel II,  em frente à então Câmara Municipal de Lourenço Marques, 1908.

03/07/2019

O FACHO OLÍMPICO USADO NA INAUGURAÇÃO DO ESTÁDIO SALAZAR EM LOURENÇO MARQUES

Dedicado ao grande blog Big Slam.

Imagem retocada do então Presidente da República portuguesa, Almirante Américo Tomás, com atletas, a acender o facho olímpico que mais tarde figurou memoravelmente na inauguração solene do Estádio Salazar, em Lourenço Marques, a 30 de Junho de 1968, quando o Grande José Magalhães desfilou perante a audiência de 50 mil espectadores e com o mesmo facho acendido por Américo Tomás, acendeu a pira olímpica do novo recinto desportivo. A cerimónia do acendimento do facho decorreu durante as festas comemorativas do XI centenário da presúria de Portugale por Vímara Peres, que, creio aconteceu no Porto. Fonte: Arquivo Municipal do Porto.

Claro que isto tresandava a colonialismo e fascismo etc e tal. Mas na altura foi giro, presume-se. Eu tinha oito anos de idade mas só me lembro de ter ido de comboio para o estádio (entre a estção dos CFLM e um apeadeiro perto do estádio), da enorme confusão e pouco mais.

Nota histórica: em 868 AD, Vimara Peres, um nativo do Reino das Astúrias, foi elevado a primeiro Conde do Condado Portucalense, território então capturado (“presuriado”) aos muçulmanos locais e tornado num condado, uma unidade territorial e administrativa medieval, que era regida pelo conde e que por sua vez reconhecia a ascendência do rei – e que eram cristãos. Vimara Peres logo fundou um lugarejo de onde governava o seu Condado, a que chamou Vimaranis – que eventualmente se tornou na actual Cidade de Guimarães. Morreu em 873. Os seus descendentes seriam condes de Portucale até 1071, quando Nuno Mendes, o último conde, morreu numa batalha contra uns galegos.  Tudo isto bem antes de Afonso Henriques e os seus Pais.

Agora, o que tem Vimara Peres a ver com o estádio Salazar….pois. Não percebo.

 

Américo Tomás entrega a um atleta o facho que seria usado na inauguração do Estádio Salazar em Lourenço Marques, no outro lado do mundo.

 

José Magalhães entra e percorre o Estádio Salazar segurando o facho acendido por Américo Tomás, até subir à pira olímpica, que acende exactamente às 15 horas e 15 minutos daquele domingo, 30 de Junho de 1968. Imagino que, subsequentemente, o José nunca mais ouviu o fim da história da parte dos frelos que se seguiram – e que usaram o mesmo estádio – cujo nome foi mudado imediatamente – para proclamar a independência formal da colónia, sete anos mais tarde, no início do dia 25 de Junho de 1975.

29/06/2019

EDITORIAL DE FERNANDO TITO MARTINS NO JORNAL “DEMOCRACIA” DE LOURENÇO MARQUES, 1934

Imagens retocadas, gentilmente cedidas por Fernando Martins, neto de Fernando Tito Martins.

 

A primeira página da edição de Democracia de 5ªfeira, 18 de Janeiro de 1934, publicado em Lourenço Marques e cujo dono e editor era Fernando Tito Martins. Este jornal, ostensivamente de oposição à crescente ditadura do Estado Novo, e que se fazia sentir em Moçambique, será publicado durante dois anos, entre 1933 e 1935, precisamente os três anos em que a ditadura aperta o cerco em todo o país, especialmente aos republicanos e democratas. Lourenço Marques não foi excepção, malgrado as distâncias. A Universidade de Coimbra tem as cópias todas deste jornal de Tito Martins, que merecem ser estudadas para se entender a dinnâmica da época,

 

O editorial da mesma edição, ampliado para melhor leitura, defendendo o direito dos cidadãos a combaterem a tirania dos governantes. Leia-se Salazar.

 

O Avô de Fernando Martins, em Nampula, penso que num bar que explorava, anos 60.

26/06/2019

O MINISTRO DAS COLÓNIAS DE PORTUGAL VISITA INHAMBANE, 1932

Imagens retocadas, gentilemente cedidas por Luis Deveza Portugal, neto de Luiz Portugal, que aparece com a sua mulher, na fotografia.

Armindo Monteiro, aqui ministro português das Colónias em 1932 (sentado, 5º a contar da esquerda), merece uma curta nota. Um indivíduo culto, sofisticado e cosmopolita, formado durante a 1ª República e que a sobreviveu politicamente, terá sido efectiamente a “concorrência” de Salazar pelo cargo de primeiro ministro (ele foi nomeado precisamente em 1932) e o principal mencionável para o substituir, excepto que a Velha Raposa o driblou sucessivamente (a começar pelo cargo de ministro das Colónias entre 1931 e 1935, depois de ter sido uma espécie de adjunto do ditador nas Finanças), depois ministro dos Negócios Estrangeiros, até o afastar em 1943, altura em que Monteiro foi exonerado do cargo de embaixador em Londres (1937-1943) para um confortável cargo de administração (em Lisboa) na Refinaria Colonial, uma empresa da “moçambicana” Sena Sugar Estates. Para um esboço biográfico mais completo de Armindo Monteiro, ver aqui.

 

A comitiva ministerial, que inclui essencialmente a equipa do ministro e acompanhantes e ainda os pesos pesados da asministração da Colónia de Moçambique, posa para uma fotografia no jardim da residência do Governador Distrital em Inhambane, 1932. Para identificar as pessoas, ver a nota em baixo. O Avô do Luiz está de pé à direita, a Avó é a senhora sentada mais à direita. Não consegui apurar se o Tenente de Cavalaria F. da Silva Pais é o (mais tarde) big boss da PIDE. Pois supreendi-me de não encontrar qualquer referência curricular do Major Fernando Silva Pais.

 

A lista que legenda a fotografia

22/06/2019

ÁLVARO DE CASTRO, GOVERNADOR-GERAL DE MOÇAMBIQUE, 1915-1918

Imagem retocada.

O texto original veio da Enciclopédia Portuguesa e Brasileira de Cultura, vol. III, pág. 229, mas foi muito significativamente editado por mim.

Álvaro de Castro.

 

Esboço Biográfico

Álvaro Xavier de Castro nasceu na Cidade da Guarda em 9 de Novembro de 1878, filho do Dr. José de Castro e de Maria Benedita de Castro Pignatelli.

Acabou o curso de oficial de infantaria em 1901, o curso de Direito em 1908 e ainda um terceiro curso que pelos vistos havia naquela altura, o de Assuntos Coloniais, em 1911, aqui já com 33 anos de idade.

Republicano convicto desde cedo (ou seja, anti-monarquia constitucional, que era o regime português até 5 de Outubro de 1910), colaborou na Revista Nova e na Arte e Vida, participando activamente em conspirações republicanas contra os Bragança em Coimbra em 1908 e em 1910.

Após o golpe militar que derrubou o Rei D. Manuel II, Álvaro foi feito deputado na Assembleia Constituinte de 1911, integrando o chamado grupo dos «Jovens Turcos», sendo ministro da Justiça no governo de Afonso Costa, em Janeiro de 1913 e ministro das Finanças no governo de Azevedo Coutinho, em Dezembro de 1914.

Foi uma das figuras que liderou a chamada Revolução de 14 de Maio de 1915 que, tendo provocado um banho de sangue em Lisboa, conseguiu derrubar o governo da altura, de Pimenta de Castro.

Nomeado então, como todos os outros dirigentes revolucionários, para postos chaves que permitissem levar a uma participação activa de Portugal na I Guerra Mundial, assim consolidando a periclitante república com uma mobilização e um banho de sangue, foi nomeado Governador-Geral de Moçambique nesse mesmo ano, substituindo Alfredo Baptista Coelho e assumindo o cargo em 31 de Outubro de 1915 na colónia onde, desde o final de 1914, os alemães assediavam a meia dúzia de portugueses lá em Cabo Delgado. Mais tarde, e adicionalmente, assumiria mesmo o comando das forças expedicionárias portuguesas em Moçambique, em Abril de 1917, após a demissão do general Ferreira Gil, em 24 de Dezembro de 1916.

Ainda não estudei o que é que exactamente ele andou a fazer em Moçambique entre 1915 e 1918, para além de se meter na questão da guerra com os alemães, que, aliás, essencialmente, foi mais ou menos o mesmo que a maior parte da chamada guerra colonial: era uma coisa qualquer, perdida lá nos confins do Norte, no meio do mato, de que se ouvia dizer qualquer coisa em Lourenço Marques, e em que quase todos os mortos (uns expressivos cinco mil) viriam a morrer de picadas de mosquitos, de acidentes, de ataques de feras, de má nutrição e da falta de tudo um pouco.

E isto tudo, basicamente, no caso de Moçambique, por causa de um tal genial alemão, Paul Emil von Lettow-Vorbeck e um punhado de Askaris, que vieram da colónia alemã a Norte de Moçambique.

Em 2016, por causa do apresamento dos navios alemães atracados em vários portos portugueses, neutrais, entre os quais Lourenço Marques e penso que na Beira (foram divididos com os britânicos) o Império alemão declarou guerra a Portugal. Foi uma formalidade: os alemães andavam aos tiros com os portugueses em Angola e Moçambique há já algum tempo.

Em 17 de Dezembro de 1917 Álvaro demitiu-se do cargo de Governador-Geral de Moçambique (sendo sucedido por Pedro Massano de Amorim) devido a mais uma tomada do poder, em Lisboa, desta vez do sedutor e episódico Sidónio Pais, de quem ele não gostava, tendo sido muito activo na Revolta de Santarém, em Janeiro de 1919, desencadeada contra o regime Sidonista, o qual, no entanto, efectivamente, terminara com o súbito assassinato do próprio Sidónio em plena gare da estação ferroviária do Rossio, em Lisboa, em meados de Dezembro de 1918, ou seja um mês depois do fim da Primeira Guerra Mundial e um mês antes da sua revolta.

Politicamente a Primeira República foi uma carnificina abjecta e uma espécie de guerra civil disfarçada, uma nojeira com um nível de violência tal que justificaria a futura ditadura de Salazar e faria o sonâmbulo rotativismo da monarquia parecer quase idílico.

Na altura Álvaro aproveitou os tempos livres que tinha entre cargos e revoltas e escreveu o livro África Oriental Portuguesa [Lisboa, 1918 e que infelizmente ainda não li] e ainda fundou o seu próprio partido político, o Partido Republicano de Reconstituição Nacional – também chamado o «Reconstituinte» – via uma cisão do Partido Democrático, tendo presidido a um governo que durou uns meros dez dias, entre 20 e 30 de Novembro de 1920 e ainda a um outro governo, que durou uns prolongados 6 meses, entre 18 de Dezembro de 1923 e 6 de Julho de 1924 (na Primeira República, certamente para tirar o mau sabor do rotativismo burguês e porreiraço da monarquia, havia novos governos quase semanalmente, parecia).

Álvaro de Castro ainda viria a ser nomeado Governador-Geral de Moçambique por mais duas vezes, em 1919 e em 1926, mas em ambos os casos, expeditamente, recusou, antes de ser empossado.

Após o golpe militar e a memorável marcha de Braga para Lisboa (mas claro) levado a cabo pelo venerando Marechal Gomes da Costa em 28 de Maio de 1926, Castro foi prontamente detido e internado numa prisão em Elvas, donde se conseguiu evadir, exilando-se na capital francesa, Paris. Tendo eventualmente adoecido gravemente, pediu autorização para regressar ao seu país, tendo já chegado moribundo a sua casa, na Cidade de Coimbra, vindo a morrer poucos dias depois, a 29 de Junho de 1928, com apenas 49 anos de idade.

Penso que, para além do seu nome em tempos adornar um museu na Polana, havia uma rua em Lourenço Marques com o seu nome.

O Museu Álvaro de Castro. Quando lhe foi dada a designação, Álvaro de Castro já havia falecido há sete anos.

 

Informação adicional

Para obter mais detalhes sobre Álvaro de Castro, sugiro a leitura de Álvaro de Castro – Jovem Turco da República, da autoria de Ana Catarina Pinto [Lisboa, edit pela Assembleia da República, 2014, 240 pp].

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