THE DELAGOA BAY WORLD

25/08/2017

AS PORTAS PRINCIPAIS DE ACESSO À VILA DE LOURENÇO MARQUES, 1870: UMA EVOCAÇÃO

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O original desta fotografia penso que está alojado no Arquivo Histórico de Moçambique. Foi retocada por mim.

Grato ao Vasco Freitas pela ajuda.

 

Esta era a entrada principal na Vila de Lourenço Marques, cerca de 1870, a única realmente em que se podia entrar e sair de carroça e que ligava à Estrada de Lydemburgo, o único acesso por terra ao hinterland sul-africano. Virada para Norte, atravessava um curto matagal/sapal que enchia com água salgada da Baía quando a maré subia…….

 

Esta era a entrada principal na Vila de Lourenço Marques, cerca de 1870, a única realmente em que se podia entrar e sair de carroça e que ligava à Estrada de Lydemburgo, então o único acesso por terra ao hinterland sul-africano.

Virada para Norte, atravessava um curto matagal/sapal que enchia com água salgada da Baía quando a maré subia. Era um nojo infernal e fedorento, cheio de mosquitos e caranguejos, especialmente nos verões quentes e sufocantes, entre Novembro e Março de cada ano, e o pessoal residente metade do tempo ou andava bêbado ou de cama com malária, cuja taxa de mortalidade era significativa. Os ingleses, então os Donos do Mundo, colonizadores informais e semi-oficiais de Portugal no Séc. XIX e patrocinadores oficiais do delírio imperial português na África Austral, ficavam em estado de choque com os que consideravam degradantes hábitos dos portugueses (exceptuando os dos Bragança e do Marquês de Soveral) e a sua capacidade de conviverem com as restantes raças inferiores em espaços urbanos já de si confinados e miserandos, nas condições mais imundas – e em proximidade! Um horror.

Para além de Lourenço Marques ser em 1870 uma miserável, lamentável e densa agremiação de palhotas e casinhas de madeira implantadas na língua de terra plana e arenosa (arderam quase todas num memorável incêndio exactamente cinco anos depois desta foto ter sido tirada, após o que se decidiu chutar com o pessoal maioritariamente negro das palhotas para fora de muralhas e passar a ser tudo construído em pedra e cal) a população da pequena Vila era para os Brits um perigoso, enigmático e insalubre cocktail de gentes de todas as côres, cheiros, religiões e proveniências (africanos, americanos, boers, ingleses, portugueses, baneanes, monhés, chineses) a viverem em condições que fariam qualquer imperial victoriano corar em pânico.

Sem saneamento, a água tirada duns poços e nascentes meio duvidosos escavados por perto, e – claro – o latente “perigo tribal negro” ali mesmo do outro lado do pântano nas colinas do Maé e da Maxaquene, a Vila era um objectivo militar e económico interessante e se calhar desejável para as tribos locais, que quando não estavam literalmente à estalada umas com as outras pelas mais mirabulantes razões, achavam por bem visitar o pequeno posto comercial marítimo de vez em quando, surpreendentemente bem armados, para, alternadamente, negociar alguns termos de comércio melhores (o comércio era baseado essencialmente na troca de produtos e serviços) ou meramente para o tentar saquear, caso fosse oportuno.

Naquela altura nenhum nativo naquelas paragens sonhava o que era “Moçambique” e muito menos onde é que ficava. “Moçambique” era a pequena Ilha de Moçambique. Não sabiam o que era o colonialismo, não tinham a mínima noção de que os brancos que por ali apareciam tinham a mania que eram da Raça Superior, que a sua terra poderia vir a ser conquistada a tiro de metralhadora, não tinham complexos de inferioridade de qualquer espécie e muito menos promoviam saraus com diálogos líricos sobre a igualdade e a fraternidade entre os homens, onde se distribuíam biscoitos e se liam poemas do Mia Couto.

Mas conheciam bem o punhado roufenho de portugueses que por ali insistia em ficar, conheciam os boers, os ingleses e, claro, o grande Albasini, que era uma espécie de Indiana Jones lusotrópico, enriquecendo com peles, pólvora e cachaça.

E naturalmente, naquela altura, um pouco como acontece agora, qualquer branco basicamente era carne para canhão, a não ser que ali houvesse business. E mesmo aí.

As únicas protecções relativas de que as maioritariamente almas perdidas que da Vila traficavam para os territórios boer e o hinterland dispunham, eram, a Sul, a língua de areia que confrontava a Baía, precariamente guardada pela dúbia eficácia dos suspeitos canhões da inepta guarnição encostada numa ponta da Praia do Albasini, que era onde se situava o pindérico Presídio de Nossa Senhora da Conceição, e, do outro lado a “muralha” que se pode ver nos lados das colunas que partem da entrada que aparece nesta fotografia (ah ah ah).

E ainda, claro, o próprio pântano, que, para além de ser uma fétida fonte de morte e insalubridade, infelizmente, insistia em vazar diariamente com as marés.

Mapa de 1876. A bolinha sinaliza a localização da entrada na foto em cima, que, segundo o Vasco, ficava mais ou menos junto da esquina do Scala/Avenida Buildings.

Mas melhores tempos viriam. Desde o início do Século XIX e após os milandos com os Boers no Cabo, os patrões britânicos tinha analisado os mapas e no fundo queriam aquilo para cintar e controlar os Boers que tinham migrado para o Norte, e a baía poderia vir a dar um excelente porto para a marinha britânica e assim proporcionar um acesso melhor aos negócios dos Boers e à região situada a Norte do Cabo – onde, providencialmente, num buraco qualquer a que vieram a chamar Kimberley, se descobriria, por volta da altura em que se tirou esta foto, o maior e mais rico filão de diamantes que já se encontrou num só ponto na História do Mundo.

Surpreendentemente, tiveram azar por uns tempos. Benevolentes, os ingleses aceitaram submeter o assunto da posse dos territórios na parte Sul da Baía mais Inhaca e Ilha dos Elefantes, que decorria há alguns anos, a arbitragem internacional – e lixaram-se. Em meados de 1875, um francês, Mac-Mahon, ditou que as redondezas da pequena Vila desgraçadamente fortificada, afinal pertenciam por direito aos delapidados quasi-súbditos latinos do Império Britânico, o que lhes dava o (extremamente) irritante direito de ali impôr as suas leis e especialmente, os seus impostos. E tudo em língua portuguesa!

E, o que ainda era pior, de permitir aos temíveis Boers, acederem ao mar sem terem que lhes pedir licença.

Providencialmente, em 1877, de Lisboa, Andrade Corvo, um ministro da fase da Rotação, mandou por navio um punhado de engenheiros liderados por um jovem e brilhante engenheiro, o Tenete-Coronel de Engenharia Joaquim José Machado, para a pestilenta mas estratégica Vila, cuja primeira reacção ao chegar de canoa à Cidade, no dia 7 de Março de 1877, praticamente, foi conspirar de imediato para aterrar o fétido pântano em redor da língua de terra junto à margem Norte da Baía.

Pouco depois, começou a verdadeira ópera de se montar um esquema qualquer para se construir uma linha férrea entre a infecunda localidade junto da Baía do Espírito Santo e a pequena capital Boer, a pacata Pretória. O projecto levaria quase vinte anos a realizar, com umas guerras pelo meio e tanta vigarice pegada e esquemas tipo PPP, e corrupção, que faria o governo socialista português de José Sócrates, cem anos mais tarde, parecer um conjunto de meninas de coro a debater a respectiva virgindade.

Não ajudava a fechar o assunto que, em Portugal, os governos caíam sucessiva, alegre, estrondosa e rapidamente, ano após ano, providenciando aos seus súbditos uma espécie de gestão nacional aos soluços.

Em Lisboa, para se manter o foco nas coisas, ainda em 1875, uns iluminados mas descapitalizados colonialistas de sofá criaram na Baixa a Sociedade de Geografia, onde, entre passes de charuto e copos de whisky, liam Livingstone e sonhavam a sua riqueza, debruçados sobre um gigantesco mapa de África.

Uma ilustração de uma obra de Augusto de Castilho, de 1881, mostrando a pequena Vila de Lourenço Marques, cercada a Norte pelo Pântano da Maxaquene, com a estrada que a ligava a terra firme, podendo-se ver a Muralha e a entrada com as duas colunas de 5 metros de altura.

Entretanto, em 1879, enquanto o Império Que Nunca Dorme tentava ligar Londres ao Cabo por linha de telégrafo submarino (altíssima tecnologia na altura), a pequena Vila de Lourenço Marques seria contemplada com …. a sua própria estação telegráfica! um assombro, quiçá pouco útil para os locais, mas assaz interessante para os navios que ali atracavam e os empresários de sucesso que por ali passavam. Ao governador da espelunca e ao cônsul da Sua Britânica Majestade, era permitido mandar os seus relatórios para Londres e Lisboa via Londres, por SMS, com desconto. Os ingleses liam, displicentes e divertidos, os relatórios confidenciais dos portugueses.

Mas o momento em que tudo mudou verdadeiramente para a pequena urbe foi quando, em 1886, aconteceu mais uma vez o simplesmente inacreditável: um dia, ali a 600 quilómetros, num obscuro canto rural do Transvaal boer, numa quinta perto de Pretória, se descobriu o maior filão de ouro que jamais se viu na História do Mundo (pois).

E para se chegar lá, de forma segura, rápida e eficiente a partir do mar, só havia uma forma ideal: pela Baía do Espírito Santo, através da infecunda, malcheirosa, indefensável vilória “portuguesa” de Lourenço Marques.

Todos logo se posicionaram para o negócio do Século, mas eis que, depois de, numa única e rápida visita a Lisboa, ter corrompido tudo e todos e sacado a cobiçada concessão ferroviária, o Coronel Edward Macmurdo, um americano bem conectado em Londres e Washington, nada menos, montou uma operação financeira tipo Dívida Ematum e já estava no processo de montar uma linha férrea para a ainda indefinida fronteira boer. Esta acabaria por ser definida junto de um corte nos Montes Libombos por onde passava um rio, o Incomáti, mas na altura ainda ninguém sabia isso, excepto, talvez, um tal de Ressano Garcia.

No entanto Macmurdo morre subitamente de um AVC, principalmente por causa do stress de ter que aturar os portugueses, que ofenderam tudo e todos ao inventarem um esquema para lhe confiscarem a concessão (a linha para Pretória seria concluída por Joaquim José Machado e a sua equipa) mas não sem antes publicar – pasme-se – a mais lida, a mais lírica e a mais linda História de Portugal, em dois volumes. Também ajudou nas vendas que praticamente era a única história de Portugal publicada em inglês, claro.

Em Lourenço Marques, alguns anos antes, um intrépido português, de nome Fernandes Piedade, entretanto, já tomara a inédita e corajosa decisão de se tornar no primeiro branco a morar fora das “muralhas” da Vila, numa casinha mesmo ali defronte numa encosta da Maxaquene, perto da qual pouco depois os britânicos, que nunca gostaram de se misturar com os locais, edificaram o seu consulado – qu ainda está lá. Tavez para os chatearem, os portugueses locais edificaram a sua nova “catedral” mesmo em frente ao consulado. De costas para o consulado. E mesmo atrás do Consulado, a nova sede da Polícia.

Surpreendentemente, os nativos tribais permaneceriam impassíveis. Por enquanto.

Um escasso ano volvido após a descoberta do ouro no Transvaal, o rei dos portugueses, Luis Primeiro, decreta que a espelunca, com a sua meia dúzia de portugueses sitiados num mar de nativos e de estrangeiros de todas as proveniências, passava a ser uma Cidade Portuguesa, dotada com, para além do exaltado estatuto de município e uma bandeira, e os seus próprios orgãos municipais, a segunda Cidade a seguir a Moçambique, que, lá nos confins da costa a Norte, era uma ilha a sério, e a primeira a ser constituída na África Oriental Portuguesa.

Na verdade, nada daquilo funcionava e meia dúzia de iluminados decidiam tudo, em alegre conluio com as personalidades de negócios locais e o Sr. governador. O que era preciso é que todos ganhassem algum. Em casos de dúvidas, mandava-se um telegrama para Lisboa.

Lourenço Marques crescia, mas agora sem o seu pântano, a sua muralha e os seus portões, ficava exposta.

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