THE DELAGOA BAY WORLD

04/08/2020

A HISTÓRIA DA VILLA MARGHERITA EM LOURENÇO MARQUES

Imagens retocadas.

A Villa Margherita que é, actualmente, e desde 1992, mais conhecida como o algo estranho edifício que actualmente aloja o Museu Nacional da Geologia em Maputo, tem uma história interessante – do pouco que se sabe e que relato em seguida.

A Villa Margherita na sua versão actual enquanto museu, a sua fachada pintada da cor de sanitário de quarto de banho e os muros originais substituídos por muros de arame simples.

Margherita foi uma mulher real que viveu durante décadas e que morreu em Lourenço Marques. Uma súbdita Italiana, nascida e criada em Cairo, no Egipto, no final do Século XIX, foi, supostamente, amante de um italiano que teve que ver com os Buccellatto (suponho que não o Giuseppe. O que me constou é que a sua ligação era com um dos arquitectos, também italiano, que Buccellatto contratou na altura para algumas das suas obras) e que a trouxe para Lourenço Marques, onde prosperava uma pequena mas  vibrante comunidade italiana, e lhe construiu a e ofereceu o confortável chalet num recanto agradável da Polana, um terreno de esquina onde se cruzavam a Avenida 24 de Julho e a Rua Fernandes Tomás (agora Avenida dos Mártires da Machava).

No topo da fachada à entrada da moradia, colocou o nome da sua dona e primeira habitante: Villa Margherita.

A fachada original da Villa Margherita, então nova. Note-se o nome por que ficou conhecida a casa, afixado no topo do varandim de entrada. Fotografia do espólio de Arlindo Malosso, retocada por mim.

Margherita nunca casou e não teve filhos.

A casa, construída no final da década de 1910, é ao estilo revivalista árabe rococó, muito condicente com o passado e perfil exótico da encantadora italiana que o foi habitar e ainda muito em voga no início do Século XX, quando se viviam em Itália momentos de enorme paixão e atenção pela cultura e arte do antigo Egipto.

Ali, Margherita viveu em algum esplendor durante mais que três décadas, lá para o fim mais esforçadamente, por falta de dinheiro e os efeitos da PDI.

O exterior da casa era completamente diferente daquilo que se vê hoje, profusamente colorida, pintada entre um amarelo casca de ovo apagado, intersectando com vibrantes faixas pintadas a vermelho tijolo, com um muro a condizer.

A Villa Margherita, tal como se apresentava originalmente, cerca de 1927, com as cores originais (mais ou menos). Imagem de um dos álbuns Rufino, colorida por mim com base no testemunho de Suzete Malosso, que conheceu Margherita e que foi proprietária do imóvel durante mais que vinte anos.

Margherita tinha duas sobrinhas que também viviam em Lourenço Marques. Foi com elas com quem foi viver, já velhinha, depois de eventualmente vender a casa – em 24 de Abril de 1952 – a um empresário local, chamado Arlindo Malosso. Malosso, filho dum italiano de Treviso (uma cidade meio austríaca situada relativamente perto de Veneza) e de uma portuguesa, já nascida em Moçambique . Eles eram amigos há muitos anos e Margherita vendeu-lhe o imóvel porque precisava de dinheiro.

Durante os vinte anos seguintes, a casa iria permanecer virtualmente fechada.

Por morte de Arlindo Malosso, em 1963, a Villa foi herdada pelo seu único filho, Arlindo do Vale Malosso.

Durante um ano e tal, em meados dos anos 60, a casa chegou a ser habitada por uma sul africana de origem italiana que em Pretória era vizinha do lendário General Jan Smuts, a Mrs. Brack. Na altura ela pertencia a uma família da high society de Pretória, daquelas que passavam sempre férias em Lourenço Marques no verão e que conhecia bem os Malosso, que tinham sido educados na África do Sul, que falavam fluentemente inglês e que visitavam aquele país com alguma assiduidade.

Mas o episódio Brack acabou por ser uma pequena aventura. Naquele ano (meados dos anos 60) ela alugara duas barracas na Praia da Polana, mas os filhos dela apanharam malária (foram tratados pelo Dr . Reis Costa). Um dia, a D. Suzete, mulher de Arlindo Malosso, levou a Sra Brack à casa (na Polana havia menos mosquitos)e disse-lhe que se calhar ela ali estaria mais segura com os filhos que nas palhotas junto dos mosquitos na praia. A casa estava fechada há anos, cheia de pó e a precisar de uma pintura e de algumas reparações. A Mrs. Brack imediatamente apaixonou-se pela casa e literalmente mudou-se para lá e procedeu a uma reabilitação. Logo de seguida, mandou vir da África do Sul quadros enormes, toalhas, lençóis, cortinas, loiças e mobílias e restaurou e decorou a casa, ali se instalando em renovado esplendor. Digamos que quando Arlindo Malosso eventualmente quis a casa de volta para a vender, foi uma pequena complicação tirá-la de lá, mesmo atendendo ao facto que o uso da casa fora concedido para umas curtas férias e gratuitamente. A Senhora Brack, que era suposta permanecer na Villa Margherita apenas por um período curto, de férias, com a família, foi ficando. Mas eventualmente saíu.

(A Sra Brack tinha vários filhos, um deles teve um negócio de exportação de flores e outro uma suinicultura. Não sei os seus nomes. Alguns devem estar vivos ainda mas não os conheço nem sei onde estão. Adoraria descobrir o seu paradeiro e falar com eles).

Tirando esse episódio singular e algo rocambolesco, a casa permaneceu sempre vaga.

Entretanto os tempos mudaram. No início dos anos 60 a construção e especulação imobiliária em Lourenço Marques era muito forte, pois o governo português pelos vistos achava que a era colonial era para durar mais umas décadazitas. A economia da então Província estava a crescer a níveis espectaculares, atraíndo muita mão de obra, principalmente de Portugal, e na capital havia uma enorme carência de habitações.

A decisão de quem então mandava era que a Cidade iria crescer na vertical. E em força.

Entre as áreas mais alvo dessa pressão especulativa eram, precisamente, as propriedades que circundavam os dois lados da Avenida 24 de Julho, em parte porque, derivado da forma como a cidade cresceu, regra geral os lotes de terreno eram enormes (mil a dois mil metros quadrados cada) permitindo a Câmara Municipal ali a edificação de prédios de apartamentos de grande volumetria, com até vinte andares de altura e até 60 apartamentos cada um, que depois podiam ser vendidos e alugados aos novos residentes, que vinham para atender ao enorme crescimento na actividade económica que então se observava na Cidade.

Foi um ver se te avias. Nos vinte anos que decorreram antre 1955 e 1975, a cidade “explodiu” em crescimento, mais visível na Baixa, e nas Avenidas 24 de Julho e António Ennes (actual Av. Dr. Julius Nyerere). Mas não só: a Somershield, o Bairro da Coop, Bairro do Triunfo, Matola, surgiram quase do nada nesta altura.

Quase tudo bairros de e para brancos, a maior parte deles portugueses.

Em redor da chamada Cidade de Cimento, por sua vez, dezenas de milhares de pessoas, a maioria pobre e sem educação, vindas do interior, tentavam a sua sorte e a sua quota parte do “milagre económico” em curso, versão colonial, radicando-se no Xipamanine, nas Mahotas, Benfica, Malhangalene, Chamanculo, Machava, Mafalala, Alto Maé. Surgia e afirmava-se a Cidade do Caniço, mais precária por comparação mas melhor que o abandono do mato, culturalmente não menos exuberante. Após a independência, a análise desta dicotomia racial/económica/social iria alimentar muitas e esotéricas, se insípidas, teses de doutoramento, escritas por académicos estrangeiros, empenhados em dissecar as miríades vicissitudes e injustiças do colonialismo português.

De facto, até ao início da década de 1960, a Cidade estava cheia de verdadeiras jóias de arquitectura, edificadas nas primeiras quatro décadas do Século XX, tais como a Villa Margherita, que (a meu ver, criminalmente) foram quase todas demolidas ou deformadas, para dar lugar aos horrendos “caixotes” de cimento que foram sendo erguidos pela Cidade.

No caso da Villa Margherita, para além de Arlindo do Vale Malosso ter a boa fortuna de ser abastado e não se sentir pressionado para ali construir depressa, erguendo mais um prédio de vinte andares indistinto, houve um “problema”, que no fim foi o que ajudou a salvar o imóvel: na óptica de Arlindo Malosso, apesar de uma localização excelente, excepcionalmente, acontecia que o lote onde a Villa Margherita estava implantada tinha uma dimensão de menos que mil metros quadrados. Ora, o que ele queria mesmo era edificar ali um grande edifício e que exigia uma área de implantação maior que o tamanho do lote onde estava a Villa podia comportar. Ele ainda entou adquirir um terreno vizinho (e o edifício, uma casa geminada) imediatamente atrás da Villa, mas não conseguiu o acordo dos seus proprietários, que ali residiam há décadas. Por essa razão, o assunto foi sendo empurrado para a frente e nada acontecia.

À esquerda, a Villa Margherita, em 1968, quando ainda era propriedade de Arlindo do Vale Malosso. Nesta altura a casa estava novamente em bom estado o seu exterior todo pintado de amarelo creme apagado,, devido à “ocupação” e restauro pela Mrs. Brack.

A casa, entretanto desocupada, e então já suscitando a curiosidade de quem por ali passava pelo seu exotismo arquitectónico, degradou-se lentamente, sendo, no início dos anos 70, já uma magnífica e digna semi-ruína. Eu lembro-me perfeitamente de uma vez ter lá ido, com cerca de dez anos de idade (entrei pela cave com um vizinho da rua) e de arrancar dois belos azulejos azuis da parede da cozinha, decorados magnificamente com motivos florais em azul, que logo a seguir ofereci ao casal Zéca e Jorge Mealha, os dois simpáticos artistas mais ou menos residentes no Núcleo de Arte e com cujos filhos eu então me dava e com quem estudava na Escola Primária Rebelo da Silva, ali a dois quarteirões. Como cresci numa casa na Rua dos Aviadores (actual Rua da Argélia, onde hoje é o nº267) e fiz toda a escola primária na Rebelo da Silva (a actual Escola Primária 3 de Fevereiro) literalmente passava mesmo à porta da Villa Marguerita (e da Vila Algarve, o que é outra história) todos os dias quando ia e vinha da escola, durante cinco anos seguidos.

No início dos anos 70, pouco antes da independência, Arlindo do Vale Malosso, que tinha vários outros projectos em mão, entre eles, nomeadamente, o gigantesco projecto do Bairro do Trevo, à entrada da Matola, decidiu vender a Villa Margherita, que herdara do Pai, a outro empresário, cujo nome desconheço.

E essa foi a segunda razão porque a casa sobreviveu. É que, entretanto com as mudanças radicais ocorridas a seguir a 1974, a propriedade privada foi esmagadoramente “nacionalizada” (o termo legal correcto é “confiscada”, pois, que eu saiba, ninguém pagou nada a ninguém) e ali ficou a apodrecer, inabitada, até à genial decisão do governo do dia de a reabilitar e ali instalar o Museu Nacional de Geologia, a partir do espólio de um outro museu (o Museu Freire de Andrade) cujo nome foi prontamente expurgado.

Pessoalmente, acho o imóvel totalmente inadequado para ser um museu, muito menos para um tema como a geologia de Moçambique. Do (muito) pouco que sei da verdadeiramente espectacular geologia de Moçambique, o país devia, porque tem matéria para isso, ter um museu com vinte vezes a dimensão do que deve estar lá dentro da antiga casa onde viveu a simpática D. Margherita (e já que o gás é um recurso geológico, esse novo museu devia ser pago com uma generosa contribuição por parte da ENI, da Total e afins, pois que para eles isso seria troco).

Mais faria sentido ser entregue à Cidade, declarado património protegido e ali operar um pequeno centro cultural com leituras de poesias, exposições de pintura e reuniões do BIM. Ou para um Private do Mozabanco, que acho que ainda não tem um.

Mais: a casa deveria ser restaurada para a sua traça original (ver em cima a fotografia a côres) pois representa um património que caracterizou uma fase do crescimento da Cidade que é a capital de Moçambique e que ajuda a contar e ilustrar esse percurso. Pintar aquilo de branco cor de sanita é perder metade do efeito.

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