THE DELAGOA BAY WORLD

13/08/2019

A IGREJA PAROQUIAL E O HOSPITAL CIVIL E MILITAR EM LOURENÇO MARQUES, 1897

Imagem retocada.

 

A Igreja Paroquial (início da construção, 1878) e o Hospital Civil e Militar (início da construção: 1877) em Lourenço Marques, imagem de 1897. A Igreja ficava situada onde está hoje a sede da Rádio Moçambique e o Hospital onde hoje está a escadaria da Sé Catedral. Ambos foram construídos pela “expedição” de Joaquim José Machado e ambos foram posteriormente demolidos no âmbito de um profunda reestruturação da geografia da Cidade. Esta é a única imagem que conheço em que ambos edifícios aparecem ao mesmo tempo.

03/09/2012

OS CORREIOS E A REPARTIÇÃO DAS OBRAS PÚBLICAS DE LOURENÇO MARQUES, 1892

O edifício meio estranho à direita, e que ficava situado na então Avenida Dom Carlos (mais tarde Avenida da República, hoje 25 de Setembro) mais ou menos onde hoje fica situada a central dos Correios, e o Café Scala, foi a Repartição das Obras Públicas dirigida pelo lendário Joaquim José Machado e responsável pelo visionário desenho para a cidade. Ao lado ficavam os correios da cidade, que na altura se cingia à actual baixa. O original desta fotografia, que restaurei parcialmente, está nos arquivos reais da Holanda. Para ver a fotografia em tamanho muito maior, prima na imagem com o rato do computador.

22/02/2012

JOAQUIM JOSÉ MACHADO, O ARQUITECTO DE LOURENÇO MARQUES

Filed under: Joaquim José Machado, PESSOAS — ABM @ 02:19

 

Busto de JJ Machado em Lisboa

Busto de Joaquim José Machado, recentemente colocado em Lisboa. Imagem da Câmara Municipal de Lisboa.

Um breve “cut and paste” sobre este grande Senhor:

1. Nasceu em Lagos, Portugal, no dia 24 de Setembro de 1847.

2. Morreu em Lisboa no dia 22 de Fevereiro de 1925.

3. Resume o sítio Camacupa:

“Se há um nome emblemático para o período moderno da presença portuguesa em Moçambique (o período que sucede ao antigo regime e põe o acento nas Obras Públicas) esse nome é o de Joaquim José Machado. Major de engenharia, foi escolhido para chefiar a Expedição das Obras Públicas em Moçambique pelo grande impulsionador da nova política colonial, o ministro Andrade Corvo. Desembarcou em Lourenço Marques a 7 de Março de 1877. Organizou e instalou os Serviços de Obras Públicas na então Província de Moçambique. Foi a Joaquim José Machado e aos serviços que chefiou que se ficaram a dever algumas das obras mais espectaculares que ainda hoje se observam em Moçambique. As primeiras das quais serão os Caminhos de Ferro e o traçado da cidade de Lourenço Marques. Foi Joaquim José Machado quem elaborou o projecto de ligação ferroviária entre Lourenço Marques e Pretória e quem dirigiu a sua construção[na sequência da nacionalização da obra do norte-americano Coronel Macmurdo, 1889]. Entre as muitas outras obras realizadas pela Expedição que chefiava destaca-se o Hospital da Ilha de Moçambique, conjunto de edifícios de particular qualidade arquitectónica e, para a época e lugar, realização de engenharia admirável. Saiu da Colónia de Moçambique no final da missão mas a ela regressaria como Governador dos Territórios da Companhia de Moçambique primeiro e como Governador da Província depois. Então General foi Governador-Geral de Moçambique por três vezes: 1889-1891, 1900, 1914-1915.” Sobre o General Machado um bom amigo, que dele descende, contou-me em tempos um episódio. Paul Kruger, que viria a nomear [a localidade sul-africana de ] Machadodorp em sua honra, ofereceu-lhe honorários (paralelos) pelo seu trabalho na construção da ligação ferroviária Pretória-Lourenço Marques (Delagoa Bay). E, se se atender a que esta era a época da explosão da exploração de diamantes, tais pagamentos nunca poderiam ser modestos. Ao que o General respondeu, recusando, “O que Portugal me paga é suficiente!”. Dizia o meu amigo, saudavelmente orgulhoso do seu antepassado, e de quem, diga-se, herdou uma bela dignidade, “Era um oficial à antiga! “. “Hum, não era “, respondi-lhe, “Era um oficial à moderna. Antes os oficiais vinham para África para enriquecer (com todo o tipo de tráfico) “. Concordámos.”

4. Em Angola, empreendeu a construção de uma ligação ferroviária entre Moçâmedes e a Província de Bié e foi director das Obras Públicas de Moçâmedes.

5.Também desempenhou o cargo de governador da Companhia de Moçambique.

6. Entre 1897 e 1900, foi o 110.º Governador da Índia Portuguesa. Em 1902, data em que detinha o título de conselheiro, viajou para Londres para discutir as tarifas do Caminho de Ferro de Mormugão, na Índia, e fez parte de uma comissão para a gestão daquela ligação ferroviária.

7. A Escola Preparatória General Machado em Lourenço Marques tinha o nome dele.

8. Acho que foi casado com uma açoriana, mas preciso de confirmar.

9. Na tropa (era engenheiro) chegou a General.

10. Tinha o título de “Conselheiro”, que não sei bem o que significava.

11. Na edição de 23 de Fevereiro de 2017 da Revista Visão, o António Lobo Antunes, um Bisneto de Joaquim José Machado, descreve assim as suas memórias familiares:

A minha avó adorava o pai e nós adorávamo-la a ela, a quem chamávamos Avô Querida. Às vezes, quando nos visitava na Praia das Maçãs, gostava de jogar um bocadinho de bilhar connosco como quando, em adolescente, jogava com o pai, na sala de bilhar do palacete onde moravam, perto de Benfica.

Eu tenho o maior orgulho no meu sangue. Quer do lado da minha mãe quer do lado do meu pai venho de camponeses muito pobres e o meu brasão só tem enxadas. Do lado da minha mãe do Algarve, perto de Lagos, onde o meu trisavô trabalhava no campo e o patrão dele achou que o filho era esperto e resolveu pagar-lhe os estudos. O meu bisavô, que se chamava Joaquim José Machado conseguiu, sabe Deus com que dificuldades, matricular-se na Escola de Guerra e tornar-se oficial de Engenharia. Daí em diante a sua carreira foi extraordinária: construiu o Caminho de Ferro de Benguela, ainda jovem capitão, que uniu uma costa de África à outra, terminando na Beira, onde a minha Avó  (para nós sempre chamada de Avó Querida) nasceu, foi mandando ir os irmãos e pagando-lhes os estudos, foi feito Sir pela Rainha Victoria, foi governador de Moçambique, foi governador da Índia, foi Alto Comissário, etc., etc., no fim da guerra dos Boers acolheu em sua casa em Lourenço Marques o Presidente Kruger, recusando-se a entregá-lo aos ingleses.

(A minha Avó contava que, muito criança, antes de ir para a cama, o pai mandava-a beijar a mão do Presidente.)

Recebeu todas as condecorações possíveis e imaginárias, desde a Torre & Espada às mais altas honras chinesas pela sua intervenção na Questão de Macau, foi feito Sir pela Rainha Victoria, deixou cidades com o seu nome em Angola, Moçambique e África do Sul, pelo menos, foi uma figura importantíssima do nosso país e tenho pena de não ter fixado melhor o que a minha Avó contava do pai, ela que se chamava Margarida da Beira e cuja mãe, a minha bisavô Mariana, era um a senhora de origem social muito superior à do marido. A minha Avó adorava o pai e nós adorávamo-la a ela, a quem chamávamos Avó Querida. Às vezes, quando nos visitava na Praia das 
Maçãs, gostava de jogar um bocadinho de bilhar connosco como quando, em adolescente, jogava com o pai, na sala de bilhar do palacete onde moravam, perto de Benfica. A Avó Querida, muito alta, de grandes olhos azuis, continua a ser um dos maiores amores da minha vida, bonita, forte, inteligentíssima e encheu a minha existência de ternura e paixão. Margarida da Beira, minha Senhora, continuo a amá-la como desde que me lembro de existir. Foi o General Machado quem fez Lourenço Marques, actual Maputo, e podia continuar a falar dele durante páginas e páginas, desse homem excepcional filho de um pobre camponês analfabeto, mas tenho que deixar o espaço que falta para o resto do meu sangue, agora do lado do meu pai. A história, aí, começa no Minho, Póvoa de Lanhoso, Frades, onde um outro pobre camponês analfabeto pegou no filho de 12 anos e, para o salvar da miséria, meteu-o, sozinho, num veleiro para o Brasil, onde a criança não conhecia ninguém. Imagine-se um garoto a desembarcar no Rio sem, literalmente, nada. Deve ter arranjado, sei lá como, um trabalho qualquer, não imagino o quê, e foi subindo devagarinho na direcção da Amazónia, de emprego humilde em emprego humilde, até ao norte, onde a borracha e o negócio da borracha começavam a crescer. Chamava-se Bernardo António Antunes e devia ser um rapaz corajoso e cheio de iniciativa porque, ainda adolescente, principiou a prosperar. Casou com uma senhora chamada Josefina e enriqueceu, ao que parece, com rapidez, ao ponto de mandar lavar a roupa a França e fazer anualmente tratamentos de águas em Vichy. Tornou-se riquíssimo, o Imperador fê-lo Visconde da Nazaré, mandou muito dinheiro para a sua terra e quis vir morrer a Portugal. Boa parte dos terrenos onde são agora o Rio e São Paulo pertenciam-lhe. Um dos seus filhos, João de Brito Antunes, meu bisavô, casou com uma senhora chamada Leopoldina (nome muito comum na época por ser o da Imperatriz), Leopoldina Danin Lobo, filha de Bruno Álvares Lobo e foi em Jerusalém, quando lá estive a receber um Prémio, que um velho genealogista israelita, antigo hóspede de campos de concentração nazis, me contou a saga dos Lobos, judeus que emigraram para a Holanda no fim do século XVI, para fugirem à Inquisição, e acabaram no Brasil. O meu querido avô, António Lobo Antunes, bem como os seus irmãos, João, Joaquim, Leopoldina e Isabel, foram os primeiros Lobo Antunes. Lembro-me de garrafas de vinho do Porto com o rótulo do 
Visconde e da garrafa que o meu avô guardou anos e anos para abrir no dia da minha maioridade, porque eu era o futuro visconde. Para grande mágoa sua o vinho estava estragado. Claro que o meu avô e os irmãos tiveram uma vida de estadão e que o Avô Visconde era a grande referência da família. O meu avô mostrava-me sempre o anel (“Quando eu morrer és tu quem o vai usar”) e claro que quase não usei, era grande e pesado, passei-o para a minha filha mais velha que o deve ter guardado numa gaveta qualquer porque nos estávamos todos nas tintas para as viscondices, o meu pai, eu e a Zezinha. O avô não, que esteve na revolta de Monsanto e o pagou bem caro, prisão na Penitenciária com os outros oficiais monárquicos e deportação para Tânger, onde não teve uma vida fácil. Permaneceu monárquico toda a vida, foi o homem que mais amei, levou-me a Pádua a fazer a primeira comunhão na Igreja de Santo António, de quem era muito devoto (como eu sou) e encheu-me de amor e ternura. Sem ser especialmente inteligente era um homem excepcional de coragem e bondade e forma, com a minha avó Margarida um par de pessoas que estão sempre comigo e de quem me recordo numa névoa de saudade cheia de lágrimas de amor. A minha mãe contava que uma manhã telefonaram aos meus pais a participarem a morte do meu tio João Lobo Antunes. Era pouco mais que madrugada e ela foi com o meu pai dar a notícia ao meu Avô, que estava ainda a dormir. O meu pai disse ao meu avô

– Pai tenho uma coisa muito triste para dizer

e o meu Avô, em silêncio, ficou de súbito completamente rígido na cama. O meu Pai disse

– O Tio João morreu.

Passado um tempo o meu Avô respondeu-lhe

– Pensava que fosse o António.

e, segundo a minha mãe, ele, que era muito ligado ao irmão, parecia aliviado. Nunca ninguém gostará de mim com tanta intensidade. E dói-me tanto nunca mais o poder abraçar, não sentir a sua boca na minha cara, não sentir os seus braços à volta do meu corpo. Eu sei que não mereço mas, por favor, tome conta de mim. Não: por favor continue a tomar conta de mim, como sei que o faz. Preciso tanto de si e não há maneira de ser grande. Diga-me que sou o seu menino para sempre.

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