THE DELAGOA BAY WORLD

01/06/2016

O QUE MATOU RUI DE NORONHA?

Filed under: Rui de Noronha — ABM @ 16:42

Rui de Noronha

A questão não fui eu que a coloquei.

Vamos por partes.

1ª Parte

Antes de mais, as coordenadas de base, que fui buscar à Wikipédia, (mas às quais tive que dar uma valente martelada editorial):

“Rui de Noronha (Lourenço Marques, 28 de outubro de 1909-25 de Dezembro de 1943) foi um poeta moçambicano.”

“De nome completo António Rui de Noronha, nasceu em Lourenço Marques a 28 de Outubro de 1909. Mestiço, de pai indiano, de origem brâmane, e de mãe negra, foi funcionário público (Serviço de Portos e Caminhos de Ferro) e jornalista. Colaborou na imprensa escrita de Moçambique, nomeadamente n’O Brado Africano, com apenas 17 anos de idade.

À sua produção inicial, que se reduziu a três contos, e que correspondem a uma fase digamos de afirmação literária, seguir-se-á, a partir de 1932 (tinha ele 23 anos de idade) uma intervenção mais activa na vida do jornal, chegando mesmo a integrar o seu corpo directivo.

Uma desilusão amorosa, causada pelo preconceito racial, fez, segundo os seus amigos, com que o escritor se deixasse morrer no hospital da capital de Moçambique, com 34 anos, no dia 25 de Dezembro de 1943.

Sua obra completa está reunida em Os Meus Versos, publicada em 2006, com organização notas e comentários de Fátima Mendonça.

Desde logo o Rui mostrou e deixou transparecer, na sua vida e na sua escrita, um temperamento recolhido, uma personalidade introvertida e amargurada. Foi, sem dúvida, um homem infeliz. Nunca chegou a concretizar um seu grande grande sonho que era publicar um livro com poemas seus.

Essa realização deveu-se mais tarde ao seu antigo professor de francês, o Dr. Domingos Reis Costa, que reuniu, seleccionou e reviu 60 poemas numa edição póstuma, intitulada Sonetos (1946), que foi editado pela Minerva Central.

Incluído em inúmeras antologias estrangeiras – na Rússia, na República Checa, na Holanda, na Itália, nos EUA, na França, na Argélia, na Suécia, no Brasil e em Portugal – Rui de Noronha é hoje considerado o precursor da poesia moderna Moçambicana.

(fim)

Neste pequeno texto não se analisa nem a sua obra nem o seu putativo papel seminal nas actuais letras moçambicanas. Sobre isso já correram rios de tinta, AQUI o exmo. Leitor que ainda não o conhece poderá ler um exemplo decente do que se diz sobre o assunto. Que se resume a, com o que escreveu, ter ele aberto uma brecha africana na muralha virtual branca e portuguesa que era a Lourenço Marques do seu tempo, que só por acaso admitia estar situada algures num canto daquela outra África que mais cedo ou mais tarde viria bater-lhe à porta (oh e se veio). Ainda por cima na língua do colono (hum, que outras línguas saberia ele falar?). Como se soi dizer-se, a minha querida Fátima Mendonça wrote the book on Rui de Noronha – a sua obra. Não a vida dele.

Enfim, a eterna dialéctica dessa inescapável, necessária religião moderna, o nacionalismo. Ou pelo menos a que se publica.

A Noémia, que estava mais dentro do assunto, apercebeu-se disso e, de longe, a posteriori, piscou-lhe o olho num poema. Quase dezassete anos mais nova, jamais falou com ele, se bem que se diz que ela o via passar à frente de sua casa.

Adiante.

2ª parte

Há quatro dias, recebi a seguinte mensagem neste blogue: “Procuro informações sobre Rui de Noronha. Sou seu sobrinho-neto e pouco (ou nada) sei sobre ele, em especial sobre a ‘verdadeira’ causa da sua morte. Meu avô, seu irmão, chamava-se Amâncio Miguel de Noronha.”

Assinava a mensagem o Sr. Carlos Alberto Dias (Noronha) da Silva.

3ª parte

Recapitulemos: jovem não branco na Lourenço Marques colonial (nem sei se há nome para a sua mistura racial), com dotes poéticos literários comprovados, suposta postura proto-nacionalista, escreve umas coisas para O Brado Africano, introvertido, acanhado, sonha em publicar um livrinho de poemas, trabalha nos Portos e Caminhos de Ferro….e de repente “uma desilusão amorosa, causada pelo preconceito racial, fez com que se deixasse morrer no hospital, aos 34 anos, no dia de Natal de 1943.”

Hum.

Segundo a Olga Iglésias, que estudou o assunto da sua biografia -mais ou menos – havia algo mais:

“Sobre a sua biografia sabe-se que nasceu a 28 de Outubro de 1909 no Língamo, em Lourenço Marques, hoje Maputo, tendo sido registado como António Rui de Noronha, filho de José Salvador Roque das Neves Noronha, goês, natural de Loutolim (Goa), escriturário – contabilista da WENELA (Agência de recrutamento de mão-de-obra para as minas da África do Sul), e de Lena Sofia Chiluvane (Florinha), sua primeira mulher, natural da Zululândia. O seu irmão mais velho, Amâncio Miguel de Noronha foi funcionário público, tal como Rui de Noronha o foi nos caminhos de ferro de Lourenço Marques. Da segunda mulher, Luisinha, José Salvador Roque das Neves teve quatro filhos – Luísa Grasmila das Neves Noronha (médica), Aires (contabilista), Edgar (engenheiro químico) e Célia (licenciada em farmácia).

Frequentou a Escola Central Paiva Manso, tendo concluído a instrução primária em 1921, quando tinha doze anos de idade, sendo aluno do professor Vasco da Gama Xavier Dantas da Silva. Mais tarde, frequentou o Liceu Nacional Central 5 de Outubro até ao 5º. ano, sem todavia o ter completado. Era uma aluno muito inteligente, recorda Alexandre Lobato, seu colega e amigo, que testemunha no “O Mundo Português” os hábitos dos estudantes de Coimbra, que caracterizavam o ambiente juvenil do liceu.

Envolvido nesse meio, Rui de Noronha cantava fados de Coimbra e fazia-se acompanhar à viola, sendo notável a interpretação de “A Samaritana”, “A Cruz de Guerra”, entre outras. Destacou-se, como autodidacta no campo musical, aprendendo através de livros sem mestre, tocava viola, guitarra e mais tarde violino. Escreveu os primeiros poemas dedicados aos colegas. Foram amigos dessa fase – Willy Waddington (jornalista), Alexandre Lobato (historiador), Deolinda Martins (médica) e Carlos Simões.

Sobre a [sua] Prosa: Do 1º. Conto – “O Canário” (1926) ao ensaio sobre “A Escravatura” (1935)Como hipótese de sistematização da sua obra, parece-nos que esta pode ser dividida em quatrograndes formas, segundo a temática abordada:1ª. ensaística, fiosófica, humanística – abordagem de binómios: Deus/Homem; Bem/Mal; Vida/Morte e de conceitos-chave da existência humana: Eu/Verdade/Razão;2ª. interventiva, jornalística, polémica – sobre a defesa dos pobres, dos “indígenas” – camponeses, mineiros, carregadores do cais; de crítica social, sobretudo à administração colonial e às mulatas, que nada querendo com os seus irmãos, procuram casar com homens brancos;3ª. política, associativa, utópica – de apelo à participação na Associação Africana para a defesa da causa africana e de belíssimos conselhos sobre a fraternidade e a silidariedade entre os homens;4ª. subjectiva, emocional, sensitiva – de ensaios, como se brotasse a primeira inspiração, numa ideia em rascunho, que mais tarde burilava em novas prosas e poemas.Para além destas quatro formas, parece-nos útil distinguir as várias fases por que passou a sua tão breve vida: 1ª. de 1926 a 1932 – a do jovem poeta e contista “naïf”; 2ª. de 1932 a 1936 – a do jornalista adulto, polémico e interventivo, “proto-nacionalista”; 3ª. de 1936 a 1943 – da fama à decadência, a fase da “desventura”, o que iremos desenvolver em seguida:1ª. O primeiro conto, que se conhece foi publicado n’ O Brado Africano, em 1926, colaborando na secção literária, quando tinha apenas 17 anos de idade. De uma grande ingenuidade, o conto intitula-se “O Canário”e, aparece assinado pelo jovem autor, Ruy de Noronha. Mas é n’ (O) Programa dos Teatros, em 1929, que se inicia como poeta, publicando os seus poemas com o pseudónimo de Cancarrinha de Aguilar, colaborando na secção de verso desta revista. Desta primeira fase são exemplos, os poemas “12 de Abril”[9], comemorando o primeiro aniversário da revista, bem como “Perfil”, I-VIII[10] com que delicia e retrata figuras femininas do meio “chic”, de Lourenço Marques.

Encontram-se em 1930, na referida revista, poemas admiráveis como “Tormenta”[11], “Amor e Ódio”[12], que assinou com o nome completo – António Rui de Noronha. Foi nessa altura, responsável pela secção de versos do “Programa dos Teatros”, mais tarde com a designação de “Miragem”. Interessante é notar, a direcção que imprimiu à dita secção de versos, como se pode constatar nos conselhos que deu ao seu amigo e jornalista Willy Waddington, ao devolver-lhe os versos sem os ter publicado, pois que primeiro devia ler António Feliciano de Castilho, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Antero de Quental e, concluídas as leituras, tendo aprendido a versejar poderia, então, Waddington ensaiar de novo a sua veia poética.

A partir de 1932 inicia-se a segunda fase, que segundo a nossa proposta vai desse ano até 1936, tempo esse que poderíamos chamar , dada a sua importância, de “activista social”, em que desempenha o cargo de 2º. Secretário, portanto membro eleito da Direcção do Grémio Africano, mais tarde Associação Africana, que congrega a elite africana e não só de Lourenço Marques, importante grupo de pressão, em “prol dos direitos dos naturais da Colónia de Moçambique”, como se expressava claramente em sub-título, o seu órgão O Brado Africano.

Foi aí, no Brado Africano, que Rui de Noronha abriu uma secção de crónicas sociais intituladas: “Ao Mata Bicho”[14], onde ensaiava como articulista social, assinando os seus irónicos artigos de crítica social, com o pseudónimo de Xis Kapa. No meio jornalístico ficaram conhecidos os seus amigos – Edmundo Cruz, Odragom e Midam (pseudónimos), assim como ficou célebre a polémica que teve com o advogado Nobre de Melo, de Inhambane, em torno da questão: “A Pátria Portuguesa” e na qual Rui de Noronha ou aliás, Xis Kapa defende que, a Pátria é o lugar onde se nasce. Primeiro indício de moçambicanidade? De proto – nacionalismo? Parece-nos que sim. Todavia, muito há que investigar sobre o pensamento fluído e profundo de Rui de Noronha. Ao analisar a imprensa africana, como propôs Alfredo Margarido e Mário Pinto de Andrade poderemos provar que, Rui de Noronha é mais do que um poeta que canta “amores impossíveis”, como queria reduzi-lo Ilídio Rocha.

Justamente através do estudo da sua prosa, irónica e profunda, podemos descortinar o seu pensamento, como um defensor da “causa africana”, já que se preocupou com o quotidiano dos africanos, lutou com a sua pena pelos seus direitos, pela educação, sobretudo da mulher chamada “indígena”, pela dignidade do trabalho, denunciando a situação do trabalhador mineiro, que vende a força do seu trabalho, nas minas do John (na África do Sul), do carregador explorado no cais, pela justiça em geral e, em particular, a condição dos mulatos, a sua própria condição, como mulato e assimilado. Veja-se o artigo: “Prostituição Indígena”, em que retratou a situação da mulher prostituta em Lourenço Marques nos anos trinta e, como defendeu as medidas tomadas pelo sistema socialista na União Soviética, face a esse grave problema social.

Nessa fase foi funcionário público, Aspirante dos caminhos de ferro de Lourenço Marques. E, em Agosto de 1932 noticiava (O) Brado Africano que, “acaba de assumir o lugar de Secretário da Redacção, o 2º. Secretário do Grémio Africano, o nosso muito ilustre patrício, snr. Rui de Noronha. Novo ainda, mas com qualidades brilhantes para o jornalismo, muito terá o nosso “Brado” a lucrar com a sua proventosa acção…”.

Casou-se nessa época com Albertina Carolina dos Santos, filha de Francisco Eduardo dos Santos, carcereiro do Presídio de Lourenço Marques e de Justina de Aguiar (N’timene), de origem aristocrática, princesa de um dos reinos de Maputo, afilhada de Roque de Aguiar, importante figura da Maçonaria, que lhe deu o apelido. Festejando o décimo sétimo aniversário da fundação do “Brado”, realizou-se uma festa na redacção do jornal. Noticiado o evento, aparece uma referência a Rui de Noronha, como redactor do jornal, semanário ao qual ficará ligado até ao fim da sua curta vida como colaborador.

A sua fase áurea, de 1934 a 1936, testemunharam-na os jornais da época. Correspondeu a um intenso período de vida social – Presidente do Clube Desportivo Vasco da Gama; Director de um Grupo Dramático, onde dirigiu a encenação da peça: “Frei Luís de Sousa”, apresentada a Alves da Costa, grande dramaturgo português, aquando da sua visita a Moçambique; membro do Centro Cultural dos Novos, onde apresentou pela primeira vez os “Sonetos”, submetidos ao fogo da crítica “para serem publicados em livro”; membro do Grémio Africano e do corpo redactorial do “Brado”. Fez pequenas palestras e conferências, nos clubes a que pertenceu, sendo a mais célebre, a que pronunciou sobre o tema: “A Escravatura”, muito elogiada na época.” (fim)

Realmente o Carlos Alberto tem razão: aqui há gato.

Aliás, há vários gatos.

E, para variar, os amigos que terão dito isto parece que não explicaram.

Primeiro, a cena do amor.

Pelo que leio, deduzo que se envolveu, ou tentou envolver, com uma menina de outra raça – vamos presumir que era branca – de Lourenço Marques, e sendo as coisas como parece que eram naqueles tempos, a coisa deu para o torto. Ou ela não lhe correspondeu, ou então (presume-se provável) familiares da menina caíram-lhes em cima e deram o assunto por terminado.

Só que o sítio O Baú da História diz que ele na altura era casado e que teve uma filha (a nossa D. Elsa de Noronha, dizedora de poemas, que vive em Lisboa).

A Elsa, que nasceu em Agosto de 1934, nove anos antes do seu pai falecer “de desgosto” no hospital em Lourenço Marques.

Misteriosamente, a Enciclopédia Britânica refere que “he lived an unhappy bohemian existence”.

Unhappy já sabíamos. Mas – “bohemian”? o que é que isso quer dizer? os ingleses não elaboram.

Num demasiadamente curto texto, o genial António Sopa refere-se a um outro aspecto da sua vida. Ele refere que em 1935 (com 26 anos de idade) Rui teve sérios problemas de saúde, “agravados” no ano seguinte pela sua ida para Nampula, onde residirá até 1939.

Afinal que doença é que ele tinha?

E o que é que fez durante três anos em Nampula (1936-1939)?

Correctamente, Sopa refere o clima de “cerco” do Estado Novo, cujos tentáculos se estendiam inexoravelmente para as então pouquíssimas e mínimas cidades coloniais moçambicanas, e o seu efeito nas minúsculas elites não-brancas. Pois a vida não era fácil naqueles dias, e não era só para eles. Que eu saiba levaram todos, então em Moçambique, que era um viveiro da oposição branca. Havia de tudo: comunistas, anarquistas, socialistas, maçónicos, republicanos de primeira vaga, monárquicos desterrados.

2. o que é que aconteceu em Nampula entre 1936 e 1939

3. as circunstâncias da sua morte.

Que história é essa de um homem com 34 anos, morrer de “desgosto” no dia de Natal em 1943?

Alguém viu os registos do hospital? a certidão de óbito? parece que não.

Resumindo:

No fim do dia, um pouco como aconteceu com Karel Pott, na racialmente estratificada sociedade urbana de Lourenço Marques dos anos 30 e 40, Rui de Noronha teve importância no seu meio tanto pelo que disse, como por quem ele era e o que ele era quando o disse. Não há melhor prova disso do que as palavras do meu saudoso Sr. José Craveirinha, que, socraticamente, pontificou desta forma sobre si próprio, em Janeiro de 1977, durante a primeira maré nacionalista pós-Independência:

“Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Pela parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai fiquei José.

Aonde? Na Av. do Zichacha entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.
Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. A seguir fui nascendo à medida das circunstancias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: o seu irmão. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.

A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra.

Nasci ainda mais uma vez no jornal “O Brado Africano”. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noemia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.

Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por causa da minha mãe só resignação.

Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.

Minha grande aventura: ser pai. Depois eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.

Escrever poemas, o meu refúgio, o meu país também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país, muitas vezes altas horas da noite.”

(fim)

Pois. O nacionalismo estava-lhes na pele.

Uma pele mulata.

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