THE DELAGOA BAY WORLD

07/09/2019

A ENTRADA DO JARDIM VASCO DA GAMA EM LOURENÇO MARQUES, 1935

Imagem retocada.

 

Na pequena praça em frente à entrada principal do Jardim Vasco da Gama, em 1939 seria colocado um monumento a assinalar a passagem pela Cidade do Presidente Óscar Carmona, em 1939. A mesma seria retirada em 1975 e uns anos depois seria ali colocada uma pequena estátua do Presidente Samora machel.  Na esquina do terreno em cima à esquerda, seria colocada em 1972 a Casa de Ferro. Note-se,, ainda no cimo da fotografia, o topo da velha Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que seria demolida em 1944, e onde depois seria construída a sede do Rádio Clube de Moçambique.

30/07/2019

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CASA DE FERRO EM LOURENÇO MARQUES

Este trabalho dedico ao fotógrafo Filipe Branquinho e especialmente à sua Mãe, que recentemente inquiriu, justamente, sobre a Casa de Ferro. Na altura eu pouco mais sabia que ela. Agradeço ainda ao PPT, ao AHM e à Cristina Pereira de Lima, uma filha do Grande Alfredo Pereira de Lima.

A Casa de Ferro, no local onde foi colocada em 1972, tal como se vê hoje.

Então vamos lá.

Introdução

A ideia da construção de edifícios pré-fabricados a partir do fim do Século 18 não surgiu de repente. Resultou de uma combinação de factores: a crescente industrialização, liderada pela Europa e pelos Estados Unidos da América, o surgimento de tecnologias novas, as necessidades surgidas, decorrentes de uma rápida expansão colonial pelos países europeus e nas Américas, e – claro – a guerra.

No caso da casas pré-fabricadas de metal, o aparecimento no Ocidente, das metalúrgicas com enorme capacidade de produção a baixos preços, a invenção em 1829 da chapa de zinco, inventada pelo britânico Henry Robinson Palmer (cuja patente Nº5786, vendeu ao seu carpinteiro Richard Walker, que dela fez várias inovações em termos do seu uso e que expirou em 1843) foram o primeiro passo. O primeiro uso comum de casas pré-fabricadas foi durante a corrida ao ouro na Califórnia em 1849, em que se exportaram para aquela região pequenas casas, armazéns, igrejas, lojas, escritórios, edifícios para a agricultura, etc. A primeira guerra em que foram usadas casas pré-fabricadas em massa foi a Guerra da Crimeia (1853), para as tropas da Grã-Bretanha terem locais secos e seguros para descansarem e guardarem as suas armas e quipamentos. Mas dada a necessidade de poupar ferro, usaram-se muito casas pré-fabricadas em madeira. Mais tarde, a prática – e o conceito – começaram a fazer parte do quotidiano. Na África do Sul, por exemplo, já na década de 1890, era mais comum verem-se casas pré-fabricadas de metal e de madeira que casas de alvernaria construídas de raíz. Aqui, havia uma preferência pelas casas em metal, pela simples razão que estas podiam ser novamente, e facilmente, desmontadas e montadas noutro local. Ainda assim, no exército britânico, permaneceu uma preferência pelo uso de tendas de pano para alojar as tropas, que foram usadas em ambas as guerras para colonizarem os territórios dos boers. Sendo que, no entanto, durante a talvez mais tenebrosa fase da segunda guerra anglo boer (1899-1902), em que os britânicos, abominavelmente recorreram ao uso de um enorme e complexo sistema de “blockhouses” reforçadas, estas foram pré-fabricadas numa combinação de materiais pré-fabricados de madeira e zinco. Cerca de oito mil foram construídas. Ao mesmo tempo, colocaram milhares de mulheres e crianças boer dentro de tendas de pano em campos de concentração em plena planície no interior da actual África do Sul (para chantagear os guerrilheiros boer que continuavam a assediar as suas tropas), tendo milhares morrido pelas tenebrosas condições e que marcou o imaginário do povo boer até estes dias.

Para além de pretender suprir as necessidades dos impérios britânico e americano na segunda metade do Século XIX, foram exportadas casas pré-fabricadas para África, nomeadamente para o Congo Belga, e as colónias francesas.

O caso português foi ligeiramente diferente, pois, com a vaga excepção de São Tomé e Príncipe, na altura em que o cacau local era uma espécie de ouro negro, obtida nas costas dos locais e de gentes importadas do continente africano, e que fez um punhado de milionários portugas, os portugueses fizeram quase rigorosamente nada nas suas colónias, em parte porque praticamente não houve qualquer emigração para as suas colónias, nem havia dinheiro, nem público nem privado. A meu ver, este constitui o grande “excepcionalismo” colonial português: os portugueses (e aqui falo do Estado e do sector privado, não das pessoas) não fizeram nada na África que supostamente era “sua” e o pouco que fizeram, quando fizeram, habitualmente foi tarde, a más horas e nem sequer tentaram envolver as pessoas locais.

Enfim.

A Casa de Ferro dos Primos

Curiosamente, há também uma “casa de ferro” no centro de Luanda, mas esta é absolutamente espectacular e foi espectacularmente restaurada (penso que por aquela empresa brasileira que andou na corrupção e em que todos os seus donos foram dentro lá no Brasil, a mando da Endiama, e custou uns meros 70 milhões de dólares, o que deve querer dizer que ali devem ter sido gastos 10 milhões pelo menos). Mas esta casa, que os Primos chamam Palácio de Ferro, nem sequer foi encomendada. Foi lá parar por puro acaso, um navio qualquer que por lá passou descarregou as peças e aquilo lá ficou, tendo sido comprada por uma companhia colonial que operava em Angola, a CCA. Penso que foi a sua sede durannte uns anos.

 

O Palácio de Ferro em Luanda. Dizem os jornais que foi mandado restaurar pela Endiama para ser um museu do Diamante (ah ah) mas depois de perceberem que não dava, pois devem ter percebido que os diamantes voavam dali para fora em minutos, ofereceram o imóvel ao Ministério Angolano da Cultura, que o vai usar como centro de arte contemporânea. Foto com vénia a Duarte Villas e ao Novojornal em Luanda. Vagamente, faz lembrar a original residência do Governador-Geral de Moçambique em Lourenço Marques, que depois foi apressadamente substituída pelo mastodonte que está hoje na Ponta Vermelha, para receber Oscar Carmona na sua viisita de 1939.

O Caso de Moçambique

No caso de Moçambique, por volta de 1870, as únicas “cidades” com um mínimo que se possa referir – vagamente – como urbanizações organizadas, eram Moçambique (a Ilha) e o Ibo. E ambas, tal como Luanda no outro lado, já eram centenárias e portanto quase medievais. Mas a partir de 1890, quando os britânicos basicamente “caíram” por cima dos portugueses por causa do acesso das suas colónias ao mar, duas novas urbanizações surgiram em Moçambique quase a partir do nada: Lourenço Marques e a Beira.

A pressão foi muito maior no caso de Lourenço Marques, que, de um momento para o outro, se tornou no novo epicentro económico, administrativo, militar e político da colónia. Alvo de todas as cobiças, especialmente de Cecil Rhodes, dos Boers e dos britânicos, os portugueses cedo perceberam que ou controlavam minimamente aquele território, ou o perdiam.

Implausivamente, e apesar do episódico incidente entre o régulo Mataca, que degolou o Tenente Valadim, e um conjunto de revoltas e sublevações, e à custa de alguma medida de ocupação militar, conseguiram um simulacro de ausência de conflito, que foi algo sorrateiramente considerado pelas restantes potências europeias como bastantes e estando em conformidade com os termos acordados em Fevereiro de 1886, na Conferência de Berlim, para a ocupação de África.

Lourenço Marques em Obras

De facto, em Lourenço Marques a tremenda “vassourada urbanística” começara antes, em meados da década de 1870. Para além da Sentença de Mac-Mahon em 24 de Julho de 1875, que, incrivelmente, a Grâ Bretanha, relutantemente, acatou (vingou-se em 1890), houve pouco depois um incêndio na Vila que quase a destruiu (as construções eram quase todas de madeira) e na altura já se percebia que alguma coisa tinha que se fazer ali pois tudo apontava para a necessidade de ali se fazer um porto a sério e uma linha de caminho de ferro para os domínios boer e britânicos a Oeste.

Para sorte dos futuros moçambicanos, em 7 de Março de 1877 desembarcou em Lourenço Marques um homem digamos que providencial: Joaquim José Machado. Um engenheiro que, com uma equipa capaz e com iniciativa, lançou mãos à obra e, nos anos que se seguiram, moldou a urbe que encontraram passando de uma espelunca para uma futura grande capital africana. Em sua honra, eventualmente a actual Praça 25 de Junho se chamaria 7 de Março, em honra destes homens.

Em 1892 Lourenço Marques tinha um problema peculiar. Tendo sido concluído o (mais um…) acordo com os imperialistas britânicos quanto ao formato, mais ou menos final, da futura colónia portuguesa, estando já em curso a construção da linha de caminho de ferro entre Lourenço Marques e Pretória (inaugurada no início de Julho de 1895), prevendo-se a construção do futuro porto, ali ao lado, e ainda o enorme boom no outro lado da fronteira por causa das descobertas de ouro no Witwatersrand e em Barberton (este segundo um falso alarme, digamos), previa-se que a Cidade iria crescer, a sério.

Uma Casa para Sua Excelência

Nessa altura a capital administrativa da nascente colónia ficava a dois mil quilómetros a Norte e era Moçambique (a ilha), que tinha as suas amenidades: um confortável palácio para S.Exa. o Senhor Governador-Geral e a sua excelsa família, escolas, hospitais, lojas, igrejas q.b., serviços administrativos, serviço de telégrafo para Lisboa, embarcadouro, uma brutal fortaleza, edifícios, jardins, praças. Enfim, para o padrão da altura podia-se considerar um sítio “civilizado”.

Na verdadeira espelunca nojenta, insalubre e desoladora que era Lourenço Marques (mas já tinha telégrafo) a única coisa que havia era um hospital militar (que ficava mais ou menos onde hoje estão as escadas da Sé Catedral), ao lado uma igreja meio esquisita ao lado (católica mas com traça anglicana, para variar) e uma modesta, pindérica casa de alvernaria (a primeira da cidade, supostamente) estrategicamente situada no lado oposto da Praça 7 de Março (a actual 25 de Junho), que servia como residência do exmo. Senhor Governador do Distrito. Essa edificação hoje é o Museu da Moeda de Moçambique). Ou seja, a casa ficava no meio do que era então a pequena cidade, ao pé da zona de desembarque original, ao lado do enorme pântano que separava a cidade dos terrenos circundantes (as encostas do Maé e da Maxaquene). Mais grave, a Praça 7 de Março de repente tornara-se o centro social e recreativo da Cidade, apinhada de gente aos fins de semana, banda a tocar, copos de vinho, barulho, confusão a tempo inteiro.

E aqui em 1892 começa a história da Casa de Ferro de Lourenço Marques, mesmo antes de Gungunhana e as suas tribos aliadas tentarem, em Outubro de 1894, fazer uma investida na pequena cidade do Sul da Colónia, motivando a vinda de, entre outros, o Sr. António Ennes e um obscuro major, Mouzinho de Albuquerque.

Casa Precisa-se

Nesse ido ano de 1892, alguém na Ilha de Moçambique, ligado ao gabinete de S.Exa o Senhor Governador-Geral, na altura o insigne Rafael Jácome de Andrade, teve a ideia peregrina de que o Senhor Governador do Distrito de Lourenço Marques, o mais alto dignitário no então Distrito mais a Sul da nascente colónia, precisaria, com urgência, de uma nova casa, noutro sítio talvez menos denso e insalubre e mais digno do estatuto de Sua Excelência.

E quem era o Governador do Distrito de Lourenço Marques entre 1890 e 1892?

Um tal Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque.

Pois, esse mesmo.

E, ainda, esse alguém se lembrou que talvez o melhor e mais expedito fosse encomendar na Europa, uma casa pré-fabricada, e mandar trazê-la para Lourenço Marques.

Segundo uma declaração de Bertrand Lemoine, um arquitecto francês que é considerado um perito na obra de Gustave Eiffel, numa entrevista concedida a Anne-Lise Carlos do jornal parisiense Le Monde (edição de 9 de Agosto de 2019), o presumível responsável pelo desenho e construção da Casa de Ferro é o engenheiro belga Joseph Danly, na sua fábrica Societé Annonyme des Forges d’Aiseau, na Bélgica.

Sucede que o Governador do Distrito de Lourenço Marques(João Canto e Castro, anos mais tarde 5º presidente da I República portuguesa, durante cerca de um ano, após o assassinato de Sidónio Pais) e sucessor de Mouzinho de Albuquerque, disse que não queria viver numa casa de ferro. Portanto o erário pagara uma casa pré-fabricada que não servia e a que urgia dar uso diverso.

A casa pré-fabricada em Lourenço Marques.

 

A Casa de Ferro manteve quase exactamente o aspecto original que tinha em 1892.

 

Esta foi a nova residência para uso pelo Governador do Distrito de Lourenço Marques. Imagem de 1901 (em A Souvenir of Lourenço Marques).

O que se segue é contado por Alfredo Pereira de Lima no seu Edifícios Históricos de Lourenço Marques e ainda, paulatina e muito chatamente, por Eduardo de Noronha no seu vôo rasante sobre o Sul de Moçambique, publicado em 1895, intitulado O Districto de Lourenço Marques e a África do Sul, que ele considerou um “estudo” e que o Exmo. Leitor pode ler a partir da ligação que inseri nas notas em baixo.

Segundo o Alfredo Pereira de Lima, Rafael de Andrade ainda tentou resolver o assunto ali propondo a instalação do tribunal de Lourenço Marques, mas a Câmara opôs-se. Após umas trocas de galhardetes, Eduardo de Noronha conta como foi:

O governador geral, Raphael de Andrade, ofereceu em 16 de março de 1893, ao bispo de Himéria [o célebre António Barroso que viria a dar o nome a um conhecido colégio de Lourenço Marques], a casa de ferro que se tinha mandado vir da Bélgica com destino á residência do governador, e que nunca fora aproveitada, a fim de ali se installar um estabelecimento de beneficiencia.

A portaria nº133 de 21 desse mesmo mez e anno, cria um instituto de ensino para o sexo feminino, regido por irmãs hospitaleiras; denomina-o de Dona Amélia, em homenagem a Sua Majestade a Rainha; entrega-lhe um fundo de 500.000 réis e manda que a Câmara Municipal pague um subsidio de 300.000 réis, determinando que as reparações sejam feitas por conta das Obras Públicas.

O instituto foi inaugurado com toda a pompa [18 de Agosto de 1895, cinco meses antes da Batalha de Marracuene] , assistindo á cerimónia as auctoridades, vereadores, funccionarios de todas as categorias e muito povo.

O Fernando prossegue, um pouco mais lírico, o seu relato:

A creação deste estabelecimento [representa] incontestavelmente um grande progresso; as religiosas que exercem uma das missões mais simpathicas da colónia, tem sabido chamar a si as creancinhas, e no seu affectuoso trato, que não conhece raças nem distingue cores, transformam aquelles entes, votados a uma boçal ignorância, em seres aproveitáveis, que serão um dia mães, e que ensinarão aos filhos o amor por si, amor que lhes foi inoculado pela catechese sensata o meiga das caritativas senhoras.

Dá gosto entrar ali. Na sala ampla, alta, arejada, echôa um chilrear de sons infantis, escalas alegres de gargalhadas crystallinas, que o olhar bondoso da professora não consegue reprimir. Distribuídos pelas carteiras, ou apinhados n’um grupo em volta da pedra, aquellas becas azougadas formam como que um tapete matizado das mais caprichosas cores; ali uma pretinha retinta, aqui uma mulata, acolá uma mestiça, alem uma india, mais perto uma chineza,
longe uma branca, e n’esta gradação de tons, a emoldurar-lhes os rostos buliçosos e joviaes, rtas e crespas carapinhas, cabellos annellados, tranças corredias, cabelleiras naturalmente fri- das. O vestuário typico e bizarro concorre poderosamente para o eflfeito geral; esta ostenta da capulana garrida onde predomina o vermelho, aquella cinge-se num quimão -, aqueiroutra daça o pescoço com grossas fiadas de missanga multicolor ; a maior parte traja á europêa, preferindo sempre os tecidos vistosos; ao fundo, as irmãs, envoltas no austero habito azul, rosário mdente, toalha de neve a circumdar-lhe a face.

Ha ali uma recordação vaga da familia, uma saudade intensa das caricias que nos fizeram a pequenos, um respeito que nos empolga, uma veneração que nos subjuga. A espada pesa mais que de costume, o tilintar do ferro desagrada, o fardamento incommoda, os conhecimentos militares fogem, varre-se da alma a profissão ; ha uma vontade quasi irresistível de começar a beijar toda aquella creançada, tão diversa na sua origem ; experimenta-se a cominoçUo indefinida de uma cousa que se sente e se não explica, e sem querermos, saímos d’ali com a convicção que aquellas duas mulheres, sós, expatriadas, abandonando as suas mais caras affeições, tendo por norma o progresso, por bordilo a crença, por alvo a civilisação, valem mais do que todo um exército.

Santa paciência com esta escrita do Século XIX.

Mesmo antes de ser despachada para as irmãs caritativas, ainda se tentou antes a ideia de ali se fazer um tribunal. Só que na altura tinha-se aparafusado a casa num sítio que na altura ficava não só situado nos confins da Cidade, como num sítio particularmente poeirento e arenoso e com um acesso digamos que questionável. Ir lá a pé ou de carroça era uma verdadeiro suplício. Todos protestaram ruidosamente, incluindo os senhores do tribunal, que achavam ser uma vergonha ter o tribunal da Cidade num edifício daqueles. Por isso, ficou o tal de Instituto Dona Amélia, que todos, como o nosso Fernando em cima, elogiaram carpidamente, safando o Governo da Colónia de mais uma barraca.

Entra Escola, sai Escola, entram Serviços Geográficos e Cadastrais

E assim seria até à I República em 1910, quando, no espasmo de raiva anticlerical e rigor republicano que caracterizaria o novo regime português, as freiras foram corridas dali e o nome da rainha Amélia apeado. O ensino era tirado à Igreja e revertia para o controlo do Estado – uma das suas mais estridentes bandeiras. Fez-se então ali uma escola pública, entregando-se a sua utilização à mais republicana e maçónica Sociedade de Instrução e Beneficiência 1º de Janeiro, que ali operou, por uns tempos a Escola João de Deus (em homenagem ao então defunto e lendário criador da Cartilha Maternal).

Entre 1912 e 1918, ali funcionou, provisoriamente, o primeiro Liceu da Cidade (e penso que de Moçambique) a que deram o nome da data do golpe de Estado republicano: 5 de Outubro.

Com o crescimento da população, foram-se fazendo edifícios para escolas e eventualmente ali instalaram no edifício a Agrimensura, mais tarde designada Direcção dos Serviços Geográficos e Cadastrais de Moçambique, .

Durante as décadas que se seguiram, a Casa de Ferro fez, feia e com aquele aspecto esquisito de pré-fabricado aparafusado,  o seu serviço, discreta senão completamente esquecida, enfiada dentro de um obscuro quarteirão algures na Encosta entre a Baixa e o Alto-Maé. No início dos anos 60, só mesmo quem trabalhava ou ia fisicamente à Direcção Provincial dos Serviços Geográficos e Cadastrais, é que tinha uma mínima noção de que havia ali um edifício esquisito e meio decrépito, feito de ferro. Ninguém sabia o que era e de onde via. Era mais uma velharia de Lourenço Marques.

Jorge, um topógrafo geómetra, actualmente reformado, trabalhando na Casa de Ferro, então situada no jardim exterior da Direcção dos Serviços Geográficos e Cadastrais de Moçambique, em Lourenço Marques, com os seus colegas Silva Carvalho e Pimentel, anos 60. Imagem copiada e retocada, com vénia, do seu blogue Azimute.

A Casa de Ferro era mais ou menos desconhecida em parte porque ficava num sítio perfeitamente escondido da Cidade, quase apenas conhecido dos empregados e frequentadores da velha Agrimensura. Poucos sequer sabiam da sua existência, mais um dos seus muitos exotismos arquitectónicos – e que eram mais do que muitos, desde palacetes exóticos a deslumbrantes e humildes casas de zinco e madeira com rendilhados e cores exuberantes, a simples mas encantadoras palhotas de caniço.

A intervenção de Alfredo Pereira de Lima e da Comissão dos Monumentos Históricos de Lourenço Marques

Tudo o que hoje sabemos e vemos na Casa de Ferro se deve, na minha opinião, a uma pessoa: Alfredo Pereira de Lima. Que, por isso, merece aqui o destaque que lhe dou.

Mais do que a Comissão dos Monumentos Naturais e Relíquias da Cidade, a que pertenceu, foi Pereira de Lima que não só reabilitou o assunto da Casa de Ferro, documentando o seu percurso e o seu lugarzinho na história da Cidade, como ainda foi ele que, ao longo de mais uma década, escrevendo cartas e artigos no Notícias de Lourenço Marques, se bateu pela reabilitação e valorização da Casa de Ferro, e, não menos importante, a sua relocalização para um lugar de destaque na Cidade, e o seu aproveitamento histórico e turístico.

O que sucedeu foi que, penso que em meados dos anos 60 os Serviços Geográficos e Cadastrais fizeram novas instalações. Nesse processo, desmontou-se a então já algo decrépita Casa de Ferro, cujas partes, algumas meio enferrujadas, foram colocadas num canto dum terreno camarário. Provavelmente não fosse Pereira de Lima, então historiador dos Caminhos de Ferro de Moçambique (e o autor do mais incontornável, autoritativo e absolutamente magnífico trabalho sobre a história dos CFM, que se confunde com a própria construção do País) estas linhas nunca seriam escritas.

Como referi, parte do problema original é que quase ninguém em Lourenço Marques sequer conhecia o edifício. A razão é a sua localização original:

Mapa de LM de 1903, a que dei uma martelada para ilustrar porque é que quase ninguém sabia da Casa de Ferro no final da década de 1960.  A – localização da Casa de Ferro até ao início da década de 1960, antes de ser desmontada, enfiada no meio de um quarteirão no meio de nenhures; B – localização onde foi colocada para alojar o Museu dos Serviços Geográficos e Cadastrais de Moçambique em 1972, em plena Avenida Dom Luiz, tornando-se numa referência turística. Outras curiosidades: 1 – a original Igreja de NS da Conceição; 2 – Residência do Cônsul da Grâ-Bretanha; 3 – Hotel Clube; 4 – Casa do Pott, junto ao Jardim Botânico de LM, a Verde; 5 – Bazar de Lm na Praça Vasco da Gama; 6 -Avenida Buildings; 7- Prisão, depois Imprensa Nacional; 8 -Paiol; 9- Câmara Municipal; 10 – Mesquita Velha; 11 – primeira casa de alvernaria de LM e residência do Governador do Distrito (agora “Casa Amarela”); 12 – Praça Azeredo, futura Praça Mac-Mahon e agora Praça dos Trabalhadores; 13 – Casa dos Azulejos; 14 – Praça 7 de Março, actual Praça 25 de Junho; e 15 – Presídio de Lourenço Marques, junto do qual existiu o Capitania Building e a que agora chamam (à obra de Pancho Guedes) “fortaleza”.

Penso que o toque de génio, foi a combinação do levantamento histórico, do restauro, da relocalização e o uso como museu, estiveram na base do sucesso e valorização patrimonial da Casa de Ferro.

A entrada do Jardim vasco da Gama, final da década de 1950. À esquerda, o terreno onde se ergueria, no início da década de 1970, a Casa de Ferro. Nesta altura era basicamente um quintal murado de uma casa.

Vendida a ideia e assegurados os fundos para o projecto, as componentes da Casa de Ferro foram cuidadosamente restauradas, arranjou-se um terreno bem localizado numa ponta do quarteirão onde está situado o Hotel Club, bem mais no centro da Cidade e muitíssimo mais visível. Os Serviços Geográficos e Cadastrais organizaram um museu (supostamente em homenagem a Gago Coutinho, entre outras coisas um excelente topógrafo que ajudou a delimitar as fronteiras do que hoje é Moçambique).

A Casa de Ferro a ser novamente montada após o restauro das peças, no terreno junto à entrada do Jardim Vasco da Gama, 1971.

 

Aspecto do interior do edifício a ser reconstruído. Note-se que todas as peças estavam numeradas.

O rés-do-chão acabado. Ao fundo o Prédio do Montepio (ou da TAP).

A Casa concluída e pronta a inaugurar, 1972.

Dia da inauguração do novo Museu da Cidade, penso que Outubro de 1972. O Governador-Geral, Eng. Pimentel dos Santos, chega ao local e é cumprimentado por pessoas que não identifiquei.

O Governador-Geral de Moçambique visita o nnovo Museu da Cidade.

O Governador-Geral sai do edifício após a inauguração.

Interior do Museu, 1972.

Outra imagem do interior.

Interior.

Interior, 1972.

Interior, 1972.

Notas Finais

Após a independência a Frelimo, ao que parece, desmantelou o museu. O edifício em seguida teve usos diversos e penso que agora é usado por um organismo do Estado moçambicano.

No entanto, a sua valorização enquanto monumento manteve-se e hoje é um local de visita quase obrigatório para a única indústria que tem alguma chance de ajudar os moçambicanos: o turismo.

Se a Casa de Ferro ainda existe, muito se deve a um conjunto de interessados com visão, de que se realça a intervenção de Alfredo Pereira de Lima (que também desempenhou um papel importante na preservação das chamadas Fortaleza e Casa Amarela). O passado da grande capital de Moçambique, que é colonial na sua parte edificada, merece respeito, merece ser estudado e preservado. Pois é parte integrante da história do país e quem não sabe de onde veio, dificilmente sabe para onde vai.

Existem alguns líricos que, por razões que não entendo, inventaram a história de que o engenheiro e empresário francês Gustave Eiffel (ver a biografia dele na ligação em baixo) teve alguma coisa a ver com a Casa de Ferro. Ao que apurei, isso é completamente falso. Como é totalmente falso que Eiffel terá tido seja o que for a ver com a cúpula da Estação dos Caminhos de Ferro de Lourenço Marques. O que se sabe é que o edifício foi mandado vir da Bélgica onde de facto havia na altura fábricas que as faziam, mas de momento nem se sabe em qual foi fabricado. Se o exmo Leitor quiser ver obras de Eiffel viaje até Portugal, onde há várias obras da sua autoria, de que destaco, claro, a Ponte Dona Maria Pia na Cidade do Porto, que não só é da sua autoria como foi uma obra crucial para a sua carreira.

Interior da entrada da Casa de Ferro, recentemente. O mobiliário é, no mínimo, questionável.

 

FONTES E DADOS ADICIONAIS

http://housesofmaputo.blogspot.com/2016/01/casa-de-ferro-institutos-d-amelia-e.html

https://core.ac.uk/download/pdf/146463385.pdf

https://pt.wikipedia.org/wiki/Gustave_Eiffel

https://archive.org/stream/odistrictodelou00norogoog/odistrictodelou00norogoog_djvu.txt

https://kanimambo-carlos.blogspot.com/2014/01/africa-mocambique-13.html

https://sgcmocambique.blogspot.com/

Alfredo Pereira de Lima, Edifícios Históricos de Lourenço Marques.

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