THE DELAGOA BAY WORLD

19/07/2020

A CARROÇA DOS CÃES EM LOURENÇO MARQUES, MARÇO DE 1975

Imagem retocada e pintada por mim, da autoria de Jean Guyaux, um repórter fotográfico belga, que faleceu em 2015.

Nos meus tempos de criança, crescendo na Polana, em Lourenço Marques, um dos aspectos que considerava mais temíveis e sinistros na vida da Cidade era a carroça dos cães da Câmara Municipal, que ocasionalmente fazia a ronda das ruas, à procura de cães perdidos ou abandonados.

A carroça dos cães da Cãmara Municipal. Munidos de redes, dois funcionários apanham um cão, mesmo à entrada do acesso Sul do Palácio da Ponta Vermelha em Lourenço Marques, Março de 1975. À entrada do Palácio, vêem-se três militares portugueses.

O que constava entre os míudos era que a carroça levava os cães e em seguida os matava, pelo que a nossa reacção era de horror e de tentar “salvar” os animais dos funcionários, que vinham munidos das redes que se vêem na imagem.

Na rua onde cresci, a Rua dos Aviadores, havia uma lendária cadela, a Violeta, que nominalmente pertencia ao Núcleo de Arte e que habitualmente residia na rua, mais ou menos em frente à instituição. Era uma cadela absolutamente pacífica e que passava a maior parte do tempo a dormir no passeios em redor do Núcleo. Todos os anos, quase pontualmente, a Violeta engravidava depois de uma mais ou menos embaraçosa cena de sexo com um cão qualquer com cio e logo a seguir produzia uma prole de descendentes, que se procurava em seguida distribuir por quem quisesse um cãozinho.

Quando, de vez em quando, aparecia a Carroça da Câmara lá na rua, soava o toque de alarme e logo alguém ia esconder a Violeta, ou, se fosse apanhada, havia uma espécie de insurreição geral para que os funcionários a libertassem, pois apesar de estar na rua, a cadela era não era considerada por nós nem abandonada nem “de rua”. E lá foi ficando a Violeta, pachorrenta, ano após ano.

Quando o fotógrafo Jean Guyaux captou esta fotografia,, em Março de 1975, já Portugal havia entregue a soberania em tudo menos formalmente à Frente de Libertação de Moçambique e já decorria, desde Setembro de 1974, a saída precipitada dos brancos que viviam na Cidade, muitos portugueses, que regressavam à sua terra, especialmente após os distúrbios de 7 de Setembro e 21 de Outubro de 1974, quando a maioria se convenceu que o país afinal iria ter um futuro atribulado e pouco promissor, especialmente para um branco. Para além de que muitos recusavam a perspectiva de passar de uma ditadura fascista racista de partido único para uma ditadura comunista racista de partido único, que foi mais ou menos o que viria a acontecer (e muito mais). Assim, a legenda que propôs para esta imagem foi que a Câmara andava a apanhar nas ruas os cães abandonados pelos portugueses que regressavam a Portugal.

A legenda da imagem recolhida: “em Lourenço Marques, capturando cães vadios nas ruas, abandonados pelos portugueses, já partidos para a Europa”.

Não sei até que ponto este abandono canino foi assim tão pronunciado e duvido que Jean soubesse que aquele cão apanhado naquele dia à porta do Palácio da Ponta Vermelha era um cão abandonado por um proverbial colono que regressara a Portugal. Pode ser que sim. Mas acredito que foi apenas uma forma de procurar contar uma pequena história construída dentro da grande história que era o fim escatológico e tardio da soberania portuguesa do território. Pois a Cidade quase sempre tivera este serviço e estimo que ainda tenha.

Quando os meus pais finalmente e penosa e relutantemente decidiram sair de Moçambique, após o enésimo discurso ameaçador proferido por Samora no Rádio Clube de Moçambique e pelo que me pareceu ter sido uma revolta militar envolvendo elementos da Frelimo ainda hoje muito pouco falada e ainda menos documentada, ocorrida na Cidade logo no início de 1976, o nosso cão com dez anos, um belo pastor alemão, considerado parte da família, foi enviado para Lisboa num vôo da TAP. Mas nunca chegaria lá. Presumimos que, numa paragem técnica do vôo em Kinshasa, ele foi roubado. A TAP, num estado de caos mal controlado e a braços com a saída maciça de gente a partir de Lourenço Marques e Luanda, nunca explicou o que aconteceu. Disseram apenas que não sabiam o que acontecera e ofereceram-se para devolver o dinheiro.

O que nunca fizeram.

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