THE DELAGOA BAY WORLD

02/09/2012

O MONUMENTO E SEPULTURA DE LOUIS TRICHARDT E SUA MULHER NA BAIXA DE LOURENÇO MARQUES, ANOS 1960

A entrada do monumento e sepultura de Louis Trichardt e da sua mulher na baixa de Lourenço Marques, anos 1960. Trichardt faleceu no então presídio português em meados de 1838, depois da migração dos seus, para o norte do Cabo, para escapar ao domínio britânico da então colónia do Cabo, conhecida como o Great Trek.

 

O interior do monumento. Louis Trichardt e a sua expedição (1836-1838) constituem um momento seminal na história da África do Sul, especialmente do povo Boer, com um impacto enorme em tudo o que se seguiu na África Austral. A descoberta da sepultura do casal Trichardt deve-se em grande parte a Alfredo Pereira de Lima, um historiador já celebrado aqui no Delagoa Bay World.

19/03/2012

A BANDEIRA PORTUGUESA HASTEADA NO PRESÍDIO DE LOURENÇO MARQUES PELA PRIMEIRA VEZ HÁ 230 ANOS

A Fortaleza de Lourenço Marques em 1894. Cem anos antes, era uma paliçada de madeira miserável. Aqui foi hasteada pela primeira vez a bandeira de Portugal em 19 de Março de 1782 - há precisamente 230 anos.

Muito grato à Cristina Pereira de Lima pelo contributo dos textos de seu pai, Alfredo Pereira de Lima, em baixo. Eu compus o resto e contribui com as imagens. E pus algumas vírgulas.

LOURENÇO MARQUES NASCEU COMO PRESÍDIO

Foi o piloto português Lourenço Marques quem primeiro explorou a vasta baía por conta da Coroa em 1540, razão porque D. João III deu o seu nome à baia.

Aqui se estabeleceu uma feitoria que era visitada anualmente por embarcações do capitão de Moçambique, vindos carregados de fazendas para serem empregadas no comercio de marfim e de ouro. Muitas das naus que se dirigiam a Sofala e Índia ou regressavam ao Reino, naufragavam na costa do Natal e do Cabo, vindo as suas tripulações com inúmeros perigos e trabalhos até Lourenço Marques, encontrando muito deles a morte quando para não esperarem as naus de Moçambique se dirigiam a pé para Sofala. Isto aconteceu ao malogrado D. Manuel de Souza Sepúlveda em 1552 que com sua mulher Dona Leonor e filhos se dirigia para lá a pé, após o trágico naufrágio de que foram vitimas, sendo mortos na região da Manhiça em revoltantes circunstâncias.

A memória desta tragédia foi cantada por Camões nos Lusíadas.

Ao período áureo das Descobertas sucedeu porém a época do abandono. O desastre de Alcácer-Quibir [Agosto de 1578] deixou a pátria em confusão com a perda do seu Rei. Veio a dominação espanhola que roubou-nos a acção própria. Também as seduções do Brasil fizeram com que Portugal esquecesse África!

Os holandeses, ingleses, austríacos e corsários franceses foram então os nossos piores inimigos neste vasto litoral.

A OCUPAÇÃO HOLANDESA

Em 1720 os holandeses tentaram fixar-se, mas em Dezembro de 1730 abandonaram definitivamente o Forte de Lagoa, que foi a primeira fortificação que existiu em Lourenço Marques.

A baía ficou então completamente abandonada durante 20 anos.

A OCUPAÇÃO INGLESA

Em 1763 foi uma fragata portuguesa reconhecer de novo a baía. O tenente coronel António José de Melo, em vez de expulsar do porto os dois navios ingleses que lá encontrou, travou grande intimidade com os seus capitães e deixou-os lá ficar.

Em 1764 veio da Baía de Todos os Santos o negociante Domingos Rosa expressamente para estabelecer o comércio de Lourenço Marques, mas desistiu em 1768 por causa dos ingleses que lá se tinham estabelecido e até tinham içado uma bandeira numa paliçada.

De 1768 a 1779 a baía foi completamente votada ao abandono por causa do governo central, então dirigido pelo Marquês de Pombal.

A OCUPAÇÃO AUSTRÍACA

William Bolts, como comandante da primeira expedição austríaca ao Oriente, parte em 1776 para ocupar a Baía de Lourenço Marques, estabelece tratados com os régulos do Tembe e da Matola, que mais tarde seriam contestados por Portugal, e constrói uma fortificação o Forte de São José,em 1778, no lugar do Forte de Lagoa (ocupação holandesa), que mais não era do que “um campo entrincheirado”.

Em 1781, uma expedição comandada pelo tenente coronel Joaquim Vicente Godinho de Mira foi enviada a Lourenço Marques para o restabelecimento da soberania portuguesa na baía.

A expedição a Lourenço Marques saiu de Goa a 20 de Janeiro de 1781, a bordo da fragata de guerra Santa Ana e São Joaquim, comandada pelo capitão-de-mar-e-guerra Nicolau Delgado Figueira da Cunha de Eça. A tropa de desembarque, sob o comando do tenente-coronel Joaquim Vicente Godinho de Mira, compunha-se de uma companhia de infantaria, outra da legião dos voluntários reais e um destacamento de artilharia: quarenta canhões (da fragata, fora as peças de campanha) e quinhentos homens, segundo os Austríacos. O capitão-general de Moçambique deveria reforçar a expedição com uma companhia de infantaria e fornecer à fragata práticos da navegação da baía.

A Santa Ana entrou em Moçambique a 20 de Fevereiro de 1781. Não encontrou no capitão-general mais que «suma frouxidão», como relata Godinho de Mira, que se queixa de que o governador “devendo dar-lhe providências lhe representou dúvidas e alegou faltas»: não poderia fornecer-lhe mais de quarenta soldados; embarcação não havia, pois a única do Estado, uma corveta, achava-se então em Quelimane aonde fora buscar mantimentos; práticos também não havia…

Cópia do desenho mais antigo que se conhece de Lourenço Marques. Para quem vive ou conhece Maputo, a referência é a Fortaleza. A actual "fortaleza", que nada tem que ver com as originais e que foi edificada em meados do Séc. XX como um núcleo museológico, está implantada no preciso local das anteriores.

A expedição esteve, assim, em riscos de «se desvanecer». Alguns dos oficiais, contudo, perseveraram em entusiasmo e confiança. O capitão de infantaria Luís Lopes Quaresma garantiu a Godinho de Mira que haviam de ir à Baía de Lourenço Marques, fosse pelo canal, fosse por fora dele; e os capitães-tenentes Gama Almeida e Garcez Palha prontificaram-se a levar a fragata ao porto, com as sondas na mão. Godinho de Mira declara que a estes três oficiais, principalmente, se deveu o êxito da viagem de Moçambique a Lourenço Marques. Por fim, desprezando o pouco auxílio que o capitão-general anuia a dar-lhe, a expedição largou da Ilha. Recebeu, em Inhambane, dois pilotos. E em 30 de Março de 1781 entrou na Baía, indo ancorar entre a Príncipe Fernando, a pala austríaca ao serviço do estabelecimento, e a bateria montada em terra.

Foi uma acção sem brilho! Os Austríacos, dizimados pela recente refrega com os Negros, não fizeram um gesto de resistência . A guarnição de presa instalou-se na Príncipe Fernando. Godinho de Mira desembarcou com parte da tropa, entrou sem impedimento na feitoria e arriou a bandeira imperial.

A INAUGURAÇÃO DO PRESÍDIO DE LOURENÇO MARQUES EM 1782

No dia 19 de Março  do ano de 1782, dia de São José [uma Terça-Feira], Joaquim de Araújo inaugurou o presídio de Lourenço Marques, arvorando a bandeira das Armas Reais num reduto cercado de estacas e caniço, dentro do qual ficavam as palhotas e barracas de capim do destacamento.

Esta era a bandeira de Portugal em 1782.

Joaquim de Araújo e a sua expedição tinha sido recebido dias antes pelo rei Matola e as suas gentes.

Dias depois, a 12 de Maio de 1782, houve um incêndio e o presídio ardeu todo. Os brancos de Lourenço Marques ficaram sem nada e foram socorridos pelos pretos, levantaram-se de novo as palhotas e as barracas, e os portugueses ficaram no mesmo presidio onde já holandeses, franceses, ingleses e austríacos tinham tentado estabelecer-se; morreram governadores, oficiais, soldados… mas eles foram sobrevivendo, tentando construir a fortificação que só foi concluída seis anos depois.

CORSÁRIOS FRANCESES

Em 1796 os piratas franceses saquearam e arrasaram a nossa povoação , e de novo foi recomeçada.

Restauração da soberania e início da cidade

Ao alferes Luís José e ao seu pequeno destacamento foi dado o honroso cargo de reocupar militarmente Lourenço Marques. Esta expedição, composta por 17 pessoas, incluía um porta bandeira, um tambor, seis soldados de infantaria,cinco soldados de artilharia e quatro negros cativos que eram oficiais mecânicos. A este punhado de homens foi incumbida a missão de restaurar a soberania portuguesa que tinha sido totalmente aniquilada pelos corsários franceses.

O alferes Luís José foi aprestado na ilha de Moçambique e embarcado com destino a Lourenço Marques na pala “Minerva”, do armador baniane Lacamichande Motichande, tendo a expedição chegado a Lourenço Marques em 7 de Junho de 1799.

E foi assim que a cidade começou com dezassete pessoas apenas, de que era governador o alferes Luís José, que em 1788, aos vinte anos de idade, viera de Lisboa, degredado para toda a vida.

E a 25 de Agosto de 1799, num cercado de caniço à volta de seis palhotas, hasteou-se pela segunda vez em Lourenço Marques a Bandeira Branca de Portugal, com a modesta solenidade de um tiro de peça.

Foram esses portugueses que levantaram Lourenço Marques numa estreita língua de areia com 1200 metros de comprimento e uns escassos 500 metros de largura máxima, quase afogada por pântanos pestilentos.

Esses primeiros habitantes de Lourenço Marques restaurada na sua plena soberania portuguesa, procuraram desde logo enraizar-se no meio onde passariam a viver, estabelecendo com os nativos uma aproximação humana benéfica, despida de preconceitos, deixando-se influenciar até pelos meios de vida, seus hábitos alimentares e mesmo de construção de suas habitações primitivas, num admirável exemplo e interpretação de costumes, que aliás, para o português não era novidade, habituado como estava por cerca de quatro séculos a lidar com os trópicos.

O presídio foi melhorado até 1815 e a sua guarnição foi reforçada em 1818, depois do incidente nas águas da baía com a galera inglesa Perseverance, comandada pelo capitão Ramsden, que travou duelos de artilharia com as peças do presídio de Lourenço Marques, tendo sido repelida.

Em 1822 Lourenço Marques foi visitada por Willliam Fritz Owen da Armada real Inglesa. A sua presença em Lourenço Marques foi de nefastas consequências para nós. Owen vinha encarregado do levantamento cartográfico da costa sudeste de África para benefício da navegação e da ciência. Nessa expedição, que foi cuidadosamente arquitectada pela chancelaria britânica, Owen. abusando da nossa hospitalidade e da nossa fraqueza, forjou tratados com os régulos de Maputo e de Tembe pelos quais estes cediam os seus domínios e a ainda a Ilha da Inhaca e dos Elefantes ao rei Jorge IV da Inglaterra,. Foi isto que originou os incidentes que se alastraram por mais de meio século entre Portugal e a Inglaterra e que terminou com a sentença proferida pelo Marechal Mac Mahon.

Durante o Séc. XIX os britânicos quase tudo fizeram para ter a soberania sobre Lourenço Marques e o Sul de Moçambique. Nunca o conseguiriam, apesar de na prática serem eles que mandavam. Mais ou menos.

Entretanto em Lisboa, por alvará e 19 de Junho de 1825, foi criada a Companhia Comercial de Lourenço Marques e Inhambane, a qual tinha por especial obrigação fazer povoar a capitania, “conduzindo do reino para aqui determinado numero de casais”.

Esses primeiros colonos enviados pela Companhia só chegaram em 1826 e… “tratavam-se de 2 feitores, 5 caixeiros, 3 casais de homens oficiais e 4 degredados..”

(in Introdução á Historia de Moçambique por Alfredo Pereira de Lima; Subsídios para uma Historia Municipal de Lourenço Marques por Alfredo Pereira de Lima; Pedras Que Já Não Falam por Alfredo Pereira de Lima; Edifícios Históricos de Lourenço Marques por Alfredo Pereira de Lima; 1781 – Reconquista

25/08/2011

SOBRE O NOME DO LICEU DONA ANA DA COSTA PORTUGAL EM LOURENÇO MARQUES

Texto de Alfredo Pereira de Lima, pela mão da sua filha Cristina, reproduzido com vénia, a esclarecer o relativo mistério do nome do então sector feminino do conhecido complexo liceal na Polana, que incluia o sector masculino, o Liceu Salazar. Muita gente não sabe quem foi a senhora. Aqui revela-se quem foi. Hoje o complexo é o Liceu Josina Machel em Maputo. Josina foi casada com Samora Machel, primeiro presidente após a Independência e morreu nos anos 60 durante a guerra.

Os liceus Salazar e Dona Ana da Costa Portugal em Lourenço Marques, anos 60.

 

“O final do Séc XVIII,convulsionado pela Revolução Francesa – o maior acontecimento da História Moderna que com ela finda – também foi muito agitado para Lourenço Marques com reflexo do que se processava na Europa.
Vendo-nos abandonados pela Espanha – com a maior ingratidão – e pela Inglaterra – que nos utilizara apenas em beneficio exclusivo dos seus interesses – os corsários franceses sentiram-se com ânimo, seguros de impunidade, para incomodar o que nos restava do comércio com o Ultramar.

Foi assim que na manhã trágica de 26 de Outubro de 1796, corsários franceses que infestavam o canal de Moçambique, embarcados em três navios bem artilhados, forçaram sem dificuldades a barra da Inhaca e investiram contra o frágil presídio que encontraram na margem esquerdo do rio do Espírito Santo como afirmação de presença de Portugal neste canto de Àfrica, desde os tempos de Joaquim de Araújo.

O frágil reduto, cuja defesa encontrava-se a cargo do governador João da Costa Soares – que aliás não estava á altura da situação- foi atacado, saqueado e destruído. Como era de madeira ardeu em poucas horas. A sua diminuta guarnição abandonara-o á sua sorte, refugiando-se no “mato”, ainda tentando alguns alcançar, por terra, a vila de Inhambane.
Desapareceu dêste modo inglóriamente em escassas horas o que levara tanto tempo a erguer à custa de penosos sacrifícios iniciados por Joaquim de Araújo, seu primeiro governador, que dando cumprimento ás ordenações de El-Rei D. José lançara os fundamentos do presidio, em 1782, e pelo qual não fora menor o sacrifício de vidas do governador Costa Portugal, de sua mulher, D. Ana, e de um filho de tenra idade, vítimas da insalubridade do clima. “
( “Pedras Que Já Não Falam” por Alfredo Pereira de Lima)

“ Morte de D. Ana da Costa Portugal”

Escassos são os documentos que temos, pelos quais nos seja dado reconstituir em pormenor os momentos dolorosos da morte do seu quarto governador, Joaquim da Costa Portugal, de sua mulher D. Ana e de um filho. No relato que nos deixou dos “Negócios da Capitania de Mossambique nos fins de Novembro do Anno de 1789” encontra-se feita por Nogueira de Andrade apenas esta citação:

“…Seguiu-se-lhe, Joaquim José da Costa Portugal, com a mesma ou mayor infelicidade, pois aly perdeo sua mulher, e hum filho, e elle morreu, deixando seus outros filhos e filhas em lastimoso desamparo. “

Que drama pungente se não teria passado naquele triste presídio, vendo o Governador Costa Portugal morrer, sem lhes poder valer, sua mulher e um filho ?! E quão grande não seria, depois sua amargura enquanto a Morte o não viesse libertar do seu sofrimento ?!”

( in “Edifícios Históricos de Lourenço Marques” por Alfredo Pereira de Lima )

Create a free website or blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: