THE DELAGOA BAY WORLD

04/02/2012

O DR. EDUARDO CHIVAMBO MONDLANE, EM FOTOGRAFIAS

Há um certo hábito, que pessoalmente considero algo mórbido, de celebrar a vida das pessoas, assinalando não o dia em que nasceram, mas o dia em que morreram.

Em Portugal, já no século XX, em plena ditadura salazarista, e a partir dum mais ou menos obscuro feriado republicano celebrado em Lisboa após o derrube da monarquia, inventou-se um feriado nacional digamos que “isento de pecado” para o qual, provavelmente por uma questão de economia, se arrolaram mais temas, se achou dever passar a ser o “Dia de Portugal”.

Temática que, consoante de onde os ventos sopravam, e sendo sempre o Dia de Camões, era, por acrescento, o Dia da Raça, o Dia das Forças Armadas (durante a Guerra Colonial), e, mais recentemente, o Dia das Comunidades Portuguesas (aka os emigrantes).

Para que conste, o dia 10 de Junho do Ano de Deus de 1580, foi, segundo os registos, o dia, numa terça-feira, em que o poeta português do séc. XVI, Luis de Camões, que compôs, entre outros, a épica Os Lusíadas, em que hiperventila majestosamente em poema, os portugueses daquela altura, morreu na cidade de Lisboa. Tinha 56 anos de idade. Na realidade, não se sabe em que data ele nasceu.

Mas no caso de Moçambique, e do Dr. Eduardo Mondlane, sabe-se perfeitamente que ele nasceu na localidade de Manjacaze (Gaza) num domingo, dia 20 de Junho de 1920. Seria simpático, a meu ver, celebrar essa data, se se quiser celebrar a sua vida, e não o dia em que uma carta-bomba entregue não se sabe bem como e não se sabe bem por quem, em casa de Betty King na capital da Tanzania, Dar-es-Salaam, ceifou a vida do então Presidente da Frente de Libertação de Moçambique.

Como exemplo do que falo, temos o caso do Dr. Martin Luther King, Jr., americano, que faleceu (também assassinado) no dia 4 de Abril de 1968, mas cujo feriado nacional, improvavelmente instituído pela administração de Ronald Reagan nos anos 80 do Século XX, foi fixado para o dia em que ele nasceu – 15 de Janeiro (ele nasceu em 1929).

Mas quem sou eu para discutir feriados, aliás um tema muito na moda em Portugal estes dias, em que os hiperdinâmicos rapazes de Pedro Passos Coelho estão num verdadeiro frenesim para arranjar formas de extrair mais trabalho e impostos da populaça, incluindo -claro- a eliminação de nada menos que quatro feriados nacionais, pontes, férias e coisas afim.

Em Moçambique, o dia 3 de Fevereiro, que este ano decorreu ontem, é o Dia dos Heróis de Moçambique. O critério de base para se ser herói em Moçambique até esta data (e que ser feito por decreto governamental) tem necessariamente que incluir ter-se andado aos tiros na guerra pela Independência – excepto o caso do Sr. José Craveirinha, que usava a caneta.

Efeméride que, afinal, se calhar era mais adequadamente celebrada no dia 25 de Junho, a data em 1975 acordada (ver item 2 do Acordo) entre a Frelimo e os representantes do então governo provisório de Portugal em Lusaka (por proposta da Frente, claro) para a formalização da independência do então território português.

Ainda que, na realidade, e nos termos dos pontos 3 e 7 do mesmo Acordo, que foi anunciado na noite do dia 7 de Setembro de 1974, a Frelimo efectivamente passou a governar Moçambique no dia 21 de Setembro – apenas 14 dias após a assinatura do Acordo em Lusaka – com uma equipa cujo elenco incluia individualidades conhecidas como Armando Emílio Guebuza, o Dr. Mário Fernandes da Graça Machungo e Joaquim Chissano – o primeiro e o terceiro por inerência futuros “heróis”.

3 de Fevereiro é o dia em que o Dr. Eduardo Mondlane foi assassinado.

Mas aqui em baixo, assinalando a data, e questões “feriadais” aparte, venho recordar a vida de Eduardo Mondlane, com umas fotos que algo laboriosamente restaurei.

 

O Dr. Mondlane nos tempos de estudante no Oberlin College, nos Estados Unidos da América.

Foto tirada em Dar es Salaam, 1965. Da esquerda, o Dr. Pascoal Mocumbi, Dr. Mondlane, a Sra. Cora Wiess, uma legendária activista de esquerda norte-americana, e o não menos carismático Amílcar Cabral. Não sei quem é o senhor à frente. (Foto da colecção particular da Sra. Weiss)

A 14 de Fevereiro de 1965, o Dr. Mondlane recebe, na sede fa Frelimo em Dar, o conhecido líder cubano (bem, argentino) Ernesto Che Guevara. A coisa correu mal, eles não se deram bem e a visita de Guevara a África não deu em nada. Mondlane não era comunista nem anti-americano, nem era a Frelimo naquela altura. Mas ficou esta fotografia.

O Rev. Uria Simango, então creio que nº2 da Frelimo (e pai de David Simango, actual líder municipal da Beira) com o Dr. Mondlane.

Eduardo Mondlane.

O funeral do Dr. Mondlane em Dar, após o assassinato, Fevereiro de 1969. Na imagem podem-se ver Julius Nyerere, então líder da Tanzânia, creio que quem está a falar é o Rev. Uria Simango, ao fundo em primeiro plano a família Mondlane, as duas filhas, Janet e Eduardo Jr.

Já depois da reviravolta em que Uria Simango foi excluído e Samora Machel assumiu a liderança da Frente, uma visita à campa do Dr. Mondlane. Aqui, Rui Nogar coloca umas flores na campa, enquanto (da esquerda) Matias Mboa, Josefarte Machel, Jorge Rebelo e Samora observam. Após a Independência, os restos mortais do Dr. Mondlane foram trasladados para Maputo.

Janet Mondlane, numa fotografia recente. Janet é oriunda dos Estados Unidos, onde conheceu e se casou com Eduardo Mondlane.

Eduardo Mondlane, Jr., o único filho do Dr. Mondlane, numa fotografia recente. Empresário, nunca se envolveu na política em Moçambique.

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8 comentários »

  1. “DR” Mondlane, Tomané?
    Segundo sei o Mondlane tinha um BA (talvez até BA Hon ou um MA) em Sociologia de Syracuse. By no means a PhD.
    Tb nunca notei que, quando em vida, ele alguma vez se intitulou (ou deixou-se intitular!) de DR.
    Já agora, Mario Machungo, doutorado em quê?
    O “Mwalimo” Nyerere (algures numa foto) tinha um Masters (MA) – e, não era o Che médico?

    Comentar por Hilton de la Hunt (Artur Pardal) — 04/02/2012 @ 09:10

    • Here is a DR for you:
      qte:
      ” …… King then began doctoral studies in systematic theology at Boston University and received his Doctor of Philosophy on June 5, 1955, with a dissertation on “A Comparison of the Conceptions of God in the Thinking of Paul Tillich and Henry Nelson Wieman”.
      (http://en.wikipedia.org/wiki/Martin_Luther_King,_Jr.)

      Comentar por Hilton de la Hunt (Artur Pardal) — 04/02/2012 @ 09:14

    • HH, em 1989 concluí um mestrado na Universidade de Boston, instituição onde o Dr. MLK é uma celebridade. Conheço relativamente bem o percurso dele e de uma parte do movimento de defesa dos direitos cívicos dos americanos de raça negra. Fui colega de quarto do filho do Reverendo Ralph Abernathy, um dos companheiros de os combates de MLK, e ainda convivi com a viúva do grande Ralph Bunche e outros. África ensinou-me a prestar atenção e interessar-me por estes assuntos. Nesse sentido, sinto que tive algum privilégio nos contactos que tive e no que vi e ouvi. ABM

      Comentar por ABM — 04/02/2012 @ 16:37

    • Olá HH,

      Ah ah – muito bem apanhado. Eu aqui sigo sorridentemente as sempre luxuriantes idiosincracias socio-académicas das culturas lusófonas, em que de facto até o cão de um engenheiro é engenheiro. Em Portugal, Moçambique, Angola e Brasil (o resto não sei mas aposto que deve ser parecido) uma (mera) licenciatura dá acesso ao tratamento de “dr”, “engenheiro”, “arquitecto”.

      No entanto, tal não deve ser subestimado no caso do Dr. Eduardo Mondlane, “least of all” porque, ao ser um moçambicano e negro nos anos 1950 com uma licenciatura, um mestrado e um doutoramento, foi dos primeiros senão o primeiro com tais qualificações, o que quase por si só lhe facultou o acesso à liderança da recém-formada Frente de Libertação de Moçambique.

      Isto simplesmente porque não havia nada nem ninguém na altura de Moçambique que se parecesse remotamente com ele – nem de longe. Na sua pobreza modesta, Portugal, que tutelava Moçambique, não facultou meios de obtenção de uma educação superior, nem as seus colonos brancos, e muito menos as seus colonos pretos. Só com as vicissitudes da guerra, a enorme pressão para desenvolver e a iniciativa louvável do Eng. Veiga Simão, passou Lourenço Marques a ter uma universidade, e aí apenas nos anos 1960 (foi esta a génese da actual Universidade Eduardo Mondlane em Maputo).

      Uma breve tentativa de resenha do seu percurso (que copiei de http://www.answers.com/topic/eduardo-mondlane)e que muita boa gente desconhece:

      The son of a Tsonga chief and the only member of his large family to receive even a primary education, he later attributed his educational drive to the vision of a “very determined and persistent” mother. The colonial school system was almost exclusively for Europeans, but Mondlane gained entry into a Swiss mission school and went from it to an American Methodist agricultural school. He then served for 2 years instructing African peasants in techniques of dry farming. Next Mondlane obtained a scholarship and admission to a Presbyterian secondary school in the Transvaal, South Africa, and in 1948 he was admitted to Witwatersrand University of Johannesburg, the first African from Mozambique to enter a South African university. In 1949 the South African government declared him an unwanted “foreign native” in a white university and revoked his student permit. Returned to Lourenço Marques in Mozambique, Mondlane was arrested and interrogated about his role in the formation of a local African student association. In June 1950 Mondlane entered the University of Lisbon as the only African student from Mozambique pursuing a higher education in Portugal. After a year during which he complained of harassment by the political police, his Phelps Stokes scholarship was transferred to the United States, where he entered Oberlin College in Ohio at the age of 31. After earning a bachelor’s degree from Oberlin in 1953, he undertook graduate work at Northwestern University in Illinois and received a doctorate in 1960. By this time Mondlane had become Mozambique’s best-known, best-educated, and most watched African. The uniqueness of his position can be appreciated when one notes that perhaps 10 out of nearly 6 million Africans in Mozambique were attending secondary schools in 1955, while slightly over 200 were enrolled in technical schools or seminaries. In 1957, after a year as a visiting scholar at Harvard, where he worked on role conflict (the subject of his dissertation), Mondlane joined the trusteeship section of the United Nations Secretariat in New York as a research officer. In this capacity he went to West Africa in 1960 as part of a UN team preparing and supervising a plebiscite in the British Cameroons. From the Cameroons, following an absence of 11 years and accompanied by his American wife and family, he revisited Mozambique in early 1961. After renewing and expanding a wide assortment of personal contacts on his tour of Mozambique, he returned to the United States, resigned his post at the UN, and accepted a teaching position within the East African program at Syracuse University. At the same time he began lecturing and writing on Portuguese colonialism and politicoeconomic conditions in Mozambique.” (fim)

      Os dados que analisei indicam que ele concluiu uma licenciatura em sociologia no Oberlin College em 1963, um mestrado na Northwestern University em 1956, e um doutoramento em sociologia e antropologia na Northwestern University em 1960. Na altura em que ele decidiu juntar-se à Frelimo, ele era professor no Departamento de Antropologia da Universidade de Syracuse, no Estado de Nova Iorque, de onde se demitiu e em seguida se radicou em Dar es Salaam.

      Religioso, culto, conservador, pró-ocidental e americanófilo, certamente que, por alturas de 1969, o seu perfil destoava completamente do que se estava a passar na Frelimo e ainda mais no mundo em seu redor, em que a confrontação entre o Ocidente e o Bloco de Leste se espalhava para o Terceiro Mundo. Contexto em que todo o treino, indoctrinação e armamento da Frelimo vinha dos países comunistas (com uns pós dos países escandinavos, resultado dos esforços principalmente de Janet Mondlane). Entre meados dos anos 60 e dos anos 60, Julius Nyerere e a Tanzania, onde se baseava a Frelimo e vários outros movimentos guerrilheiros, radicalizaram-se para a esquerda. Os Estados Unidos, apesar de um seu aliado natural, na prática estavam virtualmente paralizados pela bipolarização anti-comunista, por António Oliveira Salazar e por algo nos Açores chamado “Base americana das Lajes”. A sua morte em 1969 e o afastamento de Uria Simango assinalaram uma depuração e uma clara viragem do movimento para uma postura de esquerda radicalizada.

      Ernesto Guevara cursou medicina, mas sabe-se que a medicina que praticou foi outra. Ele sempre gostou que lhe chamassem “Che”.

      Pascoal Mocumbi é médico. Fez os estudos secundários no Liceu Salazar em Lourenço Marques, de onde seguiu para a faculdade de medicina em Lisboa. Interrompeu os estudos, que mais tarde continuou na Universidade de Poitiers, interrompeu novamente e mais tarde concluiu o curso de medicina na Universidade suíça de Lausanne, em 1973. Foi primeiro-ministro de Moçambique entre 1994 e 2004. Antes disso exerceu medicina.

      Mário Machungo, que é de Maxixe, licenciou-se em Economia no ISCEF em Lisboa em 1969. Foi primeiro ministro e ministro do Plano de Moçambique entre 1986 e 1994. Foi várias vezes ministro antes disso, desde 1974, quando foi ministro da Coordenação Económica do Governo de Transição, assim como Governador da Zambézia entre 1983 e 1986.

      Julius Nyerere estudou na Universidade escocesa de Edimburgo e exerceu o cargo de professor antes de exercer cargos de governação.

      Em resumo, HH, Eduardo Mondlane é mesmo “Doutor Eduardo Mondlane”.

      ABM

      Comentar por ABM — 04/02/2012 @ 17:59

    • thanks …..francamente não sabia do doutoramento na Northwestern ….. one never stops learning 😉

      Comentar por Hilton de la Hunt (Artur Pardal) — 05/02/2012 @ 10:23

  2. Tiria sido muito interessante saber o que teria sido Moçambique com o Mondlane. Tinha uma estrutura intelectual e universal diferente da do Samora. De qualquer modo não entro em lirismos. Vários dirigentes africanos prometiam muito e tornaram-se numa desilusão.

    Comentar por Paulo Azevedo — 04/02/2012 @ 11:57

  3. O dia da morte é o do nascimento para a eternidade. Quando se nasce, caminha-se para a morte. Quando se morre só se pode caminhar para a eternidade ou para o esquecimento. Por isso celebra-se essa eternidade.

    Comentar por Xico — 05/02/2012 @ 14:54

  4. […] Funeral de Eduardo Mondlane, em Dar Es Salaam, Fev. 1969. Vê-se Julius Nyerere, Presidente da Tanzânia, Janet Mondlane, viúva de Mondlane e os três filhos do casal. Fonte: The Delagoa Bay […]

    Pingback por Mondlane, um herói improvável – Escreve Eliana, Escreve — 03/02/2017 @ 20:45


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